quarta-feira, abril 13, 2022

A fortuna secreta de oligarca do 'círculo íntimo' de Putin revelada por investigação da BBC




Documentos vazados revelam como um oligarca russo alvo de sanções devido à invasão à Ucrânia e parte do "círculo íntimo" do presidente Vladimir Putin escondeu sua riqueza.

Por James Oliver, Nassos Stylianou e Steve Swann

Os documentos, aos quais a BBC News teve acesso, mostram como um tatuador suíço foi falsamente nomeado proprietário de uma empresa que transferiu mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,4 bilhão) para empresas ligadas a Suleiman Kerimov.

Também mostram como US$ 700 milhões (R$ 3,4 bilhões) em transações - e o controle de propriedades de luxo - passaram despercebidos pelas autoridades.

A investigação expõe falhas do sistema bancário e os obstáculos que impedem o sucesso das sanções financeiras em retaliação ao ataque russo à Ucrânia.

Como parte do projeto Pandora Papers Russia, uma investigação liderada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), a BBC descobriu evidências de que:

    Transações no valor de US$ 700 milhões (R$ 3,2 bi) ligadas a Suleiman Kerimov e seus parceiros de negócio mais próximos foram relatadas como suspeitas por bancos entre 2010 e 2015;

    O contador suíço Alexander Studhalter figurou como proprietário de imóveis que na verdade pertenciam a Kerimov;

    Kerimov era o proprietário secreto de imóveis na Riviera Francesa e em Londres, incluindo a propriedade com terraço mais cara já vendida no Reino Unido.

Tom Keatinge, diretor do Centro de Crimes Financeiros e Estudos de Segurança do think tank de defesa RUSI, disse que os oligarcas sob alvo de sanções de potências ocidentais têm muitas dessas empresas de fachada.

"Isso mostra o grande desafio que teremos em efetivamente fazer valer as sanções contra os oligarcas - não apenas confiscar seus iates e casas em Belgravia [um bairro de alto padrão de Londres]."

Suleiman Kerimov apareceu em fevereiro ao lado do presidente Putin com outros bilionários no momento em que tanques russos invadiam a Ucrânia.

Ele tem sido alvo de sanções dos EUA desde 2018 "por ser um funcionário do governo da Federação Russa" e também como membro do parlamento russo.

Kerimov também recebeu punições do governo britânico em 15 de março deste ano e da União Europeia que o classificou como "um membro do círculo interno de oligarcas" próximo a Putin.

De origem humilde como economista da era soviética, Kerimov se tornou um dos magnatas mais bem relacionados da Rússia.

Ele fez sua fortuna comprando ativos de energia e grandes participações em bancos russos após a queda da União Soviética. Há relatos de que ganhou US$ 21 bilhões com os investimentos na gigante do setor de gás Gazprom e no Sberbank, o maior banco estatal.

Em novembro de 2006, ele quase morreu em um acidente no sul da França, do qual saiu ferido. Ele derrapou na Promenade des Anglais, um dos principais pontos turísticos da cidade de Nice, na França, com uma Ferrari modelo Enzo, avaliada em US$ 650 mil. O carro pegou fogo, e Kerimov e uma passageira foram retirados dos destroços.

Nossa investigação sobre Kerimov expõe a falha do sistema bancário internacional em identificar quem estava por trás de centenas de milhões de dólares em transações que bancos identificaram como suspeitas.

Kerimov está entre os mais de 4.000 russos cujos nomes aparecem em dados obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e examinados como parte do Pandora Papers Russia - uma nova investigação do ICIJ e parceiros globais para esclarecer transações financeiras secretas ligadas aos oligarcas e outros próximos ao Kremlin no contexto da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Registros corporativos mostram como falsos proprietários foram usados para esconder os verdadeiros envolvidos e que os bancos não sabiam exatamente quem estava por trás das grandes transações em dólares.

Isso coloca em dúvida a capacidade dos governos de identificar e apreender os ativos para efetivar as sanções impostas.

"Nós vamos atrás dos seus ganhos ilícitos", prometeu o presidente dos EUA, Joe Biden, em seu discurso anual do Estado da União. Os EUA anunciaram um importante programa intergovernamental para identificar ativos de oligarcas. Mas isso não será fácil, como mostra o caso Kerimov.

Especialistas dizem que potências ocidentais têm muito trabalho a fazer porque, durante anos, foram negligentes com a circulação de dinheiro sujo e não tomaram providências para responsabilizar os bancos.

"Eles terão que se esforçar para recuperar o tempo perdido para solucionar isso", disse Julia Friedlander, ex-consultora de sanções do Departamento do Tesouro dos EUA, agora no think tank Atlantic Council.

Veja abaixo as principais descobertas relacionadas a Suleiman Kerimov.

A investigação francesa

Um documento da justiça francesa que não foi tornado público, ao qual a BBC teve acesso, revela como o oligarca teria escondido sua riqueza usando seus associados mais próximos.

Kerimov foi preso em novembro de 2017 na França por suspeita de lavar recursos provenientes de evasão fiscal. O processo contra ele estava relacionado à compra de uma série de propriedades de luxo na Riviera Francesa entre 2006 e 2010.

O foco do processo foi a Villa Hier, em Cap d'Antibes, uma propriedade luxuosa que já foi usada como local de filmagem para o filme Os Safados, com Steve Martin e Michael Caine, de 1988.

A vila havia sido vendida para uma empresa suíça chamada Swiru Holding AG em 2008 por € 35 milhões (quase R$ 180 milhões) - mas os investigadores descobriram pagamentos ocultos mostrando sonegação de impostos sobre o preço real de compra de € 127 milhões (cerca de R$ 650 milhões).

Alexander Studhalter, um contador e empresário suíço também foi preso. Ele alegou ser o proprietário da Swiru Holding e de quatro vilas, mas, segundo investigadores franceses, os imóveis eram do oligarca russo.

