segunda-feira, abril 11, 2022

França terá segundo turno entre Macron e Marine Le Pen




Líder francês termina 1º turno na liderança, mas pesquisas indicam que duelo com extremista Marine Le Pen em 24 de abril será mais difícil que em 2017, provocando apreensão sobre o futuro da segunda maior economia da UE.

Por Jean-Philip Struck

Emmanuel Macron e a extremista de direita Marine Le Pen vão se enfrentar no segundo turno das eleições presidenciais francesas. Segundo pesquisa boca de urna Ipsos, Macron recebeu 27,6% dos votos, e Le Pen, 23,0%.

O independente de esquerda Jean-Luc Mélenchon ficou em terceiro lugar, com 22,2%%, após passar os últimos dias pregando "voto útil" para barrar a presença Le Pen no segundo turno. Em quarto lugar ficou independente de extrema direita Éric Zemmour, com 7,2%, seguido de Valérie Pécresse, da direita tradicional, que conquistou 4,8% dos votos. Cinco pulverizadas candidaturas de esquerda, entre ecologistas e anticapitalistas, receberam cerca de 13% dos votos.

A escolha dos franceses de levar Macron e Le Pen ao segundo turno repete o duelo do pleito de 2017, que havia marcado a ascensão meteórica de Macron para a Presidência francesa como o mais jovem ocupante do cargo na história. O duelo ainda coloca mais uma vez frente a frente duas visões opostas sobre o futuro da França, a identidade do país e seu espaço na União Europeia.

Para Macron, que busca um segundo mandato – algo que um presidente francês não consegue desde 2002 –, o duelo final será uma espécie de plebiscito sobre seus últimos cinco anos de governo e um teste para o centro político francês se apresentar mais uma vez como uma muralha viável contra a extrema direita.

Pró-europeu e reformista, Macron tem como vantagem apresentar bons números de crescimento econômico. Por outro lado, acumula críticas pela falta de medidas para conter a queda do poder aquisitivo dos franceses – tema que dominou a campanha e se aprofundou com os efeitos da guerra na Ucrânia, mas que remonta aos protestos dos "coletes amarelos" de 2018.

Para Marine Le Pen, o duelo do segundo turno deve ser o teste final da viabilidade de sua estratégia de "normalização", iniciada antes mesmo do pleito de 2017, que deixou em segundo plano aspectos mais explícitos da sua agenda de extrema direita e focou mais em temas sociais – em alguns casos se apropriando de pautas de esquerda. Mas críticos observam que as mudanças são apenas cosméticas, e que o velho extremismo xenófobo e anti-UE de Le Pen e seu grupo permanece o mesmo.

Os resultados ainda indicam que a eventual conquista do apoio de eleitores de esquerda, dispersados em seis candidaturas de esquerda no primeiro turno, vai ser decisivo para ambos os candidatos no segundo turno.

Déjà vu

O pleito tem sido marcado por uma sensação de déjà vu. Foi a terceira vez que Le Pen e Mélenchon se apresentaram como candidatos. E também a terceira vez que um candidato de extrema direita passa para o segundo turno, disparando alertas em Bruxelas e reavivando o temor que a segunda maior economia do bloco possa ser comandada por uma extremista anti-UE.

Macron, que capturou a eleição de 2017, apresentando-se como um jovem independente com um discurso otimista pró-europeu, também já não pôde contar com a vantagem de se apresentar como uma novidade no sistema político.

E novamente partidos tradicionais de esquerda e direita, que por décadas dominaram a política francesa e se alternaram no poder, agonizaram nas urnas, assim como ocorreu em 2017, ficando mais uma vez de fora do segundo turno. Combinados, o Partido Socialista (PS) e Os Republicanos conquistaram menos de 7% dos votos neste domingo.

O pleito também voltou a ocorrer em meio a um cenário externo tumultuado. Em 2017, eram acontecimentos recentes como o "Brexit" e a eleição de Donald Trump nos EUA que forneciam apreensão adicional. Desta vez, o pano de fundo é formado pelos efeitos ainda persistentes da pandemia e a guerra de agressão russa na Ucrânia.

'Pleito deste ano foi marcado pela apatia de parte do eleitorado'

Os desafios de Macron no segundo turno

Mas as semelhanças param por aí. Segundo pesquisas, ao contrário do que ocorreu cinco anos atrás, Macron terá mais dificuldades para vencer o segundo turno.

A maioria das pesquisas sobre a segunda rodada divulgadas nesta semana aponta que o atual presidente conta apenas com entre dois e seis pontos de vantagem sobre Le Pen.

Um levantamento realizado pelo instituto brasileiro Atlas Político, por sua vez, ganhou destaque nesta semana na imprensa ao apontar que Macron estaria até mesmo um ponto atrás da rival.

Um cenário muito diferente de 2017, quando Macron aparecia confortavelmente mais de 25 pontos acima da extremista nas simulações de segundo turno. No final, Macron venceu com mais de 32 pontos de vantagem.

'Eleitores de Jean-Luc Melénchon podem ser decisivos para frear a extrema direita no segundo turno'

Abstenção

Cerca de 49 milhões de eleitores estavam habilitados a votar neste domingo. A participação eleitoral foi estimada em 74%, com 26% de abstenção, segundo pesquisa Ipsos/Sopra Steria divulgada pelo canal France 24. Foi a segunda maior taxa de não comparecimento da história do primeiro turno presidencial, um sinal de apatia de parte significativa do eleitorado.

Em 2017, 22,2% dos eleitores deixaram de comparecer às urnas na primeira etapa. O recorde foi registrado no primeiro turno de 2002, quando 28,4% não votaram, um desinteresse que contribuiu para que Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, passasse para o segundo turno, marcando a primeira passagem bem-sucedida de um candidato da extrema direita para a etapa seguinte da corrida presidencial.

