quinta-feira, janeiro 13, 2022

No escuro - Editorial




Em meio a nova onda de infecções por Covid, Brasil continua sem dados para formular estratégias

O Brasil jamais teve plano nacional amplo e organizado de testes de Covid. As estatísticas da doença já foram prejudicadas por problemas no sistema federal de registros, isso quando o próprio governo não tentou censurá-las. Desde o dia 10 de dezembro, porém, o descalabro é completo.

Faz mais de um mês, os registros informáticos do Ministério da Saúde foram, segundo o governo, atacados por hackers. O descaso e a inépcia fizeram com que partes do sistema ficassem fora do ar até sexta-feira passada, pelo menos.

Em 2020, a negligência com os dados da pandemia já havia levado órgãos de imprensa a apurar por conta própria as estatísticas. Agora, em meio a nova onda de casos, acompanhada de epidemia de gripe, o país não tem um quadro completo de toda a situação.

Cientistas e técnicos não podem elaborar análises, estimativas e estratégias de contenção de danos. Não houve tentativa oficial de criar sistemas alternativos de informação; não há explicações sobre o que se passou e como evitar novas panes. Sabe-se apenas que, também em caso de guerra cibernética, o Brasil é presa fácil.

A desinformação favorece a estratégia federal de negligência criminosa e a propaganda oficial de mentiras. Cidadãos não têm noção dos riscos que correm nem recebem alertas objetivos de cautela. É mais uma realização típica do governo: largar o país à própria sorte.

A esse respeito, vale ressaltar que Jair Bolsonaro e seu capacho no Ministério da Saúde tentaram atrasar o quanto puderam a vacinação de crianças de 5 a 11 anos. A altamente transmissível ômicron infecta os menores como nunca, a julgar pelas informações de países mais desenvolvidos que o Brasil.

Números locais indicam altas de internações em UTIs, sinal de que a variante, embora menos letal, se espalha rapidamente, chegando assim aos mais frágeis, como idosos e aqueles que não se vacinaram.

Qual o ritmo da nova onda? Quais grupos de pessoas atinge com mais facilidade e gravidade? O que fazer a fim de preparar hospitais? Mesmo que as informações voltem a ser registradas, tão cedo não haverá séries de dados longas o bastante para reflexão mais precisa.

No escuro, o país não sabe qual pode ser o efeito desta nova onda sobre o funcionamento de serviços e da economia. São frequentes as notícias de cancelamentos de voos por falta de tripulantes, abatidos pelo coronavírus, por exemplo. Como a variante afetará hospitais ou serviços e negócios essenciais, como a produção de alimentos, água e energia?

Para os cidadãos desamparados, a ignorância é uma maldição. Para os propósitos do governo, uma grande conveniência.

Folha de São Paulo

A ideologia de gênero como um gênero de birra




Em Portugal, quer o Ministério da Educação que as crianças, desde o pré-escolar, duvidem da biologia, desconstruam “estereótipos de gênero” e descubram a sua “identidade de gênero”. Está tudo online. 

Por José Maria Cortes

A ideologia de género tem a seu favor o facto de ser absurda. Uma ideia ser absurda parece tão, tão absurdo, que facilmente acreditamos que quem está errado somos nós, não a ideia. O absurdo beneficia, por isso, de uma benesse negada ao óbvio, e que nos assombra desde que um conjunto de equações num quadro explicou os eclipses e pôs o homem na lua: a admiração pelo incompreensível, esse incenso que ofertamos a quem nos diz ver melhor que os nossos olhos.

Tramou-nos isso e outra coisa. A ideia de que as ideias são inofensivas, a qual, para além de ser uma ideia, portanto perigosa por natureza, é perigosa por experiência. Espreguiça-nos a vontade e relaxa-nos o intelecto, refastelados na certeza de que pensar é só pensar e ninguém se magoa. É uma espécie de dualismo gnóstico, uma dessas tentações que, derrotadas numa geração, logo aparecem na seguinte com um nome diferente. Uma certa visão da relação entre a matéria e o espírito, o corpo e a mente, segundo a qual estes são não só distintos, mas separáveis, ao ponto de uma pessoa, uma comunidade inteira, poder acreditar numa coisa e viver como se não acreditasse. Esta ideia explicará que uma sociedade como a nossa, assente em milénios de religião cristã e de (alguma) filosofia sã, não tenha antecipado a derrocada do consenso que murava a natureza do homem e da mulher.

Não é que não se soubesse já. Quem estava atento sabia que uma coisa chamada “Teoria de Género” possuía a Academia, como um espírito mau, levando-a a desconfiar da biologia e, nesta, dos seus próprios olhos. Sabia-se também que a desconfiança lançava raízes profundas, puxando de uma filosofia descrente da possibilidade de conhecer a realidade, da possibilidade de usar os olhos como olhos e não como lentes. Mas havendo quem soubesse, poucos temiam. Anestesiou-nos a ideia de que, apesar de tudo, eram só ideias. E quando estas nos bateram à porta das casas e das escolas, lembrámo-nos daquela verdade velhinha. A de que uma ideia, como o azeite em água, não deixa de vir à tona.

Voltando à ideologia. Que bicho é? Não é a defesa da igual dignidade entre o homem e a mulher, nem uma forma de combate à discriminação. Longe disso. Não é também, ainda que pareça, o viveiro dos pesadelos de um certo reacionarismo que despeja no termo as alergias que tem à modernidade, do inverno demográfico ao facto das mulheres usarem calças. Não é isso: é uma coisa, com um conteúdo. Poderia dizer-se que é a proposta da existência do “género”, o objecto de uma identificação mental com os conceitos “homem”, “mulher” ou algo pelo meio, sem vínculo ao sexo. As possibilidades de identificação seriam infinitas. Fala-se em “espectro”, que se jura não ser fantasma.

