segunda-feira, março 25, 2024

Aceno do governo Lula a estados endividados cria insatisfação com Norte e Nordeste

 


Por Idiana Tomazelli e Adriana Fernandes | Folhapress

Tarcísio de Freitas e Lula
Foto: PR

A decisão do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de renegociar a dívida dos estados abriu uma nova frente de insatisfação entre governadores do Norte e Nordeste, que estão menos endividados e reivindicam medidas alternativas para contemplar as regiões.
 

Apenas quatro estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul) concentram, sozinhos, 87% da dívida consolidada líquida de todos os entes da Federação, estimada em R$ 826,4 bilhões no fim de 2023.
 

Por definição, eles tendem a ser os mais beneficiados pela repactuação —que pode envolver uma redução nos juros da dívida e, eventualmente, revisão do estoque acumulado até hoje.
 

No Nordeste, os principais contemplados devem ser Bahia, Pernambuco e Alagoas. Ainda assim, a magnitude é bem menor: juntos, esses estados têm uma dívida consolidada líquida de R$ 43 bilhões.
 

Hoje, os débitos são corrigidos por IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) mais uma taxa real de 4% ao ano. Os estados do Sul e do Sudeste querem mudar para uma correção fixa de 3% ao ano. Eles também querem a revisão do estoque e calculam um alívio de 15% no valor devido.
 

O governo federal ficou de apresentar uma proposta em reunião com os governadores na terça-feira (26). O indicativo da União deve ser o de alterar a correção da dívida para IPCA mais 3%, o que está aquém das expectativas dos estados mais interessados e deve manter o impasse em aberto.
 

Além disso, representantes dos estados menos agraciados pela negociação passaram a criticar nos bastidores o fato de a União, mais uma vez, acenar com uma flexibilização para os endividados, muitos dos quais descumpriram regras, concederam reajustes sem as devidas compensações ou recorreram à Justiça para não pagar as prestações da dívida em dia.
 

A possibilidade de São Paulo ser beneficiado com o alívio também tem causado ciumeira nos estados mais pobres, principalmente do Nordeste, porque o governo paulista tem se vangloriado de que está com as finanças saudáveis.
 

Politicamente, o tema é sensível porque o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas (Republicanos), é aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e adversário de Lula.
 

Ainda assim, os representantes da região não querem prejudicar aqueles estados do Nordeste que serão beneficiados. Por isso, o foco é reivindicar outras medidas adicionais para "premiar" bons pagadores, como mais acesso a crédito para investimentos, taxas de juros menores e prioridade na indicação de projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
 

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) esteve na semana passada em reunião com o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, para discutir o tema.
 

"Não cabe à Federação ficar eternamente pagando a conta de péssimas gestões. Isso vai ter que ser equacionado, nós somos um único país, mas é preciso ter uma distribuição mais racional e um estímulo para aqueles que fazem o dever de casa", disse à reportagem.
 

Vieira reconheceu que os estados endividados precisam de ajuda para "se mostrarem viáveis", mas defendeu levar em consideração o comportamento de cada um diante dos vários acordos já firmados.
 

"Existe uma prática reiterada de descumprimento das condições, apostando numa nova possibilidade de refinanciamento futuro. Tem que começar a fazer uma separação, punindo ou restringindo a atuação dos gestores. Até para garantir que daqui a alguns anos a gente não estará discutindo um novo socorro", afirmou.
 

O descumprimento reiterado de regras também incomoda técnicos do Executivo. Membros do Tesouro Nacional dispararam para outros interlocutores do governo uma espécie de resumo do quadro fiscal do Rio de Janeiro, que está no RRF (Regime de Recuperação Fiscal) desde 2017.
 

O diagnóstico do Tesouro é que, nos últimos dois anos, o Rio dedicou mais espaço fiscal à expansão de gastos com pessoal do que ao pagamento de sua dívida.
 

