segunda-feira, fevereiro 07, 2022

Conflito na Ucrânia pode gerar cinco milhões de refugiados




Neste sábado, manifestantes foram às ruas de cidades ucranianas pedir o fim das agressões russas contra o país

Relatório divulgado pelos EUA aponta que invasão russa seria a maior operação militar no continente europeu desde a Segunda Guerra Mundial, em 1945, e que o número de civis mortos poderia chegar a 50 mil.

Uma invasão russa na Ucrânia caracterizaria a maior operação militar na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial no continente, em maio de 1945. No entanto, além disso, a ofensiva pode levar a região a experimentar, novamente, uma crise de refugiados que poderia somar até cinco milhões de pessoas.

Funcionários de altos cargos administrativos do governo americano apresentaram um relatório - publicado neste sábado por jornais como o The New York Times e o The Washington Post - no qual apontam "possíveis enormes custos humanos", em caso de conflito.

Os Estados Unidos projetam que uma invasão em larga escala da Rússia no país vizinho possa ocasionar a morte de até 50 mil civis e uma crise praticamente instantânea de refugiados na Europa. Se a guerra de fato acontecer, o prognóstico americano também indica que podem morrer entre cinco mil e 25 mil membros das forças ucranianas, e outros três mil a dez mil soldados russos.

A maioria dos milhões de refugiados, segundo o relatório, partiria em direção aos países vizinhos e também à Europa Ocidental, principalmente por meio da Polônia.

Ao mesmo tempo, o texto também reforça que ainda não está claro se Putin já decidiu ou não pela invasão à Ucrânia, o que, segundo o governo americano, não aconteceria ao menos até a segunda metade de fevereiro, e que a diplomacia ainda pode ser uma solução para o impasse.

A divulgação do relatório coincide com um momento em que cresce a concentração de tropas russas na fronteira da Ucrânia com Belarus. O Kremlin e Belarus argumentam, no entanto, que estão se preparando para a realização de exercícios conjuntos entre os dias 10 e 20 de fevereiro, com o objetivo de treinar para evitar ataques às fronteiras do sul de sua aliança.

O documento divulgado por Washington também especifica que há, no momento, ao menos 83 batalhões russos, com aproximadamente 750 militares cada, preparados para um possível ataque, além de militares que trabalham com apoio logístico, médico e aéreo.

Efetivo de 70% na fronteira com a Ucrânia

Os dados divulgados pelos Estados Unidos neste final de semana também apontam que a Rússia já concentra 70% do poderio bélico que o Kremlin planejou destacar para a fronteira com a Ucrânia até a metade deste mês.

Até o momento, segundo o governo americano, Moscou enviou 110 mil soldados para a região, mas ainda não está claro se Putin planeja, de fato, ordenar uma ofensiva.

Em uma conferência de imprensa, o porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, John Kirby, disse que a Rússia "desenvolveu capacidades para lançar uma grande operação militar na Ucrânia, e estamos trabalhando duro para preparar uma resposta".

Além da possível invasão da Ucrânia, exercícios militares em outras regiões também têm irritado os Estados Unidos e a Otan, incluindo alguns a cerca de 240 quilômetros a sudoeste da Irlanda, que tem um acordo de parceria com a Otan. Outra prerrogativa para a desconfiança ocidental em relação à Rússia baseia-se na invasão e anexação da península da Crimeia, em 2014.

O governo do presidente Vladimir Putin, por outro lado, tem repetido que não pretende invadir e que não ameaça a Ucrânia.

Nos próximos dias, líderes europeus devem intensificar os esforços para uma solução diplomática para a crise. O presidente da França, Emmanuel Macron, viajará a Kiev nesta segunda-feira e, no dia seguinte, estará em Kiev. O chanceler federal da Alemanha, Olaf Scholz, que chegou hoje aos Estados Unidos, estará na capital ucraniana no dia 14 de fevereiro, antes de se deslocar para a Rússia.

Deutsche Welle

Moro, uma presença importante




Cabe a Moro sair da casca de homem da lei e se entregar à missão de estadista, de homem que pode usar a enorme fama e sólido conceito em favor do bem, do progresso

Por Vittorio Medioli (foto)

Não é por nada que o PT, Partido dos Trabalhadores, tenta barrar a candidatura de Sergio Moro. Sabe, por experiência própria, que as massas podem ser movidas por utopia, sonho, algo maior e explosivo. Moro é o único que tem esse potencial intacto para entrar em cena com aquela utopia que movimenta montanhas, que produz milagres. 

A decência, a coragem, a dedicação, os tempos novos, já que os antigos são para ser esquecidos, tratam de sentimentos universalmente presentes na população. Podem estar adormecidos na consciência das massas, mas são compreendidos de norte a sul, de classe em classe, entre analfabetos e doutorados. Se a guerra contra o bolsonarismo já tem moldura, limites e espaço conhecido para o PT, contra Sergio Moro representa por enquanto uma incógnita. Certo é que ele pode despertar uma força incontrolável para a qual não existe um antídoto definido. Espera-se no PT que a falta de experiência política dele, a mesma que abalou seu trânsito no Ministério da Justiça, a visão retraída, como deve ser de um “juiz”, a ingenuidade contra a malandragem solta em Brasília o deixarão fragilizado, como vidro fino contra a artilharia que vem de fora. 

