domingo, janeiro 09, 2022

Ex-chefe de segurança do Cazaquistão é preso e país enfrenta crise




A prisão de Massimov foi anunciada pelo Comitê de Segurança Nacional

Por Olzhas Auyezov e Tamara Vaal 

Almaty (Cazaquistão) - O ex-chefe da inteligência do Cazaquistão foi preso sob suspeita de traição, informou neste sábado a agência de segurança estatal, enquanto a ex-república soviética reprime uma onda de agitação e começa a atribuir culpa.

A detenção de Karim Massimov foi anunciada pelo Comitê de Segurança Nacional, chefiado por ele até ser demitido pelo presidente Kassym-Jomart Tokayev na quarta-feira, após protestos violentos que varrem o país da Ásia Central.

De acordo com o gabinete de Tokayev, ele teria dito por telefone ao presidente russo, Vladimir Putin, que a situação estaria se estabilizando.

"Ao mesmo tempo, persistem focos de ataques terroristas. Portanto, a luta contra o terrorismo continuará com total determinação", disse ele.

O Kremlin disse que Putin apoiou a ideia de Tokayev de convocar uma videochamada de líderes da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), sob cujo guarda-chuva a Rússia e quatro outras ex-repúblicas soviéticas enviaram tropas ao Cazaquistão para ajudar a restaurar a ordem. Não estava claro quando isso aconteceria.

Dezenas de pessoas foram mortas, milhares foram detidas e prédios públicos em todo o Cazaquistão foram incendiados na semana passada na pior violência vivida no produtor de petróleo e urânio desde que se tornou independente, no início dos anos 1990, quando a União Soviética entrou em colapso.

Reuters / Agência Brasil

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Cazaquistão prende ex-chefe de inteligência por "traição"

Ex-república soviética é há dias palco de distúrbios. Governo diz que forças de segurança mataram 26 manifestantes e prenderam mais que 4.400. Moscou rebate crítica dos EUA a envio de tropas.

O ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional do Cazaquistão, Karim Massimov, foi preso sob suspeita de alta traição, informou o órgão neste sábado (08/01), em meio a dias de violentos protestos que se alastraram por diversas cidades do país.

A prisão foi anunciada pelo próprio Comitê de Segurança Nacional, responsável por contraespionagem e combate ao terrorismo, e que ele havia chefiado até ser demitido nesta quarta-feira pelo presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev.

O país tem enfrentado dias de distúrbios na maior onda de manifestações desde que o país se tornou independente, no início da década de 1990, durante o desmantelamento da União Soviética.

Mais de 4 mil presos

O Ministério do Interior do país informou também neste sábado que forças de segurança mataram 26 manifestantes e que 18 policiais morreram nos confrontos dos últimos dias. Mais que 4.400 pessoas foram presas.

Neste sábado, não houve nenhum relato imediato de distúrbios em Almaty, mas a polícia dispersou uma manifestação e fez detenções na cidade de Aktau, enquanto tiros esporádicos foram ouvidos em Kyzylorda, de acordo com a agência de notícias russa Sputnik.

A pedido de Tokayev, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, uma aliança militar liderada pela Rússia de seis ex-estados soviéticos, enviou cerca de 2.500 soldados, principalmente russos, para o Cazaquistão como "força de pacificação".

Parte da força está guardando instalações do governo na capital Nur-Sultan, que "possibilitou a liberação de parte as forças das agências de aplicação da lei do Cazaquistão e redistribuí-las a Almaty para participar da operação antiterrorista'', disse uma declaração do escritório de Tokayev.

Tokayev autorizou na sexta-feira as forças de segurança a atirar para matar aqueles que participam de distúrbios.

"Situação se estabilizando"

Em telefonema com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, Tokayev disse que a situação no país está se estabilizando. "Ao mesmo tempo, focos de ataques terroristas persistem. Logo, a luta contra o terrorismo prosseguirá com plena determinação", teria dito o chefe de Estado, segundo informação divulgada por seu escritório.

O Kremlin disse que Putin apoiou a ideia de Tokayev de convocar uma videochamada de lideranças da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), aliança militar liderada pela Rússia. A OTSC, enviou tropas ao Cazaquistão para ajudar a restaurar a ordem no país. Não ficou claro quando a chamada aconteceria.

Também neste sábado, Moscou classificou de "grosseiros" os comentários do secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que havia alertado na sexta-feira que seria "muito difícil" para o Cazaquistão conseguir que os militares russos deixem o país. "Uma lição da história recente é que uma vez que os russos estão em sua casa, às vezes é muito difícil fazê-los sair", afirmou Blinken.

Deutsche Welle

Economia é o grande temor dos brasileiros em 2022, mostra pesquisa




Uma dose considerável de otimismo  em relação à pandemia, em contraste com um forte  ceticismo no que diz respeito à economia. Visto em grandes traços, esse é o resumo das expectativas dos brasileiros para 2022.

Posto em números, o quadro geral é o seguinte: uma parte substancial da população, o equivalente a 77%, não acredita em um novo avanço da covid-19 neste ano. Em contrapartida, 81% temem que os entraves econômicos percebidos em 2021, que resultaram em desemprego e inflação, sejam agravados nos próximos 12 meses.

Tal perspectiva reduz enormemente a intenção de consumo e amplia as preocupações com trabalho e renda. Guardar dinheiro, nesse cenário, passou a ser não só um desejo, mas um desafio para o futuro imediato das pessoas.

Essa troca de guarda nos anseios dos brasileiros, em que a doença cede espaço à crise econômica, foi identificada por uma pesquisa de opinião realizada pelo Instituto Travessia, de São Paulo, com exclusividade para o Valor. A enquete foi feita entre os dias 4 e 6 de dezembro, a partir de entrevistas por telefone com uma amostra de 1,2 mil pessoas em todo o país. No que diz respeito à covid-19, os 77% dos que não creem numa piora do cenário atual dividem-se em três subgrupos. Há os esperançosos, os comedidos e os confiantes desvairados.