A hora de um novo "cordão sanitário"?

Com a repetição do duelo Macron e Le Pen já surgem apelos para a formação de um "cordão sanitário" para apoiar Macron no segundo turno e frear a extrema direita, assim como ocorreu em 2002, quando o establishment francês e diferentes espectros políticos se uniram em peso para apoiar o então presidente de direita Jacques Chirac contra Jean-Marie Le Pen.

Em 2017, um movimento semelhante foi lançado para apoiar Macron contra Marine Le Pen, mas já evidenciava rachaduras, num presságio das dificuldades que aguardam o presidente neste segundo turno de 2022. A vantagem de Macron naquele pleito havia sido 16 pontos percentuais abaixo do resultado obtido por Chirac contra Jean-Marie Le Pen.

A quinta colocada neste primeiro turno, Valérie Pécresse, dos Republicanos, já declarou neste domingo apoio a Macron no segundo turno – seguindo o exemplo de François Fillon, que em 2017 disputou a presidência pela sigla e se apressou em apoiar Macron.

Jean-Luc Mélenchon, populista de esquerda, por sua vez, pediu a seus eleitores que não votem em Le Pen. "Sabemos em que nunca iremos votar (...) Nem um único voto deve ir para a senhora Le Pen", afirmou após a divulgação da boca de urna, contudo sem pedir que seus apoiadores votassem em Macron – a mesma estratégia adotada por ele em 2017.

Mas parte do seu eleitorado sinaliza que vai se comportar de maneira diferente de 2017. Naquele pleito, 36% dos eleitores de Mélenchon escolheram se abster ou votar nulo/branco no segundo turno; 53% votaram em Macron e 11% se distanciaram da esquerda para votar em Le Pen.

Desta vez, a proporção de eleitores de Mélenchon que contemplam votar extrema direita pode passar de 20%, segundo levantamentos. Já a abstenção/brancos/nulos nesse eleitorado arrisca ultrapassar 50%.

Partidos tradicionais agonizam

O primeiro turno também foi marcado mais uma vez pelo naufrágio das urnas de duas legendas tradicionais de esquerda e direita da França: o Partido Socialista (PS) e Os Republicanos.

O PS, que foi representado pela prefeita de Paris, Anne Hidalgo, amargou apenas 2% dos votos. Um resultado ainda pior que o de Benoît Hamon, que obteve 6,36% no pleito de 2017, quando a legenda penou por causa da impopularidade do então presidente François Hollande. Em uma campanha marcada pela fragmentação da esquerda, Hidalgo teve dificuldades em fazer sua campanha decolar, apesar da vitrine oferecida pela prefeitura da maior cidade da França.

Entre os Republicanos, o resultado foi apenas um pouco melhor. A candidata da legenda Valérie Pécresse conseguiu 4,8% dos votos. Bem abaixo dos 20,01% obtidos por pelo candidato François Fillon no pleito de 2017.

Sucessores do antigo União por um Movimento Popular – a legenda dos ex-presidentes Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy –, os Republicanos penaram nesta campanha no campo congestionado dos candidatos de direita. A presença dos extremistas Le Pen e de Zemmour na corrida também tornou ineficaz a estratégia de Pécresse de fazer acenos para eleitores mais radicais em temas de imigração.

Macron: mais cinco anos?

Apesar de não demonstrar a mesma força eleitoral de outrora, Macron, do partido A República em Marcha, entrou na corrida com algumas armas para tentar conquistar um segundo mandato, algo que nenhum presidente francês consegue desde 2002. A economia é seu principal argumento para convencer o eleitorado de que as reformas de seu mandato estão rendendo frutos.

A França se recuperou mais rápido do que se esperava da pandemia, com um crescimento de 7% em 2021, o maior em 52 anos. Por sua vez, a taxa de desemprego foi a mais baixa em uma década e os investimentos estrangeiros pouco a pouco voltaram a fluir.

Por outro lado, muitos se perguntam se os ganhos econômicos se refletiram no bolso dos cidadãos. Pesquisas entre o eleitorado citam como a principal preocupação a perda de poder aquisitivo decorrente da inflação.

Macron ainda se viu sob críticas ao apresentar recentemente projetos impopulares, como o aumento da idade mínima para aposentadoria dos atuais 62 para 65 anos e reformas na concessão de benefícios de renda mínima pelo estado. Ainda pesaram sobre seu governo críticas pela contratação maciça de consultorias privadas por meio de contratos milionários, entre elas a empresa americana McKinsey, algo que apenas reforçou a imagem de Macron em alguns setores como um "presidente dos ricos".

Ele ainda entrou tardiamente na campanha, anunciando oficialmente sua candidatura à reeleição no início de março. Nas semanas seguintes, evitou participar de debates com outros candidatos e preferiu buscar protagonismo atuando como um mediador na guerra na Ucrânia, evitando ainda eventos de campanha em contato direto com eleitores.

A estratégia foi inicialmente benéfica para Macron, que conseguiu passar uma imagem de estadista e subir nas pesquisas, mas o efeito logo passou quando os franceses começaram a se mostrar mais preocupados com os efeitos do conflito na economia.

Neste segundo turno, analistas apontam que Macron terá que buscar votos entre eleitores de esquerda para conter Le Pen.

O presidente já vem apostando num discurso de "medo", advertindo sobre os riscos de a extrema direita conquistar o governo. Mas, como mostram as pesquisas, isso pode não ser suficiente. Diante do desafio, Macron já prometeu novas medidas para diminuir o impacto nos preços da energia, cortejando o eleitorado de esquerda.