Studhalter funcionaria como um "laranja" de Kerimov - mas os processos criminais contra os dois homens foram suspensos. As acusações foram arquivadas por um tribunal de apelação francês.

Em 2020, a Swiru Holding admitiu seu envolvimento na evasão fiscal e foi multada em € 1,4 milhão (R$ 7,1 milhões) e obrigada a pagar outros € 10,3 milhões (R$ 52 milhões) para resolver o caso.

O advogado de Kerimov divulgou um comunicado dizendo que os tribunais franceses "rejeitaram oficialmente as alegações feitas pelo ex-procurador de Nice contra Suleiman Kerimov de ter realizado operações de lavagem de dinheiro".

Studhalter afirma que "nunca foi o laranja do meu amigo russo".

Mas de acordo com o documento do tribunal francês acessado pela BBC isso não é verdade.

Em uma audiência secreta em junho de 2018, os juízes apresentaram provas coletadas pelo juiz de instrução, que concluiu: "o beneficiário efetivo e exclusivo das vilas é o Sr. Kerimov e sua família".

As evidências incluíam registros de três bancos - incluindo documentos aparentemente assinados por Studhalter, Kerimov e seu sobrinho Nariman Gadzhiev - afirmando que Kerimov e seu sobrinho eram os verdadeiros proprietários da Swiru Holding.

Studhalter justificou, segundo o tribunal, dizendo que os "documentos mantidos pelo banco e assinados por Suleyman Kerimov ou Nariman Gadzhiev ... eram falsificações".

Questionado por parceiros da BBC e do ICIJ, Studhalter afirmou que um mesmo funcionário do banco falsificou documentos em duas instituições bancárias, mas disse que não sabia por quê.

Studhalter também disse: "Eu era o único beneficiário efetivo da Swiru Holding AG desde sua fundação até vender a empresa em 2019, o que é confirmado pela Administração Tributária Federal Suíça e um tribunal na França".

Os advogados franceses de Kerimov disseram: "Após vários anos de investigação, nenhuma acusação foi feita contra nosso cliente".

Studhalter diz que as quatro vilas na França já foram vendidas. Registros oficiais na França mostram que a beneficiária final das empresas proprietária dos imóveis é a filha de Kerimov.

Propriedades em Londres

A França não foi o único país onde Kerimov usou a Swiru Holding para realizar transações financeiras secretas.

Nossa investigação descobriu que - ao mesmo tempo que o bilionário russo comprava propriedades no sul da França - ele construía outro império imobiliário secreto em Londres.

One Cornwall Terrace é uma luxuosa mansão de quatro andares próxima ao Regent's Park, em Londres. A casa tem 2.000 metros quadrados de jardins paisagísticos e uma grande escadaria dupla que leva a um pátio imponente.

O imóvel foi destaque nas manchetes de jornais em 2013, quando sua venda por £ 80 milhões (R$ 490 milhões) foi listada como uma das maiores transações do setor no Reino Unido.

Em outubro do ano passado, documentos vazados nos Pandora Papers revelaram que era uma das duas propriedades adjacentes compradas pela família que governa o Catar.

Mas os documentos mostram que em 2005 o imóvel foi comprado por £ 21 milhões (R$ 128 milhões) por uma empresa offshore de propriedade da Swiru Holding, a mesma empresa que documentos financeiros na França mostraram ser de propriedade de Kerimov.

Após o lançamento bem-sucedido da empresa Polyus Gold de Kerimov - o maior produtor de ouro da Rússia - na bolsa de valores de Londres em 2007, o One Cornwall Terrace se beneficiou de uma restauração luxuosa. O trabalho realizado entre 2008 e 2013 foi bastante interessante para os bolsos de arquitetos, designers de interiores e paisagistas de Londres.

A reforma custou £ 30 milhões (R$ 183 milhões), de acordo com os arquitetos que trabalham no projeto e incluiu a construção de uma "piscina e spa de última geração no subsolo", enquanto a renovação do jardim foi "inspirada na Piazza dell'Anfiteatro em Lucca, Itália".

Embora as referências citassem um "cliente russo privado", o verdadeiro dono - Kerimov - estava escondido atrás de camadas de sigilo offshore.

Transferências

As atividades financeiras da empresa secretamente propriedade de Kerimov não se limitavam ao mercado imobiliário.

Documentos dos Pandora Papers mostram a Swiru Holding no centro de uma rede de empresas envolvidas nas transferências de centenas de milhões de dólares - dinheiro ligado ao oligarca.

Em um caso, registros corporativos vazados revelam que um acionista por procuração - alguém que possui ações em benefício de outra pessoa - foi falsamente indicado como o verdadeiro proprietário de uma empresa envolvida em mais de US$ 300 milhões (R$ 1,4 bilhão) em transferências.

Renato Coppo é um tatuador na turística cidade suíça de Lucerna, apaixonado pela "arte asiática" e com "muitos anos de experiência profissional no campo da tatuagem". Seu estúdio fica na mesma cidade do escritório do contador e empresário Alexander Studhalter.

De acordo com documentos datados de 2016 - um deles assinado por Studhalter - Coppo também era o beneficiário efetivo da Fletcher Ventures, uma empresa registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, mas administrada na Suíça pela Swiru Holding.

A empresa do tatuador, chamada Fletcher Ventures, estava envolvida em grandes transações. Em 2013, a empresa transferiu US$ 100 milhões para uma companhia chamada LT Trading Ltd.

Foi uma das várias transações da Fletcher Ventures que fizeram soar alarmes no banco americano BNY Mellon. A instituição apresentou um relatório de atividade suspeita ao Tesouro dos EUA, que localizou a Fletcher Ventures na Suíça. Renato Coppo não foi identificado e o banco não conseguiu identificar exatamente para onde estava indo o dinheiro.

O rastreamento levou a LT Trading até um endereço online do Reino Unido. Funcionários do banco observaram que a empresa britânica se especializou "na venda de frutas e legumes". Era "suspeito" porque "parece ser inconsistente com a suposta linha de negócios da LT Trading Limited".