A turma dos esperançosos é formada por 31% dos entrevistados. Para eles, a situação da pandemia vai melhorar em 2022. Os moderados representam 37% do total. Estes consideram que a situação permanecerá igual à registrada no fim de 2021.

“Como o levantamento foi feito na primeira semana de dezembro, num momento em que a variante ômicron estava sob aparente controle, esse ‘permanecer igual’ deve ser entendido como ‘continuar bom’, ou ainda, ‘continuar razoável’”, diz Renato Dorgan Filho, analista e sócio do Instituto Travessia. Já um grupo de 9% foi mais longe: cravou que a pandemia de covid-19 vai simplesmente terminar neste ano. No outro extremo das expectativas, porém, 15% acreditam que a situação vai se agravar.

Ainda que a visão panorâmica seja positiva, muita gente mostrou-se disposta a manter os cuidados básicos contra o novo coronavírus. A grande maioria (89%), por exemplo, disse que pretende continuar usando máscaras.

Nessa mesma linha, 76% aceitam observar alguma forma de distanciamento social, sendo que 55% não querem frequentar lugares com a presença de muitas pessoas. Se possível, 34% gostariam de trabalhar em home office. Em contrapartida, uma parcela bem menor da população, o equivalente a 11%, afirmou que não vai adotar nenhum tipo de precaução contra a doença neste ano.

Carlos Melo, cientista político e professor da escola de negócios Insper, em São Paulo, considera que essa adesão maciça a ações preventivas tem uma leitura política inescapável. “Ela mostra o imenso isolamento da postura adotada pelo governo federal em relação à pandemia, se comparada ao sentimento da população”, diz.

“Tal fato fica evidente quando quase nove em cada dez brasileiros [os 89% acima mencionados] ainda aceitam usar máscaras, passados quase dois anos desde o início da crise na saúde. Depois de tanto tempo, seria razoável imaginar que esse tipo de medida sofreria algum tipo de desgaste, mas a pesquisa indica o contrário.”

Nessa mesma linha, Dorgan Filho, do Travessia, acrescenta: “Esta sondagem confirma levantamentos anteriores nos quais o comportamento ‘negacionista’ diante da covid não vai além de 15% dos brasileiros. Neste caso, pode-se dizer que ele ficou restrito aos 11% que não pretendem se prevenir de nenhuma maneira”, ressalta.

“A aceitação do uso de máscaras, o objetivo de manter o distanciamento e o medo de lugares lotados revelam, sem deixar dúvidas, que ainda existe um grande temor em relação à pandemia, ainda que a expectativa geral sobre um eventual recrudescimento da doença não seja ruim.”

Se é assim no front pandêmico, no econômico qualquer demonstração de confiança se desfaz. Questionados sobre quais as maiores dificuldades que o Brasil enfrentará em 2022, os entrevistados escolheram três itens ligados à economia em uma lista com seis opções.

Em primeiro lugar, apareceu o tema genérico “crise econômica”, mencionado por 25% das pessoas. A seguir, vieram a “inflação”, com 23%, e o “desemprego”, com 20%, sendo que ambos tinham percentuais próximos do líder. Na quarta posição, ocupando um segundo patamar numérico, ficou a “crise política” com 15%. Já as opções ligadas à covid-19, como o “coronavírus” e a “falta de vacinas”, apareceram numa faixa inferior do espectro das inquietações, com 8% e 3% das escolhas, respectivamente.

Além do mais, para 45% das pessoas ouvidas, o desempenho da economia não vai melhorar em 2022, se comparado a 2021. E o problema, frisam os analistas, é que a situação já não estava nada boa no ano passado. As mais recentes - e benevolentes - estimativas de crescimento do PIB para os últimos 12 meses giram em torno de 0,5% e, mesmo assim, estão em queda constante.

“Isso quer dizer que para quase metade dos brasileiros a situação do país vai continuar ruim”, afirma Bruno Soller, responsável técnico pela pesquisa e sócio do Travessia. Outros 36% mostraram-se ainda mais descrentes. Eles acreditam que a conjuntura vai piorar. Somados, esses dois grupos alcançam 81% da população. Por outro lado, 17% confiam em mudanças positivas nessa seara.

Note-se que o prognóstico de estragos na área econômica adensou de forma constante ao longo da pandemia, segundo uma série de pesquisas realizadas pelo Travessia e publicadas com exclusividade pelo Valor nos dois últimos anos. Em março de 2020, por exemplo, quando a doença começou a varrer o mundo, 54% das pessoas classificavam como “devastadoras” as possíveis consequências econômicas do coronavírus.

Em fevereiro do ano passado, essa interpretação já dominava 74% dos brasileiros. “Agora, com aperto monetário, juros altos e pressão inflacionária, as expectativas só tendem a piorar”, diz Dorgan Filho. “Não por acaso, a necessidade de apertar os cintos virou uma espécie de mantra para 2022.”

É isso o que a pesquisa revela, por exemplo, ao examinar a intenção de consumo dos entrevistados. Na enquete, quase oito em cada dez pessoas (79% do total) afirmaram que não pretendem ampliar gastos de nenhuma espécie neste ano. “Estes, que formam uma imensa maioria, vão prender o cinto no último botão”, diz Dorgan Filho.

No mais, quando falam em algum tipo de elevação de dispêndios, 9% citam a alimentação, um item básico. Só 4% mencionam o objetivo de adquirir bens duráveis (como carros, geladeiras e máquinas de lavar) e outros 4% em ampliar despesas com o lazer.

