segunda-feira, abril 11, 2022

5 maneiras de salvar o planeta, segundo cientistas da ONU




Para evitar os grandes perigos do aquecimento global, as emissões de carbono precisam parar de crescer nos próximos três anos e cair rapidamente em seguida.

Por Matt McGrath

Aposentar usinas a carvão e deixar de subsidiar combustíveis fósseis estão entre as ações capazes de frear o ritmo das mudanças climáticas.

Os riscos das mudanças climáticas vêm sendo demonstrados há anos. Mas há menos atenção voltada às formas de realmente enfrentar o problema.

No início de abril, cientistas da ONU apresentaram um plano que eles acreditam que poderá ajudar as pessoas a evitar os piores impactos do aumento das temperaturas no planeta. O relatório, preparado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês), basicamente convoca uma revolução sobre nossa forma de produção da energia necessária para as atividades humanas.

Para evitar os grandes perigos do aquecimento global, as emissões de carbono precisam parar de crescer nos próximos três anos e cair rapidamente em seguida. E, mesmo assim, será necessário usar tecnologia para retirar CO2 do ar e manter as temperaturas baixas.

Segundo os pesquisadores, existem cinco ideias fundamentais para manter a segurança do planeta:

1 – O carvão precisa se aposentar (de novo!)

O relatório do IPCC tem 63 páginas detalhadas, repletas de observações e complexas notas de rodapé. Toda essa verborragia não consegue esconder a mensagem central dos cientistas: se o mundo quiser se livrar dos perigos do aquecimento global, os combustíveis fósseis precisam ser eliminados.

Manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C exige que as emissões parem de crescer até 2025, segundo os pesquisadores, e sejam reduzidas em 43% até o final da década. A forma mais eficaz de alcançar esse objetivo é gerar energia de fontes sustentáveis, como eólica e solar.

Os autores indicam redução drástica dos custos dessas tecnologias, que atingiu cerca de 85% desde 2010. E, embora a guerra na Ucrânia esteja fazendo com que os governos europeus voltem a flertar com a ideia do uso de carvão, rico em carbono, os meios políticos claramente aceitam que a energia sustentável barata é o único caminho para eliminar a dependência de Putin no setor de energia.

Por isso, para o bem da temperatura do planeta (e da política atual), o IPCC acredita que o carvão deverá ser finalmente aposentado para sempre.

“Acho que esta é uma mensagem muito forte, não deve haver novas usinas movidas a carvão. Caso contrário, realmente será um risco para o limite de 1,5 °C”, afirma Jan Christoph Minx, professor da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e um dos coordenadores do estudo do IPCC.

“Acho que a grande mensagem do relatório é que precisamos pôr fim à era dos combustíveis fósseis. E não é preciso simplesmente encerrá-la; precisamos encerrá-la com muita rapidez”, segundo ele.

2 – O improvável vira realidade…

Alguns anos atrás, soluções tecnológicas para as mudanças climáticas eram geralmente consideradas ideias excêntricas. Desde pulverizar substâncias na atmosfera até resfriar a Terra bloqueando o Sol com escudos espaciais, diversas ideias foram ridicularizadas, criticadas e rapidamente esquecidas.

Mas, à medida que a crise climática se amplia e o corte das emissões de carbono parece ser difícil, os pesquisadores vêm sendo forçados a examinar novamente o papel da tecnologia para limitar e até reduzir o CO2 da atmosfera.

A ideia de remoção do dióxido de carbono da atmosfera agora é considerada totalmente normal, depois de ser endossada pelo IPCC no último relatório.

Os cientistas são claros: será realmente impossível manter as temperaturas baixas sem alguma forma de remoção de carbono, seja com árvores ou com máquinas de filtragem do ar.

Mas existe muita oposição dos ambientalistas. Parte deles acusa o IPCC de ceder aos países produtores de combustíveis fósseis e depositar ênfase demais em tecnologias que, essencialmente, permanecem sem comprovação.

“A principal desvantagem que vejo é o fato de que o relatório é muito tolerante quanto à rápida supressão dos combustíveis fósseis”, segundo Linda Schneider, da Fundação Heinrich Böll, em Berlim, na Alemanha.

“Eu esperava que o relatório apresentasse os processos mais confiáveis e seguros para atingirmos o limite de 1,5 °C, sem exagerar e depender de tecnologias que simplesmente não sabemos se irão funcionar”, afirma ela.

3 – Reprimir a demanda é uma arma secreta

Uma das grandes diferenças entre este relatório e suas versões anteriores é que a ciência social tem forte presença. Ela se concentra principalmente na ideia de reduzir a demanda de energia das pessoas nos campos da moradia, mobilidade e nutrição.

Isso engloba uma série de questões – incluindo alimentação de baixo carbono, resíduos alimentares, como construímos nossas cidades e como levamos para as pessoas opções de transporte com maior economia de carbono.

