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Governo Lula se fortalece na distribuição dos recursos do novo sistema tributário

Publicado em 9 de julho de 2023 por Tribuna da Internet

Reforma traduz um avanço em matéria de simplificação de impostos

Pedro do Coutto

Analisando-se com atenção os pontos mais sensíveis da reforma tributária sob o ângulo político, verifica-se com base na reportagem de Idiana Tomazelli e Vitória Azevedo, Folha de S. Paulo de sexta-feira, que a unificação de impostos federais, estaduais e municipais produzirá uma receita a ser distribuída pelo Conselho Federativo que será criado para essa gestão. Na área federal, desaparecem o IPI, o PIS e o Cofins, e nas áreas estaduais e municipais, o ICMS e o ISS são transformados num outro bloco, além do bloco federal.

Essa distribuição será feita com base nas metas algébricas para as respectivas áreas. Quer dizer, seguirão o peso percentual que cada tributo representa na receita dos entes federativos. São previstas deduções para setores específicos, a exemplo de medicamentos, dispositivos médicos, além de outros poucos setores. Mas a distribuição, a meu ver, seguirá inevitavelmente um aspecto político, inclusive porque o Conselho Federativo será composto pelo governo federal e por 27 membros que representam os Estados, os municípios e o Distrito Federal.  

FUNDO – Além disso, o texto da reforma, se não for modificado pelo Senado, cria o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional a ser administrado pelo Planalto com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais. Outro fundo específico será destinado ao desenvolvimento da Amazônia. Como se observa, a complexidade da reforma deverá ter a sua mecânica regularizada pelo governo Lula da Silva.

Deverão ser analisadas, sem dúvida, as prioridades que vão ser colocadas de acordo com as circunstâncias e os momentos que exigem apoio imediato. O peso político do governo federal  inevitavelmente se fará sentir tanto na administração quanto na redistribuição dos recursos.

A reforma traduz um avanço em matéria de simplificação de impostos, mas é preciso que essa simplificação seja complementada também pela simplificação das ações tributárias. Um trabalho que exigirá sensibilidade e adequação dos próprios recursos federais a investimentos regionais, incluindo as verbas parlamentares para que, estabelecendo-se convergências , sejam alcançados melhores resultados.

POSIÇÕES ELEITORAIS – Quero dizer o seguinte, nada impede que verbas aplicadas ao arbítrio de deputados e senadores tenham alguma influência em obras públicas de interesse coletivo sem que desapareçam os interesses pessoais de parlamentares e empresas numa pequena escala, porém suficientes para consolidar  posições eleitorais dos autores das emendas parlamentares.

Empresas e parlamentares podem faturar, mas tal faturamento pode ser incluído no programa geral de obras do governo. Como os leitores e leitoras já sentiram, um desafio à sensibilidade criativa.Nem sempre os interesses políticos divergem ou se chocam com os interesses coletivos. Um dos desafios da política é conciliar uma coisa a outra.  

SETORES PRIORITÁRIOS  – Se aprovada pelo Senado a reforma que passou na Câmara, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e a ministra do Planejamento, Simone Tebet deverão iniciar com rapidez um esquema de prioridades, ressaltando os setores mais urgentes  para o processo econômico e social.

Na Economia, por exemplo, uma das urgências se encontra na construção de refinarias, pois enquanto o Brasil é exportador de petróleo bruto, já que tem uma produção diária de três milhões de barris e um consumo de 2,5 milhões a cada 24 horas, ao mesmo tempo é importador de produtos refinados. Isso porque nosso país não refina a produção do pré-sal.

Existem ainda outras urgências, a começar pelo combate frontal à infâmia da fome, consequência da concentração de renda defendida pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e encampada com entusiasmo pelas maiores forças do sistema financeiro.  A seleção das prioridades é fundamental para assegurar as consequências concretas da aprovação da reforma tributária.

TARCÍSIO E BOLSONARO – Reportagem de Camila Turtelli, Guilherme Caetano, Lauriberto Pompeo e Ivan Martinez-Vargas, O Globo deste sábado, revela amplamente as divergências frontais entre o governador Tarcísio de Freitas e o ex-presidente Jair Bolsonaro sobre o apoio do chefe do Executivo paulista ao projeto de reforma tributária e sucedido por um encontro entre ambos.