Mas não pode ser só isso. Se fosse, a ideia ficaria pelo óbvio (e o óbvio, como já vimos, não convence). Realmente, desde que há registo, sempre houve quem se identificasse com outra coisa. A medicina chamou-lhe “transexualismo”, depois “disforia de género”. Que essa identificação possa existir não é então o que distingue. O que será único é a ideia de que a identificação é o identificado. Ou seja, a ideia de que um homem que se identifica como mulher não é um homem que se identifica como mulher, é uma mulher. No mais da vida, diz-nos a sanidade que não basta achar que se é para se ser. Para o “género”, abre-se uma excepção. É passar a identificação de lateral para central, de acidente para substância, de distúrbio a tratar para identidade a celebrar, que está no coração desta ideia.

Daqui brotam mil contradições para os activistas. Ficam algumas. Por um lado, o género é apenas uma construção, social ou mental, e, por outro, uma pessoa pode estar “presa” no género errado. Dizem que não há diferenças significativas entre o homem e a mulher, mas usam estereótipos sexuais rígidos para basear a “identidade de género”. Dizem que a verdade é o que o sujeito diz que é e, ao mesmo tempo, acreditam que existe um “eu” de verdadeiro género por descobrir, que o sujeito recebe, sem criar. Se o género é uma construção, como pode a identidade de género ser inata e imutável? E se a identidade de género é inata e imutável, como pode ser “fluída”?

Os intérpretes de boa vontade tentam encontrar coerência na coisa, a chave que harmonize. Há quem diga que, bem lá em baixo, a Teoria de Género é uma rejeição da metafísica, e há quem diga que é antes uma nova metafísica. Há quem lá veja um subjectivismo radical e há quem lhe aponte um novo objectivismo, que eleva os estados mentais ao estatuto das pedras e árvores e demais coisas que nos entram pelos olhos adentro. Acontece que a tentativa de encontrar o postulado sobre o qual assenta a ideologia e que a torna clara, coerente ao menos, ignora que a clareza, a coerência, não são o ponto.

Como em tudo, conhecer os pais ajuda. A filiação imediata – e acertada – da ideologia é com o pós-modernismo, em particular com Michel Foucault e a canónica Histoire de la Sexualité e, mais recentemente, com Judith Butler e sua Theory of Gender Performativity. Deste lado vem a tese de que tudo, incluindo isto a que chamamos “homem” e “mulher”, é determinado pela linguagem e pelo poder.

Há outro ancestral, menos evidente mas talvez mais determinante. Filha fiel da Teoria Crítica (Horkheimer, Adorno, Marcuse e outros), a Teoria de Género bebe-lhe a ideia de que não é procurando conhecer a realidade, ou soluções para os seus males, que se deve pensar. Se o objectivo fosse conhecer ou melhorar, haveria coerência, não contradição no mínimo. Mas o programa é outro. A premissa é a de que toda a realidade é negativa, carregando mancha indelével da opressão. O ponto de partida não é, por isso, o espanto dos antigos, a revelação dos escolásticos, nem sequer (é um erro comum) o desejo utópico dos modernos. Não é o fascínio por esta realidade, já nem a espera utópica por uma outra: o que os anima mesmo é a total rejeição de tudo (ou, como lhe chamou Marcuse, The Great Refusal ou the protest against that which is). O “pecado original” da realidade é de tal ordem que tudo o que esta inclui, a cultura, a língua, a lógica, a natureza humana, tudo deve ser desmontado. A esperança é a de que, das cinzas da devastação, nasça algo melhor. Mas o objectivo imediato é a desconstrução, não a solução. O programa, na verdade, é não ter programa. É assim como quando os meninos pequeninos, embirrentos, tiram os brinquedos dos outros meninos só para estes não brincarem. É tirar por tirar, destruir por destruir. É a Grande Birra com a realidade.

Nisto, a Teoria de Género obedece à Teoria Crítica. Mas como sua variação específica, que acrescenta? Se a tese é a substancialidade do género, o alvo seria o sexo. Mas não é. O verdadeiro alvo não é (só) a afirmação de que se nasce homem ou mulher. Essa distinção, ainda que negada, é pressuposta. Nenhum homem quereria ser mulher se não reconhecesse que nasceu homem. Tão pouco, para o conseguir, faria tanto para parecer mulher se não tivesse uma imagem clara do que é ser mulher.

O nó dá-se antes no embate entre o que uma pessoa quer ser, e o que todas as outras conseguem ver. O ponto não é a negação da distinção entre homem e mulher, mas sim o desejo de vergar a percepção humana. De levar cada pessoa a dizer que vê o que não vê, que acha ser o que sabe não ser. É que se basta dizer-se mulher para o ser, a percepção imediata passa a obedecer a um fiat de fora. Invertida por sufoco social, já não vai do objecto para chegar ao nome, mas vai do nome para ofuscar o objecto. E para quê? Para que todos, uma cedência de cada vez, nos habituemos a negar o que vemos.

