quarta-feira, abril 13, 2022

Contra quem se articula a terceira via?




Perguntem ao ex-governador João Doria (PSDB): quem é o seu adversário principal? A mesma pergunta pode ser feita a Simone Tebet (MDB) ou a Ciro Gomes (PDT). Não quererão responder

Por Luiz Carlos Azedo (foto)  

Na arte da guerra, não identificar o inimigo principal pode ser um erro capaz de levar ao desastre. Numa ordem democrática, é melhor chamar o “inimigo” de adversário, porque ele pode ser o aliado de amanhã, como está acontecendo agora, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSB), seu rival no segundo turno das eleições de 2006, então pelo PSDB. Numa eleição polarizada entre Lula e o presidente Jair Bolsonaro, o desafio da chamada terceira via é identificar o adversário principal no primeiro turno.

A história está repleta de erros de avaliação sobre essa questão. O mais notório foi o confronto entre comunistas e social-democratas na Alemanha, que dividiu o movimento sindical e a intelectualidade, abrindo caminho para Adolf Hitler chegar ao poder. Os comunistas chamavam os social-democratas de social-fascistas, o que era um equívoco, mas havia lá suas razões: o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que representavam o espírito revolucionário da época. Eles acusavam a Social-Democracia Alemã de traição, por ter aprovado os créditos de guerra no Reichstag (parlamento alemão), em 4 de agosto de 1914. Liebeneck foi o único deputado a votar contra a guerra.

Quando a onda da Revolução Russa impactou a Alemanha derrotada na guerra, em 1918, com o surgimento de conselhos operários, a queda do Kaiser e a Proclamação da República, o governo ficou nas mãos dos dirigentes mais conservadores da social-democracia, que fizeram um pacto com o estado-maior militar para liquidar o levante dos operários da Liga Spartacus, núcleo inicial do Partido Comunista Alemão. Em 15 de janeiro, um destacamento de soldados prendeu Liebknecht e Rosa, que lideravam o levante. Foram levados para o Hotel Éden, quartel-general dos Freikorps — veteranos do exército do Kaiser —, no centro de Berlim, paramilitares com os quais o governo social-democrata havia feito um acordo para reprimir a insurreição. Os dois líderes foram espancados, arrastados e mortos a tiros. O trauma da guerra dividiu a esquerda mundial, principalmente depois de Revolução Russa, e nunca mais foi superado.

Lula x Bolsonaro

Aqui no Brasil, erro igualmente trágico ocorreu às vésperas do golpe militar de 1964. João Goulart havia assumido o governo como vice de Jânio Quadros, que renunciara em 1961, em meio a forte crise institucional, na qual os militares não queriam dar-lhe posse. Houve um acordo para isso: a adoção do parlamentarismo. A posse de Jango fora garantida pela confluência de uma grande mobilização popular, liderada pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e uma hábil articulação parlamentar, na qual se destacaram Tancredo Neves e San Tiago Dantas. Para recuperar parte do poder, em 1963, Jango viria a convocar e vencer um plebiscito para a volta do presidencialismo, realizado em 6 de janeiro daquele ano.

As eleições presidenciais estavam convocadas para 1965. Os candidatos mais fortes eram Juscelino Kubitschek, do antigo PSD, que pretendia voltar ao poder, e Carlos Lacerda, o governador da antiga Guanabara, principal líder da UDN. Brizola não podia ser candidato, era cunhado do presidente da República. Prestes articulava a reeleição de Jango. A chave para isolar a UDN e evitar o golpe era recompor a aliança entre o PSD, o PTB e o antigo PCB, que havia sido vitoriosa em 1955. Mas a esquerda considerava isso um retrocesso, por causa da política de conciliação de Juscelino com os Estados Unidos. No auge da guerra fria, o desfecho da crise foi a destituição de Jango e a implantação do regime militar, que durou 20 anos. Juscelino e Lacerda apoiaram a destituição de Jango, mas acabaram tendo os direitos políticos cassados.

Perguntem ao ex-governador João Doria, candidato do PSDB: quem é o seu adversário principal? A mesma pergunta pode ser feita a Simone Tebet (MDB) ou a Ciro Gomes (PDT), que continuam na pista. Não quererão responder agora. Eduardo Leite e Sergio Moro, sem legenda para concorrer, também. O problema da terceira via não é somente chegar a um acordo em torno daquele que for mais competitivo. Se fosse, hoje, o candidato único seria Ciro Gomes, como poderia ser Moro, se não houvesse tropeçado na própria esperteza ao trocar o Podemos pela União Brasil.

A unificação da terceira via tem um polo centrípeto: a questão da democracia. Bolsonaro defende um projeto de “democracia restrita”, ou “iliberal”, como agora se diz. Contra esse projeto se batem todas as forças que defendem a nossa “democracia ampliada”, consagrada na Constituição de 1988. Mas isso é considerado assunto para o segundo turno. O xis da questão é polo centrífugo: quem é o adversário a ser deslocado no primeiro turno. Pela lógica das pesquisas, o segundo colocado, Bolsonaro, seria mais fácil de remover da disputa do que Lula, o primeiro. Entretanto, a terceira via desloca sua linha de tiro de Bolsonaro para Lula, que busca velhos aliados ao centro para inviabilizá-la de vez.