Se as divergências com o bolsonarismo são polêmicas, com o PT “encarcerado” por Moro ultrapassam as raias do imaginável. Odiado, inimigo-mor. Ele ousou não apenas de um microfone destratar o PT, ele algemou e condenou à cadeia as autoridades máximas do partido, com os homens mais poderosos do Brasil, todos por corrupção. Moro pode vir a ser visto, ainda não é, como uma via para limpar o Brasil dos seus piores males. 

Ainda é uma incógnita “sem pecado”, tem a seu favor a inteligência e a coragem de prender os mais poderosos, os sequestradores do progresso, dos avanços, da democracia “violentada”. É um candidato que certamente não terá o apoio de empreiteiros, da Odebrecht, da Andrade Gutierrez, do mecanismo político da corrupção, que já se direcionou para outros candidatos, os saudosos do petrolão. 

Não possui fantasmas no armário, portanto tentarão colocar alguns, mas seu passado é de muitas virtudes, honestidade e probidade inoxidáveis ao ácido de figura sem moral. 

A CPI que queriam lhe jogar nas costas ruiu de imediato, porque a ideia, mais que o desgastar, desgastou os proponentes do PT. Ficou Rui Falcão para continuar com a determinação cega, que não é coisa nova para ele.  

Moro tem notoriedade, é conhecido de norte a sul, chegou em certo momento da Lava Jato a constar entre as dez personalidades mais admiradas do planeta. Enfim, é alguém que internacionalmente se contrapõe à fama de outros delinquentes da política. Ele pode ser uma garantia de que o Brasil se ergueu intelectualmente e assumiu, enfim, o caminho que tanto se esperava. 

As virtudes de Moro são compreendidas facilmente por pobres e ricos, a imagem brilha em qualquer cenário. Falta-lhe, provavelmente, esquecer que foi um juiz, retraído, comedido, imparcial. Tem que se engajar nas soluções que o Brasil precisa no campo, nas estradas, nas escolas, no sistema de saúde, entre jovens e maduros, nos sonhos de uma vida melhor. 

O que ele representa é difícil de ser criticado sem apanhar. Isso, no decorrer de uma campanha, de debates, de exposição contínua, pode revelá-lo como a “solução” que temos ao alcance. Cabe a ele sair da casca de homem da lei e se entregar à missão de estadista, de homem que pode usar a enorme fama e sólido conceito em favor do bem, do progresso. 

Tudo isso, epidermicamente, os adversários reconhecem, entretanto o PT, encarcerado por ele, não tolera. “Cartago delenda est”. Deve ser destruído. Veneno e arsenal pesado não faltarão para tirá-lo da candidatura. O confronto de Lula contra Moro representará a grande atração da campanha, dos debates, o fla-flu para atrair multidões. Um confronto que vai além das fronteiras do Brasil e acenderá a atenção internacional. 

Moro é uma pessoa que já fincou seu nome na história do Brasil com alguns capítulos inesquecíveis, ligados à derrocada da corrupção que viveu nas entranhas do Brasil e não o deixou crescer porque sugou o que tinha de bom e melhor. A presença dele na campanha manterá vivo o sentimento de que existe um perverso mecanismo político e financeiro, o maior inimigo da nação, refratário às dores da miséria, insaciavelmente possuído por luxo, cobiça e dinheiro.

Se conseguir passar o Rubicão, pode chegar a Roma. 

O Tempo

Nord Stream 2 e a luta pelo poder entre Ocidente e Rússia




Gasoduto russo no Mar Báltico, construído para suprir as futuras demandas energéticas da Alemanha, é objeto de polêmica com vizinhos e aliados e está sob ameaça devido a impasse entre Moscou e potências ocidentais.

Por Nik Martin

O que é Nord Stream 2?

O Nord Stream 2 é o segundo gasoduto de gás natural entre o oeste da Rússia e o nordeste da Alemanha, passando sob o Mar Báltico. Assim como o Nord Stream 1, inaugurado em 2011, ele tem uma capacidade de transportar 55 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano. Ao todo, as duas instalações enviariam 110 bilhões de metros cúbicos de gás natural anualmente à Alemanha.

A construção do Nord Stream 2 custou 9,5 bilhões de euros e, com 1.230 quilômetros de extensão, é o gasoduto submarino mais longo do mundo. Seu projeto esteve no papel por mais de uma década, mas a construção só foi iniciada em maio de 2018 e concluída em setembro de 2021.

Apesar de concluído, o Nord Stream 2 ainda não entrou em funcionamento, pois sua licença de operação foi adiada por questões burocráticas envolvendo regulamentos europeus e alemães.

Por que o Nord Stream 2 é necessário?

Para suprir suas necessidades energéticas, a Alemanha depende quase inteiramente das importações de gás natural e, de acordo com dados de 2020, compilados pelo provedor de informações IHS Markit, a Rússia é responsável por mais da metade dos suprimentos.

