
Os irmãos se mostram incapazes de liderar um projeto nacional
Pedro do Coutto
O recente episódio protagonizado pelos irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro expõe, com ainda mais nitidez, as fissuras internas que atravessam a direita brasileira. Carlos Bolsonaro, em postagem no X, acusou governadores conservadores de “agirem como ratos” e explorarem politicamente o legado de Jair Bolsonaro de forma “vergonhosa e patética”, apenas para herdar votos, acrescentando que sacrificam o povo pelo poder e nada diferem dos petistas que dizem combater.
A postagem foi endossada por Eduardo Bolsonaro, que compartilhou o conteúdo em suas redes sociais enquanto está nos Estados Unidos. O ataque tem como alvo direto figuras como Romeu Zema e Ronaldo Caiado, ambos já lançados como pré-candidatos à Presidência para 2026.
ADVERTÊNCIA – Ao mesmo tempo, funciona como uma clara advertência àqueles que tentam se consolidar como alternativas moderadas dentro da direita, sem se submeter à narrativa bolsonarista mais radical. Esse momento coincide com a ausência desses governadores em atos públicos pró-Bolsonaro — como o convocado em 3 de agosto — quando Tarcísio de Freitas, Zema, Caiado e Ratinho Jr. optaram por não comparecer, em meio a uma crise política e diplomática.
Essa ausência reforça o distanciamento e revela seus cálculos políticos, buscando preservar governança e evitar alinhar-se de forma demasiada com um ex-presidente inelegível e judicialmente comprometido. O contexto não é apenas retórico, mas envolve escolhas estratégicas.
Enquanto os irmãos Bolsonaro se posicionam com intensidade emocional, promovendo confrontos ideológicos acirrados, os governadores almejam consolidar uma candidatura presidencial não pautada no radicalismo, mas em uma narrativa mais funcional, centrada em resultados, estabilidade institucional e governabilidade responsável.
MONOPÓLIO – O embate entre os irmãos Bolsonaro e os governadores também revela um traço recorrente do bolsonarismo: a tentativa de monopolizar a legitimidade da direita brasileira. Para Eduardo e Carlos, qualquer movimento que não seja a adesão irrestrita à narrativa familiar é imediatamente taxado como traição.
Essa lógica cria um ambiente sufocante, onde figuras políticas que buscam trilhar caminhos próprios acabam expostas a ataques violentos e a acusações de deslealdade. O resultado é um campo conservador cada vez mais fragmentado, em que as divergências se transformam em batalhas públicas e corrosivas, minando a possibilidade de construção de consensos mínimos em torno de uma agenda comum.
Por outro lado, não se pode ignorar que o desgaste desse estilo político pode abrir espaço para uma direita mais madura, menos refém de personalismos e mais conectada com as demandas reais da sociedade. A ausência dos governadores em manifestações recentes pró-Bolsonaro, somada ao esforço de se distanciar de crises artificiais, sugere que parte da direita já percebe os limites da radicalização.
AUTONOMIA – O desafio, porém, será equilibrar essa busca por autonomia com a necessidade de dialogar com a base conservadora, que ainda reconhece em Jair Bolsonaro um líder simbólico. A capacidade de articular essa transição pode definir não apenas o futuro da direita, mas também os rumos da política brasileira nos próximos anos. Esse contraste evidencia o dilema vivido pela direita: ser engolida pela lógica da polarização exacerbada ou buscar uma reconstrução mais institucional, que preserve sua base eleitoral sem comprometer o país com rupturas desnecessárias.
Eduardo, ao compartilhar e reforçar as acusações, pressiona os governadores a optarem por uma lealdade que, na sua visão, seria essencial, mas que em muitos casos representa um atalho perigoso para a fragmentação política e o enfraquecimento do próprio campo conservador. O resultado é uma direita fragmentada, sem narrativa coesa e sem clareza sobre como se posicionar frente a Lula e frente a Trump.
EXTREMISMO – Se a direita quiser sobreviver com credibilidade e construir um caminho sólido para 2026, terá de abandonar o personalismo extremado, reencontrar-se com valores democráticos e oferecer propostas concretas à sociedade. Do contrário, continuará refém de uma família que insiste em transformar a política em palco de desespero pessoal e retórica incendiária.
A cada ataque, Eduardo e Carlos revelam mais do que seu ressentimento: expõem a incapacidade de liderar um projeto nacional consistente. E, nesse vazio, os governadores que hoje preferem a moderação podem acabar sendo os protagonistas de uma nova etapa da direita, mais responsável e mais comprometida com a estabilidade do país.



Imagens registradas dentro do Hospital por pacientes | Foto: Reprodução / Leitor BN
