O próprio ex-presidente, encalacrado até o pescoço por abundância de provas, alega que tudo não passa de narrativa

As falácias do bolsonarismo radical não resistem – pois falácias – à duas ou três contraposições juvenis. Por exemplo: a primeira turma do STF, responsável pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) seria parcial:
“Façam as contas comigo. Um tribunal que tem cinco ministros. O primeiro, Alexandre de Moraes, que ele mesmo julga se ele é parcial ou não. O outro, Flávio Dino, que é amigo do Lula desde quando Dino era magro. Terceiro, ministro ex-advogado do Lula, Zanin. O quarto e o quinto foram indicados pelo PT. Senhores, vocês estão de sacanagem… Vocês vão falar como que esse julgamento é sério? Que é um julgamento imparcial?”
Em que pesemm as razões políticas para sua desconfiança, fica a pergunta: que formação, então, poderia julgar o “mito”? Uma composta por, no mínimo, Nunes Marques e André Mendonça, por ele indicados? Em caso afirmativo, não seria igualmente “suspeita” em sentido oposto?
STF não é “santo”
Alexandre de Moraes e seus colegas cometeram inúmeros e graves exageros desde o início dessa história toda, ainda em 2019, com o famigerado inquérito das Fake News, onde tudo cabe e nada termina. A Suprema Corte deixou, há muito e não apenas neste caso, de ser um tribunal eminentemente técnico para se tornar uma espécie de arena política. Isso é fato.
Especificamente no curso deste processo, arvorou-se, não a guardiã da Constituição – o que já seria bastante e suficiente -, mas a própria salvadora da democracia, o que não é verdade. Não fossem alguns militares e políticos cientes de seus deveres e tementes à lei, e hoje estaríamos, talvez, ou sob um regime de exceção ou em guerra civil.
O autoritarismo judicial, sob a justificativa do “bem comum”, nada mais é que uma mínima nuance da própria ditadura alegadamente combatida. É dever de todos, sobretudo a imprensa independente, apontar os abusos e combatê-los, sem jamais, contudo, deslegitimar o todo pela parte indevida.
Alegações pueris
A tentativa de redução do caso de Débora Rodrigues, a moça que vandalizou a estátua da Justiça, mas não só isso, à mera pichação de uma “pessoa do bem”, não resiste, como a tese da suspeição dos ministros, a dois ou três contra argumentos. Ela não apenas estava ciente do objetivo golpista de seus atos, como atentou, sim, a meu ver, contra o Estado Democrático de Direito – mas isso não a coloca no rol de quadrilheiros nem justifica uma pena de 14 anos de prisão se observado o histórico penal recente do Brasil
Notem que, aqui, analiso e opino um caso específico, sem jamais deslegitimar a atuação do Supremo e negar os fatos criminosos ocorridos, ou tampouco prego a suspeição ampla, geral e irrestrita do STF, arguindo absolutamente nada, ou melhor, bravateando falácias e lacracões pueris de redes sociais como faz boa parte do universo paralelo bolsonarista.
O próprio ex-presidente, encalacrado até o pescoço por abundância de provas materiais, testemunhais e indiciárias, alega que tudo não passa de narrativa, a partir de pescas probatórias por parte de ditadores que o perseguem. Neste caso, não são nem necessárias duas ou três contraposições juvenis, mas apenas uma: o senhor foi ameaçado, ou não, de prisão pelo então comandante do Exército, General Marco Antônio Freire Gomes? Se sim, por quê?
https://oantagonista.com.br/analise/golpe-de-estado-a-tese-de-bolsonaro-nao-resiste-a-uma-simples-pergunta/
Nota da redação desse Blog -