A economia mais forte da Europa precisa se livrar do carvão e da energia nuclear para alavancar sua transição energética. E pretende usar o gás como ponte até que possa gerar ou importar energia renovável suficiente para sua demanda interna.

A necessidade de gás natural se tornou mais aguda com o fechamento de três das últimas seis usinas nucleares na Alemanha, em 31 de dezembro de 2021. As três unidades restantes serão fechadas em dezembro deste ano.

Embora o Nord Stream 2 ajude a Alemanha a aumentar seu abastecimento, a maior parte do gás será canalizado para Áustria, Itália e países da Europa Central e Oriental. Alguns grupos ambientalistas insistem desde sempre que o gasoduto é desnecessário.

Quem está envolvido no Nord Stream 2?

O gasoduto pertence à estatal russa Gazprom e foi construído com o apoio de cinco empresas europeias de energia: OMV da Áustria, a anglo-holandesa Shell, Engie, da França, e as alemãs Uniper e Winterhall – esta última uma filial da multinacional Basf. As cinco aportaram cerca de metade do investimento inicial.

Por que o Nord Stream 2 é tão controverso?

Desde o início dos planos, os Estados Unidos e vários parceiros europeus da Alemanha se posicionaram contrários ao Nord Stream 2 e pressionaram o governo da então chanceler federal alemã Angela Merkel a desistir do acordo.

Os aliados alertaram que o Nord Stream 2 tornaria a Europa dependente demais do gás russo, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, poderia usar essa dependência como ferramenta de persuasão e pressão em disputas com o Ocidente.

Atualmente, grande parte do gás natural da Europa chega ao bloco via Ucrânia, que recebe taxas de trânsito de Moscou. A Polônia desaprova o Nord Stream 2, pois o governo gostaria de intensificar seu papel como país de trânsito para o gás russo.

Enquanto isso, Berlim tem insistido há bastante tempo que o gasoduto é uma questão puramente econômica.

Por que o projeto Nord Stream 2 quase foi arquivado?

Em 2018, enquanto o gasoduto estava sendo construído, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs sanções a todo indivíduo ou entidade envolvidos no projeto.

Cerca de 18 empresas europeias desistiram, incluindo a alemã Wintershall, por medo de sanções financeiras. A russa Gazprom declarou que continuaria a instalação do gasoduto, e o projeto foi concluído, apesar das ameaças americanas.

Em maio de 2021, o governo Biden anunciou renunciar a todas as possíveis sanções relacionadas ao Nord Stream 2, para não prejudicar as relações de Washington com Berlim.

Por que o Nord Stream 2 está novamente sob ameaça?

O gasoduto ocupa atualmente um lugar de destaque na crescente crise entre a Rússia e as potências ocidentais sobre a Ucrânia. Os EUA e a Otan afirmam que a Rússia estacionou mais de 100 mil soldados ao longo de sua fronteira com a Ucrânia, e que os russos estão prontos para uma invasão. Moscou tem negado essas informações.

O Ocidente voltou a ameaçar impor sanções contra a Rússia, desta vez visando bancos do país. Uma possibilidade teórica é excluí-los do sistema global de pagamentos SWIFT, responsável por 35 milhões de transações financeiras diárias, no valor de cerca de 5 trilhões de dólares.

Outra proposta é adiar ainda mais a aprovação formal do Nord Stream 2 – e, consequentemente, o início de sua operação –, como capital de barganha para forçar a Rússia a abdicar de uma guerra.

Numa reviravolta recente, Berlim sinalizou que não descarta mais o engavetamento do projeto. No entanto, a Europa enfrenta uma crise energética neste inverno europeu. Os preços do gás natural dispararam nos últimos meses e os estoques nos países da União Europeia estão no nível mais baixo em cinco anos.

Em meio a tudo isso, o órgão regulador de energia da Alemanha comunicou recentemente ser improvável que o Nord Stream 2 obtenha aprovação antes da metade do ano de 2022 devido a entraves burocráticos.

A regulamentação da União Europeia sobre gás natural determina uma separação entre a operação do gasoduto e a venda do combustível. Formalmente, o único acionista da Nord Stream 2 é a empresa russa Gazprom. A sociedade anônima Nord Stream 2 tem sede em Zug, na Suíça, o que representa outro entrave, pois o regulador alemão exige que a firma operadora da rede de transporte do gás seja registrada na Alemanha, sob o direito alemão.

Para satisfazer as autoridades, criou-se recentemente uma filial com o nome Gas for Europe Ltd., com sede em Schwerin, no extremo norte da Alemanha. Mas a papelada ainda não foi entregue às autoridades alemãs.

Deutsche Welle

Rússia já tem 70% do poderio bélico para invadir a Ucrânia

 




Autoridades dos EUA dizem que Moscou já teria 110 mil soldados na região. Forças russas poderiam subjugar com rapidez as ucranianas, em ofensiva que poderia causar 50 mil mortes. Europa intensifica esforços diplomáticos.

A Rússia já acumula 70% do poderio bélico que o Kremlin planejou destacar para a fronteira da Ucrânia até a metade deste mês, o que poder dar ao presidente Vladimir Putin a opção de lançar uma invasão em grande escala ao país vizinho.

