domingo, janeiro 09, 2022

A China está se aproveitando de países pobres com ‘armadilha da dívida’?

 




A China tem sido criticada por suas políticas de empréstimo a países mais pobres, em que muitos governos acabam ficando sem dinheiro para pagar as dívidas e, consequentemente, ficam vulneráveis às pressões de Pequim.

Mas isso é negado pelo governo chinês, que acusa alguns no Ocidente de promover essa narrativa para manchar sua imagem.

A China afirma: “Não há sequer um único país que caiu na chamada ‘armadilha da dívida’ como resultado de um empréstimo”.

O que sabemos sobre os empréstimos da China?

A China é uma das maiores credores do mundo.

Seus empréstimos para países de renda média e baixa triplicaram na última década, chegando a US$ 170 bilhões (R$ 1,3 trilhões) no final de 2020.

No entanto, os compromissos gerais de empréstimo da China provavelmente serão significativamente maiores do que esses números sugerem.
Uma pesquisa da AidData, um organismo internacional de desenvolvimento da Universidade William & Mar, nos Estados Unidos, descobriu que metade dos empréstimos da China para os países em desenvolvimento não é relatada nas estatísticas oficiais.

Frequentemente, esses empréstimos são mantidos fora dos balanços do governo, direcionados a empresas e bancos estatais, joint ventures ou instituições privadas, em vez de diretamente de governo para governo.

Existem agora mais de 40 países de baixa e média renda, de acordo com a AidData, cuja exposição à dívida com os credores chineses é mais de 10% do tamanho de seu Produto Interno Bruto (PIB) como resultado dessa “dívida oculta”.

Djibouti, Laos, Zâmbia e Quirguistão têm dívidas com a China equivalentes a pelo menos 20% de seu PIB.

Grande parte da dívida com a China está relacionada a grandes projetos de infraestrutura, como estradas, ferrovias e portos, e também à indústria de mineração e energia, sob a iniciativa de Belt and Road (Nova Rota da Seda) do presidente Xi Jinping.

O que são ‘armadilhas da dívida’ e quais são as evidências disso?

Em uma entrevista à BBC, Richard Moore, chefe da agência britânica de inteligência MI6, disse que a China usa o que chamou de “armadilhas da dívida” para obter vantagem sobre outros países.

A alegação é que a China empresta dinheiro para outros países, que acabam tendo que ceder o controle de ativos-chave se não conseguirem pagar as dívidas, uma acusação há muito negada por Pequim.

Um exemplo frequentemente citado pelos críticos da China é o Sri Lanka, que anos atrás embarcou em um grande projeto portuário em Hambantota com investimento chinês.

Mas o projeto de US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) usando empréstimos e empreiteiros da China ficou envolto em polêmicas e lutou para se provar viável, deixando o Sri Lanka sobrecarregado com dívidas crescentes.

Finalmente, em 2017, o Sri Lanka concordou em dar à estatal China Merchants uma participação de controle de 70% no porto em um arrendamento de 99 anos em troca de novos investimentos chineses.

Uma análise do projeto portuário feita pelo instituto britânico Chatham House questionou se a narrativa da “armadilha da dívida” se aplica nesse caso, visto que o negócio foi impulsionado por motivações políticas locais, e a China nunca assumiu formalmente a propriedade do porto.

A análise aponta que uma grande proporção da dívida geral do Sri Lanka era devida a credores não chineses, e que não há evidências de que a China aproveitou sua posição para obter vantagem militar estratégica do porto.

Apesar disso, há poucas dúvidas de que o envolvimento econômico da China no Sri Lanka cresceu na última década, e persistem as preocupações de que isso poderia ser usado para promover suas ambições políticas na região.

Existem outras partes do mundo onde os empréstimos chineses também se revelaram controversos, com contratos cujos termos poderiam dar à China vantagem sobre ativos importantes.

Mas não há casos, entre as centenas de acordos de empréstimo estudados pela AidData e alguns outros pesquisadores, de credores estatais chineses que realmente confiscaram um ativo importante em caso de inadimplência de um empréstimo.

Como os empréstimos da China se comparam aos de outros?

A China não publica registros de seus empréstimos estrangeiros, e a maioria de seus contratos contém cláusulas de sigilo que impedem os envolvidos de revelarem seu conteúdo.

O país alega que essa confidencialidade é uma prática comum em contratos de empréstimo internacionais.

