quinta-feira, setembro 01, 2022

Xiita contra xiita: disputa pelo poder no Iraque envolve irmãos de fé.




Nada é simples no país que os Estados Unidos desmontaram em 2003 e ninguém nunca mais conseguiu montar de novo.

Por Vilma Gryzinski

Uma vez derrubada a ditadura de Saddam Hussein, os iraquianos xiitas iriam todos obedecer fielmente as ordens emanadas de seus irmãos de fé do Irã, muito mais organizados e disciplinados.

Esta foi uma das conclusões óbvias sobre a invasão americana de um país complicado, dividido por fissuras religiosas e étnicas, uma construção artificial que só a brutalidade atilada de Saddam conseguia manter de pé.

Como sempre, a realidade é mais complicada. A explosão de distúrbios que aconteceu nos últimos dias em Bagdá, com invasão do Parlamento, da sede de governo e de outras instituições – com direito a mergulho na piscina dos poderosos, evocando as recentes cenas no Sri Lanka – é uma demonstração disso.

Dessa vez, são xiitas se matando entre si. Uma corrente segue os aliados do Irã; outra, que invadiu a Zona Verde e botou para quebrar, é de adeptos de Moqtada Sadr, um líder religioso caprichoso e influente, que com um simples tuíte põe milhares de pessoas nas ruas.

Sadr já fez de tudo: matou americanos, matou iraquianos seguidores da corrente majoritária, a sunita, e colocou suas milícias para fazer o trabalho sujo contra o Estado Islâmico. Seu Exército do Mahdi – a designação remete à figura messiânica que os xiitas esperam para anunciar o fim dos tempos – reencarnou com o orwelliano nome de Batalhões da Paz.

As alianças políticas acompanharam os tempos. Sadr deixou muita gente de queixo caído ao incluir em seu bloco político deputados comunistas, curdos e sunitas – tudo o que os xiitas, em princípio, odeiam.

O bloco foi o mais votado, com 73 deputados num total de 329, mas sem maioria para fazer um governo, alimentando um impasse que parece ser o estado natural do Iraque. Em junho, Sadr mandou todo mundo renunciar só para não ter que fazer um acordo com os xiitas que seguem a linha de fidelidade ao Irã.

O nacionalismo de Sadr irrita o regime iraniano, que se vê como o tutor dos primos rebeldes do outro lado da fronteira. Existe também, implicitamente, um sentimento de superioridade dos persas em relação aos indisciplinados árabes.

Os xiitas têm a tradição de seguir figuras religiosas carismáticas e Moqtada Sadr vem de uma família de líderes venerados. Seu pai, dois irmãos e o sogro foram mortos pela ditadura de Saddam. O bairro xiita mais conhecido de Bagdá tem o nome de Sadr City, em homenagem ao pai dele.

Brutal no tratamento dos xiitas – e de qualquer outra potencial ameaça a seu poder, inclusive na própria família -, Saddam manteve o Iraque unido a ferro e fogo. A remontagem do país tem sido sucessivamente frustrada.

Moqtada Sadr é um fio desencapado no arco de influência que o Irã constrói com paciência estratégica, estendendo-se pelo Iraque, a Síria e o Líbano. Muito próximo de alcançar outra vitória, com a reencarnação do acordo nuclear rasgado por Donald Trump, o que o livrará do peso das sanções americanas, o regime iraniano tem que aturar os rompantes de Sadr, que já tentou até uma aproximação com a Arábia Saudita. Os Estados Unidos também procuram usar Sadr, com seus milhões de seguidores, como contraponto à influência iraniana.

Não interessa ao Irã uma explosão no Iraque, com suas sanguinárias disputas internas e uma permanente instabilidade. Eventualmente, cabeças frias podem até tentar uma recomposição com o esquentadíssimo Moqtada Sadr, que mandou seus seguidores saírem das ruas depois de confrontos que deixaram 30 mortos e anunciou o encerramento de suas atividades políticas.

Mas uma hora a paciência acaba.

Revista Veja

Taiwan promete contra-ataque se forças chinesas entrarem no território




Pequim tem aumentado as ações militares perto da ilha

O governo de Taiwan informou, nesta quarta-feira (31), que exercerá seu direito de autodefesa e contra-ataque se as Forças Armadas chinesas entrarem no território, no momento em que Pequim aumenta as ações militares perto da ilha.

Pequim, que reivindica Taiwan como seu território contra fortes objeções do governo em Taipé, tem realizado exercícios militares ao redor da ilha este mês, em reação a uma visita da presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi.