Moscou enviou até agora 110 mil soldados para a região, mas ainda não está claro se Putin planeja, de fato, ordenar uma ofensiva.

As informações foram divulgadas à imprensa por autoridades americanas que estiveram em reuniões sobre a crise na Ucrânia no Congresso dos EUA e com aliados europeus.

Segundo as autoridades, que discutiram as avaliações internas com jornalistas na condição de não serem identificadas, há vários indicadores que sugerem uma possível invasão nas próximas semanas, apesar das dimensões da suposta ofensiva ainda não estarem evidentes. Contudo, ainda seria possível buscar uma solução diplomática para a crise.

Um desses indicadores seria o adiamento de um exercício anual das forças estratégicas nucleares russas que normalmente ocorre entre meados de fevereiro e março, o que coincide com a época prevista pelos Estados Unidos como a mais provável para o início da ofensiva.

Aumento do contingente na fronteira

Segundo os americanos, as Forças Armadas russas teriam estacionado na fronteira 83 batalhões táticos, cada um destes com entre 750 e mil soldados. Há duas semanas, o número dessas unidades na região era de 60.

Outros 14 batalhões táticos estariam a caminho da fronteira, vindos de partes diferentes da Rússia. Segundo as avaliações das autoridades americanas, Moscou almeja estacionar entre 110 e 130 batalhões táticos na região.

Somadas as unidades de apoio, o Kremlin poderá acumular em torno de 150 mil soldados na fronteira, o que poderia ocorrer dentro de algumas semanas.

Na semana passada, os EUA disseram ter evidências de um plano de Moscou para forjar imagens de vídeo falsas como pretexto para uma possível invasão.

O governo do Reino Unido também disse possuir informações de alta confiabilidade de que a Rússia planeja fabricar um motivo para atacar a Ucrânia. 

Até 50 mil mortes

De acordo com reportagens publicadas neste sábado (05/02) pelos jornais americanos The New York Times e The Washington Post, autoridades americanas avaliam que uma invasão russa em grande escala poderia subjugar as forças ucranianas com relativa rapidez e resultar em até 50 mil mortes, embora não tenha sido esclarecido como se chegou a esse número.

Neste cenário, Moscou teria dificuldades para manter a ocupação do país e ainda iria ter de lidar com uma potencial insurgência.

'Tropas ucranianas seriam rapidamente subjugadas pelas russas, afirmam autoridades dos EUA'

O governo do presidente americano Joe Biden passou a divulgar informações de inteligência para se contrapor à campanha de desinformação propagada por Moscou e dificultar os planos de Putin de criar um pretexto para a invasão. Ainda assim, a falta de evidências que comprovem essas afirmações gerou muitas críticas em Washington.

Biden reiterou que os EUA não enviarão tropas para o território ucraniano, mas ordenou o envio de um contingente de 1,7 mil soldados à Polônia e outros trezentos para a Alemanha. Outro grupo de mil soldados americanos foi deslocado de bases em solo alemão para a Romênia.
Europeus intensificam esforços diplomáticos

No Leste Europeu, aumentam as preocupações com o acúmulo de tropas russas na fronteira de Belarus com a Ucrânia, uma vez que o país também é vizinho à Polônia, Lituânia e Letônia, o que aumenta a possibilidade de Washington enviar soldados para o flanco leste da Otan.

Nos próximos dias, líderes europeus devem intensificar os esforços para uma solução diplomática para a crise. O presidente da França, Emmanuel Macron, viajará a Kiev nesta segunda-feira e, no dia seguinte, estará em Kiev. O chanceler federal da Alemanha, Olaf Scholz, estará na capital ucraniana no dia 14 de fevereiro, antes de se deslocar para a Rússia.

Deutsche Welle

Putin se acostumou a botar o mundo de joelhos




Putin, um verdadeiro patriota?

Por Mario Vargas Llosa (foto)

Vladimir Putin, o homem que está a ponto de afundar a Europa em uma guerra de imprevisíveis resultados, não é um intelectual nem um homem afeito a livros: a educação que recebeu é a de um funcionário da polícia política da URSS, a KGB. Esteve algum tempo na Alemanha Oriental, um país que, dizia-se, era o mais próspero entre os que conformavam a URSS. Uma fantasia, pois quando saiu da esfera soviética, descobriu-se que o país era bastante atrasado. Passaram-se vários anos desde que se reintegrou à Alemanha e ainda é pobre em relação à Alemanha Ocidental.

Boris Yeltsin, um democrata bêbado e desajeitado, cometeu o erro de promover Putin e levá-lo ao poder, algo que lhe deu muita popularidade quando a Rússia parecia a ponto de romper-se na desordem descomunal de que padecia, pois ele colocou ordem naquele caos e os russos (não todos) acreditaram que, com ele no poder, adviria um tempo de paz e prosperidade para o país.

COMPADRIO

A Rússia deixou de ser comunista desde então, mas não é democrática nem liberal, e pratica um capitalismo de compadres, onde, desde que permaneça calado e siga passo a passo as disposições do poder, alguém pode se fazer rico e até bilionário. Mas não tente visitar o bairro de Moscou onde vivem os poderosos aliados de Putin, pois uma barreira policial o impede, como tive oportunidade de comprovar há três anos, quando estive por lá.