Quando trataram das maiores esperanças para este ano, 49% das pessoas escolheram o tópico “conseguir um emprego melhor” em uma lista com quatro alternativas. Acrescente-se que, em outra resposta, 33% dos entrevistados apontaram como prioridade profissional para 2022 obter um “aumento de salário”. Outros 15%, nessa mesma questão, assinalaram que gostariam de “mudar de emprego”.

Em outra enquete feita pelo Travessia no fim de 2020, sobre estimativas para 2021, esse mesmo objetivo (“mudar de emprego”) teve baixíssima adesão. À época, reuniu 7% das respostas, ficando em último lugar entre um total de seis itens. “Hoje, o fato é que vemos saltar aos olhos em diversos pontos da pesquisa uma imensa preocupação com o trabalho e a renda”, destaca Melo, do Insper. “Em muitas respostas esses assuntos ficam em destaque. E isso é muito coerente com o momento que vivemos.”

Ainda sobre as esperanças para 2022, em segundo lugar ficou a opção “guardar dinheiro”, reunindo 32% das escolhas. Dorgan Filho, do Travessia, frisa que esse é um objetivo constantemente mencionado em sondagens qualitativas, realizadas com grupos menores, e nas quais os temas são debatidos em detalhes. “Em todas as discussões, percebemos uma grande preocupação com a poupança em todas as faixas de renda”, diz o analista. “Essa talvez seja uma lição importante da pandemia, porque todos temem o que pode acontecer mesmo no curto prazo e gostariam de contar com algum tipo de reserva. Hoje, o pé-de-meia parece estar se tornando muito mais importante para os brasileiros.”

O problema é que, apesar das expectativas, não será simples a realização dos desejos relacionados ao trabalho neste ano. Na prática, eles “não são compatíveis com a realidade”, como observa Fernando Veloso, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio. “O cenário do emprego já não vinha bem desde a crise de 2014 a 2016, que deixou marcas profundas no mercado de trabalho do país”, diz.

“A pandemia tornou tudo muito mais dramático, pois afetou profundamente os menos escolarizados. Para este ano, existe uma perspectiva de recuperação, mas a criação de postos de trabalho deve se concentrar nos informais, os mais vulneráveis, com menor proteção social e salários mais baixos.” Ou seja, uma tendência que vai de encontro a tudo o que os brasileiros afirmam almejar para 2022.

Sobre o que gostariam de fazer com o tempo livre, tanto em 2022 como no ano passado, a principal resposta foi “ficar mais perto da família”. Mudou, no entanto, a ordem das opções seguintes em relação a 2021. Agora, “ter mais opções de lazer” e “praticar esportes” surgem acima de alternativas como “ampliar amizades” e “encontrar um(a) novo(a) parceiro(a)”.

Qual o motivo da mudança? Dorgan Filho anota: “A enquete não traz uma explicação clara sobre essa mudança, mas é possível que as pessoas já não se sintam mais tão sozinhas como nos momentos de forte isolamento social, e isso pode ter alterado a ordem das respostas”.

No campo político, a animação, para dizer o mínimo, não é a mais abundante. Ao contrário. A maior parte dos entrevistados considerou baixas as chances de a eleição presidencial deste ano melhorar a situação do país. Para quase metade da população (47%), ela não vai mudar nada. Nesse tema, o time dos otimistas é formado por 26% dos brasileiros. Esse é o tamanho do grupo que atribui ao pleito um possível impacto positivo. Em contrapartida, 24% apostam que o efeito da corrida presidencial será negativo.

Na prática, tanto os animados, com 26%, quanto os céticos, com 24%, se equivalem, pois a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para cima e para baixo. “E essa divisão é natural. Este é o ano da disputa, da briga, não de mudanças. Não por acaso, em outra questão, 15% falaram que temem uma crise política no país em 2022”, diz o cientista político Melo. “Se a eleição provocar qualquer alteração significativa, ela só deve ocorrer em 2023, com a posse do novo presidente. Mas tudo isso ainda é uma grande incógnita neste momento.”

Quanto às prioridades do próximo presidente, os temas saúde, emprego e educação, nesta ordem, ganharam maior destaque em relação a assuntos como segurança e meio ambiente. Em pesquisas de opinião pública, mesmo antes da pandemia, a questão da saúde sempre ocupou o topo da lista de preocupações dos brasileiros. Para os analistas, contudo, a temática veio para ficar com a covid-19, cujos desdobramentos ainda estão distantes de cessar. Eles observam que os outros assuntos em evidência na enquete (caso do emprego e da educação) também estão relacionados ao avanço da doença não só no país, mas no mundo.

Os participantes da pesquisa escolheram ainda uma frase, entre quatro alternativas, com a qual mais se identificaram. Todos os enunciados, em tese, estavam relacionados a discursos de possíveis candidatos à eleição presidencial deste ano. Ao final, 35% destacaram a importância do “combate à corrupção”; 27%; a relevância de “valores morais e religiosos”; 26%, o “combate à pobreza e à desigualdade”; e 12% a pertinência de princípios como a “livre iniciativa e o livre mercado”.

“Essas respostas mostram o possível respaldo que cada uma dessas manifestações pode ter entre eleitores”, afirma Dorgan Filho. “Chama atenção que quase um terço das pessoas [27% do total] tenha optado pelo item que trata de valores morais e religiosos. Em princípio, isso revela uma postura conservadora até surpreendente do eleitorado.”

Ainda que as respostas estabeleçam uma hierarquia de bandeiras de uso político recorrente, Melo, do Insper, pondera que a adesão a determinada frase não pode ser interpretada como apoio direto a qualquer candidato que a utilize - ainda que com frequência. “Mesmo porque qualquer pessoa pode falar em valores morais e religiosos”, diz ele. “Isso não significa que ela tenha um ponto de vista radical em relação ao assunto, nem que vai votar com base nesse critério. Na verdade, na maior parte das vezes, as pessoas votam com o bolso, ou mesmo, com o estômago. E considerando tanto a situação econômica do país como os dados da pesquisa, é justamente isso que pode acontecer neste ano.”

