sábado, abril 09, 2022

Terrivelmente político




Em seus primeiros 100 dias como ministro do Supremo, André Mendonça (esq.) se equilibra entre os diferentes grupos da corte e, curiosamente, é celebrado até pela ala petista da advocacia. 

Por Bruno Abbud 

Pouco mais de cem dias depois de tomar posse como ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, de 49 anos, conseguiu até agora ao menos uma clara vitória. “Aqui no STF a gente brinca que um ministro novo só para de apanhar até chegar o próximo. Dizíamos que o ministro Kassio (Marques) ia apanhar só até o André chegar, mas não foi o que aconteceu”, observa uma pessoa de dentro, que conhece a corte como poucos. “O ministro André chegou e o Kassio continua apanhando.” De fato, Mendonça foi recebido pelos colegas com mais simpatia do que o outro indicado de Jair Bolsonaro, empossado há mais de um ano. “Os ministros respeitam mais o André.” O motivo para a diferença de tratamento talvez esteja no fato de que o ministro “terrivelmente evangélico” parece, cada vez mais, um ministro “terrivelmente político”, que quer ficar bem com todos.

À exceção da novíssima cabeleira – tanto Mendonça quanto Kassio passaram por procedimentos de implante capilar; no caso do segundo, que operou com o médico Thiago Bianco, irmão do advogado-geral da União Bruno Bianco, a operação durou oito horas e não saiu por menos de 55 mil reais –, a dupla tem pouco em comum. Os sinais de que Mendonça é mais bem tratado do que Kassio são visíveis. Um exemplo: logo na posse, as mulheres dele e de Ricardo Lewandowski ficaram amigas e o novato passou a interagir com mais frequência com o colega de toga que é apontado como o mais próximo de Lula dentro da corte. Outro ministro de quem Mendonça é íntimo é Dias Toffoli, em cujo estilo ele prometeu se espelhar, segundo relatos de pessoas que o ouviram às vésperas da sabatina que enfrentou no Senado, no ano passado.

Se no networking Mendonça tem se saído muito bem, nos votos e decisões ele ainda não se apresentou totalmente. Pastor, o novo ministro ainda não foi testado, por exemplo, nos julgamentos de costumes, que não devem entrar na pauta do Supremo neste ano – um caso que promete polêmica, no qual ele terá voto decisivo, é o que determinará se detentas transexuais e travestis poderão escolher entre presídios femininos e masculinos. Por ora, os sinais são dúbios, tanto nas turmas quanto nas decisões monocráticas. Quando a Polícia Militar paulista acusou um homem negro de roubo por meio de um reconhecimento facial feito fora das regras do Código Penal, por exemplo, Mendonça ficou do lado da PM. Quando um rapaz reincidente furtou lâminas de barbear e um desodorante em um supermercado em Sergipe, ele votou por aplicar o princípio da insignificância, e a condenação foi anulada.

Em 17 de março, mesmo dia em que votou a favor das prorrogações sucessivas de prazos para interceptações telefônicas, fazendo jus ao carimbo de lavajatista que recebeu depois de cuidar dos acordos de leniência da Lava Jato na Corregedoria-Geral da União, Mendonça pediu vista do recurso impetrado na Segunda Turma que pode anular a condenação do ex-senador Valdir Raupp, do MDB de Rondônia, a sete anos e seis meses de prisão. Foi seu primeiro julgamento envolvendo casos da operação.

Em 2020, Raupp havia sido sentenciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, depois de ter sido acusado de receber 500 mil reais em propinas da empreiteira Queiroz Galvão, por meio de doação na campanha de 2010. A defesa, a cargo de Antônio Carlos de Almeida Castro, o notório Kakay, disse ser um caso de “criminalização da política”. Lewandowski havia acompanhado o voto divergente de Gilmar Mendes, que defendeu a anulação da sentença do emedebista. Quando Mendonça resolveu pedir vista e interromper o julgamento, o placar estava em 2 a 1. No fim do ano passado, Fachin tinha votado pela manutenção da condenação.

Curiosamente, talvez em razão da nova ordem vigente em Brasília que agrada a réus e investigados, André Mendonça tem sido elogiado até mesmo pela ala da advocacia mais afinada com o petismo – como o tal Grupo Prerrogativas, formado por opositores ferrenhos da Operação Lava Jato. “André foi um elemento de moderação no ápice da Lava Jato, ajudou no processo de formação de uma consciência crítica nos acordos de leniência, colocou ordem no caos, racionalizou as multas nesses acordos, deu racionalidade ao combate à corrupção”, disse um advogado com clientes investigados na operação. “No STF, será conservador nos costumes e liberal na economia. É um cargo de czar, ele é jovem e vai ficar muitos anos lá. Pode ser que mude.”

As principais teses forjadas pelas defesas para combater a Lava Jato, como “a mudança da percepção que se tinha das delações e o fim do alargamento das prisões preventivas”, segundo um deles, já passaram pelo crivo do Supremo. Algumas teses, contudo, ainda aguardam julgamento. E a expectativa dos advogados em relação a André Mendonça é grande. “Em matéria criminal há uma expectativa muito grande de todos nós advogados para saber como é que ele vai se posicionar, na questão especialmente da extinta Lava Jato”, diz Kakay. “Ele é muito mais pró-Lava Jato do que contra, mas sabe dos excessos cometidos pela operação”, diz outro defensor, também contratado por poderosos que foram alvo de investigações nos últimos anos. “André será garantista na medida certa”, aposta.

“Acho que o André tem a vantagem de ser uma pessoa que exerce uma certa humildade, pelo menos por enquanto. Após um certo tempo, os ministros mudam isso. Depois que se coloca a toga, a maioria tende a ficar mais independente”, diz Kakay, em uma declaração daquelas capazes de fazerem Bolsonaro pensar se escolheu bem – o advogado é um crítico ferrenho do governo.

No caso da prorrogação dos grampos, inicialmente André Mendonça havia votado em linha com Gilmar Mendes, contra a possibilidade de investigadores manterem interceptações por longos períodos. No dia seguinte, mudou de posição. Foi motivo para mais elogios. “Essa abertura ao debate é própria dos grandes magistrados. Peço licença para fazer esse registro público porque ao honrar o colegiado o eminente ministro Mendonça está honrando a magistratura brasileira”, declarou Edson Fachin durante a sessão. Alexandre de Moraes também se comoveu: “Mendonça nos deu uma aula, nos ensina a todos hoje no Supremo a importância da humildade”. E acrescentou: “Só os grandes homens são humildes, e o ministro André Mendonça demonstrou que, além de todas as virtudes jurídicas que tem, é uma pessoa abençoada realmente por Deus.”

