quarta-feira, abril 13, 2022

ONG: custo de energia e alimentos arrasta milhões para pobreza extrema

 




Alerta é de organização não governamental Oxfam

Lisboa - Mais de 250 milhões estão em risco de atingir a pobreza extrema, alerta a organização não governamental (ONG) Oxfam. A invasão da Ucrânia pela Rússia desencadeou um aumento de preços dos alimentos e dos combustíveis, e a Oxfam defende que é necessário o cancelamento das dívidas dos países mais pobres para combater o "pior colapso na pobreza". A ONG pede ajuda internacional urgente.

"Sem uma ação radical imediata, poderemos estar testemunhando o mais profundo colapso da humanidade em extrema pobreza e sofrimento de que se tem memória", afirmou Gabriela Bucher, diretora executiva internacional da Oxfam.

Devido à guerra na Ucrânia, o custo energético disparou e os preços do trigo, óleo vegetal, milho e grãos estão atingindo recordes.

"As repercussões do conflito ucraniano no sistema alimentar global atingirão o mundo todo, mas são as pessoas mais pobres e vulneráveis que estarão entre as mais atingidas e mais rapidamente. O aumento dos preços dos alimentos é um golpe de martelo para milhões de pessoas que já sofrem várias crises e tornam o enorme déficit de ajuda potencialmente letal",  disse Bucher.

A Oxfam destaca que "governos endividados podem ser forçados a cortar gastos públicos para responder ao aumento do custo de importação de combustível e alimentos". Os Estados mais endividados poderiam se beneficiar do cancelamento de pagamentos de dívidas nos próximos dois anos, propõe a Oxfam. A quantia estimada de US$ 30 bilhões das dívidas poderia ser redirecionada para o combate ao custo das importações desses países.

Mais impostos

A organização também sustenta que os mais ricos e as empresas que tem tirado dividendos com a pandemia e com a guerra deveriam pagar pagar mais impostos. A Oxfam apela ao G20 que crie um fundo de US$ 100 bilhões "para os países pobres utilizarem e protegerem os mais carentes da inflação por meio de subsídios e cortes de impostos sobre bens e serviços".

O Banco Mundial já tinha estimado que 198 milhões de pessoas poderiam ser empurradas para a pobreza extrema este ano, como resultado da pandemia. Se a guerra na Ucrânia e o aumento dos preços da energia forem somados à covid-19, a Oxfam estima que mais 65 milhões de pessoas serão afetadas.

Estima-se que o Oriente Médio e regiões da África sejam particularmente afetados por causa da interrupção das importações de cereais provenientes da região do Mar Negro, que agravaram as crises econômicas e climáticas já existentes.

Em toda a África Oriental estima-se que mais de 28 milhões de pessoas ficarão subnutridas como resultado dos preços globais de alimentos.

A Oxfam adverte que 40% do orçamento da África Subsaariana poderão ser gastos em alimentação. Para Bucher, a falta de ação dos governos para combater o aumento da pobreza é "indesculpável".

"Rejeitamos qualquer argumentação dos governos de que não têm dinheiro ou meios para tirar todas as pessoas da pobreza e da fome e garantir sua saúde e bem-estar. Vemos apenas a ausência de imaginação econômica e vontade política para realmente fazê-lo", acrescenta a diretora executiva da Oxfam.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação confirmou, na semana passada, que os produtos alimentícios custavam mais de um terço que há um ano e estavam atingindo valores recordes.

RTP - Rádio e Televisão de Portugal

Agência Brasil

Putin diz que negociações de paz com Ucrânia estão em "beco sem saída"




Presidente russo promete que suas tropas vão vencer

Por Guy Faulconbridge 

Londres - O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse nesta terça-feira (12) que as negociações de paz com a Ucrânia chegaram a um "beco sem saída", usando seus primeiros comentários públicos sobre o conflito em mais de uma semana para prometer que suas tropas irão vencer e para provocar o Ocidente por não conseguir que Moscou desistisse de sua meta.

Ao falar sobre a guerra em público pela primeira vez desde que as forças russas se retiraram do norte da Ucrânia após serem barradas nos arredores de Kiev, Putin prometeu que a Rússia irá atingir todos os seus "nobres" objetivos na Ucrânia.

No sinal mais forte até agora de que a guerra irá se estender por mais tempo, Putin disse que Kiev desestabilizou as negociações de paz ao encenar o que chamou de falsas acusações de crimes de guerra russos, e ao exigir garantias de segurança para a Ucrânia.

"Nós voltamos a uma situação de beco sem saída para nós", disse Putin, líder da Rússia desde 1999, em um briefing à imprensa durante uma visita ao Cosmódromo Vostochny, 5.550 quilômetros ao leste de Moscou.

Questionado por trabalhadores da agência espacial russa se a operação na Ucrânia atingiria seus objetivos, Putin disse: "Absolutamente. Eu não tenho dúvidas".

A Rússia irá "ritmicamente e com calma" continuar sua operação, mas a conclusão estratégica mais importante é a de que a ordem internacional unipolar que os Estados Unidos haviam construído após a Guerra Fria estava se rompendo, afirmou o líder russo.