Porque o objectivo é esse e não o de oferecer uma metafísica alternativa, os activistas maquilham a sua antropologia com uma boa dose de “medicinez”. Parecem saber que, se a discussão fosse travada onde deve – no plano filosófico -, as contradições logo apareceriam. Para tal cooptaram, com uma eficácia arrepiante, grande parte das instituições “respeitáveis”, que agora enterram as suas preferências ideológicas sob frases e frases de lero-lero pseudo-científico. Um exemplo recente veio da Associação Americana de Psicólogos, que decretou que a “masculidade tradicional é danosa”. Segundo consta, a sentença foi encontrada do outro lado de um microscópio.

E o mal de tudo isto? Crianças angustiadas. Taxas de suicídio alarmantes entre as pessoas que se identificam como “transgénero” – as verdadeiras vítimas. Os dados médicos sugerem que a dita “mudança de sexo”, química ou cirúrgica, não ajuda. Mesmo quando as operações são cosmeticamente “bem-sucedidas”, e mesmo em culturas favoráveis à sua opção, os problemas destas crianças mantêm- se. O estudo mais rigoroso que temos do fenómeno, realizado na Suécia durante trinta anos, documenta que a aflição mental das vítimas dura toda a vida. Dez a quinze anos depois da cirurgia, a sua taxa de suicídio é vinte vezes superior à dos seus pares.

E se as crianças “transgénero” são quem mais sofre, as outras também pagam. Em Portugal, quer o Ministério da Educação que as crianças, desde o pré-escolar, duvidem da biologia, desconstruam “estereótipos de género” e descubram a sua “identidade de género”. Está tudo online. Veja-se: isto significa que hoje, em Portugal, desde os três anos, os meninos são levados a duvidar de que são meninos e as meninas a duvidar de que são meninas. Estes são os frutos da ideologia. Que as birras das crianças chateiem os adultos, é normal. Que as birras dos adultos magoem as crianças, é muito, muito mau sinal.

Observador (PT)

Ainda dá para resistir à ômicron




Campanha nacional de vacinação de emergência ainda maior pode conter danos e riscos sérios

Por Vinicius Torres Freire

O que ainda se pode fazer para conter os efeitos da ômicron? Nada de novo: se pode fazer mais e mais rápido. É preciso vacinar muito e logo. Sim, vacinas demoram a fazer efeito e a variante hipercontagiosa está à solta. Mas quanto tempo ainda vai durar esta onda? Cientistas dizem a este jornalista que dois meses, por baixo, talvez seja um chute razoável. Um chute, pois não sabemos nem em qual ritmo o vírus novo se espalha pelo país. Graças à incompetência e à negligência convenientes do governo federal, não temos dados e tão cedo não os teremos.

Por falar nisso, não sabemos também nem a quantas anda a vacinação. Uns 30 milhões de pessoas de 12 anos ou mais ainda não tomaram as duas doses; muito mais está sem o reforço. Aparentemente, a ômicron causa menos danos em vacinados, embora leiamos notícias de idosos ou de pessoas com doenças preexistentes indo para UTIs ou morrendo mesmo com três doses. Uma campanha nacional de vacinação de emergência (ainda maior) poderia salvar vidas, evitar sequelas em infectados, diminuir sofrimentos.

Uma campanha forte, de comoção nacional, poderia salvar os mais velhos, as vítimas principais do massacre, os invacinados e as crianças, agora também infectadas em grande número, como vemos pelas estatísticas americanas.

Cadê a campanha? Jair Bolsonaro continua a fazer a sua: contra vacinas. O lance mais recente foi seu vomitório injurioso contra a Anvisa e sua tentativa de desacreditar a imunização de crianças.

De que adianta, porém, tratar do desgoverno? Quem ainda aguenta a obviedade de declarar a incompetência criminosa e a sabotagem sistemática? No entanto, até por necessidade de sobrevivência e de evitar que o monstro se anime a cometer mais atrocidades, é preciso resistir.

Além de colocar vidas e saúdes em risco diretamente, a ômicron é um risco para a segurança econômica e social. Não sabemos quantas pessoas a variante vai abater e em quanto tempo, ainda menos no Brasil, até porque também não há dados, ressalte-se. Quantas ficarão ao menos por alguns dias incapacitadas para o trabalho ou isoladas?

Ouvimos falar de voos cancelados, de tripulações doentes. Mas por que o vírus atacaria apenas trabalhadores das companhias aéreas? Como estão motoristas de transporte público? Como estão passando trabalhadores da produção, do transporte e da entrega de comida, aliás grandes vítimas das primeiras ondas? Como vão aqueles que cuidam para que tenhamos eletricidade, combustíveis, água, limpeza urbana ou polícia? Ou aqueles que cuidam de nós nos postinhos, nas clínicas, nos hospitais?

Alguém pode dizer que se trata de alarmismo acreditar que trabalhadores possam ficar doentes em números bastantes para prejudicar serviços essenciais. Talvez seja. Este jornalista acredita que é melhor não esperar para ver, se por mais não fosse porque essas pessoas estiveram na lida e na luta durante os piores momentos da epidemia, garantindo a nossa sobrevivência e padecendo por isso. No mínimo, não é justo larga-los outra vez.

Ainda importante, não sabemos quantas pessoas acabarão nos hospitais por causa dessa variante "branda". Quem trabalha na saúde já está esgotada, abatida, talvez doente de Covid ou de algo mais. Muita gente ficou sem tratamento adequado de outros males por causa da lotação hospitalar pelo coronavírus; há os sequelados da epidemia, para o que se dá pouca atenção. São também lugares comuns, está todo mundo cansado de ouvir, mas é cada vez mais verdade. Outra onda grande de internações vai causar ainda mais danos colaterais.