Autoridades de defesa de Taiwan disseram que as patrulhas militares da China perto de Taiwan continuam e que a intenção de Pequim, de transformar o Estreito de Taiwan que separa os dois lados em seu "mar interior", é a principal fonte de instabilidade na região.

"Para aeronaves e navios que entrarem em nosso território marítimo e aéreo, o Exército Nacional exercerá o direito de autodefesa e contra-ataque sem exceção", disse Lin Wen-Huang, vice-chefe do Estado-Maior Geral de Operações e Planejamento, em entrevista.

Taiwan tem reclamado de drones chineses voando repetidamente perto de seus pequenos grupos de ilhas, perto da costa da China.

Os militares exercerão o mesmo direito de contra-atacar os drones chineses que não atenderem aos avisos para deixar o território, depois de representar ameaças, acrescentou Lin.

Taiwan disparou nessa terça-feira (30), pela primeira vez, tiros de advertência contra um drone chinês, logo após a presidente Tsai Ing-wen determinar que os militares de Taiwan tomassem "fortes contramedidas" contra o que chamou de provocações chinesas.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, reiterou a posição chinesa de que Taiwan pertence a ela.

"Em primeiro lugar, preciso dizer a vocês que Taiwan é uma província da China, não tem o chamado Ministério da Defesa. As autoridades de Taiwan estão atuando com nervosismo, isso não tem sentido", afirmou.

Agência Brasil / Diário de São Paulo

O que é sigilo de cem anos imposto por Bolsonaro e atacado por Lula




A candidata Simone Tebet (MDB) também criticou sigilo durante debate: ´Quem quer esconder por 100 anos alguma coisa deve algo ao Brasil´

"Em 100 anos saberá": essa foi a resposta do presidente Jair Bolsonaro (PL), em rede social, a um comentário que perguntava: por que coloca sigilo de cem anos em "todos os assuntos espinhosos/polêmicos do seu mandato" e "existe algo para esconder".

A interação no Twitter foi em abril. Agora, na disputa pela Presidência, os sigilos de cem anos impostos na gestão Bolsonaro são alvo de críticas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como ocorreu no primeiro debate que os colocou frente a frente.

Lula disse que "hoje, qualquer coisinha é sigilo de cem anos", logo depois de perguntar à senadora e candidata do MDB à Presidência, Simone Tebet, sobre o comportamento do governo Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. Ela afirmou: "sigilo de cem anos para quê? Quem quer esconder por 100 anos alguma coisa deve algo ao Brasil".

O atual presidente chamou Lula de "ex-presidiário" e disse: "sigilo de cem anos, uma lei lá do tempo da Dilma, para questões pessoais, meu cartão de vacina, ou quem me visita no Alvorada, nada mais além disso…"

A imposição de sigilo de um século ocorreu em situações que ganharam destaque durante o governo Bolsonaro, como nesses quatro casos:

    O cartão de vacinação de Bolsonaro foi colocado em sigilo, em meio à pandemia de covid-19 e no contexto de que o presidente questionava eficácia e segurança dos imunizantes;

    O governo determinou sigilo de cem anos sobre informações dos crachás de acesso ao Palácio do Planalto emitidos em nome dos filhos Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro;

    A Receita Federal impôs sigilo de cem anos no processo que descreve a ação do órgão para tentar confirmar uma tese da defesa do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, sobre a origem do caso das "rachadinhas";

    O Exército impôs sigilo de cem anos no processo que apurou a ida do general da ativa e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello a um ato no Rio de Janeiro com o presidente Jair Bolsonaro e apoiadores do governo. 

Também há caso em que o governo tentou manter a informação secreta e depois mudou de ideia — como os dados sobre visitas ao Palácio do Planalto de pastores suspeitos de favorecer a liberação de verbas do Ministério da Educação para prefeitos aliados.

Reportagem do Estadão publicada em maio de 2022 mostrou que, de janeiro de 2019 a dezembro de 2021, durante o governo Bolsonaro, um a cada quatro pedidos de informação rejeitados tiveram como justificativa o sigilo da informação — a taxa é duas vezes a registrada na gestão da petista Dilma Rousseff e quatro pontos porcentuais maior do que a do governo Michel Temer (MDB), segundo a reportagem.

