terça-feira, janeiro 11, 2022

A mosca azul ronda o ministério de Bolsonaro




Apoio presidencial nem sempre é garantia de vitória nas urnas

Por Bruno Carazza* (foto)

O religioso mineiro Frei Betto abre seu livro de reflexões sobre a política transcrevendo uma poesia de Machado de Assis, uma parábola sobre um plebeu que certo dia se deparou com uma mosca azul, de asas de ouro e granada, que refulgia ao clarão do sol.

Deslumbrado pela beleza dos seus movimentos, percebeu que o inseto era encantado. Em meio à vibração de suas asas, ele viu a si mesmo como o rei de Cachemira, vestido com roupas finas adornadas por pedras preciosas, rodeado por cem mulheres de seios nus, e a seus pés quatorze reis vencidos, representando trezentas nações, rendendo-lhe glórias.

O poder inebria e por isso é que, uma vez picado pela mosca azul, quase ninguém quer largá-lo. Frei Betto diz que ele é mais tentador do que sexo e dinheiro - até porque torna essas delícias mais acessíveis.

No último sábado (08/01), o presidente Jair Bolsonaro anunciou que pelo menos 12 de seus 23 ministros atuais devem sair para disputar as eleições de outubro; ou seja, mais da metade do primeiro escalão do governo federal foi picado pela mosca azul da política.

Na conversa com jornalistas, Bolsonaro citou dois ministros que já se decidiram se candidatar. Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência) e Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) representam dois grupos distintos de ministros com pretensões eleitorais.

Onyx está no pelotão dos políticos profissionais, ao lado de Ciro Nogueira (Casa Civil), Tereza Cristina (Agricultura), João Roma (Cidadania), Fábio Faria (Comunicações), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Flávia Arruda (Secretaria de Governo). Esse grupo traz o DNA da mosca azul já inoculado em seu sangue, e se permanecem no governo até hoje é porque vislumbram que o apoio de Bolsonaro é a forma mais garantida para continuarem desfrutando das benesses do poder.

Tarcísio, porém, é de outra estirpe. Assim como Damares Alves (Família e Direitos Humanos), Marcelo Queiroga (Saúde), Gilson Machado (Turismo), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) e Anderson Torres (Justiça), são virgens em disputas eleitorais, mas foram picados pela mosca azul e estão tentados a seguir carreira política.

Daqui até o dia 02 de abril (a legislação exige que ministros de Estado entreguem os cargos até seis meses antes das eleições, caso queiram se candidatar), veremos intensas articulações para a definição dos cargos e dos Estados que serão disputados pelos ministros-candidatos.

Mas a história recomenda cautela, tanto aos políticos do Centrão quanto aos novatos bolsonaristas. Os dados revelam que ser apoiado pelo presidente não é garantia de vitória nas urnas. Os números indicam que, desde as eleições de 1998, ministros que se lançaram candidatos foram eleitos em apenas 59,1% dos casos.

As chances de obter um cargo eletivo com o apoio presidencial dependem muito mais do cargo que se disputa do que da popularidade do ocupante do Palácio do Planalto, como se vê na tabela.

Se a decisão de se candidatar se guiasse estritamente por uma lógica racional e pessoal, os ministros de Bolsonaro deveriam se limitar a buscar a uma vaga na Câmara. Nas últimas seis eleições, 20 ministros tentaram se eleger deputados federais, e 18 deles lograram sucesso. Reinhold Stephanes, ministro da Previdência de FHC, e Leonardo Picciani, chefe da pasta de Esportes de Temer, foram as únicas exceções que fracassaram, - esse último, ainda assim, assumiu posteriormente o mandato, pois ficou bem posicionado como suplente.

Mas se os ministros buscarem alçar voos mais altos, o risco de ser abatido aumenta consideravelmente. Apenas um terço dos ministros de FHC a Temer que tentaram ser governadores ou senadores conseguiu se eleger.

Em 2010, por exemplo, Lula encerrava o segundo mandato no auge da popularidade e mesmo tendo à disposição emendas orçamentárias bilionárias em suas pastas, os ministros Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), Hélio Costa (Comunicações) e Alfredo Nascimento (Transportes) não conseguiram vencer as disputas pelos governos da Bahia, Minas Gerais e Amazonas daquele ano.

O desempenho dos ministros de Temer em 2018 deveria servir de alerta para seus pares no governo Bolsonaro. Naquele ano, a alta rejeição ao presidente atrapalhou bastante as pretensões de seus ministros Maurício Quintella Lessa (Transportes, Portos e Aviação), Mendonça Filho (Educação) e Sarney Filho (Meio Ambiente) - todos de tradicionais famílias políticas nordestinas - a se tornarem senadores pelos seus Estados.

Ministros com perfil mais técnico que se aventuram em disputas eleitorais majoritárias são raros - e aqui fica uma recomendação especial para Tarcísio de Freitas, o ministro da Infraestrutura que é o queridinho dos apoiadores de Bolsonaro. Se políticos tradicionais raramente se deram bem em disputas majoritárias, o que dirá um neófito em eleições.