Outro ponto da sondagem que chamou atenção dos analistas diz respeito às expectativas pessoais para este ano. Nesse caso, a indagação foi a seguinte: “Em relação a 2021, você acha que sua vida em 2022 será...”. E 45% responderam “igual” a 2021; outros 29%, “melhor”; e 16%, “pior”.

“Como a situação geral não está boa, muitos dos que responderam ‘igual’ não devem estar satisfeitos. Se somados aos 16% que acreditam que a vida vai piorar, teremos 61% de pessimistas”, destaca Melo. “Isso é muita gente. Em geral, as pessoas veem a sua condição pessoal com mais otimismo, ainda que a conjuntura do país não seja boa. Esse é um dado muito importante da pesquisa. Ele indica que pode existir um grande desencanto.”

Bruno Soller, do Travessia, destaca que, para 2022, os homens estão levemente mais animados do que as mulheres. Entre eles, 31% acreditam em dias melhores neste ano. Entre elas, são 28%, ainda que os dois resultados estejam dentro da margem de erro da pesquisa (os três pontos percentuais para cima ou para baixo).

Quanto mais jovem, maior a confiança no futuro, pois 33% dos que têm entre 16 e 24 anos acham que as coisas vão melhorar no Brasil em 2022, ante 27% dos que somam 60 anos ou mais. O otimismo que existe se concentra nas camadas com maior renda, reunindo 36% dos que ganham acima de cinco salários mínimos por mês. Ele alcança 28% dos que recebem até dois salários e estão nas faixas mais pobres.

Ainda que no conjunto a visão geral não seja muito animadora, Soller observa que ela já foi pior. E isso faz pouco tempo. A mesma pergunta sobre as expectativas pessoais foi feita para os brasileiros em 2020 a respeito de 2021. Na ocasião, o total de pessoas que acreditava numa melhora de suas vidas no ano seguinte era de 22% dos entrevistados. Ou seja, ficava sete pontos percentuais abaixo dos atuais 29%. Os que esperavam pelo pior para 2021 representavam 24%. Estavam, portanto, oito pontos percentuais acima dos 16% do mais recente levantamento. Ou seja, mesmo que os números recentes não tenham apresentado uma guinada radical, um entusiasmo exultante, eles melhoraram em relação ao ano passado. E esse pode ser o grande sinal - ou mesmo, o sinal possível - da esperança dos brasileiros.

Valor Econômico

Bolsonaro não é Trump

 




O ex-presidente Donald Trump concedia uma entrevista, com plateia favorável, quando lhe perguntaram se havia tomado a dose de reforço. Trump respondeu “sim” — e com entusiasmo.

Por Carlos Alberto Sardenberg (foto)

Foi surpreendido com vaias. Não se intimidou. Apontou o dedo para o grupo que vaiava e comentou que se tratava de uma minoria. Era mesmo.

Como conciliar isso com a atitude francamente negacionista dos republicanos e do próprio Trump? São contra qualquer medida que torne a vacina obrigatória — como ocorre quando uma empresa só emprega imunizados ou quando um estabelecimento só permite a entrada de quem apresentar o certificado.

Para os republicanos, essas regras restringem a liberdade individual, configuram uma quase ditadura.

Nesse caso, vacinar-se não é contraditório?

Parece. E, de fato, 60% dos americanos não vacinados se declaravam republicanos — isso em outubro, segundo pesquisa citada pelo economista Paul Krugman em coluna no New York Times.

A explosão da Ômicron vem sendo chamada de “histeria irracional” por lideranças republicanas do primeiro time.

E, entretanto, Trump se vacinou e contou isso para todo mundo.

Qual a lógica?

Trata-se de política, não de ciência, sugere o mesmo Krugman. A hipótese é a seguinte: mesmo sabendo que a pandemia é grave e que a vacina funciona, os chefões republicanos fazem campanhas negacionistas para, primeiro, fidelizar sua base de ignorantes e, segundo, atrapalhar o governo do democrata Biden, criar caso, gerar medo e insegurança, sentimentos que sempre se voltam contra o presidente de plantão.

É extremamente cruel fazer política com a morte de milhares de pessoas. É pura maldade, mas lógico para quem está na oposição e não se guia pelos valores morais.

Tudo isso para dizer que o presidente Bolsonaro e sua turma não agem como os republicanos dos Estados Unidos. Bolsonaro está no governo. Seu negacionismo, que leva medo e insegurança a milhões de brasileiros, age contra o próprio bolsonarismo. Ao contrário de Trump, que se imuniza, Bolsonaro não se vacina e acredita mesmo em todas aquelas asneiras que se fala sobre os imunizantes e que tentam minimizar a pandemia.

Ele acha mesmo que existem por aqui “os tarados da vacina”, acredita que crianças não morrem de Covid-19, embora os dados provem o contrário, e desconfia mesmo que a Anvisa age com base em interesses escusos.

Não prova nada, assim como nunca provou que as urnas eletrônicas podem ser fraudadas.

Trata-se de um negacionismo realmente ignorante, e não uma tática política. A consequência política é contra Bolsonaro. Basta olhar pesquisas mostrando que metade dos que votaram no “mito” já o abandonou. São os que votaram em Bolsonaro por medo de Lula, mas são aqueles que se vacinam e temem por suas vidas no ambiente de pandemia.

Trump mandou invadir o Capitólio para tentar reverter a derrota que sofrera nas urnas. Até hoje, ele diz que a eleição foi uma fraude.