Lee Jones, professor da Queen Mary University of London, no Reino Unido, confirma isso. “E muito do financiamento da China é no fundo uma operação comercial.”

A maioria das principais nações industrializadas compartilha informações sobre suas atividades de empréstimo por meio da associação que é conhecida como Clube de Paris.

A China optou por não se juntar a este grupo, mas, usando os dados disponíveis do Banco Mundial, o rápido crescimento dos empréstimos declarados da China em comparação com outros pode ser claramente observado.

Empréstimos chineses são mais difíceis de se pagar?

A China tende a emprestar com taxas de juros mais altas do que os governos ocidentais.

Em cerca de 4% dos casos, esses empréstimos têm juros próximos às taxas do mercado comercial, mas ainda assim cerca de quatro vezes maiores do que os de um empréstimo típico do Banco Mundial ou de um país ocidental, como a França ou a Alemanha.

O período de reembolso exigido para um empréstimo chinês também é geralmente mais curto — menos de dez anos, em comparação com cerca de 28 anos para empréstimos concessionais de outros credores a países em desenvolvimento.

Os credores estatais chineses também exigem que os tomadores do empréstimo mantenham um saldo mínimo de caixa em uma conta offshore à qual o credor tenha acesso.

“Se um tomador de empréstimo não quitar sua dívida”, diz Brad Parks, Diretor Executivo da AidData, “a China pode simplesmente sacar fundos [desta] conta sem ter que cobrar dívidas inadimplentes por meio de um processo judicial.”

Essa abordagem raramente é vista em empréstimos emitidos por credores ocidentais.

Existe atualmente uma iniciativa das nações do G20 (grupo das maiores economias do mundo) para oferecer alívio da dívida aos países mais pobres devido ao impacto da pandemia.

A China aderiu a isso e afirma ter contribuído com “o valor mais alto para o pagamento da dívida” de todos os países participantes do plano.

O Banco Mundial afirma que, desde maio de 2020, um total de mais de US$ 10,3 bilhões (R$ 58,7 bilhões) foi entregue em alívio da dívida pelos países do G20 sob este esquema.

Mas, quando pedimos ao Banco Mundial um detalhamento por país, a instituição disse que não poderia compartilhar as informações.

POR KAI WANG

BC Brasil / Daynews

O que está em jogo na corrida armamentista cibernética mundial

 



As maiores potências nesses confrontos são hoje Estados Unidos, China, Rússia, Irã e Israel. Segundo Eduardo Izycky, pesquisador do Departamento de Estudos de Guerra do King's College, de Londres, esses países produzem capacidades cibernéticas ofensivas e conseguem aplicá-las em escala global. 

Por Luis Kawaguti 

Em 2010, centrífugas de enriquecimento de urânio do Irã foram atacadas e inutilizadas por meio de um vírus de computador que ficou conhecido como Stuxnet. Foi o primeiro caso em que um ataque hacker, coordenado por nações (supostamente Estados Unidos e Israel), atingiu um alvo militar de grandes proporções no “mundo real”. Tomava forma naquele momento uma corrida mundial para criar ou adquirir armas cibernéticas.

O então secretário de defesa americano, Leon Panetta, alertou em 2012 sobre os perigos de um possível ataque digital de larga escala contra os Estados Unidos com a possibilidade de causar mortes e destruição no mundo real.

A ameaça foi apelidada na época de “Cyber Pearl Harbor”. Washington prometeu que, se isso acontecesse, iria retaliar não apenas digitalmente, mas com quaisquer tipos de armamentos que achasse necessários, inclusive mísseis nucleares.

O “Cyber Pearl Harbor”, ou seja, uma guerra entre nações iniciada por um ataque cibernético de grandes proporções, não ocorreu.

O que se configurou em escala global foi um cenário de conflitos cibernéticos constantes e em diversos níveis. Porém, com ações mais restritas ao universo virtual.

As maiores potências nesses confrontos são hoje Estados Unidos, China, Rússia, Irã e Israel. Segundo Eduardo Izycky, pesquisador do Departamento de Estudos de Guerra do King's College, de Londres, esses países produzem capacidades cibernéticas ofensivas e conseguem aplicá-las em escala global.

Eles têm operado diretamente ou patrocinando grupos títeres privados (em uma tentativa de camuflar a origem das ações). Realizam operações como roubo de segredos tecnológicos, espionagem, sabotagem de infraestruturas críticas e difusão de informações falsas.

