quinta-feira, janeiro 13, 2022

Inquéritos sobre atos ilegais de Bolsonaro são “Piadas do Ano” e não vão acabar nunca




Moraes mandou prorrogar as investigações mais uma vez

Por Carlos Newton

É impressionante o surrealismo do Brasil, onde o novo normal é garantir impunidade à classe política e às elites empresariais, um fenômeno que surpreende os países mais civilizados. Diante do afrouxamento de nossas leis contra corrupção, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mandou uma delegação de auditores ao Brasil em novembro de 2019 e depois  que haja monitoramento em caráter permanente.

É uma situação vexatória, porque se trata de medida inédita, o Brasil se tornou o único país do mundo a sofrer esse acompanhamento da entidade internacional, que se recusa a nos filiar como país-membro, embora aceite outras nações de menor importância política e econômica, como Chile, Estônia, México, Peru, Luxemburgo e Eslovênia.

INVIABILIDADE TOTAL – No Brasil, o resultado dessa permissividade criminosa é que o combate à corrupção é inviabilizado desde a fase inicial do inquérito. Há enorme variedade de recursos e instrumentos jurídicos. As investigações simplesmente não andam e a quase totalidade das ações penais e administrativas acabam prescritas e o criminoso se livra, como se inocente fosse, basta conferir o que aconteceu com Lula da Silva e está acontecendo com Flávio e Carlos Bolsonaro.

Os jornalistas acompanham as investigações, que ficam estacionadas como se houvesse um gigantesco engarrafamento judicial. Diz-se uma coisa, mas faz-se outra, o roteiro é sempre surrealista, cheio de imprevistos e frases de efeito.

É impressionante o número de “notícias-crime” ou “notícias de fato”, a motivar espalhafatosas investigações que dificilmente redundam em condenação no caso de políticos e outros criminosos de elite. E tudo isso significa elevados gastos públicos, porque custa muito caro levar adiante o inquérito, mesmo que as autoridades estejam apenas fingindo que investigam.

EXEMPLO MARCANTE – Tudo começa na eternização das apurações policiais. Um grande exemplo é o inquérito do Supremo sobre a demissão do ministro Sérgio Moro. Na mesma manhã, 24 de abril de 2020, após a entrevista coletiva de Moro, o presidente Bolsonaro sentiu-se ofendido e mandou o procurador Augusto Aras processar imediatamente o ex-ministro. No final da tarde, em petição sucinta, de apenas uma lauda, Aras indiciou Moro em sete crimes e tocou o barco.

Alexandre de Moraes foi escolhido relator e mandou a Polícia Federal apurar. O caso é de uma simplicidade absoluta, porque Bolsonaro reconheceu o propósito de interferir nas investigações que pudessem “foder” a família e os amigos.

Está tudo gravado, depois Bolsonaro até reincidiu, ao mandar a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) blindar o filho Flávio. Tudo isso é público e notório, mas a investigação não anda.

RÉU CONFESSO – Nem há o que investigar, pois Bolsonaro é réu confesso, e com agravante, pois tentou obstruir a justiça, ao negar que existisse gravação da reunião ministerial mencionada por Moro. Era mentira do presidente, essas reuniões são gravadas, é praxe no Planalto. Assim, as provas abundam, mas nada disso importa.

A Polícia Federal acaba de ganhar mais 90 dias para embromar as investigações, na quinta prorrogação, e vida que segue, diria João Saldanha. O mais impressionante, fato absolutamente inédito, é que em três anos de governo o presidente Jair Bolsonaro já responde a seis inquéritos: 1) interferência na Polícia Federal; 2) prevaricação sobre irregularidades na negociação da vacina Covaxin; 3) ataques às urnas eletrônicas; 4) vazamento de dados de inquérito sigiloso da PF; 5) divulgação de notícia falsa relacionando as vacinas contra Covid a um risco ampliado de desenvolver Aids; 6) envolvimento da Abin na blindagem do filho Flávio.

Na História do Brasil, jamais houve um governante tão investigado criminalmente como Jair Bolsonaro. Realmente, um mito para ser lembrado, mas como péssimo exemplo, é claro, embora nem possa ser comparado a Lula da Silva, que chefiou o maior esquema de corrupção do mundo.