A vez de Le Pen?

Figura conhecida do eleitorado francês e herdeira de um clã político que há décadas assombra a França, Marine Le Pen entrou em sua terceira disputa tentando passar uma imagem mais moderada, focando em temas sociais, como diminuição dos impostos e aumento de salários e aposentadorias.

O objetivo: aumentar seu apelo junto ao eleitorado, até mesmo entre aqueles que costumavam votar na esquerda. Vários pontos do seu programa neste ano se aproximaram de ideias defendidas pelo esquerdista Melénchon, especialmente na questão da idade de aposentadoria e subsídios para famílias de menor renda.

Em 2017, a campanha de Le Pen havia focado principalmente no combate à imigração e na defesa de um "Frexit".

Agora, a linguagem usada nas agendas anti-imigração, anti-União Europeia e anti-Islã, bandeiras tradicionais de Marine, passaram a ser abordadas com um vocabulário menos explicito, em alguns casos adotando a linguagem de defensores do estado laico e até do feminismo. Com o choque causado pela guerra na Ucrânia, ela ainda tratou de minimizar sua admiração pelo presidente russo, Vladimir Putin, embora seu partido, o Reagrupamento Nacional, tenha por anos cultivado laços próximos com o Kremlin.

Ao longo da campanha, ela chegou a ser ameaçada pela candidatura de Eric Zemmour, um comentarista televisivo que ganhou notoriedade por declarações abertamente xenófobas e por defender uma agenda ainda mais radical que a de Marine, atraindo eleitores que se sentiam órfãos do antigo estilo violento de Jean-Marie Le Pen. No ano passado, Zemmour chegou a aparecer à frente de Marine Le Pen em algumas pesquisas.

Mas a ascensão de Zemmour não seria duradoura. O polemista acabou perdendo fôlego em parte por causa da falta de propostas para lidar com a apreensão do público em relação à economia. E no longo prazo, Zemmour, longe de causar danos duradouras a Le Pen, acabou com seu radicalismo aberto por ajudar a normalizar ainda mais a imagem da rival, oferecendo um contraste negativo involuntário. Após a divulgação da boca de urna neste domingo, Zemmour afirmou que apoiará Le Pen no segundo turno.

Críticos de Le Pen apontam que a forma pode ter mudado, mas o conteúdo permanece o mesmo. "Seus fundamentos não mudaram: é um programa racista que visa dividir a sociedade e é muito brutal. É um programa de saída da Europa, embora ela não o diga claramente", afirmou Macron recentemente. "Marine Le Pen mente para as pessoas."

Embora tenham ficado em segundo plano na sua campanha, Marine Le Pen ainda defende deter o que chama de "imigração descontrolada" e "erradicar as ideologias islâmicas". Ela também não esconde que pretende recorrer a ferramentas populistas como referendos para mudar a Constituição, contornando a Assembleia Nacional. Em vez de defender explicitamente tirar a França da UE, ela agora fala em "renegociar tratados" e diminuir as contribuições financeiras do país ao bloco.

Deutsche Welle

As denúncias de corrupção no governo Bolsonaro não são meras narrativas




Não existem narrativas, mas suspeitas. A robustez das evidências é que vai dizer se houve corrupção ou não. 

Por Diogo Schelp 

As recentes suspeitas de corrupção no governo de Jair Bolsonaro podem não se confirmar, mas não são meras narrativas. Explico, mas antes faço um paralelo com o massacre de civis em lugares ocupados por tropas russas na Guerra na Ucrânia.

As forças russas tentaram, desde o início da guerra, em 24 de fevereiro, promover um cerco a Kiev. Fracassada a investida para tomar a capital ucraniana, os russos bateram em retirada e focaram os combates no leste do país. Deixaram para trás um cenário de devastação e fortes indícios de crimes de guerra contra a população civil nos arredores de Kiev, especialmente na localidade de Bucha.

As imagens que rodaram o mundo mostram os corpos de moradores dessas cidades nas ruas, em estado de putrefação, muitos executados com tiros pelas costas, alguns com as mãos amarradas.

Os registros não foram feitos apenas por autoridades ucranianas, com óbvio interesse em revelar crimes cometidos pelas forças invasoras, mas também por jornalistas de vários veículos de comunicação de diferentes países.

Também há relatos fortes, verossímeis, de estupro e tortura por parte de soldados russos contra mulheres e crianças ucranianas.

O governo de Vladimir Putin afirma que as imagens são montagens e que tudo não passa de falsificações com o objetivo de "provocar" a Rússia. As acusações de que civis foram executados e torturados não passariam de narrativas de guerra, portanto.

Mas os indícios de que esses crimes contra civis de fato ocorreram não param de surgir. Entre os mais recentes está uma conversa via rádio interceptada pelo serviço de inteligência alemão em que um comandante russo ordena a seus subordinados que matem todos os civis em Bucha.

O caso do massacre em Bucha e das acusações de crimes contra civis em outros locais da Ucrânia está encerrado? De jeito nenhum. Investigações independentes conduzidas por organizações internacionais devem seguir adiante, de maneira criteriosa, para confirmar ou não as acusações.

É preciso revelar os fatos e permitir que eventuais culpados sejam identificados e responsabilizados, o que pode valer tanto para as autoridades máximas da Rússia, por mais difícil que seja encontrar um meio para puni-las, quanto para incriminar agentes ucranianos — se confirmada a versão russa, carente de evidências, de que os assassinatos foram cometidos por batalhões neonazistas do país vizinho.

De um jeito ou de outro, não se pode aceitar a afirmação do governo russo de que tudo não passa de "provocação" para despertar a indignação global. Alguém massacrou aquelas pessoas. O que existem são suspeitas baseadas em fatos concretos, não meras narrativas.