Sempre há tempo de salvar vidas, mesmo nestes tempos de morte de Jair Bolsonaro.

Folha de São Paulo

Revivendo a síndrome de touro




Por Gaudêncio Torquato (foto)

Abrimos 2022 com a sinalização de que viveremos um ciclo de tensão, envolto no cobertor eleitoral. A par das costumeiras escaramuças que o país costuma abrigar sob a teia de uma guerra pelo poder entre protagonistas que lutam para aumentar sua fatia de bolo, desta feita estaremos diante de uma encruzilhada: à direita, descortina-se uma trilha de curvas e buracos, que dificultam a caminhada dos peregrinos pela régua civilizatória; à esquerda, uma vereda também sinuosa, que impede descortinar horizontes claros.

O fato é que, mais uma vez, padeceremos da síndrome do touro, caracterizada pela sentença: pensar com o coração e arremeter com a cabeça. Não é novidade. Os ciclos eleitorais são propícios a expandir os níveis de emoção e a enfraquecer as taxas de racionalidade. País tropical, o Brasil lapida a feição de território emotivo, diferente do modus vivendi de nações que forjaram a identidade no cimento da racionalidade, como os países nórdicos, por exemplo.

Olhemos para o pano de fundo, onde está a lenha que alimentará fogueiras de múltiplos tamanhos: a avaliação de três anos do governo Bolsonaro; a crise sanitária, com a troca de chumbo grosso entre guerreiros da situação e da oposição; a discussão sobre as vacinas, um tema de intensa polêmica; a avaliação dos governos estaduais; as operações espetaculosas da Polícia Federal, como esta recente que teve como alvo o ex-governador de São Paulo, Márcio França, que volta a disputar o governo em outubro próximo pelo PSB; a crise hídrica, com falta de chuva em algumas regiões, rebaixamento do nível dos reservatórios e excesso de água em outras: as inundações na Bahia, Minas Gerais e outros Estados garantindo imagens fortes no espaço eleitoral.

Os dois principais fogueteiros serão Jair e Luis Inácio. O presidente, como mostra todos os dias, tende a reforçar a condição de vítima, valendo-se do escudo emotivo originado pela facada de um maníaco, Adélio Bispo, cuja recorrência ilustra a expressão do bolsonarismo desde 2018. A recente obstrução intestinal, que interrompeu o périplo do presidente em SC, foi mais um episódio perpetrado pelo Senhor Imponderável, que costuma nos visitar.

Lula, de seu lado, mostra-se como o benfeitor dos pobres, famintos e distantes do pão sobre a mesa. E mais: sem o rancor verborrágico de outrora; ao contrário, veste o manto da união, sob a bandeira de um pacto super-partidário, com que espera ter apoio de entes à esquerda e ao centro-direita. Sua aliança com Geraldo Alckmin, ex-tucano, possível candidato a vice em sua chapa, está sendo chamada de “estratégia das tesouras, cujas bandas abertas parecem mostrar diferenças. Ambas, porém, cortam apenas para o lado desejado por quem as manuseia. As redes sociais batem bumbo: gato e rato se unem. Até composições musicais viralizam exibindo as “peculiaridades” destes animais.

O lavajatismo será acusado de exorbitâncias. O troco virá na esteira de lembranças sobre o mensalão e o petrolão, a serem tirados do baú e exibidos como trunfo para mostrar a corrupção na era lulista. A questão será: o discurso “pegará”? As massas se incomodarão com o passado ou preferirão ouvir mensagens diferentes que denunciavam os subterrâneos da corrupção? Eis algumas situações que tendem a balizar atitudes e o sistema cognitivo dos eleitores: o estado da economia, falta de dinheiro no bolso, greves controladas ou um cordão de movimentos reivindicatórios, enfim, o Produto Nacional Bruto da Felicidade Social, o PNBF. Entre 0 e 10, que nota ganhará em setembro/outubro?

A insatisfação/satisfação se fará presente nas urnas. As emoções ganharão teor expressivo junto às correntes das margens, mas encontrarão resistência por parte de contingentes do meio da pirâmide. Assistiremos a uma campanha eleitoral paralela, com registros bombásticos nas redes sociais. Será uma guerra de verbos e adjetivos, desfechados principalmente por partidários de Bolsonaro e de Lula.

Chegaremos esgotados em outubro. Afinal, o país continuará patinando no mesmo lugar ou dará um salto seguro para enfrentar o amanhã? O sentimento deste escriba é de que a crise ensejará oportunidades para o Brasil. Mesmo revivendo a síndrome do touro.

Jornal Metrópoles

Desastres em dois dígitos - Editorial




Com inflação e desemprego acima de 10%, o Brasil de Bolsonaro mantém desempenho muito pior que o da maior parte do mundo

Inflação e desemprego acima de 10% são piores do que na maior parte do mundo.

Dois desastres econômicos e sociais de dois dígitos, inflação e desemprego, enriqueceram o currículo tenebroso do presidente Jair Bolsonaro em 2021. Empobrecimento foi a contrapartida para a maioria das famílias, com miséria e fome para as mais desafortunadas. A alta de preços até dezembro, de 10,06%, foi a maior desde 2015, quando um aumento de 10,67% premiou os desmandos da presidente Dilma Rousseff. Mas nem com a recessão de 2015-2016 a petista conseguiu elevar a desocupação a 14%, taxa superada em vários trimestres pelo presidente negacionista e inimigo da vacinação. O último levantamento mostrou 12,9 milhões de desempregados, 12,1% da força de trabalho. Não há sinais de melhora significativa até o fim do ano recém-terminado nem expectativa de grande redução do desemprego em 2022.