'Carros elétricos trazem grande diferença para as emissões do transporte, mas exigem investimentos em tecnologia de carregamento de energia para acelerar sua aceitação'

O IPCC acredita que as mudanças nessas áreas poderão limitar as emissões dos setores de consumo final em 40 a 70% até 2050, aumentando ainda o bem-estar das pessoas. É um objetivo ambicioso, mas o relatório é bem específico e detalhado – e, sim, será necessário ter estímulos e incentivos dos governos.

Mas parece ser uma forma mais ou menos tranquila de causar impactos reais.

4 – Resfriar o planeta com dinheiro…

Muitas vezes se postergou o combate às mudanças climáticas devido aos altos custos envolvidos. Mas essa impressão se alterou nos últimos anos, já que a conta financeira dos desastres climáticos vem crescendo de forma consistente.

Agora, o IPCC está anunciando novas orientações quanto aos custos. O ponto principal é que, para transformar o planeta, com o perdão do trocadilho, não será necessário mover o mundo.

O IPCC afirma que ainda existe muito dinheiro sendo gasto com combustíveis fósseis e não com soluções de energia limpa. Se os subsídios dos governos para os combustíveis fósseis fossem eliminados, as emissões seriam reduzidas em até 10% em 2030, segundo o Greenpeace.

O IPCC afirma que, com o passar do tempo, os modelos que incorporam os danos econômicos causados pelas mudanças climáticas demonstram que o custo global de limitar o aquecimento em 2 °C ao longo deste século é menor que os benefícios econômicos globais da redução do aquecimento.

Já manter as temperaturas bem abaixo de 2 °C custa um pouco mais, mas não muito, considerando os danos evitados e a ampla variedade de benefícios decorrentes, como ar e água mais limpos.

“Se você observar os cenários mais agressivos do relatório, custaria no máximo 0,1% do crescimento anual considerado do PIB”, segundo Michael Grubb, professor do University College de Londres, outro dos coordenadores do relatório.

5 – Atacar os ricos… ou torná-los exemplos?

O relatório renova a ênfase no impacto desproporcional dos ricos sobre o planeta. Segundo o IPCC, 10% das residências com maiores emissões per capita contribuem com 45% das emissões domésticas de gases do efeito estufa causadas pelo consumo.

Essencialmente, o relatório afirma que as pessoas mais ricas do mundo gastam grande parte do seu dinheiro em mobilidade, incluindo aviões particulares.

Seria então o caso de submetê-los a aumentos de impostos ou outras formas de restringir suas emissões? Sim, pode ser o caso, mas alguns autores do IPCC acreditam que os ricos têm outros papéis a desempenhar para ajudar o mundo a zerar suas emissões.

“Os indivíduos ricos contribuem desproporcionalmente com maiores emissões, mas têm alto potencial de redução, mesmo mantendo alto nível de bem-estar e um padrão de vida decente”, afirma Patrick Devine-Wright, um dos principais autores do IPCC, da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

“Acho que existem indivíduos com alta posição socioeconômica que são capazes de reduzir suas emissões, tornando-se modelos de estilo de vida de baixo carbono, selecionando seus investimentos em negócios e oportunidades de baixo carbono e fazendo lobby em prol de políticas climáticas rígidas”, segundo ele.

BBC Brasil / Daynews

Corrida de obstáculos




Discutir semipresidencialismo é chato, mas é melhor do que viver de crise em crise

Por Eliane Cantanhêde (foto)

Fernando Collor fora deputado federal por um único e modesto mandato e Dilma Rousseff nem sequer passara por Câmara e Senado, nunca tinha disputado uma eleição, fosse qual fosse. Deu no que deu. Os dois perderam condições de governabilidade e sofreram impeachment. Do outro lado, as referências de presidentes bem-sucedidos são as de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, que passaram pelo Congresso e pela Constituinte de 1988, um marco na história.

Agregue-se a eles Michel Temer, deputado federal a partir de 1987, presidente da Câmara três vezes e por anos do MDB e, quando assumiu a Presidência e veio a gravação de Joesley Batista, da J&F, ele balançou, mas não caiu. Tinha base política e assiste ao resgate de seu governo. Essas constatações são importantes diante de um processo crescente de degradação política, coroado pelo absurdo orçamento secreto.

O presidencialismo de coalizão, capaz de jogar pastores e assessores da base parlamentar do presidente em funções chaves, que movem montanhas de dinheiro, está em crise no mundo todo. É preciso rever o modelo, as práticas e abusos. E por isso está na mesa, oportunamente, num ano eleitoral, o “semipresidencialismo”.

Temer, que participa das discussões sobre a mudança e foi um dos entrevistados da Brazil Conference na sexta-feira, organizada pela comunidade acadêmica de Boston e Cambridge, defendeu o semipresidencialismo como forma de estabilidade e de evitar impeachments a toda hora, lembrando que, com a polarização entre Lula e o presidente Jair Bolsonaro, qualquer um que se eleja já assumirá com a espada, não de Dâmocles, mas do impedimento. Tome crise!

Em 1988, um dos focos foi o parlamentarismo, que, inclusive, embalou a criação do PSDB. Mas, vamos combinar, o nome é péssimo, remete a Parlamento, Congresso, política tradicional. A maioria da população, que não conhece o sistema e rejeita os políticos, vira a cara.