O mesmo vale para as suspeitas de corrupção no governo Bolsonaro. Vejamos alguns dos fatos conhecidos:

Um áudio em que o então ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirma que em segundo lugar na lista de prioridade de liberação de recursos para prefeituras estão as demandas intermediadas por uma dupla de pastores lobistas, com o suposto aval do presidente Bolsonaro.

O relato de prefeitos de que os tais pastores pediram propina em dinheiro e até em ouro para que agilizassem a liberação de recursos junto ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), cujo presidente, Marcelo Ponte, é apadrinhado do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, do PP, um dos caciques do centrão fisiológico.

Um pregão para compra de ônibus escolares com valores unitários muito acima dos preços de mercado, levado adiante pelo FNDE mesmo com os alertas da área técnica do MEC.

Gastos milionários com kits de robótica para escolas no Nordeste que, em alguns casos, não possuem nem água encanada, comprados de empresa de aliado do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, do mesmo partido de Ciro Nogueira, com recursos do MEC liberados via emendas de relator (muitas das quais são controladas pelo próprio Lira).

"Kit robótica, então, são RP9, não tem o que discutir", disse Bolsonaro em sua live semanal de quinta-feira, referindo-se à sigla que serve para designar as emendas de relator. Ou seja, o presidente se exime de responsabilidade pelo que é feito do dinheiro público federal com o argumento de que a destinação do recurso é terceirizada — sendo que foi o seu governo que a terceirizou para os parlamentares, como forma de comprar apoio do centrão no Congresso.

É a oficialização do Mensalão, o esquema de compra de apoio parlamentar criada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Os fatos acima mencionados bastam para comprovar que se tratam de casos de corrupção? Não, mas são evidências importantes que reforçam a suspeita e que pedem mais investigação.

Ciro Nogueira, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, disse sobre o caso dos pastores lobistas: "Não houve corrupção. É uma corrupção virtual. Existem narrativas."

Dois dias depois de Ciro Nogueira dizer essas palavras, um relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou que ele cometeu os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por receber propina da JBS para apoiar a reeleição de Dilma Rousseff em 2014.

Não existem narrativas. Existem suspeitas. A robustez das evidências é que vai dizer se houve corrupção ou não.

Gazeta do Povo (PR)

Embargo total a petróleo russo poderia parar guerra na Ucrânia, diz ex-assessor de Putin




Plataforma de Petróleo Russa

Um “verdadeiro embargo” à energia de origem russa por parte de países ocidentais – como os da União Europeia – poderia parar a guerra na Ucrânia, disse Andrei Illarionov, ex-assessor econômico de Vladimir Putin.

POR JONATHAN JOSEPHS

Illarionov disse que a Rússia “não levou a sério” as ameaças de outros países de reduzir a compra de energia.

Apesar de tentar reduzir sua dependência de fontes russas, a Europa continua comprando petróleo e gás.

No ano passado, os preços em alta significaram que as receitas de petróleo e gás representaram 36% dos gastos do governo russo.

Grande parte dessa receita vem da União Europeia, que importa cerca de 40% de seu gás e 27% de seu petróleo da Rússia.

Esta semana, o representante da União Europeia Josep Borrell disse que “um bilhão de euros é o que pagamos a Putin todos os dias pela energia que ele nos fornece”.

Illarionov disse que se os países ocidentais “tentarem implementar um embargo real às exportações de petróleo e gás da Rússia… aposto que provavelmente dentro de um mês ou dois, as operações militares russas na Ucrânia provavelmente serão encerradas, serão interrompidas”.

“É um dos instrumentos muito eficazes ainda em poder dos países ocidentais”, acrescentou.

Embora o comércio de petróleo e gás tenha continuado durante o conflito, sanções diversas levaram a um cenário em que muitas outras atividades econômicas pararam, muitas empresas estrangeiras se retiraram e as exportações foram interrompidas.

Uma pesquisa recente do próprio banco central da Rússia prevê que a economia encolherá 8% este ano, enquanto o Instituto Internacional de Finanças diz que pode cair até 15%.

Illarionov sugeriu que o presidente Putin estava preparado para suportar um golpe na economia e que ele mostra onde estão suas prioridades.

“Suas ambições territoriais, suas ambições imperiais, são muito mais importantes do que qualquer outra coisa, incluindo o sustento da população russa e da situação financeira do país… até mesmo o estado financeiro de seu governo”, disse ele.

Empregos sob ameaça

Na semana passada, em meio a tensões com a Europa sobre como o gás seria pago, Putin disse que os “indicadores-chave” da saúde da economia russa incluem a “criação de empregos, a redução da pobreza e da desigualdade, a melhoria da qualidade de vida das pessoas, a disponibilidade de bens e serviços”.

Números do Banco Mundial apontam que quase 20 milhões de russos vivem na pobreza.

Nos últimos anos, Putin prometeu reduzir pela metade esse número.

Agora, Illarionov disse que “veremos provavelmente dobrar o número dessas pessoas, talvez até triplicar” à medida que a economia russa piora.

O Centro de Pesquisa Estratégica, think tank com sede em Moscou, estimou que dois milhões de empregos podem ser perdidos este ano, à medida que a taxa de desemprego aumenta após uma baixa recorde.

Essas preocupações são compartilhadas por Vladimir Milov, que é ex-vice-ministro da Energia da Rússia, mas agora faz parte do partido de oposição Rússia do Futuro, de Alexei Navalny.

“Muitas pessoas estão preocupadas em perder seus empregos, a maioria realmente não percebe a gravidade da situação econômica”, disse.