André Mendonça também agrada ao ministro Luís Roberto Barroso, outro ministro que Bolsonaro trata como inimigo. “André foi um bom advogado-geral da União, é uma pessoa íntegra e preparada e foi um dos poucos no governo que tiveram disposição e boa vontade para ajudar na proteção das comunidades indígenas durante a pandemia”, disse Barroso a Crusoé, em referência à decisão do STF que manteve medidas de proteção a indígenas durante a pandemia. A despeito do elogio, antes de vestir a toga Mendonça defendeu a abertura de igrejas em meio à pandemia e assinou uma ação direta de inconstitucionalidade contra medidas restritivas adotadas por governadores para combater a Covid-19.

Na última quarta-feira, 6, Mendonça pediu vista em duas das sete ações chamadas de “pacote verde”, que questionam a maneira como o governo Bolsonaro vem minando a preservação da Amazônia e do meio ambiente no país. Ao interromper o julgamento das ações, o ministro alegou que há processos semelhantes em seu gabinete e que deseja estudar mais os casos. As ações questionam a eficácia do plano federal de prevenção ao desmatamento na Amazônia e a omissão de Jair Bolsonaro no combate a crimes ambientais na região. Outras cinco ações, que discutem, entre outros assuntos, o enfraquecimento do Ibama e a exclusão da sociedade civil do conselho deliberativo do Fundo Nacional do Meio Ambiente, entrarão em breve na pauta – a depender de como irá se posicionar, a unanimidade em torno de Mendonça poderá estar em risco, portanto.

Outras expectativas que pairam sobre o novo ministro são a respeito dos votos do antecessor, Marco Aurélio Mello, que se aposentou em julho do ano passado. Dos mais de 900 processos que herdou, Mendonça terá de decidir sobre a omissão do Congresso em taxar grandes fortunas e no caso em que Bolsonaro é questionado por bloquear críticos ao governo em suas redes sociais. No primeiro caso, Marco Aurélio foi a favor do imposto. No segundo, votou para que Bolsonaro desbloqueasse tais seguidores e não mais exercesse o papel de “censor”. Os dois votos podem ser revertidos por Mendonça. Em rodas reservadas, o ministro já admitiu que pretende rever as posições do antecessor.

Atualmente, para além de ser parado nos corredores do Supremo por funcionários evangélicos da copa e da segurança que pedem fotos, André Mendonça gasta tempo para preencher as vagas de assessores de seu gabinete – são vinte, ao todo. Na equipe atual, há treze funcionários. Da AGU, ele levou cinco funcionários. Outros quatro já trabalhavam no gabinete de Marco Aurélio Mello. Também integram o gabinete do novo ministro um ex-oficial da Marinha e um delegado de polícia, além de dois ex-funcionários do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf.

Gabriel Sormani, o juiz instrutor do gabinete, teve sua dissertação do mestrado orientada pela deputada estadual bolsonarista Janaina Paschoal. No trabalho, ele defende a publicidade de crimes que envolvem agentes públicos. O magistrado assinou a moção de apoio a Sergio Moro na ocasião em que um hacker vazou mensagens trocadas pelo ex-juiz com procuradores da Lava Jato. Janaina afirma que não teve nada a ver com a indicação. “Nem tenho contato com o ministro. O dr. Sormani é muito competente. Com certeza foi pelo currículo dele que o convite foi feito”, diz a deputada.

Embora Bolsonaro tenha dito que para, a segunda vaga a ser preenchida por ele no STF, escolheria um jurista com quem pudesse “tomar tubaína”, não há sinais na corte de que Mendonça tenha mantido em sua rotina visitas ou mesmo telefonemas para o presidente. “O ministro André é muito reservado”, diz um assessor.

Foi durante uma missa na Convenção de Ministros e Igrejas da Assembleia de Deus em Ananindeua – igreja ligada ao pastor Arilton Moura, que mora na cidade paraense e hoje é investigado por facilitar acesso a verbas do MEC a prefeitos de todo o país – que Bolsonaro cunhou a famosa frase sobre André Mendonça, em agosto: “Mais do que um compromisso com vocês, (faço) um compromisso com a minha consciência em indicar uma das duas vagas para o STF um irmão nosso terrivelmente evangélico”, prometeu o presidente. “Tenho conversado com o pastor André Mendonça, porque a vida dele também vai mudar, as suas responsabilidades serão majoradas, decisões difíceis ele tomará também, mas fiz um pedido para ele, ou melhor, uma missão eu dei para ele, e ele se comprometeu que irá cumprir, toda primeira sessão da semana, no STF, ele pedirá a palavra, ele iniciará os trabalhos após uma oração”, prosseguiu Bolsonaro, antes de ser ovacionado pela plateia. Como faz questão de ficar bem com todos, talvez o ministro esteja orando em silêncio.

Revista Crusoé

Guerra na Ucrânia: o que se sabe sobre ataque que matou ao menos 50 em estação de trem




Restos do míssil encontrado após o ataque

Um ataque matou ao menos 50 pessoas que estavam em uma estação de trem na cidade de Kramatorsk, na região de Donetsk (leste da Ucrânia) nesta sexta (8/4). Cerca de 300 ficaram feridos.

O prefeito da cidade, Oleksander Honcharenko, disse à BBC que o disparo ocorreu às 10h30 da manhã e havia cerca de 4.000 pessoas na estação, à espera do primeiro trem.

Segundo Honcharenko, não havia alvos militares ucranianos nas proximidades.

Pavlo Kyrylenko, governador do oblast (região) de Donetsk, afirmou que 38 pessoas morreram no local. No total, 98 foram levados para hospitais - 16 eram crianças, e havia 46 mulheres e 36 homens.

Nos últimos dias, muitos ucranianos estão deixando o leste do país por conta do reposicionamento de tropas russas em direção a essa área.

Um vídeo mostra carros danificados e objetos pessoais abandonados depois do ataque. A lateral de um dos mísseis tinha escrito a expressão "pelas crianças" em russo.