Um exemplo disso foi o roubo de segredos industriais americanos por hackers chineses supostamente ocorrido entre 2008 e 2013. Segundo levantamento da revista Foreign Affairs, isso gerou prejuízo anual entre US$ 200 bilhões e US$ 600 bilhões aos EUA e possibilitou à China avançar com seu programa industrial “Made in China 2025”.

Outro exemplo ocorreu entre 2014 e 2015, quando a Rússia teria usado hackers para desestabilizar a eleição na Ucrânia e derrubar a rede elétrica do país, deixando mais de 200 mil pessoas sem energia.

Corrida é motivada por disputas geopolíticas

Os conflitos cibernéticos não surgem do próprio universo virtual. Eles se baseiam em disputas geopolíticas que já ocorrem no “mundo real”.

Assim, ao verem seus rivais explorando capacidades cibernéticas, cada vez mais países fora do círculo das potências tradicionais começam a comprar ou desenvolver seus próprios recursos. Esse movimento vem gerando, desde meados de 2015, uma corrida global por armas cibernéticas.

Países como Vietnã, Turquia, Emirados Árabes, França, Coreia do Sul, Índia e Paquistão começaram comprando tecnologia de empresas privadas e hoje já desenvolvem recursos cibernéticos próprios. Eles são destinados a disputas regionais, segundo Izycky.

Mas o que são armas cibernéticas, afinal?

Elas são chamadas no jargão militar de “artefatos”, mas trata-se de códigos de programação de computador que infectam sistemas de nações adversárias. São usados para roubar informações, desestabilizar comunicações, destruir ou inutilizar equipamentos, derrubar redes elétricas, entre outros objetivos.

Durante a guerra convencional, servem como apoio para extrair informações do inimigo, inutilizar armas e sistemas de comunicação e desestabilizar cadeias de comando e controle.

Ou seja, são “vírus” de computador que operam com diferentes graus de complexidade. Trata-se de malwares (softwares maliciosos), exploits (pedaços de softwares que tiram vantagem de um defeito de projeto de outros softwares) e técnicas como negação de serviços (quando um site sai do ar por excesso de acessos simultâneos propositais).

Nações podem usar desde simples malwares e técnicas conhecidas e usadas por cibercriminosos comuns, como armas cibernéticas avançadas. Alguns desses “artefatos” são extremamente complexos e caros. Eles permitem invadir computadores e celulares sem que os usuários cliquem em um link suspeito ou abram um arquivo - são chamados “zero click”. Também são dificilmente rastreáveis e contam com toda uma estrutura de equipamentos e pessoal para funcionar.

Baixo risco de retaliação estimula ações

“Você tem uma margem de manobra grande, que a dimensão cibernética proporciona. Você provoca prejuízo para o seu oponente, tem vantagem para si - rouba tecnologia e desenvolve um caça de última geração, por exemplo - e o custo disso, do ponto de vista geopolítico, diplomático ou mesmo em termos de sanção econômica, é baixo”, disse Izycky.

Os cenários de resposta americana mais eficazes a ataques cibernéticos até hoje não envolveram aviões, blindados, tropas no terreno, nem muito menos tomaram a forma de um cogumelo nuclear.

Em 2014, a Sony Pictures decidiu fazer um filme satirizando o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un. Hackers de Pyongyang invadiram servidores da empresa e tornaram públicos uma série de e-mails comprometedores da indústria do cinema. Depois, ameaçaram fazer mais ataques “terroristas”.

O ex-presidente Barack Obama culpou Kim Jong-un publicamente e levantou as primeiras sanções econômicas da história em resposta a um conflito cibernético contra a Coreia do Norte. As ações de Pyongyang cessaram logo depois.

No ano seguinte, Obama conseguiu reduzir o roubo de tecnologia americana por operadores chineses ao confrontar o presidente Xi Jinping em um encontro diplomático.

Assim, a corrida armamentista cibernética parece diferir ao menos em um aspecto da corrida armamentista convencional ou nuclear: o da dissuasão.

Em geral, um país tenta melhorar sua capacidade militar convencional quando vê a nação vizinha se armando. A ideia é evitar ser atacado.

Mas isso não acontece necessariamente no conflito cibernético. Os Estados Unidos possuem uma capacidade de conflito cibernético muito elevada e ainda assim são alvo de inúmeros ataques.