P.S. – O mais incrível é a tremenda esculhambação da Justiça brasileira, que vai levar à loucura os analistas da OCDE. Um dos inquéritos, sobre interferência na PF, nem existe de fato, foi protocolado errado no cartório do Supremo e ninguém percebeu. No resumo da capa, Moro aparece como “vítima” e Bolsonaro como “autor”. Na verdade, o inquérito foi aberto com Bolsonaro de “vítima” das supostas falsas acusações do ministro, e Moro como “autor” dos crimes denunciados pelo procurador Aras. Ninguém lembra, mas o inquérito aberto para apurar se Moro cometeu denunciação caluniosa e outros seis crimes listados por Aras. No final, porém, passou a ser um inquérito para apurar se Bolsonaro interferiu na PF. Em tradução simultânea, não vai acabar nunca, é mais uma peça de “jus embromandi”, essa prática tão marcadamente brasileira. (C.N.) 

Tribuna da Internet

Depois de 90 anos, o poder do voto feminino




Governo corre para reduzir alta rejeição entre as mulheres

Por Fernando Exman (foto)

Setenta e sete milhões, quinhentos e oitenta e um mil, seiscentos e dezesseis brasileiras estão aptas a votar nas eleições marcadas para outubro. Juntas, elas somam 52,86% do eleitorado, mais do que os 52,50% do pleito de 2018. E representam, também, um dos principais desafios do presidente Jair Bolsonaro em sua campanha à reeleição.

Questão antiga. Ao longo de sua ruidosa carreira parlamentar, Bolsonaro protagonizou alguns episódios que ganharam destaque nas páginas mais infelizes dos diários da Câmara dos Deputados. Em um deles, atacou participantes de uma audiência pública que debatia a violência contra mulheres e meninas, o enfrentamento ao estupro e à impunidade, além de políticas públicas de prevenção, proteção e atendimento a vítimas.

Isso foi em setembro de 2016, mas há outros exemplos. Muitos. Tantos que durante a campanha de 2018 Bolsonaro foi alvo de manifestações populares lideradas por mulheres em diversas cidades do país, protestos que ficaram conhecidos como “Movimento Ele Não”. Se isso o atrapalhou ou acabou o ajudando a conquistar a vitória no pleito, como disse certa vez o marqueteiro João Santana em entrevista ao Valor, é uma discussão para os especialistas. Mas, o fato é que, mesmo depois de eleito presidente da República, Bolsonaro ainda não conseguiu melhorar sua avaliação nesse crescente segmento da população.

Recente trabalho do instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec) serve de indicativo. Quando perguntadas se aprovam ou desaprovam a maneira como Bolsonaro está governando o Brasil, 70% das entrevistadas disseram que reprovam. Entre os homens, esse índice foi de 66%. Só 25% das entrevistadas disseram que aprovam, ante 30% dos homens.

Mais mulheres do que homens consideraram a atual administração “péssima”, e menos demonstraram disposição de votar pela reeleição do presidente. Bolsonaro também foi mais apontado por elas quando os entrevistadores perguntaram: “Dentre estes candidatos a presidente da República, em qual não votaria de jeito nenhum? Mais algum? Algum outro?” O resultado foi que 58% das mulheres rejeitam o presidente, contra 51% dos homens.

Diante desse cenário, adversários de Bolsonaro já têm algumas ideias de como sensibilizar essa parcela do eleitorado, a qual pode determinar o desfecho da disputa.

Uma delas é reforçar a percepção de que falta empatia ao chefe do Executivo. Isso já começou durante a CPI da Covid, quando senadores que integravam o grupo majoritário da comissão parlamentar de inquérito passaram a exibir vídeos de Bolsonaro relativizando o perigo do coronavírus e o número de mortes. Um trecho especialmente chocante era quando o presidente imitava, num gesto de péssimo gosto, alguém com falta de ar.

Na passagem para o Ano Novo, ao manter as férias enquanto diversos municípios baianos sofriam com enchentes e inundações, o presidente deu nova oportunidade para os seus críticos. Estes tampouco deverão deixar de explorar a demora na vacinação infantil e a declaração de que desconhece mortes de crianças infectadas pela covid-19.

Outra certeza é que abordarão, durante a campanha, o aumento dos preços que mais afetam o orçamento familiar e a redução do poder de compra. Inevitavelmente, a inflação será outro grande desafio do governo no embate que se aproxima. Ainda é cedo para saber como reagirão, quando chegarem às seções eleitorais, os milhões de mães, avós, tias e irmãs.

Bolsonaro, contudo, também desenha uma estratégia. Uma possibilidade aventada por seus aliados é a escolha de uma mulher para a vaga de vice, e, neste caso, há duas ministras que podem assumir o papel: Tereza Cristina, titular da pasta da Agricultura, e Damares Alves, que está à frente da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Aliás: em ação que o Ministério Público Federal lista uma série de declarações discriminatórias do presidente, as duas aparecem na passagem que lembra quando Bolsonaro ironizou as críticas sobre o fato de o primeiro escalão ter 20 homens e só 2 ministras. Segundo ele, havia equilíbrio. Era Dia da Mulher. A peça lista mais casos lamentáveis.