A BBC esteve no local e conversou com uma mulher que afirmou ter testemunhado a tragédia. Ela contou que havia "pessoas gritando e chorando" e que viu uma mulher perdendo muito sangue.

Rússia nega responsabilidade

O governo russo negou responsabilidade pelo ataque. Disse que os fragmentos encontrados foram de um projétil chamado Tochka-U, "usado somente por forças armadas ucranianas", e que hoje tem na artilharia o míssil Iskander-M, considerado mais moderno.

Mas o governador de Donetsk acusou a Rússia de utilizar o Tochka-U para detonar bombas de fragmentação.

Manisha Ganguly, jornalista investigativa que trabalha para o serviço mundial da BBC, disse que há evidências de que forças russas usaram o Tochka-U, classificado como arma de pouca precisão, em um ataque a um hospital na região de Donetsk no dia 24 de fevereiro.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, contestou a negativa russa e declarou que "esse é um mal que não tem limites".

O presidente americano, Joe Biden, classificou o ataque como uma "atrocidade horrível" e acusou a Rússia de procurar atingir civis em fuga.

A secretária de Relações Exteriores do Reino Unido, Liz Truss, afirmou que estava chocada com o incidente e ressaltou que "colocar civis como alvo é um crime de guerra".

BBC Brasil

Lula em estado bruto - Editorial




Bem distante da imagem moderada que pretendia vender ao eleitorado, Lula, o verdadeiro, aposta no rancor e na divisão da sociedade, exatamente como faz Bolsonaro

As recentes declarações de Luiz Inácio Lula da Silva expõem as falhas insanáveis do discurso de moderação que o petista pretendia emplacar nas eleições deste ano. Lula se apresenta como o único em condições de liderar uma frente ampla em defesa da democracia e, portanto, seria a única opção contra o autoritarismo do presidente Jair Bolsonaro. O convite ao ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin para ser vice em sua chapa seria a prova de sua definitiva conversão ao centro democrático. Mas o Lula “moderado” desaparece quando ele está em ambientes exclusivamente petistas, onde não precisa enganar ninguém. Ali, Lula surge em estado bruto.

Na Fundação Perseu Abramo, instituto de estudos criado pelo PT, Lula se sentiu à vontade para atacar seu alvo favorito: a classe média. Segundo o petista, a classe média brasileira “ostenta um padrão de vida que em nenhum lugar do mundo a classe média ostenta”. E continuou: “Nós temos uma classe média que ostenta um padrão de vida que não tem na Europa, que não tem em muitos lugares. Aqui na América Latina, a chamada classe média ostenta muito um padrão de vida acima do necessário”.

O ódio petista à classe média é velho conhecido. Foi enunciado com todas as letras por uma das intelectuais petistas mais representativas, a filósofa Marilena Chauí, em inesquecível discurso num evento do partido em 2013: “Eu odeio a classe média. A classe média é o atraso de vida. A classe média é a estupidez; é o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. É uma coisa fora do comum. (...) A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”.

É evidente que os petistas de classe média – e eles existem aos montes, como é o caso da própria Chauí – não se consideram nada disso. Talvez se envergonhem dos bens e do patrimônio de que dispõem, talvez sejam apenas cínicos, mas o fato é que, para a turma que urra quando Chauí e Lula atacam a classe média, os odiados “burgueses” são sempre os outros. 

Mas Lula agora foi além: pretende dizer como devem viver os cidadãos de classe média que pagam impostos e ganham dinheiro com o suor do rosto. Em seu marxismo de botequim, o líder petista, ora vejam, acha que a classe média não pode ter um padrão de vida acima do que ele considera “necessário”.

Em outro evento, na CUT, Lula fez pior. Disse que de nada adianta realizar protestos em frente ao Congresso, porque isso não comove os políticos. Para o petista, o ideal é que os militantes perturbem os parlamentares em suas residências, bem como suas famílias. “Deputado tem casa. Eles moram em uma cidade, nessa cidade tem sindicalista. (...) Se a gente mapeasse o endereço de cada deputado e fossem 50 pessoas até a casa dele, não é para xingar, mas para conversar com ele, conversar com a mulher dele, com o filho dele, incomodar a tranquilidade dele. Eu acho que surte muito mais efeito.” Muito democrático.

Não se sabe exatamente qual é a estratégia de Lula por trás desse discurso autoritário, mas isso pouco importa. O que interessa é que fique muito claro para os eleitores que Lula não é tão diferente de Bolsonaro como pretende fazer crer. Assim como o presidente, Lula aposta no rancor e na divisão da sociedade para eletrizar seus devotos. Ambos querem resumir a eleição a um confronto do “bem” contra o “mal”.

A pacificação do País obviamente passa por dar fim a essa polarização agressiva que não resolveu nem resolverá nenhum dos problemas crônicos da sociedade brasileira, como um desemprego resistente de dois dígitos, a inflação alta, a volta da fome e a ausência de soluções para a deficiente oferta de serviços de educação e saúde pelo Estado.

Nesse sentido, é muito bem-vinda a sinalização de uma união de partidos de centro em torno de uma só candidatura ao Palácio do Planalto. Independentemente da escolha final desse grupo, trata-se por enquanto da melhor resposta a esse embate apocalíptico que Lula e Bolsonaro tentam fazer parecer inevitável.

O Estado de São Paulo

UE promete agilidade em processo de adesão da Ucrânia




Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, e chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, visitam Bucha

Em visita a Kiev, presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou que bloco está disponível "24 horas por dia, sete dias por semana" para ajudar a Ucrânia a preencher o questionário de análise.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Layen, e o chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell, viajaram à Ucrânia nesta sexta-feira (08/04) para demostrar a solidariedade dos países europeus a Kiev, em meio ao aumento das denúncias de atrocidades ocorridas desde o início da invasão russa.

Em Kiev, von der Layen se encontrou com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, e prometeu um parecer rápido sobre a admissão do país à União Europeia.

"Minha mensagem hoje é que a Ucrânia pertence à família europeia", disse von der Leyen, destacando uma "resposta inicial positiva" quando entregou a Zelenski um questionário que servirá de base para as negociações de adesão da Ucrânia ao bloco.