Ou seja, o conflito cibernético entre nações é mais similar à dinâmica do crime e da espionagem do que da guerra. Isso porque, como o crime, os ataques cibernéticos não podem ser erradicados, mas sim mantidos em níveis aceitáveis.

No ano passado, um grupo hacker supostamente ligado ao governo russo atacou um gasoduto americano. Isso causou pânico entre consumidores e falta de combustível nos postos.

O presidente americano Joe Biden disse ao presidente russo Vladimir Putin que ataques à infraestrutura crítica americana estavam além dos limites tolerados por Washington. Sutilmente, ele ameaçou tomar o mesmo tipo de medidas de conflito cibernético contra a Rússia.

Moscou não admite as ações hackers. Afirma que são grupos de criminosos independentes. Porém, dificilmente esses criminosos são presos, o que leva analistas internacionais a falar em conivência ou até parceria.

Embora outros ataques de menor magnitude aos EUA tenham sido realizados posteriormente por grupos russos, ainda não é possível saber exatamente qual será o efeito da ameaça de Biden a longo prazo.

Desestabilização de sistemas políticos

Os alvos das armas cibernéticas não são apenas segredos industriais, infraestrutura crítica e sistemas de comando e controle. Um dos aspectos mais importantes do conflito no ciberespaço é o da desinformação.

Sim, estamos tratando das “fake news” em redes sociais - quando são difundidas por governos (diretamente ou por meio de empresas privadas ou de fachada) com o objetivo de desestabilizar processos eleitorais de rivais, tirar a credibilidade de sistemas de governo estrangeiros ou obter vantagens geopolíticas.

Um exemplo recente é um forte investimento em publicidade em redes sociais feito pela China para divulgar a ideia de que a origem da pandemia de Covid-19 seria os Estados Unidos e não Wuhan.

Segundo reportagem de outubro de 2021 do jornal Independent, Pequim vem afirmando em redes sociais e meios de comunicação ligados ao país que o vírus teria chegado à China em um carregamento de lagostas vindo dos Estados Unidos.

Contudo, os exemplos mais concretos de campanhas de desinformação foram as supostas tentativas da Rússia de influenciar o resultado e desacreditar o processo eleitoral americano. Primeiro hackeando o Partido Democrata em 2016 e usando redes sociais para espalhar informações favoráveis a Donald Trump. Depois, tentando desacreditar a eleição de Joe Biden em 2020, segundo investigação dos EUA.

A inteligência americana também acusou o Irã de ter lançado uma campanha secreta de desinformação para tentar evitar a eleição de Trump no último ciclo eleitoral, devido à sua política de pressão total contra Teerã.

Esse tipo de campanha como a da Rússia e do Irã é feito por meio dos chamados “bots”, contas automatizadas em redes sociais ou por meio de equipes de especialistas “humanos" que controlam diversos perfis ao mesmo tempo - ou ainda por uma mistura desses dois recursos.

Eles tentam tanto dar visibilidade a uma narrativa específica, quanto denunciar em massa conteúdos de rivais políticos, para que sejam excluídos pelos algoritmos das redes sociais.

Uma das mais sofisticadas dessas equipes é a IRA (sigla para Agência de Pesquisa da Internet), que ficou popularmente conhecida como “Fábrica de Trolls de São Petersburgo”, supostamente ligada ao governo russo. Ela teria cerca de 80 operadores e contaria com um orçamento mensal de US$ 1,2 milhão.

Segundo analistas, além de agir na campanha eleitoral americana, a Fábrica de Trolls teria realizado ações de desinformação no processo do Brexit (saída da Grã-Bretanha da União Europeia em 2020, aprovada em referendo em 2016), em um referendo na Holanda em 2016 e nas eleições da Alemanha de 2017. Chegou até a ser alvo de ações cibernéticas ofensivas dos Estados Unidos.

Segundo o relatório de 2020 do Programa para Democracia e Tecnologia da Universidade de Oxford, o número de países onde empresas similares à Fábrica de Trolls atuam em campanhas de desinformação subiu de nove em 2017 para 48 em 2020 - incluindo o Brasil. A universidade não faz distinção, porém, se as ações nesses países partiram de grupos nacionais ou de outras nações.

Como fica o Brasil?