Caso concorra a governador ou senador por São Paulo, como quer Bolsonaro, Tarcísio pode repetir o malogro de Alexandre Padilha em 2014. Bem avaliado entre os petistas como ministro da Saúde, foi lançado pelo partido como candidato a governador de São Paulo e o resultado não poderia ser mais desanimador: Padilha terminou em terceiro lugar, bem atrás do vencedor Geraldo Alckmin e de Paulo Skaf.

Na fábula de Machado de Assis, o plebeu se enamorou tanto pela ilusão do poder que acabou sufocando-a. “Dizem que ensandeceu e que não sabe como perdeu a sua mosca azul”. Os números e a história recomendam cuidado aos ministros-candidatos.

*Bruno Carazza é mestre em economia e doutor em direito, é autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro” (Companhia das Letras)”.

Valor Econômico

Crise do clima e do meio ambiente não exige um tirano bondoso

 




Há quem defenda 'ditaduras ecológicas', mas apenas Estados democráticos serão capazes de superar desafios climáticos. 

Por João Pereira Coutinho (foto)

Se as mudanças climáticas são uma ameaça real e existencial para a humanidade, você seria favorável a formas autoritárias de governo para tentar resolver o problema?

Ou, pelo contrário, a democracia e o respeito pelos direitos básicos são mais importantes, mesmo que esses valores não tenham a sensibilidade suficiente para os desafios do clima?

Duas perguntas, mil polêmicas à vista. A proeza pertence ao cientista político Ross Mittiga, que teve a ousadia de escrever um ensaio acadêmico sobre o assunto ("Political Legitimacy, Authoritarianism, and Climate Change") para a prestigiada "American Political Science Review".

Eis o ponto de partida: nas questões sobre a legitimidade dos governos, a nossa cultura demoliberal afastou-se dos "realistas" (como Thomas Hobbes, por exemplo) e se aproximou dos "moralistas".

Os primeiros defendem que um poder absoluto é justificado para garantir a segurança dos indivíduos. Os segundos contrapõem: sem consentimento, sem democracia, sem direitos individuais, não há legitimidade para ninguém.

Em tempos normais, essas duas posições não precisam ser antagônicas. A função dos governos é garantir a segurança dos cidadãos e, adicionalmente, proteger também um conjunto de valores e direitos democráticos.

A tensão só ocorre em situações de exceção —e não é preciso imaginar filmes apocalíticos para perceber isso. Basta lembrar a forma como governos democráticos reagiram à pandemia, limitando severamente certos direitos individuais (como o direito à livre circulação).

Fizeram bem? Fizeram mal?

Essa não é a discussão que interessa aqui. A pandemia é importante para ilustrar o ponto de Ross Mittiga: há momentos em que a segurança pode ser mais importante do que autonomia individual.

Ou, para usar a terminologia do autor, a "legitimidade fundacional" (que depende da capacidade do Estado de garantir a segurança de todos) pode suplantar a "legitimidade contingente" (que, nas democracias liberais do Ocidente, emana de certos direitos individuais). O primeiro tipo de legitimidade garante a vida; o segundo, a vida boa.

Logicamente, não é possível que exista vida boa sem existir vida primeiro. Perante ameaças existenciais de larga escala, é preciso defender a vida, ou a possibilidade de existir vida. O resto virá depois.

Em teoria, aceito o argumento de Mittiga: são incontáveis os exemplos históricos em que uma sociedade, ameaçada por um poder inimigo, teve de suspender certos direitos e liberdades para se defender.

O ponto, porém, não está na necessidade circunstancial de transformar uma sociedade civil numa sociedade guerreira.

Está em saber se essa transformação ocorre dentro ou fora das instituições democráticas de um país. E, nesse quesito, Thomas Hobbes é um bom autor.

Para Ross Mittiga, Hobbes é o supremo absolutista, disposto a esmagar os direitos individuais em nome da paz e da segurança.

Acontece que o Leviatã não surge por milagre. Ele é consentido pelos indivíduos que desejam escapar ao pesadelo do estado da natureza.

Isso tem implicações na discussão sobre os estados de exceção: eles só podem ser aprovados pelas instituições demoliberais competentes, como os parlamentos, eleitos pelo poder soberano popular. Não basta o voluntarismo, ou a impaciência, do líder do momento.

Ross Mittiga sabe disso e apenas espera que os Estados democráticos sejam capazes de enfrentar os desafios do clima sem ser preciso recorrer a soluções autoritárias.

Mas há quem seja mais explícito na sua paixão por "ditaduras ecológicas": se o povo não acorda para o problema, preferindo continuar com seus hábitos nocivos para o planeta (comendo carne, usando combustíveis fósseis etc.), não estará na altura de prescindir desse povo ignaro e optar por um tirano bondoso?

Não, não está: empiricamente, ainda está por provar que as autocracias são mais eficazes do que as democracias na luta contra as alterações climáticas.

Aliás, é até possível presumir o oposto: sociedades democráticas e pluralistas, nas quais a discussão científica é livre e os avanços tecnológicos são constantes, são talvez a melhor esperança para tanta desesperança.