Kiev solicitou a adesão à UE logo após o início da invasão russa na Ucrânia. Atualmente, a Comissão Europeia analisa o pedido, processo que, via de regra, é longo, complicado e pode demorar anos. Mesmo que a Comissão Europeia avalie o pedido positivamente, o início das negociações de admissão ainda pode demorar muito, já que todos os estados da UE precisam concordar.

No entanto, von der Leyen prometeu velocidade e disse que a UE está disponível "24 horas por dia, sete dias por semana" para ajudar a Ucrânia a preencher o questionário. 

"Não será uma questão de anos, como de costume, para redigir a declaração, mas acho que uma questão de semanas", afirmou.

Anteriormente, von der Leyen havia dito que seu escritório queria apresentar sua avaliação ao Conselho da UE até o verão europeu.

Visita a Bucha

Antes do encontro com Zelenski, von der Leyen esteve na cidade de Bucha e visitou o local onde se localiza uma vala comum onde foram enterrados os mortos do massacre atribuído a soldados russos, que teriam cometido assassinatos em massa de civis. O Kremlin nega e acusa Kiev de "encenação".

"O impensável ocorreu aqui. Vimos a face cruel do Exército de [Vladimir] Putin. Vimos a irresponsabilidade e a frieza com a qual eles ocuparam a cidade", disse aos jornalistas.

"Era importante começar minha visita em Bucha. Porque em Bucha nossa humanidade foi despedaçada. Minha mensagem ao povo ucraniano: os responsáveis pelas atrocidades serão levados à justiça. Sua luta é a nossa luta", escreveu no Twitter.

Embaixada da UE de volta a Kiev 

Borrell anunciou que a representação diplomática da UE em Kiev, fechada logo após o início da invasão russa, seria reaberta nesta sexta-feira. O enviado de Bruxelas, Matti Maasikos, viajou até a capital ucraniana juntamente com Borrell e von der Leyen para reassumir seu posto, acompanhado de uma pequena equipe.

O chefe da diplomacia da UE anunciou que Bruxelas deve enviar 7,5 milhões de euros (em torno de R$ 38,6 milhões) para financiar uma investigação realizada pela Ucrânia sobre possíveis crimes de guerra cometidos na cidade de Bucha e em outras áreas do país.

As visitas são as primeiras de autoridades do alto escalão da UE à Ucrânia após a descoberta há poucos dias das atrocidades cometidas em Bucha. Em meados de março, os primeiros-ministros da Polônia, Eslovênia e República Tcheca também estiveram em Kiev. Na semana passada, foi a vez da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.

Representantes das 27 nações do bloco europeu aprovaram na noite desta quinta-feira um novo pacote de sanções, que incluem a proibição das importações da Rússia de produtos como carvão, madeira e vodca.

Borrell negou a acusação feita pela Polônia de que a Alemanha seria o maior entrave para a proibição das importações de gás natural russo para a Europa. "Este não é um problema somente da Alemanha, porque a economia alemã é bastante interligada com a economia europeia. Algo que acontece com um país europeu tem efeitos imediatos sobre os demais", explicou. 

Ele admitiu, porém, que o embargo ao gás russo é o "grande elefante na sala de estar" europeia, e que uma decisão sobre as exportações europeias para a Rússia deverá ser tomada na próxima segunda-feira.

Ataque em Kramatorsk

Em Bruxelas, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, acusou a Rússia pelo ataque a uma estação ferroviária na cidade ucraniana de Kramatorsk, nesta sexta-feira, que deixou ao menos 50 mortos, entre eles cinco crianças.

"É aterrador que a Rússia tenha atacado uma das principais estações de trens utilizadas por civis que se retiram de uma região onde a Rússia intensifica seus ataques", lamentou Michel, através do Twitter.

Ele disse que são necessárias "novas ações" contra Moscou, e destacou a quinta leva de sanções aprovada pelos países do bloco.

O Kremlin negou a autoria do ataque em Kramatorsk e disse que as alegações são "absolutamente mentirosas".

Deutsche Welle

O fim do mercantilismo europeu




Na reunião de cúpula UE-China da semana passada Van der Leyen foi invulgarmente clara ao avisar que, apoiando a Rússia, a China corre o risco de um êxodo de investimento estrangeiro europeu. 

Por Madalena Meyer Resende (foto)

À medida que as ações criminosas russas na guerra da Ucrânia tomam contornos horríficos, o apoio “sem limites” da China à Rússia torna-se claro. A abstenção da China em criticar a Rússia é tida por Washington como evidência da consolidação da aliança sino-russa. A administração Biden assume que, mantendo o seu alinhamento com a Rússia, a China irá tornar a competição entre os grandes poderes numa guerra fria global que empalidecerá a conflictualidade que se viveu entre 1947 e 1989.

A guerra da Ucrânia está a levar a Europa a mudar profundamente a sua atitude perante a China. Se há dezasseis meses, em Dezembro de 2020, a UE assinava um Acordo Gobal sobre Investimento que coroava a estratégia comercial que pautou a sua relação com a China nos últimos vinte anos, durante a Cimeira UE-China da semana passada os Europeus mostraram estar alinhados com os EUA na forma como lidar com Pequim. A China é hoje vista como cúmplice das atrocidades cometidas pela Rússia e, depois de goradas as tentativas de comprometer a China nas tentativas de refrear Putin, a Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen e o Presidente do Conselho Europeu Charles Michel fecharam as portas a quaisquer concessões comerciais.

A cimeira marcou o fim do mercantilismo económico que dominou a abordagem da Europa durante as últimas duas décadas. Crescentemente a Europa olha para a relação com a China primariamente pelo prisma da competição estratégica e da segurança. No diálogo com o Presidente da China Xi Jinping e o Primeiro Ministro Li Keqiang, Van der Leyen foi invulgarmente clara ao avisar que, apoiando a Rússia, a China corre o risco de um êxodo de investimento estrangeiro europeu. Em relação à ratificação do Acordo Global sobre Investimento (CAI), negociado em Dezembro de 2020 pela Presidência Alemã e travado pelas sanções impostas à China pelo Parlamento Europeu perante a repressão contra os Uyghurs, Charles Michel foi peremptório em como a UE não pretende levantá-las.