Já acuados pelas dificuldades de emprego, os brasileiros ainda viram seus ganhos devastados pelo forte encarecimento de bens e serviços. Transportes, habitação e alimentação foram os itens com maiores aumentos e maiores impactos no resultado geral da inflação. Comer ficou 7,94% mais caro, mas essa variação, inferior à de outros itens, ocorreu sobre uma base muito elevada. No ano anterior os preços de alimentos e bebidas haviam subido 14,09%. A alta acumulada em dois anos chegou, portanto, à assustadora taxa composta de 23,15%, num quadro de míseras oportunidades de trabalho e de remuneração. Mas a inflação, dizem figuras do Executivo, é um desajuste espalhado globalmente a partir de 2020, como efeito da pandemia. A rápida retomada inicial da economia chinesa pressionou preços de produtos agrícolas e minerais. Em seguida, surgiram desarranjos nas cadeias de suprimento de insumos, como semicondutores. A indústria automobilística mostra com muita clareza os danos causados por esses problemas. Custos de produção subiram em vários setores e afetaram os preços finais cobrados no comércio.

Problemas ocorreram globalmente, de fato, mas na maior parte do mundo a evolução dos preços tem sido muito mais discreta do que tem sido no Brasil. Nos 38 países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a inflação acumulada em 12 meses chegou em novembro a 5,8%, a maior taxa desde maio de 1996. No Grupo dos 20 (G-20), a alta de preços acumulada nesse período atingiu 5,9%. Mas essa média foi claramente influenciada pelos aumentos ocorridos em três países: 51,2% na Argentina, 10,7% no Brasil e 8,4% na Rússia. No mundo rico, a economia com pior desempenho nos preços, nos 12 meses até novembro, foi a dos Estados

Unidos, com variação de 6,4%. Na União Europeia a média ficou em 2,9%, com a maior taxa, de 4,6%, registrada na Alemanha.

Menos afetados pela alta de preços ao consumidor, os trabalhadores das economias avançadas e da maior parte das emergentes também foram menos pressionados que os brasileiros pelo desemprego. Na OCDE, o desemprego caiu de 5,8% em setembro para 5,7% em outubro. Na zona do euro, a taxa média recuou, no mesmo período, de 7,4% para 7,3%. Nos Estados Unidos, passou de 4,6% para 4,2%.

Várias dessas economias encolheram mais que a brasileira, em 2020, mas com efeitos menos dramáticos no emprego, desajustes menos prolongados e danos sociais menos sensíveis. No Brasil, o auxílio emergencial aos mais pobres foi menos contínuo, a desocupação continuou muito elevada e os preços aumentaram mais intensamente depois da fase inicial da pandemia. A insegurança em relação ao quadro fiscal, especialmente quanto à dívida pública, tem sido constante e assim permanece.

A gestão das contas federais, com pouco planejamento, generosa distribuição de dinheiro a aliados do presidente e excessiva atenção a interesses eleitorais, complica o financiamento do Tesouro, pressiona os juros e gera permanente desajuste cambial. Insegurança econômica e inflação acelerada são algumas das consequências. A maioria dos trabalhadores pode nem ter noção dessas questões, mas essa gente é quem paga a conta dos desmandos praticados em seu nome e com seu dinheiro.

O Estado de São Paulo

Projeto de Lula é vencer as eleições no primeiro turno

 




Para entender a pré-candidatura de Lula, é preciso levar em conta lideranças e militantes petistas que não se envolveram com os escândalos dos governos Lula e Dilma, ou seja, a ala esquerda da legenda

Por Luiz Carlos Azedo

Ninguém tem o direito de dizer que se enganou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que participou de todas as disputas presidenciais desde 1989, quando concorreu pela primeira vez, até a sua reeleição, em 2006. Em 2018, foi afastado do pleito por uma condenação em segunda instância, que resultou também na sua prisão por 580 dias, para cumprir a pena de oito anos, 10 meses e 20 dias à qual fora condenado pela Operação Lava-Jato no caso do triplex de Guarujá. Lula foi solto logo após o Supremo Tribunal Federal (STF) revogar o dispositivo que determina a execução de pena após condenação em segunda instância, em 8 de março do ano passado, decisão seguida da anulação de sua condenação, por não respeitar o princípio do juiz natural, que seria o foro do Distrito Federal e não o de Curitiba, como sempre afirmou sua defesa.

No dia seguinte, Lula já era o candidato favorito nas pesquisas de opinião, a mesma situação em que se encontrava quando foi preso, em 7 de abril de 2018. Desde então, vem se mantendo como líder absoluto na disputa, com possibilidade estatística de vencer as eleições no primeiro turno, se a votação fosse hoje, o que somente ocorreu nas eleições de 1994 e 1998, com Fernando Henrique Cardoso, na onda do Plano Real. Esse favoritismo decorre, em parte, do fracasso do governo do presidente Jair Bolsonaro, cada vez mais de difícil reversão, devido à postura do presidente da República durante a pandemia, ao fracasso da política econômica do ministro da Economia, Paulo Guedes, e à ameaça à democracia que, para muitos, a sua reeleição representaria.