Putin disse que a Rússia não tinha escolha a não ser lutar porque tinha que defender os falantes de russo do leste da Ucrânia e impedir que seu ex-vizinho soviético se tornasse um trampolim para inimigos de Moscou.

O Ocidente tem condenado a guerra como uma apropriação brutal de terras de estilo imperial visando um país soberano.

Reuters / Agência Brasil

Governo fake, corrupção real - Editorial




O governo Bolsonaro empenha-se na produção de casos de mau uso de dinheiro público, como na Educação, e demonstra notável eficiência para proteger o presidente

O Ministério da Educação (MEC) autorizou a construção de 2 mil escolas sem que houvesse a respectiva dotação no Orçamento, em afronta escancarada às leis orçamentárias e de responsabilidade fiscal. Na feliz expressão da reportagem do Estadão que revelou mais esse escândalo do governo que se jacta de ter acabado com a corrupção, trata-se de “escolas fake”, destinadas somente a enfeitar os discursos de campanha dos bolsonaristas.

As “escolas fake” são a mais perfeita tradução de um governo igualmente “fake”. Quase nada do que foi prometido na campanha que elegeu Jair Bolsonaro para a Presidência em 2018 saiu do papel, das reformas às privatizações. Mas, agora está claro, não é só incompetência; é vocação: o governo de Bolsonaro está estruturado para atender aos interesses do Centrão, que, em troca, mantém o presidente no poder, a despeito das inúmeras razões para seu impeachment. E agora, em ano eleitoral, essa mesma máquina funciona freneticamente para conquistar votos, para o presidente e para os parasitas que se associaram a ele na tarefa de se apropriar do Estado para a satisfação de seus objetivos privados.

Se o governo é “fake”, a corrupção, no entanto, é bem real. A manipulação obscura do Orçamento talvez seja o caso mais grave, já que esconde dos cidadãos os critérios de distribuição de recursos públicos. Mas está longe de ser o único. 

Durante a pandemia de covid-19, por exemplo, o País, já indignado com a incompetência do governo para lidar com a crise, soube, estupefato, que integrantes do Ministério da Saúde tentaram negociar a compra de vacinas fora do horário de expediente e num shopping de Brasília. Agora, é o Ministério da Educação que se tornou uma usina de escândalos, que se juntam ao aparelhamento ideológico promovido pelo bolsonarismo. Ao longo de toda a pandemia, o governo federal cruzou os braços para a situação do ensino e dos estudantes, mas se mostrou muito eficiente na produção de casos de mau uso do dinheiro público.

Antes das “escolas fake”, o Estadão havia revelado que, mesmo depois de advertido por órgãos de controle, o MEC, num processo de compra de ônibus escolares, seguia oferecendo até R$ 480 mil por unidade que valia, no máximo, R$ 270 mil. O edital foi ajustado só depois que o caso veio à tona. Houve também o caso, revelado pelo jornal Folha de S.Paulo, da compra de kits de robótica com sobrepreço para escolas sem água encanada. Não tinha infraestrutura mínima, não tinha prioridade no ensino, mas tinha superfaturamento.

Até o momento, o Palácio do Planalto dá sinais de que não está preocupado em sanear os processos do MEC ou de qualquer outro órgão do governo. Empenha-se apenas em impedir – todos os seus movimentos se orientam neste sentido – que as investigações sobre os escândalos avancem. 

Bastou a movimentação de alguns senadores para viabilizar a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre os casos escabrosos do MEC – medida de elementar prudência perante tantos casos de mau uso dos recursos públicos – para que o governo rápida e eficientemente agisse para demover alguns parlamentares. Ou seja, o governo que passou todo o mandato de Bolsonaro demonstrando cavalar incompetência na articulação com o Congresso para aprovar reformas exibe agora inaudita eficiência para impedir que uma nova CPI fustigue o governo, algo delicado especialmente em ano eleitoral.

A repentina diligência do Palácio do Planalto gerou resultado imediato. Na sexta-feira passada, os senadores Oriovisto Guimarães (Podemos-PR), Styvenson Valentim (Podemos-AC) e Weverton Rocha (PDT-MA) retiraram seu apoio para abertura da CPI da Educação. Uma vez que os indícios de corrupção no MEC só aumentam, não se sabe se o governo conseguirá de fato barrar a investigação do Congresso. De toda forma, uma coisa é inegável: quando o objetivo é proteger o presidente, escamoteando a incompetência administrativa, a obscura manipulação do Orçamento e os negócios esquisitos conduzidos pelos operadores do governo, a gestão Bolsonaro adquire uma espantosa vitalidade.l 

O Estado de São Paulo

Quais os planos da Petrobras para o fim da era do petróleo?




Petrobrás pretende instalar 15 novas plataformas de petróleo até 2026

Por João Fellet, em São Paulo

Hoje no centro de um acirrado debate político por causa de sua política de preços, a Petrobras enfrenta um desafio ainda maior no longo prazo: como sobreviver ao fim da era do petróleo e responder à necessidade global de que as emissões associadas a combustíveis fósseis caiam rapidamente?