Na verdade, o banco havia identificado uma empresa com o mesmo nome no país errado. Documentos vazados dos Pandora Papers mostram que a LT Trading não tinha conexão com a empresa de produção britânica de mesmo nome.

O beneficiário efetivo da LT Trading mencionado nos registros corporativos era o sobrinho de Kerimov, Nariman Gadzhiev. Assim como a Fletcher Ventures, a empresa era administrada na Suíça pela Swiru Holding.

A transação foi apenas uma da série de transferências eletrônicas realizadas de 2010 a 2015, totalizando US$ 700 milhões relatados às autoridades dos EUA como suspeitas e das quais funcionários do banco não conseguiram identificar ligações com o oligarca russo. Os arquivos foram encontrados em uma cópia de relatórios secretos obtida pelo ICIJ para a investigação do FinCEN Files em 2020.

Registros vazados também mostram que, em 2013, a Fletcher Ventures enviou US$ 202 milhões (R$ 950 milhões) para a LLC Gilia em Moscou, uma firma ligada a uma empresa de investimentos de Kerimov. Os funcionários do banco não conseguiram identificar quem estava por trás da empresa russa.

O BNY Mellon diz que está proibido de comentar sobre arquivos secretos, mas declarou que cumpre integralmente as leis e normas.

Quando abordado no ano passado sobre a Fletcher Ventures e as transações multimilionárias de sua empresa, Coppo se recusou a responder a perguntas e encaminhou os jornalistas que trabalhavam com a BBC e o ICIJ para Studhalter.

Apesar de assinar um documento dizendo que Coppo era o beneficiário efetivo, Studhalter disse que o assinou por engano e apresentou outros registros afirmando que ele, e não Coppo, era o verdadeiro proprietário da Fletcher Ventures.

Coppo continua não respondendo às nossas perguntas.

A Fletcher Ventures não é a única empresa que Studhalter contesta a documentação.

Outro vazamento mostra que a Fren Global Corp fez empréstimos no valor de cerca de US$ 3 bilhões a uma empresa ligada a Kerimov e família que tinha ações da Polyus Gold.

De acordo com documentos assinados por Studhalter, ele era o beneficiário efetivo da Fren Global Corp. Mas Studhalter diz que vendeu a Fren Global Corp em 2014 "como uma empresa de fachada sem ativos" para Nariman Gadzhiev, sobrinho de Kerimov.

Quando questionado sobre o assunto, Studhalter afirmou não reconhecer o que descreveu como uma "assinatura eletrônica distorcida" no documento que lhe foi mostrado.

Outros ativos atribuídos à Swiru Holding e que se acredita terem pertencido a Kerimov incluem um Boeing 737 customizado e um superiate, avaliado pela última vez em US$ 150 milhões (R$ 705 milhões). Studhalter afirma que ele, e não Kerimov, era o verdadeiro proprietário.

Kerimov não respondeu aos pedidos de comentários sobre a reportagem, exceto em relação à investigação francesa. Gadzhiev, o sobrinho, não respondeu à carta enviada pela BBC.

Desenvolvimentos recentes

Em 8 de abril, a UE impôs sanções ao filho de Kerimov, Said Kerimov, que deixou o conselho da Polyus Gold. A revelação de que sua filha agora é dona das vilas francesas pode tornar as propriedades alvo de sanções na França.

E em uma declaração na semana passada, o promotor francês em Nice responsável pelos casos em que Kerimov e Studhalter foram formalmente indiciados chamou a atenção "para o fato de que o processo continua em andamento". Em outras palavras, ainda é um caso em aberto.

Reportagem adicional de Will Dahlgreen e Anthony Reuben

BBC Brasil

Bolsonaro incentiva corrupção ao negá-la e afrouxar órgãos de controle’, afirma pesquisador




Após avanços institucionais no controle da corrupção em grandes corporações, o Brasil enfrenta agora a corrupção do varejo. Essa é a conclusão do economista Marcos Fernandes Gonçalves da Silva (foto), professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) e pesquisador do FGV/Ethics. Estudioso do tema, Fernandes diz: "Bolsonaro incentiva a corrupção ao negá-la" A seguir, sua entrevista.

Em 2016, o sr. pensava que a Lei Anticorrupção e o aumento de controles da atuação das grandes empresas seriam o caminho do combate à corrupção. O que mudou de lá para cá?

Aumentaram o custo e o risco de grandes empresas se envolverem em escândalos de corrupção. Por necessidade de cumprimento de acordos internacionais, o País adotou a Lei Anticorrupção e as empresas adotaram práticas de compliance. Isso é inegável. Há evolução do controle da corrupção por parte das corporações. É positivo. A corrupção tem causas estruturais, basta ler Raymundo Faoro e entender as relações entre público e privado no Brasil. Qualquer que seja o governo você terá algum escândalo de corrupção. Isso não quer dizer que o presidente saiba do que ocorre ou participe do esquema. Um dos grandes problemas dos últimos anos foi a moralização da discussão da corrupção no País. É preciso uma perspectiva mais pragmática e menos moralista. Quem acabou com a Lava Jato foram os lavajatistas.

Mas, se houve avanço normativo, não teria havido regressão em relação à atuação dos órgãos de controle do governo federal?

A CGU está aparelhada, não existe mais na prática. Assim como a Polícia Federal. Retiraram-se poderes do Coaf. No passado não tivemos essa instrumentalização da máquina pública como hoje.

A corrupção na Lava Jato envolvia grandes corporações. O que acontece hoje?

O que temos é o varejo. O varejo se impõe porque a corrupção do governo Bolsonaro é a corrupção do peculato, da rachadinha. A gente sabe que ela é uma prática disseminada pelo País; é a cultura do pequeno roubo, na medida em que se tem acesso limitado à máquina pública. Há ainda outro ponto: no presidencialismo de coalizão, com hiperfragmentação partidária, o governo que não tem agenda vira refém da corrupção do varejo. É o que ocorre no Ministério da Educação. Os atores que estão de trás são os da velha guarda do Centrão. O que resta em termos de negociação para um governo fraco é a corrupção do varejo. Isso não quer dizer que não tenha custo ou que não seja danosa. Ela é. Não apenas em termos de dinheiro, de roubo, mas também por minar políticas públicas.