Folha de São Paulo

Bolsonaro sobre críticas de eleitores: 'Vocês votaram num cara do Centrão'

 




Segundo o presidente, a filiação ao PL foi "necessária" para concorrer nas Eleições Presidenciais de 2022

Presidente justificou a filiação ao PL, partido comandado por Valdemar Costa Neto, que foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no escândalo do mensalão

Por Ana Raquel Lelles

O presidente Jair Bolsonaro respondeu, nesta segunda-feira (10/1), às críticas de seus eleitores sobre sua filiação ao Partido Liberal (PL) para a concorrer as eleições presidenciais. Apesar de ter criticado políticos de centro durante as eleições de passadas, Bolsonaro se autodeclarou um “cara do Centrão”. 

“Eu, pra conseguir disputar a eleição, tenho que ter um partido. É a mesma coisa do cara falar: "Ah, o Centrão". Poxa, vocês votaram num cara que foi do Centrão. Eu fui do PP por muito tempo. Fui do PTB, fui do então PFL”, disse o presidente em entrevista ao canal Jovem Pan News. 

“Agora, não quer dizer que todo mundo que está lá sejam pessoas que merecem ser rejeitadas pela sociedade. Tira o pessoal do centro, porque o centrão é um nome pejoriativo, e procura o outro lado, é o quê? O PSOL? O PCdoB? O PT? A Rede?”, continuou Bolsonaro.

O presidente se elegeu pelo Partido Social Liberal (PSL), em 2018, e deixou a legenda em 2019. Após quase dois anos sem partido, Bolsonaro entrou para o PL, que é comandado por Valdemar Costa Neto, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no escândalo do mensalão.

Durante a campanha eleitoral de 2018, o presidente criticou o Centrão e, com isso, conquistou seguidores. Para justificar a decisão de entrar no PL, Bolsonaro afirmou que teria mais autonomia em comparação com o Progressistas (PP), com quem vinha negociando.

Apesar de a decisão não ter agradado parte de seus seguidores, o presidente disse que é “necessário”. 

"É a mesma coisa que o cara que fala que quer ter um filho. 'Quero ser papai'. Ou a mulher fala 'quero ser mamãe'. Tem que arranjar uma mulher no primeiro exemplo e, no segundo, tem que arranjar um homem. Eu, para conseguir disputar uma eleição, tenho que ter um partido”, justificou o presidente com uma analogia. 

Estadão / Estado de Minas

O fantasma do segundo mandato




O Brasil é um caso de sucesso de resistência política e judicial a um presidente iliberal

Por Carlos Pereira (foto)

A forte resistência que Jair Bolsonaro tem enfrentado das instituições e da sociedade fez cair por terra a tese de que a simples chegada de um presidente com perfil iliberal levaria à derrocada da democracia, independentemente da qualidade das instituições.

As instituições e a própria sociedade fazem updates tanto a partir de experiências próprias como de aprendizados de outros países que refreiam arroubos autocráticos.

Existem várias derrotas sistemáticas de Bolsonaro no Legislativo e no Judiciário, mas também de iniciativas legais que visam a fortalecer as instituições para potenciais confrontos futuros.

No STF, o presidente perdeu todas as batalhas com relação ao enfrentamento da pandemia, seja na delegação aos governos locais da prerrogativa de adotar medidas de isolamento social e de acesso de pessoas não vacinadas, seja na exigência de receita médica para vacinação de crianças.

O STF também expandiu seus poderes para investigar fake news contra juízes, seus familiares ou a honra da instituição, nomeando um membro do próprio tribunal para chefiar as investigações em vez da PGR. Até Bolsonaro passou a ser investigado por notícias falsas sobre urnas eletrônicas.

O Congresso também bloqueou ações intimidatórias do presidente à Corte, como rejeição da CPI para investigar supostas falhas do Judiciário, aprovação da prisão de um deputado por ameaças a juízes do STF, rejeição da petição de impeachment do ministro Barroso etc. A CPI da Covid expôs fragilidades do governo até as vísceras, inclusive com várias denúncias de crimes cometidos pelo presidente.

Mas há quem argumente que a “sobrevivência” da democracia brasileira até agora tenha sido um lance de sorte e que não se repetiria em um eventual segundo mandato. Se a eleição de um autocrata foi um acidente, sua reeleição configuraria um sinal verde ao modus operandi iliberal, o que arrefeceria qualquer tipo de reação das organizações de controle.

Tudo, portanto, se justificaria para evitar o “grande desastre”, até mesmo apoiar líderes moralmente manchados diante de condenações prévias em várias instâncias da Justiça por corrupção e lavagem de dinheiro. É bom lembrar que iniciativas legislativas de Bolsonaro de enfraquecimento das organizações de controle contaram com o apoio irrestrito do PT.

A vantagem dessa tese é que tal agouro dificilmente será submetido ao teste empírico, pois Bolsonaro já é praticamente carta fora do baralho. Os catastrofistas não vão necessitar fazer autocrítica. Podem continuar se enganando com seus fantasmas de golpe.