Outra estratégia do governo é o lançamento, ainda que tardio, de programas que possam ser citados num eventual debate ou em alguma propaganda. Em outras palavras, algo que possa servir de antídoto contra os ataques que certamente virão.

Um exemplo é o Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, instituído no finalzinho de dezembro do ano passado por meio de decreto. Três anos depois da posse. É difícil imaginar que tenha resultados práticos a curto prazo, até porque depende de uma potente articulação com Estados e municípios, diálogo que este governo não possui.

Nunca é demais lembrar que nem sempre foi assim. Por muito tempo, pouco importou para as lideranças políticas o que pensavam ou demandavam as cidadãs deste país. A luta foi longa e a briga, mais do que justa.

A vitória veio em 1932, quando no dia 24 de fevereiro Getúlio Vargas editou o decreto presidencial que instituiu um novo Código Eleitoral. Mas há outros detalhes que valem ser recordados deste mesmo verbete da história do Brasil: em 1933, houve eleição para a Assembleia Nacional Constituinte e as mulheres puderam votar e serem votadas pela primeira vez. No entanto, apenas uma conseguiu eleger-se deputada federal - Carlota Pereira de Queirós, por São Paulo. Bertha Lutz, outra candidata e referência do movimento feminista, obteve a primeira suplência pelo Distrito Federal.

Instalada, a Constituinte elaborou uma nova Carta Magna, que passou a valer no ano seguinte, consolidando o voto feminino - a Constituição promulgada em 16 de julho de 1934 estabeleceu que poderiam votar “os brasileiros de um ou de outro sexo, maiores de 18 anos”. Quando se analisa em perspectiva, pouco tempo passou desde então. O suficiente para que, hoje, o eleitorado feminino seja visto como fundamental para qualquer estrategista de campanha.

Valor Econômico

Moro diz que Bolsonaro defendeu Lava-Jato para 'estelionato eleitoral'

 




Ex-juiz Sergio Moro

Presidente negou ter defendido a força-tarefa durante a campanha eleitoral de 2018

Por Ana Mendonça

O candidato à Presidência e ex-juiz, Sérgio Moro, afirmou, nesta quarta-feira (12/1), que o presidente Jair Bolsonaro (PL) usava a Lava-Jato como discurso para cometer “estelionato eleitoral”.

“Bolsonaro enfim admitiu ontem que nunca defendeu o combate à corrupção e a Lava-Jato. Era só mais um discurso do seu estelionato eleitoral”, escreveu.

Moro foi uma das promessas eleitorais de Bolsonaro. O presidente, na época das eleições, usava o nome do ex-juiz da Lava-Jato para promover ideias anticorrupção, prometendo que levaria Moro para um de seus ministérios.

Bolsonaro negou, em entrevista, que tenha dito que era a favor da Lava-Jato e contra a corrupção

"Primeiramente, eu não apareci em 2018 e falei que sou a favor da Lava-Jato e que vou combater a corrupção. Não foi isso. Minha história começa há muito tempo. Eu estou com 66 anos de idade. São 28 anos no Parlamento e nenhum problema sobre acusações de coisa errada", disse.

Estadão / Estado de Minas

Apoio popular ao casamento gay caiu. Culpa da política identitária?




Uma das razões para a queda pode estar na forma como os LGBT conquistaram seus direitos. No Brasil, foi por ativismo judiciário, com a justificativa de muitos juristas de que havia uma “inação” do Congresso em legislar a questão. 

Por Eli Vieira (foto) 

Uma nova pesquisa de opinião realizada pelo PoderData este mês revela que o apoio ao casamento gay caiu no Brasil no prazo de um ano, de 51% em janeiro de 2021 para 45% agora. Enquanto isso, os opostos ao casamento de pessoas do mesmo sexo aumentaram de 33% para 39%. Os que não souberam responder permaneceram estáveis em 16%. A pesquisa envolveu três mil respondentes espalhados por 501 municípios em todos os estados do país, e tem margem de erro de dois pontos percentuais. O PoderData detectou, também, uma relação inversa de intensidade de apoio ao governo Bolsonaro e desaprovação ao casamento gay. 65% dos respondentes pensam que existe preconceito contra homossexuais no Brasil — até entre os apoiadores do presidente, somente 32% pensam que o preconceito não existe.

A tendência de perda da popularidade dos LGBT parece ser observável em outros países ocidentais. A ONG americana GLAAD fez uma pesquisa em 2019 investigando atitudes para com as minorias sexuais entre americanos. Entre os jovens dos 18 aos 34 anos, 63% declaravam-se confortáveis ao interagir com os LGBT em 2016. O número caiu para 45% em 2018.