A reportagem destaca que os desentendimentos entre Tarcisio de Freitas e Jair Bolsonaro já ocorrem há seis meses, por coincidência, creio, a partir da posse do presidente Lula da Silva. Nitidamente, ocorreu uma ruptura entre a centro-direita e a extrema-direita.

A corrente de Bolsonaro, como não poderia deixar de ser, ficou isolada porque a maioria dos conservadores não vai querer romper com o governador de São Paulo, que tem o apoio da Fiesp e da Febraban, além de ser um homem que desponta para a sucessão presidencial de 2026. É natural. E à medida que o tempo for passando, o enfraquecimento do bolsonarismo se ampliará, sobretudo a partir do julgamento dos invasores e predadores de Brasília, e das revelações contidas no celular do tenente-coronel Mauro Cid.

Em entrevista inédita, Zé Celso falou de morte, vida, futuro e medo do fogo


Zé Celso Martinez deu uma longa entrevista autobiográfica

Claudio Leal
Folha

Em última entrevista longa à Folha, Zé Celso comentou sua trajetória, sua formação intelectual, o flerte juvenil com o integralismo, o convívio com Glauber, Caetano e Chico, o impacto da antropofagia na cultura brasileira, o futuro do Teatro Oficina, a proximidade da morte e o desejo constante pelos palcos, interrompido por um incêndio em seu apartamento.

Em 20 de maio, um mês e meio antes de sua morte, o diretor José Celso Martinez Corrêa (1937-2023) concedeu esta entrevista exclusiva em seu apartamento na rua Achilles Masetti, em São Paulo, sobre o futuro do Teatro Oficina, a adaptação do livro “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa, para os palcos, a proximidade da morte, o casamento com Marcelo Drummond e sua trajetória transgressora na cultura brasileira.

Dias antes, ele gravara uma conversa no canal de Drauzio Varella no YouTube. Em nosso encontro, em momento de descanso no meio da jornada de revisão do texto de “A Queda do Céu”, ele repetia que o mergulho na mitologia yanomami era o maior desafio de sua vida. Neste longo depoimento, talvez seu último, Zé Celso comenta suas influências intelectuais, de Brecht a Oswald de Andrade, e revela passagens de sua simpatia juvenil pelo integralismo e seu posterior exorcismo das ideias fascistas.

“Você tem um baseado?”, perguntou, ao iniciar a entrevista.

Não tenho, Zé… Mas, vamos começar. Sua energia mental está muito concentrada na adaptação de “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa. Outro dia você disse que será a coisa mais importante de sua vida no teatro. Como tem sido seu acesso ao pensamento mitológico indígena?
É praticamente a descoberta de um outro continente. Está no Brasil, mas não é Brasil. É outra coisa. Os yanomami constituem uma nação que não tem nada a ver com o Brasil. E Davi, claro, aprendeu a falar português para trabalhar na Funai e depois para viajar pelo mundo para mostrar a situação catastrófica que o Brasil impõe a esse território. Vamos ver se melhora com Marina Silva e Sônia Guajajara.

Você conheceu Davi Kopenawa em Araraquara (SP)?
Já tinha visto ele falar, mas em Araraquara era uma espécie de Flip. Eryk Rocha, filho do Glauber, me disse: “Amanhã Kopenawa vai falar”. Eu fui e pedi os direitos. Ele deu, claro, mas eu ainda tenho que falar com a Companhia das Letras. Eu me considerei com os direitos dados pelo autor. Aí comecei a trabalhar numa equipe com cinco pessoas, na fase da dramaturgia. Fizemos toda a dramaturgia, mas agora estamos na revisão.

E agora você traz a pessoa indígena pro seu projeto.
Vou ter que ter um elenco indígena enorme. É a maior dificuldade que eu vou ter. Mas vai ser. Não tem outra saída. É um desafio que eu assumi. Estou fazendo atualmente a dramaturgia com Fernando de Carvalho. E Roderick Himeros passa a ser codiretor.

Quero entender como você vai incorporar o ator indígena. Mesmo que não seja indígena, o ator não trabalha com várias identidades?
Ah, mas tem que ser indígena. Branco vai ser garimpeiro, missionário, funcionário da Funai. A maioria de papéis é com os indígenas.