Correio Braziliense

Dinheiro não é capim. Acorda, Brasil!

 




Como é que se promete um conjunto de escolas novas de quase R$ 6 bilhões, se o orçamento disponível não passa de R$ 0,1 bilhão?

Por Felipe Salto* (foto)

Breno Pires, André Shalders e Julia Affonso escreveram uma das matérias mais importantes de 2022. O trabalho foi capa do Estadão de domingo (10 de abril). Apesar das 3,5 mil escolas inacabadas no País, estão jogando recurso público pela janela para sustentar a fantasia de erguer mais 2 mil. A questão é que o orçamento “disponível” não representa nem 0,5% do necessário para as novas escolas. Basta desses despautérios.

Que bom seria se tivéssemos, nas leis e na Constituição, normas a brecar essa sandice. Pois é, já as temos, como aprendi com Daniel Couri, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI). Mas nem só de regras, normas, leis, postulados, papel e rios de tinta vive o bom uso do dinheiro público. Eles precisam ser combinados à atividade política, à cultura, ao bom funcionamento das instituições e a valores, muitas vezes, ignorados.

A Emenda Constitucional n.º 102, de 2019, inseriu o parágrafo 12 ao artigo 165 para determinar que: “Integrará a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) (...) anexo com previsão de agregados fiscais e a proporção dos recursos para investimentos que serão alocados na Lei Orçamentária Anual para a continuidade daqueles em andamento”. Ainda, no parágrafo 14: “A Lei Orçamentária Anual poderá conter previsões de despesas para exercícios seguintes, com a especificação dos investimentos plurianuais e daqueles em andamento”.

Na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o artigo 45 manda priorizar as obras inacabadas: “(...) a lei orçamentária e as de créditos adicionais só incluirão novos projetos após adequadamente atendidos os em andamento (...), nos termos em que dispuser a Lei de Diretrizes Orçamentárias”.

Por sua vez, a LDO de 2022 (essa lei é anual) diz, no artigo 20, que o Orçamento só pode incluir novos projetos de investimento se as obras em andamento, inclusive as do Plano Plurianual, estiverem “adequadamente” contempladas. Também determina a alocação prioritária de recursos para concluir, no mínimo, uma etapa de cada projeto. Isto é, não se pode abandonar uma obra iniciada no passado, tampouco destinar recurso que não dê conta de financiar ao menos uma parte relevante de um projeto.

É assim que a lei já diz o óbvio: priorizem-se as obras em andamento, que já custaram uma montanha de dinheiro público! A ideia é simples, qualquer um entende. Uma obra inacabada não gera valor para a sociedade, mas custa ao erário. De que adianta ter um cemitério de obras paradas pelo País e iniciar, a torto e a direito, mais e mais projetos sem critério?

Como os competentes jornalistas mostraram, enquanto há milhares de escolas aguardando recursos para serem finalizadas, autoriza-se a construção de outras 2 mil. O truque é, na verdade, uma burla ao espírito da responsabilidade fiscal, para dizer o mínimo.

Vamo-nos entender: o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) não tem orçamento suficiente para construir as novas escolas prometidas, tampouco para terminar as outras 3,5 mil. Para fazer as duas coisas (R$ 7,6 bilhões), o orçamento teria de equivaler a 67 vezes o atual (de pouco mais de R$ 110 milhões). O dinheiro não existe! No máximo, vai se iniciar um conjunto de novas obras, ampliando o cemitério.

Essa espécie de milagre da multiplicação – em que um orçamento tão pequeno sustenta promessas bilionárias –, à primeira vista é criatividade pura. Empenha-se (primeira etapa do orçamento para realizar qualquer despesa pública) um porcentual mínimo para “iniciar” o projeto da escola, mas, no discurso, promete-se a escola inteirinha e funcionando. Ludibria-se o povo em ano de eleições. Rasgam-se a Constituição, a LRF e a LDO. “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”.

O dinheiro público está sendo tratado como qualquer coisa que se encontra na rua. Os princípios da clareza, da especificação, da programação e da transparência passam longe desse estratagema. Que dizer do realismo nas projeções e programações? Como é que se promete um conjunto de escolas novas de quase R$ 6 bilhões, se o orçamento disponível não passa de R$ 0,1 bilhão?

O Tribunal de Contas da União (TCU) tem informado o governo e o Congresso, há vários anos, sobre o problema das obras inacabadas. O chamado Fiscobras é um relatório anual sobre fiscalização de obras públicas encaminhado ao Congresso durante a tramitação da peça orçamentária. Na última edição, a Corte de Contas cobrou diretamente do Executivo a “definição de critérios objetivos para priorização dos projetos e investimentos de infraestrutura na elaboração do Orçamento, com identificação das ações prioritárias de cada ministério, com vistas ao melhor alinhamento das emendas orçamentárias com o planejamento estratégico governamental”.

O problema é que não bastam a lei, a atuação dos órgãos de controle e as denúncias da imprensa. Só vamos sair desta verdadeira feira livre que virou o Orçamento público quando houver planejamento e compromisso com a responsabilidade fiscal, isto é, com o bom uso do dinheiro público. Não há lei capaz de enfiar isso na cabeça de ninguém. Basta de escoar recurso público, que é escasso, pelo ralo. Dinheiro não é capim. Acorda, Brasil!