Enquanto o aumento da folha foi de R$ 17,5 bilhões entre 2021 e 2023, incluindo Legislativo e Judiciário, o estado pagou só R$ 5,6 bilhões de sua dívida, segundo dados oficiais.
 

Técnicos lembram ainda que, em 2021, o governo fluminense embolsou R$ 18,2 bilhões com o leilão de concessão da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos), cujas ações eram dadas como contragarantia em um empréstimo que a União quitou no lugar do estado, e recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal) para não precisar reembolsar o governo federal. O pagamento de R$ 4,3 bilhões foi diluído em 30 anos.
 

Minas Gerais, por sua vez, conseguiu aderir ao RRF graças a uma liminar do STF, mas não conseguiu ir adiante em praticamente nenhuma das medidas de ajuste, como venda de ativos ou revisão de benefícios ao funcionalismo. O estado também ampliou sua fatura de gastos com pessoal.
 

Técnicos de estados que reivindicam a renegociação ponderam que não é viável manter salários congelados por muito tempo e que, com o tempo, há uma espécie de "fadiga fiscal". Nesse cenário, há necessidade de dar algum fôlego.
 

A questão é que alguns têm exagerado na dose e usado um "balão de oxigênio inteiro" ao decidir os reajustes salariais, reconhecem alguns técnicos.
 

Outro argumento usado pelos estados endividados é que o governo federal já concede juros subsidiados para o agronegócio, no Plano Safra, e a parte da indústria, via projetos de inovação. Por isso, na visão deles, faria sentido subsidiar as políticas públicas tocadas pelos governos estaduais.
 

Autor e relator de leis de renegociação aprovadas nos últimos anos pelo Congresso, o deputado Paulo Paulo (PSD-RJ) defende a criação de um Desenrola para os estados superendividados saírem da espiral de programas que não deram certo.
 

"Após três décadas na UTI, Rio, Minas Gerais e Rio Grande do Sul viraram simplesmente gestores de folha de pagamento e não conseguiram sair [dos programas] e resolver o problema", criticou. Para ele, é equivocada a estratégia dos governadores de trazer os demais estados para a renegociação das dívidas.
 

O deputado apresentou um projeto de renegociação que prevê um corte inicial de 15% no estoque e descontos adicionais para os superendividados em três magnitudes —5%, 10% e 15%—, que aumentam à medida que melhoram os indicadores de segurança pública, saúde e educação.
 

"São Paulo tem uma dívida gigante, mas tem economia e consegue pagar essa dívida. Não é uma questão de vida e morte para ele", disse.
 

O secretário de São Paulo, Samuel Kinoshita, disse à reportagem que a renegociação dos cerca de R$ 279 bilhões devidos à União permitirá uma redução "de bilhões" no custo anual dos encargos (hoje em R$ 19 bilhões). O estado quer utilizar o alívio nas parcelas para aumentar os investimentos.
 

A proposta de renegociação que está em discussão foi puxada pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), que, mesmo tendo feito um ajuste amplo que incluiu privatizações, continua tendo dificuldades.
 

Para ele, a dívida dos estados superendividados é impagável e compromete investimentos, a competitividade das empresas e o PIB (Produto Interno Bruto) do país.
 

O movimento para uma nova renegociação ganhou fôlego no final do ano passado, quando o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), entrou em campo para buscar um acordo para a dívida do seu estado.
 

Nas vésperas de votações de projetos importantes para o ministro Fernando Haddad (Fazenda) ampliar a arrecadação federal, Pacheco apresentou a Lula uma proposta de renegociação que incluía a federalização de empresas estaduais e um "Refis dos estados".
 

No dia seguinte, a CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado destravou a pauta e aprovou projeto para taxar os fundos dos super-ricos e os mantidos no exterior por meio de offshores.
 

Com pretensão política de ser governador de Minas e de olho no apoio do governo Lula, Pacheco facilitou a votação dos projetos de interesse do governo.

