quinta-feira, abril 14, 2022

A vitória de Le Pen seria a vitória de Putin




Mais de metade dos eleitores franceses votaram em candidatos radicais de direita e de esquerda. Candidatos que no passado ou no presente manifestaram a sua admiração por Putin. 

Por João Marques de Almeida 

Tendo em conta o resultado da primeira volta, Macron ainda é, ligeiramente, o favorito para vencer as eleições presidenciais francesas. Mas não faço a minha ideia se ganhará, e existe um grande risco que Le Pen seja eleita. As pessoas que nos garantem que Le Pen nunca será eleita pelos franceses são as mesmas que juravam que Trump nunca ganharia e que o Brexit nunca aconteceria. Nota-se em França a mesma revolta das massas contra as elites políticas a que assistimos nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Mas mesmo que Le Pen não seja eleita Presidente de França, os resultados da primeira volta marcam o fim do sistema partidário da V República. Os candidatos dos dois partidos que deram todos os presidentes franceses até Macron, entre De Gaulle e Hollande, não chegaram aos 7%. A candidata socialista recebeu menos de 2% dos votos, e a candidata Gaullista não chegou aos 5% dos votos (há cinco anos o candidato do mesmo partido, Fillon, alcançou os 20%). Imaginem uma eleição presidencial em Portugal onde o candidato do PS tivesse 2% e o do PSD 5%. Foi o que aconteceu em França.

Mais de metade dos eleitores franceses votaram em candidatos radicais de direita e de esquerda. Candidatos que no passado ou no presente manifestaram a sua admiração por Putin. Ninguém sabe até onde irá a radicalização em França. Mas sabemos que serão os eleitores de Mélenchon a decidir o vencedor. O mais provável é que a maioria dos 20% que votaram no candidato da extrema esquerda fique em casa na segunda volta.

Macron cometeu um enorme erro quando renunciou fazer campanha na primeira volta. Permitiu que Marine Le Pen marcasse a agenda eleitoral – o que é sempre uma vantagem política – e reforçou a sua imagem de arrogante e distante do povo francês. Conseguirá Macron emendar esse erro em duas semanas? A resposta a esta questão dirá se Macron perde ou ganha.

Mas a eleição de Macron há cinco anos já havia sido um sinal muito forte do desaparecimento do sistema partidário da V República. Em 2017, Macron acabou com o partido socialista; agora, ajudou, ele e Zemmour, a acabar com os republicanos. Nesse sentido, Macron foi o primeiro Presidente do pós-V República. Mas Macron não tem partido, lidera um movimento político pouco institucionalizado. Mesmo que ganhe agora, o que acontecerá daqui a cinco anos? Com os partidos tradicionais desfeitos, a política francesa ficará ainda mais sob o poder de movimentos populistas e radicais.

No actual contexto internacional, com a Guerra na Ucrânia, seria ainda mais importante que Macron fosse reeleito. Mas se Le Pen ganhar, os grandes culpados têm quatro nomes: Mitterrand, Chirac, Sarkozy e Hollande. Durante 36 anos, portaram-se como ‘monarcas absolutistas’, sempre mais preocupados com os jogos políticos da ‘corte parisiense’ do que em resolver os problemas dos franceses. Só se preocupavam em falar aos franceses quando precisavam dos seus votos, mas entre as eleições portavam-se como os ‘donos de França‘, simbolizando a própria França. Na tradição Gaullista, eles eram a França. Não sei se a França será capaz de melhor, mas se não for, a sua democracia continuará a sofrer de grandes fragilidades.

Os populismos são as respostas às crises das democracias. Não culpem os franceses, nem sequer Le Pen – está a aproveitar os despojos que os outros deixaram. Os culpados são os partidos tradicionais que levaram a França para o abismo. E nem Macron aprendeu com o que aconteceu em 2017. Por isso, a última esperança de todos os moderados europeus é que a maioria dos franceses ainda se recuse a eleger Le Pen. É um consolo muito fraco.

Observador (PT)

A coleta de mortos e o temor dos sobreviventes perto de Kiev




Dias após a retirada russa, continuam em Hostomel e Bucha a busca por cadáveres e a retirada de minas e outros artefatos explosivos das ruas e quintais.

Por Alexander Savitsky

É uma paisagem assustadora. As ruas da outrora aconchegante Hostomel, uma das cidades a noroeste de Kiev, estão desertas desde a retirada das tropas russas. Os contrastes não poderiam ser mais gritantes: as primeiras flores brotam nas árvores, e o chilrear primaveril dos pássaros está no ar, mas há também o rangido de postes de ferro quebrados e o latido de cães solitários vagando sem seus donos. No asfalto, há fios de eletricidade e partes de cercas tombadas. Cacos de vidro rangem sob os pés incessantemente.

Por toda parte, há casas, garagens e carros queimados. Muitos prédios têm cinco andares, e a maioria deles agora está sem telhado. As janelas também foram quebradas por ondas de pressão e tiros. Em uma sacada preservada, as roupas penduradas no varal balançam ao vento, abandonadas às pressas diante da guerra de agressão russa.

Durante todo o tempo em que nosso grupo de jornalistas esteve em Hostomel, vimos apenas um homem e uma mulher de meia-idade, que olham esperançosos para os ônibus com representantes da mídia.