A indiferença da diplomacia de Pequim face à catástrofe humanitária que se vive na Ucrânia chocou os líderes europeus e levou-os a formular uma estratégia para lidar com a nova realidade internacional. Tornou-se claro que os europeus devem aumentar a pressão contra a Rússia ao mesmo tempo que mostram à China que a sua associação estreita com Putin vai contra a estabilização das relações sino-europeias. Apesar de parecer pouco, parece ser o melhor que os europeus podem fazer. Poderá não salvar a Ucrânia de mais destruição, mas poderá convencer algumas facções em Pequim de que os interesses de Putin não são necessariamente os seus.

Observador (PT)

"Interroguem primeiro, depois matem": áudio russo captado na Ucrânia




Serviço de inteligência da Alemanha divulga conversa que confirma sinais de crimes de guerra cometidos na cidade de Bucha. 

Por Vilma Gryzinski

Representantes do governo russo riram da cara de todo mundo ao dizer que as imagens das atrocidades vistas em Bucha tinham sido fabricadas pelos ucranianos.

Com a reconquista da cidade, repórteres e fotógrafos de vários países comprovaram a autenticidade das vítimas, que ainda estão sendo identificadas e enterradas.

É quase insuportável ver os corpos retorcidos, fuzilados, queimados, explodidos e torturados que aparecem cada vez que um saco preto é aberto.

É preciso ter mais evidências? O New York Times já mostrou uma: imagens de satélite comprovando que mortos largados numa rua de Bucha estavam lá bem antes da retirada russa, desconstruindo a cínica mentira de que tinham sido colocados pelos ucranianos para simular crimes de guerra.

Apareceu mais uma: o serviço alemão de inteligência externa, o impronunciável Bundesnachrichtendienst, o BND, deixou vir a público, através de relatos feitos a parlamentares reproduzidos pela revista Spiegel, conversas captadas em comunicações por rádio de tropas russas.

Numa delas, um militar russo diz que acabaram de matar uma pessoa de bicicleta. A conversa bate com uma das cenas que correram mundo de um ciclista morto no meio da rua.

Em outra comunicação interceptada, um russo diz: primeiro, vocês interrogam os soldados, depois matem.

Fontes que ouviram os áudios dizem que o assassinato de civis não foi aleatório, mas parte de um padrão destinado a aterrorizar a população para acabar com qualquer hipótese de resistência.

Também há indícios, segundo a Spiegel, que combatentes do Grupo Wagner, uma organização paramilitar que opera concomitantemente com forças russas regulares, participaram de atrocidades.

Moradores de Bucha dizem que “os piores” eram chechenos que substituíram a primeira leva de ocupantes, chamados de kadirovitas, por causa do líder Ramzan Kadirov.

Também circulou pelo Telegram um vídeo horripilante em que militares ucranianos e voluntários da Geórgia que estão combatendo do lado da Ucrânia executam um soldado russo ferido, no chão, com a cabeça coberta, mas ainda respirando. As cenas mostram mais três russos caídos em poças de sangue. Isso, obviamente, também é crime de guerra.

Embora seja remota a possibilidade de que qualquer acusado por crimes de guerra algum dia responda à justiça, investigações confiáveis contribuem para desmontar a farsa que o governo russo defende diariamente e também para os registros históricos.

Algum dia, russos comuns serão confrontados com estas investigações e podem concluir que foram enganados pela versão oficial que apresenta o governo ucraniano como neonazistas que precisam ser removidos para libertar a população.

A morte de jovens soldados também acabará provocando reações, embora ainda esteja muito, muito longe da revolta abafada que as baixas na invasão do Afeganistão causaram entre as décadas de oitenta e noventa na antiga União Soviética.

Em dez anos no Afeganistão, houve cerca de 15 mil mortos entre os soviéticos.

A guerra na Ucrânia está sendo muito mais letal. Embora não existam números confiáveis, fontes do governo americano falam em até sete mil mortos em menos de um mês e meio. A Ucrânia diz que foram 15.300.

Repórteres do New York Times ouviram reações diferentes de parentes de mortos na guerra. Alexander Chernikh, pai de Luka, morto aos 22 anos, demonstrou uma revolta que segue a linha oficial.

“Se a América não desse armas aos nazistas, nossos jovens não estariam sendo mortos. Na minha opinião, deveríamos arrasar a América com uma bomba nuclear e assim eles parariam de se meter nos assuntos de outros países”.

Alexander Kononov, irmão do tenente Ivan, morto aos 34 anos em Mariupol, reagiu de outra maneira.

“Se todos souberem de tudo, haverá protestos”, disse ele. “E isso seria bom porque esta guerra tem que acabar. Não deveria haver guerra nenhuma”.

Revista Veja

O fazendeiro Gilmar

 




A história da expansão das fazendas do ministro Gilmar Mendes, do STF, em Mato Grosso, onde ganhou da Assembleia Legislativa o direito a uma área equivalente a mais de 500 campos de futebol. Hoje, vizinhos acusam a agropecuária do clã Mendes de avançar sobre suas terras. 

Por Fabio Leite 

Nos rincões do Mato Grosso, a família de Gilmar Mendes é historicamente conhecida por ostentar poder e por ser dona de terras a perder de vista. O avô, o pai e o irmão caçula do ministro do Supremo Tribunal Federal foram prefeitos de Diamantino, seu município natal, que fica a 200 quilômetros ao norte da capital Cuiabá e concentra o maior quinhão fundiário do clã. Embora tenha se mudado ainda jovem para Brasília, onde ingressou no serviço público e ocupou cargos no governo até se tornar juiz da mais alta corte do país, em 2002, Gilmar nunca se afastou dos negócios particulares na região. Além das fazendas herdadas, ele se envolveu diretamente na multiplicação do patrimônio rural da família, que ganhou terras públicas no estado e hoje é questionada na Justiça por supostamente ter avançado sobre uma propriedade alheia.

Um levantamento feito por Crusoé a partir de documentos registrados em cartório revela que o decano do STF tem, hoje, participação em seis grandes fazendas no estado. As propriedades somam 7,2 mil hectares – algo como 7 mil campos de futebol – e valem, juntas, ao menos 25,3 milhões de reais, a se considerar os valores registrados nas matrículas dos imóveis. As terras ficam em Diamantino e em um município vizinho, Alto Paraguai, onde o ministro já foi alvo de uma ação por suposto uso irregular de agrotóxicos em plantações em área de proteção ambiental – ele nega. Em 2019, as três maiores fazendas foram transferidas para a GMF Agropecuária Ltda, empresa de cultivo de soja, arroz, milho, cana de açúcar e criação de gado, aberta em julho do ano anterior pelo ministro, em sociedade com parentes. A GMF tem como sócios o próprio Gilmar, dois irmãos dele, Francisco Mendes e Maria da Conceição Mendes, e um cunhado, Airton França.