O ex-presidente Lula tem atuado no sentido de evitar as fricções comuns às pré-campanhas eleitorais, resgatar suas velhas alianças regionais e fugir ao confronto com eventuais adversários, tanto o presidente Bolsonaro quanto seus concorrentes de oposição, principalmente Ciro Gomes (PDT) e o próprio Sergio Moro (Podemos). O petista fatura o recall de ex-presidente da República que deixou o governo com uma taxa de crescimento da ordem de 8% do PIB, altos índices de popularidade e ainda conseguiu eleger sua sucessora, a ex-presidente Dilma Rousseff, que, na campanha eleitoral, era comparada a um “poste de saias”. A vida de Lula somente se complicou após deixar o poder, com o escândalo do Petrolão, investigado pela Operação Lava-jato, em cujo inquérito foi arrolado, e devido ao fracasso econômico e ao isolamento político do governo Dilma, depois da reeleição, em 2014.

De certa forma, a pré-candidatura de Lula é marcada por esses acontecimentos, ou seja, isso explica muita coisa, da busca aos velhos aliados do MDB e do Centrão ao distanciamento em relação à ex-presidente Dilma, que está quieta no seu canto, em Porto Alegre. Em torno de Lula formou-se uma frente de esquerda, nucleada por PT, PSB e PCdoB, os partidos da antiga Frente Popular. Com as mudanças ocorridas na legislação partidária, o PT tenta viabilizar uma federação de esquerda nos moldes da Frente Ampla Uruguaia, que é o mais bem-sucedido e perene bloco de alianças políticas de esquerda do Cone Sul, integrado à época por comunistas, socialistas, democrata-cristãos e dissidentes dos partidos Colorado e Nacional.

Evitar polêmicas

Fundada em 1971, em torno da candidatura de Líber Seregni à presidência uruguaia, a frente foi posta na ilegalidade com o golpe de Estado de junho de 1973, inclusive com a prisão de seu candidato. Com seus principais líderes no exílio, a frente foi mantida, mesmo na clandestinidade, emergindo como força hegemônica no Uruguai em 2004, com a eleição do presidente Tabaré Vázquez; José Mujica, em 2009; e, novamente, Tabaré Vázquez, em 2014. Após 15 anos no poder, a esquerda foi derrotada por Luís Lacalle Pou, do tradicional Partido Nacional, que governa o Uruguai desde 2020.

Para entender a lógica da pré-candidatura de Lula, é preciso levar em conta as lideranças e os militantes petistas que não se envolveram com os escândalos dos governos Lula e Dilma, ou seja, a ala esquerda da legenda, que, depois da Lava-Jato, passou a ter hegemonia nas suas decisões. Esses setores são contrários à ampliação das alianças ao centro, querem reverter a reforma trabalhista e defendem um programa econômico desenvolvimentista. Vem daí a resistência pública à presença do ex-governador tucano Geraldo Alckmin na chapa de Lula, como seu candidato a vice, bem como a defesa intransigente da candidatura do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad ao Palácio dos Bandeirantes.

Esses setores acreditam que uma vitória de Lula no primeiro turno abriria caminho para um programa de governo mais progressista e uma mudança de correlação de forças no Congresso que lhe fosse favorável, até a convocação de uma Constituinte. Como essa postura afasta possíveis aliados, Lula vem evitando debater temas econômicos. Sua declaração a favor da revogação da reforma trabalhista, por exemplo, gerou forte reação dos setores empresariais e sofreu duros ataques dos demais candidatos de oposição. Entretanto, o que importa, no primeiro turno, é o engajamento entusiasmado dos militantes de esquerda e dos sindicatos de trabalhadores na sua campanha. Se houver segundo turno, a conversa muda.

Correio Braziliense

Especialista da OMS rebate Bolsonaro sobre ômicron e diz que ‘nenhum vírus que mata pessoas é bem-vindo’




Mike Ryan diz que há muitas pessoas em hospitais, em UTIs, respirando com dificuldade, o que deixa “muito claro que isso não é uma doença leve”

O principal especialista de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), Mike Ryan, rebateu nesta quarta-feira (12) declarações feitas mais pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) de que a variante ômicron do coronavírus seria bem-vinda e que poderia até sinalizar o fim da pandemia.

Pela manhã, em entrevista, Bolsonaro minimizou o avanço da nova variante no Brasil.

“A Ômicron, que já se espalhou pelo mundo todo, como as próprias pessoas que entendem de verdade dizem, tem uma capacidade de difundir muito grande, mas é de letalidade muito pequena. Dizem até que seria um vírus vacinal segundo algumas pessoas estudiosas e sérias, e não vinculadas a farmacêuticas, a ômicron é bem-vinda e pode, sim, sinalizar o fim da pandemia”, disse.

Durante entrevista coletiva em Genebra, ao ser questionado sobre as declarações do presidente brasileiro, o especialista da OMS rebateu, mesmo ressalvando que não tinha conhecimento da fala de Bolsonaro.

Ryan afirmou que, embora a Ômicron seja “menos grave como uma infecção viral em um indivíduo, isso não significa que seja uma doença leve”. Segundo ele, há muitas pessoas ao redor do mundo em hospitais, em UTIs, respirando com dificuldade, o que deixa “obviamente muito claro que isso não é uma doença leve”.

“É uma doença que pode se prevenir com vacina, é uma doença que, em grande extensão, pode ser prevenida adotando fortes cuidados pessoais para evitar a infecção e se vacinando”, afirmou.