Antonov Airlines: um sonho de avião destruído

O aeroporto de Hostomel, a cerca de 20 quilômetros de Kiev, foi sede da Antonov Airlines, conhecida por aeronaves de carga, incluindo a maior aeronave do mundo – Antonov An-225 "Mriya", que significa "sonho". A entrada do aeroporto foi severamente danificada por bombardeios. Só permaneceu intacta uma placa com um retrato do designer Oleg Antonov, que dá nome à empresa que constrói aeronaves de carga e comerciais.

Há muitos equipamentos militares queimados pertencentes às tropas russas espalhados pelo aeródromo. Podem ver vistas crateras causadas pela explosão de granadas. Os portões, paredes e telhados dos hangares estão crivados de buracos, como uma peneira, depois de dias de bombardeios.

Do que era o An-225 "Mrija" restam apenas o nariz e as asas com pedaços dos seis motores. No meio do enorme avião, abre-se o maquinário interno queimado da aeronave. Nós, jornalistas, podemos fotografar essa visão sinistra, mas sem chegar muito perto dos escombros, porque o chão do aeródromo ainda está cheio de balas de metralhadoras pesadas e bombas ainda com potencial explosivo.

"Somente quando a limpeza estiver completa, os especialistas poderão inspecionar o avião e esclarecer a causa do incêndio", disse o ministro do Interior ucraniano, Denis Monastirsky, que acompanha os repórteres.

Cidade defendida com sucesso, mas deserta

Segundo ele, os invasores russos ocuparam o aeródromo no primeiro dia da invasão russa, em 24 de fevereiro. Várias dezenas de helicópteros de ataque russos sobrevoaram o reservatório de Kiev a uma altitude muito baixa – invisível ao radar. Em Hostomel, desembarcaram os primeiros 500 paraquedistas russos. "Os defensores ucranianos conseguiram derrubar seis helicópteros inimigos em uma batalha extremamente brutal", disse o ministro do Interior. Centenas de paraquedistas foram mortos, segundo ele. Em seguida, os militares ucranianos teriam usado lançadores de foguetes para destruir uma unidade de elite liderada pelo governante checheno Ramzan Kadyrov, incluindo seus equipamentos.

De acordo com Monastirsky, os russos mais tarde enviaram reforços suficientes para tomar o aeródromo e a cidade. Segundo o ministro, Hostomel serviria como plataforma de pouso para aviões de transporte militar russos para forças destinadas a capturar e ocupar Kiev. Mas os ucranianos explodiram a pista e, depois de mais combates ferozes, finalmente forçaram os invasores a recuar. "Mas o perigo para Kiev não foi evitado", pondera Monastirsky. "Estamos nos preparando para novos possíveis ataques."

Bucha: cadáveres agora devem ser identificados

Hostomel é limítrofe à cidade de Bucha, apenas um parque da cidade marca o limite administrativo. Mas o contraste é incrível. Uma semana após a libertação de Bucha da ocupação russa, a vida pode ser sentida novamente na cidade. Pessoas e carros civis podem ser vistos nas ruas, também há mais casas preservadas do que em Hostomel. No entanto, prédios danificados e supermercados destruídos, assim como bloqueios de estradas, ainda são lembranças dos combates.

Mas a impressão de paz é enganosa. As fotos de cadáveres nas ruas de Bucha ainda estão frescas na mente das pessoas da cidade e do mundo. Enquanto os serviços municipais limpam as ruas, sepulturas são exumadas e evidências da morte de civis continuam a surgir.

Os ônibus com os jornalistas param em uma igreja ortodoxa. Ao lado dela, cadáveres estão sendo exumados de uma vala profunda. As pessoas usam trajes de proteção brancos, os mortos jazem em sacos plásticos pretos. O padre diz que muitos moradores de Bucha que perderam contato com familiares agora estão olhando para as valas comuns com preocupação. "Eles esperam não encontrar seus entes queridos entre os mortos. Esperam que eles possam estar em cativeiro ou em hospitais, mas que sobreviveram." Os sacos ainda estão abertos, e os rostos dos mortos podem ser vistos, a maioria dos quais já ficou preta.

Andriy Nebytov, da polícia nacional da região de Kiev, disse a repórteres que 40 pessoas foram encontradas na vala ao lado da igreja até agora. Um funcionário da empresa de serviços públicos os recolheu nas ruas da cidade com a permissão das forças de ocupação russas. "Agora estamos entregando os corpos aos legistas", disse Nebytow. "Muitos deles têm ferimentos de bala na cabeça ou no corpo. Você pode dizer que eles foram mortos diretamente com metralhadoras ou fuzis de precisão."

De acordo com o delegado, todos os mortos são homens e mulheres civis de várias idades, com exceção de dois militares. "Além desses 40 cadáveres, mais de 400 já foram levados para instalações forenses de toda a região de Kiev. Mais de 360 ​​deles vêm de Bucha, Hostomel e Irpin", diz Nebytov. Mas a busca ainda não terminou. "Muitas pessoas foram enterradas em jardins porque não podiam ser levadas aos cemitérios sob fogo cruzado".

Deutsche Welle

A coleta de mortos e o temor dos sobreviventes perto de Kiev




Dias após a retirada russa, continuam em Hostomel e Bucha a busca por cadáveres e a retirada de minas e outros artefatos explosivos das ruas e quintais.

Por Alexander Savitsky

É uma paisagem assustadora. As ruas da outrora aconchegante Hostomel, uma das cidades a noroeste de Kiev, estão desertas desde a retirada das tropas russas. Os contrastes não poderiam ser mais gritantes: as primeiras flores brotam nas árvores, e o chilrear primaveril dos pássaros está no ar, mas há também o rangido de postes de ferro quebrados e o latido de cães solitários vagando sem seus donos. No asfalto, há fios de eletricidade e partes de cercas tombadas. Cacos de vidro rangem sob os pés incessantemente.