*Diretor-Executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, com mandato de 2016 a 2022.

O Estado de São Paulo

Putin alerta que Rússia não pode ser isolada

 




Para ele, objetivos na Ucrânia serão alcançados

Londres - O presidente russo, Vladimir Putin, alertou o Ocidente, nesta terça-feira (12), de que as tentativas de isolar Moscou vão fracassar. Ele citou o sucesso do programa espacial soviético como prova de que a Rússia pode alcançar avanços espetaculares em condições difíceis.

A Rússia garante que nunca mais vai depender do Ocidente, depois que os Estados Unidos (EUA) e aliados impuseram sanções para punir Putin, por sua ordem de 24 de fevereiro para invadir a Ucrânia, o que chamou de "operação militar especial".

Sessenta e um anos depois que Yuri Gagarin, da União Soviética, entrou para os livros de história ao se tornar o primeiro homem no espaço, Putin viajou para o Cosmódromo Vostochny, no extremo oriente da Rússia, 5.550 quilômetros a leste de Moscou.

"As sanções foram totais, o isolamento foi completo, mas a União Soviética ainda foi a primeira no espaço", disse Putin, segundo a televisão estatal russa.

"Não pretendemos ficar isolados", afirmou o presidente. "É impossível isolar severamente qualquer um no mundo moderno - especialmente um país tão vasto como a Rússia."

Os sucessos espaciais russos da Guerra Fria, como o voo de Gagarin e o lançamento, em 1957, do Sputnik 1, primeiro satélite artificial da Terra, têm importância especial para a Rússia: ambos os eventos chocaram os Estados Unidos. O lançamento do Sputnik 1 levou o país a criar a Nasa, em tentativa de alcançar Moscou.

Putin diz que a "operação militar especial" na Ucrânia é necessária porque os EUA estavam usando o país para ameaçar a Rússia - inclusive por meio da aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - e que Moscou teve que defender o povo de língua russa da perseguição na Ucrânia.

Putin afirmou ainda que não tem dúvida de que a Rússia alcançará todos os seus objetivos na Ucrânia - um conflito que classificou como inevitável e essencial para defender seu país em longo prazo.

"Os objetivos são absolutamente claros e nobres", acrescentou. "Está claro que não tivemos escolha. Foi a decisão certa."

Reuters / Agência Brasil

Boris Johnson e ministro britânico serão multados por festas



Festas foram feitas durante confinamento, no período da pandemia

Por Andreia Martins 

Londres - O governo britânico anunciou nesta terça-feira (12) que o primeiro-ministro, Boris Johnson, e o ministro das Finanças, Rishi Sunak, vão ser multados por terem participado de festas que violaram as regras vigentes durante o confinamento, em meio à pandemia de covid-19.

A notificação foi enviada pela Polícia Metropolitana de Londres.

Até o momento, não há informações sobre detalhes das multas, incluindo o valor, disse porta-voz citado pela BBC.

A Polícia Metropolitana de Londres investiga denúncias de infrações às normas de contenção da covid-19 em 12 festas que ocorreram nos anos de 2020 e 2021 em Whitehall e Downing Street. Já foram aplicadas 50 multas a funcionários do governo britânico.

Alguns desses encontros ocorreram no momento em que a participação em funerais e a visita a hospitais estava limitada devido à pandemia. O escândalo veio a público no fim de 2021 e ficou conhecido na imprensa por "Partygate". 

O primeiro-ministro britânico garantiu, quando surgiram as denúncias, que todas as regras tinham sido cumpridas, mas acabou por pedir desculpa no Parlamento por ter participado de um dos eventos.

Boris Johnson pediu também desculpa à rainha Elizabeth II por ter participado de outra festa, que ocorreu na véspera do funeral do Duque de Edimburgo, em 16 de abril de 2021.

As autoridades tinham dito que não iriam revelar os nomes dos políticos multados, mas o governo britânico tinha prometido que divulgaria a informação caso Boris Johnson fosse um deles.

Na primeira reação a essas multas, o líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer, exigiu a demissão dos dois governantes do Partido Conservador.

"Boris Johnson e Rishi Sunak infringiram a lei e mentiram repetidamente ao público britânico. Ambos devem se demitir. Os conservadores são totalmente incapazes de governar. O Reino Unido merece melhor", afirmou o líder trabalhista no Twitter.

O líder dos Liberais Democratas, Ed Davey, disse que o Parlamento britânico deve votar moção de censura contra o primeiro-ministro.

"Esse é um governo em crise, a negligenciar um país em crise. O Parlamento deve ser chamado a votar moção de censura contra o primeiro-ministro", defendeu em tuíte.

Ele considerou que Boris Johnson não pode continuar como premiê. "Nenhum outro líder, em qualquer organização, teria permissão para continuar depois de uma violação da lei nessa escala".

RTP - Rádio e Televisão de Portugal

Agência Brasil

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Boris Johnson é multado por festa durante lockdown

Pressão por renúncia do premiê britânico aumenta após Polícia Metropolitana emitir multa pela realização de eventos na sede do governo enquanto país estava confinado.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, e o ministro da Economia, Rishi Sunak, foram multados por terem participado de festas em Downing Street, sede do governo britânico, quando vigoravam restrições devido à pandemia de covid-19, confirmou nesta terça-feira (12/04) um porta-voz do chefe de governo.