Saiba quem é quem nas articulações e na efetivação do golpe de 1964

 


Por Matheus Tupina | Folhapress

Saiba quem é quem nas articulações e na efetivação do golpe de 1964
Posse de Castelo Branco. Foto: Arquivo Nacional

O golpe de 1964, que depôs João Goulart (PTB) e deu início à ditadura brasileira, envolveu importantes personagens do centro dos poderes político e militar do país, que articularam e efetivaram as ações até a posse do general Castelo Branco na chefia do Executivo.
 

Além das lideranças militares, houve participação dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado à época e do embaixador dos Estados Unidos no Brasil.
 

Alguns dos protagonistas são Ranieri Mazzilli, que assumiu a Presidência após a queda de Jango; Auro de Moura Andrade, que declarou vaga a chefia do Executivo; e Carlos Lacerda, então governador da Guanabara.
 

Conheça os principais nomes entre os golpistas e de membros do governo deposto:
 

*
 

GOLPISTAS E ALIADOS
 

General Castelo Branco
 

O primeiro general-presidente, nomeado chefe do Estado-Maior do Exército por Jango, foi um dos principais articuladores do golpe de 1964, elaborando as estruturas do que seria o governo militar após a deposição do governo civil.
 

Nos momentos que antecederam a queda de Jango, foi levado a uma série de esconderijos no Rio de Janeiro, para depois, em 15 de abril, tomar posse como novo mandatário após eleição indireta. Governou até 1967, quando foi substituído por Costa e Silva, da linha dura das Forças Armadas.
 


 

General Costa e Silva
 

Também foi um dos articuladores no centro da conspiração que depôs Goulart da Presidência da República. Esteve presente nas movimentações em uma série de esconderijos no Rio de Janeiro nos dias que antecedem o golpe.
 

Após a queda de Jango, o general passou a ser ministro do Exército durante o período transitório de Mazzilli e no governo Castelo Branco. Em 1967, tornou-se o segundo general-presidente do período militar, conhecido por outorgar o AI-5 (Ato Institucional de número 5), institucionalizando a repressão.
 


 

General Mourão Filho
 

Olympio Mourão Filho -autor do Plano Cohen, de 1937, que culminou com a instauração do Estado Novo por Vargas- foi o responsável por iniciar uma insurreição militar a partir de Juiz de Fora que levou à ebulição da tensão política brasileira.
 

Chamada de Operação Popeye, em referência ao cachimbo que usava, a rebelião militar deixou a cidade mineira rumo ao Rio de Janeiro, onde Goulart estava. Apesar de não fazer parte dos planos de outros fardados, a operação deu início às movimentações mais avançadas para a tomada do poder.
 

Também levou a uma série de ultimatos de generais de vários locais do país a Jango. Na negativa do então mandatário, o movimento golpista se fortaleceu.
 


 

General Amaury Kruel
 

Kruel, então comandante do segundo Exército (equivalente hoje ao Comando Militar do Sudeste, em São Paulo), era um dos militares que não acreditavam em um exercício da caserna no poder político, mas foi um importante peso na balança entre Goulart e os fardados.
 

Não acreditava ser necessário um golpe e pediu, nos dias anteriores à deposição de Jango, a extinção da CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), organização sindical considerada radical, e a demissão de ministros como o chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, e o da Justiça, Abelardo Jurema.
 

Jango negou a demissão dos titulares, e Kruel, então, aderiu aos golpistas, fortalecendo o movimento e facilitando a derrubada do presidente.
 


 

Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional
 

Andrade era presidente do Senado e do Congresso Nacional durante os governos de Jânio Quadros e João Goulart. Recebeu a renúncia do primeiro, em 1961. Diante da crise entre Jango e os militares, encampou a mudança do sistema de governo para o parlamentarismo, limitando a atuação do presidente da República.
 