O Brasil possui sistemas de defesa contra ataques cibernéticos subordinados ao Gabinete de Segurança Institucional, ao Ministério da Defesa e às Forças Armadas. A ideia é proteger principalmente infraestruturas críticas, equipamentos militares estratégicos e estruturas de comando e controle.

O país não está inserido em conflitos geopolíticos, o que diminui a possibilidade de ataques cibernéticos de nações estrangeiras.

Contudo, segundo analistas, nações bem próximas já detêm capacidades ofensivas de conflito cibernético, como a Colômbia, a Venezuela, o Chile e o México. Na maioria dos casos, os artefatos são usados na luta contra o crime organizado, mas, em teoria, não é possível garantir que não sejam utilizados em outros contextos no futuro.

Forças de segurança pública brasileiras já fizeram contato com empresas fornecedoras de artefatos e infraestrutura para ações cibernéticas de caráter ofensivo. Mas não há informações públicas de que a tecnologia tenha sido adquirida.

Autoridades do Judiciário investigam atualmente a origem e a legalidade de supostas campanhas de desinformação no Brasil. Mas, em geral, as ameaças cibernéticas que mais preocupam cidadãos e empresas vêm do crime comum, como o ransonware (bloqueio de redes de computador para extorsão) e o phishing (invasão de computadores para roubo de dados).

Gazeta do Povo (PR)

Bolsonaro recua, alega que o Exército “não exigiu vacinação” e dispensa esclarecimento

Publicado em 8 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

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Bolsonaro deu entrevista neste sábado e “explicou” seu recuo

Eduardo Rodrigues e Felipe Frazão
Estadão

O presidente Jair Bolsonaro afirmou neste sábado, dia 8, que o Comando do Exército não impôs a vacinação obrigatória aos militares para retorno das atividades presenciais e dispensou uma nota com explicações públicas. Para o presidente, o Exército fez apenas uma recomendação.

Na véspera, o Exército chegou a discutir os termos de um comunicado com esclarecimentos sobre uma diretriz editada com regras para retorno ao regime presencial. Houve pressão política do Palácio do Planalto e do Ministério da Defesa, mas a nota não chegou a ser publicada.

DISSE BOLSONARO – “Foi uma diretriz não do Exército, mas da Defesa, que dava dúvidas. Não houve exigência nenhuma. Eu sou democrata. Já tive notícia de duas estatais que queriam aplicar sanções aos funcionários que não se vacinaram. Se o Exército quiser esclarecer, tudo bem, mas está resolvido, não tem que dar explicação para ninguém. É uma questão de interpretação”, disse Bolsonaro, depois de participar da festa de aniversário do advogado-geral da União, Bruno Bianco, no Lago Sul, em Brasília.

A declaração do presidente acalma os ânimos na relação entre o Planalto e a Força Terrestre. O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, interlocutor do presidente junto aos comandantes, cobrou informações durante um encontro com generais das três Forças Armadas. Após a reunião, o Exército foi compelido a preparar uma nota.

APAZIGUANDO… – Nos bastidores da caserna, oficiais da cúpula verde-oliva trabalharam para contornar o episódio. Eles passaram a noite dando explicações a autoridades do governo Jair Bolsonaro, e defenderam que não havia necessidade de esclarecer publicamente a diretriz do comandante-geral, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira. Assim, conseguiram postergar a publicação, considerada agora descartada por fontes com acesso ao caso.

Pesou na decisão para convencer Bolsonaro o fato de o Exército ter demonstrado que a nova diretriz do comandante, em vigor desde 3 de janeiro, apenas reproduzia ideias de uma portaria anterior, ainda mais restritiva, do próprio ministro Braga Netto. O ministro pediu que a volta ao regime presencial de servidores no Ministério da Defesa ocorresse após 15 dias da vacinação. O Censipam, ligado ao ministério, também fez a mesma exigência, que não existe no caso do funcionalismo civil da administração pública federal.

O tema vacina é considerado “sensível” na Defesa, por ter virado bandeira política do presidente. Reservadamente, oficiais comentam que o ministro da Defesa deu claros sinais de não querer melindrar Bolsonaro, no momento em que tenta se viabilizar como potencial candidato a vice-presidente nas eleições de 2022.

REGIME PRESENCIAL – Como o Estadão noticiou, a diretriz do comandante Paulo Sérgio orientou que oficiais em cargos de chefia avaliassem a volta ao regime presencial dos militares já vacinados, 15 dias após a imunização. Porém, a diretriz não continha um veto total ao retorno dos não vacinados.