O Estado de São Paulo

O recado que o caso Theranos traz para o sistema judicial brasileiro - Editorial




Quando apareceu no noticiário no início do século, a americana Elizabeth Holmes era saudada como nova promessa do Vale do Silício. A exemplo de Bill Gates ou Mark Zuckerberg, abandonara uma faculdade de elite — não Harvard, mas Stanford — para perseguir seu sonho de empreendedora. Na onda do genoma humano, apostava na medicina como nova fronteira da economia do conhecimento. Sua empresa, a Theranos, ofereceria testes indolores, rápidos e baratos para as mais variadas doenças e condições de saúde, disponíveis em qualquer farmácia. Uma gotícula de sangue por dia e você saberia tudo sobre o próprio corpo. Em 2003, aos 19 anos, Holmes era aclamada pela imprensa de negócios como o novo Steve Jobs — usava até as mesmas blusas cacharrel pretas.

Bastou um jornalista investigativo se debruçar sobre a Theranos — John Carreyrou, no Wall Street Journal — para descobrir que a promessa então avaliada em US$ 9 bilhões não passava de cascata. Em 2015, 12 anos depois de fundada a empresa, ficou claro para todos que as máquinas milagrosas anunciadas por Holmes não passavam de um produto de sua imaginação. Os equipamentos que chegavam às farmácias eram imprecisos, incapazes de identificar de modo confiável se alguém era portador do HIV, tinha câncer ou mesmo colesterol alto.

Holmes foi condenada na última segunda-feira por ter enganado os investidores que apostaram centenas de milhões de dólares na fantasia, incluindo expoentes do mundo dos negócios como Rupert Murdoch e Larry Ellison, os ex-secretários de Estado Henry Kissinger e George Shultz, o ex-secretário de Defesa James Mattis e a família da ex-secretária da Educação Betsy DeVos. Com o aval de todos esses nomes, o caso vem sendo considerado um choque de realidade para o Vale do Silício, onde qualquer um munido de credenciais acadêmicas lustrosas, uma boa apresentação de PowerPoint e lábia sedutora consegue tirar dinheiro do bolso de investidores e celebridades.

Cada uma das quatro condenações poderá render a Holmes 20 anos de cadeia (provavelmente não cumulativos). Ela passará a integrar a extensa lista de criminosos corporativos que foram parar atrás das grades nos Estados Unidos, como Martin Shkreli (que aumentou em 5.000% o preço de uma droga contra a toxoplasmose), Adam Neumann (que desviou US$ 700 milhões da WeWork), Andy Fastow e Ken Lay (condenados pela maquiagem contábil na Enron) e tantos outros.

Curiosamente, o júri a absolveu das acusações de lograr os pacientes, incapaz de enxergar crimes nos testes oferecidos pela Theranos. O julgamento de Holmes traz uma mensagem relevante para o Brasil, onde o desmonte da Operação Lava-Jato deflagrou uma discussão interminável sobre abusos cometidos pela Justiça: o fato de um sistema judicial respeitar o direito de defesa dos réus e o devido processo legal não significa que os criminosos ricos e poderosos devam ter acesso a todo tipo de recurso e manobra para ficar fora da cadeia.

O Globo

Como o México perdeu o Texas para os EUA




Na década de 1820, milhares de colonos americanos se estabeleceram no Texas contando com aprovação e incentivo do México

Por Ángel Bermúdez

Foi uma ferida, em parte autoimposta, que causou um trauma duradouro no orgulho nacional do México.

A perda do Texas, em 1836, e a incapacidade do governo mexicano de reconquistar esse território nos anos anteriores à sua integração com os Estados Unidos, ocorrida em 1845, ainda são sentidas no país.

"Isso é algo que desde então afetou o senso de identidade dos mexicanos e alimentou o nacionalismo mexicano", diz o historiador Miguel González Quiroga, ex-professor da Universidade Autônoma de Nuevo León e atual pesquisador visitante da Universidade do Texas em San Antonio.

Essa expropriação territorial, no entanto, foi em parte consequência de uma realidade demográfica inescapável: para cada mexicano que residia naquele território, havia cerca de 10 colonos de origem americana.

Curiosa e paradoxalmente, esses americanos não ocuparam à força o território do Texas nem, em sua maioria, entraram ilegalmente nele.

Muito pelo contrário: eles se estabeleceram ali com a permissão do governo mexicano, que também deliberadamente os atraiu usando uma generosa política de transferência de terras como incentivo.

"Sem dúvida, a perda do Texas foi um caso de consequências não intencionais", diz Greg Cantrell, professor de história na Texas Christian University, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

A iniciativa de criar colônias anglo-americanas no Texas surgiu no fim do domínio espanhol sobre o México, mas só se materializou após a independência daquele país.

'No início do século 19, as missões religiosas eram as principais instituições presentes no Texas'

Olhando para trás, essa decisão parece difícil de explicar, não apenas devido às consequências negativas para o México, mas também porque cidadãos americanos haviam tentado invadir territórios estrangeiros militarmente por sua própria conta e risco.

"É incompreensível que depois das invasões obstrutivas e do expansionismo do país vizinho, os governos espanhol e mexicano tenham concordado em permitir o assentamento de colonos americanos (no Texas)", diz a historiadora mexicana Josefina Zoraida Vázquez.