Os russos que admiram Putin acreditam em tudo o que ele diz - já não são muito numerosos, como mostra o fenômeno Alexei Navalni, a quem o poder tentou assassinar e o mantém agora em uma prisão - e muitos deles compartilham de sua crença de que a Ucrânia é parte da Rússia dos czares, pois os mais antigos nasceram e estão enterrados lá, como se as orografias nacionais se mantivessem intactas ao correr dos séculos, sobretudo no continente europeu, e não tivessem mudado centenas de vezes de conformação e natureza ao longo de sua história.

Putin já recuperou para a Rússia a Península da Crimeia, uma parte da Ucrânia. A operação militar deixou muitos mortos, já esquecidos. Mas a solicitação de ingresso à Otan do novo governo ucraniano incitou a indignação dos dirigentes russos que, prontamente, colocaram 100 mil militares na fronteira oriental deste país. E, em cartas aos EUA e à Otan - a defesa do Ocidente -, pediram garantias, ou seja, uma proibição expressa de que os países fronteiriços à Rússia se incorporem à aliança atlântica, algo que, obviamente, é incompatível com a liberdade de cada país de ser membro - sobretudo tratando de defender sua independência - de qualquer organização que exista e esteja garantida pelos tratados internacionais.

Estourará uma guerra que coloque em perigo a paz do mundo e poderia se degenerar em uma confrontação atômica, que, após a pandemia do coronavírus, deixaria o restante do planeta em estado de decadência ou acabaria com ele? Eu, pessoalmente, não creio, ainda que, com certeza, bato na madeira, pois tudo poderia ocorrer.

Imagino que Putin se acostumou a colocar o mundo de joelhos com seus desplantes e ameaças e, pela primeira vez, adverte o restante da comunidade, ou seja o Ocidente, que reagirá às suas provocações com advertências muito concretas: de castigá-lo com a interrupção do fornecimento de gás para a Europa.

DESCONTENTAMENTO

Esta ameaça, aliás, não parece deixar tão contentes os países que se veriam mais afetados, como Alemanha, onde já se registraram alguns respingos adversos dos novos dirigentes, e até a França, onde o presidente Emmanuel Macron trata de iniciar um diálogo com o russo, algo que não é tão fácil nem surte resultados tão imediatos. E o dirigente húngaro, Viktor Orban, se apressou em ir a Moscou proclamar sua solidariedade com os russos, durante uma conversa com Putin, que o declarou “o melhor amigo que temos no mundo ocidental”.

Em todo caso, é óbvio que as ameaças dos EUA e dos países da Otan não recebem respaldo unânime nem igualmente enérgico de todos que seriam vítimas de uma agressão russa e de Putin, em seu afã de reconstruir o que foi o império soviético nos tempos do stalinismo. Essa possível censura dos países do Ocidente, que elevaria o custo do fornecimento de energia para vários deles - como Espanha, por exemplo -, é uma fraqueza que poderia animar o dirigente russo a cumprir sua ameaça, apesar das enérgicas declarações dos EUA e da Otan de que, se a Rússia romper com a paz e invadir a Ucrânia, receberia um castigo sem precedentes que poderia quebrar sua economia e seria afrontada por uma ofensiva militar.

O que ocorrerá, finalmente? Minha impressão é que, pressionado a agir, Putin calculará que os riscos de uma ofensiva geral do Ocidente contra a Rússia são elevados demais e, com efeito, isso poderia significar o fim da popularidade com que, de maneira relativa, ele tem contado até agora na Rússia, e a oposição, que cresceu nesses últimos anos, poderia desalojá-lo do poder - e talvez isso o obrigue a se conter. Tudo isso é mera especulação.

Também poderia suceder que, advertido para as potenciais diferenças que existem no Ocidente entre os EUA e os países vítimas de um corte no fornecimento de energia, Putin sinta-se com forças para invadir a Ucrânia, haja o que houver. Parece-me que esta opção é mais difícil, mas não impossível. Os “homens fortes” no poder, como ele, podem às vezes fazer apostas arriscadas.

Há que se fazer todo o possível - e o impossível - para que esta circunstância não escancare que ninguém sabe o poderia significar uma guerra na atualidade, com os gigantescos esconderijos de bombas e artilharia atômica que possuem os países que se enfrentariam. Fundamentalmente dois, Rússia e EUA. O restante desempenharia simplesmente o papel de recrutas e vítimas, já que nenhum deles - e as bravatas de Boris Johnson menos que tudo - está em condições de resistir a uma agressão atômica.

IMPÉRIO SOVIÉTICO

Estou bastante seguro de que nada desse final pessimista se concretizará. E o antigo membro da KGB, onde ensinaram a Putin o judô que lhe permite, para publicidade, derrubar facilmente seus adversários diante das câmeras, conterá neste momento sua ânsia de ressuscitar o império soviético e o sistema ocidental respirará mais tranquilo após a bagunça destes dias.