"O primeiro-ministro e o ministro da Economia receberam hoje notificações de que a Polícia Metropolitana pretende multá-los", disse o porta-voz do governo. "Não temos mais detalhes, mas entraremos em contato quando os tivermos", acrescentou.

Segundo a Polícia Metropolitana de Londres, já foram emitidas mais de 50 sanções a funcionários do governo por violar os regulamentos anticovid.

De acordo com a emissora Sky News, tanto o primeiro-ministro quanto sua esposa, Carrie Johnson, tiveram que pagar uma multa de 50 libras (cerca de R$ 300), que foi reduzida por ter sido quitada no prazo de 14 dias.

As forças de segurança estão investigando 12 festas e eventos sociais tanto em Downing Street quanto em outros edifícios governamentais, incluindo pelo menos três em que o primeiro-ministro britânico teria comparecido. Por essa razão, outras multas ainda poderão ser emitidas. As festas teriam ocorrido em oito datas ao longo de 2020 e 2021.

Pressão por renúncia

O chamado "Partygate"causou uma onda de indignação entre os britânicos, impedidos de se encontrarem com amigos e familiares durante meses em 2020 e 2021 para conter a propagação da covid-19. Dezenas de milhares de cidadãos foram multados pela polícia por desrespeitarem as regras.  

Nesta terça-feira, após a notícia das multas, o líder da oposição, Keir Starmer, exigiu que Johnson e Sunak renunciem por terem violado a lei e "mentido repetidamente aos britânicos".

"Os conservadores estão totalmente desacreditados para governar. O Reino Unido merece algo melhor", escreveu Starmer no Twitter.

Embora tivesse pressionado por uma renúncia no começo do ano, Stamer havia pausado as críticas desde que eclodiu o conflito na Ucrânia, temendo uma instabilidade política ainda maior. O mesmo havia ocorrido com colegas de Johnson do Partido Conservador,

Também nesta terça-feira, o primeiro-ministro escocês, Nicola Sturgeon, do Partido Nacional Escocês, e o prefeito de Londres, Sadiq Khan, do Partido Trabalhista, pediram a Johnson que renuncie.

A Scotland Yard disse que está tentando concluir a investigação o mais rápido possível. 

Relatório apontou falhas graves

No final de janeiro, a alta funcionária pública Sue Gray publicou um relatório parcial sobre as festas durante a pandemia, apontando "falhas de liderança e julgamento" por parte do governo por não ter evitado reuniões sociais quando a população britânica estava sujeita a restrições estritas.

Ela também chamou a atenção para o "consumo excessivo de álcool" em Downing Street. O relatório revela apenas parcialmente suas investigações para não interferir na investigação policial em andamento. Gray fez algumas observações duras e críticas no documento de 12 páginas. 

"Houve falhas de liderança e discernimento por diferentes elementos do Número 10 [da Downing Street, em Londres, gabinete do primeiro-ministro] e do Gabinete [governo] em momentos diferentes. No contexto da pandemia, quando o governo pedia aos cidadãos que aceitassem restrições profundas nas suas vidas, alguns dos comportamentos [...] são difíceis de justificar."

"Alguns dos eventos não deveriam ter sido permitidos. Outros eventos não deveriam ter sido autorizados a ocorrer como ocorreram", censura o texto, ressaltando também "o consumo excessivo de álcool" naquele que é um local de trabalho. 

Segundo o relatório, "pelo menos algumas das reuniões em causa representam uma falha grave em cumprir não apenas os altos padrões esperados daqueles que trabalham no núcleo do governo, mas também os padrões esperados de toda a população britânica na época". 

'Em janeiro, Johnson se desculpou perante ao Parlamento britânico por sua conduta'

Johnson pede desculpas

Johnson pediu desculpas nesta terça-feira, mas descartou apresentar sua renúncia, como exige a oposição.

"Com toda a sinceridade, naquele momento não pensei que pudesse ser uma violação das regras", disse o chefe do governo britânico em um vídeo distribuído à imprensa, detalhando que pagou a multa imposta pela polícia por participar de uma festa pelo seu aniversário em seu gabinete em junho de 2020.

"Quero poder continuar com o mandato que tenho e abordar os problemas que o país está enfrentando, garantir que cumprimos com o que o povo deste país espera. Essa é minha prioridade", declarou Johnson.

No vídeo, Johnson descreveu a festa de aniversário como um breve encontro com colegas em Downing Street. 

"Foi uma breve reunião no escritório do gabinete pouco depois das duas da tarde, com duração inferior a dez minutos, na qual as pessoas com quem trabalho gentilmente se aproximaram para me dar parabéns", descreveu.

 Além disso, assegurou que naquele momento não achava que a celebração violasse as restrições impostas pela pandemia de covid-19. "Agora, humildemente, aceito que fiz isso", comentou.

Em relação às demais festas realizadas em gabinetes governamentais durante a pandemia, Johnson assegurou que assume "total responsabilidade por tudo", embora tenha argumentado que existem "centenas e centenas de funcionários" trabalhando para o Executivo e que "não poderia estar em todas as partes ao mesmo tempo". 