Enquanto várias grandes petrolíferas têm investido em energias renováveis e algumas já começam a cortar gradualmente sua produção de petróleo, a Petrobras vem diminuindo seus investimentos em fontes menos poluentes e planeja ampliar em 45% sua produção de óleo até 2026.

Se a decisão de priorizar o petróleo tem se mostrado rentável num cenário em que a demanda global pelo combustível ainda é alta, especialistas afirmam à BBC que, no futuro, a estratégia pode custar caro não só à Petrobras mas também ao Brasil, que corre o risco de ver sua maior empresa definhar num planeta cada vez menos dependente de combustíveis fósseis.

Já a empresa diz que a transição global rumo a fontes renováveis não eliminará a demanda por petróleo, afirma que tem a missão de "transformar recursos brasileiros em riquezas" e que vem implantando ações para reduzir suas emissões (leia mais abaixo).

Fim da exploração de novos poços

Há um consenso entre cientistas de que, para frear o ritmo do aquecimento global, a humanidade precisa nos próximos anos reduzir drasticamente o uso de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão.

Em 2021, a Agência Internacional de Energia (AIE) divulgou um estudo apontando que nenhuma nova reserva de petróleo e carvão poderia ser explorada a partir daquele ano para que o mundo evitasse os cenários mais catastróficos das mudanças climáticas, nos quais a temperatura global subiria mais do que 1,5°C.

Outro estudo, publicado na revista Nature em setembro de 2021, estimou que a produção global de petróleo e gás deveria cair 3% a cada ano até 2050 para limitar o aquecimento global a 1,5°C.

Parte dessa redução deve acontecer independentemente da vontade das petrolíferas, já que as energias renováveis têm ficado mais baratas e veículos elétricos tendem a ocupar uma parcela cada vez maior do setor automotivo.

Segundo a AIE, a demanda global de petróleo cairá dos atuais 90 milhões de barris por dia para 24 milhões de barris/dia em 2050.

Até lá, a tendência é que o petróleo seja cada vez menos empregado como fonte de energia, mas preserve alguns de seus usos como matéria-prima na indústria química - um peso muito inferior ao que teve nas últimas décadas como combustível essencial para a economia global.

Embora reconheça que o setor viverá um declínio, a Petrobrás pretende inaugurar novos poços e ampliar bastante sua produção de óleo nos próximos anos.

'Pré-sal - região que responde por 70% do óleo extraído pela Petrobras hoje'

'Pressa no pré-sal'

Em seu último plano quinquenal, divulgado em 2021, a empresa anunciou que pretende inaugurar 15 novas plataformas de petróleo até 2026, quando espera aumentar sua produção dos atuais 2,2 milhões de barris por dia para 3,2 milhões - uma alta de 45%.

Hoje a Petrobras é a quarta maior produtora de petróleo do mundo, segundo o portal de estatísticas Statista. As três primeiras são a saudita Saudi Aramco (9,2 milhões de barris/dia), a russa Rosneft (4,1 milhões) e a chinesa PetroChina (2,5 milhões).

Boa parte do aumento da produção da Petrobras se dará em poços na região do pré-sal, que já responde por 70% do óleo extraído pela companhia e abriga a maior parte das reservas ainda não exploradas no Brasil.

Em artigo publicado no site da Petrobrás em março de 2022, o então presidente da empresa, general Joaquim Silva e Luna, disse que a companhia corre para explorar o pré-sal antes que o mundo se volte a fontes menos poluentes.

No texto, Silva e Luna afirma que o planeta de fato precisa reduzir o consumo de combustíveis fósseis e priorizar energias renováveis para frear o aquecimento global.

Nesse cenário, segundo o general, cabe à Petrobras "não permitir que esses recursos repousem no fundo do mar enquanto aguardamos a chegada de uma nova era".

"A certeza da transição leva a Petrobras a ter pressa no pré-sal", afirmou Silva e Luna, que deve deixar o cargo oficialmente nesta quarta-feira (13/04) após embates com o governo federal em torno da política de preços da empresa.

Ao pisar no acelerador enquanto o mundo se vê obrigado a reduzir emissões, a Petrobras pode se ver alvo de crescentes contestações por seu papel no aquecimento global.

Em 2019, a empresa foi citada pela organização americana Climate Accountability Institute em um estudo sobre as 20 empresas que mais emitiram gases causadores do efeito estufa no mundo a partir de 1965. A conta considera as emissões ao longo de toda a cadeia, incluindo a queima dos combustíveis.

A Petrobras ficou em vigésimo lugar no ranking e tende a subir posições caso cumpra os planos de elevar a produção.

'De 1953, quando foi criada, a 1997, quando a Lei do Petróleo permitiu a entrada de empresas estrangeiras no setor, a Petrobras detinha o monopólio da extração e do refino no Brasil'

Emissões 'operacionais'

Por ora, a resposta da empresa às mudanças climáticas se concentra em iniciativas para reduzir as emissões geradas na produção (mas não no consumo) de seu petróleo.