O que diz a lei sobre 'sigilo de cem anos'

O sigilo de no máximo cem anos está previsto na lei que acabou com o sigilo eterno de documentos oficiais — a Lei de Acesso à Informação (LAI). Ela foi sancionada em 2011 pela então presidente Dilma Rousseff — e foi assinada junto com a lei que criou a Comissão da Verdade.

No artigo 31, a lei prevê que informações pessoais relativas à intimidade, vida privada, honra e imagem tenham acesso restrito pelo prazo de até cem anos.

Também está lá um trecho que busca conter o uso dessa medida: o texto diz que a restrição de acesso de "informação relativa à vida privada, honra e imagem de pessoa não poderá ser invocada com o intuito de prejudicar processo de apuração de irregularidades em que o titular das informações estiver envolvido, bem como em ações voltadas para a recuperação de fatos históricos de maior relevância".

'Lei que acabou com o sigilo eterno de documentos oficiais foi sancionada no governo Dilma Rousseff'

'Publicidade é regra, sigilo é exceção'

A advogada Patrícia Sampaio, professora de Direito Administrativo da FGV Direito Rio, explica que essa previsão do sigilo de cem anos na LAI busca proteção à intimidade e à vida privada dos indivíduos, visto que o Estado tem acesso a muitos dados que são pessoais. Por exemplo: alguma doença que você prefere que seus familiares e empregadores não saibam que você tem.

"Agora nós também temos que entender que, quando um indivíduo resolve se lançar na arena pública — concorre a um cargo eletivo, toma posse no cargo eletivo —, até mesmo essa privacidade, essa intimidade, ela é, de certa forma, relativizada", diz. "Não é que ela deixe de existir — o indivíduo continua tendo direito à sua intimidade, vida privada. Mas na relação dele com as coisas públicas, com os recursos públicos, essa intimidade tem que ser relativizada em nome do controle social da atuação dos agentes públicos."

Sampaio resume: "Em um Estado de direito, a publicidade dos atos administrativos e dos representantes do povo são, em regra, públicos. A publicidade é a regra e o sigilo é a exceção", diz.

A professora e advogada lembra que a lei tem dez anos. "Precisamos cuidar para que ela não seja esquecida ou interpretada contrariamente ao seu objetivo".

A professora da Universidade de Brasília (UnB) Andréa Gonçalves — que é especialista em prestação de contas pelo setor público, com foco na área de saúde — afirma que o Brasil é "uma democracia muito jovem" e que, pouco a pouco, foram sendo tomadas medidas focadas em aumentar a transparência — é o caso da LAI, que ela considera "ganho enorme".

"A sociedade tem direito e tem que ter acesso às informações do Estado", defende Gonçalves.

No entanto, a professora da UnB diz que "muito do que a gente observa é ainda traço do patrimonialismo — 'sentei na cadeira e faço do jeito que entendo, do meu jeito'. Isso você observa em todas as áreas".

"Isso vai do nível mais baixo até o escalão mais alto. A gente está falando de informações no nível federal. Imagina lá na prefeitura das cidades menores, onde o prefeito entende que ele é dono da prefeitura e o recurso que foi ele foi atrás, ele gasta como ele quiser, e não vai disponibilizar essa informação."

'Em crítica a Bolsonaro, Lula disse durante debate: "hoje, qualquer coisinha é sigilo de 100 anos"

E é possível que um presidente retire sigilos impostos pela gestão anterior? Segundo as entrevistadas, na prática, um sigilo imposto pelo presidente anterior poderia ser extinto por um novo governante.

Tebet, quarta colocada nas pesquisas de intenção de voto, disse que um eventual governo dela teria "transparência total". Lula, líder nas pesquisas, afirmou a Bolsonaro que "em um decreto só, eu vou apagar todos os seus sigilos".

BBC Brasil

O general de passeata virou tuiteiro




Em uma campanha curta, os políticos têm pressa, a mesma urgência de quem passa fome no País

Por Marcelo Godoy (foto)

Campanha eleitoral é tempo de candidato comer buchada de bode e abraçar crianças em comunidades pobres. Em 2022, ela se tornou também o momento em que general vira tuiteiro. A rede social é o novo Clube Militar, o local em que oficiais fazem política, como descobrira o ex-comandante Eduardo Villas Bôas.

Agora foi a vez de Walter Braga Netto. Desde segunda-feira, o lacônico oficial se converteu em um loquaz tuiteiro. O candidato a vice dos sonhos de Jair Bolsonaro, por não dar palpites nem ameaçá-lo, apresenta-se como um mineiro “alinhado aos valores conservadores e ao liberalismo econômico do presidente”. Na rede social, todos têm pressa – a concorrência é enorme para capturar o eleitor. O novo tuiteiro do Planalto já conta com 87 mil seguidores e 13 publicações. “Foi com muita honra e orgulho que recebi a missão de ser candidato a vice-presidente, a mais desafiadora e importante dos meus 65 anos de vida.”