Por toda parte, há casas, garagens e carros queimados. Muitos prédios têm cinco andares, e a maioria deles agora está sem telhado. As janelas também foram quebradas por ondas de pressão e tiros. Em uma sacada preservada, as roupas penduradas no varal balançam ao vento, abandonadas às pressas diante da guerra de agressão russa.

Durante todo o tempo em que nosso grupo de jornalistas esteve em Hostomel, vimos apenas um homem e uma mulher de meia-idade, que olham esperançosos para os ônibus com representantes da mídia.

Antonov Airlines: um sonho de avião destruído

O aeroporto de Hostomel, a cerca de 20 quilômetros de Kiev, foi sede da Antonov Airlines, conhecida por aeronaves de carga, incluindo a maior aeronave do mundo – Antonov An-225 "Mriya", que significa "sonho". A entrada do aeroporto foi severamente danificada por bombardeios. Só permaneceu intacta uma placa com um retrato do designer Oleg Antonov, que dá nome à empresa que constrói aeronaves de carga e comerciais.

Há muitos equipamentos militares queimados pertencentes às tropas russas espalhados pelo aeródromo. Podem ver vistas crateras causadas pela explosão de granadas. Os portões, paredes e telhados dos hangares estão crivados de buracos, como uma peneira, depois de dias de bombardeios.

Do que era o An-225 "Mrija" restam apenas o nariz e as asas com pedaços dos seis motores. No meio do enorme avião, abre-se o maquinário interno queimado da aeronave. Nós, jornalistas, podemos fotografar essa visão sinistra, mas sem chegar muito perto dos escombros, porque o chão do aeródromo ainda está cheio de balas de metralhadoras pesadas e bombas ainda com potencial explosivo.

"Somente quando a limpeza estiver completa, os especialistas poderão inspecionar o avião e esclarecer a causa do incêndio", disse o ministro do Interior ucraniano, Denis Monastirsky, que acompanha os repórteres.

Cidade defendida com sucesso, mas deserta

Segundo ele, os invasores russos ocuparam o aeródromo no primeiro dia da invasão russa, em 24 de fevereiro. Várias dezenas de helicópteros de ataque russos sobrevoaram o reservatório de Kiev a uma altitude muito baixa – invisível ao radar. Em Hostomel, desembarcaram os primeiros 500 paraquedistas russos. "Os defensores ucranianos conseguiram derrubar seis helicópteros inimigos em uma batalha extremamente brutal", disse o ministro do Interior. Centenas de paraquedistas foram mortos, segundo ele. Em seguida, os militares ucranianos teriam usado lançadores de foguetes para destruir uma unidade de elite liderada pelo governante checheno Ramzan Kadyrov, incluindo seus equipamentos.

De acordo com Monastirsky, os russos mais tarde enviaram reforços suficientes para tomar o aeródromo e a cidade. Segundo o ministro, Hostomel serviria como plataforma de pouso para aviões de transporte militar russos para forças destinadas a capturar e ocupar Kiev. Mas os ucranianos explodiram a pista e, depois de mais combates ferozes, finalmente forçaram os invasores a recuar. "Mas o perigo para Kiev não foi evitado", pondera Monastirsky. "Estamos nos preparando para novos possíveis ataques."

Bucha: cadáveres agora devem ser identificados

Hostomel é limítrofe à cidade de Bucha, apenas um parque da cidade marca o limite administrativo. Mas o contraste é incrível. Uma semana após a libertação de Bucha da ocupação russa, a vida pode ser sentida novamente na cidade. Pessoas e carros civis podem ser vistos nas ruas, também há mais casas preservadas do que em Hostomel. No entanto, prédios danificados e supermercados destruídos, assim como bloqueios de estradas, ainda são lembranças dos combates.

Mas a impressão de paz é enganosa. As fotos de cadáveres nas ruas de Bucha ainda estão frescas na mente das pessoas da cidade e do mundo. Enquanto os serviços municipais limpam as ruas, sepulturas são exumadas e evidências da morte de civis continuam a surgir.

Os ônibus com os jornalistas param em uma igreja ortodoxa. Ao lado dela, cadáveres estão sendo exumados de uma vala profunda. As pessoas usam trajes de proteção brancos, os mortos jazem em sacos plásticos pretos. O padre diz que muitos moradores de Bucha que perderam contato com familiares agora estão olhando para as valas comuns com preocupação. "Eles esperam não encontrar seus entes queridos entre os mortos. Esperam que eles possam estar em cativeiro ou em hospitais, mas que sobreviveram." Os sacos ainda estão abertos, e os rostos dos mortos podem ser vistos, a maioria dos quais já ficou preta.

Andriy Nebytov, da polícia nacional da região de Kiev, disse a repórteres que 40 pessoas foram encontradas na vala ao lado da igreja até agora. Um funcionário da empresa de serviços públicos os recolheu nas ruas da cidade com a permissão das forças de ocupação russas. "Agora estamos entregando os corpos aos legistas", disse Nebytow. "Muitos deles têm ferimentos de bala na cabeça ou no corpo. Você pode dizer que eles foram mortos diretamente com metralhadoras ou fuzis de precisão."