Depois que as festas vieram à tona, Johnson já havia se desculpou publicamente e ao Parlamento, em janeiro. "Lamento pelas coisas que simplesmente não acertamos e pela forma como este assunto foi tratado. Não adianta dizer isso ou aquilo, estava nas regras", disse em janeiro.

"Este é um momento em que devemos nos olhar no espelho e aprender. Eu percebo [o problema] e vou corrigi-lo", prometeu.

Entre os outros eventos sob investigação da polícia estão um nos alojamentos privados de Johnson, em 13 de novembro de 2020, quando o assessor Dominic Cummings se demitiu, e dois encontros na véspera do funeral do príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth 2ª, quando o Reino Unido estava em luto oficial.

A polícia recebeu para análise mais de 300 imagens e 500 páginas de informações.

Deutsche Welle

Em qual político citado abaixo você votaria?




É arriscado escolher candidatos com base em perfis superficiais

Por Pedro Cafardo (foto)

Com a proximidade das eleições, vale pedir ao leitor um exercício: votar em um dos três candidatos cujos perfis estão resumidos abaixo.

O primeiro teve poliomielite e demonstra dificuldade para caminhar, é hipertenso e anêmico, mente quando lhe convém e consulta astrólogos sobre política. Fuma muito e trai a mulher.

O segundo tem sobrepeso, pressão alta, já sofreu dois ataques cardíacos e perdeu três eleições. É difícil trabalhar ao lado dele, porque fuma charutos sem parar. Toda noite toma champanhe, vinho ou uísque e dois calmantes para dormir.

O terceiro é um cabo herói de guerra condecorado que trata bem as mulheres, ama animais, não fuma e só bebe uma cerveja em ocasiões especiais.

Esse exercício de voto foi feito a seus alunos pelo professor Martin, interpretado pelo ator dinamarquês Mads Mikkelsen, no filme “Druk - Mais uma Rodada”, Oscar de melhor filme internacional em 2021. E qual dos três candidatos foi escolhido pelos alunos? Todos disseram que votariam no terceiro. Aí o professor Martin revelou os nomes dos candidatos.

O primeiro nome é do presidente dos EUA entre 1933 e 1945, Franklin Roosevelt, que tirou o país da “grande depressão” e o conduziu à vitória na Segunda Guerra Mundial.

O segundo é Winston Churchill, estadista britânico, um dos políticos mais importantes da história do Reino Unido, prêmio Nobel de Literatura em 1953 pela monumental obra “Memórias da Segunda Guerra Mundial”. Foi o artífice europeu da vitória aliada na guerra.

O terceiro é Adolf Hitler, o líder nazista que levou à morte 60 milhões de pessoas na Segunda Guerra Mundial e que dispensa mais apresentações.

O filme, dirigido pelo dinamarquês Thomas Vinterberg, é polêmico, porque defende, no início, uma teoria que passa longe do “politicamente correto”: manter um nível constante de álcool no sangue melhora a vida e o desempenho das pessoas. Ao longo do filme, porém, os quatro professores que aderiram à prática percebem que nem tudo é tão simples.

O exercício do professor Martin indica o quão difícil é escolher políticos com base em perfis superficiais. Os brasileiros já cometeram vários erros na escolha de presidentes, elegendo incompetentes ou antidemocráticos. De tempos em tempos, um “salvador da pátria”, geralmente com promessas de eliminar a corrupção, é galgado ao comando o país.

Getúlio Vargas, mesmo após ter sido ditador durante 15 anos, assumiu em 1951 pelo voto e não suportou pressões políticas e acusações de corrupção: suicidou-se em agosto de 1954.

Jânio Quadros encantou o país com sua vassourinha mágica que iria “varrer a bandalheira” e suas falsas caspas no paletó. Renunciou em 1961 por incompetência política, depois de seis meses no cargo e abriu espaço para a posse do vice João Goulart e para o golpe militar que imporia ditadura de 20 anos ao país.

Fernando Collor, desconhecido governador de Alagoas, ganhou o voto popular com suas promessas de caça aos marajás, assumiu em 1990 e sofreu impeachment em 1992, acusado de corrupção.

Dilma Rousseff, reeleita em 2014, também foi afastada em 2016, sob a acusação de irresponsabilidade fiscal (para a esquerda, foi um golpe parlamentar).

Jair Bolsonaro foi eleito em 2018, em meio à avalanche anticorrupção da Lava-Jato. Hoje, segundo pesquisa Datafolha, é rejeitado por 55% dos eleitores. Só no período da pandemia foi acusado de cometer nove crimes por CPI do Senado. Permanece no cargo amparado pelas muralhas da PGR e da presidência da Câmara. Vai tentar a reeleição.

As escolhas equivocadas são um risco inerente à democracia, muito menor, certamente, do que o das autocracias ou ditaduras. As experiências eleitorais brasileiras recentes mostram que erros ocorrem mesmo em casos de candidatos que já tenham exercido cargos executivos. Jânio Quadros e Fernando Collor, por exemplo, haviam sido governadores, mas não tinham maturidade política para ocupar a Presidência. Comportamentos aparentemente conservadores ou progressistas, “politicamente corretos”, não garantem que o candidato venha a ser um bom gestor e, principalmente, um comandante inflexível no comprometimento com a democracia e com a busca do bem-estar dos cidadãos.