Assim, o parlamentarismo à brasileira foi apelidado de semipresidencialismo, para resolver eventuais crises com troca de gabinete, sem impeachment do presidente eleito, e garantir estabilidade ao funcionalismo, reduzindo a avalanche de apadrinhados, como pastores e funcionários de PP e PL no MEC.

É difícil saber a viabilidade, com o vazio de lideranças já apontado aqui, mas é preciso tentar e chamar à mesa juristas, cientistas políticos, referências da sociedade. Com a economia parada, inflação, pobreza, Amazônia e Educação em chamas e essa polarização, o risco é uma corrida de obstáculos, de crise em crise. Democracia é estabilidade.

O Estado de São Paulo

Quais e quantos aviões de guerra o Brasil tem para atacar e se defender?




Por Alexandre Saconi

O Brasil tem uma ampla frota de aeronaves passível de ser utilizada em caso de guerra, se necessário. São aviões, helicópteros e drones que podem ser empenhados tanto na defesa do território nacional quanto em um eventual ataque.

A frota de todas as aeronaves militares no país é de 679 exemplares, segundo anuário apresentado pela publicação especializada Flight Global, sem levar em consideração os drones. Esse valor é bem inferior à maior frota do mundo, de 13.246 aeronaves nos Estados Unidos, colocando o Brasil na 16ª posição do mundo, atrás de países como as duas coreias, França, Turquia e Reino Unido.

Nessa reportagem, vamos falar apenas das aeronaves da FAB (Força Aérea Brasileira), que detém a maior frota do país, com 524 exemplares. Marinha e Exército também possuem seus aviões, helicópteros e drones, mas em quantidade bem menor.

A Marinha tem 64 aeronaves com a maioria formada por helicópteros, sendo grande parte idêntica aos da FAB. O Exército, por sua vez, não possui aviões, mas conta com 91 helicópteros em sua frota, além de drones.

Veja a fatia de cada força na frota militar do país:

    FAB: 77%
    Exército: 13%
    Marinha: 9%

Tipos de aviação

Na Aeronáutica, existem vários tipos de aviação (e não apenas a de caça), cada uma com suas características de acordo com a missão a ser cumprida. São elas:

    Caça
    Asas rotativas
    Patrulha
    Reconhecimento
    Transporte
    Transporte especial
    Instrução
    Inspeção em voo

Nem todas as aeronaves seriam utilizadas diretamente na linha de combate, mas todas possuem sua importância para manter as Forças Armadas em pleno funcionamento.

Veja um pouco mais sobre cada tipo de aviação a seguir:

Caça

São os aviões utilizados para ataque de outros aviões e instalações em solo, além de apoio a tropas. O Brasil possui pouco mais de 120 aviões de caça e ataque atualmente, desde modelos mais antigos até o mais recente, o F-39 Gripen.

Aeronaves: Aviões F-39 Gripen E/F, F-5M Tiger, A-1 AMX e A-29 Super Tucano

Asas Rotativas

A aviação de asas rotativas é formada por helicópteros que atuam em diversos esquadrões. São modelos com função de ataque, busca e salvamento, transporte, combate, além de outros utilitários.

Aeronaves: Helicópteros AH-2 Sabre, H-36 Caracal, H-50 Esquilo, H-60 Black Hawk, VH-35 e VH-36 Caracal (os dois últimos, usados para o transporte de autoridades)

Patrulha

A aviação de patrulha é responsável por vigiar o território marítimo do Brasil, primordialmente. Seus aviões são formados por modelos civis adaptados para poder monitorar a porção oceânica sob responsabilidade do país e suas áreas adjacentes.

Alguns desses aviões são equipados para atacar submarinos, além de serem dotados de sensores tão sensíveis que conseguem ouvir até camarões, golfinhos e baleias.

Aeronaves: Aviões P-3AM Orion e P-95 Bandeirulha (Bandeirante de patrulha)

Reconhecimento

A aviação de reconhecimento é uma das principais forças de defesa do país. Ela é responsável por, entre outras funções, identificar ameaças nas regiões de fronteira, como aviões não identificados.

Ela também investiga possíveis operações ilegais no solo, levantando dados de inteligência para uma ação posterior. Além de aviões, os esquadrões de reconhecimento contam com drones, que também são chamados de ARP (Aeronaves Remotamente Pilotadas) ou Vant (Veículo Aéreo Não Tripulado).

Aeronaves: Aviões R-35 AM, R-99 e E-99, e os drones RQ 900 e RQ 450

Transporte

A aviação de transporte é uma das que mais possuem missões a cumprir no cotidiano da Aeronáutica. Segundo o próprio órgão, ela é responsável por realizar:

    Assalto aeroterrestre (que inclui o lançamento de paraquedistas para locais de combate)
    Busca e salvamento
    Evacuação aeromédica
    Exfiltração e infiltração de aéreas (que consiste em retirar e levar militares ou civis de e para determinadas áreas, como foi a atuação das Forças Armadas no resgate às vítimas de Brumadinho)
    Reabastecimento em voo
    Transporte aéreo logístico
    Combate a incêndio em voo

Aeronaves: Aviões KC-390, C-130 Hércules, C-105 Amazonas, C-99, C-97 Brasília, C-95M Bandeirante e C-98 Caravan

Transporte especial

São aeronaves utilizadas para o transporte de autoridades nacionais e estrangeiras, como o presidente da República e líderes de outros países. O VC-1 é um Airbus A319 adaptado para o transporte presidencial que foi batizado de Santos Dumont.