De acordo com o delegado, todos os mortos são homens e mulheres civis de várias idades, com exceção de dois militares. "Além desses 40 cadáveres, mais de 400 já foram levados para instalações forenses de toda a região de Kiev. Mais de 360 ​​deles vêm de Bucha, Hostomel e Irpin", diz Nebytov. Mas a busca ainda não terminou. "Muitas pessoas foram enterradas em jardins porque não podiam ser levadas aos cemitérios sob fogo cruzado".

Deutsche Welle

Ameaça real: forças russas se dirigem para o "país mais feliz do mundo".




A Finlândia mudou de posição depois da invasão da Ucrânia e pode entrar para a Otan ainda este ano, razão das novas manobras de intimidação de Moscou. 

Por Vilma Gryzinski

Aurora boreal, renas, saunas e um frio tão grande que a temperatura média é de 14 graus – no verão. Geralmente são lugares comuns assim que vêm à cabeça quando a Finlândia é mencionada. Para quem gosta de acompanhar indicadores altamente discutíveis, o país nórdico também tem levado, há cinco anos, o título de mais feliz do mundo.

A ideia de que todos os principais problemas da humanidade foram resolvidos da melhor maneira possível na Finlândia tem sido consistentemente demolida desde que a Rússia primeiro cercou e depois invadiu a Ucrânia, numa demonstração assustadora de que nenhum vizinho que já tenha sido parte da esfera russa de influência pode ficar tranquilo.

O realinhamento de países europeus como a Finlândia e a Suécia, que não fazem parte da Otan, a aliança militar que abriga a maioria da Europa sob o guarda-chuva nuclear americano, foi apontado muitas vezes como uma das consequências indesejadas desencadeadas por Vladimir Putin.

Os dois países nórdicos podem entrar para a Otan ainda este ano, rompendo uma postura de muitas décadas de neutralidade, voluntária ou implicitamente exigida, como no caso da Finlândia, constrangida desde os tempos da União Soviética a ficar na sua.

Com apenas 5,5 milhões de habitantes e 1 340 quilômetros de fronteira com a Rússia, o maior país do mundo, a neutralidade da Finlândia era uma questão de autopreservação. Agora, o mesmo impulso leva o país a procurar a proteção da aliança e seu artigo 5, o que estabelece que um ataque contra um membro da Otan tem que ser respondido por todos seus 30 países membros.

A opinião pública acompanhou esta guinada. Antes da invasão da Ucrânia, apenas 25% dos finlandeses apoiava a adesão. Agora, são 84%. É possível que aumente mais ainda depois das cenas flagradas ontem, de baterias de mísseis montadas em caminhões gigantescos se dirigindo, do lado russo, para a estrada que leva a Helsinque.

O deslocamento aconteceu depois que o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, avisou lugubremente que a expansão da Otan “não traz estabilidade para o continente europeu”. O deputado Vladimir Dzhabarov, agente aposentado como general dos serviços de espionagem (primeiro KGB, depois FSB), apelou à virulência extrema que virou lugar comum entre a elite dirigente russa e disse que a decisão da Finlândia significaria “a destruição do país”.

A placidez da Finlândia, um país que reproduz debaixo da terra as estruturas que existem acima dela, tanto para se abrigar do frio quanto de eventuais bombardeios, esconde uma história conturbada, dividida entre vizinhos mais poderosos, a Suécia e a Rússia, com constantes tentativas de russificação e uma proximidade tóxica com São Petersburgo (onde fica a Estação Finlândia na qual Lênin desembarcou, vindo do exílio, em abril de 1917).

Depois da independência, produto da derrocada do regime imperial russo, comunistas e anticomunistas travaram uma guerra civil com atrocidades mútuas. Os “brancos” ganharam e o país construiu uma democracia exemplar, baseada numa sociedade com laços sólidos de solidariedade – a viga mestra que permitiu a resistência quando a União Soviética stalinista depois de tomar metade da Polônia, invadiu a Finlândia em novembro de 1939.

Como acontece agora com a Ucrânia, a inesperada capacidade de resistir a um exército superior espantou o mundo. Foi nessa Guerra do Inverno que finlandeses inventaram o coquetel Molotov, uma ironia com o o ministro das Relações Exteriores, Viacheslav Molotov. Com cinismo clássico, ele dizia que os aviões que bombardeavam a Finlândia estavam na verdade levando alimentos para a população necessitada. O “coquetel” era para acompanhar a comida.

A Finlândia conseguiu garantir a independência, embora tenha sido obrigada a ceder territórios fronteiriços. Cedeu também à tentação de se aliar aos nazistas quando a Alemanha invadiu a União Soviética. Custou caro quando o Exército Vermelho virou o jogo. A certa altura, no fim da guerra, a Finlândia combatia simultaneamente alemães e russos. Com a derrota nazista, a neutralidade imposta por Moscou foi o preço da sobrevivência.

Agora, tanto para a Finlândia quanto para a Suécia, ficou impossível manter essa política. Quem não se protege, fica em posição mais arriscada ainda do que a de provocar a ira russa. A primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, do Partido Social-Democrata, a centro-esquerda que sempre resistiu à Otan, disse que o ingresso na aliança atlântica será aprovado até o verão no hemisfério norte.

Aos 34 anos, ela é apontada como um dos exemplos que fazem da Finlândia um dos países mais igualitários do mundo, combinando o capitalismo que gera uma renda per capita de quase 50 mil dólares com um estado de bem-estar social no padrão nórdico.

Muitos discordam da classificação da Finlândia como país mais feliz do mundo, apontando características nacionais como a introspecção e a incomunicabilidade – sem contar os invernos – como fatores que geram um índice de suicídio de 13,4 casos por 100 mil habitantes (6,4 no Brasil).