O presidente diz que a PF não precisa investigar o seu governo porque não existiria corrupção. Como essa declaração deve analisada do ponto de vista da luta anticorrupção?

Estamos em ano eleitoral, então, o presidente vai usar isso. Em qualquer governo há corrupção. É fatal. Vale para o Lula e para o Bolsonaro. Sendo honesto, sempre vai haver corrupção em qualquer governo. Há corrupção no governo. O que não significa que seja de responsabilidade de Bolsonaro.

Quando um presidente age dessa forma, que tipo de recado ele manda para quem pratica a corrupção?

Ele cria um incentivo para que ocorra corrupção ao negá-la. Isso porque o corruptor e o corrupto vão saber que o presidente vai negar que existe corrupção no governo. Cria incentivo. É claro que, em ano eleitoral, é complicado ser realista. Mas seria mais inteligente. Bolsonaro foi eleito com a agenda da moralização e teve como seu ministro da Justiça Sérgio Moro. Quando fala que não há corrupção no governo, isso cria incentivo para que ocorra corrupção, porque não há incentivos dentro do próprio governo para investigar em ano eleitoral.

O que fazer para diminuir a corrupção?

O que se pode é utilizar mais mecanismos de transparência, com informatização dos meios de fiscalização e usar tecnologia para controle da corrupção. Usar novas tecnologias de informação com coleta de dados em tempo real e uso de algoritmos de aprendizado para observar irregularidades em contratação, pontos fora da curva, anomalias. O problema é quando você aparelha e corta autonomia dos órgãos de controle. Se você dá autonomia e incentiva a inovação tecnológica, o ambiente muda. É preciso ter um plano de fato de combate à corrupção, que fuja do moralismo de um lado e, do outro, do populismo. Ambos não combatem a corrupção. 

Estadão / Dinheiro Rural

Piora externa, crise local - Editorial




O cenário internacional está mais sombrio, mas o Brasil é autossuficiente na maior parte dos desajustes econômicos

A semana começou com sinais preocupantes no mercado internacional e novos motivos de inquietação para os brasileiros, já assombrados, internamente, pela inflação acima de 11% ao ano e pelo baixo ritmo da atividade. Segunda maior economia do mundo e maior importadora de produtos brasileiros, a China enfrenta uma forte alta de preços na indústria, com aumento anual de 8,3% registrado em março. Além disso, medidas de lockdown contra novos casos de covid-19 têm forçado milhões de pessoas a se isolar, com evidente prejuízo para a produção. Na Europa, já se aposta em menor crescimento, com os negócios afetados principalmente pela redução da confiança do consumidor e pelo surto inflacionário.

Níveis de confiança de empresários e consumidores são alguns dos chamados indicadores antecedentes usados para detectar possíveis mudanças de tendência. Encomendas à indústria, formação de estoques e investimentos em máquinas e equipamentos também se incluem no grande conjunto desses indicadores. Com base nesses dados, economistas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) antecipam perda de impulso no Reino Unido e em toda a zona do euro, expansão estável nos Estados Unidos, no Japão e na China e redução de crescimento no Brasil.

No caso brasileiro, essa tendência havia sido assinalada em relatórios anteriores da OCDE, assim como em avaliações de outros órgãos multilaterais, do mercado e do setor público nacional. No mercado, os últimos levantamentos mostraram projeções em torno de 0,5% para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022. O Banco Mundial baixou de 1,4% para 0,7% o crescimento estimado para o País neste ano.

A nova onda de incerteza, agravada pela guerra na Ucrânia e pelos problemas chineses, derrubou em abril os indicadores dos Barômetros Globais, produzidos em colaboração pelo Instituto Econômico Suíço KOF, de Zurique, e a Fundação Getulio Vargas (FGV). O Barômetro Coincidente caiu 6,1 pontos em abril e chegou a 99,2 pontos, o menor nível desde janeiro de 2021 (97,2), sinalizando uma economia mundial já enfraquecida. O Barômetro Antecedente recuou 6,3 pontos e chegou a 86,9, menor patamar desde julho de 2020 (74,2), mostrando uma sensível piora das expectativas.

Mas o Brasil é autossuficiente quanto à maior parte dos desarranjos econômicos. Problemas internacionais podem agravar os brasileiros, mas o País produz inflação e estagnação sem contribuição estrangeira. A indústria brasileira já estava em declínio antes da pandemia. O desemprego já superava 11%, em nível parecido com o do início de 2022. Em nenhum ano, desde a recessão de 2015-2016, o PIB havia aumentado 2%. A inflação recuou por algum tempo, a partir de 2017, mas voltou a ganhar impulso e a superar de longe as taxas da maior parte do mundo. Ainda assim, desajustes externos podem ter algum efeito, se os juros altos afetarem os fluxos de dólares e os problemas chineses diminuírem as exportações brasileiras de alimentos e minérios. Afinal, sempre é possível piorar.

O Estado de São Paulo

Falta de apetite

 




Por Merval Pereira (foto)

Se existisse a possibilidade de surgir um candidato alternativo que unisse a centro-direita contra Lula e Bolsonaro, talvez ele pudesse chegar ao segundo turno. Mas não existe nenhum Macron no mercado político brasileiro que afaste do segundo turno um dos polos extremos do nosso espectro, e não por falta de eleitores. Por falta de interesse dos políticos.

O que se engendra nos bastidores do Centro Democrático é uma chapa anódina, que reuniria o presidente do União Brasil, Luciano Bivar, e a senadora Simone Tebet, do MDB, tanto faz em que posição ficarem. Seria uma chapa para deixar livres os eixos daqueles partidos que querem aderir a Lula ou Bolsonaro.