O VC-2 é do modelo E190 da Embraer, e é utilizado com mais frequência em voos nacionais e para transportar ministros e demais autoridades.

Aeronaves: VC-1 e VC-2

Instrução

Estas são as primeiras aeronaves com as quais os futuros aviadores terão contato em seu treinamento, realizado inicialmente na Academia da Força Aérea, em Pirassununga (SP). Não são feitas para utilização em combate, mas, prioritariamente, para o ensino das técnicas de voo aos militares nos anos iniciais de suas carreiras.

Aeronaves: T-25 Universal e T-27 Tucano

Inspeção em voo

Esses aviões possuem laboratórios a bordo que são utilizados para garantir que todos os auxílios para os voos estejam devidamente calibrados e funcionando, garantindo que todos os aviões, não apenas os militares, possam pousar, decolar e navegar com segurança.

Eles são operados, por exemplo, para aferir a precisão de radares, sistemas de aproximação, rádios, equipamentos de auxílio à navegação, luzes de orientação, entre outros, que permitem aos tripulantes voar adequadamente.

Aeronaves: IU-50 e IU-93A

Posição confortável no continente

Segundo ranking elaborado pela publicação GlobalFirepower, o Brasil tem a segunda maior frota do continente, atrás apenas dos Estados Unidos. Veja a quantidade de aeronaves militares operadas nos principais países do continente (não são contabilizados drones):

    Estados Unidos - 13.247 unidades
    Brasil - 679 unidades
    México - 469 unidades
    Colômbia - 454 unidades unidades
    Canadá - 380 unidades
    Chile - 290 unidades
    Venezuela - 256 unidades
    Peru - 243 unidades
    Argentina - 218 unidades
    Equador - 113 unidades
    Cuba - 80 unidades
    Bolívia - 63 unidades
    Uruguai - 50 unidades

UOL

Previsões econômicas cada vez mais sombrias para a Ucrânia e sua região




O Banco Mundial divulgou neste domingo (10) previsões econômicas catastróficas para a Ucrânia devido à invasão russa que está afetando toda a região. E alertou para um cenário ainda mais sombrio se o conflito se prolongar.

O Produto Interno Bruto (PIB) da Ucrânia cairá 45,1% este ano e o da Rússia 11,2%, segundo as últimas projeções da instituição de Washington.

Para a Ucrânia, é um cenário muito pior do que a queda de 10% a 35% projetada há um mês pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), ou a queda de 20% anunciada em 31 de março pelo Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (Berd).

Toda a região está sofrendo as consequências econômicas desta guerra, iniciada em 24 de fevereiro, que provocou a fuga de mais de quatro milhões de ucranianos para a Polônia, Romênia e Moldávia e fez disparar os preços dos grãos e da energia.

O Banco espera uma contração de 4,1% do PIB este ano para todos os países emergentes e em desenvolvimento na Europa e Ásia Central, enquanto antes da guerra esperava um crescimento de 3%.

A queda causada pela pandemia em 2020 havia sido muito menor: 1,9%.

Somente no Leste Europeu é esperado uma queda de 30,7% no PIB, contra o crescimento de 1,4% esperado antes da invasão.

"Os resultados da nossa análise são muito sombrios", disse Anna Bjerde, vice-presidente do Banco Mundial responsável por esta região, durante uma conferência por telefone.

"Este é o segundo grande impacto a atingir a economia regional em dois anos e ocorre em um momento muito precário, pois muitas economias ainda lutam para se recuperar da pandemia", acrescentou.

O leste europeu também está sujeito às sanções impostas à Belarus por seu papel na guerra.

- Moldávia, vítima colateral -

Os autores do relatório observam que a Moldávia provavelmente será um dos países mais afetados pelo conflito, não apenas por sua proximidade geográfica com a guerra, mas também porque sua pequena economia está estreitamente ligada à Ucrânia e à Rússia.

Além disso, esta parte da Europa depende do gás natural para satisfazer as suas necessidades energéticas.

No entanto, a perspectiva mais sombria é para a Ucrânia, já que as receitas fiscais do governo diminuíram, as empresas fecharam ou estão apenas parcialmente operacionais e o comércio de mercadorias foi severamente afetado.

As exportações de grãos tornaram-se impossíveis "em grandes áreas do país devido a graves danos à infraestrutura", observou Anna Bjerde.

- Pobreza -

Outro motivo de preocupação, destaca a instituição, é o aumento da pobreza.

A parcela da população que vive com US$ 5,50 por dia deve aumentar de 1,8% em 2021 para 19,8% este ano, segundo cálculos do Banco Mundial.