Ao longo das últimas décadas, o rol de propriedades contou com outras fazendas que já foram vendidas pelo ministro e por seus irmãos. Uma delas merece atenção especial, por entrelaçar interesses públicos e privados. Em setembro de 1999, quando era assessor jurídico da Casa Civil da Presidência da República, no governo de Fernando Henrique Cardoso, Gilmar foi contemplado com uma decisão da Assembleia Legislativa do Mato Grosso que autorizou a “regularização da ocupação” de uma área de 507 hectares, o equivalente a mais de 500 campos de futebol. Batizada de “Fazenda Paraguai VII”, a propriedade fica encravada entre outras áreas que já pertenciam à família do ministro em Alto Paraguai, próximo ao rio que empresta o nome à cidade. No mesmo dia, o irmão caçula de Gilmar, Francisco Ferreira Mendes Júnior, conhecido como Chico Mendes, obteve autorização para ocupar uma fazenda vizinha, de mesmo tamanho.

As duas resoluções foram aprovadas pelo plenário da Assembleia mato-grossense e assinadas pelo então presidente da casa, José Riva, e por outros dois parlamentares que ocupavam postos de comando na mesa diretora. Riva, um político influente do estado, ficou conhecido como o “maior ficha-suja do país” por acumular mais de cem processos por mau uso do dinheiro público. Juntamente com as decisões que passaram a propriedade das terras para o ministro e seu irmão, o então deputado aprovou a regularização de uma fazenda de 1,5 mil hectares para o próprio pai, na cidade de Aripuanã. Riva foi preso três vezes, entre 2015 e 2016, acusado de uma série de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Em duas ocasiões, foi solto por força de decisões monocráticas de Gilmar Mendes. Em outra, na Segunda Turma, teve os votos favoráveis de Gilmar e Dias Toffoli e, com o placar empatado em dois a dois, acabou beneficiado.

Os habeas corpus deferidos por Gilmar em favor de Riva foram impetrados pelo advogado Rodrigo Mudrovitsch, o mesmo que defendia o próprio ministro do Supremo nos processos envolvendo as fazendas do Mato Grosso. Em 2015, quando votou para tirar o ex-deputado da cadeia pela primeira vez, Gilmar chegou a ser questionado sobre o fato de ambos terem o mesmo advogado. Na ocasião, o gabinete do ministro alegou que o impedimento para julgar um caso se dá em relação ao réu, não ao advogado. Agora, sabe-se que Gilmar foi beneficiado por uma decisão quando o político era presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso. No fim de 2019, José Riva fechou um acordo de delação premiada com o Ministério Público estadual no qual confessou ter operado uma espécie de “mensalão” na Assembleia, que teria distribuído cerca de 175 milhões de reais em propinas a 38 deputados entre os anos de 1995 e 2015.

As autorizações da Assembleia do Mato Grosso para regularizar as fazendas dos irmãos Mendes foram embasadas em dois artigos da Constituição do estado que tratam de política agrícola e fundiária e de reforma agrária. Um deles diz que a autorização da destinação de terras públicas a terceiros pela Assembleia dependerá da “aprovação de projeto específico de colonização, assentamento ou regularização fundiária”, no qual esteja “garantida a permanência de posseiros que se encontrem produzindo”. O texto diz que as terras públicas e as terras devolutas transferidas para o domínio do estado “serão destinadas preferencialmente a famílias de trabalhadores rurais que comprovarem não possuir outro imóvel rural, ressalvando os minifundiários, e que nelas pretendam fixar moradia e explorá-las individual ou coletivamente”.

As duas fazendas regularizadas em nome de Gilmar e de seu irmão Chico Mendes pela Assembleia tinham sido transformadas em propriedade do estado dois meses antes, em julho de 1999. Ambas foram consideradas terras devolutas, ou seja, sem dono, com base em uma lei federal. A lei dizia que as terras pertencentes à União ficariam sob domínio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, e as que fossem de propriedade dos estados seriam registradas pelo órgão regional equivalente. A legislação permitia a “legitimação da posse” de quem estivesse ocupando as terras públicas com três condições: a área deveria ter no máximo 100 hectares, o ocupante não poderia ser proprietário de imóvel rural e precisaria comprovar morada permanente e a exploração efetiva das terras pelo prazo mínimo de um ano.

Gilmar já tinha assumido o cargo de advogado-geral da União quando o Instituto de Terras do Mato Grosso, o Intermat, transmitiu a ele o título definitivo da “Fazenda Paraguai VII”, em fevereiro de 2000. O ministro morava em Brasília havia duas décadas e já tinha ao menos uma fazenda em seu nome em Alto Paraguai, comprada do avô em 1983. Pela letra fria da lei, portanto, não poderia ser beneficiado com a transferência, para seu nome, do quinhão de terras devolutas. Não foi o que aconteceu. A transmissão de título foi assinada pelo então governador Dante Oliveira, do PSDB, pelo secretário de Agricultura à época, Chico Daltro, que anos depois se tornaria vice do governador Silval Barbosa, e pelo presidente do Intermat, Aparecido de Oliveira. O mesmo procedimento foi feito com a fazenda do irmão Chico Mendes. Nas matrículas dos imóveis não constam os valores pagos pelos dois ao estado do Mato Grosso. Há, apenas, o recolhimento de 1,3 mil reais de ITBI, imposto de 2% sobre o valor da transação imobiliária. A julgar por esse valor, os irmãos teriam despendido, cada um, 65 mil reais para se tornarem proprietários das duas fazendas. Crusoé pediu essas informações há mais de um mês ao Intermat, mas não as obteve até a publicação desta reportagem.