Mas por que o México fez isso?

Tudo começou com os chamados "300 de Austin".

Terras como incentivo

O estabelecimento de colonos americanos no Texas começou na década de 1820 e foi impulsionado por Moses Austin, um americano que na década de 1790 emigrou para o sudoeste do Missouri, então parte da Louisiana espanhola.

'Acesso a terras baratas no Texas foi um grande incentivo para os colonos; acima, certificado de terra emitido por Stephen Austin'

Moses conseguiu prosperar lá e até obteve um passaporte espanhol, mas sua sorte mudaria depois que a venda da Louisiana da França para os EUA foi finalizada, em 1803.

"Para ele não foi uma bênção a notícia de que, com a compra da Louisiana, o território se tornou americano. Afetado pela guerra de 1812 e pelos altos e baixos da economia, em 1819 Moses estava falido. Ao lembrar-se de sua experiência positiva na Louisiana espanhola, ele decidiu emigrar ao Texas e solicitar uma concessão para se estabelecer com 300 famílias", escreveu Vázquez no livro México e o Expansionismo Americano.

Em janeiro de 1821, Moses obteve autorização das autoridades espanholas para criar aquela colônia no Texas, mas morreu pouco depois, de modo que a tarefa foi deixada para seu filho Stephen F. Austin, conhecido nos Estados Unidos como "o pai do Texas".

Stephen decidiu continuar os planos de seu pai e mudou-se para San Antonio para tentar convencer as autoridades espanholas sobre se podia dar continuidade à empreitada de seu pai.

"Austin entrou em San Antonio, literalmente, no mesmo dia em que chegaram as notícias sobre a independência do México, então disseram-lhe que viajasse à Cidade do México para apresentar sua petição às novas autoridades nacionais", diz Cantrell.

Lá ele ficou um ano, durante o qual aprendeu a falar espanhol, enquanto fazia seus negócios e esperava por suas respostas.

Além de conseguir que o México lhe permitisse levar adiante o projeto do pai, Austin mais tarde obteria a aprovação de uma nova lei que criava o sistema de empresários, nome dado aos que implementavam colônias autorizadas no Texas e que seriam recompensados com terras: quanto mais colonos houvesse, mais terra eles receberiam.

Recrutando colonos

Para obter autorização do governo mexicano, Austin teve que concordar que os colonos jurassem lealdade ao México, aprenderiam espanhol e se converteriam ao catolicismo.

'Stephen F. Austin é considerado "o pai do Texas"

Nem todos esses requisitos, entretanto, foram cumpridos estritamente.

"As partes incômodas dessas regras foram amplamente ignoradas, principalmente no que diz respeito ao catolicismo. Isso nunca foi aplicado de forma substancial. A grande maioria dos colonos não era católica e nunca se converteu. Alguns deles chegaram a parar na última igreja católica na Louisiana, antes de cruzar para o Texas, e foram batizados, mas a maioria deles nem se importou", diz Cantrell.

"As autoridades mexicanas e Austin tinham uma espécie de pacto de silêncio: contanto que você não criasse problemas por questões religiosas, conduzindo serviços religiosos públicos em templos protestantes ou criticando a regra que o obrigava a se tornar um católico, estava tudo bem", acrescenta.

Entre 1821 e 1823, Austin publicou anúncios no sul dos Estados Unidos à procura de famílias interessadas em se estabelecer em sua colônia.

A atração principal? A possibilidade de obter grandes quantidades de terras a um preço equivalente a um décimo do que custavam nos Estados Unidos.

A lei de colonização estabelecia que os fazendeiros receberiam cerca de 0,7 quilômetros quadrados de terra, enquanto os fazendeiros receberiam quase 18 quilômetros quadrados, o que fazia com que a maioria dos assentados se passasse por fazendeiros, mesmo que não o fossem.

Como se não bastasse, as famílias tiveram a possibilidade de trazer ou ter escravos.

Esse foi um elemento que se provaria fundamental tanto para o estabelecimento das colônias quanto para a evolução da situação política no Texas.

Com essa oferta atraente, Austin não demorou muito para arrebanhar seus colonos. Na verdade, ele pôde escolher entre os candidatos e privilegiou aqueles que tinham melhor situação econômica e social.

No final do verão de 1824, a maioria das primeiras 300 famílias autorizadas estava no Texas (por isso são conhecidas como Austin 300 (300 de Austin, em tradução livre), embora, na realidade, fossem 297, pois algumas famílias receberam mais de uma autorização).

Reconstruindo o sul dos EUA no norte do México

A maioria das 300 famílias de Austin veio de Estados do sul dos EUA, especialmente Louisiana, Alabama, Arkansas, Tennessee e Missouri.

Apenas uma pequena parte dessas famílias trazia escravos e, entre elas, a maioria possuía apenas dois ou três. No entanto, a escravidão foi um elemento central da colonização do Texas.

"Ter escravos era algo que só os ricos podiam pagar, mas quase todos os colonos aspiravam a tê-los porque esse era o caminho para o sucesso no mundo do algodão", explica Greg Cantrell à BBC News Mundo.