Ao preparar todas as suas previsões, o Banco assumiu que a guerra continuará "por mais alguns meses".

Mas reconhece que as estimativas estão sujeitas a "uma grande incerteza" e que o impacto real da guerra na zona do euro permanece desconhecido.

A instituição considerou ainda um cenário mais pessimista, considerando um maior impacto na zona euro, uma escalada de sanções e um choque na confiança financeira.

Nesse caso, o PIB da região se contraíria quase 9%, muito mais do que os 5% sofridos durante a crise financeira global de 2009 e mais do que a recessão de 2% induzida pela pandemia em 2020, lembrou. Para a Rússia, a queda seria de 20%. Para a Ucrânia, de 75%.

AFP / Estado de Minas

Delírio comunista devastou a ecologia e matou milhões de chineses




O combate às 'quatro pestes' ficou como ato hilariante e totalitário que contribuiu à morte de fome de milhões de chineses

Por Luis Dufaur, escritor, jornalista

Na China, crescem as polémicas sobre as políticas do fundador do comunismo fundado por Mao Tsé tung. A mais absurda é em torno da “guerra contra os pardais” entre 1958 e 1960).

Nessa “guerra”, Mao mandou as crianças matar os pardais porque, dizia, comiam as sementes e impediam a reforma agrária atingir suas irreais metas.

E foi só um capítulo da “campanha contra as quatro pragas”: pardais, moscas, mosquitos e camundongos.

Mao convocou os 600 milhões de chineses da época de todas as idades e exaltou as “virtudes revolucionárias” das crianças que deviam levar à escola “rabos de rato”, segundo testemunhas.

O Comitê Central presidido por Mao elaborou o documento “Decisão de continuar a campanha de combate às quatro pragas” em 29 de agosto de 1958.

Nele foi ordenado como “passo importante para fortalecer a saúde das massas, proteger a força de trabalho e aumentar a eficiência das forças produtivas (...). essa campanha continuar até que todos os ratos, pardais, moscas e mosquitos sejam eliminados do país”.

Em 1957, Mao garantiu como um triunfo que o comunismo ultrapassaria a produção industrial da Grã-Bretanha em quinze anos.

E para cumprir esse objetivo em 1958 dispôs o plano econômico e social 'Grande Salto Adiante', que preconizava 'andar sobre duas pernas', quer dizer, a produção agrícola e a industrial”, explicou ao “La Nación”, o Dr. Jorge Malena, diretor da Especialização em Estudos da China na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Católica Argentina.

'A 'campanha contra as quatro pestes' foi um dos maiores objetivos delirantes da História'

Mas a reforma agrária estava dizimando a população pela fome: epidemias de cólera, poliomielite, varíola e peste.

Os ditadores marxistas propuseram então combater os mosquitos responsáveis pela malária, os ratos que espalham a peste e as moscas que multiplicavam as doenças, entre elas a cólera e a febre tifoide.

Mao criticou os pardais que comiam sementes nos campos e mandou eliminá-los para garantir alimentos vitais para a economia nacional.

Segundo um provérbio chinês “quando um homem conta uma grande mentira, dezenas a repetem como uma grande verdade”. E a “grande mentira” de Mao foi repetida até a demência.

E aconteceu: “o grande arquiteto da nova China” ordenou o absurdo. Os cientistas elogiaram logo a “perspicácia” do líder e não ousaram contradizê-la temendo ser rotulados de “oportunistas de direita” ou “mulheres com pés pequenos”, ou aristocratas.

Em 1956, Zheng Zuoxin, o ornitólogo mais famoso do país do Instituto de Zoologia da Academia de Ciências, publicou um longo artigo no Diário do Povo glorificando a campanha de extermínio com o título “O dano dos pardais e como eliminá-lo”.

'O extermínio dos pardais para acelerar a reforma agrária foi um desastre ecológico'

A Campanha contra as Quatro Pragas exigiu o apoio massivo da população.

O Dr. Malena também disse que “o governo encorajou a população a fazer barulho com panelas, frigideiras e tambores para assustar os pardais, faze-los voar sem parar até caírem mortos de exaustão. Seus ninhos foram destruídos, os ovos quebrados e os filhotes mortos”.

O governo informou ter eliminado 1 bilhão de pardais, 1,5 bilhão de ratos, mais de 110 milhões de quilos de moscas e mais de 12 milhões de quilos de mosquitos.

Mas aos poucos os cientistas constatam que os pardais comiam outros insetos, vermes e pragas que, esses por sua vez, estavam devorando as plantações.

Na Academia de Ciências, o Dr. Zhu Xi, primeiro diretor do Instituto de Biologia Experimental, afirmou que os pardais eram úteis no combate às pragas e ervas daninhas.

Seu comentário, porém, contradize o “pai do comunismo” e lhe custou a vida, sendo executado pelos guardas vermelhos.

Sem seu predador natural, na primavera de 1959, as pragas se espalharam por todo o país e gafanhotos, vermes e outros insetos provocaram perdas enormes nas colheitas.