Em nota à BBC, a Petrobras diz que "planeja investir US$ 2,8 bilhões nos próximos cinco anos para redução e mitigação de emissões, incluindo a criação de um fundo de descarbonização de US$ 248 milhões para soluções de baixo carbono".

Além disso, a empresa diz que os campos do pré-sal "estão entre os que produzem com menos emissão no mundo".

"A emissão média de CO2 equivalente por barril produzido no mundo é 70% maior do que a emissão no pré-sal", diz a empresa. "Como existirá demanda, se a Petrobras deixar de entregar seu barril com menor emissão, outro barril será entregue com maior emissão na operação, o que aumentaria a emissão global", argumenta a companhia.

Uma das principais iniciativas climáticas da Petrobrás é a meta de cortar em 25% suas "emissões operacionais" até 2030, tendo como base o ano de 2015.

Porém, para Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, focado em políticas públicas sobre o clima, a meta tem uma "pegadinha".

Ela afirma que a Petrobras teve emissões excepcionalmente altas em 2015, e que, entre 2015 até 2021, as emissões da empresa já tinham caído 21% - dados confirmados pela própria companhia.

Com isso, a empresa teria até o fim da década para cortar suas emissões em mais quatro pontos percentuais - algo que Unterstell considera "bem pouco ambicioso".

A analista afirma ainda que, até 2026, a Petrobras responderá pela instalação de quase a metade de todas as novas plataformas de petróleo no mundo.

"Eles estão indo para o tudo ou nada, apostando que vão tirar a última gota de petróleo que houver no poço", diz a analista.

Já a Petrobras diz que adotou 2015 como referência porque naquele ano foi assinado o Acordo de Paris, pelo qual vários países se comprometeram a reduzir suas emissões. Ainda assim, a Petrobras diz que "de forma transparente apresenta números ano a ano, independente da data base do compromisso original".

A empresa afirma ainda que "os cenários da companhia consideram a transição energética em curso, o que levará, em longo prazo, a uma retração dos mercados globais de petróleo".

Mas a Petrobras diz que o petróleo seguirá relevante e que "as diferentes fontes de energia irão coexistir no futuro, renováveis e não renováveis, sendo importante acelerar o desenvolvimento dos recursos brasileiros, transformando-os em riquezas".

'Várias petrolíferas têm investido em energia eólica para diversificar suas operações'

Neutralizar emissões

Apesar do foco no petróleo, a Petrobras diz adotar uma série de iniciativas para apoiar a "sustentabilidade do planeta".

Em 2021, a empresa anunciou que pretende neutralizar suas emissões operacionais, o que será feito por meio da "redução da queima de gás em tocha, ganhos de eficiência energética e projetos de captura, uso e armazenamento geológico de CO2".

Porém, diferentemente de outras petrolíferas, a empresa não definiu um prazo para alcançar a meta.

Outro ponto em que a estratégia da Petrobras destoa da de outras grandes concorrentes diz respeito a energias renováveis.

Nos últimos anos, a Petrobras vendeu suas participações em sociedades empresariais que administravam usinas eólicas, fábricas de biocombustíveis e hidrelétricas.

Em 2019, o então presidente da companhia, Roberto Castello Branco, disse que a Petrobras não investiria mais em renováveis "porque é um negócio que requer competências diferentes do negócio do petróleo e gás".

No entanto, outras grandes petrolíferas têm ampliado os investimentos nessas fontes e anunciado metas climáticas que, ainda que consideradas insuficientes pelos analistas entrevistados, são vistas como mais ambiciosas e condizentes com as necessidades do planeta do que as da Petrobras.

"São empresas que estão buscando uma vida pós-petróleo, embora ainda não saibam direito como chegar lá. Mas existe o desejo", diz o físico Roberto Kishinami, coordenador sênior do Instituto Clima e Sociedade.

A francesa Total, por exemplo, anunciou a meta de neutralizar as emissões operacionais até 2050 e ampliar em dez vezes sua produção de energia renovável até 2030, alcançando 100 gigawatts (GW) de capacidade com essas fontes.

A britânica BP pretende passar dos atuais 3,3GW de capacidade instalada de fontes renováveis para 50GW em 2050, e diz que reduzirá sua produção de combustíveis fósseis em 1 milhão de barris de óleo equivalente até 2030.

A anglo-holandesa Shell diz que cortará sua produção de petróleo entre 1% e 2% ao ano até 2030 e que pretende neutralizar suas emissões até 2050.

Antes de sinalizar uma guinada na visão dessas empresas quanto às mudanças climáticas, as atitudes são interpretadas mais como concessões à pressão de consumidores, investidores e governos preocupados com o aquecimento global.

Em alguns países, ativistas têm recorrido até mesmo à Justiça para forçar as petrolíferas a melhorar suas metas.

A estratégia já teve sucesso na Holanda, onde, em 2021, uma corte determinou que a Shell cortasse suas emissões em 45% até 2030 tendo como base 2019.