Real ou artificialmente construído, o índice nacional de felicidade da Finlândia está passando por um teste. Por conhecer profundamente o vizinho, a Finlândia tem abrigos antiaéreos obrigatórios e faz estoques estratégicos de alimentos e combustível para pelo menos seis meses. Um terço da população adulta fez serviço militar e a doutrina da “defesa total”, envolvendo todos os setores da sociedade, como acontece agora na Ucrânia, faz parte integrante do sistema nacional.

“Estamos treinando para esta situação desde a II Guerra Mundial”, disse em março a ministra para a União Europeia, Titty Tuppurainem. “Não fomos pegos de surpresa”.

Otimista na ação e pessimista no pensamento não foi só uma frase de efeito daquele cara da Estação Finlândia.

Revista Veja

"Carniceiro da Síria" pode decidir guerra na Ucrânia?




Por Cathrin Schaer e Emad Hassan

O apelido do novo líder da invasão russa da Ucrânia, general Alexander Dvornikov, é "Carniceiro da Síria". No entanto, analistas militares argumentam que ele seria fundamentalmente diferente de outros comandantes russos no país árabe.

O oficial de 60 anos foi o primeiro comandante russo de alta patente deslocado para a Síria, depois que a Rússia passou a apoiar o ditador Bashar al-Assad. Ele atuou durante dez meses, de setembro de 2015 a julho de 2016. A essa altura, a revolução contra décadas de autoritarismo da família Assad havia desembocado numa brutal guerra civil.

O impiedoso bombardeio de áreas civis por jatos russos, sobretudo o da cidade de Aleppo, é considerado uma guinada decisiva em favor do líder sírio. Foram alvo mesquitas, mercados, escolas, hospitais e até fazendas e filas de alimentos. Os rebeldes adversários, que até então haviam obtido algum êxito contra o exército nacional, tinham pouquíssimos mísseis antiaéreos e nenhuma possibilidade de revidar.

Na Rússia, a campanha da Síria foi considerada uma vitória, valendo a Dvornikov não só um apelido pejorativo, mas também uma das mais altas honrarias do país: em 2016 foi designado "Herói da Federação Russa".

Procedimento padrão

No entanto toda essa notoriedade não é necessariamente merecida. Segundo um relatório recém-publicado pelo Institute for the Study of War (ISW), um think tank sediado em Washington, o procedimento do general no Oriente Médio não se afastou dos padrões usuais.

As forças de Moscou miraram civis sírios e infraestrutura crítica durante toda a intervenção, e "a experiência de Dvornikov em comandar o destacamento russo na Síria e de atacar civis, em si, não era exclusiva nem indicadora de aptidões especiais".

Além de não serem exceção, as "táticas e abordagens empregadas tanto na Síria quanto na Ucrânia [...] não são especialmente eficazes". E a reputação "sangrenta" de Dvornikov está longe de ser inusitada entre os militares russos, comenta à DW Elias Hanna, ex-comandante das Forças Armadas libanesas.

Segundo ele, o exército russo é bem conhecido pelo emprego de violência excessiva para atingir metas militares. Assim, o comportamento do general na Síria foi o produto de uma cultura militar longamente estabelecida: ele está na ativa desde 1982, e há dados de que combateu também na Tchetchênia, explica o professor de estratégia e geopolítica da Universidade Americana de Beirute.

'Rebeldes sírios construíam seus próprios mísseis e nunca estiveram tão bem armados quanto os combatentes ucranianos

As estatísticas tampouco indicam que Dvornikov tenha iniciado um novo e mais violento capítulo na guerra síria: quando os russos intervieram nos combates, em setembro de 2015, o regime Assad já estava aplicando uma política de "terra queimada".

Entre setembro de 2014 e agosto de 2015, por exemplo, a organização médica Physicians for Humanity registrou na Síria 110 ofensivas contra hospitais ou instalações médicas – exatamente o mesmo número do ano seguinte, depois que os russos começaram os bombardeios. Os primeiros ataques contra estabelecimentos médicos datam de 2012.

É certo que os russos são responsáveis por um maior número de vítimas civis depois de sua entrada no conflito: dos quase 17 mil sírios mortos em 2016, um quarto foi de sua responsabilidade, indica o relatório anual do observatório Syrian Network for Human Rights.

No entanto, o balanço mortal de Assad até então já era extremamente "sangrento": em 2014 e 2015, antes da chegada de Dvornikov, houve 12.044 e 24.430 vítimas da guerra civil, respectivamente. Além disso, foi o regime sírio que empregou indiscriminadamente, contra a própria população, armas químicas e bombas de barril – ambos crimes de guerra.

Apesar de não haver registros de que as tropas de Vladimir Putin estejam recorrendo a tais meios na Ucrânia, elas estão usando bombas e mísseis "burros", que não podem ser mirados com precisão maior, tendendo a causar mais mortes civis. A Rússia também usou esse tipo de armamento na Síria.

"Carniceiro" foi escolha lógica

A indicação de Alexander Dvornikov para supervisionar as forças russas na Ucrânia está longe de ser surpreendente. Trata-se de uma decisão lógica: desde que voltou da Síria, em 2016, ele tem comandado a zona militar sul da Rússia, que inclui a região de Donbass e a Crimeia, onde Moscou aparentemente planeja sua nova ofensiva.