'A população morria de fome em meio às campanhas ideológicas'

Mao encerrou a batalha em 1960 e o extermínio dos pardais foi substituído pelo dos percevejos.

O governo comunista teve que importar cerca de 250.000 pardais da União Soviética na tentativa de restaurar o equilíbrio ecológico. Mas, ainda hoje, na China há menos do que deveria haver.

O sucessor de Mao, Deng Xiaoping (1978-1989), considerou que “Mao estava três quartos certo e um quarto errado. Mas sua contribuição foi primordial e seus erros secundários”.

Mao, que certamente se achava mais sábio que Xi Jinping, defendia “usar as ciências naturais para compreender, superar e mudar a natureza”.

Mas um outro antigo provérbio chinês foi evocado: “Um pássaro não canta porque tem a resposta para alguma coisa, ele canta porque tem um canto”.

O desastre foi um dos muitos estragos a aves, vegetais e jazidas de minérios provocados pelo pai do comunismo chinês.

Ele, entretanto, continua sendo louvado pela seita vede ecologista como fautor de um regime ideal para defender a natureza.

Verde: a cor nova do comunismo

Eleição na França aumenta ansiedade global




Por Dorrit Harazim (foto)

‘Melhor não haver nem uma única crise a mais — minha agenda já está lotada.’ A frase dos anos 1970 atribuída a Henry Kissinger, o até hoje mitificado guru da abusada Realpolitik americana, soa datada para 2022. É que crises globais, mesmo em cascata, são gerenciáveis, enquanto uma humanidade exausta, num mundo a cada dia mais confuso e mutante, soa outro tipo de alarme: o autoritarismo. (Nem vamos falar aqui da ameaça de derretimento do nosso único hábitat, a Terra, que teimamos em esconder de nós mesmos.)

Lá atrás, em pleno caos da Segunda Guerra Mundial, o dublê de psicólogo social e filósofo Erich Fromm havia apontado para as precondições que solidificaram a autocracia na sua Alemanha natal. Além da extrema ansiedade econômica e dos maciços deslocamentos humanos da época, Fromm citava o mundo em desarranjo, onde as pessoas não conseguiam mais imaginar quem seriam, como viveriam dali em diante. Tampouco conseguiam imaginar onde estariam seus filhos quando adultos. Por se alimentar do medo e da raiva coletivos, esse tipo de ansiedade traz em seu bojo perigos enormes para a democracia. É nessa confluência de desassossegos que nos encontramos hoje, dia em que a França decidirá pelo voto que sentido quer dar às palavras liberdade, igualdade, fraternidade.

Historicamente, regimes autoritários sempre recorreram com eficácia máxima a ferramentas de propaganda social negativa como medo e raiva, ódio e desconfiança — facetas presentes em qualquer sociedade. O problema está em reconhecer que nenhum sentimento humano positivo tem força emocional comparável ao que é destrutivo, ao que foi corrompido. Portanto nada mais urgente e difícil num mundo à deriva do que conseguir transformar a decência humana (também presente em todas as sociedades) numa força capaz de engajar cidadãos na defesa de valores democráticos. Nessa contenda, demagogos e autocratas são imbatíveis, pois oferecem soluções simplistas, tão imediatas quanto falsas, para problemas de alta complexidade como a velocidade dos avanços tecnológicos e o galope de mudanças na esfera identitária e comportamental.

Mudanças geram ansiedade, e seu ritmo atual anda frenético, facilmente explorado por lideranças sectárias e autocracias eleitorais. Em entrevista sobre o tema para o cientista social Anand Giridharadas, a efervescente escritora e jornalista russo-americana Masha Gessen, da revista New Yorker, foi clara: “As lideranças políticas [democráticas] precisam reconhecer que pessoas do mundo todo se encontram num estado de ansiedade extrema, e com motivos para isso”. Para a autora de “O futuro é História”, demagogos e autocratas dão de dez quando dizem entender as aflições mundiais geradas pela globalização, por alterações demográficas aceleradas e progresso nas esferas racial e de gênero. “Lideranças democráticas bem que poderiam se esforçar para reconhecer e encarar essas ansiedades, em vez de recorrer a velhos jargões da política”, diz Gessen.

Raras vezes o sentimento de ameaça esteve tão difundido globalmente. Trata-se de uma ameaça existencial difusa, imaterial, desvinculada de perigo físico, embora também afetada pelo espetáculo dantesco da guerra em curso na Ucrânia. Emergiu daquela terra invadida, com cidades reduzidas a esqueletos e ruínas, um espécime de líder capaz de se comunicar com os seus por meio de uma linguagem universal que pode ser letal, quando não autêntica: a empatia. Talvez por não ter tido tempo de ensaiar uma estratégia de marketing político para tempos de guerra, o presidente da Ucrânia sob assalto, Volodymyr Zelensky, teve de optar por ser quem é, sem retoques. Acabou matando de inveja e assombro a elite política mundial. Suas falas de compaixão e urgência soam autênticas, parecem confiáveis — a ponto de importar pouco, neste mundo contaminado por extremos, sua real inclinação ideológica.