Na Europa, observa-se uma divisão entre Oeste e Leste nesta questão. Enquanto maiorias na parte ocidental do continente aprovam o casamento gay, somente a República Tcheca, entre os países do Leste europeu, apresenta esse padrão. Em todos os outros na região, maiorias fazem oposição. É possível que isso reflita uma mudança recente por lá, pois a Polônia, por exemplo, foi um dos primeiros países do continente a descriminalizar a homossexualidade, em 1932. A Inglaterra e o País de Gales só fizeram isso em 1967. Hoje, a Polônia tem “zonas livres de ideologia LGBT”. Já a Hungria baniu por lei informações que “promovem a homossexualidade a mudança de gênero” nas escolas.

O instituto Gallup acompanha a questão nos Estados Unidos desde 1997. Até 2021, a opinião pública americana fez uma inversão total: de 68% contrários e 27% favoráveis em 1997 para 29% contrários e 70% favoráveis em 2021. Esta é considerada uma das mais rápidas mudanças de opinião e atitude de uma sociedade na história recente. No Brasil, em 2011 o Supremo Tribunal Federal mudou sua interpretação constitucional, estendendo a união civil a casais do mesmo sexo, o que foi convertido em casamento civil pelo CNJ logo depois.

Algumas razões da queda de popularidade

Fenômenos sociais como a opinião pública são multicausais. É difícil estabelecer que motivações estão por trás de cada mudança pois, como dita a sabedoria popular, cada cabeça é uma sentença, e isso é difícil de sistematizar em números. Os respondentes são sensíveis a vários fatores, inclusive à forma como as perguntas foram formuladas e aos termos — muitos, por exemplo, podem não estar cientes de que o casamento civil gay, sob os auspícios de um Estado laico, não significa obrigatoriedade de casamento religioso gay, pois neste caso impera a liberdade religiosa. Além disso, a queda de popularidade aparente dos LGBT pode ser apenas local, não representativa da tendência geral.

Uma das razões para a queda pode estar na forma como os LGBT conquistaram seus direitos. No Brasil, foi por ativismo judiciário, com a justificativa de muitos juristas de que havia uma “inação” do Congresso em legislar a questão. Na Suíça, o casamento gay foi aprovado por plebiscito em setembro de 2021. Na Argentina, o casamento gay é legal desde 2010 e passou pelas duas casas do parlamento, o que realça seu caráter como decisão democrática. Como conta o filósofo social Jonathan Haidt, as pessoas são sensíveis à “justiça de procedimento”: mesmo se discordarem, tendem a não protestar contra decisões sociais se perceberem que regras aplicadas igualmente a todos foram seguidas. Essa impressão é enfraquecida pelo ativismo judiciário, que parece mais uma intervenção monocrática que enseja um tratamento desigual.

Uma das explicações favoritas dos próprios ativistas é que a marcha à ré na percepção dos LGBT em alguns lugares advém da polarização política, em que as pessoas cada vez mais se identificam como pertencentes a um de dois grupos políticos antagônicos, tendo de seguir uma cartilha de seu próprio grupo em todo tipo de assunto. É uma hipótese viável, mas os ativistas vão tender a diminuir a sua própria responsabilidade.

A psicóloga canadense Nadia Bashir, da Universidade de Toronto, publicou com colaboradores em 2013 um artigo com título “O impacto irônico dos ativistas: estereótipos negativos reduzem a influência das mudanças sociais”. O artigo traz uma série de cinco estudos com amostras pequenas de menos de 250 pessoas, mas seu mérito está na retestagem: os estudos convergem para uma conclusão. Bashir discute que as pessoas são resistentes à mensagem dos ativistas porque associam os ativistas a figuras beligerantes e excêntricas.

Beligerância e Excentricidade

De fato, há uma narrativa de que a beligerância é o mais importante, se não o único curso de ação para minorias discriminadas entre ativistas progressistas. No movimento LGBT, há uma ênfase na importância da revolta de Stonewall, que ocorreu há mais de cinquenta anos e, portanto, bem antes da mudança da opinião pública observada desde 1997 nos Estados Unidos. Este fenômeno, de exagerar a importância da “luta” e diminuir a importância da persuasão, é observado também na interpretação acadêmica da abolição da escravidão. Como conta o psicólogo Steven Pinker no livro 'Os Melhores Anjos da Nossa Natureza', a persuasão, por exemplo via livros de ficção, foi muito importante para a abolição da escravidão — mas historiadores marxistas tentam reduzi-la a interesses econômicos do Império Britânico. Há, portanto, uma ênfase sem muito compromisso com evidências em grupos em conflito, que se torna pior quando há uma adoção da política identitária ou identitarismo, que enfatiza dicotomias como opressor vs. oprimido. Muitos dos ativistas tentam dar o crédito pelos avanços à sua beligerância.