Cantrell assinala que, embora a maior parte dos colonos inicialmente tenha se dedicado à agricultura de subsistência, o objetivo era reproduzir o boom econômico das plantações de algodão, que haviam tornado o sul dos Estados Unidos um dos lugares mais ricos do mundo.

"Todos pensaram que se pudessem recriar o Mississippi no México, um dia seriam ricos. Era esse o seu verdadeiro cálculo. Pensavam que conseguiriam produzir muito algodão ou, pelo menos, vender uma parte daquele imenso território que receberam do governo do México e obter um bom lucro por isso", explica Cantrell.

"Ninguém podia cultivar tanta terra. Nem mesmo o colono que tinha mais escravos poderia semear mais do que uma fração daqueles 4.428 acres (cerca de 18 quilômetros quadrados). Mas os 300 de Austin e os muitos milhares eram movidos pela cobiça", acrescenta.

Perto da escravidão, longe da Cidade do México

Após trazer as primeiras 300 famílias, Stephen Austin recebeu autorização das autoridades mexicanas para fundar mais quatro colônias. Ao todo, trouxe cerca de 1 mil famílias para o Texas.

'Colonos estabeleceram plantações de algodão operadas com trabalho escravo no Texas. Essa imagem data de 1930, quando escravidão já havia sido abolida'

Em ritmo acelerado, novas colônias também foram estabelecidas, promovidas por outros empresários.

Não demoraria muito para que as primeiras tensões surgissem com as autoridades da Cidade do México.

Os colonos anglo-americanos apostavam que o Texas se tornaria um Estado com ampla autonomia dentro da estrutura de um México federal, mas não tiveram sucesso e foram integrados no mesmo Estado junto com Coahuila.

Essa autonomia foi vista como a chave para proteger seu modo de vida.

"Se o Texas alcançasse um tipo de autonomia que lhe tivesse permitido manter a escravidão e o comércio com quem quisesse, sem tarifas ou restrições; se eles pudessem cuidar de seus próprios assuntos sendo um Estado do México, então isso teria sido para os colonos o melhor dos mundos", argumenta Cantrell.

Mas essa não era a situação real.

"O México era um país antiescravista praticamente desde 1820, então as autoridades da Cidade do México não entendiam bem que o grande plano para fazer do Texas um território próspero era se tornar parte dessa próspera economia do algodão, com a qual foram criadas grandes fortunas. Mas isso só poderia acontecer onde a escravidão fosse permitida", acrescenta.

A partir de 1821, as autoridades mexicanas fizeram várias tentativas de erradicar definitivamente a escravidão naquele país e no Texas, o que gerou grande preocupação entre os colonos anglo-americanos, que por diversas vezes conseguiram contornar essas medidas isentando-se ou inventando novas figuras como a dos "empregados não pagos" que estavam vinculados a contratos de trabalho vitalícios.

Ruptura

As tensões entre os colonos anglo-americanos e o governo do México aumentariam notavelmente depois de 1830, quando o governo mexicano aprovou uma lei que proibia a chegada de mais imigração ao Texas.

'Virada centralista de Santa Anna para o governo mexicano acelerou o rompimento com os colonos anglo-americanos'

A regra baseou-se nas recomendações do general José Manuel Mier y Terán, que depois de fazer um tour pelo Texas ficou alarmado ao descobrir que o número de colonos ultrapassava em muito o dos mexicanos, pelo que recomendou o fechamento das fronteiras daquele estado aos americanos, promover a chegada de mais população europeia e mexicana e proibir a escravatura, entre outras medidas.

Medidas desse tipo eram motivo de protesto e preocupação entre os colonos que, desde pelo menos 1826, vinham promovendo revoltas intermitentes contra o Estado mexicano.

As tensões, no entanto, começaram a cessar em 1834, depois que o presidente Antonio López de Santa Anna dissolveu o Congresso e acabou com a estrutura federal para estabelecer um governo centralista no México.

"Quando ele (Santa Anna) anunciou que marcharia com um Exército no Texas para acabar com os tumultos crescentes, os anglo-texanos compreenderam estarem enfrentando seu cenário mais temido porque a escravidão não sobreviveria ao governo de Santa Anna. Ao se darem conta disso, todo mundo se entusiasmou com o movimento de secessão", diz Cantrell.

O historiador afirma que, até há relativamente pouco tempo, na história do Texas, o papel que a escravidão desempenhou na separação do México foi minimizado, mas ele afirma que se tratou de um elemento crucial.

"Eles sabiam que não podiam anunciar publicamente que estavam preocupados com a continuidade da escravidão e por causa disso iam declarar a independência. Eles sabiam que passariam uma imagem ruim ao dizer que sua revolução buscava preservar a escravidão, mas todos sabiam que isso era um elefante na sala, sobre o qual ninguém queria falar. Mas foi, de fato, um fator de extrema importância (para a secessão)", explica.

O confronto entre as forças de Santa Anna e os colonos anglo-americanos duraria alguns meses e terminaria na batalha de San Jacinto, em abril de 1836, após a qual se consumou a separação do Texas do México.