Na ocasião, a petrolífera afirmou que a decisão judicial não representava uma mudança, mas sim uma "aceleração de nossa estratégia".

Até mesmo na China, onde empresas costumam estar menos sujeitas a pressões da sociedade civil, as duas maiores estatais petrolíferas anunciaram a meta de atingir a neutralidade das emissões até 2050. E a saudita Saudi Aramco, maior petrolífera do mundo, se comprometeu a chegar à neutralidade até 2060.

Acionistas climáticos

Grupos de investidores também têm pressionado as grandes petrolíferas a fazer mais pela descarbonização do planeta.

Em 2021, acionistas favoráveis à agenda climática conseguiram eleger dois membros para o conselho de administração da Exxon, a maior empresa de petróleo dos EUA.

Também em 2021, o conselho de administração da Chevron, a segunda maior petrolífera americana, aprovou a proposta de um grupo de ativistas para que a empresa cortasse emissões.

Para Natalie Unterstell, presidente da Talanoa, é questão de tempo até que esses "acionistas ativistas" batam à porta da Petrobras.

"É um movimento que está crescendo muito no mundo e não vai tardar para chegar aqui", avalia.

Orgulho e identidade nacional

Segundo Roberto Kishinami, do Instituto Clima e Sociedade, a história da Petrobras ajuda a explicar "várias limitações" que a empresa tem na agenda climática.

Ele afirma que a Petrobras foi por muito tempo (e ainda é, em menor grau) vista como "parte da identidade nacional" e como crucial para a soberania do país - fatores que ajudam a poupá-la de pressões sofridas por petrolíferas no exterior.

Mesmo após abrir seu capital na Bolsa de Nova York, em 2000, a companhia segue tendo a União como sua maior acionista e é vista por muitos brasileiros como uma empresa estatal, diz ele.

Kishinami afirma ainda que, embora tenha sido fundada nos anos 1953, a empresa só se tornou uma das maiores petrolíferas do mundo nos anos 1980, quando cientistas começavam a destacar o papel dos combustíveis fósseis nas mudanças do clima.

O físico diz que a "entrada tardia" da Petrobras nesse mercado acabou adiando um debate interno sobre como a empresa se prepararia para um futuro menos dependente do petróleo.

E com a descoberta de reservas gigantes no pré-sal, em 2006, a companhia dobrou a aposta no seu carro-chefe. Na época, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizia que o pré-sal seria um "passaporte para o futuro" do Brasil, pois permitiria ao país investir vultosos recursos na educação e no combate à pobreza.

Kishinami diz que, enquanto tirava cada vez mais petróleo do fundo do mar, a Petrobras "achava ingenuamente que a promoção de alguns programas de proteção ambiental, como o reflorestamento em manguezais, lhe daria créditos pela emissão de gases de efeito estufa".

Mais recentemente, a empresa passou a apostar no discurso que sua produção de petróleo gera menos emissões do que a concorrência.

Para Kishinami, porém, "esse tipo de ferramenta é periférico", já que o grosso das emissões não ocorre na produção, mas sim no consumo do combustível.

O físico afirma que, ainda que continue havendo demanda por petróleo nas próximas décadas, o mercado encolherá substancialmente - o que torna a estratégia da Petrobrás "muito arriscada".

Ele diz ainda que a Petrobrás é "resultado de um investimento social muito grande, com técnicos e engenheiros formados em algumas das nossas melhores escolas, e com uma capacidade de trabalho e inovação que não podemos jogar fora".

"Faz muita diferença para o Brasil se a Petrobrás vai à transição ou não. Ela tem um potencial humano muito grande que não pode ser perdido nem disperso", afirma.

Programas paralisados

Para a engenheira Suzana Kahn Ribeiro, vice-diretora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), a Petrobras já desenvolveu estudos promissores sobre fontes renováveis em outras épocas.

Uma das iniciativas, a cargo do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras (Cenpes), buscava produzir bioetanol por meio da ação de enzimas. Outro projeto visava gerar energia eólica em plataformas offshore, aproveitando tecnologias que a empresa já domina na produção de petróleo em alto-mar.

Mas ela afirma que as iniciativas foram paralisadas na década passada, quando a Petrobras lidava com dívidas crescentes e grande turbulência por conta de denúncias de corrupção. Desde então, a empresa vem se desfazendo não só de investimentos em renováveis, mas também de refinarias e outros braços operacionais, como a BR Distribuidora.

Para a professora, fazia sentido "segurar investimentos em outras áreas para ajeitar a casa", mas, passada essa fase, a empresa "deveria estar voltada a pesquisar e atuar em novos negócios".

Em nota à BBC, a Petrobras diz que "está avançando na análise de eventuais novos negócios que poderiam reduzir a exposição e a dependência das fontes fósseis e, ao mesmo tempo, que seriam rentáveis, garantindo a sustentabilidade da companhia no longo prazo".

A empresa afirma ainda que estão em curso "projetos para a produção de uma nova geração de combustíveis, mais modernos e sustentáveis que os atuais".