“Há muito que podemos fazer. Essa não é a hora de desistir, não é a hora de ceder, não é a hora de declarar que esse é um vírus bem-vindo. Nenhum vírus que mata pessoas é bem-vindo. Especialmente quando, em grande extensão, essa mortalidade e esse sofrimento é evitável com o uso apropriado de vacinas”, reforçou.

Reuters /InfoMoney

Conservadorismo não é o mesmo que caretice

 



No último podcast O Papo É, Rodrigo Constantino expressou um pensamento que me parece comum e errado: a questão da liberação dos jogos de azar opunha liberalismo e conservadorismo. 

Por Bruna Frascolla (foto)

Em política, discussões terminológicas muitas vezes não levam a lugar nenhum. O esquerdista define o que é a “verdadeira esquerda” como sendo ele próprio, e não a facção contrária à sua dentro da esquerda. O liberal e o conservador, idem. A discussão pode durar para sempre porque o que está em questão não é a verdade, mas o poder. No entanto, convém dar um freio de arrumação quando a coisa passa do limite.

No caso da esquerda, a coisa passa do limite quando a classe foi pras cucuias. Tenho em mente os pseudoesquerdistas que passam a reivindicar o direito (nunca negado) de dondocas de ébano vestirem Prada ou saírem em capa de revista de moda, enquanto atacam o porteiro evangélico e o famigerado “pobre de direita”. Historicamente, quem se dizia de esquerda sempre levou em conta a questão da classe. Historicamente, quem não tinha vergonha de mandar a classe para as cucuias e focar só na raça não se dizia esquerdista, dizia-se nazista mesmo.

Historicamente, o liberalismo é identificado com a descentralização do poder. A política da Inglaterra fez uma movimentação inovadora e seus princípios foram documentados por John Locke, que merece ser considerado o primeiro filósofo liberal e referência inevitável. No século XIX houve Mill, uma figura ambígua, de trajetória intelectual conturbada, que terminou socialista. Com base nisso, os anglófonos, sobretudo os dos Estados Unidos, começaram o vandalismo semântico. E nós, que importamos todo tipo de bobagem de lá, estamos vendo os pseudoliberais favoráveis à distribuição estatal de modess e à discriminação estatal entre a verdade e a mentira (pois criminalização de fake news não é outra coisa).

Os conservadores

Entre os conservadores não creio haver um problema dessa magnitude. Mas creio haver uma confusão que a polêmica dos jogos de azar trouxe à tona.

No último podcast O Papo É, Rodrigo Constantino expressou um pensamento que me parece comum e errado: a questão da liberação dos jogos de azar opunha liberalismo e conservadorismo. Embora ele tenha caracterizado corretamente o conservadorismo pelo respeito à ordem estabelecida, que não se confunde com a imutabilidade de tal ordem, no passo seguinte opõe conservadorismo a liberalismo na questão dos jogos de azar. O conservador deveria ser inclinado à proibição de tais jogos, por causa dos argumentos levantados pela bancada evangélica, e o liberal deveria ser favorável à liberação, por uma questão de defesa das liberdades. Constantino se ladeou com os liberais nessa questão e usou a prostituição como exemplo: é possível achar reprovável sem querer proibir.

É um erro confundir a defesa das proibições moralistas com o conservadorismo. Por isso vou pegar o gancho da prostituição.

Numa famosa passagem do 'De ordine', Santo Agostinho defende a prostituição. (Ela pode ser lida aqui em inglês ou aqui em latim.) A prostituta não é uma mulher baixa? Para Santo Agostinho, é. E o carrasco, em si mesmo, não é um homem mau? Também. Mas cada qual ocupa o seu lugar na ordem social. Se abolíssemos os homens impiedosos, à sociedade faltariam carrascos e a ordem ficaria comprometida. Se todas as mulheres pouco propensas à vida monogâmica fossem abolidas, a ordem social – segundo a crença de Santo Agostinho – colapsaria. Existe o mal no mundo e não dá para querer melhorar a obra e Deus abolindo-o. Isso é um pensamento profundamente conservador. Considera que o homem é falho, e que reformadores sociais não podem pretender moralizar todo mundo na marra. Considera também que a ordem é complexa o suficiente para acomodar o mal; e, por conseguinte, para que qualquer um possa mudar na mão grande.

Que diria Santo Agostinho das pretensões da bancada evangélica de moralizar a família proibindo tudo? O que as evangélicas ao estilo Damares querem é que a polícia impeça o marido ou o filho de beber demais, de se drogar, de gastar tudo no jogo. Isso não é papel do Estado! É papel do próprio homem, que tem que ser disciplinado; e é papel da mãe ou da mulher auxiliar nisso. Ficar clamando para que o Estado cresça e resolva seus problemas domésticos não dá. A seguir essa toada evangélica, as mulheres casam com qualquer um que catem em clínica de reabilitação e o Estado bota um policial na porta cuidando para que seja um bom marido.

Vamos ao aspecto cultural. Em países protestantes de cultura puritana (e os puritanos não eram exatamente conservadores…), a prostituição é proibida. Lá nos Estados Unidos, portanto, faria sentido um conservador perguntar: “Se nossa sociedade criou essa proibição, será uma boa ideia tirá-la assim, na mão grande?” Esse é um raciocínio conservador, e não: “Hum, proibir prostituição é careta, então vamos proibir prostituição.” Se porventura reaparecer no Brasil a pauta da proibição da prostituição (digo “reaparecer” porque as feministas tinham essa pauta na época do PT), um conservador deverá pensar, do mesmo modo: “Se nossa sociedade criou essa permissão, será uma boa ideia tirá-la assim, na mão grande?” A proibição da prostituição cumpre alguma função na ordem dos Estados Unidos; sua permissão cumpre alguma na do Brasil. Meter o bedelho do nada não é prudente.