Ao longo de março, de todos os diferentes eixos de operações, o seu é que tem acusado os maiores avanços. O general também liderou as operações em torno da cidade portuária sitiada de Mariupol. Além de ser o oficial de carreira mais longa no sul da Ucrânia, ele atualmente também é o comandante de mais alta patente no país.

De acordo com os observadores do ISW, é difícil prever se a atuação de Dvornikov na Síria pode até fazer alguma diferença no atual conflito. Pode contribuir o fato de ele ter sido o primeiro comandante no país árabe, tendo que estabelecer operações de coalizão, inclusive uma base aérea; assim como sua experiência com combates urbanos em Aleppo.

Por outro lado, é bem diversa a natureza do confronto na Ucrânia, a qual dispõe de um amplo arsenal de equipamento antiaéreo e outras munições avançadas, além de uma força aérea própria. Na segunda-feira (11/04), o conselheiro nacional de Segurança da Casa Branca, Jake Sullivan, comentou: "Nenhuma indicação de nenhum general pode apagar o fato de que a Rússia já sofreu uma derrota estratégica na Ucrânia."

Há indicações de que as tropas russas estão desmoralizadas e de que a logística do exército é caótica. Na Síria, o número oficial de soldados russos mortos desde 2015 é 112; enquanto na Ucrânia calcula-se que dezenas de milhares já caíram, em apenas seis semanas.

"A natureza das confrontações na Síria dependia de ofensivas aéreas violentas dos russos", aponta Elias Hanna. "O general Dvornikov só liderou as operações militares bombardeando a partir do ar, as forças de infantaria quase nunca tiveram que se confrontar com ninguém no solo. Mas agora há uma guerra terrestre, com lutas entre exércitos regulares e soldados profissionais, além de capacidade aérea."

Deutsche Welle

Polarização ameaça democracia do Brasil, diz ex-assessor de Obama para a América Latina




POR JULIA BRAUN 

O cenário de extrema polarização, fragmentação partidária e baixa confiança nas instituições é grave e pode ameaçar a democracia no Brasil. É o que acredita o ex-assessor e principal nome para a América Latina da gestão de Barack Obama nos Estados Unidos, Arturo Valenzuela (foto).

Em entrevista à BBC News Brasil, o professor emérito da Universidade Georgetown afirmou que o Brasil já demonstrou no passado ter instituições fortes para combater avanços de todo tipo, mas enfrenta novos obstáculos atualmente. “Será um desafio para todos os brasileiros analisarem as urnas e fortalecerem suas instituições”, disse.

Questionado se acredita que a democracia brasileira pode estar em risco, Valenzuela afirmou que essa é uma possibilidade real.

“Sim (…). Há um aumento da polarização. Há, de certa forma, o desaparecimento do meio-termo onde geralmente são feitos acordos entre os setores, tanto de centro-esquerda quanto de centro-direita”, afirmou.

“Um contexto em que as pessoas não confiam mais nos políticos, onde há preocupação com questões de corrupção e coisas assim, também leva a uma falta de confiança dos membros da sociedade nas instituições. Isso é um problema”.

Mas segundo o chileno naturalizado americano que serviu como assessor especial para o ex-presidente americano Bill Clinton e foi secretário-assistente de Estado no governo de Barack Obama, esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. “Esses problemas são apresentados de diferentes formas e em diferentes graus em muitos países, incluindo nos Estados Unidos e em alguns países da Europa”, disse.

Indagado sobre as ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e membros de seu governo sobre o não reconhecimento das eleições em caso de derrota, Valenzuela disse enxergar qualquer esforço para subverter o processo eleitoral como um golpe contra a democracia. “Isso é o tipo de coisa que afeta o fortalecimento das instituições democráticas”, afirmou.

O cientista político de formação comparou ainda os temores em relação ao pleito de outubro com o que aconteceu nos Estados Unidos após as eleições de 2020, quando o ex-presidente republicano Donald Trump se recusou a reconhecer sua derrota para Joe Biden.

“Como especialista em Direito Constitucional, estou preocupado que precisemos de algumas reformas significativas em nossas constituições, para que esse tipo de coisa não aconteça”, disse.

Arturo Valenzuela concedeu entrevista à BBC News Brasil por ocasião de sua participação em um webinar organizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais em parceria com o Consulado Geral dos EUA no Rio de Janeiro nesta quarta-feira (13/04). O evento marca a abertura de um projeto de um ano, liderado pelo ex-embaixador do Brasil em Washington Sérgio Amaral, que tem como objetivo aprofundar o conhecimento sobre as relações bilaterais entre os EUA e o Brasil.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil – Havia a expectativa de que o presidente americano Joe Biden adotasse uma posição dura com Jair Bolsonaro, principalmente em relação a questões como democracia e meio ambiente. No cenário de vitória de Bolsonaro nas eleições de outubro, como o senhor acredita que o atual governo dos Estados Unidos se posicionaria para um novo mandato?

Arturo Valenzuela – A relação dos Estados Unidos com o Brasil é importante, assim como com a América Latina em geral. É importante em questões de desenvolvimento econômico, comércio, tecnologia, propriedade intelectual, agricultura, abastecimento de alimentos e uma série de outras coisas. Mas, é claro, existem muitas agendas hoje que são realmente críticas, como a da mudança climática. E à medida que vemos o desdobramento da situação na Ucrânia, todas as questões de sobrevivência da governança democrática e direitos humanos se tornam realmente importantes.