Parte significativa dos senadores do MDB foi a um jantar com Lula em Brasília, organizado pelo ex-senador Eunício Oliveira. Bivar como representante do União Brasil, numa provável chapa única da frente centrista, ameniza o desconforto dos ex-integrantes do DEM que não querem parecer adversários frontais de Lula como pareceriam se escolhessem o ex-juiz Sergio Moro ou até mesmo Ciro Gomes, do PDT.

Os dois têm em torno de 10% das preferências do eleitor, na margem de erro. Seria um bom começo, se unissem os partidários do nem nem, mas isso é cada vez mais improvável, diante dos interesses regionais e da quase certeza de que a polarização nacional se repetirá na maioria dos pleitos estaduais.

Uma chapa anódina resolveria um problema central do PSDB. O candidato oficial, João Doria, se aponta como o verdadeiro representante da terceira via, o que é discutível mesmo entre os tucanos. Outro ex-governador, Eduardo Leite, continua tentando mudar o resultado das prévias que perdeu, mas não tem muita saída. Os partidos do Centro Democrático prometeram anunciar chapa única no dia 18 de maio. As convenções nacionais para indicar candidatos começam em 20 de julho.

Quer dizer, se o candidato da terceira via não for Doria, e sim Eduardo Leite, a chapa a ser apresentada não terá garantia de ser aceita pela convenção do PSDB. Ao contrário, se for outro candidato, como Bivar ou Tebet, poderá ser um estímulo a que Doria abra mão da candidatura alegando que cumpre o prometido: apoia quem o grupo de partidos de centro indicar. Se Leite for o indicado pela convenção tucana meses depois, ele estará traindo pela segunda vez, desta os membros do Centro Democrático. E os demais partidos, escolhendo um candidato que perdeu as prévias, estarão desautorizando um partido parceiro.

Pela mesma razão, o ex-juiz Sergio Moro, se não for indicado por seu partido, o União Brasil, não poderá fazer parte da chapa única. Tudo conspira, portanto, para que a chapa a ser anunciada não tenha força política capaz de enfrentar a polarização e, na verdade, nem se disponha a isso. A classe política está dando como definida a disputa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno e se organiza em torno desses dois candidatos.

O que se discute agora é se e quanto Lula perderá com o desgaste da campanha eleitoral e se e quanto Bolsonaro conseguirá crescer. Essa disputa para que o eleitor decida quem é o menos ruim é a novidade desta eleição. Em 2018, havia o antipetismo, mas um antibolsonarismo suave. O eleitorado de centro-direita resolveu esquecer o passado de Bolsonaro, na ilusão de que Paulo Guedes controlaria a economia, e o governo combateria a corrupção, o que teria sido confirmado com a nomeação de Moro como superministro da Justiça.

Hoje, há um antibolsonarismo talvez mais forte que o antipetismo, amenizado diante da tragédia que Bolsonaro representa para o país. Mas o antipetismo está sendo reativado com força nas redes sociais. A cada momento em que Lula defende o aborto sem contextualizações ou orienta seus seguidores a “esculachar” os políticos em suas residências, como seus radicais fizeram em 2018 na casa da ministra do STF Cármen Lúcia em Belo Horizonte, para pressioná-la a colocar na pauta do STF a discussão sobre sua prisão, mais ajuda o trabalho de Bolsonaro. Lula fortalece os que votaram numa suposta economia liberal de Guedes quando fala em fim do teto de gastos, critica as privatizações ou a reforma trabalhista.

O Globo

Ser rico demais atrapalha a carreira política? O caso de Rishi Sunak.

 




Com fortuna própria, além de uma mulher “mais rica do que a rainha”, o ministro das Finanças do Reino Unido descobre que dinheiro demais é problema. 

Por Vilma Gryzinski

Os muito ricos são diferentes de mim e de você, inclusive porque contratam os melhores especialistas para otimizar o pagamento de impostos.

Ou pagar o mínimo possível, dentro da lei – quem não gostaria de poder fazer o mesmo?

O problema é quando práticas assim entram em conflito com carreiras na política. Aconteceu com Donald Trump, com declarações de rendimento que continuam sob sigilo, cercadas de suspeitas de que ele conseguiu pagar menos do que devia. E está acontecendo com Rishi Sunak, o ministro das Finanças que chegou a ser o mais cotado para substituir Boris Johnson no comando do Partido Conservador e do governo britânico.

Rishi, que tem a vantagem de ser conhecido pelo primeiro nome, é rico por direito próprio: conseguiu uma fortuna de 260 milhões de dólares trabalhando no mercado financeiro antes de entrar para a política.

Muitos eleitores já se sentem desconfortáveis com esse nível de dinheiro, ainda mais em relação a um ministro cuja função é tentar equilibrar o orçamento depois da gastança provocada pela pandemia e que não teve dó na hora de aumentar a contribuição para o equivalente ao INSS de patrões e empregados num momento de inflação alta e renda em baixa.

Mas as encrencas se acumularam depois de revelações constrangedoras sobre a mulher dele, Akshata Murty.

Como filha do bilionário Narayana Murty, dono da gigante multinacional da informática Infosys e conhecido como “o Bill Gates da Índia”, ela tem uma fortuna de 900 milhões de dólares. O que a torna “mais rica do que a rainha”, como rotularam os tabloides assim que veio à tona uma complicada revelação sigilosa sobre a mulher do ministro: ela não tem domicílio fiscal no Reino Unido. Portanto, não paga impostos nos domínios onde seu marido tem o tradicional título de “Chancellor of the Exchequer”, o guardião do caixa do governo. Há uma certeza generalizada de que o arranjo é altamente benéfico para Akshata.