O Exército seguiu a regra de Braga Netto, com uma diferença: abriu uma brecha para que os militares não vacinados completamente pudessem apresentar sua situação ao Departamento Geral do Pessoal, o DGP.

O órgão tem um comitê responsável pela gestão e prevenção de contaminação por covid-19 na caserna, e poderia liberar o retorno com exceções ou cuidados especiais dos não vacinados, o que, para oficiais ligados ao comandante, mostra que não havia uma obrigatoriedade semelhante ao “passaporte da vacina”.

MEDIDAS PREVENTIVAS – Além disso, o teor geral da nova diretriz do general Paulo Sérgio é de flexibilizar a realização de atividades e treinamentos na caserna, em vez de restringir. Ela recomenda, porém, a adoção de medidas de prevenção à contaminação e fala expressamente no “uso de máscaras, no distanciamento social e higienização de mãos”, medidas cuja eficácia Bolsonaro questiona, apesar das evidências científicas e das recomendações sanitárias.

O documento do comandante-geral reproduz uma ordem para que não haja difusão de notícias falsas sobre a pandemia do novo coronavírus na internet. Esse trecho da normativa também não é uma novidade, pois estava em vigor desde março de 2020, emitido pelo então comandante-geral, general Edson Leal Pujol.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– Conforme a Tribuna tem noticiado, sempre com absoluta exclusividade, Bolsonaro já “entendeu” o que está acontecendo. Reparem que desde o dia 8 de setembro, quando levou o tranco do Estado Maior do Exército, nunca mais se jactou de ser “comandante-supremo das Forças Armadas”, como fazia quase diariamente. Assim, como indagava Machado de Assis, convém perguntar: Mudou o Natal, mudou Bolsonaro ou mudou o Exército? (C.N.)

Bolsonaro dá um péssimo exemplo à saúde pública, ao sabotar a imunização das crianças

Publicado em 8 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Charge do Kleber (Correio Braziliense)

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

O presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a criticar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por liberar a vacinação do público pediátrico de 5 a 11 anos. Chamou os cientistas e médicos que defendem a vacinação das crianças a partir dos cinco anos de “tarados da vacina” e reiterou que a sua filha, de 11 anos, não será vacinada.

Sua ofensiva contra a vacinação de crianças e pré-adolescentes ocorre num momento em que explodem os casos de influenza e de covid-19, inclusive com transmissão comunitária da variante ômicron. Pronto-socorros e ambulatórios estão lotados, houve aumento exponencial da procura por testes de covid-19.

QUARTA ONDA – Os números registrados nos Estados Unidos, Europa e Ásia revelam que a quarta onda da pandemia de covid-19 é uma realidade, com o registro de mais de 2,5 milhões de casos por dia. A interpretação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, de que o Brasil está fora dessa rota não corresponde à realidade.

Além disso, corrobora as suspeitas de que o apagão de dados do SUS pode ter sido provocado por hackers, mas a demora para resolver o problema faz parte da má vontade e das manobras protelatórias do governo federal contra a vacinação.

O ministro está incorrendo nos mesmos erros que o general Eduardo Pazuello cometeu à frente do Ministério da Saúde, ao se submeter aos caprichos do presidente da República e dar as costas à população em situação de risco sanitário.

INVENTOR DO XADREZ – Não custa nada lembrar a velha história do brâmane, que inventou o tabuleiro com 64 quadros, vermelhos e pretos, cuja peça mais importante era o rei (rajá) — a segunda peça, o próprio brâmane, foi substituída pela rainha com o passar dos anos.

Reza a lenda que rajá gostou tanto do jogo de xadrez, que pediu ao brâmane para determinar sua própria recompensa. Ele então pediu ao rajá que lhe fosse dado um único grão de trigo no primeiro quadrado, dois no segundo, quatro no terceiro e assim por diante, dobrando sempre as quantidades. O rei achou a recompensa insignificante e aceitou.

Entretanto, quando o administrador do celeiro real começou a contar os grãos, o rei teve uma surpresa muito desagradável. O número começou pequeno: 1, 2, 4, 8, 16, 32 (…) e foi crescendo, 128, 256, 512, 1024… Quando chegou à última das 64 casas do tabuleiro, era de quase 18,5 quintilhões.