E assim, fica claro que este é um momento mais difícil na relação com o Brasil. Talvez com o governo anterior houvesse certa afinidade – digo, entre o governo de Donald Trump e o de Bolsonaro. Mas isso acabou, Bolsonaro está concorrendo à reeleição e vamos ver o que acontece nos Estados Unidos.

A relação é um trabalho em andamento e muito vai depender do que acontecer no Brasil. Neste ponto em particular, é justo dizer que há divergências significativas com Bolsonaro e sua abordagem, tanto em relação à política doméstica quanto à sua política internacional. E vemos isso com as diferenças que foram colocadas nas últimas semanas em relação à crise na Ucrânia.

Mas nosso presidente anterior [Donald Trump] ainda não acredita que perdeu a eleição, então este não é um momento em que os Estados Unidos possam pregar a outros países do mundo que temos instituições melhores. Também lutamos com a qualidade de nossas próprias instituições e com muitas pessoas que tentaram essencialmente perturbar o processo democrático. Portanto, esses são desafios comuns que enfrentamos em todo o mundo.

BBC News Brasil – No momento, as pesquisas mostram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na liderança da corrida presidencial. Considerando um segundo cenário, em que Lula seja eleito presidente, como acredita que a Casa Branca avaliaria essa mudança de governo?

Valenzuela – Fui Secretário de Estado Adjunto quando Lula era presidente e tive que lidar com o governo brasileiro. Houve algumas dificuldades e desentendimentos com o ministro das Relações Exteriores e outros em temas como a abordagem da questão iraniana. Por outro lado, houve um esforço para trabalharmos juntos em uma série de questões importantes, incluindo, por exemplo, a crise na Venezuela.

Mas não acho que haveria uma lacuna significativa com um novo governo. Creio que os Estados Unidos trabalharão com quem for eleito e farão um esforço nessa direção. Não estou tão preocupado com a possibilidade de revisitarmos algumas das questões do passado, porque, de certa forma, o mundo mudou muito significativamente e em um período muito curto de tempo.

E muito vai depender também do apoio que Lula terá no Congresso. Há uma história recente na América Latina de colapso e fragmentação de partidos políticos. Isso acontece não apenas em países com períodos curtos de estabilidade democrática, mas também em países com histórico de estabilidade. E não é possível ter certeza de quem terá maioria no Legislativo.

BBC News Brasil – Há uma certa preocupação de alguns setores de que o presidente Jair Bolsonaro pode não reconhecer o resultado da eleição caso perca. Na sua opinião, essa é uma possibilidade real? Podemos ter uma repetição da invasão do Capitólio de 6 de janeiro e toda aquela violência aqui no Brasil?

Valenzuela – Prefiro não especular muito sobre qual pode ser o resultado. Obviamente, se houver um esforço para não reconhecer uma eleição legítima e tentar subverter o próprio processo da eleição, a forma como a eleição é administrada ou realizada, seria um problema muito sério para qualquer democracia. Isso é o tipo de coisa que afeta o fortalecimento das instituições democráticas.

Isso aconteceu e ainda continua acontecendo nos Estados Unidos. Felizmente, os tribunais e muitos dos profissionais de diferentes níveis que estavam encarregados do processo eleitoral em ambos os partidos se opuseram a essa falsa narrativa. Espero que existam instituições suficientemente fortes no Judiciário e em outros lugares no Brasil para garantir o mesmo tipo de resultado.

Um dos pontos problemáticos, para voltar a um argumento que fiz anteriormente, é que a fragmentação política significa que não há um processo centrista alternativo no Brasil neste ponto em particular. E, como especialista em Direito Constitucional, estou preocupado que precisemos de algumas reformas significativas em nossas constituições, para que esse tipo de coisa não aconteça.

Na verdade, o segundo turno é uma má ideia. Creio que o Congresso deve ter um papel maior e decidir em casos de candidatos que não obtêm mais de 45% dos votos. Não deveríamos entrar em um segundo turno que pode pulverizar e fragmentar ainda mais o sistema político. Esse tipo de coisa precisa ser tratada no Legislativo. Portanto, há maneiras pelas quais precisamos parlamentarizar, por assim dizer, os sistemas presidencialistas.

BBC News Brasil – Vários institutos internacionais que medem o status da democracia no mundo apontam para um declínio na qualidade da democracia brasileira desde o início do governo de Jair Bolsonaro. Na sua opinião, a democracia no Brasil está em risco?

Valenzuela – Sim, por alguns dos pontos que já indiquei. Há um aumento da polarização. Há, de certa forma, o desaparecimento do meio-termo onde geralmente são feitos acordos entre os setores, tanto de centro-esquerda quanto de centro-direita. Esse tipo de fenômeno é um problema do nosso tempo. Temos observado um declínio considerável dos partidos políticos e sua fragmentação, e esse tipo de coisa é preocupante.

O Brasil vive um momento de extrema fragmentação, com uma polarização maior e talvez mais forte de extrema direita manifestada pelo atual presidente. A eleição em si está muito polarizada, com candidatos da extrema esquerda e da extrema direita com mais apoio do que os candidatos que podem ser identificados como centro.

Um contexto em que as pessoas não confiam mais nos políticos, onde há preocupação com questões de corrupção e coisas assim, também leva a uma falta de confiança dos membros da sociedade nas instituições. Isso é um problema.

Não estou dizendo que essas sejam características necessariamente exclusivas do Brasil. Esses problemas são apresentados de diferentes formas e em diferentes graus em muitos países, incluindo nos Estados Unidos e em alguns países da Europa.