Mais: ela tinha investimentos na Rússia, o maior anátema dos tempos atuais. E mais ainda: Rishi Sunak manteve seu green card, o documento de residência legal nos Estados Unidos, onde ele e a mulher se conheceram quando faziam pós-graduação em Stanford, até um ano depois de nomeado para o segundo cargo mais importante do governo. Possivelmente o green card foi obtido através da porta de entrada para os ricos: investimento de um milhão de dólares que gere pelo menos dez empregos nos Estados Unidos.

O Partido Conservador carrega a fama de ser o “partido dos ricos”, mas nem sempre seus líderes são do topo da pirâmide de renda. Boris Johnson, por exemplo, tem sotaque e formação de elite – Eton e Oxford -, mas pouco dinheiro, o que o leva a viver aceitando favores altamente discutíveis, como viagens de férias em mansões de milionários amigos e verbas para redecorar a residência oficial, no andar de cima do sobrado número dez de Downing Street.

Ter dinheiro pode ser uma vantagem – “Pelo menos não está lá para roubar” – ou contar pontos contra quando o político parece muito desligado da realidade – “Quanto custa um pãozinho?”, é a pegadinha clássica.

O rótulo de “presidente dos ricos” colou em Emmanuel Macron, que agora está prometendo dinheiro como um marinheiro bêbado a aposentados e assalariados de baixa renda para garantir a reeleição no segundo turno na França, no próximo dia 24.

No caso de Donald Trump, seus simpatizantes mais ardorosos encararam a carreira política como uma prova de abnegação: ele não precisava meter a mão na massa, mas fez isso para engrandecer a América. Outros presidentes americanos milionários, como Franklin Roosevelt, John Kennedy e Lyndon Johnson criaram a imagem de defensores dos menos privilegiados.

Antes que a revelações constrangedoras sobre Rishi Sunak viessem à tona, ele já estava perdendo pontos por bobagens, embora simbólicas, como usar um tênis de mais de 400 dólares (da marca Common Projects, de couro branco com um número de série folhado a ouro) e emprestar um Kia de um integrante de sua equipe para ser fotografado colocando gasolina que agora tem um pequeno subsídio do governo (na hora de pagar, aproximou o cartão do leitor de código de barras, dando a entender que não está acostumado ao ritual).

Rishi usa um Gol, mas os incontroláveis tabloides descobriram que tem também um Range Rover, além de um Lexus elétrico e um BMW no seu domicílio americano.

Ter dinheiro, no caso de ministros da Economia ou presidentes de bancos centrais, é geralmente considerado um ponto positivo, uma prova de que sabem como funcionam os mecanismos financeiros, inclusive os truques das feras do mercado.

O importante é isolar suas fortunas em “fundos cegos”, nos quais não saberão como as decisões que tomam na condição de ministros afetam os próprios portfólios – embora os céticos acreditem que fazem uma ideia muito boa de onde o dinheiro está.

Até isso está sendo discutido em relação a Rishi Sunak, um sinal de que sua carreira política não parece muito promissora. Ele sempre terá a alternativa de largar a política, ir morar na cobertura que tem em Santa Monica e ganhar dinheiro “sério” no universo da alta tecnologia, onde o sogro já lhe dá uma porta de entrada de luxo.

Não será um castigo excepcionalmente severo, mas o Partido Conservador perderá um nome que parecia uma alternativa boa no caso de uma derrocada de Boris Johnson, ainda enrolado no caso das festinhas durante a pandemia, e a chance de eleger o primeiro chefe de governo de origem indiana.

Se a eleição fosse agora, o Partido Conservador teria 35% dos votos e o Trabalhista, 37%, um baque atribuído principalmente ao comportamento errático de Boris Johnson, mas também ao problema comum a quase todas as economias pós-pandêmicas: inflação, gasolina cara e queda no padrão de vida.

Rishi Sunak nunca virá a mostrar que era o homem certo para resolver essa encrenca.

Revista Veja

Biden acusa Putin de cometer 'genocídio' na Ucrânia




O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, acusou nesta terça-feira (12) seu contraparte russo, Vladimir Putin, de cometer um "genocídio" na Ucrânia, na primeira vez que usou esta palavra para falar sobre a situação do país invadido por Moscou.

"Sim, eu chamei isso de genocídio", declarou Biden a repórteres que viajaram com ele para Iowa, quando perguntado sobre o termo que usou em um discurso mais cedo.

"Está ficando cada vez mais claro que Putin está simplesmente tentando apagar a própria ideia de ser ucraniano", completou o líder americano.

Biden esclareceu que os tribunais terão a última palavra para determinar se as ações da Rússia na ex-república soviética, que incluem acusações de atrocidades cometidas contra civis, constituem genocídio.

"Deixe os advogados decidirem se isso se qualifica como tal ou não, mas me parece que sim", disse Biden. "As provas se acumulam."

"Mais evidências estão surgindo das coisas horríveis que os russos fizeram na Ucrânia", e "vamos saber" cada vez mais "sobre a devastação" realizada no país.

A Ucrânia acusa a Rússia de cometer crimes de guerra desde antes da descoberta dos corpos de centenas de civis mortos na cidade de Bucha provocar uma onda de indignação.

Biden descreveu Putin como um "criminoso de guerra" e pediu que o presidente russo fosse julgado pelas supostas atrocidades.

Mas os Estados Unidos se abstiveram de usar o termo "genocídio", de acordo com o protocolo atual, dada a definição legal estrita e as importantes implicações da acusação.

Biden lançou a acusação contra Putin pela primeira vez durante um discurso sobre o aumento dos preços do gás realizado nesta terça-feira, dizendo que a capacidade dos cidadãos americanos de encher seu tanque de gasolina não deve "depender de um ditador declarar guerra e cometer genocídio" em outra parte do mundo.

O governo Biden atribui o aumento dos preços da gasolina à invasão russa da Ucrânia.

Antes disso, em resposta a perguntas de jornalistas sobre se os assassinatos de Bucha poderiam ser considerados "genocídio", o presidente respondeu: "Não, acho que é um crime de guerra".