Bolsonaro tentou um golpe no 7 de Setembro, numa ação tão estapafúrdia que quase levou a sua própria queda. Continua dizendo que houve fraude na eleição que ganhou com relativa folga.

Trump joga com as palavras, Bolsonaro acredita nas bobagens que diz, como se estivesse numa mesa de botequim.

Trump é esperto. Bolsonaro é um tolo que se elegeu por uma combinação incrível de circunstâncias políticas e acasos.

Trump sabe o que faz na oposição. Bolsonaro age contra seu próprio governo, uma mistura de incompetência e ideias (ideias?) ruins.

Trump continua exercendo a liderança que construiu num programa de televisão. Bolsonaro continua como um deputado do baixo clero, de onde nunca deveria ter saído.

Por tudo isso, sua reeleição é altamente improvável. Não se pode dizer impossível porque, enfim, já aconteceu uma vez.

Mas, em circunstâncias normais, a questão política hoje é saber quem será adversário para Lula. Num ano ruim para a economia, ainda não se sabe quem apontará um rumo para a retomada do crescimento. Não é Lula, pelo que têm dito o candidato e seus seguidores.

O Globo

EUA descartam retirar tropas da Europa para aplacar Moscou

 



Departamento de Estado americano afirma não ter intenção de reduzir contingentes no flanco oriental da Otan, a fim de dispersar tensões com Rússia. Ucrânia e Cazaquistão são fontes de desavenças entre as duas potências.

Os Estados Unidos desmentiram neste sábado (08/01) notícias de que estariam se preparando para reduzir seus contingentes militares no Leste Europeu, no contexto das conversas com a Rússia sobre a Ucrânia, programadas para a segunda semana de janeiro.

Citando diversas fontes, a emissora NBC News noticiara na véspera que Washington estaria disposto a discutir uma redução de suas tropas na região, enquanto a Rússia se retiraria da fronteira da Ucrânia e de outros territórios.

"Na verdade, temos sido claros com a Rússia, em público e privadamente, que, caso ela continue a invadir a Ucrânia, daríamos reforço a nossos parceiros da Otan no flanco oriental, com os quais temos uma obrigação sagrada enquanto aliados", escreveu no Twitter o porta-voz do Departamento de Estado Ned Price.

Neste sábado, sob condição de anonimato, um alto funcionário do governo americano contou a repórteres, durante uma coletiva organizada pela Casa Branca, que os EUA estariam dispostos a discutir certos tópicos: as mobilizações de mísseis na Ucrânia e os limites dos treinamentos militares no Leste da Europa estariam abertos ao debate.

No entanto, prosseguiu, os acertos dependeriam da disposição russa de deixar de usar suas forças armadas para ameaçar a Ucrânia. Além disso, não se faria nenhum acordo sem envolver na discussão Kiev e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Os americanos, porém, não pretenderiam negociar o tamanho de suas tropas nem o volume de equipamentos no flanco oriental da Otan, explicou a fonte governamental anônima.

"Como a raposa se queixando das galinhas"

Nos últimos meses, a Rússia posicionou mais de 100 mil soldados próximo à fronteira com a Ucrânia, provocando apreensões no Ocidente. Em dezembro, apresentou aos EUA uma série de reclamações e exigências como condição para restabelecer relações. A lista incluía o fim dos postos militares da Otan no flanco oriental e o fim da expansão da aliança transatlântica na região.

Em caráter informal, a Otan rejeitou essas exigências, afirmando que os russos não teriam poder de veto sobre as filiações à organização nem ditariam suas operações. Nesta sexta-feira, o secretário de Estado Antony Blinken acusou o país de "distorcer os fatos" e de "promover uma narrativa falsa" de que estaria ameaçado pela Ucrânia e a Otan, a fim de justificar o reforço às próprias tropas.

"É como a raposa dizer que teve que atacar o galinheiro porque seus ocupantes apresentavam algum tipo de ameaça. Nunca vimos uma distorção dos fatos dessa ordem, antes", comentou, referindo-se à ocupação da península ucraniana da Crimeia, em 2014, e ao apoio do governo de Vladimir Putin aos separatistas da região de Donbass. Mesmo assim, ressalvou, uma solução diplomática ainda é possível e preferível.

A Ucrânia estará no alto da agenda de diversos encontros diplomáticos na próxima semana. Na segunda-feira, a vice-secretária de Estado americana, Wendy Sherman, tem reunião marcada em Genebra com seu homólogo russo, Sergei Ryabkov. Há esperanças de que os dois diplomatas veteranos sejam capazes de ajudar a dispersar as tensões acumuladas há meses.

Na quarta-feira seguinte, o Conselho da Otan para a Rùssia se encontrará em Bruxelas, pela primeira vez desde 2019. Segue-se uma conferência da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Viena, presidida pela Polônia.

Guerra de insultos sujeitos a lei marcial

Embora a Ucrânia seja o assunto mais premente, os recentes eventos no Cazaquistão também provocaram uma guerra verbal entre o Departarmento de Estado americano e o Ministério do Exterior russo.

Nesta sexta-feira, Blinken alertou, referindo-se à ex-república soviética: "Uma lição da história recente é que, uma vez que os russos estão na sua casa, às vezes é difícil fazê-los ir embora."

Por sua vez, o Ministério do Exterior em Moscou mostrou-se ofendido, escrevendo no serviço de mensagens Telegram: "Se Antony Blinken gosta de aulas de história, então deve levar o seguinte em consideração: quando os americanos estão na sua casa, é difícil permanecer vivo, sem ser assaltado nem violentado."

Teoricamente, tais insultos estariam sujeitos às leis militares americanas conhecidas como Código Uniforme de Justiça dos EUA, podende resultar numa corte marcial por violação de conduta.

Deutsche Welle

"Armamentização" do comércio internacional




Pascal Lamy conversa com o correspndente do jornal Valor e traz interessante análise sobre o atual momento do comércio mundial.