A inflação, que já subiu para 15,7% por causa da guerra, significa que as pessoas podem parar de gastar dinheiro em coisas como academias e refeições em restaurantes e “isso é uma má notícia para muitas pequenas empresas”, disse Milov.

Alguns alimentos básicos, como açúcar, cebola e repolho, tiveram alta de preço de mais de 40% desde o início deste ano.

Milov disse que qualquer queda perceptível nos padrões de vida ajudaria a causa de seu partido como oposição.

“Temos explicado às pessoas o tempo todo que a política de Putin levaria a Rússia a uma catástrofe, incluindo uma catástrofe social e econômica completa, incluindo uma deterioração dos padrões de vida que não vimos em décadas”, disse ele.

“Devo dizer que isso tem um preço extremamente alto. Preferíamos não ver o que está acontecendo hoje.”

No entanto, Milov, que fugiu para a Lituânia no ano passado, acredita que levará tempo para que a queda dos padrões de vida se traduza em mudanças políticas.

“A Rússia é um país com grande inércia na sociedade e muito medo instigado pelas autoridades. Especificamente, as pessoas realmente têm muito medo de protestar porque agora podem acabar na prisão por muito, muito tempo por fazer isso”.

Ele acrescentou: “Mas eu diria que dentro de alguns meses de problemas econômicos reais e profundos, que não vimos em 30 anos, isso mudará o humor da sociedade. Mais pessoas começarão a reclamar em voz alta.”

Andrei Illarionov, que agora vive nos Estados Unidos, disse que uma mudança de governo é inevitável “mais cedo ou mais tarde”.

Ele disse que “é absolutamente impossível ter qualquer futuro positivo para a Rússia com o atual regime político”.

Sob o presidente Putin, ele sugeriu, “não há como esse país ser integrado de volta às relações internacionais, na economia mundial”.

BBC Brasil / Daynews

Ucrânia se prepara para enfrentar ofensiva pesada no leste




Rússia estaria se preparando para tomar regiões separatistas. Na região da capital, são encontrados mais de 1.200 cadáveres. Procuradora-geral ucraniana define Putin como "maior criminoso de guerra do século 21".

Autoridades de Kiev anunciaram neste domingo (10/04) que o exército ucraniano se prepara para "grandes batalhas" contra as forças russas no Donbass, no leste da Ucrânia, onde Moscou controla dois territórios separatistas. A evacuação da região foi retomada neste sábado a partir da cidade de Kramatorsk, palco de ataque recente com míssil que matou mais de 50 civis.

Segundo analistas, a ofensiva em grande escala pode se iniciar nos próximos dias. Muitos questionam a capacidade das tropas russas, desfalcadas e desmoralizadas, de conquistar muito terreno, depois de os motivados combatentes ucranianos terem repelido sua tentativa de tomar a capital, Kiev.

O consultor do presidente Zelenski, Mykhaylo Podolyak, enfatizou que a Ucrânia precisa derrotar o invasor na região leste, antes que se possa realizar um encontro entre os chefes de Estado dos dois países.

1.200 mortos na região de Kiev

Centenas de corpos foram descobertos em torno da capital ucraniana, parcialmente ocupada há várias semanas por forças russas: "Até o momento, só nesta manhã de domingo, temos 1.222 mortos na região de Kiev", disse a procuradora-geral da Ucrânia, Iryna Venediktova, em entrevista ao canal britânico Sky News.

Sem especificar se os corpos descobertos eram exclusivamente de civis, admitiu que possa haver muitos outros cadáveres ainda não recolhidos e avaliados. Ela também mencionou que 5.600 inquéritos por supostos crimes de guerra já foram abertos desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro.

Há uma semana, a alta funcionária havia quantificado 410 civis mortos nos territórios libertados da região de Kiev. Só em Bucha, a noroeste da capital, cerca de 300 vítimas estavam enterradas em valas comuns, de acordo com relatório das autoridades ucranianas de 2 de abril. A cidade se tornou um símbolo das atrocidades da guerra na Ucrânia.

Após as revelações, o presidente ucraniano Volodimir Zelenski anunciou a criação de um "mecanismo especial" para "investigar e processar todos os crimes dos ocupadores", que funcionaria com base no "trabalho conjunto de especialistas nacionais e internacionais".

"Esse mecanismo ajudará a Ucrânia e o mundo a levar à justiça que iniciaram ou participaram de alguma forma nesta terrível guerra e crimes contra o povo ucraniano", prometeu o chefe de Estado.

"Principal criminoso de guerra do século 21"

Na entrevista à Sky News, após aludir a 5.600 inquéritos em curso envolvendo 500 possíveis criminosos de guerra russos, Iryna Venediktova disse considerar o presidente da Rússia, Vladimir Putin, "o principal criminoso de guerra do século 21".

A procuradora-geral ucraniana disse ter provas de que a Rússia esteve por trás do ataque com um míssil contra a estação ferroviária de Kramatorsk, no leste da Ucrânia, que na sexta-feira matou 52 civis, inclusive cinco crianças.

Segundo os dados mais recentes da ONU, a "operação militar especial" na Ucrânia (na terminologia do Kremlin), ordenada por Putin em 24 de fevereiro, matou até agora pelo menos 1.626 civis, incluindo 132 crianças, e feriu 2.267, sendo 197 menores. A organização ressalva que o número real de vítimas pode ser muito maior.

Além disso, a guerra de agressão já causou um número indeterminado de baixas militares e a fuga de mais de 11 milhões de cidadãos, dos quais 4,4 milhões para países vizinhos. A invasão é condenada pela generalidade da comunidade internacional, que tem respondido com o envio de armamento para a Ucrânia e sucessivos pacotes de sanções econômicas e políticas contra a Rússia.