Erica Chenoweth, professora de relações internacionais na Universidade de Denver, Colorado, é uma das maiores especialistas no assunto da eficácia do ativismo violento. Usando uma amostra de campanhas por mudanças sociais desde os anos 1940, ela mostra que as violentas em geral fracassam e as não-violentas em geral são bem-sucedidas, o que levanta dúvidas sobre a narrativa de muitos ativistas sobre a razão do sucesso de seu ativismo.

Para o advogado mineiro Hugo Freitas, que já trabalhou com matrimônio e divórcio de casais do mesmo sexo, a descriminalização da homossexualidade no Brasil em 1830 “foi decorrência do liberalismo clássico. A maior tolerância à homossexualidade na sociedade hoje foi decorrência de movimentações sociais não-coercitivas. Gays não devem nada ao punitivismo estatal”. O historiador britânico Rictor Norton concorda: estudando a homossexualidade no Reino Unido durante o século XVIII, Norton aponta que os gays, ao serem presos por crime de sodomia, a partir de certo ponto passaram a utilizar o argumento liberal de John Locke em defesa própria: “não há Crime em fazer o uso que eu quiser do meu próprio Corpo”, disse William Brown, preso por sodomia em 1726. Além disso, vem do liberalismo o princípio de igual tratamento perante a lei, que dá base ao argumento a favor do casamento civil gay.

Há uma verve punitivista e autoritária nas versões mais recentes do movimento LGBT, que se afastaram de discussões científicas sobre as origens da homossexualidade e abraçaram a “teoria queer”, derivada do pós-modernismo, um movimento intelectual progressista nascido na academia que prega o relativismo moral, o relativismo quanto ao conhecimento e a “desconstrução” de “metanarrativas” como a ciência e a religião, além de subjetivismo. Isso é refletido na alteração da sigla de LGBT para LGBTQ: lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e pessoas queer — um termo americano que era pejorativo, mas agora designa identidades vagas que praticamente inexistem entre pessoas que não são de esquerda. Apesar do relativismo, há uma incoerente insistência em políticas como a criminalização do “discurso de ódio”, que é considerado realmente errado, sem relativismo, em nome do qual é abandonado qualquer compromisso com a liberdade de expressão. As redes sociais, que fazem censura usando classificações de agências de checagem de fatos, também censuram pessoas quem usam termos considerados pejorativos contra LGBT, mesmo que sejam LGBT.

A preferência pelo pós-modernismo e pela excentricidade realça a divisão com a população e o senso comum, que se exacerba quando os ativistas insistem, por exemplo, que devemos duvidar dos nossos próprios olhos (e de estudos científicos inconvenientes) a respeito de atletas transexuais terem vantagens biológicas no esporte feminino. Também ignoram a alta taxa de desistência entre ditas “crianças transexuais”, insistindo em tratamentos arriscados como o bloqueio da puberdade. O governador do estado da Virgínia perdeu as últimas eleições por não ter dado ênfase suficiente, na opinião de muitos analistas, à oposição contra a política identitária de raça nas escolas. Empurrar mensagens de identitarismo na educação é uma receita para perda de popularidade.

A mensagem científica é importante: os psicólogos suecos Mikael Landén e Sune Innala, em artigo de 2014, com base em uma amostra de quase setecentos concidadãos, concluem que “aqueles que vêem a homossexualidade como enraizada na biologia tendem a favorecer a extensão de direitos a gays e lésbicas”. Os ativistas apostam no pós-modernismo e em hipóteses sociológicas radicais que glorificam a “luta” por sua própria conta e risco.

Devido a todos os fatores acima, os próprios LGBT estão começando a pagar o preço pela mensagem anticientífica, beligerante e propositalmente excêntrica de muitos ativistas que falam em seu nome, mas não receberam voto para isso. Colocar a culpa em uma direita preconceituosa não é uma hipótese que dará conta do fenômeno da aparente perda de popularidade dessas minorias completamente.

Gazeta do Povo (PR)

Chamar Jair Bolsonaro de conservador é um equívoco




A pergunta básica do conservadorismo é "como a sociedade é?", não "como ela deve ser?"

Por Lygia Maria (foto)

Para os opositores de Bolsonaro, o termo "conservador" é sinônimo de "racista", "homofóbico", "machista" e "fascista". Para os apoiadores, significa a adoração de um passado considerado idílico e de uma sociedade imutável.