Você chegou a visitar alguma etnia indígena?
Nunca fui. Minha avó era indígena, de Porto Ferreira (SP), e foi até capturada pelos bandeirantes, mas ela fugiu e foi morar em Araraquara. Encontrou meu avô, casou. Ela levou a mãe dela junto. Eu tenho uma ascendência indígena que me orgulha muito. Eu adorava ela, os costumes dela. A mãe dela, que já estava louca, ficava rindo e dando cambalhota na cama. Sempre tive uma simpatia enorme pelo povo indígena. E agora se torna necessidade. Tenho que trabalhar com indígenas. O elenco de brasileiros brancos é diminuto e atua como os brancos atuaram com os indígenas, de uma maneira mais negativa que positiva, sempre trazendo a doença.

Estão fora do mundo…
É um povo que está completamente longe da sociedade industrial. Eles se flechavam, mas depois do aparecimento do garimpo e das missões, se uniram, deixaram as contendas internas e investiram totalmente na luta contra os invasores. O que está havendo agora é essa luta contra os invasores, mesmo com a Sônia Guajajara no Ministério dos Povos Indígenas. De início, logo quando Lula tomou posse, os garimpeiros começaram a abandonar, mas na região norte ainda tinha.

O Oficina sempre teve um trabalho importante de renovação de seu estilo de representação. Teve o estilo do “Rei da Vela” (1967), depois você mudou no “Roda Viva” (1968) e adiante veio Brecht…
E depois supero o Brecht. Brecht eu deixei pra trás completamente. Quer dizer, às vezes tem umas reminiscências. Mas eu acho o Oswald de Andrade muito superior ao Brecht, a dramaturgia dele. Eu encenei duas peças dele. “O Homem e o Cavalo” (1934) eu encenei uma vez. Eu era considerado “decano do ócio” pelo Telmo Martino, que era jornalista. Voltando da ditadura, foi muito difícil voltar a trabalhar. Eu voltei a trabalhar no teatro depois que Marcelo [Drummond] e eu fomos visitar o Raul Cortez e convidá-lo para fazer “As Boas”, de Jean Genet [em 1991]. Esse Telmo Martino, que me considerava o “decano do ócio”, me libertou completamente.

E “A Morta” (1937), de Oswald?
“A Morta” eu quero fazer. Eu vou fazer. Eu só não fiz agora neste momento porque tinha muito incêndio. Termina a peça com o personagem Poeta. Ele vai ao cemitério atrás da morta apaixonada por ele. Ela recusa sempre, mas ela está no cemitério. É uma cena muito engraçada do cemitério. Mas ele chega lá e taca fogo em tudo. Mas era época daqueles incêndios no Amazonas, né? Aí eu não sabia como contornar, mas agora eu sei, agora é possível montar. Eu vou montar “A Morta”.

O texto de Oswald não ensinou tudo aquilo que você construiu em sua encenação tropicalista de “O Rei Da Vela”. Você não é também um inventor da dramaturgia oswaldiana?
Sim, é completamente diferente. Porque eu tive uma influência de Stanislavski muito importante. Essa eu não renego jamais. Stanislavski não fez um método, ele fez um romance. Os americanos transformaram em método, mas, na realidade, é um romance que trata exatamente das aulas dele. Ele trabalha o inconsciente. Eugênio Kusnet, que era russo, já tinha o original do Stanislavski. Então, ele já aplicava esse método. Depois dos americanos foi feito o método. Eugênio criou um estúdio, tipo o Actors Studio. Atores de várias companhias, quando tinham um problema em alguma cena, vinham até o Oficina e ele fazia o laboratório. Stanislavski foi uma coisa muito importante porque superou o ego das pessoas. O ator tem muito ego, né? Mas aí tinha o Stanislavski. Era muito fácil dirigir.

E o ego do ator indígena?
É outro ego. Deve ser outra coisa.

Isso é um mistério pra você?
É um mistério para mim. Tenho certeza de que não tem [problema de ego]. Deve ter outras coisas de pertencimento a uma comunidade. Não sei. Mas eu duvido que eles tenham esse problema. É outra coisa. Se é que tem esse problema parecido, é a se descobrir. A dificuldade é conseguir que eles venham. Eu não tenho a menor ideia de como vai ser. É uma coisa absolutamente nova para mim. Mas eu tô muito aberto, muito receptivo, porque a peça é deles, é de indígena, é escrita por um grande intelectual, xamã, que é o Kopenawa e pelo Bruce Albert, que fez o livro.