Foi opositor de Jango e, em 1964, participou da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, pedindo a deposição do então mandatário, uma forma de mostrar apoio aos articuladores do golpe.
 

Foi Andrade que declarou a Presidência da República vaga em 2 de abril por suposta saída não autorizada de Jango do território nacional —o chefe do Executivo ainda estava no Brasil no momento de sua remoção do cargo, o que tornava a declaração ilegal.
 


 

Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados
 

Mazzilli foi presidente em exercício por duas vezes, uma após a renúncia de Jânio Quadros, e outra após a deposição de Jango. Em ambas, teve pouca influência decisória, e especialmente na segunda, teve suas atribuições exercidas por uma junta militar, autodenominada "Comando Supremo da Revolução".
 

Sua presença no Palácio do Planalto após o golpe facilitou a fundamentação política para o exercício do poder pelos militares, já que aceitou o Ato Institucional 1, convocando eleições indiretas para presidente, e cassando parlamentares próximos a Jango.
 


 

Ribeiro Costa, presidente do STF
 

O então presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) teve um comportamento ambíguo em relação ao golpe de 1964 e à ditadura militar. Defendeu a cassação de Jango, dizendo em nota que "o desafio feito à democracia foi respondido vigorosamente" por meio das Forças Armadas.
 

Por outro lado, diante de relatos de prisões arbitrárias, tortura e cassações, passou a esboçar reações contra o regime. Colocou em votação habeas corpus de políticos alinhados a Goulart ou de esquerda, como Miguel Arraes, ex-governador pernambucano, desafiando os militares.
 

Em meio à deterioração da relação entre a caserna e o Supremo, o regime militar ampliou em 1965 o número de ministros da corte de 11 para 16, aumentando a possibilidade de deferimento de ações de interesse do governo.
 


 

Carlos Lacerda, governador da Guanabara
 

O político da UDN (União Democrática Nacional) era um dos principais adversários políticos de Jango, e participou das articulações conspiratórias pelo golpe de 1964. Ele sabia com antecedência, por exemplo, da deflagração de movimento militar prevista para abril.
 

Em 1º de abril, Lacerda comemorou a consumação do golpe e a remoção de Jango do poder. Chorando, agradeceu pelo golpe em entrevista à TV Rio. Apesar disso, voltou-se contra o regime militar quando o mandato de Castelo Branco foi prorrogado, em 1966, e acabou sendo preso e perdendo seus direitos políticos em 1968.
 


 

Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais
 

Um dos fundadores da UDN em 1945, foi também um dos chefes de Executivo estaduais que conspirou ativamente pelo golpe.
 

Apesar de ter tentado ganhar eleitoralmente com a queda de Jango —ele queria se candidato a presidente em 1965—, acabou sendo frustrado com o prolongamento da estadia de Castelo Branco no Palácio da Alvorada e com o Ato Institucional 2, que cassou políticos e extinguiu partidos.
 

Manteve-se, entretanto, na política, assumindo o Ministério das Relações Exteriores de Costa e Silva e apoiando a decretação do AI-5.
 

 

Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil
 

Gordon, embaixador no país desde 1961, mantinha o então presidente americano, Lyndon Johnson, informado sobre a tensão política no Brasil durante o mandato de Goulart. O governo de Johnson chegou a se preparar para uma intervenção militar no Brasil, que nunca ocorreu.
 

Dias antes do golpe de 1964, o diplomata enviou à Casa Branca telegrama pedindo adoção de medidas para fornecer armas aos militares contrários a Jango caso a tentativa de tomar o poder não terminasse em sucesso. Dali sairia a Operação Brother Sam, que não precisou ser realizada.
 


 

GOVERNO E ALIADOS
 

João Goulart, presidente da República
 

O mandatário, antes ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, assumiu em 1961 após renúncia de Jânio Quadros. Em prenúncio à crise que enfrentaria, teve dificuldade para tomar posse, já que estava na China quando seu antecessor deixou o cargo, e os militares ameaçaram prendê-lo caso voltasse ao Brasil.
 