'Tropas de Santa Anna derrotaram os colonos na Batalha do Álamo'

Esquivando-se do inevitável

Mas por que razão a Espanha, primeiro, e o México, mais tarde, acreditaram que seria uma boa ideia permitir o estabelecimento de colônias anglo-americanas no Texas?

"O México se viu na necessidade de povoar seus territórios ao norte porque esses estavam sob a ameaça do império espanhol, do império francês e do novo país que se formara (Estados Unidos), mas não tinha recursos nem gente suficiente colonizá-los", explica Quiroga.

Ele também aponta que esses territórios estavam sob constante ameaça de tribos nativas, especialmente os Comanches, portanto, povoá-los também foi uma forma de protegê-los desses ataques.

Embora enfatize que a maioria dos colonos era pacífica e mantinha boas relações com o México, o historiador reconhece que o peso demográfico que alcançaram no Texas teve uma importância decisiva em sua separação. Quando os mexicanos perceberam isso, já era tarde demais, acrescenta Quiroga.

Greg Cantrell, por sua vez, considera que a decisão de permitir o estabelecimento de colonos no Texas foi uma medida com a qual o México tentou evitar a perda daquele território, tentando exercer algum controle sobre um processo que parecia inevitável dada a rápida expansão dos Estados Unidos.

"A questão era: temos essa região fértil na fronteira com os Estados Unidos e podemos perdê-la para imigrantes ilegais que, assim que forem grandes o suficiente, vão querer se separar do México, ou podemos permitir a entrada de americanos colonos que serão controlados e que serão leais ao governo enquanto estiverem sob o olhar atento de empresários como Stephen Austin", diz ele.

"Eles viram a presença de americanos no Texas como um mal menor. Mas não havia alternativa: seriam ilegais ou legais", acrescenta.

De qualquer forma, o resultado acabou sendo o mesmo que se temia.

BBC Brasil

O que há de mais fake que as fake news?




A tergiversação em torno dessa empulhação, do gigantismo das big techs e de todos os seus nefandos corolários explica-se pelos trilhões acumulados pelos modernos robber barons. 

Por Fernão Lara Mesquita (foto)

O empreendedorismo é o domínio do instinto. Não é para quem quer é para quem é. A política e seu produto por excelência na democracia — a lei — é a superação da que rege o instinto e manda todo bicho “usar sua força para comer o mais possível sempre que a ocasião se apresentar”, um movimento concertado de defesa das presas contra os predadores que acaba por ser acatado até por esses últimos quando a História os ensina a pensar adiante da próxima refeição.

A informática não mudou rigorosamente nada na essência das relações humanas que já foi bem precisamente sintetizada no adágio de que “o homem é o lobo do homem”. Ela criou uma reprodução matemática do mundo real sujeita não mais às velocidades e multiplicações do universo da História e do mundo físico mas às próprias a essa ciência abstrata, o que subverteu violentamente as noções de espaço e tempo, fundamentos do conhecimento humano, com implicações altamente disruptivas nas aplicações que daí decorrem, especialmente as ligadas à produção e à transação de bens e riquezas e, mais que para todas as outras, para a capacidade de cada nação de impor leis precisas, estáveis e bem delimitadas como têm de ser as das raras democracias de fato existentes.

Como sempre, desde o controle do fogo, do arco e da roda e da domesticação dos animais, das plantas e dos metais, essa disrupção proporcionou aos “predadores alfa” da política e da economia explorar os vazios de regulamentação que se abriram com a violência e o oportunismo que o instinto lhes pede. Sob a bandeira da “reforma da humanidade” de sempre, o Google auto-atribuiu-se o direito de mudar as regras do ciclo de vida da informação espionando, indexando e tornando acessíveis para todo o sempre os pormenores das manifestações de preferência e trocas de informações entre cada um dos seres humanos sem pedir licença a ninguém, ato criminalizado em todas as legislações do mundo para todas as tecnologias não baseadas em bits.

Em paralelo, na melhor técnica do malandro que atrai a vítima sempre com a promessa de benefícios impagáveis, copiou e indexou a informação coletada e sistematizada por profissionais de todos os campos do saber em todos os tempos sem pagar direitos a quem trabalhou para produzi-la, outro crime tipificado para todos os meios anteriores, e entregou o produto desse saque planetário como um “presente grátis” a quem antes tinha de pagar por ele, “apenas” em troca da livre espionagem dos hábitos, preferências, intimidades e roteiros dos consumidores desse “serviço”. E então amealhou uma fortuna indecente vendendo os segredos de cada eleitor e cada consumidor aos tubarões da política e da economia.

Escancarada a porta, por lá passaram as boiadas da Amazon e do Facebook, as “ferrovias” de hoje com seu séquito de robber barons de vida curta, comprados com baratos bilhões para colocarem-se à salvo sem incomodar ou concorrer, e todo o resto das mazelas que conhecemos, com as Apples no fim da fila, explorando nas chinas da vida o trabalho escravo pelo qual seriam presas em casa e arrastando todos os seus concorrentes para o mesmo atalho que matou, numa só cajadada, séculos de conquistas dos trabalhadores nas democracias, tudo sob o silêncio cúmplice da política podre que finge não entender a exata semelhança entre os crimes dos donos das big techs e seus caronas de hoje e os dos robber barons de ontem.