Até então, o ex-ministro da Defesa era um dos generais de passeata do bolsonarismo, esse novo tipo da política nacional. Nos anos 1960, Nelson Rodrigues capturou a imagem do “padre de passeata”, que só olhava para os céus para saber se devia sair com guarda-chuva. O general de passeata é parecido: ele só olha para o alto para saber quando o “tempo vai fechar”.

Enquanto alimentava pastores mais preocupados em salvar o governo do que almas, a administração Bolsonaro criou esse novo personagem. São figuras como Eduardo Pazuello, o especialista em logística cujas desventuras Émile Zola tornou um clássico ao retratar, em La Débâcle, o exército francês de 1870.

Essa turma gosta de datas comemorativas, como o 31 de março. E crê que o 7 de Setembro em Copacabana reviverá, cem anos depois, a marcha dos 18 do Forte. Ela acredita que a salva de tiros, programada pelo Exército durante o comício de Bolsonaro, esconderá os maltrapilhos que emboscam clientes nas padarias do bairro, parte dos 33 milhões que vivem a fome da pobreza extrema no Brasil. Quase todos os candidatos à Presidência já anunciaram planos para acabar com essa chaga. Cada um tem um caminho. Bolsonaro também tem o seu: negar a existência dos esfomeados.

Seu vice tuitou ontem sua visita a Sinop (MT) e fez promessas ao agronegócio. “O Brasil contribui com a #segurançaalimentar do mundo”, escreveu. Nenhuma palavra sobre a fome no País. Em uma campanha de 45 dias, um político tem pressa para se fazer conhecer. Os famélicos, como dizia o sociólogo Hebert de Souza, o Betinho, igualmente têm pressa. Quando uma barriga ronca, nada mais importa, além da própria fome. Os que se alimentam do poder também sabem disso. 

O Estado de São Paulo

Rússia interrompe abastecimento de gás para a Europa



País alega que medida visa manutenção de turbina

Apesar da justificativa de manutenção, um pronunciamento do porta-voz do Kremelin cita sanções

A Rússia anunciou nesta quarta-feira (31) a interrupção do fornecimento de gás para a Europa por meio do gasoduto Nord Stream1. O Kremelin afirma que a decisão ocorre porque o sistema de fornecimento precisa de manutenção da única turbina em atividade neste momento. 

Segundo a Gazprom, empresa russa de energia, a suspensão do serviço é temporária e deve se estender até a madrugada de sábado (3). Durante esses dias, nenhum gás irá ser fornecido à Alemanha. 

Desde as primeiras horas desta quarta-feira, os fluxos para a Europa estão zerados, segundo dados do site da operadora do Nord Stream1. As informações são da Agência Brasil.

Apesar da justificativa de manutenção, o porta-voz do Kremlin afirmou nesta terça-feira (30) que as sanções recentemente aplicadas contra a Rússia estão impedindo as exportações para a Europa. "Existem garantias de que, além dos problemas tecnológicos causados pelas sanções, nada está atrapalhando o abastecimento", disse.

Diário do Litoral

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Rússia interrompe novamente fluxo de gás para Alemanha

Estatal russa alega trabalhos de manutenção no gasoduto Nord Stream 1 e diz que interrupção deve durar três dias. Governo alemão questiona justificativa, mas diz estar preparado.

A estatal russa Gazprom interrompeu novamente nesta quarta-feira (31/08) o fornecimento de gás para a Europa Ocidental através da Alemanha pelo gasoduto Nord Stream 1, alegando trabalhos de manutenção. O fluxo de combustível, segundo a empresa, deve ser retomado no próximo sábado.

O presidente da Agência Federal de Redes de Energia da Alemanha (Bundesnetzagentur), Klaus Müller, afirmou que a argumentação da Gazprom é "tecnicamente incompreensível", mas disse que a Alemanha está agora mais bem preparada do que quando o fornecimento pelo gasoduto foi interrompido em julho.

Segundo ele, as instalações de armazenamento de gás estão quase 85% cheias. Além disso, a Alemanha vem reduzindo paulatinamente sua dependência do gás russo, que representou 55% do consumo do país em 2021 – essa parcela foi reduzida para apenas 9,5% em agosto. As importações de gás da Noruega e da Holanda agora têm mais peso no consumo do país.