Um aspecto básico do conservadorismo é a tradição: o mundo não surgiu quando nascemos. Há um arcabouço de conhecimentos e práticas que levaram a humanidade das cavernas à Lua. Nesse longo trajeto, adaptamos natureza e cultura, cometendo erros e acertos. Valorizar a tradição tem a ver sobre como nos livramos dos erros e pode ser sintetizada na ideia de que não é bom jogar o bebê fora junto com a água do banho.

Esse aspecto diferencia a postura conservadora da revolucionária e da reacionária. A Revolução Francesa derrubou o Antigo Regime em busca de um projeto republicano, mas o fez de forma tão radical que criou um sistema autoritário e assassino. Mao Tsé-Tung, na China, também matou, queimou livros, destruiu templos e culturas milenares. Já no lado reacionário, Hitler também fez o mesmo em nome de um passado idílico.

Nenhum conservador aceitaria mudanças tão bruscas e violentas. É preciso avaliar aquilo que foi construído no passado e que ainda funciona em termos práticos: instituições, crenças, artes, valores morais etc. O que não significa imutabilidade, e sim mudança na continuidade, como disse Edmund Burke (1729-1797): "Um Estado sem meios de mudança não dispõe de meios para conservar-se".

A pergunta fundamental do conservadorismo é "como a sociedade é?", não "como a sociedade deve ser?". E aqui entramos no ceticismo. A ideia é que somos seres imperfeitos e que nosso intelecto não é capaz de resolver problemas tão complexos e multifatoriais como os políticos e sociais: nossa razão se limita a soluções pontuais, não totalizantes.

É possível criar sociedades perfeitas no mundo das ideias, mas tentar colocar em prática esse modelo ideal tende à violência e ao autoritarismo. Não importa se o modelo é baseado no futuro (visão revolucionária) ou no passado (reacionária), o problema está em confiar demais no intelecto, desconsiderando práticas já testadas.

Ser conservador é traço característico da nossa humanidade. Todos temos receio de grandes mudanças, mudar de cidade, de carreira, se divorciar. Todos guardamos um brinquedo da infância e mantemos aspectos infantis que nos ajudam na vida adulta, como a curiosidade e a imaginação. O problema seria acumular todos os nossos brinquedos e só querer brincar de passado no presente; ou, por outra, queimá-los e fingir que a criança que você foi não faz parte do adulto que você é.

Folha de São Paulo

Asteroides, Lua e Marte: as missões espaciais para ficar de olho em 2022




'O foguete SLS, que será usado nas missões Artemis, será lançado pela primeira vez neste ano'

O telescópio James Webb concluiu com sucesso sua sequência épica de implantação no espaço — e está pronto para observar o cosmos 

Por Monica Grady* - The Conversation

Os astrônomos encerraram 2021 em grande estilo com o lançamento em 25 de dezembro do Telescópio Espacial James Webb, uma missão conjunta entre as agências espaciais europeia (ESA), americana (Nasa) e canadense (CSA).

Foi um alívio saber que os procedimentos de precisão que abriram seu complexo escudo de proteção solar, que é do tamanho de uma quadra de tênis, funcionaram perfeitamente.

O telescópio está agora a caminho de seu destino, a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, onde iniciará uma série de testes assim que chegar, no fim de janeiro.

Se a missão correr como planejado, podemos esperar começar a receber imagens do telescópio em meados de 2022.

Mas o que mais a ciência espacial reserva para este ano? A seguir, algumas algumas missões para ficarmos de olho.

Missões para a Lua

O programa Artemis, da Nasa, para enviar astronautas humanos à superfície da Lua em 2024 deve começar em 2022.

Os últimos astronautas a pisar na Lua, em 1972, chegaram lá em um foguete Saturno V.

Agora, a Nasa criou uma nova geração de foguetes, o Sistema de Lançamento Espacial (SLS, na sigla em inglês), que será testado pela primeira vez em março, com o lançamento da missão Artemis 1.

Será um voo de teste não tripulado de três semanas da espaçonave Orion, que incluirá um sobrevoo 100 km acima da superfície da Lua.

Futuramente, o SLS transportará astronautas para o Lunar Gateway, a estação espacial internacional de última geração que ficará posicionada na órbita ao redor da Lua e atuará como uma estação intermediária para missões à sua superfície.

A Lua também será alvo de outras agências espaciais em 2022.

A Coreia do Sul espera lançar sua primeira missão lunar, a Korea Pathfinder Lunar Orbiter, a partir de Cabo Canaveral, na Flórida, em agosto.