A Petrobras diz, no entanto, que seguirá "com foco estratégico em águas profundas e ultraprofundas, com ênfase no pré-sal, onde tem vantagens competitivas".

'Várias empresas têm substituído suas caminhonetes por veículos elétricos'

Lucro recorde

Em 2018, após quatro anos seguidos de prejuízos, as contas da Petrobras voltaram a ficar no azul. E, em 2021, a empresa registrou um lucro recorde de R$ 106 bilhões - resultado que gerou o pagamento de R$ 37,3 bilhões em dividendos à União.

No mundo político, porém, é comum a crítica de que a empresa daria mais importância a seus acionistas do que à população - discurso que costuma ganhar força em tempos de alta nos combustíveis, como o atual.

Nas últimas semanas, tanto o presidente Jair Bolsonaro quanto o ex-presidente Lula - ambos pré-candidatos à eleição presidencial deste ano - cobraram a empresa a dividir uma parcela maior de seus lucros com a sociedade.

Por outro lado, são raros entre políticos brasileiros questionamentos sobre a postura da Petrobras frente às mudanças climáticas.

Para Suzana Kahn Ribeiro, da Coppe/UFRJ, é possível adotar políticas que atenuem o impacto da inflação de combustíveis sobre os mais pobres, como o pagamento de vale-gás.

Mas ela diz que o cenário também exige políticas que reduzam a dependência do setor brasileiro de transportes por combustíveis fósseis, como a construção de ferrovias e criação de redes de abastecimento para veículos elétricos e caminhões movidos a hidrogênio.

E o futuro?

Os analistas entrevistados dizem que a próxima eleição presidencial pode ter grande influência nos caminhos que a Petrobras trilhará no futuro.

Eles dizem acreditar que, se Bolsonaro se reeleger, a empresa tende a manter as políticas atuais e resistir a uma abertura maior a fontes renováveis.

E uma vitória de Lula não necessariamente significaria grandes mudanças, afirmam.

Eles dizem que, passados 11 anos desde o fim de seu governo, Lula continua a exaltar o pré-sal e não costuma defender uma redução no consumo de petróleo.

Roberto Kishinami, do Instituto Clima e Sociedade, diz que um fato novo pode mudar a posição de Lula sobre o assunto.

Antes pouco interessados nesse debate, dirigentes sindicais da Petrobrás - com quem Lula mantém uma relação próxima - já começam a cobrar uma nova postura da empresa frente às mudanças climáticas, diz Kishinami.

Em agosto de 2021, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) aprovou um documento no qual defende que a Petrobrás invista em fontes renováveis e contribua com a "transição energética".

No texto, os sindicalistas dizem considerar "estratégico o retorno da atividade da Petrobrás na geração de energia por meio de usinas eólicas e solares, assim como o investimento em pesquisas para o desenvolvimento do hidrogênio verde".

O documento foi entregue a Lula no fim de março, quando o ex-presidente participou de um evento com na sede da FUP sobre o futuro da Petrobras.

Ao discursar no evento, porém, Lula não comentou as políticas climáticas da empresa nem tratou do aquecimento global, ainda que tenha cobrado a empresa a buscar o desenvolvimento do Brasil em vez de focar exclusivamente no petróleo.

BBC Brasil

A "Cupinização" do Estado

 




Por Aylê-Salassié F. Quintão*

Vive-se, por aqui, um cenário de barbárie, de digestão mal comportada e de degradação da estrutura administrativa do Estado e das políticas públicas, sobretudo aquelas que tratam da fiscalização e do controle do manuseio de recursos.  A administração pública no Brasil está cem anos atrasada, e não surge ninguém, em eleição alguma, preocupado em projetar-lhe uma forma e um sentido. Ao contrário, o Estado é que parece ser um grande transgressor.

Ninguém que transitou pelo estrutura gestora do Estado, mesmo transgressivamente, é condenado. Perfil infrator até parece uma pré-condição para o credenciamento a um cargo público. O Tribunal de Contas da União, vez por outra, pune um motorista com a demissão. O da Justiça, um ou outro juiz, com a aposentadoria, mas com direitos e salários da ativa. A Receita Federal tem uma sala exclusiva para os grandes caloteiros. Ex-presidentes da República recebem do Estado para falar contra ele. Nem o que está escrito na Constituição é protegido. Não tem mutirão que consiga hoje organizar o que vem sendo historicamente desarrumado. 

Em um longo e bem articulado voto, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmem Lúcia, com ares de grande corregedora, tocou em um ponto crucial do descompromisso dos ocupantes de cargos públicos com a máquina do Estado. Além de cobrar medidas urgentes do IBAMA e da Funai para conter o desmatamento na Amazônia e o avanço sobre as terras indígenas, apelidou de   "cupinização" a silenciosa e invisível ação e omissão política que sistematicamente corrói a estrutura e a alma do Estado. 