A Alemanha acusa Moscou de usar a energia como "arma", enquanto a Rússia insiste que as interrupções se devem às sanções aplicadas após a invasão russa da Ucrânia.

Ao responder uma pergunta a respeito da retomada do fornecimento de gás, o porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, disse que "há uma garantia de que, com exceção dos problemas técnicos causados pelas sanções, nada interfere no fornecimento". Ele acrescentou que países ocidentais "impuseram sanções contra a Rússia, que não permitem manutenção e trabalhos de reparo normais".

O fluxo de gás foi paralisado na manhã desta quarta-feira, mostraram dados da Rede Europeia de Sistemas de Transmissão de Utilidades de Gás (Entsog). Em seguida, a Gazprom anunciou que o trabalho planejado em uma estação de compressão já havia começado.

Fornecimento reduzido

Em julho, a estatal russa já havia interrompido por dez dias o fornecimento de gás para a Alemanha. Na época, a empresa também atribuiu a medida a trabalhos de manutenção.

Entretanto, desta vez o atual trabalho de manutenção foi anunciado com menos de duas semanas de antecedência e está sendo realizado pela Gazprom, não pela Nord Stream AG.

A Gazprom vinha enviando diariamente cerca de 33 milhões de metros cúbicos de gás para a Alemanha via Nord Stream 1, correspondente a 20% da capacidade máxima do duto. A razão informada pela Rússia para a redução do fluxo é a manutenção de uma turbina da Siemens, que segundo Moscou não pode ser entregue à Rússia por causa das sanções ocidentais, o que Berlim refuta.

Na noite de terça-feira, a Gazprom já havia interrompido completamente as entregas ao grupo francês Engie. A razão para isso, segundo a companhia russa, seriam pagamentos pendentes, de acordo com a empresa. Depois que sanções foram impostas à Rússia, Moscou também cortou completamente o fornecimento para a Bulgária, Dinamarca, Finlândia, Holanda e Polônia e reduziu os fluxos através de outros dutos.

Momento de tensão

As interrupções do fluxo via Nord Stream 1 pressionam os países europeus enquanto eles se apressam para encher seus tanques de armazenamento de gás antes do inverno, com receio de que a Rússia possa interromper o fornecimento completamente.

A mais recente interrupção no fluxo de gás ocorre em um momento em que o mercado de energia já está tenso, com reflexos nos preços do gás no atacado. Com os meses de inverno se aproximando, os consumidores na Europa estão cautelosos por causa dos altos preços de energia. Países como a França alertaram que o racionamento é uma possibilidade.

Os líderes da UE apelaram aos cidadãos para reduzirem o uso de energia. Muitos europeus estão cortando voluntariamente seu consumo de energia, limitando o uso de aparelhos elétricos, e empresas europeias também tomaram medidas para reduzir o uso de energia.

Governo alemão diz estar preparado

O chanceler federal alemão, Olaf Scholz, afirmou na terça-feira que o país está bem preparado para enfrentar uma possível escassez de energia caso a Rússia reduza ainda mais o fornecimento de gás. "Seremos capazes de lidar muito bem com as ameaças que enfrentamos da Rússia, que está usando o gás como parte de sua estratégia na guerra contra a Ucrânia", disse.

Espera-se que a Alemanha em breve anuncie uma decisão sobre a ampliação da vida operacional de suas três usinas nucleares restantes.

Existem também planos para reduzir a dependência alemã do gás russo e substituir as importações até meados de 2024. Em Lubmin, onde o Nord Stream 1 chega à costa, estão em andamento preparativos para construção de terminais de gás natural liquefeito (GNL) para receber importações do insumo de outros países, como dos Estados Unidos. 

Deutsche Welle

Da balbúrdia à "farra dos pastores": educação sob Bolsonaro




Agenda ideológica, omissão e falta de coordenação e diálogo deram a tônica da gestão da área nos últimos quatro anos, marcada por escândalos e dança das cadeiras no MEC, apontam especialistas.

Por Ana Paula Lisboa

Marcada por escândalos e uma série de trocas de ministros, a gestão da educação no governo do presidente Jair Bolsonaro trouxe retrocessos principalmente por inação e falta de coordenação, o que se tornou mais desastroso durante a pandemia, apontam especialistas e representantes do movimento estudantil ouvidos pela DW Brasil. A ideologia, avaliam, ficou mais no discurso do que na ação.