Agora, montados nos trilhões de dólares amealhados com esse tipo de “competência”, já se sentem fortes o bastante para desafiar as maiorias de frente com a censura explícita e a incineração virtual dos “hereges” em autos-de-fé públicos mediante os quais ficam “cancelados” não só das tribunas a partir das quais a política captura os votos necessários para deter essa gigantesca falcatrua como também da vida econômica que migrou totalmente para a reprodução virtual do mundo real.

Em maio de 2014, depois que a Agência de Proteção de Dados da Espanha reassegurou a um professor o direito de ter o seu passado esquecido, a União Européia como um todo, mais “freguesa” que proprietária das mega multiplataformas da internet, restabeleceu o princípio de que o futuro da vida digital deve ser estabelecido pelas pessoas, suas leis e suas instituições democráticas e não por qualquer grupo de moleques montados numa tecnologia nova o bastante para não ser imediatamente compreendida, em seus meandros e processos, nem pelos seus usuários, nem muito menos pelos legisladores, o que recoloca nos seus devidos termos a questão decisiva deste início de 3º Milênio marcado pelo desvio do “capitalismo de espionagem” (surveillance capitalism) que só pode prosperar com a morte da democracia.

O atual impasse prende-se mais à corrupção que às dificuldades técnicas envolvidas. Não é preciso inventar nada de conceitual ou filosoficamente novo, como querem fazer crer os enganadores de sempre, apenas submeter as big techs e suas praças públicas virtuais às mesmas leis que enquadraram os robber barons do passado e garantem o exercício dos direitos fundamentais do homem nas praças públicas físicas (à propriedade, à sua intimidade #ownyourdata, à liberdade de crença e expressão, ao devido processo, etc.), impondo aos tecnólogos, como condição para operar seus aplicativos, plataformas e redes, a busca das soluções necessárias para implementar essas garantias.

Sim, conseguir são outros 500. Mas ser obrigado a tentar é tudo que sempre fez a humanidade andar para a frente…

Quanto ao gigantismo que desenvolveram violando as leis que todos os seus concorrentes eram obrigados a cumprir, vale o mesmo princípio. A democracia se reapresentou ao mundo em 1787 com a missão de evitar a criação de superpoderes no universo da política com a bandeira de que somente cada indivíduo tinha o direito de escolher o seu modo de alcançar a felicidade e definir o que era ou não “fake” para ele em matéria de pensamentos e crenças, o que lhe deu um impulso inicial brilhante mas não suficiente.

Na virada do século 19 para o 20, refém da corrupção gerada pelo seu principal “defeito de fabricação” que foi a blindagem, ainda que temporária, dos mandatos dos representantes eleitos contra seus eleitores, acrescentou à sua lista de objetivos prioritários, mediante o aparato antitruste que só pôde impor armando a mão do eleitor para dar a palavra final sobre cada ato dos seus representantes, a prevenção da criação de superpoderes também na economia privada, o que pôs em cena o único “estado de bem estar social” que jamais se materializou no mundo real: não o que o socialismo prometia autorizando o governante de plantão a distribuir dinheiro alheio entre seus amigos e correligionários mas aquele que Theodore Roosevelt dotou do moto continuo naturalmente invulnerável à politicagem da limitação da competência para açambarcar mercados pela manutenção obrigatória do grau mínimo de competição necessário em cada setor da economia para obrigar os empreendedores a disputar trabalhadores aumentando salários e consumidores reduzindo preços, com o Estado estritamente no papel de árbitro.

Foi esse o truque simples que fez dos Estados Unidos o que são (estes em que o PIB do estado de Nova York equivale ao do Brasil inteiro e o dos outros 49 estados é “lambuja” e não aquele que nossa imprensa mostra) e propiciou que arrastassem a humanidade inteira atras de si para patamares mais altos de liberdade, afluência e progresso da ciência ao longo de escassos ¾ do século 20 que os alcançados na soma de todas as centenas de séculos anteriores.

Agora quer a horda dos reacionários a volta ao padrão anterior a 1787, com sua igreja ditando o que é e o que não é “verdade” e calando quem discorda na marra em nome da “defesa da democracia”.

“FAKE“!

A tergiversação em torno dessa empulhação, do gigantismo das big techs e de todos os seus nefandos corolários explica-se pelos trilhões acumulados pelos modernos robber barons, que engraxam tanto os que correm atras do poder de explorar o próximo pela via da economia quanto os especializados em faze-lo pela da política, muito mais que por qualquer dificuldade técnica para corrigir o rumo e aplicar a elas regulamentos honestos, democráticos e limpos.

Vespeiro

Em destaque

EDITORIAL: O Silêncio das Ruínas – A Agonia do Patrimônio Histórico de Jeremoabo

  EDIÇÃO 2:  DO PASSADO AO PRESENTE - ACERVO DE FOTOS ANTIGAS DE JEREMOABO        Fonte: JV PORTAL / JEREMOABO TV RP: 9291/BA ALERTA URGENTE...

Mais visitadas