Ela se fundamentou nas tentativas de desqualificar e esvaziar os órgãos de fiscalização ambiental e dos direitos territoriais dos indígenas, ao interpretar uma Arguição de Descumprimento do Preceito Fundamental - ADPF 760, originada de um grupo de partidos políticos, cobrando o esvaziamento do IBAMA, da Funai, do Fundo da Amazônia, do Conama e outros.  Mas, dentro da máquina do Estado, a questão não parece ser apenas pontual. A complexidade é bem maior. Quem a corrói são os próprios políticos, e não as empresas, que agem passivamente. As cobranças vem de dentro do próprio Estado.

As aparentes boas intenções dos partidos políticos vão muito além, e até dos candidatos à Presidência da República. Nenhum ministério, empresa, autarquia, órgão público de maneira geral, tem a primazia da proteção institucional. Nem patrimônio da União, que deveria manter o Ministério Público sempre de prontidão. 

 No seio do Estado, tudo o que é sólido desmancha-se no ar. A consequência vem da estratégia do confundir para dividir e do iludir para dirigir.   Foi o caso das conclusões e recomendações contra os Anões do Orçamento, do Mensalão e da Lava Jato. O Estado nunca tem razão.  Assaltado, sistematicamente, paga indenizações aos assaltantes, funcionando quase como um prêmio, para a ampliação das operações transgressoras. 

Chegam as eleições, os "cupins" estão excitados. Entender o papel do Estado e a sua estrutura não é algo para iniciantes, mas os despreparados, ávidos, se antecipam. No primeiro ano de gestão, os governantes eleitos não produzem nada de significativo.  Governam apenas dois anos em cada mandato de quatro anos, porque o primeiro ano é dedicado a apreender o sentido do Estado e aparelhar a sua estrutura, segundo as conveniências particulares e partidárias. O último ano é voltado para uma reeleição ou a eleger um companheiro conivente.

 A cupinização do Poder do Estado pelas elites - a concentração do dinheiro e do Poder nas mãos de poucos - concorre para a destruição, por dentro da estrutura e dos objetivos da máquina pública, pela apropriação direta ou indireta das políticas públicas e dos órgãos que as administram. É um amigo aqui, um cabo eleitoral ali. Um com a função de propor uma nova política pública, outro de redirecioná-las para os interesses pessoais ou de grupos, outros com a missão de desmantelá-las mesmo. Ninguém entra para explicar ou com a solucionática. A governabilidade é o espaço privilegiado para confundir ainda mais a administração pública.

 Cada projeto de lei aprovado no Congresso, a título de esclarecer, confunde ainda mais. Assim são também as diferentes reformas administrativas porque tem passado o Estado brasileiro. Nenhuma delas consolidou uma política pública ou deu configuração definitiva para a estrutura de Estado. À fórceps, é verdade, mas justiça seja feita, só os militares conseguiram. Nos governos civis, o País chegou a variar de 18 a 36 ministérios. 

Assim, fora dos anos de chumbo, ocorreu e ocorre com os ministérios do Planejamento, do Trabalho, da Indústria e Comércio, do Meio Ambiente, da Irrigação, da própria Administração; em órgãos como o DNOCS, Sudene, Sudam, Sudeco, Sudesul, Sudepe, Emater, Sunab, Funai, Ibama, Secretarias da Amazônia, órgãos estratégicos do Estado, que são destruídos e reconstruídos sistematicamente. A apropriação desses espaços tornou-se muito sofisticada com a "cupinização".

 Tivemos presidentes que criaram ministérios para explicitamente gerar empregos e poder de barganha político-partidária.  Os espaços do Estado tornaram-se balcões de negócios, a pinguela que une o público e o privado debaixo de um mesmo guarda sol: o Estado é paternal. Não, o Estado é sistematicamente assaltado, à luz do dia. Há 100 anos, o presidente argentino Domingos Faustino Sarmiento fez uma reforma geral das estruturas de poder no seu país. Elas ganharam configurações institucionais históricas e respeito da população. Saíram do estado de barbárie em que, por aqui, estivemos sempre mergulhados.

No Brasil, em tempos de rudeza no entendimento do que seja a coisa pública e o papel do Estado - e não está longe -  os órgãos de fiscalização eram incendiados para queimar processos comprometedores. Isso aconteceu no Ministério da Fazenda, com a Receita Federal; com o Ministério da Agricultura, na fiscalização sanitária e com os comprometimentos com os incentivos fiscais do reflorestamento; com o fundo de financiamento à educação; até no Tribunal de Contas da União.

A rudeza das soluções envolvendo os direitos do Estado e os privados não melhorou nesses cem anos de história da República, apenas sofisticaram-se os métodos de apossamento da máquina e dos recursos públicos. As estruturas expandem-se, às vezes; em outras, encolhem-se.   Não se põe mais fogo em prédios, contamina-se o sistema de fiscalização com um vírus, ou cria-se um aparato legal que gere exceções e contradições insolúveis  desviando o sentido original das leis  e das instituições.

As áreas da educação, da ciência, da tecnologia e do meio ambiente são vítimas atualmente da inanição, um outro tipo de estratégia que se dá pela redução drástica dos recursos de custeio (manutenção). É uma espécie de "garrote vil", que aperta até que fique demonstrada a inutilidade daquela instituição ou daquela política pública.   No Brasil a necessidade de uma reforma do Estado é premente, mas virou um "bordão" para os políticos. Se depender dos "cupins", nunca irá acontecer.