Deutsche Welle

3 cenários: como guerra na Ucrânia poderia escalar e envolver Otan




POR FRANK GARDNER 

Ministros da Defesa da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) se reuniram em Bruxelas (Bélgica) na semana passada para discutir até onde deveriam ir no fornecimento de equipamentos militares para a Ucrânia.

O desafio para a aliança ao longo desta guerra tem sido entender como dar ao país apoio militar suficiente para se defender sem se envolver no conflito e, por consequência, se ver em guerra com a Rússia.

O governo ucraniano tem sido explícito em seus pedidos de ajuda. Se é para ter alguma chance de evitar o próximo ataque russo à região de Donbas, no leste do país, diz, precisa urgentemente de um reabastecimento de Javelin (lançador de mísseis antitanque portátil), NLAW (arma antitanque leve), além de mísseis antitanque e antiaéreos Stinger e Starstreak que suas forças já vêm usando nesta guerra.

As remessas estão chegando. Mas a Ucrânia quer mais.

Quer tanques, aviões de guerra, drones e sistemas avançados de defesa aérea de mísseis para combater o crescente uso pela Rússia de ataques aéreos e mísseis de longo alcance que estão esgotando constantemente os estoques estratégicos de combustível e outros itens essenciais da Ucrânia.

Então, o que exatamente – muitas pessoas podem perguntar – está impedindo a Otan de ir além?

A resposta é a possibilidade de uma escalada. O risco de a Rússia recorrer ao uso de armas nucleares táticas (ou seja, de curto alcance) ou de o conflito se espalhar para além das fronteiras da Ucrânia em uma guerra europeia mais ampla está constantemente na mente dos líderes ocidentais e, nesse caso, há muita coisa em jogo.

O presidente Putin lembrou ao mundo no início desta guerra que a Rússia é uma potência nuclear e que estava movendo sua dissuasão nuclear estratégica para um grau mais alto de prontidão.

Os EUA não seguiram o exemplo, pois não detectaram movimento de ogivas nucleares russas para fora de seus bunkers de armazenamento seguro. Mas a mensagem de Putin foi recebida. O que ele estava efetivamente comunicando era: “A Rússia tem um enorme arsenal nuclear, então não pense que você pode nos dizer o que fazer”.

A doutrina militar russa abre a possibilidade de uso precoce de ogivas nucleares táticas de baixo rendimento no campo de batalha diante da aversão dos países do Ocidente por armas nucleares que não são usadas há 77 anos.

Os planejadores estratégicos da Otan temem que uma vez que esse tabu nuclear seja quebrado, mesmo que o dano seja limitado a um alvo localizado no campo de batalha ucraniano, então o risco de escalada para um conflito nuclear catastrófico entre a Rússia e o Ocidente inevitavelmente aumenta.

E, no entanto, com cada atrocidade aparentemente cometida por soldados russos, a determinação da Otan endurece e suas inibições desaparecem. A República Tcheca já enviou tanques T-72 da era soviética, reconhecidamente desatualizados, mas eles são o primeiro país da Otan a fazê-lo. A Eslováquia está enviando seus sistemas de mísseis de defesa aérea S300.

Ambos os movimentos teriam parecido improváveis e arriscados quando esta guerra começou.

O deputado Tobias Ellwood, que preside o Comitê de Defesa do Parlamento Britânico, é um daqueles que acredita que Putin está blefando quando levanta o espectro das armas nucleares e defende que a Otan deveria estar fazendo mais.

“Temos sido muito cautelosos com os sistemas de armas que nos dispomos a fornecer”, diz ele. “Precisamos de uma atitude mais robusta. Estamos dando aos ucranianos o suficiente para sobreviver, mas não para vencer, e isso deve mudar.”

Então, como exatamente essa guerra Rússia-Ucrânia poderia se transformar em um conflito envolvendo outros países europeus e arrastando a Otan?

Há uma série de cenários potenciais que, sem dúvida, ocuparão as mentes dos ministérios de defesa de países europeus. Aqui estão apenas três deles:

1. Um míssil antinavio fornecido pela Otan disparado por forças ucranianas em Odesa atinge e afunda um navio de guerra russo no mar Negro, com a perda de quase 100 marinheiros e dezenas de fuzileiros navais. Um número de mortos dessa magnitude em um único ataque seria sem precedentes e Putin estaria sob pressão para responder de alguma forma.

2. Um ataque de mísseis estratégicos russos tem como alvo um comboio de suprimentos de equipamentos militares que cruzam um país da Otan, como Polônia ou Eslováquia, para a Ucrânia. Se as baixas fossem no lado da Otan da fronteira, isso poderia desencadear o Artigo 5 da constituição da Otan, trazendo toda a aliança para a defesa do país atacado.

3. Em meio a combates ferozes em Donbas, ocorre uma explosão em uma instalação industrial, resultando na liberação de gases químicos tóxicos. Embora isso já tenha ocorrido, não houve mortes relatadas. Mas se isso resultar no tipo de baixas em massa vistas no uso de gás venenoso pela Síria em Ghouta e se for descoberto que foi causado deliberadamente pelas forças russas, a Otan seria obrigada a responder.

É perfeitamente possível que nenhum desses cenários se concretize.

Mas, embora nações ocidentais tenham demonstrado um raro grau de unidade na força de sua reação à invasão da Rússia, há indicativos de que estão sendo meramente reativas e não pensando em qual deveria ser o fim do jogo.

“A questão estratégica maior”, diz um dos oficiais militares mais experientes da Grã-Bretanha, que pede para não ser identificado, “é se nosso governo está engajado no gerenciamento de crises ou na estratégia real”. Isso exigiria pensar nisso até o fim, acrescenta.