Porque uma terceira guerra mundial não seria limitada nem prescindiria do uso dessas armas, que poderiam fazer desaparecer um milhão de pessoas (ou muito mais) com um só disparo. No passado, esse entretenimento dos poderosos era possível porque, mesmo com os erros, a matança era controlável. Agora já não é assim. Um descuido, por mínimo que seja, pode provocar o fim do mundo.

Isso significa que o restante do planeta deve se curvar, retroceder e acatar sem resistir os caprichos do “patriota” que governa Moscou? Tampouco creio nisso. Parece-me que chega-se a um limite, e o Ocidente não pode fazer mais concessões ao dirigente russo, pois isso seria renunciar às coisas mais admiráveis conquistadas, entre elas a liberdade e a democracia, que dignificaram a vida de milhões de seres humanos. Pensamos que, em meio ao caos que viveu ao fim do império, a Rússia também as obteria. Era outra fantasia. 

O Estado de São Paulo

3 fatores por trás da desaceleração da China, que deve registrar menor crescimento em 30 anos




A expressão “ritmo chinês de crescimento”, bastante usada até meados dos anos 2010 para adjetivar as economias que se expandiam de forma acelerada, não surgiu à toa.

O Produto Interno Bruto (PIB) da China vem aumentando de forma ininterrupta há mais de 40 anos. Nas duas décadas entre 1991 e 2010, o país conseguiu manter um crescimento médio de 10% ao ano, maior do que qualquer outro país no mesmo período.

Desde então, em parte devido a mudanças estruturais, a economia chinesa perdia fôlego. Veio o coronavírus e, depois dos anos atípicos de 2020 e 2021, quando a pandemia primeiro puxou o PIB para baixo (2,2%) e a retomada lhe deu fôlego extra (8,1%), o mundo olha atento para a economia chinesa em 2022.

Isso porque as projeções indicam uma desaceleração com um crescimento em torno de 5% – menor número desde 1990, se descontado 2020.

O desempenho é resultado de uma combinação de fatores de curto e longo prazo, conforme os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil. Uma mistura que inclui desde mudanças profundas no modelo de crescimento chinês, que dá sinais de que está entrando em um novo ciclo, até episódios recentes e mais pontuais, como a política de covid zero.

Sintetizamos esses elementos em três pontos, listados a seguir.

1. A crise na construção: imóveis caros, cidades fantasmas e empresas endividadas

O setor imobiliário e de construção vem sendo o principal motor do crescimento espetacular da economia chinesa há décadas. Responde por cerca de 15% do PIB e por quase o dobro disso se contabilizada toda a cadeia, que inclui segmentos como o de aço, cimento e de mobiliário.

Há alguns anos, contudo, o setor vem dando sinais de esgotamento. Alguns deles bastante claros, como as “cidades-fantasma” que se espalharam pelo país nos últimos anos: grandes empreendimentos que, devido à baixa demanda, permanecem vazios ou inacabados.

Além disso, mesmo com a ampla oferta, os preços têm se curvado à especulação imobiliária e seguem em uma crescente, deixando os imóveis cada vez menos acessíveis para alguns chineses – ainda que o país tenha um nível elevado da população com casa própria.

Entre as 10 cidades com os maiores preços médios no mundo, 3 estão na China, conforme a pesquisa anual feita pela consultoria americana CBRE, especializada no setor imobiliário. São elas Xangai, Pequim e Shenzhen, hoje um grande hub de tecnologia.

“O processo de urbanização, que foi um dos grandes motores desse boom na construção que se estendeu pelos últimos 25 anos, desacelerou consideravelmente”, pontua Mark Williams, economista-chefe para a Ásia da consultoria britânica Capital Economics.

“As taxas de natalidade vêm despencando, reduzindo a expectativa de demanda no mercado imobiliário no futuro. E essa não é uma história só para 2022, é uma história para os anos 2020 e além”, completa.

Outro sinal de alerta vem das próprias empresas de construção.

Após anos crescendo de forma agressiva com um modelo baseado no endividamento, algumas companhias começaram a enfrentar dificuldade para pagar os credores e chegaram a ameaçar dar calote – incluindo a gigante Evergrande, que no ano passado levantou temores de que uma crise maior pudesse estar se desenhando.

Um relatório divulgado em outubro pela agência de rating S&P apontou que, no cenário mais pessimista, até 37% das companhias do setor poderiam enfrentar problemas de liquidez (ou seja, dificuldade para pagar dívidas) em 2022.

“A probabilidade é que a necessidade de imóveis novos caia consideravelmente na China até o fim da década, o que coloca em questão todo o modelo de negócio dessas empreiteiras, que ficam pegando dinheiro emprestado para construir mais e mais a cada ano que passa”, ressalta Williams.

O governo, que há anos reconhece que há profundos desequilíbrios do setor, vem tentando consertá-los de forma mais ativa só recentemente. Desde 2020, por exemplo, tem implementado uma série de controles regulatórios, batizados de “três linhas vermelhas”, para tentar conter o endividamento desordenado.

Essas medidas são apontadas como uma das razões por trás das dificuldades que algumas empresas têm atravessado.