Por Assis Moreira, correspondente em Genebra

Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), entre 2005 e 2013, e comissário de comércio da União Europeia (UE) de 1999 a 2004, focaliza no longo prazo sobre desafios da economia mundial, em conversa telefónica num fim de tarde.

Para Lamy, as turbulências, causadas por uma oferta em atraso em relação à retomada rápida da demanda global, são passageiras e dentro de dois anos serão esquecidas.

Em contrapartida a situação vai continuar complicada com tensões entre EUA e China, as duas maiores economias do mundo. Os dois se sentem ameaçados, um pelo outro. E essa rivalidade, avalia, vai perssitir pelas próximos 30 anos, pelo menos.

Ele lembra que, em grandes momentos no passado, a geoeconomia — que integra, cria interdependência, normalmente estabiliza relações — era mais forte. A situação mudou e a geopolítica, que é o interesse dos Estados e que se afrontam, se impõe agora. E que é preciso levar isso em conta e não visar o mesmo nível de integração econômica, ou de ambição de 20 anos atrás.

Arguto analista da situação global, consultado e ouvido por autoridades do mundo inteiro, Lamy chama a atenção para o fato de tanto os EUA como a China estarem já utilizando mais o cometia como arma.

E o risco é de que Washington e Pequim utilizem ainda mais sanções extraterritoriais, o que ele chama de "armamentização" (neologismo a partir do inglês “weaponization”).

Os EUA tombaram com Donald Trump no unilateralismo. E isso não mudou realmente com o governo de Joe Biden por razões geopolíticas. Os EUA se sentem ameaçados pela China e querem poder atacar mais duramente Pequim com medidas comerciais contrárias às regras da OMC, que preferem paralisada e enfraquecida.

É a razão pela qual os americanos sairam na prática da entidade global levando a chave do Órgão de Apelação, espécie de tribunal supremo do comércio mundial, e com isso evitar ser condenados.

Além disso, Biden tem pouca margemde manobra interna, com os democratas influenciados por sindicatos muito ativos na velha economia, como o setor siderúrgico e muito protecionistas.

De seu lado, a China se "recomunizou" com o Xi Jinping, diz Lamy. O líder chinés rompeu com a linha de abertura de Deng Xiaoping, e Pequim cessou de convergir com o modelo dominante do capitalismo munclializado. Xi freou a privatização da economia e aumentou por dois o setor estatal. Ter hoje 30%. de economia nacionalizada significa alimentar contenciosos com os parceiros descontentes com concorrente chinês turbinado por subvenção estatal.

A China endureceu também politicamente. E não hesita mais em dar demonstração de força na cena internacional com represálias. Foi o que aconteceu com a Austrália, desde que os australianos bloquearam investimentos chineses ern certos setores sensíveis e também apoiaram uma investigação para identificação da origem da covid-19. Pequim impôs, por exemplo, tarifa adicional variando de 116,2% a 218,4% na importação de vinho australiano, que tinha na China o seu principal comprador.

Em junho de 2021. a China decidiu se dotar de um arsenal jurídico legalizando represálias em caso de sanções estrangeiras contra empresas ou indivíduos chineses. Mais recentemente, Pequim passou a provocar turbulências no comércio com a Lituânia, pequeno pais báltico que permitiu a abertura em seu território de um escritório de representação de Taiwan, iniciativa vista como afronta pelos chineses.

Nesse cenário, a Comissão Europeia, o braço executivo da UE,, elaborou sua primeira resposta à armamentização." das políticas comerciais. No começo de dezembro, Bruxelas propôs aos Estados-membros introduzir um novo mecanismo para poder punir um pais terceiro que adote sanções econômicas para influenciar sobre políticas europeias.

Ou seja, ser capaz de reagir com mais potência do que no passado a ditas agressões comerciais em caso de sanções extraterritoriais e embargos, restrições ao comércio e investimento de formas disfarçadas e por razões injustificadas.

Recentemente, países europeus foram ameaçados pelos EUA com represálias comerciais  se aplicassem taxas sobre serviços digitais, por exernplo.

Para Lamy, a Comissão Europeia inventou na prática um arsenal unilateral anticoersão muito mais musculoso e que começa a parecer à "Section 301 of the Trade Act of 1974” dos EUA. A 301 é a lei que dá ao gavemo americano ampla autoridade para responder ao que considerar práticas desleais afetando negativamente interesses comerciais americanos.

Grandes atores do comércio internacional - EUA, União Europeia, Japão e Índia—reforçaram seus arsenais de defesa comercial. Mas, sobretudo, o risco de mais medidas unilaterais tende a resultar em degradação do sistema multilateral. Enquanto isso, os populistas ganham terreno.

A seu ver, a primeira coisa, a fazer é continuar tentando convencer os EUA a voltarem efetivamente à OMC, mostrar que eles também têm interesse em um comércio com regras.

Se Washington continuar no imobilismo na entidade, o jeito será os outros países buscarem alternativas.

Quanto aos chineses, sua dominação no comércio mundial é em parte em razão de práticas como enormes subsídios e parcialmente com casos como de transferência forçada de tecnologia. Para Lamy, o Ocidente deve não fazer o que os EUA têm feito com frequência, que é dizer a Pequim que precisa mudar seu regime econômico e político. A mensagem, sugere ele, deve ser de sinalizar à China, que ou ela aceita disciplinas sobre subvenções estatais ou o comércio deixará de ser tão aberto para as exportações chinesas como até agora.

Quanto ao Brasil, o risco nesse cenário de rivalidade crescente é de o ser arrastado de uma forma prejudicial numa rivalidade sino-americana. Por exemplo, se Washington fizer pressões para Brasília escolher um ou outro lado, e portanto, ser encurralado entre os dois grandes parceiros.