Enfrentou ampla oposição de parlamentares e da caserna. Perdeu parte dos poderes para um sistema parlamentarista, extinto em 1963, e tentou, sem sucesso, resolver a crise inflacionária com planos rejeitados, incluindo as reformas de base, marca de seu mandato.
 

Em meio a erros de Jango em contornar a crise com os militares e o agravamento da tensão política, foi derrubado do cargo no golpe de 1964, que inaugurou a ditadura militar brasileira.
 


 

Leonel Brizola, deputado federal pelo Rio Grande do Sul
 

Como governador do Rio Grande do Sul entre 1959 e 1963, Brizola ajudou Goulart a tomar posse após a renúncia de Jânio Quadros e defendeu o então mandatário até a consumação do golpe militar. Tentou organizar uma resistência ao golpe, sem sucesso.
 

Chegou a pedir, em discurso na Câmara Municipal de Porto Alegre, que os suboficiais do Exército passassem a "ocupar quartéis e prender generais", o que irritou profundamente os comandantes militares do novo regime. Em maio de 1964, então, fugiu para o Uruguai.

Amigo de Lessa que soube antes do plano de matar Marielle foi morto

Amigo de Lessa que soube antes do plano de matar Marielle foi morto

Por Redação

Amigo de Lessa que soube antes do plano de matar Marielle foi morto
Foto: Reprodução

A delação premiada de Ronnie Lessa jogou luz sobre mais uma morte de alguém ligado ao caso Marielle. Nos depoimentos à PF, quando foi perguntado a Lessa como ele planejou a morte de Marielle, o delator mencionou que estava “bebendo uísque” com o advogado criminalista André Luiz Fernandes Maia enquanto fazia a pesquisa. As informações são da coluna de Guilherme Amado do portal Metrópoles, parceiro do Bahia Notícias.


A PF não cita nos autos, mas Maia, que era conhecido como “Doutor Piroca”, foi morto um mês depois do assassinato da vereadora. O advogado foi morto no Anil, bairro na Zona Oeste do Rio de Janeiro entre Gardênia Azul e Rio das Pedras, territórios dominados pela milícia e curral eleitoral da família Brazão.


As investigações do Ministério Público na época apontaram que Maia foi morto por milicianos. O órgão ofereceu denúncia contra José Maria Alves de Carvalho, que está preso. A motivação da morte teria sido uma dívida.

Quem é o maior terrorista, no final das contas?

 

Segunda-feira, 25 de março de 2024
Quem é o maior terrorista, no final das contas?

Oferecemos um olhar sem precedentes sobre os fatos de 7 de outubro e o genocídio em Gaza.

Como pode a mídia corporativa brasileira ser tão ruim em contar os fatos sobre Israel e a Palestina? Israel está matando crianças com bombas e fome enquanto os editoriais d’O Globo continuam a afirmar aos seus leitores que "Israel exerce desde [7 de outubro] seu legítimo direito de defesa, que não pode e não deve ser questionado".


Eles generosamente atribuem aos líderes de Israel instintos nobres e humanitários, ignorando todas as evidências, como suas próprias declarações públicas sanguinárias e genocidas. É uma negligência descarada e um exemplo perfeito de por que a confiança na mídia está no ralo.


Mas o que mais se pode esperar de empresas de mídia que têm sido parceiras essenciais no genocídio patrocinado pelo próprio Estado brasileiro contra os negros e os pobres, realizado nos becos das favelas em todo o país. Mais pessoas foram assassinadas na “Guerra às drogas” no Brasil desde 11 de setembro de 2001 do que morreram na desastrosa "Guerra global ao terror" liderada pelos EUA — mais de 1 milhão. Uma porção obscena foi morta pela própria polícia, executando leis e políticas fracassadas-por-desenho, com apoio público construído pela grande mídia.