AFP / Estado de Minas

"Bolsonaro está muito no páreo", afirma cientista política


Carolina Botelho


Fraqueza da 3º via e Auxílio Brasil dão sobrevida a Bolsonaro em pesquisas. No entanto, para pesquisadora Carolina Botelho, alta rejeição do presidente e mau estado da economia devem ser decisivas para impedir reeleição

Por João Pedro Soares

A recuperação da popularidade do presidente Jair Bolsonaro, registrada em pesquisas de opinião recentes, trouxe novos ingredientes para os prognósticos da eleição presidencial de outubro. Após atingir seu patamar mais baixo em novembro de 2021, quando chegou a 19%, a taxa de aprovação do seu governo subiu para 22% em fevereiro e, em março, atingiu o patamar de 24%.

A tendência revelada inicialmente pela pesquisa Genial/Quaest foi observada também no levantamento mais recente do Datafolha, que confirmou também um aumento na intenção de voto em Bolsonaro. Os dados mostram uma sobrevida do candidato do PL na disputa contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que continua líder das pesquisas com ampla vantagem.

Para a cientista política Carolina Botelho, os dados mostram que Bolsonaro é um candidato forte. Em entrevista à DW Brasil, ela, porém, ressalta que o presidente não deverá ser capaz de superar a barreira da alta rejeição indicada nas pesquisas. Segundo o Datafolha, 55% dos eleitores não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum. O percentual dos que rejeitam Lula é de 37%.

Todavia, a recuperação na popularidade sinaliza que o presidente pode ampliar sua base de apoio pelo uso da máquina pública, na avaliação da pesquisadora do Doxa - Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e de Opinião Pública do IESP/UERJ.

"Eu diria que ele (Bolsonaro) ainda está muito no páreo, não é um cara derrotado. Nesses últimos meses, a gente percebeu que o poder da caneta dele é bastante forte. Por maiores que sejam as tragédias provocadas no Brasil por sua incapacidade administrativa, para falar o mínimo, ele manteve um grupo muito coeso e estável até então”, analisa Botelho.

Após ter criado o Auxílio Brasil em outubro do ano passado, para substituir o Bolsa Família, o governo tem implementado outras ações voltadas a grupos específicos do eleitorado, sobretudo os mais pobres. Em março, Bolsonaro anunciou um amplo pacote de medidas para liberar mais de R$ 150 bilhões em recursos a trabalhadores e aposentados.

As pesquisas indicam uma sutil oscilação positiva no apoio do eleitorado mais pobre, grupo que concentra ampla rejeição ao presidente. Ao contrário de 2018, quando a agenda moral teve grande peso na eleição, Botelho acredita que o fator econômico será decisivo no pleito deste ano.

"Os fatores de ordem prática, de sobrevivência das pessoas, vão se sobrepor à pauta moral, anticorrupção, lavajatista, que foi a mais importante em 2018”, afirma. "Hoje, ela ainda é forte, mas não é capaz de vencer a eleição sozinha”.

DW Brasil: Como entender a recuperação de popularidade de Bolsonaro, detectada recentemente em pesquisas?

Carolina Botelho: Com a pandemia e a queda da renda das pessoas pela deterioração econômica, Bolsonaro foi perdendo apoiadores. No debate sobre uma alternativa ao Bolsonaro e ao próprio Lula, líder das pesquisas, começaram a surgir, de forma fragmentada, candidatos que seriam o que autointitularam terceira via.

No momento em que eles se mostraram pouco vigorosos e ameaçaram sair do páreo, os próprios eleitores perceberam isso. Eleitores que provavelmente votaram nele [Bolsonaro] em 2018 não estavam mais tão contentes por conta da gestão dele e tentaram outras vias. Perante o fracasso delas, voltaram ao caminho natural, que é escolher o próprio Bolsonaro. Afinal, desejam fazer uma oposição em contraponto ao líder das pesquisas, em quem não querem votar. Esta é uma das explicações.

Vemos também que, quando o auxílio emergencial começa a ser pago novamente, Bolsonaro ganha um fôlego em grupos específicos. Falo dos mais pobres, um dos grupos que mais saiu da base de Bolsonaro desde a última eleição. Seu nome vinha sendo muito rejeitado em função da perda de renda, do desemprego, e dos impactos diversos da pandemia. Agora, há uma recuperação do presidente com esse grupo, por meio do Auxílio Brasil.

Vemos isso muito claramente, porque a popularidade dele respondeu de forma muito positiva ao auxílio de R$ 600 no auge da pandemia. Em dezembro, ele para de pagar, e a rejeição dele aumenta muito, principalmente nos grupos de mulheres e pobres, que mais sofreram com as consequências da crise. No momento em que ele injeta esse dinheiro novamente, tem uma pequena recuperação.

Há, ainda, um terceiro fator. Temos um Executivo completamente dependente do Congresso. Pela imprensa, ouvimos uma série de denúncias sobre orçamento secreto. A gente passa a não ter muita transparência do que está sendo gasto pelo Executivo para o Legislativo, mas a gente percebe que esses caras estão recebendo e promovendo uma distribuição de recurso público. A verba é repassada para os aliados, ministérios e, por sua vez, para as prefeituras e lideranças locais. O governo está sendo "bem-sucedido” em cooptar aliados, para fazer uma transferência enorme da caneta dele, do Orçamento Federal, a fim de diminuir sua rejeição e ganhar o apoio de grupos específicos.

Bolsonaro está fazendo isso para ganhar a eleição e vai jogar dinheiro de onde tiver, independentemente do risco fiscal que cada vez mais se aproxima, da crise econômica e social. Bolsonaro tem um caminho certo, que já deu resultado nos últimos meses. A gente observa que o poder do Orçamento Público sobre a população é bastante importante.

Quais as chances de Bolsonaro sustentar a recuperação nas intenções de voto?

Essa pequena elevação já era esperada por conta desses três fatores. Por outro lado, Lula está muito estabilizado na liderança das intenções de voto. Por mais que Bolsonaro tenha tido uma leve melhora, Lula não perdeu e nem ganhou muitos votos. Mas ele também não está em campanha. A gente não sabe como o eleitor vai se comportar ante a figura dele daqui para frente.