A Roscosmos, agência espacial russa, planeja lançar a missão Luna 25 ao polo sul da Lua em julho — mais de 45 anos depois que a Luna 24 retornou com quase 200g de solo lunar em agosto de 1976.

Asteroide Psyche

Meados de 2022 será uma época movimentada para a exploração espacial, já que a Nasa também lançará sua missão Psyche.

Psyche, que está orbitando o Sol entre Marte e Júpiter, é um asteroide do tipo M, feito de metal, por isso é semelhante ao núcleo da Terra.

Nunca estivemos perto de um asteroide do tipo M antes, tampouco fomos capazes de estudar o núcleo da Terra porque é muito profundo — então, quando esta missão voltar em 2026, deve nos fornecer uma nova compreensão do asteroide e dos processos planetários.

Missão Dart

Pouco tempo depois do início da jornada de Psyche, a missão Dart, lançada em novembro de 2021, deve chegar ao seu destino no fim de setembro.

A Dart — sigla em inglês para Teste de Redirecionamento de Asteroide Duplo — está indo em direção ao asteroide Didymos, e o satélite natural menor que orbita ao redor dele, Dimorphos.

O objetivo é testar qual tecnologia seria necessária para salvar a Terra de um eventual asteroide no futuro.

A Dart vai colidir propositalmente com o menor dos dois corpos celestes, Dimorphos, para mover sua órbita um pouco mais perto de Didymos, o maior.

Isso pode fornecer informações valiosas sobre como desviar qualquer asteroide em rota de colisão com a Terra no futuro.

ExoMars

O ano de 2021 foi movimentado para as missões a Marte, com o lançamento do robô Perseverance, da Nasa, e do robô chinês Zhurong, que continuam a enviar imagens incríveis e dados da superfície do planeta vermelho.

Em setembro de 2022, a Agência Espacial Europeia deve lançar a próxima parte de sua missão ExoMars, em colaboração com a Roscosmos.

A primeira parte da missão, ExoMars 2016, enviou um Trace Gas Orbiter (TGO) para orbitar ao redor de Marte no fim de 2016.

A ExoMars 2022 pretende enviar um robô, o Rosalind Franklin, à superfície marciana para procurar sinais de vida passada.

Se o lançamento correr como planejado, teremos que esperar até 2023 para que a ExoMars chegue a Marte, e o robô comece a explorar sua superfície.

Em suma, 2022 parece ser um momento um tanto emocionante e frutífero para a exploração espacial.

*Monica Grady é professora de Ciências Planetárias e Espaciais na The Open University.

BBC Brasil

Batemos recorde global de casos de covid na última semana’, diz diretor da OMS




O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou nesta quarta-feira o fato de que o mundo superou na semana passada a marca de 15 milhões de casos da covid-19. Isso é "de longe o maior número de casos em uma única semana - e sabemos que isso é subestimado". Durante entrevista coletiva virtual, ele disse que o movimento é puxado pela variante Ômicron, que substitui a Delta "rapidamente na maioria dos países".

Além disso, a autoridade notou que as hospitalizações pelo mundo avançam na onda atual, mas em ritmo menor em comparação com ondas anteriores da doença. Apesar das pesquisas que indicam até agora menor mortalidade com a cepa Ômicron, Adhanom ressaltou que o vírus "continua a ser perigoso, sobretudo para os não vacinados". Segundo ele, o número de mortos pela covid-19 tem ficado relativamente estável desde outubro do ano passado, em 48 mil pessoas por semana.

A menor mortalidade, segundo Adhanom, é possivelmente fruto de questões como a "menor severidade" da variante Ômicron e também a uma imunidade mais disseminada, por vacinas ou infecções anteriores. "Mas vamos deixar claro: embora a Ômicron cause doença menos severa que a Delta, ela continua a ser um vírus perigoso, particularmente para aqueles que não foram vacinados", afirmou.

Estadão / Dinheiro Rural

Alemanha tem mais de 1 milhão de mortes em um ano




É a primeira vez que isso ocorre desde 1946. Os principais motivos são o aumento da população e a grande proporção de idosos. No entanto, pandemia de covid-19 também tem papel importante no alto número de óbitos.

Pela primeira vez desde a criação da República Federal da Alemanha, em 1948, houve mais de um milhão de mortes em um ano no país em 2021.

De acordo com uma projeção do Departamento Federal de Estatística da Alemanha (Destatis) apresentada nesta terça-feira (11/01), quase 1,017 milhão de pessoas morreram no ano passado no país.

Antes disso, só houve um ano do pós-guerra em que foram registradas mais de um milhão de mortes: 1946, quando o território alemão ainda era ocupado pelos aliados. Naquele ano, 1.001.600 óbitos foram registrados.