Os genocídios modernos dependem da conivência da mídia.


É por isso que fizemos uma parceria com o núcleo investigativo da Al Jazeera para disponibilizar em português um novo documentário sobre o que realmente aconteceu em Israel e na Palestina desde 7 de outubro com clareza e detalhes inigualáveis. O filme já está disponível em nosso site.


Acreditamos que você merece saber a verdade sem considerar a quem ela beneficia. Também queremos te lembrar de que o jornalismo de alta qualidade ainda existe e literalmente pode salvar vidas, mas precisamos lutar por ele.


Você deve se perguntar: se não nos levantarmos e lutarmos pela verdade e pela justiça, quem o fará? Foi por isso que criamos o Intercept Brasil. E é por isso que optamos por depender de doações de leitores para apoiar nosso jornalismo investigativo, em vez de publicidade corporativa.

Andrew Fishman
Presidente e cofundador

A senhora já entrou com o defunto – por Kakay

 

Tribuna da Imprensa Livre

A senhora já entrou com o defunto – por Kakay
Articulista afirma que vai ser interessante ver o que bolsonaristas vão criar para justificar as prisões de aliados envolvidos em crimes; na imagem, bolsonaristas durante manifestação na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Embora no campo das bizarrices, reconheço, que os bolsonaristas sejam imbatíveis, escreve Kakay. (Foto: Poder360)
DESTAQUES

A senhora já entrou com o defunto – por Kakay




Por Kakay –

“Fechei-me num quarto,
inventei outro Deus,
outro céu, outra terra
e outros homens.”
–Clarice Lispector.

É correto ressaltar que o mundo, na verdade, sempre teve suas bizarrices. Também é fato que elas, antigamente, pareciam mais leves e quase ingênuas. E passavam, em regra, quase despercebidas. Hoje, com a mídia 24 horas, o que acontece em uma pequena ilha perdida no oceano pode virar notícia.

Lembro-me de quando morava no interior de Minas Gerais, sem televisão, sem internet e sem WhatsApp, as coisas bizarras eram, geralmente, inofensivas. Na minha Patos de Minas, fazia muito frio e uma das excentricidades era frequentar velórios para passar o tempo, ter companheiros para uma pinga com biscoito cascudo e se esconder do frio. Os velórios eram realizados nas próprias residências e o caixão ocupava, solene, a sala principal.

Certa noite, um tio notívago e insone saiu à procura de um funeral como companhia. Viu um movimento na madrugada e entrou numa casa pequena. Percebeu, na hora, que era uma fria: pouca gente, sem bebida, sem comida e um silêncio sepulcral. Com a entrada dele, de família conhecida na cidade, houve um certo alvoroço e manifestações de alegria. Tornou-se impossível sair sem, pelo menos, algum tempo de solidariedade cristã.

Passados 30 minutos, ele resolveu mudar o clima. Falou alto que iria a um bar na esquina comprar uma pinga e um biscoito. Todos se manifestaram e começaram a dar algum dinheiro para a compra. A viúva, que ele não conhecia, emocionou-se com o gesto e sacou da bolsa uma nota. Ele respondeu, de forma cavalheira:

“A senhora não precisa dar dinheiro, já entrou com o defunto”.

Depois de escrever, na semana passada, o artigo “Mundo Bizarro, mas fica a dica” neste Poder360, lembrando de casos teratológicos, pensei que tinha esgotado o estoque de estranhezas. Falei sobre o ridículo da família real inglesa ao mobilizar a imprensa mundial por causa de uma estranha foto que teria sido modificada pela princesa Kate Middleton e que teria “abalado a imprensa mundial e inglesa”, segundo o sisudo Estadão.