”O registro de terras em nome do governo para, depois, transferi-las a quem já as ocupava é um procedimento comum de regularização fundiária. Em muitos casos, o próprio ocupante da área procura o estado para fazer a regularização, em um processo normalmente lento e burocrático. No caso de Gilmar, o que chama a atenção é que o procedimento não seguiu a legislação vigente à época, que limitava a regularização de terras devolutas a 100 hectares, exigia que o beneficiário demonstrasse morar na propriedade há pelo menos um ano e, ainda, não ter outro imóvel rural em seu nome. Sem cumprir esses critérios, de acordo com a lei em vigor naquele período e mencionada no processo de regularização, a terra só poderia ser transferida oficialmente a particulares mediante leilão — Crusoé não localizou nenhuma concorrência pública aberta pelo governo do Mato Grosso para a venda das duas fazendas adquiridas pelos irmãos Mendes entre a data na qual as terras foram registradas em nome do estado e o dia em que a Assembleia aprovou a regularização da ocupação. As mudanças nas regras que ampliaram o tamanho da área passível de regularização sem licitação e até para pessoas que não residem no local só ocorreram a partir de 2009, no caso da legislação federal, e em 2019, no código de terras do Mato Grosso.

Ao longo de doze anos, Gilmar deu a Paraguai VII como garantia para obter 577 mil reais no Banco do Brasil, como crédito rural, e outros 3 milhões de reais para o IDP, a faculdade de direito em Brasília da qual ele é fundador. Em setembro de 2012, quando estava prestes a completar sua primeira década no Supremo, o ministro e o irmão venderam as duas fazendas para um pecuarista da região, pelo valor de 1,3 milhão de reais cada uma. Nos dois negócios, segundo as matrículas, as transações foram feitas mediante um pagamento à vista de 439 mil reais, mais parcelas anuais em 2013 e 2014.

Na lista atual de imóveis rurais vinculados a Gilmar Mendes há uma propriedade que também teve origem pública. O título definitivo da Fazenda Rancho Alegre, de 626 hectares, foi transmitido pelo governo de Mato Grosso para a mãe do ministro em 1997, após a obtenção de uma autorização semelhante da Assembleia Legislativa. A área, também em Alto Paraguai, foi partilhada entre Gilmar e os irmãos após a morte da mãe, em 2007. Atualmente, a fazenda está registrada em nome da empresa agropecuária que a família abriu em 2018 e vale, segundo o registro em cartório, 3,3 milhões de reais. Além dos imóveis herdados, o ministro comprou sozinho ou em sociedade com os irmãos duas fazendas em Diamantino desde 2001, que somam 3,5 mil hectares e custaram, juntas, 1,5 milhão de reais. Pelos últimos valores registrados em cartório, hoje as propriedades valem 12 milhões de reais.

Parte da valorização está atrelada a um fenômeno curioso que ocorreu nas terras de Gilmar. O tamanho das fazendas cresceu, em média, 33%, depois que a família Mendes mandou fazer o georreferenciamento das áreas, entre 2013 e 2018. O georreferenciamento é uma exigência legal feita pelo Incra para grandes propriedades rurais e serve para definir com melhor precisão os limites dos imóveis. Agrimensores ouvidos por Crusoé explicaram que, durante o processo, énormal que haja variações, tanto para baixo quanto para cima, entre o tamanho original que consta em registros antigos de cartório e a dimensão das áreas georreferenciadas. Só alterações muito discrepantes, dizem os especialistas, indicam que houve algo errado no procedimento, como, por exemplo, suspeitas de superposição de áreas. Quando isso ocorre, o proprietário que faz o georreferenciamento e oficializa o registro em cartório primeiro costuma levar vantagem em eventuais litígios.

No caso das terras de Gilmar, todas as áreas aumentaram de tamanho depois do georreferenciamento. Somadas as seis fazendas que ainda pertencem ao ministro ou à empresa da qual ele é sócio, o acréscimo foi de 1,8 mil hectares. O maior aumento de área ocorreu na Fazenda Estreito do Rio Claro, em Diamantino, onde fica parte da produção da GMF. Situada à beira de uma rodovia estadual, a fazenda cresceu de 2,5 mil para 3,6 mil hectares, após o georreferenciamento feito em 2015.

Nesse caso, especificamente, a ampliação é bastante controversa. No mesmo ano em que o cálculo da área foi refeito pelos Mendes, uma família proprietária da fazenda vizinha começou a ser multada pela prefeitura local. As notificações diziam estar ocorrendo, na propriedade, atividades não condizentes com as que haviam sido declaradas e constavam dos registros municipais. Era preciso recolher o ITR, o imposto territorial rural, correspondente a essas atividades, e como os pagamentos não vinham sendo feitos, as multas passaram a ser aplicadas e cobradas. A família Cardia, dona desse pedaço de terra em Diamantino, vive em São Paulo. Depois da morte do patriarca, em 2012, os herdeiros deixaram de visitar a propriedade. Até que, em 2016, as tais multas começaram a chegar na casa da viúva, na capital paulista.

As cobranças giram em torno de 40 mil reais por ano. A família Cardia, então, decidiu contratar um escritório de advocacia de Cuiabá e um agrimensor para identificar o motivo das autuações. O técnico foi até o local e constatou que, na verdade, as atividades pelas quais os Cardia estavam sendo cobrados eram da GMF, a empresa do clã Mendes. A conclusão do agrimensor foi a de que as cobranças estavam sendo feitas pela prefeitura, porque uma parte da fazenda da família estava sendo ocupada pela firma agropecuária do ministro do STF e de seus irmãos. Ou seja: no processo de georreferenciamento a fazenda dos Mendes havia avançado sobre as terras dos vizinhos. Em novembro do ano passado, a família Cardia enviou uma notificação judicial ao ministro Gilmar Mendes e aos irmãos dele na tentativa de resolver o imbróglio e restabelecer os perímetros de sua propriedade. Até agora, os Mendes não responderam a notificação.

Crusoé enviou uma extensa lista de perguntas a Gilmar por meio de seu gabinete no STF e também pela assessoria de imprensa da corte, mas ele optou por não se manifestar. Na tarde do dia 30, o chefe de gabinete do ministro informou que não haveria resposta. A assessoria do Supremo disse o mesmo. Chico Mendes não atendeu às tentativas de contato. Preso em regime domiciliar, José Riva afirmou a Crusoé, por telefone, que a regularização das terras de Gilmar e do irmão na Assembleia “seguiu o mesmo rito de todos os processos” e que o ministro “nunca” o procurou para falar sobre o caso. Ele contou que se aproximou dos Mendes apenas em 2004, quando pediu votos para a reeleição do irmão de Gilmar à prefeitura de Diamantino. “No período da campanha, fui junto com o irmão dele nesta propriedade. Tinha uma casa muito antiga lá no local. O que ouvi do irmão era de que essa propriedade é da família há mais de 30, 40 anos. No Mato Grosso era muito comum a pessoa estar em cima da área há muito tempo e não ter título”, afirmou o ex-deputado. Para Riva, a legalização das terras não deveria implicar a suspeição do ministro para julgar seus pedidos de soltura. “Não tenho relação com ele. Encontrei o ministro não mais do que cinco vezes. A decisão que o ministro Gilmar deu nos meus processos é a linha que ele sempre seguiu. Não fez nada de diferente para mim”, disse. A família Cardia preferiu não se pronunciar.