“Tristes Trópicos” (1955) teve importância para você?
Muito importante. Eu li muito Lévi-Strauss e por isso tive uma compreensão maior. Eu me interessava porque minha avó era indígena. Então eu já tinha interesse pelos indígenas. E aí fui eu ler Lévi-Strauss. E isso me deu então uma aproximação muito grande, mas agora é outra coisa. Agora é uma aproximação de ator e diretor.

Você é um precursor das questões identitárias…
Claro, eu sou viado. Tem quer ser.

Na primeira leitura pública de sua adaptação de “A Queda do Céu”, no Sesc Pompeia, uma parte plateia começou a ser um pouco reativa?
A maioria foi a nosso favor. Mas tinha uma minoria completamente reativa. Eu saí da reunião cambaleando com energia negativa. Mas é uma minoria. Esse trabalho é muito complexo. O livro tem 700 páginas e, além do texto, remete a muitos comentários.

Como você vislumbra o futuro do Teatro Oficina?
O futuro do Teatro Oficina está no meu casamento com Marcelo Drummond. A gente resolveu se casar exatamente por isso. Quer dizer, eu fui amante do Marcelo em 1987 e durante sete anos, mas depois a gente continuou convivendo, ele morando em outro quarto e tendo outros amantes, vivendo a vida dele e eu a minha. Mas ele é o cara que tem mais conhecimento do Oficina. É o mais longevo. Depois vem a Camila Mota, mas ele é mais. O casamento significa, acima de tudo, uma continuidade do Oficina. Eu estou com 87 anos [86, na verdade]. Estou velho, sei que vou morrer a qualquer hora, então deixo Marcelo, que é mais novo. Marcelo tem 60 anos. Mas ele está em plena vitalidade e pode muito bem continuar esse trabalho.

O Oficina é uma associação, não é isso?
É uma associação muito bonita. Eu presido. A partir do meu casamento, acho que Marcelo passa a presidir. E aí já vou me preparando pra outro estágio da minha vida. Vou fazer 90 anos. Então, não sei o que vai acontecer comigo. Olha, realmente é uma luta maravilhosa, porque durante 41 anos o Silvio Santos não conseguiu construir nada [no terreno ao lado do Teatro Oficina; o diretor desejava a criação do Parque do Rio Bixiga]. Com o TBC, que o Sesc-SP comprou, vai ser um conjunto cultural enorme. E São Paulo é uma cidade pobre nesse sentido. Existem poucos lugares culturais abertos, em contato com a natureza.

É uma luta do Oficina que expõe muito a visão do capitalismo brasileiro. Você vê assim?
Exato. Pra mim, talvez seja uma vitória, porque ele [Silvio Santos] não conseguiu fazer nada durante 41 anos. Imagina que até hoje no Oficina você vê o Minhocão, o céu, a chuva.

O Oficina perdeu patrocinadores nos últimos anos?
Durante o governo do Bozo [Jair Bolsonaro] não era possível. Depois do golpe contra a Dilma, esse tempo todo foi difícil pra nós. A gente perdeu completamente o apoio. Não só para nós. Para a cultura brasileira. Foi um golpe vergonhoso. Eu me lembro de ter visto pela televisão a combinação do golpe. E o golpe abriu o caminho para a vitória do Bozo, sem dúvida nenhuma.

Como avalia a presença feminina no Oficina? Com “Mutação de Apoteose”, o grupo tem a primeira direção de uma mulher, com Camila Mota.
Ela é maravilhosa. A Camila, a Sylvia Prado e outras são mulheres muito talentosas. Camila está fazendo um espetáculo sensacional. As mulheres todas do Oficina tiveram uma formação muito grande, inclusive com “Os Sertões”. Eu me lembro da Karina Buhr fazendo “Os Sertões”.

Como veio a ideia de “O Rei da Vela”, em 1967?
Maciel [Luiz Carlos Maciel, jornalista e diretor] descobriu o “Rei da Vela”. Foi muito importante. Ruggero Jaccobi foi ver todas as peças brasileiras e quando chegou na de Oswald de Andrade, ele pirou. Aí ele pegou o “Rei da Vela” e deu pro Maciel, que passou pra mim. Aí nasceu o “Rei da Vela”.

Seu trabalho no teatro desenvolveu a antropofagia. Como você analisa esse conceito de antropofagia na cultura brasileira atual?
Ficaram os tropicalistas. Gil e Caetano, que foram ligados a essa ideia de o hemisfério sul devorar a colonização do hemisfério norte. A partir do hemisfério sul, olhar o hemisfério norte e devorar a cultura norte-americana. Foi um processo de antropofagia maravilhoso, não só no meu trabalho, como no trabalho do Caetano, do Gil, do Tom Zé. Abriu um caminho enorme essa devoração, essa antropofagia.