O que realmente precisamos são de forças políticas pragmáticas que representem setores importantes da população. E deve haver regras nesse jogo para garantir que os partidos fiquem mais fortes e possam ser bons representantes.

BBC News Brasil – O senhor acredita que o Brasil tem instituições fortes o suficiente para lidar com isso?

Valenzuela – O Brasil mostrou que já teve instituições fortes, por meio de sua capacidade de combater a corrupção, por exemplo. Mas, de certa forma, isso foi há algum tempo. Então será um desafio para todos os brasileiros analisarem as urnas e fortalecerem suas instituições. Esse também é um desafio nos Estados Unidos.

BBC News Brasil – Dados recentes mostram que o desmatamento na Amazônia em 2021 foi o pior em 10 anos. O que o senhor acredita que o governo Joe Biden pode fazer nos próximos anos para pressionar mais o Brasil na questão ambiental?

Valenzuela – Esta é uma questão crítica e, de certa forma, o Brasil se destaca devido à extraordinária importância de sua contribuição para o ecossistema do mundo. As mudanças climáticas estão afetando o mundo de uma maneira muito significativa – tivemos incêndios horríveis na Califórnia por conta de secas excessivas, seguidos de tornados e as tempestades no sul dos Estados Unidos. As nações insulares também enfrentam um grande desafio à medida que as geleiras estão derretendo. Portanto, o Brasil desempenha um papel muito importante e não prestar atenção nessas ramificações mais amplas é preocupante.

Mas ao mesmo tempo, observadores e países estrangeiros também estão preocupados com o que está acontecendo com certas populações no Brasil. Não se trata apenas de cuidar da floresta, mas também das populações indígenas que foram suas guardiãs e tiveram que enfrentar as afrontas do extermínio e comercialização dessas áreas preciosas do Brasil. E sei que muitos brasileiros estão preocupados com isso também.

BBC News Brasil – O senhor acredita que os EUA podem tomar ações mais assertivas em relação ao Brasil?

Valenzuela – Durante a era Trump houve um desdém pelas alianças e instituições internacionais. Já o governo Biden representa uma administração que entende a importância de trabalhar com outros países, de apostar no multilateralismo, construir consenso e trabalhar em conjunto.

Mas isso só pode ser feito se as instituições mundiais estiverem funcionando. Por instituições mundiais quero dizer as instituições multilaterais e organizações internacionais como a Organização Mundial do Comércio, a Organização Mundial da Saúde, a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos e outras.

Temas como o meio ambiente precisam ser fortalecidos por meio desses tipos de organizações. E o Brasil pode ser um líder nessa área. Mas, em vez disso, o Brasil está desprezando esse tipo de instituição e está contribuindo, de certa forma, para sua fraqueza.

BBC News Brasil – Na sua opinião, o Brasil perdeu relevância como mediador de conflitos e referência na América Latina?

Valenzuela – Sim, o Brasil perdeu relevância. Muitos podem discordar de algumas das coisas que foram feitas pelo governo Lula em termos de projeção, mas quando o ex-presidente pensou em cooperar com o Irã tinha o compromisso de tentar abordar os temas de forma que seriam vantajosos não apenas para os países envolvidos, mas para a ordem mundial. E pode-se discordar se tudo isso foi útil ou não naquele momento específico, mas pelo menos fez algum sentido.

E acho que o Brasil pode e deve agir dessa forma, porque é um país grande e um dos Brics do mundo. Há muitos elementos da tradição brasileira que contribuíram para essa ordem mundial para a qual precisamos retornar. Eu sou um admirador de muitos dos líderes brasileiros do passado e Fernando Henrique é uma das minhas referências.

Então, em última análise, precisamos de ordem mundial, precisamos de uma ordem mundial baseada no conceito fundamental de governança democrática, de governos do povo, pelo povo e para o povo. Precisamos de instituições internacionais que ajudem a proteger essa ideia para que possamos ter uma ordem mundial pacífica e bem-sucedida.

BBC News Brasil – A América Latina passou por muitas crises ao longo dos anos, mas nos últimos cinco anos parece que a situação da democracia na região se complicou, com muitas crises políticas em países como Chile, Bolívia, Nicarágua, Peru e Venezuela. A que o senhor atribui esse período de instabilidade política?

Valenzuela – Há uma diferença entre a trajetória de diferentes países da América Latina. Há alguns países em que não houve a consolidação das instituições democráticas e outros que têm uma longa história de consolidação das instituições democráticas.

Agora, como eu disse anteriormente, há realmente uma espécie de crise universal da democracia. Em alguns países da América Latina, ironicamente, parte disso se deve ao fato de que houve muito progresso. E digo isso porque muitas pessoas que observam situação chilena, por exemplo, e pensam que os protestos são motivados por uma enorme desigualdade. Na realidade, havia uma desigualdade muito maior em 1960, com uma grande uma porcentagem da população na pobreza absoluta, algo como 50% ou 65%. Hoje está em cerca de 8%. O que vimos acontecer é o surgimento de novas classes médias, que agora se sentem ameaçadas e mais vulneráveis.

Portanto, há razões pelas quais estamos enfrentando uma nova crise. Eu pertenço a várias organizações que analisam pesquisas de opiniões voltadas para os mais jovens, e é lamentável, mas muitos jovens sentem que as elites são os partidos convencionais. E isso tem acontecido no Brasil com partidos políticos realmente fortes como PSDB e outros que perderam uma forte base de apoio. Há uma crise da social-democracia em grande parte do mundo, por essa razão.

BBC Brasil /  Daynews

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