Revista Crusoé

9 Kremlin diz que operação da Rússia na Ucrânia pode terminar "em futuro previsível"




O Kremlin disse nesta sexta-feira que a invasão da Ucrânia que a Rússia chama de "operação especial" pode terminar em um "futuro previsível", uma vez que seus objetivos estão sendo alcançados e o trabalho está sendo cumprido tanto pelos militares russos quanto pelos negociadores de paz do país.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, também disse que Moscou entendia que alguns países que haviam tentado adotar uma posição equilibrada haviam sido submetidos a pressões para votar pela suspensão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos da ONU, na quinta-feira.

A Assembleia Geral da ONU suspendeu a Rússia do Conselho por relatos de "graves e sistemáticas violações e abusos dos direitos humanos" na Ucrânia, o que levou Moscou a anunciar que estava se retirando do órgão.

Kremlin diz que Rússia sofreu "perdas significativas" na Ucrânia

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse nesta quinta-feira que a Rússia sofreu "perdas significativas" na Ucrânia, onde suas tropas entraram em 24 de fevereiro no que chama de "operação militar especial".

O Ministério da Defesa da Rússia informou em 25 de março, em sua atualização mais recente, que 1.351 soldados russos foram mortos desde o início da campanha e 3.825 ficaram feridos. O chanceler alemão, Olaf Scholz, disse dois dias depois que pelo menos 10.000 soldados russos provavelmente foram mortos.

"Temos perdas significativas de tropas", disse Peskov ao canal britânico Sky News em uma entrevista, "e é uma grande tragédia para nós". A ONU diz que confirmou a morte de mais de mil civis, embora o número real provavelmente seja muito maior.

Ucrânia recupera controle da região de Sumy, na fronteira russa

A região de Sumy, no nordeste da Ucrânia e na fronteira com a Rússia, foi "liberada" das forças russas - anunciou o governador local, Dmytro Jivitsky, nesta sexta-feira (8).

"O território foi liberado dos 'orcs' (palavra usada na Ucrânia para se referir aos soldados russos)", disse Jivitsky no aplicativo Telegram, advertindo que a região "não é segura". Segundo ele, há zonas minadas, onde especialistas trabalham para desativá-las.

Com sua saída de Sumy, Rússia concluiu a retirada das suas tropas de todo norte da Ucrânia. Localidade onde vivem cerca de 250.000 pessoas, Sumy é a capital da região homônima. Foi sitiada nos primeiros dias da guerra pelas tropas russas, que não chegaram a controlá-la totalmente e acabaram se retirando.

O acesso à cidade ainda é muito complicado, e milhares de estudantes estrangeiros, oriundos, sobretudo, da África, estão presos nela há semanas.

Putin 'desistiu' de Kiev, segundo chefe da Pentágono

Vladimir Putin "desistiu" de tomar Kiev para concentrar os esforços das forças russas nas áreas separatistas do Donbass, disseram altas autoridades militares dos Estados Unidos nesta quinta-feira (7). "Putin pensou que poderia tomar rapidamente o controle da Ucrânia, tomar rapidamente o controle da capital. Ele estava errado", declarou o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, em audiência no Congresso.

"Acredito que Putin desistiu dos esforços para capturar a capital e agora está focado no sul e no leste do país", completou Austin diante da Comissão das Forças Armadas do Senado. Contudo, o resultado da guerra, que promete ser longa, segue incerto, analisou o chefe do Estado-Maior americano, general Mark Milley.

"Será um trabalho a longo prazo", declarou. "Ainda resta uma grande batalha pela frente no sudeste, onde os russos pretendem concentrar forças e continuar seu ataque. Então veremos como isso vai acabar".

A Ucrânia recebeu cerca de 60.000 sistemas antitanque dos Estados Unidos e aliados, e o exército ucraniano usa minas terrestres que obrigam os soldados russos a lutar em zonas onde ficam mais vulneráveis, explicou o general Milley.

O Ocidente também enviou aos ucranianos cerca de 25.000 sistemas antiaéreos de diversos tipos que impediram a Rússia de tomar o controle do espaço aéreo ucraniano, completou o militar.

Milley afirmou que o exército ucraniano pede agora o envio de tanques e de artilharia para repelir a próxima ofensiva russa. "O terreno (no sudeste) é diferente do norte.

É muito mais aberto e propício para as operações de blindados de ambos os lados", explicou. "Eles precisam de mais tanques e artilharia, e é isso que pedem".

O secretário de Defesa pareceu admitir que os Estados Unidos consideravam, pelo menos no início do conflito, que a Ucrânia não seria capaz de recuperar o controle das regiões separatistas de Donetsk e Lugansk, no Donbass, que agora se tornou o objetivo declarado de Moscou.

Questionado insistentemente pelo senador republicano Tom Cotton sobre a informação que a inteligência militar americana compartilha com os ucranianos, Austin admitiu que, até agora, não havia coberto as regiões separatistas.

"Nós fornecemos a eles inteligência para conduzir operações", inclusive no Donbass, explicou. Mas quando perguntado explicitamente por Cotton se essa inteligência se referia às áreas controladas desde 2014 por separatistas pró-Rússia, Austin reconheceu que as instruções dadas aos analistas militares até agora "não eram claras".

"Queremos ter certeza de que isso está claro para nossas forças", acrescentou. "Esse é o objetivo das novas instruções de hoje." Os serviços de inteligência americanos previram a guerra na Ucrânia com impressionante precisão, mas não anteciparam a forte resistência ucraniana.

Também acreditavam que Kiev cairia em 48 horas e que o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, seria imediatamente deposto e substituído por um regime pró-russo.

Reuters / DefesaNet

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