Nossa mentalidade sofreu um processo de descolonização que fez com que a antropofagia não fosse mais tão central?
Não é [central] porque nós tivemos quatro anos em que praticamente a cultura foi assassinada. Esse governo desse nojento, do bosta desse Bozo parou tudo. A gente continuou. Logo no dia em que ele foi eleito, todo mundo chorando, eu falei: “Não! Vamos fazer o ‘Roda Viva’!”. E foi muito sucesso. A gente mandava pau. A gente só parou com a epidemia. Teve esse buraco da pandemia. Bolsonaro não é nem colonialista. É uma bosta de governo. Julio Bressane olhava muito para mim durante o “Roda Viva” [no Rio, em 2019]. A gente é muito amigo. Gosto da pessoa dele. E gostava muito do Rogério [Sganzerla]. O Rogério adorava “O Rei da Vela”. Ele ia ver muito. “O Bandido da Luz Vermelha” (1968) é uma maravilha. Em “A Mulher de Todos” (1969), Helena Ignez está maravilhosa.

Você reconhece uma ligação mental do “O Bandido” com “O Rei da Vela” e “Roda Vida”?
Eu nunca pensei nisso. Chico [Buarque] escreveu o “Roda Viva” e eu fiz uma transformação muito grande na peça. E a peça aconteceu, foi um escândalo. Chico era muito ligado ao pessoal que ia no [bar] Antonio’s, de uma geração anterior a ele. Então, diziam que eu tinha destruído a peça dele, tinha traído ele, aí ele ficou com preconceito. Tanto que ele nem foi ver o “Roda Viva” agora. Criou-se assim uma espécie de dificuldade. Mas fui ao show dele, pedi para usar “As Caravanas” na peça e ele concedeu.

E como você trabalhou o texto do “Rei da Vela”?
O texto do “Rei da Vela” era muito mais favorável. Me obrigou à invenção. Porque era uma coisa nova. O texto transcendia tudo o que existia na literatura, e não só teatral. Tudo. Ele abriu uma perspectiva até hoje. Por exemplo, Eduardo Viveiros de Castro, que faz o prefácio de “A Queda do Céu”, teve influência enorme do Oswald de Andrade. Porque o Oswald de Andrade já meteu o “tupi or not tupi”.

Você sempre fala muito de “Terra em Transe” (1967), mas e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), ambos de Glauber?
Eu adorei “Deus e o Diabo”. Nós assistimos a uma sessão no cinema onde é hoje o Belas Artes, se não me engano. Foi durante a ditadura. Glauber me apresentou à Lina Bardi. Eu comecei a trabalhar com Lina Bardi porque Glauber disse: “Vocês têm que trabalhar juntos. São irmãos”. Eu trabalhei muito com Lina. Eu já conhecia, mas só de uma vez que fui pedir direitos autorais pro Martim Gonçalves [cenógrafo e diretor]. Ela estava no Rio com ele, numa boate. Ela falava sempre que eu usava terno e gravata comprados naquela rua dos Beatles, Carnaby Street. E usava uma balancinha da Faculdade de Direito. Ela me falava: “Você era muito elegante”. Tanto que quando o Living Theatre veio para cá [em 1970], eles se vestiam de Cleópatra, uma roupa assim de louca ou então de preto. E ela dizia: “Vá com seu terno. Eles vão ficar escandalizados”. Ela também não gostava deles. Nem eu. Não deu certo.

Caetano Veloso conta uma coisa curiosa sobre você. Um professor importante pra geração dele, na Bahia, também foi para você, como orador, em Araraquara. Era o Hélio Rocha.
É verdade. Nós tínhamos um centro cultural, aliás, de origem integralista. Eu tinha um amigo chamado Plínio, que tinha esse nome em homenagem a Plínio Salgado [líder integralista]. Um dia, em Araraquara, tinha um comício da “panela vazia”. Comício comunista. Meu pai tinha mania de desfilar com muitas bandeiras. Peguei as bandeiras e fui com uma turma destruir o comício. Eu fui muito fascista. Eu fui integralista. E aí saiu no Repórter Esso. A minha professora de história ficou toda orgulhosa porque a gente tinha saído no Repórter Esso. Mas depois eu dei uma virada total.