Propostas e comportamentos antidemocráticos do passado não podem ser relevados pelo eleitor com desculpa ou esperança de que o candidato mudará de ideia depois de eleito. “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”, já ironizava o Barão de Itararé.

Promessas milagrosas, obviamente, nunca são cumpridas. Populistas radicais, à direita e à esquerda, que vendem rigorosa austeridade fiscal (“é proibido gastar”) ou impagáveis benesses sociais, em geral cometem estelionato eleitoral. E centristas “em cima do muro” tendem a ser inoperantes.

Quem ainda sonha com a eleição de um “salvador da pátria”, da primeira, segunda ou terceira via, poderia refletir um pouco sobre o exercício do professor Martin e sobre a surrada frase de Churchill, em 14 de maio de 1940, em plena Segunda Guerra, quando pediu à Câmara dos Comuns um voto de confiança a seu governo: “Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, suor e lágrimas.”

Essas quatro coisas fazem muita falta ao Brasil e foram escassas nos últimos anos, especialmente as lágrimas governamentais durante a pandemia. O problema não é polarização, mas qualidade e compaixão dos que ocupam os polos.

Saneamento e democracia

Já que estamos juntando cenas de cinema a escolhas democráticas, é oportuno lembrar uma passagem do “Tigre Branco”, filme indiano do diretor Ramin Bahrani, lançado em 2021. Um motorista do interior do país, narrador e protagonista do filme, a certa altura diz: “Se eu governasse a Índia, faria primeiro o saneamento básico e depois a democracia”. É possível entender a opção do motorista, porque a Índia, a maior democracia do mundo, tem deficiências assustadoras na área de saneamento básico.

A Índia, porém, tem uma sociedade considerada cruel principalmente por causa do sistema de castas, não oficial, que na prática impede a ascensão social de grande parte de sua população. Mas não há dúvida de que, com 1,3 bilhão de habitantes, a situação do saneamento seria ainda pior sob ditaduras ou autocracia

Valor Econômico

O comunismo fez de mim uma pessoa melhor




Posso não receber ucranianos em casa, mas os comunistas vão mais longe e recusam-se a sequer falar com um deles por Zoom. 

Por José Diogo Quintela (foto)

A guerra na Ucrânia fez sobressair as melhores qualidades dos portugueses. A solidariedade e o espírito de entreajuda que levaram milhares de pessoas a irem buscar refugiados ucranianos e a acolhê-los em suas casas, muitas vezes com grande sacrifício pessoal, revela a nobreza de alma do povo português. Infelizmente, a crise ucraniana também fez sobressair as piores qualidades de alguns portugueses. Quer dizer, de um português. Para ser preciso, as minhas. Sobretudo, o egoísmo e a falta de carácter que estão por detrás da minha irritação por haver tanta gente a praticar boas acções enquanto eu não mexo uma palha. Nem por compatriotas, quanto mais por ucranianos: ainda nem sequer me dei ao trabalho de tratar da consignação dos 0,5% do IRS a uma boa causa, por ter fastio em mandar um SMS à minha contabilista.

Considero-me um estóico das redes sociais. Não me deixo abalar pelas estupendas vidas que por lá andam. Consigo ver no Instagram, sem ponta de inveja, fotografias de festas espectaculares, de jantares de grupo muito divertidos, de férias paradisíacas em ilhas desertas, de filhos perfeitos que combinam excelência académica com a titularidade da selecção nacional de rugby e uma cara livre de acne. Até me congratulo com estas demonstrações de contentamento alheio. Chego mesmo a carregar no coraçãozinho. Mas, desde o mês passado, tenho de admitir que já desamiguei várias pessoas só para não ter de comparar os sorrisos das famílias ucranianas que elas estão a ajudar, com o ar sisudo da família ucraniana por quem não estou a fazer absolutamente nada de nada. Arrelia-me. Não é que me importe de ser má pessoa, não gosto é de ser constantemente lembrado. Não consigo engolir nem mais um ucraniano feliz com a sua nova família portuguesa. Ou uma família portuguesa feliz com o seu novo ucraniano, já nem sei bem.

(Vêem? É este género de aparte acintoso que não consigo evitar).

“O meu Vasily já trabalha!” “O Iuri montou uma start-up em 5 dias!” “Ao fim de uma semana, a Svetlana é a melhor aluna da turma a português!” Chega a parecer que há uma competição para ver quem tem o melhor refugiado. E quem lhe proporciona melhores condições de refúgio. Uma família ucraniana é a nova casa na Comporta. É a semana de ski nos Alpes para os friorentos.

(É muito azedume da minha parte, eu sei).

A procura é tanta que há quem chegue a meio da Roménia e carregue logo o carro com quaisquer pessoas, desde que sejam loiras. E já começa a haver falta de ucranianos de qualidade a quem prestar ajuda. Soube de um conhecido que arranjou uma camioneta de 70 lugares para ir à Ucrânia levar ucranianos que já cá estão, para que os portugueses depois tenham oportunidade de poderem ir lá auxiliá-los.

(Eu avisei que isto me estava a tornar muito mesquinho).