Masha Gessen traça uma diferença capital entre “sociedades totalitárias” e “Estados totalitários”. No primeiro grupo, ainda coloca a Rússia de Vladimir Putin, uma vez que não é o Estado que exerce pressão direta e ininterrupta sobre cada cidadão, como na era stalinista —a pressão por uniformizar o comportamento social vem dos próprios cidadãos. Nesse tipo de autocracia, a população não precisa esconder suas opiniões — ela simplesmente perdeu a possibilidade de formar uma opinião própria.

As eleições presidenciais de hoje, na França, e a de outubro próximo, no Brasil, são de dar calafrios e/ou esperança — são decisivas demais para a marcha claudicante da democracia mundial. Não há espaço nem tempo sobrando.

O Globo

EUA dizem que enviarão à Ucrânia "as armas que ela precisa"

 




Conselheiro de segurança nacional da Casa Branca diz que equipamentos estão chegando "todos os dias" à Ucrânia. Presidente ucraniano manifesta ceticismo: "Não tenho confiança de que receberemos tudo o que precisamos."

Os Estados Unidos estão empenhados em fornecer à Ucrânia "as armas que ela precisa" para se defender contra a Rússia, afirmou neste domingo (10/04) o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, enquanto a Ucrânia busca mais ajuda militar do Ocidente.

Sullivan disse que o governo Joe Biden enviará mais armas para a Ucrânia para evitar que a Rússia amplie o controle de áreas do território ucraniano e promova ataques a civis, os quais Washington considera crimes de guerra.

"Vamos fornecer à Ucrânia as armas de que ela precisa para derrotar os russos e impedi-los de tomar mais cidades e vilas onde eles cometem esses crimes", disse Sullivan em uma entrevista à emissora ABC News. Moscou rejeita as acusações de que tenha cometido crimes de guerra na Ucrânia.

Em seguida, à emissora NBC News, Sullivan disse que os Estados Unidos estavam "trabalhando 24 horas por dia para entregar nossas próprias armas (...) e organizar e coordenar a entrega de armas de muitos outros países". "As armas estão chegando todos os dias", disse Sullivan, "inclusive hoje".

Os Estados Unidos afirmam ter enviado 1,7 bilhão de dólares (R$ 8 bilhões) em assistência militar à Ucrânia desde que a Rússia iniciou sua invasão, em 24 de fevereiro, disse a Casa Branca na semana passada.

As entregas de armas incluem mísseis antiaéreos Stinger e mísseis antitanque Javelin, bem como munições e coletes balísticos. Mas os líderes americanos e europeus estão sendo pressionados pelo presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, a fornecer armas e equipamentos mais pesados para combater a Rússia na região leste do país, onde se espera que os russos intensifiquem seus ataques.

Zelenski cético sobre promessa americana

Em entrevista à CBS News neste domingo, Zelenski manifestou ceticismo de que os Estados Unidos entregariam as armas que ele considera serem necessárias.

Se a Ucrânia poderá ou não vencer a invasão russa "depende de quão rápido seremos ajudados pelos Estados Unidos. Para ser honesto, se seremos ou não capazes de sobreviver depende disso", disse Zelenski. "Tenho 100% de confiança em nosso povo e em nossas Forças Armadas, mas infelizmente não tenho confiança de que receberemos tudo o que precisamos."

Na sexta-feira, autoridades ucranianas relataram que mais de 50 pessoas foram mortas em um ataque com mísseis em uma estação de trem na cidade de Kramatorsk, na região de Donetsk.

A invasão da Rússia forçou cerca de um quarto da população de 44 milhões a deixar suas casas, transformou cidades em escombros e matou ou feriu milhares de pessoas.

Moscou nega ter como alvo os civis no que chama de "operação especial" para desmilitarizar e "desnazificar" seu país vizinho. A Ucrânia e as nações ocidentais descartam essa alegação e a consideram um pretexto infundado para a guerra.

A Rússia nomeou no sábado um novo general para liderar suas forças na Ucrânia, Aleksandr Dvornikov, que tem experiência militar significativa na Síria. Considerando esse histórico, Sullivan disse esperar que Dvornikov autorize mais brutalidade contra a população civil ucraniana.

A deputada americana Liz Cheney, do Partido Republicano, afirmou à CNN que a administração Biden deveria fornecer à Ucrânia também armas ofensivas, como tanques e aviões, além de sistemas defensivos como mísseis antitanque e antiaéreos. "Acho que precisamos fazer tudo o que Zelenski diz precisar neste momento, dada a batalha inacreditável que eles vêm travando", disse.

Uma pesquisa divulgada neste domingo pela CBS News mostrou amplo apoio entre os americanos para o envio de mais armas para a Ucrânia. De acordo com o levantamento, realizado na semana passada à medida que as notícias dos ataques russos contra civis se multiplicavam, 72% dos entrevistados disseram ser a favor do envio de mais armas, e 78% apoiam sanções econômicas contra a Rússia.

Deutsche Welle

É assustador 2

 



Nossas ‘três eleições’ de 2022 são teste relevante para a capacidade e a disposição de nossa democracia para reagir à cacofonia e ao caos.