"Em nível federal, foram quatro anos de uma gestão trágica, e isso sem contar as denúncias de corrupção", afirma Gabriel Corrêa, gerente de Políticas Educacionais da organização da sociedade civil Todos pela Educação.

O Ministério da Educação sob Bolsonaro é acusado de ter como marca registrada a falta de diálogo com estudantes, sociedade civil e governos locais. "Desde o primeiro dia, temos tentado apresentar demandas estudantis, mas não há abertura. O mandato de Bolsonaro inteiro foi com a gente fazendo manifestação em frente ao MEC, e o MEC não dando nenhuma resposta", diz Bruna Brelaz, aluna da Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp) e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Protestos também foram organizados durante outros governos. A diferença, aponta ela, é que, em outras gestões, "os ministros, mesmo com divergências, tinham o respeito de receber os estudantes". 

"Bolsonaro não vê a educação como elemento central para o desenvolvimento da nação. Todas as gestões de ministros da Educação comandadas por ele foram de corte de verbas e ataque a universidades. São gestões corruptas que desviam recursos para viabilizar uma reeleição", denuncia Brelaz. "Nós consideramos que o Bolsonaro é o inimigo nº 1 da educação e dos estudantes."

'Para Bruna Brelaz, presidente da UNE, "Bolsonaro é o inimigo nº 1 da educação e dos estudantes"

A falta de diálogo, ressaltam a UNE e o Todos pela Educação, também era a tônica na relação com secretários de educação, algo que trouxe prejuízos maiores durante a pandemia de covid-19.

"Nesse contexto [da pandemia], a gente viu um MEC arrumando conflito com estados e municípios, completamente omisso em suas atribuições de coordenar a resposta à pandemia", critica Corrêa, que é economista e mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP).

"Num país como o Brasil, grande e desigual, a atuação federal é muito importante para reduzir assimetrias. Sem essa coordenação e diálogo, cada estado e município faz de um jeito, uns abrem escola mais cedo, outros não", afirma. Além de prejudicar a aprendizagem, o longo fechamento de escolas preocupa especialistas por agravar problemas como a evasão.

Guerra cultural

Na avaliação de Corrêa, sob Bolsonaro a educação foi instrumentalizada para manter a fidelidade de eleitores com motivações ideológicas. "A estratégia de promover uma falsa e pretensiosa guerra cultural vem pela necessidade de inflamar uma base de apoiadores mais convictos e mostrar que Bolsonaro está fazendo o que prometeu”, comenta.

"Afinal, o presidente ganhou a eleição dizendo que o problema era o Paulo Freire, o 'kit gay'… Falar contra universidades, dizer que as escolas estão sexualizando as crianças, por exemplo, é estratégia para agradar essa base", analisa. "E quando você coloca, no MEC, gestores para fazerem isso, serão pessoas que não sabem operar a máquina pública e nada sai do lugar."

Focado em combater "problemas irreais" a partir de determinadas convicções, o MEC acabou não dialogando com estados e municípios nem fazendo "nada de concreto", mesmo no que tinha a ver com a pauta ideológica, o que pode ter barrado mudanças significativas em programas consolidados, considera Corrêa.

"O governo é tão incompetente que não conseguiu mexer nem nas políticas que queria mexer. No Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o presidente estava preocupado com algumas poucas questões que falavam de fato histórico do qual ele discorda e há denúncias de que houve censura em alguns itens, mas isso não afetou a qualidade do exame", comenta.

'Tentando agradar eleitores de Bolsonaro, ministros se guiaram pela pauta ideológica, avalia Gabriel Corrêa, do Todos pela Educação'

Dança das cadeiras

As constantes trocas de ministros — quatro ocuparam o cargo desde 2019 (Ricardo Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub, Milton Ribeiro e Victor Godoy) e um só não tomou posse porque mentiu no currículo (Carlos Decotelli) — e secretários no MEC tiveram como resultado uma gestão fragmentada. "Não tem visão e continuidade", observa Corrêa.

Professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), Remi Castioni concorda que "o MEC se perdeu em algumas agendas" e, em meio a constantes trocas, não tinha a estabilidade necessária para lidar com os desafios da área. Ele considera que houve certa melhora mais recentemente, após a saída de Abraham Weintraub, quando acredita que "houve diminuição da agenda de costumes” na educação.