*Jornalista, professor

Chumbo Gordo

Extrema direita avança na França e ameaça Macron - Editorial




Macron percebeu que terá de se engajar em sua própria campanha para evitar um desastre francês e europeu

Emmanuel Macron derrotou os partidos tradicionais franceses, como o Socialistas e Republicanos, com um movimento centrista construído do zero, em 2017. Cinco anos depois, os resultados do primeiro turno divulgados na noite de domingo mostram que a extrema direita e a extrema esquerda avançaram, colocando em dúvida uma vitória que parecia certa e ameaçando o precário equilíbrio da União Europeia. Marine Le Pen, do ultradireitista Reunião Nacional, passou para o segundo turno, como era esperado, mas as pesquisas imediatamente registraram que a disputa será bem mais apertada, longe dos 66% a 34% de Macron diante da rival na eleição anterior.

O presidente obteve 27,8% dos votos, ante 23,1% de Le Pen e 22% de Jean-Luc Mélenchon, do esquerdista França Insubmissa, que mal completou seu sexto ano de vida. Na nova paisagem política, em que os partidos tradicionais tiveram votação pífia, em especial o Partido Socialista, com Anne Hidalgo (1,8%), surgiram mais forças de direita radical, como a Reconquista, de Éric Zemmur, que em determinado momento ameaçou Le Pen e atingiu dois dígitos nas pesquisas (7,1% dos votos nas urnas). Com Valérie Pétresse, a direita gaulista dos Republicanos teve alguma esperança, logo desvanecida (4,8% dos votos).

Confiante, Macron mal se dedicou à campanha eleitoral, pelo menos não tanto quanto fez com relação às infrutíferas negociações para mediar o conflito da Rússia contra a Ucrânia. O assunto foi logo substituído por outro entre as inquietudes dos franceses, que prestaram atenção na nova roupagem de Le Pen, mais preocupada com preço dos combustíveis, desemprego, e carestia, o que lhe rendeu o apoio das áreas rurais atrasadas e do que restou da classe operária em cidades industriais decadentes. Macron foi melhor no norte do país, entre as pessoas empregadas, com maior renda e escolaridade.

A margem de vitória do presidente sobre sua rival foi maior do que em 2017, mas a onda direitista se fortaleceu e há muita incerteza sobre qual será a posição dos eleitores de Mélenchon no segundo turno. Uma dos traços da política francesa é que tanto a extrema direita quanto a esquerda são nacionalistas e têm algumas bandeiras comuns. Mélenchon é contra a Otan e vê com bons olhos a autocracia de Vladimir Putin, como Le Pen. Ambos são eurocéticos e apoiam políticas protecionistas. Macron é reformista, flexibilizou as regras trabalhistas, diminuiu impostos para empresas e os ricos e está empenhado em elevar a idade de aposentadoria de 62 para 65 anos.

Macron paira sobre as questões nacionais, o que lhe rendeu a imagem de “imperial” e de pouco conectado com os problemas cotidianos dos franceses, enquanto Le Pen se esforçou todo o tempo para parecer o contrário disso. Mélenchon disse que nenhum voto deveria ir para ela, mas em nenhum momento até agora insinuou apoiar Macron.

Pesquisas indicam que um quarto dos eleitores do França Insubmissa não irá votar no segundo turno e há uma fração deles que escolherá a candidata direitista. Atitude diferente tiveram partidos de esquerda sem votação expressiva. Os verdes e comunistas prometeram votar em Macron, assim como a direita republicana, mas é Mélenchon que pode mover o fiel da balança.

A extrema direita francesa nunca figurou tão bem em eleições no pós-guerra (Gideon Rachman, FT, ontem) e um sucesso na França colocaria em xeque os pilares da União Europeia em um momento político em que ela é particularmente vulnerável. Angela Merkel, a líder alemã que comandou o bloco por mais de uma década, saiu de cena. O novo chanceler alemão, Olaf Scholz, titubeia em relação a Putin pela dependência dos alemães da energia russa. Macron procura assumir a liderança política europeia, mas o avanço da direita é uma sombra ameaçadora a suas pretensões - uma derrota destruiria sua carreira política.

Le Pen mudou a direção dos discursos, mas o manual populista está intacto em seu programa, intacto. Ela se diz representante do povo contra as elites, defensora da nação contra o globalismo e do nacionalismo xenófobo. Propõe, por exemplo, que as leis francesas tenham primazia sobre as da UE. Seu discurso pareceu menos agressivo, até porque outros direitistas fizeram o papel de agitar o espantalho da imigração, como Zemmur, que prometeu repatriar 1 milhão de pessoas em cinco anos.

Macron percebeu que terá de se engajar em sua própria campanha para evitar um desastre francês e europeu. Segue sendo o favorito, mas doze dias de campanha é tempo suficiente para o azar.

Valor Econômico

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