À época, as difíceis condições de vida, com o território alemão em ruínas e abarrotado de desabrigados e refugiados, explicavam o alto número de mortes no passado. Mas, agora, segundo Destatis, hoje, as principais causas são explciadas pela maior população e a maior proporção de idosos. No entanto, a pandemia de covid-19 também teve um papel significativo no aumento das mortes em 2021.

Mais mortes desde o começo da pandemia

Especificamente, 1.016.899 pessoas morreram no ano passado na Alemanha. Em comparação com 2020, primeiro ano da pandemia de coronavírus, o número de mortes aumentou 3% (31.327 óbitos). O envelhecimento da população explica apenas parcialmente essa alta, porque o aumento geral da expectativa de vida enfraquece o efeito do envelhecimento.

Antes da pandemia, o número de mortes vinha aumentando nos últimos 20 anos, em média, de 1% a 2% ao ano. Isso mudou com a crise sanitária provocada pelo coronavírus: em 2020, o número de mortes aumentou 5% em relação a 2019, último ano antes da pandemia. Em 2021, foram 8% mais mortes do que em comparação com 2019.

"Com base em 2019, uma taxa de mortalidade de 960.000 a 980.000 seria esperada em 2021, um aumento de 2% a 4%. No entanto, aumentou 8% de 2019 a 2021", afirmou o Destatis.

Tim Friede, chefe do Instituto de Estatística Médica do Centro Médico Universitário de Göttingen, reconhece claramente pelos gráficos que as flutuações no número de mortes ocorrem paralelas às ondas da pandemia de covid-19. "Você também pode ver um aumento ao longo dos anos de pandemia - e isso é mais do que pode ser explicado pelo envelhecimento da população", destaca Friede.

'Uma das explicações para alto número de mortes é o envelhecimento da população'

Só dois meses não tiveram aumento de mortes

Uma análise mês a mês de 2021 revela dados interessantes. Ao longo do ano passado, o número de óbitos ficou abaixo do valor médio dos quatro anos anteriores apenas em fevereiro e março.

Em janeiro de 2021 – durante a segunda onda do coronavírus – o número de mortes teve um aumento de 25% em comparação com os anos anteriores. Neste mesmo mês, as mortes adicionais coincidiram quase completamente com os óbitos por covid-19 relatados pelo Instituto Robert Koch (RKI), agência governamental para o controle e prevenção de doenças.

Em fevereiro e março, o número de óbitos foi 2% e 6% menor, respectivamente, em um comparativo com os anos anteriores. Uma possível explicação é que quase não houve outras doenças respiratórias além da covid-19. A onda de gripe, que geralmente se reflete claramente na taxa de mortalidade, praticamente não ocorreu em 2021 -  os cuidados para não contrair a covid-19 se refletiram no menor número de caso de gripe.

Durante a terceira onda de coronavírus, em abril, o aumento no número de óbitos foi de 4% e, em maio, de 7%. Em junho, a elevação de 8% nas mortes coincidiu com uma onda de calor.

Em julho, o número de óbitos, com um acréscimo de 2%, ficou ligeiramente acima do valor médio dos anos anteriores – o mesmo ocorreu em agosto.

Com o início do outono e a chegada do frio, porém, as mortes subiram novamente e ficaram 10% acima dos anos anteriores em setembro, e 11% em outubro.

Os óbitos em novembro e dezembro ultrapassaram ainda mais o valor de referência durante a quarta onda de covid-19: 21% mais pessoas morreram em novembro e 22% mais em dezembro do que a média dos quatro anos anteriores.

Mortes indiretamente relacionadas ao coronavírus

De acordo com o Destatis, as mortes relatadas por covid-19 explicam apenas parcialmente o aumento do número de óbitos. Isso porque o número de mortes é maior do que a quantidade de óbitos por covid-19 reportadas ao RKI.

Dmitri Jdanov, chefe do Laboratório de Pesquisa de Dados Demográficos do Instituto Max Planck, em Rostock, vê duas possíveis razões para isso. Uma delas é que mais pessoas podem ter morrido de covid-19 do que revelam as estatísticas – porque, por exemplo, a insuficiência cardiovascular foi dada como a causa da morte. 

O segundo motivo seriam consequência indiretas do coronavírus – por exemplo, em casos de adiamento de cirurgias e exames preventivos. No entanto, as contribuições dos efeitos individuais não podem ser quantificadas atualmente.

A superlotação dos hospitais devido à covid-19 fez com que cirurgias e tratamentos fossem adiados. Além disso, muitas pessoas evitavam ir ao médico por medo de contrair uma infecção pelo coronavírus. Isso pode ter refletido no alto número de mortes.

Deutsche Welle

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