"Embora o ministro que assumiu, o Milton Ribeiro, tenha sido pego em conversas nada republicanas envolvendo tráfico de influências na destinação de emendas parlamentares, um conjunto de técnicos assumiu funções nas secretarias de educação básica e ensino superior", comenta o economista e pesquisador de políticas públicas e gestão da educação, fazendo referência ao escândalo que ficou conhecido como "farra dos pastores".

Maiores avanços foram desconectados do MEC

De acordo com Corrêa, com implementações positivas isoladas, a omissão e a má gestão do MEC deixaram uma lacuna na área, o que forçou a atuação mais firme de outras entidades, "na tentativa de suprir essa falta de coordenação e evitar ainda mais retrocessos".

Ele e Castioni citam, entre as instituições que tiveram atuação de destaque no período, o Congresso Nacional, o Conselho Nacional de Educação (CNE), o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), movimentos sindicais, além de organizações da sociedade civil e do terceiro setor, como o próprio Todos pela Educação.

'Segundo especialistas, MEC foi omisso ao coordenar a educação, algo mais grave durante a pandemia, o que motivou atuação mais forte de outras entidades'

Castioni e Corrêa enxergam o novo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) como um dos principais avanços da educação nacional dos últimos tempos. E o protagonismo inédito do Congresso brasileiro, com a Frente Parlamentar Mista da Educação, foi fundamental para, a contragosto do governo federal, regular o fundo, com a Lei nº 14.113/2020, que o tornou permanente.

Castioni observa que o CNE também teve protagonismo como nunca antes "ao liderar um processo de retomada das escolas, uma vez que o próprio MEC se omitiu".

Nos últimos anos, o CNE também aprovou normas importantes, a exemplo das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica (resolução nº 2/2019) e a Matriz Nacional Comum de Competências do Diretor Escolar (que ainda precisa ser homologada pelo MEC).

Ensino superior de lado

Castioni enxerga mais progressos e articulações na educação básica do que na superior. A primeira passará a ter mais recursos por meio do novo Fundeb, mas não existe equivalente para a segunda, que, além de ter tido cortes orçamentários, vê-se limitada pela Emenda Constitucional (EC) nº 95/2016, do teto de gastos.

A presidente da UNE aponta como maiores falhas da gestão Bolsonaro no âmbito das universidades federais "o corte de mais de R$ 400 milhões de verbas discricionárias" e "colocar em xeque a democracia e a autonomia universitária", ao nomear cerca de 20 reitores que não venceram as eleições internas nas instituições.

"E isso tudo está interligado com o viés ideológico do governo, que já começou dizendo que na universidade só tinha balbúrdia, e o próprio Bolsonaro desrespeitando o movimento estudantil, dizendo que os CAs [Centros Acadêmicos] eram 'ninho de rato'", relembra.

'Orçamento da educação básica ganha reforços com o novo Fundeb, enquanto verbas para universidades federais continuam problemáticas'

Brelaz e Castioni salientam que os cortes orçamentários também impactam as bolsas-permanência para alunos de baixa renda, fundamentais para garantir a permanência deles no ensino superior público.

Brelaz critica também ações implementadas no Programa Universidade para Todos (Prouni) e no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) sem diálogo com o movimento estudantil. No primeiro, ela condena a inclusão de estudantes da rede particular sem bolsa por "afastar o aluno de escola pública para colocar na fila outros que teriam mais condições de pagar".

No Fies, a possibilidade de renegociação de dívidas aberta para cerca de 1 milhão de inadimplentes seria um avanço parcial. "Não houve perdão, mas renegociação. Queríamos que esses estudantes fossem perdoados", diz a presidente da UNE.

Desafios para o próximo governo

Independentemente do resultado das eleições, quem assumir a pasta da Educação em 2023 enfrentará vários desafios. O governo atual deixa o MEC e suas autarquias enfraquecidos.

A melhoria da aprendizagem é outro obstáculo. Brelaz defende que a próxima gestão priorize, como projeto de curto prazo, um plano para recuperação emergencial da educação por causa da pandemia.

"Temos acompanhado o preocupante aumento da evasão dos estudantes do ensino fundamental, principalmente nos anos finais, e médio", constata.

Castioni indica que há "um conjunto de definições muito importantes e que precisam ser implementadas" no próximo governo. Entre elas, ele cita a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o Novo Ensino Médio — aplicado em 26 unidades da Federação e a ser implementado na Bahia em 2023 — e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica.

Contatado pela DW Brasil, o MEC não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Relembre quem foram os ministros da Educação sob Bolsonaro

    Ricardo Vélez Rodríguez, de janeiro a abril de 2019. Movido por interesses ideológicos, queria patrulhar o conteúdo do Enem e mudar a forma como a ditadura era ensinada.