Haver tantas boas pessoas a fazer tanto bem está-me a deixar com uma azia tramada. Sinto-me a pior pessoa do país. Felizmente, sei que isso não é verdade: pior que eu ainda há os militantes do PCP. Posso não receber ucranianos em casa, mas os comunistas vão mais longe e recusam-se a sequer falar com um deles por Zoom. O PCP foi o único partido a votar contra o convite a Zelensky para discursar na AR. É estranho que um partido que gosta tanto de revoluções, rejeite desta forma a revolução digital.

O PCP considera que receber uma videochamada do Presidente de uma nação invadida encoraja a guerra. E talvez tenha razão, se pensarmos que conversar com um mendigo sobre as suas necessidades é um incentivo à pobreza. Mas eu percebo o PCP. Também não gosto de ser incomodado com telefonemas de pessoas a falarem de produtos que não me interessam. A mim são os pacotes de voz + dados móveis, não vejo utilidade nenhuma nisso. Aos comunistas é a liberdade e a democracia.

Esta guerra obriga-me a fazer uma auto-análise profunda. Olho para a minha inércia com o que se passa na Ucrânia e para o cinismo com que encaro quem ajuda, e penso: “Zé Diogo, és um escroque. Mas ao menos não militas no PCP”.

Observador (PT)

A campanha desabrocha




Por Carlos Brickmann (foto)

Stanislaw Ponte Preta foi um dos melhores e mais divertidos cronistas da nossa história. Fez de tudo – até mesmo a inesquecível música que hoje seria chamada de O Samba do Afrodescendente Portador de Problemas de Equilíbrio Mental. É o autor da frase que melhor explica o Brasil de hoje: estamos indo para o perigoso terreno da galhofa.

A turma de Lula nega corrupção, embora alguns já tenham até devolvido algum dinheiro. Lula não tem condenação, como Bolsonaro também não tem – tem apenas aquela coisa da empreiteira que ganha todas, tem as rachadinhas, tem apoio do Valdemar Costa Neto e o Ciro Nogueira é seu ministro. Mas o que leva ao perigoso terreno da galhofa é a maciça compra de genéricos de Viagra para as Forças Armadas. Para que 35 mil comprimidos de Viagra genérico? Marinha e Aeronáutica informam que é para tratar Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP), "uma síndrome clínica e hemodinâmica que resulta no aumento da resistência vascular na pequena circulação, elevando os níveis de pressão na circulação pulmonar”. Beleza!

Mas em dosagens de 25 e 50 mg? Nessas dosagens, indica a bula, e especialistas confirmam, o produto é indicado apenas para aquilo que todos imaginam. Preço? Uma compra indica R$ 3,65 por comprimido de 25 mg. Outra, R$ 1,50. Numa grande rede de farmácias de São Paulo, a caixa de Citrato de Sildenafila Sandoz, com oito comprimidos de 50 mg, custa R$ 15,17. Sem negociação prévia e no varejo.

Pura maldade

Depois do Mensalão, Petrolão, Bolsolão, o Escândalo do Apontaochão.

Divergências

É curioso como um governo consegue ter políticas divergentes conforme o setor em que atua. Quem acompanha a política oficial de afrouxar todos os controles sobre o desmatamento da Amazônia seria capaz de garantir que a orientação governamental é permitir a derrubada de tudo que é pau em pé.

Tucanos depenados

Um dos mais tradicionais políticos tucanos, Aloysio Nunes Ferreira Filho, que foi chanceler de Michel Temer (e candidato a vice de Aécio, em 2014), diz que o PSDB pode estar em fase terminal. Não é a favor nem contra Bolsonaro; não se manifestou quando o presidente se revelou uma ameaça real à democracia; deixou de se preocupar com as grandes questões nacionais e permitiu que boa parte de seus parlamentares se achegasse ao Governo, “para participar de um pedaço das emendas de relator, uma nomeaçãozinha aqui, uma nomeaçãozinha ali”. Aloysio, em entrevista à CNN, disse que não vai deixar o partido, “embora o PSDB tenha ficado inerte diante de fatos gravíssimos que ocorreram na política brasileira e no Governo Bolsonaro”.

Aloysio vem conversando com Lula desde janeiro e provavelmente irá apoiá-lo, porque, a seu ver, não representa qualquer ameaça à democracia.

Cristianização

Simone Tebet é uma boa parlamentar, filha de um bom parlamentar, teve papel relevante na CPI da Covid. Pode até ser candidata da terceira via. Mas do MDB, seu partido, é que não será, mesmo que a convenção do partido a aclame. O MDB chegou duas vezes à Presidência, em ambas com a posse do vice. Com candidato próprio, perdeu com Ulysses, Quércia e Henrique Meirelles. Hoje, se divide entre bolsonaristas e lulistas, estes sob o comando de Sarney e Renan. Se Simone sair candidata, será cristianizada – como ocorreu com Cristiano Machado, candidato do PSD à Presidência, em 1950, que viu seu partido, o maior do país, largá-lo e migrar para Getúlio Vargas.

Terceira via?

Não há terceira via. Há um sonho que dificilmente dará certo. Pegue todos os candidatos de terceira via e tente descobrir por que querem chegar ao poder. Todos são contra Lula e Bolsonaro (embora, conforme as pesquisas, os eleitores de Moro estejam seguindo para Bolsonaro). Mas de que é que são a favor? Escolha um partido com tradição de estudos políticos, como por exemplo o PSDB. Está pelo menos tão rachado quanto o MDB (e, pior, virou bolsonarista sem se declarar a favor de Bolsonaro).