Assim, qualquer argumento conservador contra a liberação dos cassinos deverá levar em conta o histórico e a funcionalidade dessa proibição na ordem social. Eu mesma não tenho opinião formada sobre o assunto.

Sem moicanos na Coreia do Norte

Caso alguém ainda queira insistir que conservador e careta são a mesma coisa, passo a um assunto capilar. As senhoras evangélicas da base de Damares gostariam se os seus filhos resolvessem usar um moicano verde? Aposto que não. Se houvesse um surto de moicano verde, o que essas senhoras iriam fazer?

Na Coreia do Norte, tal surto é impossível. Existe uma lista de cortes de cabelo permitidos. Todos mui caretas, naturalmente, e nenhum súdito pode usar aquele cabelinho de Kim Jong-Un.

Alguém aqui vai dizer que a Coreia do Norte é um país conservador? É só um país totalitário e careta.

Gazeta do Povo (PR)

Boris Johnson pede desculpas por festa durante lockdown




Premiê britânico admite ter participado de evento em Downing Street, mas classificou o encontro como mera confraternização de trabalho. Opositores e até membros do Partido Conservador pressionam Johnson a renunciar.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, pediu desculpas nesta quarta-feira (12/01) por ter participado de uma festa durante o primeiro confinamento britânico para conter a disseminação da covid-19, mas ignorou as exigências da oposição de que ele renuncie do cargo por ter violado as regras que seu próprio governo havia imposto ao povo britânico.

Johnson havia convidado cerca de 100 funcionários para uma confraternização na residência oficial do governo em maio de 2020. A mensagem veio à tona nesta semana – a revelação embaraçosa pode resultar numa investigação contra o primeiro-ministro.

O pedido de desculpas de Johnson, que não chegou a admitir irregularidades, foi a tentativa do primeiro-ministro britânico de apaziguar uma onda de críticas da sociedade e de políticos após repetidas acusações de que ele e sua equipe desrespeitaram as restrições anticovid.

O escândalo mais recente pode se tornar um ponto de inflexão para um líder que enfrentou uma série de outras tempestades políticas – alguns membros do próprio Partido Conservador têm afirmado que Johnson deve renunciar ao cargo caso tenha efetivamente burlado as regras.

Johnson admite festa, mas não vê contravenção

E nesta quarta-feira, Johnson reconheceu pela primeira vez que participou de um evento ao ar livre em maio de 2020 na residência oficial em Downing Street, mas classificou o encontro como uma confraternização de trabalho para agradecer aos funcionários por seus esforços durante a pandemia.

"Eu quero me desculpar... Em retrospectiva, eu deveria ter mandado todos de volta para dentro", disse Johnson aos legisladores durante a sessão semanal do primeiro-ministro na Câmara dos Comuns (a câmara baixa do Parlamento britânico).

O convite para o evento, que dizia para que o convidado "traga sua própria bebida" para uma reunião com "coquetéis socialmente distanciados", foi enviado por e-mail a cerca de 100 funcionários do governo por um assessor do primeiro-ministro, embora o gabinete de Johnson diga que ele não o recebeu.

Segundo vários veículos de comunicação, a festa acabou por contar a presença de cerca de 40 pessoas, entre elas Johnson e sua esposa, Carrie.

Opositores e aliados têm exigido que Johnson seja honesto sobre a festa, realizada num período quando os britânicos estavam impedidos por lei de se encontrarem com mais de uma pessoa fora de seus domicílios para conter a propagação do coronavírus. A festa nos jardins de Downing Street ocorreu quando milhões de pessoas estavam isoladas de familiares e amigos e até impedidos de visitar e se despedir de parentes moribundos em hospitais.

"Quão estúpido ele pensa que o povo britânico é?"

O líder do oposicionista Partido Trabalhista, Keir Starmer, disse que a sociedade britânica acredita que Johnson estava "mentindo descaradamente", quando o primeiro-ministro alegou em outras oportunidades que ele e sua equipe seguiram as regras o tempo todo.

"Sua defesa de que ele não percebeu que estava numa festa é tão ridícula que a ser ofensiva para a opinião pública britânica", disse Starmer. "Ele finalmente foi forçado a admitir o que todos sabiam, que quando todo o país estava fechado ele estava dando festas de bebedeira em Downing Street. Ele vai agora fazer a coisa decente e renunciar?"

Johnson não renunciou, e o pedido de desculpas desta quarta-feira lhe deu algum tempo para recuperar o controle da situação. Mas seu destino está agora nas mãos de Sue Gray, uma funcionária pública com reputação de ser enérgica e que deve divulgar um relatório de investigação até o fim do mês.

O escândalo apelidado de "partygate" aumenta uma lista crescente de divergências para Johnson, que já enfrentou acusações de que seu governo conservador desrespeitou regras da pandemia em outras ocasiões, organizando festas, encontros de Natal e farras noturnas em Downing Street. Johnson também enfrenta alegações de má conduta financeira e ética, tanto dele quanto de seu governo.

Na sessão parlamentar desta quarta-feira, o legislador trabalhista Chris Bryant disse que a alegação de Johnson de que ele não sabia que estava numa festa não era crível. "Quão estúpido o primeiro-ministro pensa que o povo britânico é?", questionou.

Deutsche Welle

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