    Abraham Weintraub, de abril de 2019 a junho de 2020. Seguidor de Olavo de Carvalho, criava conflitos com diversos setores, fazia discursos contra universidades, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), e acabou sendo alvo de inquérito do STF.

    Carlos Decotelli, junho de 2020. Nem chegou a tomar posse depois de ter sido pego mentindo no currículo sobre formação e atuação em faculdades do Brasil, da Argentina e da Alemanha.

    Milton Ribeiro, de junho de 2020 a março de 2022. Pastor presbiteriano que foi pego dando preferência no repasse de recursos para prefeitos que negociassem com pastores da Assembleia de Deus. Chegou a ser preso pela PF e responderá por corrupção.

    Victor Godoy, desde abril de 2022. Era o nº 2 durante a gestão de Milton Ribeiro e assumiu para substituí-lo. 

Deutsche Welle

Talibã celebra um ano da retirada das tropas dos EUA




Regime que governa o Afeganistão comemorou o que chama de "Dia da Liberdade" com um desfile de veículos militares estrangeiros capturados.

O Talibã comemorou nesta quarta-feira (31/08) o primeiro aniversário da retirada do Afeganistão das tropas lideradas pelos Estados Unidos. Os governantes de fato do Afeganistão comemoraram a tomada de Cabul com cânticos de vitória e um desfile que exibiu equipamentos deixados para trás pelas forças internacionais. Os meios de comunicação estrangeiros não tiveram acesso ao evento.

Pelo Twitter, um porta-voz do regime talibã desejou aos afegãos um feliz "Dia da Liberdade". Em um comunicado separado, o governo disse que o dia marcou "a liberdade do país da ocupação americana".

"Tantos mujahideen [combatentes] foram feridos [ao longo dos anos], tantas crianças ficaram órfãs e tantas mulheres ficaram viúvas", escreveu.

Grupos de combatentes do Talibã marcharam, enquanto helicópteros sobrevoavam o local, mostrou a televisão estatal.

Veículos militares apreendidos na guerra ou deixados para trás durante a retirada das tropas estrangeiras em 2021 foram exibidos como parte das comemorações. Na noite de terça-feira, houve queima de fogos de artifício em Cabul.

Faixas comemorando as vitórias contra os EUA, a União Soviética e o Reino Unido também foram estendidas na capital afegã. As tropas soviéticas deixaram o Afeganistão em 1989 após um conflito de nove anos, enquanto o Império Britânico travou três guerras no Afeganistão nos séculos 19 e 20.

'Combatentes do Talibã desfilaram em Cabul como parte das comemorações'

Talibã reitera exigências

No dia do aniversário da retirada das últimas forças lideradas pelos EUA, o governo talibã reiterou suas exigências para ser reconhecido internacionalmente como o governo legítimo do Afeganistão.

"A experiência dos últimos 20 anos pode ser um bom guia. Qualquer tipo de pressão e ameaças sobre o povo do Afeganistão nos últimos 20 anos falhou e aumentou a crise", disse o Talibã em comunicado.

O regime afirmou na declaração que o Emirado Islâmico do Afeganistão, nome oficial do estado administrado pelo Talibã, é o "governo legítimo do país e o representante da corajosa nação afegã".

O Talibã pediu à comunidade internacional que permita um governo islâmico independente no Afeganistão, que tenha "interação positiva com o mundo".

A comunidade internacional pressiona para que o Talibã respeite os direitos humanos, sobretudo das mulheres. No ano passado, quando tomaram novamente o poder, os islamistas prometeram uma versão mais branda do regime linha-dura que caracterizou seu primeiro comando do Afeganistão, de 1996 a 2001.

Mas a promessa dos talibãs não foi cumprida, principalmente no que diz respeito aos direitos das mulheres. Muitas restrições de liberdade às afegãs foram reimpostas pelo grupo. O Talibã fechou escolas secundárias para meninas, impediu mulheres de exercerem vários cargos e obrigou jornalistas e apresentadoras de telejornais a cobrirem os rostos, por exemplo.

A partida das forças dos EUA em 31 de agosto de 2021 marcou o fim da guerra mais longa de Washington. Cerca de 66 mil soldados afegãos e 48 mil civis foram mortos durante o conflito de duas décadas, bem como mais de 2,4 mil soldados americanos.

Deutsche Welle

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