Por Pedro S. Malan* (foto)

Uma nova baixa para a democracia global (A new low for global democracy, no original) é o título de trabalho recente publicado pela The Economist Intelligence Unit que classifica o “estado da democracia” por meio de cinco critérios: processo eleitoral e pluralismo, funcionamento do governo, participação política, cultura política democrática e liberdades civis. Na edição mais recente – fevereiro de 2022 –, a nota média para o conjunto de 167 países atingiu um novo limite inferior.

Ainda que encerrem certo grau de subjetividade, avaliações dessa natureza indicam algo relevante. Há muitos descontentes com a democracia e com a globalização e ambos os descontentamentos estão relacionados, no que talvez constitua uma tendência. Vale citar Adam Przeworski: “Não acredito que a sobrevivência da democracia esteja em jogo na maioria dos países, mas não vejo nada que possa acabar com o nosso descontentamento atual. Ele não será aliviado por acontecimentos políticos ocasionais ou pelos resultados de eleições futuras. A crise não é apenas política; tem raízes profundas na economia e na sociedade. É o que me parece mais assustador”.

Meu artigo do mês passado (É assustador, 13/3) abre da seguinte forma: “Começamos muito mal esta terceira década do século 21. É assustador imaginar os desdobramentos desta crise global, que transcende em muito a questão ucraniana (...). (...) terão consequências globais, geopolíticas e econômico-sociais que se projetarão por anos. As incertezas, os riscos e a volatilidade, que já não eram pequenos, acentuaram-se sobremaneira com os choques de oferta, as pressões inflacionárias e a inevitável redução da taxa de crescimento global”.

Esta terceira década começou com a identificação do vírus que causa a covid-19 e a declaração da pandemia. As respostas de governos (Tesouros e bancos centrais) para mitigar os efeitos da crise sobre o emprego e a renda foram inéditas em sua amplitude e profundidade. Ainda assim, 2020 foi marcado por uma recessão global até que as vacinas fossem descobertas, produzidas e começassem a ser aplicadas em escala.

A forte recuperação de 2021 levou muitos a enxergar a proximidade de um “novo normal”. Essa percepção é, no entanto, questionada pelas entrevistas recentes (The Economist) dos drs. Anthony Fauci (EUA) e Jeremy Farrar (Inglaterra). Para Farrar, “passados dois anos, a pandemia está longe de ter acabado. A ideia de que em breve a covid-19 não estará mais circulando pelo mundo tem chance zero de ocorrer”. A observação do que ocorre neste momento na maior cidade do mundo (Xangai), onde mais de 26 milhões de habitantes encontram-se sob lockdown e testes compulsórios para lidar com uma nova onda de cepas, tampouco autoriza complacência.

No início da pandemia, indagava-se com frequência: “A covid é um game changer ou apenas vai exacerbar tendências preexistentes?”. A pergunta é agora reiterada, diante das consequências das respostas de governos à covid em 2020/2021, da invasão da Ucrânia por tropas russas no início de 2022 e das respostas dadas por EUA e União Europeia. Penso agora que estamos diante de um game changer mais que de simples exacerbação de tendências já existentes. Não haverá volta ao status quo anterior.

Neil Ferguson sintetizou bem a questão: “O mundo tem um problema de inflação sério e se agravando, com os bancos centrais seriamente atrasados. Quanto mais esta guerra continuar, mais séria será a ameaça de estagflação (inflação alta, mas com crescimento econômico baixo, nulo ou negativo). Esse problema será mais grave em países que dependem fortemente da Ucrânia e da Rússia, não apenas para energia e grãos, mas também para fertilizantes, cujos preços praticamente dobraram como resultado da guerra. Qualquer um que acredite que isso não terá consequências sociais e políticas adversas ignora a história”.

Há um “novo diferente” – na economia, na geopolítica, no social; e nas preocupações acentuadas, em muitos países relevantes, com segurança de vários tipos (energética, alimentar, sanitária, ambiental, cibernética, militar). Restarão afetadas as possibilidades de ação coletiva e de cooperação internacional, tão necessárias para lidar com algumas dessas dimensões da segurança.

O poeta inglês John Keats escreveu, em 1818, que “não há nada estável no mundo: o alvoroço (uproar) é a nossa única música”. O início da frase é especialmente verdadeiro. Anne Applebaum o expressou de maneira relevante: “Os freios, filtros e contrapesos das democracias constitucionais ocidentais jamais garantiram estabilidade. Eles sempre exigiram certa tolerância pela cacofonia e pelo caos, assim como certa disposição em reagir às pessoas que criam cacofonia e caos”.

O que nos remete ao Brasil de hoje. O professor Joaquim Falcão nota que teremos em outubro não uma, mas três eleições: para presidente, para o Congresso e, por via de consequência, para a cúpula do Judiciário, para a qual o futuro presidente deverá apontar diversos nomes. Nossas três eleições de 2022 constituem teste especialmente relevante para a capacidade e a disposição de nossa democracia constitucional para reagir à cacofonia e ao caos.

*Economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC.

O Estado de São Paulo

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