“O que estamos tentando conseguir aqui é dar à Ucrânia toda a ajuda que pudermos, sem chegar à Terceira Guerra Mundial. O problema é que Putin é um jogador de pôquer melhor do que nós.”

O parlamentar Tobias Ellwood concorda. “A Rússia faz isso (ameaça de escalada) de forma muito eficaz. E estamos assustados. Perdemos a capacidade de controlar a escalada”.

BBC Brasil / Daynews

A risco de a Rússia avançar




Duda Teixeira entrevista Alexandra Goujon

Uma das maiores especialistas europeias em assuntos da Ucrânia, a cientista política Alexandra Goujon diz que a invasão do país inaugura uma era em que Moscou, indiferente às potências ocidentais, pode deflagrar conflitos em outras partes do mundo. 

A cientista política francesa Alexandra Goujon, de 49 anos, lançou no ano passado um livro cuja relevância seria multiplicada no último dia 24 de fevereiro, data da invasão do território ucraniano pelas tropas de Vladimir Putin. Sob o título Ucrânia, da Independência à Guerra, a obra aborda a história do país do leste europeu até a invasão da Crimeia, em 2014. Com a guerra alçada ao topo do noticiário global, Goujon se viu demandada por inúmeros jornais e emissoras de televisão. Como profunda conhecedora da realidade que opõe Moscou e Kiev, ela tinha as chaves capazes de ajudar a compreender as origens do conflito.

Formada em 1995 na Sorbonne e professora na Universidade da Borgonha, em Dijon, e na Sciences Po, em Paris, a cientista política critica duramente o discurso de Putin para justificar a guerra – ao anunciar a invasão, ele sustentou que era preciso proteger os ucranianos que falam russo de um genocídio. Para Goujon, trata-se de uma ameaça que, na realidade, nunca existiu. A invasão militar, diz ela, acabou por fortalecer o rancor contra a Rússia e o nacionalismo ucraniano: “Deu origem a uma certa animosidade e até a um sentimento de ódio contra a Rússia”.

Nesta entrevista a Crusoé, Alexandra Goujon faz um alerta inquietante. Ela acredita que a invasão da Ucrânia pelos russos inaugura uma era em que a Rússia pode agir sem reservas, para fazer valer suas vontades em outras partes do mundo, incluindo a Europa, já que Moscou dá mostras de que não está preocupada com a reação das potências ocidentais. “Este pode ser o marco de uma era em que uma nova guerra pode começar abertamente em outro lugar, já que os líderes russos e a mídia ligada ao Kremlin não se importam mais com o Ocidente”, diz. Eis os principais trechos:

Como explicar a força da resistência ucraniana?

A Ucrânia é um país em guerra desde 2014. O espírito de resistência já estava presente desde então, quando os cidadãos ucranianos se organizaram voluntariamente em batalhões para compensar a fraqueza do seu exército ou para oferecer ajuda humanitária a soldados, refugiados e pessoas que vivem além da linha que divide os territórios separatistas do resto da Ucrânia. Essa resistência tornou-se maciça com o início da invasão russa, em 24 de fevereiro deste ano, porque o Estado ucraniano foi ameaçado. Os bairros e cidades foram destruídos por bombardeios do Exército russo, o que impôs a necessidade de um esforço nacional. A Rússia é vista como um poder estrangeiro que quer tomar o controle da Ucrânia, além de querer destruir o país em todos os níveis: militar, humanitário, médico, informativo e político.

Os russos não tomaram Kiev e retiraram suas tropas do entorno da cidade. Como definir a importância da capital ucraniana no cenário da guerra?

Kiev é a capital da Ucrânia e a sede das instituições políticas, incluindo a Presidência. É, portanto, o centro do poder político e estatal. Também foi o cenário onde se desenrolaram importantes revoluções para os ucranianos: a Revolução Laranja, em 2004 (contra a eleição fraudada de Viktor Yanukovych, pró-Rússia), e a Revolução de Maidan, em 2013 e 2014 (que tirou Yanukovych do poder). Na historiografia russa e soviética, Kiev é apresentada como “a mãe das cidades russas”. Na verdade, trata-se da antiga capital do império Rous de Kiev, que existiu entre os séculos IX e XIII e incluía povos eslavos, falantes de finlandês e de turco. No discurso de Putin, Kiev simboliza a berço histórico de integração dos povos eslavos. Dentro da Ucrânia, Kiev, ao contrário, é considerada como o centro histórico do estado ucraniano.

Há um novo nacionalismo ucraniano em ascensão?

O patriotismo ucraniano está sendo forjado desde a independência da Ucrânia, em 1991. A construção nacional está sendo fortalecida com um espaço de mídia específico e uma vida política mais democrática que a da Rússia. A promoção da cultura ucraniana se dá por meio das artes, de festivais, dos livros escolares de história e das comemorações. Um imaginário nacional está sendo erguido em contraposição à Rússia. Em 2003, o presidente Leonid Kuchma (1994-2005), famoso por ser pró-Rússia, publicou o livro A Ucrânia não é a Rússia. Mas a oposição à Rússia ficou mais forte após 2014, com a anexação da península da Crimeia e o apoio russo ao separatismo de duas regiões no leste da Ucrânia. Alguns falantes de russo começaram a falar ucraniano com medo de perder a identidade e muitos russófonos se engajaram nas forças armadas ucranianas. A invasão russa de 24 de fevereiro deu origem a uma certa animosidade e até a um sentimento de ódio contra a Rússia.

Como os ucranianos falantes de russo têm se comportado desde o início da guerra?