Nesse sentido, diz Williams, parte da crise atual é “contratada”, ou seja, o próprio governo sabia que as medidas levariam a uma desaceleração do principal dínamo da economia – mas não teve muita alternativa diante da realidade, que, na avaliação do economista, acabou se impondo.

“Parte das chamadas crises ou de alguma instabilidade que se criou na economia chinesa ano passado foram na verdade induzidas por políticas”, concorda em parte a diplomata Tatiana Rosito, que vive em Xangai e é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

Em sua visão, as razões que levaram o presidente Xi Jinping e o Partido Comunista Chinês ao aperto regulatório justamente neste momento, quando há muito tempo o governo admite a necessidade de reformar a economia, é um campo aberto a especulações.

A movimentação, contudo, sinaliza uma mudança importante: uma disposição mais clara da liderança chinesa de persistir no combate aos desequilíbrios, tendo como efeito colateral a produção de taxas de crescimento menores.

“Há uma passagem de um foco em quantidade para um foco em qualidade, para uma economia baseada em inovação. E, nesse sentido, eles estão em busca dos novos drivers [impulsionadores] de desenvolvimento”, acrescenta a economista, que já foi representante-chefe da Petrobras na China.

2. A ‘repressão’ à indústria de tecnologia

Um desses motores é o setor de tecnologia, que, ironicamente, também está na mira do cerco regulatório empreendido pelo governo.

Os novos controles, que se manifestam em áreas desde a cibersegurança até a legislação anti-monopólios, têm feito o setor perder o fôlego que transformou algumas empresas em impérios nos últimos anos.

Alvo das medidas, grandes multinacionais como Tencent, DiDi (dona da 99 no Brasil) e Alibaba têm registrado crescimento menor e até queda nas receitas nos trimestres mais recentes.

Apesar de se identificar como um país comunista desde 1949, quando uma revolução alçou Mao Tsé-Tung ao poder, a China passou a abrir espaço para empresas privadas, ainda que sob restrições, com a política de “reforma e reabertura” inaugurada por Deng Xiaoping no fim dos anos 1970.

Por que então impor restrições mais rigorosas neste momento?

Na avaliação de Evandro Menezes de Carvalho, coordenador do Núcleo de Estudos Brasil-China da FGV Direito Rio, a explicação combina objetivos políticos e econômicos.

“O ‘combate’ às grandes fortunas ou às grandes empresas seria uma forma de o partido transmitir à população que está comprometido com a promessa de combate à desigualdade, dentro do discurso de ‘prosperidade comum'”, diz ele, referindo-se ao slogan que tem aparecido com frequência nos últimos discursos do presidente Xi Jinping.

Também seria uma forma de evitar que as grandes fortunas “corrompam” o próprio sistema e coloquem sob ameaça o monopólio do poder exercido pelo Partido Comunista. E, por fim, uma maneira de reorientar o foco dessa indústria para as áreas que o governo considera estratégicas e importantes. Menos redes sociais e joguinhos e mais chips e semicondutores, por exemplo.

Rosito acrescenta outros três pontos à lista, entre eles o próprio esforço do governo para combater o que enxerga como desequilíbrios da economia. No caso específico do setor de tecnologia, muitas das empresas vinham entrando maciçamente no ramo financeiro e aumentando de forma expressiva o nível de endividamento, por exemplo.

Em paralelo, ela cita a visão por parte das lideranças chinesas da necessidade de se regulamentar uma área considerada sensível e estratégica: “A China hoje vê claramente a questão dos dados como uma questão de segurança nacional”.

E, finalmente, as transformações no cenário de segurança internacional, decorrentes de embates como a guerra comercial entre China e Estados Unidos.

“Quando eles criaram esse slogan da ‘circulação dual’ [mencionado desde 2020 como uma nova estratégia, que incorpora cada vez mais o consumo doméstico], é pra dizer também: ‘Olha, a gente precisa pensar nas cadeias domésticas, na circulação, até para fazer face a restrições”, diz a diplomata.

Entre essas “restrições” estariam, por exemplo, as investidas americanas para limitar o acesso chinês a algumas tecnologias fundamentais, como semicondutores.

Williams, da Capital Economics, também chama atenção para o peso do cenário internacional menos favorável, que teria despertado no partido uma espécie de senso de urgência para que o país se prepare para tempos mais difíceis.

“E isso significa que a China precisaria focar mais seus esforços econômicos em áreas como a indústria, na produção de chips de alta tecnologia, e não tanto em algoritmos para compartilhar vídeos engraçados”, avalia.

“Acho que existe um certo grau de desconfiança em relação a esse tipo de tecnologia, [uma visão de que seria] algo que não necessariamente fortaleceria a China no longo prazo”, completa o economista.

3. Política de covid zero

Em meio a todas essas mudanças estruturais e de longo prazo, um outro fator, este aparentemente mais circunstancial, também tem contribuído para desacelerar o crescimento chinês: a política de covid zero em vigor.

Enquanto alguns países têm sinalizado que, quando for possível, devem mudar suas estratégias de saúde pública para que possam passar a conviver com o vírus, na China a orientação ainda é tentar mantê-lo fora do território a todo custo.