UM PESO DESCOMUNAL – Quanto pesa cada grão de trigo? Se cada um tiver um milímetro, pesariam 75 milhões de toneladas métricas, muito mais do que havia nos armazéns reais.

“Se o xadrez tivesse 100 quadrados (10 por 10), em vez de 64 a quantidade de grãos teria pesado o mesmo que a Terra”, comparou o físico Carl Sagan, em “Bilhões e Bilhões”.

Essa história é uma boa analogia com a tragédia de 620 mil mortos por covid-19 no Brasil, que parece não ser levada em conta pelo atual ministro da Saúde. Pazuello tinha a desculpa da disciplina militar (“ele manda, eu obedeço”). Queiroga, não. É um médico cujo juramento está sendo rasgado, porque se tornou apenas mais um áulico negacionista no alto escalão do governo.

Procura-se desesperadamente um plano para conseguir a redução da economia informal

Publicado em 9 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Iotti / Agencia RBS

Charge do Iotti (Gáucha/Zero Hora)

Deu em O Globo

Entender por que a economia informal no Brasil parou de encolher na última década é parte crucial do debate sobre os objetivos de quem assumirá a Presidência em janeiro de 2023. Atacar esse problema será uma contribuição importante para melhorar a vida dos trabalhadores na base da pirâmide social e, em consequência, diminuir a desigualdade.

Será também chave para a busca por um ambiente de concorrência mais justa entre as empresas e, por fim, para a saúde das contas do governo (com destaque para a Previdência).

ESTRATÉGIA ABRANGENTE – As soluções exigem uma estratégia abrangente, que inclua reformas na área trabalhista, crescimento econômico, fiscalização e repressão, no caso de atividades como contrabando e pirataria.

Em 2011, o Índice de Economia Subterrânea, calculado pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO) e pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), era de 16,9% do PIB brasileiro.

O percentual de 2021, divulgado no final do ano passado, é quase idêntico: 16,8%. Isso equivale a um montante de R$ 1,3 trilhão circulando à margem do Fisco e das leis. Na década passada, o melhor ano foi 2014, quando o índice caiu para 16,1%, patamar mais baixo já registrado.

GRUPO HETEROGÊNEO – O termo economia informal engloba um grupo heterogêneo — e cada parte exige resposta distinta. Há donos de negócios que tentam escapar do Fisco e da regulamentação; empresários com empresas formais que mantêm parte ou todos os seus empregados sem registro; criminosos e seus funcionários; gente que decide ou é forçada pelas circunstâncias a trabalhar por conta própria e não vê vantagem ou não consegue abrir uma empresa; trabalhadores domésticos sem registro ou trabalhadores eventuais.

Como explicou Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Ibre/FGV, entre os fatores que contribuíram para a queda da economia informal até 2014 estão a ampliação da escolaridade, a expansão do mercado de crédito (incentivo à formalização) e o aumento na eficiência do Fisco.

MAIS INFORMALIDADE – Mas tais fatores estruturais não foram suficientes para sustentar a tendência.

Um dos efeitos do baixo crescimento da economia e das recessões (com exceção da que ocorreu em 2020 com a população em casa) é o aumento da informalidade, uma vez que mais gente é obrigada a abrir negócios próprios para se sustentar.

Além de se concentrar no crescimento econômico, o próximo presidente deveria tomar providências que ajudariam a endereçar a questão.

LEIS TRABALHISTAS – Uma das áreas que merecem atenção são as leis trabalhistas. Mesmo depois da reforma de 2017, elas continuam bizantinas e garantem direitos a apenas 59% da força de trabalho ocupada, deixando 41% sem direito algum.

O fato de o percentual de informais nunca ter ficado abaixo de 30%, mesmo nos momentos mais aquecidos do mercado de trabalho, deveria ser motivo de reflexão. Será mesmo que não há nada de errado com nossa legislação?

Reforma, é óbvio, não pode ser sinônimo de vale-tudo, como parecem pensar os que lutam contra a formalização dos que trabalham por meio de aplicativos. Entre os extremos, ainda há muito a avançar.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Muito importante o editorial de O Globo, mas não terá efeito algum. Para reduzir a economia informal, é preciso garantir ensino de qualidade a toda a população, incentivar a industrialização e facilitar ao máximo a criação de novas empresas, teses que precisam motivar os candidatos. Infelizmente, porém, os dois favoritos, Lula e Bolsonaro, não têm a menor ideia do que essas teses representam. (C.N.)

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