Os ucranianos com idioma russo não estão sendo ameaçados. Há de fato um bilinguismo na sociedade, com entendimento mútuo entre falantes de ucraniano e russo, apesar de a política nacional promover o ucraniano. Foi esse, afinal, o único idioma ameaçado de extinção até a independência da Ucrânia, em 1991, depois de décadas de russificação. Outro ponto que chama a atenção é que as principais cidades que foram bombardeadas e quase totalmente destruídas pelo Exército invasor, até o momento, são as que falam russo, como Kharkiv e Mariupol. Quanto às regiões do sul, as populações russófonas exigem a saída dos soldados russos. Ao contrário do que Putin imagina, os russófonos não querem participar do “mundo russo” proposto por ele.

Por que Putin disse ser necessário “desnazificar” a Ucrânia?

O uso do termo “desnazificar” é feito para chocar a opinião pública internacional e semear a dúvida sobre a classe dirigente ucraniana, que é muito associada a um setor do movimento nacionalista ucraniano que colaborou com os nazistas na Segundo Guerra Mundial. Esse estigma contra os líderes começou a ser explorado em 2014, quando ocorreu uma mudança no poder em Kiev, após a Revolução de Maidan. Essa troca de poder foi apresentada pelas autoridades russas como um “golpe fascista”. Os russos passaram a dizer que a extrema-direita teve uma função-chave nessa revolução, mas ela foi essencialmente um movimento de cidadãos comuns, sem filiação partidária. Falar de “desnazificação” é um disparate: o atual presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, é de origem judaica. Quanto aos grupos de extrema-direita, eles existem, mas representam apenas entre 2% e 3% do eleitorado. Foram incapazes de eleger um deputado no Parlamento.

Nesta guerra, fala-se bastante dos grupos Setor de Direita e Batalhão Azov, ambos de extrema-direita. Que força eles têm?

O grupo Setor de Direita e Batalhão Azov foram ativos em 2014, na fase em que era preciso defender o território ucraniano. Mas os movimentos políticos que eles constituem estão associados a uma minoria ínfima. Em termos de pessoal, o Batalhão Azov, que atuou na defesa da cidade de Mariupol, em 2014, representava, antes da invasão russa de 2022, cerca de 2% das forças armadas ucranianas.

Qual é o sentimento geral da população russa em relação à guerra na Ucrânia?

É muito difícil responder a essa pergunta porque a mídia russa destila uma única mensagem. Usar o termo “guerra” é proibido. A imprensa fala apenas de uma operação militar dentro do Donbas, no leste da Ucrânia. Os veículos independentes foram completamente proibidos. Parece difícil, nesse contexto, acreditar em pesquisas de opinião que falam de um apoio popular à tal “operação especial”. Na mídia russa, as fotos de bombardeios de cidades ucranianas são mostradas como se fossem de autoria do Exército ucraniano. Quanto às manifestações contra a guerra, ocorreram inúmeras prisões. Qualquer opinião divergente à ação do governo é fortemente reprimida.

Ao deflagrar a guerra, Putin criticou Vladimir Lênin (1870-1924), alegando que ele errou ao permitir que os países que compunham a antiga União Soviética pudessem se emancipar no futuro. Lênin realmente cometeu esse, digamos, erro?

A Ucrânia é a sucessora da República Socialista Soviética Ucraniana, criada em 1919 e, 1922, integrada à União Soviética. Nesse sentido, Lênin e os bolcheviques contribuíram para a criação de um estado ucraniano. Mas a fundação desse estado também foi uma forma de responder ao movimento nacional ucraniano, que nasceu dentro do Império Russo e foi reprimido antes de uma proclamação de independência, em 1918. Os bolcheviques queriam mostrar a oposição deles ao “grande chauvinismo russo” e também convencer os povos oprimidos da Rússia a aderirem à sua causa política. Mas os anos 1930 foram marcados pelo combate ao que os bolcheviques chamavam de “nacionalismo burguês”: as elites políticas e intelectuais ucranianas foram reprimidas, enquanto os agricultores sofreram com a fome entre 1932 e 1933. Cerca de 4 milhões de pessoas morreram em uma tragédia que só pôde ser mencionada e discutida publicamente após a independência.

Há semelhanças entre a forma como Vladimir Putin e Josef Stalin lidaram com a Ucrânia?

Os líderes russos frequentemente nutrem certo desprezo pelos ucranianos, que foram considerados como “pequenos russos” durante o império czarista, pois não teriam uma cultura que pudesse ser comparada à dos russos. A União Soviética foi fundada sobre uma política de nacionalidades que pressupunha uma hierarquia entre os povos que a compunham. A cultura russa foi a dominante, assim como a língua russa imperava no espaço público. A situação atual é parecida. Putin afirmou repetidamente que o estado ucraniano não tem legitimidade histórica. A invasão militar que ele lançou contra a Ucrânia pretende negar qualquer forma de subjetividade histórica e política do país. Para Putin, os ucranianos só podem ser objetos da história.

Como a guerra atual entrará para a história?

Muitos líderes e intelectuais ucranianos têm dito que estamos em um momento histórico. Os ucranianos defendem sua independência, sua liberdade e o direito de serem senhores do próprio destino, enquanto os russos, seus vizinhos a leste, querem dominá-los e submetê-los. Este conflito também pode ser o marco de uma era em que novas guerras podem ser deflagradas em outros lugares, já que os líderes russos e a mídia ligada ao Kremlin mostram indiferença em relação ao que pensa o Ocidente e o desafiam. Isso nos leva a crer que a época que começou com a queda do Muro de Berlim, em 1989, acabou. O continente europeu será afetado, assim como toda a geopolítica internacional.

Revista Crusoé

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