Isso se traduz, por exemplo, na implementação de rigorosos e amplos lockdowns para tentar conter novos surtos, controle de fronteiras e políticas minuciosas de testagem – medidas que têm impacto tanto na demanda de consumidores quanto na produção das empresas.

Em janeiro, por exemplo, a montadora japonesa Toyota informou ter precisado suspender a produção em sua joint-venture em Tianjin por conta das novas rodadas de testagem que estavam sendo realizadas nos 14 milhões de habitantes da cidade para tentar conter a disseminação da variante ômicron.

Alguns se questionam até que ponto a estratégia chinesa é sustentável, diante da alta transmissibilidade da ômicron. Até o momento, contudo, o governo não sinalizou uma mudança significativa no combate à pandemia.

O custo econômico da política de tolerância zero à covid levou instituições como o banco Goldman Sachs a reduzir sua projeção para o crescimento da economia chinesa em 2022 de 4,8% para 4,3% recentemente.

Evandro Menezes de Carvalho, da FGV Direito Rio, chama atenção para o fato de que a abordagem chinesa, que de certa forma deixa o país mais fechado para o mundo, converge com alguns dos interesses das lideranças. Entre eles, a própria estratégia de “circulação dual”, que passa a olhar cada vez mais para o mercado doméstico, e a visão de que o país precisa se preparar para cenários mais críticos com relação aos Estados Unidos, por exemplo.

“Talvez haja uma política de conveniência”, ele avalia.

Na visão do especialista, contudo, “não há interesse em um fechamento total”. “Existe uma preocupação de continuar atraindo investimento estrangeiro e manter as portas abertas para o mercado internacional.”

Como tudo isso pode impactar o Brasil?

O diplomata Marcos Caramuru, embaixador do Brasil na China entre 2016 e 2018, lembra que 2022 é um ano sensível para o país asiático também no campo político.

No segundo semestre ocorre o 20º Congresso do Partido Comunista Chinês, o evento político mais importante do calendário. Realizado a cada 5 anos, é geralmente o momento em que se formalizam as trocas de lideranças. Neste ano especificamente, Xi Jinping também deve buscar um inédito terceiro mandato como presidente.

“A questão que todo mundo se pergunta é qual vai ser o equilíbrio entre reformas e crescimento”, ele acrescenta.

A depender da calibragem, a economia brasileira pode sentir mais ou menos os efeitos, avalia Caramuru. A China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, destino de 31,3% de todas as exportações do país. A pauta é bastante concentrada em commodities, especialmente soja, petróleo e minério de ferro – um item que seria diretamente impactado pela crise na construção e no mercado imobiliário, por exemplo.

“Se houver uma desaceleração forte na China, nós vamos sofrer – alguns produtos mais que outros. Mas tudo leva a crer que o governo vai tentar encontrar um equilíbrio. Não vejo um cenário que, para nós, possa subitamente criar uma situação de constrangimento pesado”, pontua.

Tatiana Rosito também não enxerga um choque negativo de grandes proporções no curto prazo. Ela aponta, contudo, que há riscos relevantes para o médio e longo prazo, parte deles decorrente da própria concentração da pauta de exportações brasileira.

Se o perfil da economia da China de fato mudar e ela deixar de ser um grande centro manufatureiro (a “fábrica do mundo”) para se tornar uma economia baseada em inovação, o que isso significa para os países que abasteceram os chineses de commodities nas últimas duas décadas?

“A China de alguma forma moldou o mundo dos últimos 20 anos, através da sua enorme demanda por commodities, que beneficiou muitos países, através da sua produção de bens, que permitiu que o mundo crescesse sem inflação, através do seu papel importante como hub de cadeias produtivas, sobretudo no setor eletroeletrônico… Da mesma forma que ela, em conjunto com os Estados Unidos, moldou bastante o mundo nos últimos 20 anos, isso pode continuar e até se intensificar – agora sob novas bases”, avalia a economista.

“A China está olhando cada vez mais para fontes renováveis – e menos para petróleo e gás -, mais para veículos elétricos, para hidrogênio…”, completa.

Nesse sentido, ela acredita que o Brasil precise de uma estratégia, construída “a várias mãos” pelo governo com a sociedade civil, para fazer frente a essas transformações e conseguir extrair os benefícios possíveis para a economia brasileira.

Uma possibilidade seria procurar exportar produtos de maior valor agregado dentro do próprio segmento alimentício – em vez de embarcar apenas a soja e o milho que vão virar carne na China, vender produtos que possam ir direto para as gôndolas dos supermercados.

“Os consumidores chineses não se lembram do Brasil como um grande fornecedor agrícola. Como nós vendemos commodities, a média das pessoas não reconhece marcas brasileiras, né? Então eu acho que a gente precisa olhar para esse potencial da China, um país em que a classe média deve dobrar de tamanho até 2035, de 400 milhões para 800 milhões de pessoas.”

No próximo dia 15 de fevereiro, a especialista apresenta algumas de suas ideias em um evento da universidade britânica King’s College intitulado Brazil-China trade: In search of a strategy (“Comércio Brasil-China: Em busca de uma estratégia”, em tradução literal).

POR CAMILA VERAS MOTA 

BBC Brasil / Daynews

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