Afora os EUA, a China e a EU, a verdade é que outros países não têm a força econômica para impor sanções comerciais. Para Lamy, em várias situações impor sanções podem ir mesmo contra seus próprios interesses.

Nota DefesaNet - Referente à menção "encurralado"  na escolha por um dos dois grandes parceiros econômicos, a embaixada Chinesa, em Brasília, postou em sua conta no twitter.

Também twitter do jornal Diário do Povo.

Valor Econômico / DefesaNet

A (velha) tropa de Lula

 




É espantoso que, hoje, uma parte significativa dos eleitores brasileiros não tenha memória do filme antigo protagonizado pelo PT e o seu chefe. 

Por Fábio Leite 

O ano eleitoral mal começou e o PT já reativou sua máquina de reescrever a história. Depois de disseminar a falsa narrativa da perseguição política para se esquivar das inúmeras – e robustas – denúncias de corrupção envolvendo seus principais quadros, o partido comandado por Luiz Inácio Lula da Silva dedica-se agora à estratégica tarefa de apagar da memória dos brasileiros os erros que ajudaram a afundar a economia nos últimos anos da era petista. A artimanha para tentar voltar ao poder ganhou forma nesta semana, com a publicação de um artigo que defende a velha cartilha do lulismo para “consertar” o país. O texto provocou enorme repercussão, não apenas pelo seu conteúdo desonesto, que omite o catastrófico apagar das luzes do governo Dilma Rousseff, mas também pela figura que Lula escolheu para assiná-lo: Guido Mantega.

Mais longevo ministro da Fazenda da era petista (comandou a pasta de 2006 a 2014), Mantega ressurgiu na cena política como porta-voz do petismo em uma série de artigos sobre economia que o jornal Folha de S. Paulo solicitou aos principais presidenciáveis. O texto ataca a “herança maldita” que será deixada pelos “governos Temer e Bolsonaro” e defende um modelo intervencionista, controlando os juros e estimulando “políticas industriais”. Nenhuma linha foi dedicada a explicar a pior recessão da história, iniciada ainda em 2014 e marcada pela grave retração do PIB sob Dilma Rousseff. Adversários de Lula na corrida ao Planalto, como Sergio Moro e Ciro Gomes, criticaram duramente o artigo e até lulistas de carteirinha caçoaram da peça de Mantega. “Oxalá seja apenas mal-assombração!”, escreveu o deputado Orlando Silva, do PCdoB, que também foi ministro nos governos de Lula e Dilma.

Lideranças petistas passaram os últimos dias explicando a opção por Mantega como porta-voz econômico da candidatura de Lula. Venderam como uma espécie de alento a tese de que, apesar de encarnar a ideologia desenvolvimentista do petismo, o ex-ministro foi escolhido porque já se sabe que ele não voltará à Esplanada dos Ministérios em um eventual novo governo do PT. “Qualquer outro nome geraria especulação de que poderia ser o ministro da Fazenda do Lula”, diz um dirigente petista. O fato é que a síntese do plano econômico de Lula, que visa a acabar com o teto de gastos públicos e revogar a reforma trabalhista, está presente no artigo de Mantega e é fruto de conversas semanais que o ex-ministro manteve durante a pandemia com os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto, dois outros conselheiros de Lula na área – às sextas-feiras, eles costumavam se falar por videoconferência na hora do almoço, para conversar sobre o cenário econômico e alinhavar ideias a serem oferecidas ao chefe petista.

Aliados afirmam que o ex-presidente deve buscar um perfil mais parecido com o de Antonio Palocci, que foi ministro da Fazenda em seu primeiro mandato. Um nome ligado ao PT, claro, mas palatável ao mercado. Palocci virou desafeto dos petistas depois que confessou seus crimes e delatou antigos companheiros de partido em um acordo de colaboração feito com a Polícia Federal. Entre os delatados está o próprio Mantega, seu sucessor no ministério, acusado de antecipar decisões do Banco Central para o banqueiro André Esteves, dono do BTG. Os relatos de Palocci e de outros delatores graúdos da Lava Jato, como Marcelo Odebrecht e Eike Batista, ajudam a explicar por que Guido Mantega ainda goza de tanto prestígio nas hostes lulistas.

Ao longo dos nove anos em que esteve à frente da Fazenda, Mantega foi o mais eficiente tesoureiro de campanha do PT. Os empresários acusaram o ex-ministro de cobrar repasses ilícitos ao partido como contrapartida para atender seus pedidos dentro do governo. O caso mais notório envolve o pagamento de 50 milhões de reais da Braskem, do grupo Odebrecht, à campanha de Dilma em 2010, referente à “compra” da medida provisória conhecida como Refis da crise, que abatia dívidas tributárias da empresa. O acerto rendeu a Mantega o apelido “Pós-Itália” na planilha do setor de propinas da empreiteira baiana. A denúncia apresentada à Justiça pela força-tarefa de Curitiba foi rejeitada e as provas foram anuladas depois que o Supremo Tribunal Federal determinou o envio da ação do Paraná para Brasília. Mantega chegou a ser detido por algumas horas pela PF, em 2016, e conseguiu se livrar da tornozeleira eletrônica graças ao STF.

O ex-ministro foi um dos assuntos políticos mais candentes da semana, mas não é só ele quem dá ares de filme antigo à pré-candidatura de Lula. Outros importantes personagens da era petista estão diretamente envolvidos na campanha presidencial. Três vezes ministro de Dilma entre 2011 e 2015, Aloizio Mercadante, por exemplo, é o responsável pela formulação do que será apresentado em alguns meses como o plano de governo lulista. Presidente da Fundação Perseu Abramo, bancada com o fundo partidário, Mercadante é quem organiza as reuniões de onde saem as teses que depois a militância passa a difundir nas redes. Foi na fundação que ele e Lula se reuniram com Belluzzo antes de turnê pela Europa, em novembro, onde o chefe petista se encontrou com líderes da centro-esquerda e com o presidente francês, Emmanuel Macron.