Teste pessoalmente: os tucanos votaram com Bolsonaro pelo menos tantas vezes quanto o Centrão. Se Doria for o candidato, se Leite for o candidato, ambos fecharam em 2018 com Bolsonaro, e deixaram o candidato do partido pendurado na brocha –sem alusão, respeitosamente, a qualquer compra feita pelo Governo.

Boa notícia

A Universidade de São Paulo teve onze de seus cursos incluídos na lista de 50 melhores do mundo. A classificação foi publicada nos últimos dia pela Quacquarelli Symonds, empresa do Reino Unido dedicada à análise de qualidade de ensino. O curso da USP com melhor classificação foi Odontologia, em 15º. Na classificação geral, a USP está em 121º lugar entre 1.500 universidades de 88 países. É a melhor universidade brasileira e a terceira da América Latina.

Brickmann.com.br

O risco dos extremos na França - Editorial




Macron ainda é favorito para vencer a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen, mas a erosão do centro democrático nos últimos cinco anos é visível

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais francesas replicou o de 2017. O centrista e hoje incumbente Emmanuel Macron (do partido República em Marcha) enfrentará a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen (Reunião Nacional). O favoritismo ainda é de Macron, mas desde o início das eleições esse favoritismo diminuiu, e Le Pen tem hoje mais chances de virar o jogo, no dia 24, do que tinha em 2017. Para democratas e liberais franceses, a situação é de alerta. Para seus pares na Europa e no mundo o pleito francês é uma advertência.

Macron terminou o primeiro turno de 2017 com 24% dos votos. Agora atingiu quase 28%. A melhora reflete alguns resultados de sua gestão. Entre eles, o corte de impostos para empresas e famílias, a redução do desemprego, os programas de educação e capacitação e o desempenho na pandemia. O país tem mais vacinados que a média da Europa e sua economia se recuperou mais rápido. Macron revigorou o papel da França na União Europeia (UE), sua voz foi decisiva para o ambicioso fundo de recuperação pós-covid e vem sendo para equipar o bloco econômica e militarmente em tempos de incerteza geopolítica.

Por outro lado, seu “diálogo estratégico” com Vladimir Putin, presidente da Rússia, se mostrou ineficiente; e seu desinteresse pela Otan, temerário. Sua reforma da Previdência ficou congelada. Ele descobriu que a demagogia verde pode capitalizar menos apoio do que a popularidade do ambientalismo sugere: uma taxa sobre o diesel em 2018 deflagrou as revoltas populares dos “coletes amarelos”, das quais sua administração nunca se recuperou totalmente. Ele luta para se livrar da imagem pública de “presidente dos ricos”, conquistar a juventude e os que se sentem “deixados para trás” e mobilizar partidos na centro-esquerda e centro-direita. Em uma pesquisa recente, 60% dos franceses disseram não confiar em Macron, e 60% a 75% dizem que o país está em declínio.

Em 2017, Macron venceu Le Pen com sólidos 66% dos votos. Os estatísticos do Grupo The Economist e uma pesquisa do instituto YouGov projetam agora uma vitória bem mais apertada: algo entre 51% a 53%. Sintomaticamente, Le Pen tem mais apoio em quase todas as faixas etárias abaixo dos 55 anos.

A erosão do centro é visível, mas talvez seja menos tributável ao desânimo com Macron do que aos ânimos extremistas. Os votos combinados dos partidos tradicionais, Republicanos e Socialistas, caíram de 26% para 6,5%. Cerca de 60% dos franceses votaram em um candidato populista ou radical. O terceiro colocado, o radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon, perdeu para Le Pen por pouco.

Le Pen aumentou seus votos em mais de dois pontos porcentuais em relação aos 21% de 2017. Sua campanha foi mais pragmática, focando na redução do custo de vida e na imagem de uma líder capaz de tranquilizar o país em meio à crise. A campanha do ultrarreacionário Éric Zemmour (7% dos votos) ajudou a lhe dar ares moderados.

Mas todos os aspectos tóxicos de sua ideologia nacionalista permanecem no seu programa de governo, como o dirigismo econômico, a hostilidade em relação à UE e à Otan, a promessa de privilegiar os cidadãos franceses em relação a estrangeiros nas ofertas de emprego e moradia ou as ameaças aos costumes muçulmanos. No segundo turno, além da possível abstenção de verdes e socialistas, ela contará não só com os votos de Zemmour, mas com cerca de 20% dos votos de Mélenchon.

O avanço dos extremos na França serve de advertência aos centristas do mundo. Ele expõe a importância das alianças com partidos moderados, um tanto negligenciada por Macron. Em uma época de tribalismos e identitarismos exaltados e intensificados com a crise pandêmica e geopolítica, liberais e democratas têm o desafio de, sem renunciar à responsabilidade política e econômica, encontrar a fórmula quase mágica para serem populares sem serem populistas. Se vencer o desafio das eleições, Macron terá o desafio ainda maior de revigorar as instituições políticas na França. Como ele mesmo disse em 2016, “se não nos unirmos, em cinco ou dez anos”, Le Pen “estará no poder”.

Folha de São Paulo

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