Quedei-me perplexo com o idiota branco que agrediu uma criança negra de 4 anos porque ela havia abraçado seu filho no corredor da escola. E mostrei meu susto com o tal BBB, programa o qual pessoas se dispõem a ficarem enjaulados numa casa sem receber nenhuma notícia do mundo cá fora. Remeto-me ao hai-kai Infinito, de João Guimarães Rosa:

“Ó múmia longa, ante os teus séculos, eu durmo ainda…”

Mas, agora, deparo-me com uma notícia inacreditável. Uma senhora, dessas com uma boca enorme, resolveu tirar duas costelas para diminuir a cintura.

É isso mesmo. Andressa Urach tinha 72 centímetros de cintura e era infeliz. Com a cirurgia, ela espera diminuir de 6 a 18 centímetros. Para ajudar a empreitada, fez uma lipoaspiração para afinar ainda mais. Aproveitou e colocou 1.000 litros de silicone em cada mama para dar a impressão de que a cintura é ainda mais fina, proporcionalmente. Porém, o mais bizarro: ela postou no Instagram os ossos que foram extirpados da costela.

No artigo anterior, escrevi sobre a minha experiência como advogado criminal e analisei a angústia que deveria estar acompanhando Bolsonaro e seu bando neste momento pré-condenação e prisão. De lá pra cá, a situação do ex-presidente parece que piorou sensivelmente. Foi indiciado no inquérito de fraude no cartão de vacina, o que parece ser o 1º de uma série de indiciamentos.

Mas o pior é que, como que em um gesto de desespero, ele resolveu fazer sua defesa, no caso gravíssimo da investigação da tentativa de golpe de Estado, com manifestações políticas, fugindo da defesa técnica. Tal estratégia pode levar, sem dúvida, à caracterização de uma forma de obstrução de justiça que justifica uma indesejada custódia preventiva.

Tenho defendido, até por coerência constitucional, que a prisão do ex-presidente só deve ocorrer depois do trânsito em julgado de eventual condenação. Mas esse enfrentamento público, político, deliberado e provocativo à Suprema Corte pode ensejar a necessidade de uma prisão.

Por isso, prego a urgência na elaboração, pela competente Polícia Federal, do relatório referente ao grupo mais próximo do ex-presidente na responsabilização pela tentativa de subverter a ordem constitucional. A investigação, obviamente, continuaria, mas esse bando já poderia ser submetido à Procuradoria Geral da República. Com a apresentação da denúncia criminal, o processo fica sob o estrito controle da Corte Suprema e eles teriam que ser mais do que incautos para desafiarem o Supremo Tribunal.

Embora no campo das bizarrices, reconheço, que os bolsonaristas sejam imbatíveis. Merecem estudo algumas pérolas que foram apresentadas por eles: a defesa da Terra plana, a insistência em bater continência a pneus, a crença de que quem toma vacina pode virar jacaré, a tentativa coletiva de entrarem em contato com extraterrestres por meio de celulares na cabeça, o requerimento insano de que a Ditadura fosse instalada a fim de cumprir a Constituição e o pedido de socorro aos militares para, com uma intervenção que mataria a democracia, salvarem a democracia.

Enfim, em matéria de excentricidade, eles são imbatíveis. Vai ser interessante ver o que vão criar para justificarem as prisões. Parece que as cenas dos próximos capítulos nos reservam grandes e fortes emoções.

Recomendaria a leitura de Pessoa, no “Eremita da Serra Negra”:

“Se puderes, reza a Deus. Não é preciso acreditar nele para isso. Basta que saibas rezar”.

ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO, o Kakay, tem 65 anos. Nasceu em Patos de Minas (MG) e cursou direito na UnB, em Brasília. É advogado criminal e já defendeu 4 ex-presidentes da República, 80 governadores, dezenas de congressistas e ministros de Estado. Além de grandes empreiteiras e banqueiros.

Envie seu texto para mazola@tribunadaimprensalivre.com ou siro.darlan@tribunadaimprensalivre.com

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