Como você exorcizou o fascismo? Como?
Não me lembro exatamente, mas eu reneguei completamente. Os integralistas tinham homens muito inteligentes. Plínio Salgado discursava muito bem. Ele ia discursando, virando e fazendo assim na testa, como se ele estivesse tomado de um transe. Hélio Rocha era baiano e teve uma influência muito grande nesse centro cultural. Na minha cabeça, deu uma virada. Eu não me lembro exatamente quando abandonei. Ah! Foi um dia em que eu entrei na casa dele e estavam cortando a unha do pé dele.

De quem?
Do Plínio Salgado.

Você o conheceu pessoalmente?
Fui à casa dele com meu amigo Plínio, de pai integralista. Mas quando vi aquilo! E havia uma badalação em torno. Uma coisa assim muito feia. Eu não quis mais saber. Determinou meu afastamento. Aí eu me abri pro Iseb, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Tinha o Roland Corbisier, o Celso Furtado. Era naquele tempo do governo do Jango, que negociava com o Oriente e o Ocidente. Não tinha essa coisa de submissão, seja aos americanos ou aos comunistas. Era muito independente. Era um caminho que me seduziu muito. Eu aprendi muito com o Iseb. Depois, quando houve o golpe, eu estava em outra. Eu já tinha feito “Os Pequenos Burgueses”. E tinha feito “A Engrenagem”, do Sartre. Quando Sartre veio o Brasil, eu e Albertina Costa ficamos a sombra dele e da Simone [de Beauvoir]. Ele foi a Araraquara, e nós fomos juntos. Eu li muito “O Ser e o Nada”, “As Palavras”, os livros todos dele. Eu gostava também da Simone.

Por que na montagem recente de “Esperando Godot”, de Beckett, você mudou o final?
No final, eu faço um negro, o Tony Reis, fazer o menino. Mas ele faz um Zé Pelintra. Ele anuncia no final que Godot pegou um santo no terreiro e que Godot morreu. “Godot morreu!” Eu detesto essa coisa messiânica de ficar esperando, esperando…


TCU apura gastos exagerados sem licitações no ministério que Lula deu a Alcolumbre


Ligado a Alcolumbre, ministro da Integração contratou empresa de suplente de senador a dois dias de deixar o cargo de governador

Góes e Alcolumbre são parceiros em esquemas de corrupção

Paulo Cappelli e Petrônio Viana
Metrópoles

O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu processo para apurar os gastos sem licitação no Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional em 2023. Como revelou a coluna, a pasta comandada por Waldez Góes somou R$ 527,3 milhões em despesas entre janeiro e junho deste ano.

Desse total, R$ 510,8 milhões (o equivalente a 97%) foram nas modalidades dispensa ou inexigibilidade de licitação. A relatoria do processo ficou com o ministro Jhonatan de Jesus, ex-deputado que assumiu o posto no TCU em março deste ano.

INSPEÇÕES E AUDITORIAS – A decisão do tribunal de abrir o processo de fiscalização atendeu a duas representações enviadas à Corte após a reportagem. Uma delas foi feita pela deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), da ala bolsonarista.

No ofício, a parlamentar requereu “inspeções ou mesmo auditorias a fim de se apurar a legalidade e a economicidade das referidas contratações”.

Os gastos sem licitação do ministério em 2023 superam a soma dos valores contratados pela pasta, na mesma modalidade, nos últimos quatro anos. Em todo o governo anterior, as despesas sem licitação somaram R$ 99 milhões, cinco vezes menos do que em apenas cinco meses de governo Lula.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Trata-se de uma tragédia anunciada. O presidente Lula deu esse importante ministério de presente ao senador Davi Alcolumbre (União-AP), cuja família está fazendo vestibular para dominar o Amapá e começou logo pelo tráfico de drogas, onde atua com desenvoltura um irmão do senador.

Para comandar o Ministério da Infraestrutura e Desenvolvimento Regional, Alcolumbre indicou Waldez Góes, que está cumprindo fielmente a missão recebida. Aliás, como diz o sempre atento comentarista José Antonio Perez, quando Alcolumbre entra numa jogada é porque já sabe que terá retorno garantido. Mas desta vez não há dúvida de que Góes está ultrapassando todos os limites, porque não precisava fazer negociatas com tamanha sofreguidão..(C.N.)

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