Mercadante terá neste ano tanta projeção quanto Gleisi Hoffmann, a presidente nacional do PT, que tem acompanhado Lula em todas as agendas eleitorais. Sem autonomia para negociar em nome do partido, a deputada, também beneficiada por decisões da Segunda Turma do STF contra a Lava Jato, atua como emissária de Lula nos encontros dos quais o chefe petista não consegue participar. Nos últimos meses, Gleisi passou a seguir também as diretrizes traçadas por outro ex-ministro que Lula trouxe para perto de si, de olho na disputa pelo Planalto: Franklin Martins, que foi chefe da Secretaria de Comunicação no segundo mandato do petista, entre 2007 e 2010. Franklin assumiu a coordenação das redes sociais de Lula e deve comandar a estratégia de comunicação da campanha. Aliados atribuem à chegada do ex-ministro à equipe as declarações de Lula no ano passado em defesa da regulação da mídia, um desejo antigo do petismo raiz. Franklin Martins foi o responsável por alimentar uma série de blogs petistas, depois do mensalão, especializados em tentar manchar a reputação de adversários políticos e jornalistas independentes.

O “acordão” do establishment político para sepultar a Lava Jato deu ao PT não apenas a condição de lançar Lula na corrida presidencial, mas também munição para que outros quadros históricos e igualmente enrolados com a Justiça voltassem a circular com desenvoltura nos bastidores. O caso mais emblemático é o do ex-ministro José Dirceu. Como mostrou Crusoé em dezembro, o chefe da Casa Civil no primeiro governo Lula, condenado no mensalão e no petrolão, tem rodado o país para conversar com governadores, parlamentares e dirigentes partidários – a atuação é classificada por um interlocutor dele como “prospecção” eleitoral. Dirceu tem sido bastante elogiado dentro do partido, que para evitar danos de imagem o mantém estrategicamente afastado do círculo mais próximo de Lula.

Outro rosto conhecido que ganhou espaço nas hostes petistas nos últimos tempos é o do ex-deputado José Genoino, que também já presidiu o PT, como Dirceu, e foi igualmente condenado no processo do mensalão, em 2012. Hoje, Genoino vocaliza a ala mais radical do partido. Ele encampou um abaixo-assinado contra a ideia de lançar o ex-governador paulista Geraldo Alckmin como vice na chapa de Lula, defendida por Fernando Haddad. É no grupo de Genoino que flui o petismo mais ideológico, defensor das ditaduras de esquerda da América Latina, como a da Venezuela, e que responsabiliza a “hegemonia neoliberal” pelas agruras do país – um discurso que, vez ou outra, e a depender de quem está a ouvi-lo, o próprio Lula também adota. Embora seja muitas vezes engolida pelo pragmatismo lulista, essa ala exerce influência e forte pressão interna nas decisões partidárias. Foi assim, por exemplo, na constrangedora nota que celebrou em novembro passado a “vitória” do ditador Daniel Ortega nas eleições na Nicarágua e a polêmica ida de Gleisi à posse do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em 2019.

A face mais moderada do grupo é a do deputado Rui Falcão, que antecedeu Gleisi no comando do PT e coordenou a campanha de Dilma em 2014, ápice do esquema de caixa 2 revelado pela Lava Jato – Marcelo Odebrecht, por exemplo, admitiu ter repassado 150 milhões de reais por fora para a reeleição da petista naquele ano. O parlamentar também é refratário à aliança com o ex-tucano Alckmin, mas nem por isso perdeu espaço no núcleo duro lulista. O ex-presidente já garantiu a participação de Falcão no grupo que coordenará sua campanha. Caberá a ele conter a ira dos mais fanáticos contra o pragmatismo eleitoral e a grita a favor de bandeiras antidemocráticas da esquerda xiita, que certamente serão exploradas pelos adversários.

Até o ex-tesoureiro Delúbio Soares, condenado ao lado de Genoino e Dirceu no mensalão, começou a dar pitacos nos grupos de WhatsApp da militância petista, cavando espaço. A mulher de Delúbio, Mônica Valente, ainda integra a Executiva Nacional do partido, na qual já comandou o departamento de relações internacionais, e é a principal representante da legenda no Foro de São Paulo, que reúne a esquerda latino-americana e costuma defender gente como os narcoguerrilheiros colombianos das Farc – recentemente, a agremiação se manifestou a favor da prisão de políticos opositores por Ortega na Nicarágua. Por ora, nas questões diplomáticas, Lula tem seguido mais os conselhos do ex-chanceler Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa. Integram ainda a tropa os ex-ministros Fernando Haddad e Jacques Wagner, que só não se dedicarão mais à campanha do chefe petista porque precisarão gastar sola de sapato para tentar vencer as eleições ao governo paulista e baiano, respectivamente.

Enquanto na base petista já tem gente sonhando em voltar a ocupar um cargo em Brasília, o discurso das principais lideranças do partido é de cautela, para conter o clima de “já ganhou” que começou a se espraiar pela militância diante da vantagem que Lula tem sobre os demais candidatos nas pesquisas. Os mais experientes lembram da campanha de 1994, quando ele tinha 40% das intenções de voto em maio, cinco meses antes do pleito, e perdeu para o tucano Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno. “Naquela eleição, teve um jornal que publicou uma lista completa de quem seriam os ministros do Lula e deu no que deu”, recorda um dirigente.

É espantoso que, hoje, uma parte significativa dos eleitores brasileiros não tenha memória do filme antigo protagonizado pelo PT e o seu chefe.

Revista Crusoé


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