Em relação ao Bolsonaro, eu diria que ele ainda está muito no páreo, não é um cara derrotado. Nesses últimos meses, a gente percebeu que o poder da caneta dele é bastante forte. Por maiores que sejam as tragédias provocadas no Brasil pela incapacidade administrativa dele, para falar o mínimo, ele manteve um grupo muito coeso e estável até então.

A pesquisa que mostrou a recuperação de Bolsonaro registra uma alta rejeição ao nome do presidente, por mais de metade do eleitorado. Lula é rechaçado por uma parcela menor, mas expressiva. O que pode jogar contra eles a essa altura, quando já são amplamente conhecidos pelos eleitores?

Não temos como fazer uma previsão do desejo do eleitor, mas a situação parece encaminhada nesta eleição.  As pesquisas mostram que tanto o eleitorado de Lula quanto o de Bolsonaro apresentam um percentual muito alto de eleitores convictos, na faixa de 80%.

É claro que, quando a campanha começar, vão proliferar denúncias antigas contra o Lula, e isso pode abalar sua campanha. Mas acredito que não será suficiente para jogar no chão sua candidatura, a não ser que apareça uma coisa completamente fora do que a gente conhece. Ante o que já se sabe, e por conta dessa convicção do eleitor nos dois lados, acho difícil esse quadro se alterar muito.

Por outro lado, a aprovação do Bolsonaro pode não crescer tanto como cresceu nos últimos meses. Ele ainda é telhado de vidro, é presidente, está passível de milhares de coisas. Quanto mais difícil sua vida ficar, menores são as chances de ser reeleito.

A gente está em uma situação econômica muito frágil, com inflação alta como não se vê há décadas. As pessoas estão desempregadas e o poder de compra diminuiu muito. Essas coisas tendem a deteriorar também. A rejeição dele certamente ainda vai aumentar, por conta da condição econômica e social do brasileiro.

Não sabemos o quanto, mas certamente ele consegue manter os 25% de apoio. Para além desse grupo, vai depender de como ele irá chegar no eleitor indeciso. Não me parece que o governo tenha um plano muito sólido para atingir todos os grupos que estão carentes de apoio governamental.

O voto do eleitor brasileiro foi muito marcado pelo viés ideológico em 2018. Neste ano, a economia terá maior peso, ou devemos assistir a uma repetição do pleito anterior?

Essa eleição deve reproduzir o que a literatura política aponta, de que o bolso, a parte econômica, vai fazer a maior diferença. Essa parte ideológica foi muito proeminente em 2018 e tem ainda bastante vigor. Esse grupo que se manteve ao lado do Bolsonaro, que beirava 20% a 25% do eleitorado, provavelmente se manteve unido pelo aspecto ideológico, de valores. Eles têm muito ânimo, não é uma pauta que foi vencida pelo tempo.

É uma demanda de um determinado grupo e que se mantém forte durante todo o mandato dele. O quão forte vai estar na eleição, não sabemos. Estamos falando de um grupo que manteve o apoio a Bolsonaro a despeito de todas as crises: na saúde pública, educação, economia

Portanto, é um grupo importante e que pode se somar a outros específicos, justamente os que Bolsonaro está conseguindo arregimentar a partir da distribuição de recursos públicos, de aliança com o Legislativo mais clientelista e ligado a pautas individuais.

Se vai ser suficiente, a gente não sabe. Parece que não, pois a rejeição dele é muito alta, e nossa crise é muito grande. Os fatores de ordem prática, de sobrevivência das pessoas, vão se sobrepor à pauta moral, anticorrupção, lavajatista, que foi a mais importante em 2018.

Todas se enquadram na questão dos comportamentos, dos valores, da qual ele se vendeu como uma liderança à época. Hoje, ainda é forte, mas não é capaz de vencer a eleição sozinha. Porém, essa agenda reúne um grupo que faz muito barulho, tem disposição e é muito aliado ao presidente.

Deutsche Welle

Putin diz que atacou a Ucrânia por "não ter escolha"




Presidente russo disse que seus objetivos ao lançar invasão da Ucrânia são "nobres" e que russos estão "ajudando e salvando pessoas", apesar das denúncias de atrocidades cometidas pelas tropas de Moscou.

O presidente russo, Vladimir Putin, disse nesta terça-feira (12/04) que o que está acontecendo na Ucrânia "é uma tragédia", mas que a Rússia "não teve escolha" a não ser lançar o que ele chamou de "uma operação militar especial" - o eufemismo usado pelo Kremlin para a guerra de agressão no país vizinho.

Falando em público sobre a guerra pela primeira vez desde que as forças russas se retiraram do norte da Ucrânia, Putin afirmou que a Rússia triunfará em todos os seus "nobres" e "claros" objetivos na ex-república soviética. O presidente não mencionou as denúncias de atrocidades cometidas por tropas russas e o bombardeio indiscrimado de áreas civis.

O chefe do Kremlin também destacou que o confronto "com as forças antirussas" que surgiram na Ucrânia era inevitável e que era apenas uma questão de tempo para que ocorresse.

"Eles começaram a transformar a Ucrânia em um campo de desfile antirusso, começaram a cultivar os brotos do nacionalismo e do neonazismo que estavam lá há muito tempo", disse, repetindo a narrativa do Kremlin para justificar a guerra, que pinta o governo ucraniano, liderado pelo judeu Volodimir Zelenski, como uma organização "dominada por nazistas".

Segundo Putin, não havia outra alternativa, pois era preciso defender os falantes de russo do leste da Ucrânia e impedir que a ex-república soviética se tornasse um trampolim anti-russo para os inimigos de Moscou.

Discurso ao lado de Lukashenko

O discurso foi feito em um evento para celebrar o 61º aniversário da viagem do primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin. Putin esteve acompanhado do presidente belarusso, Alexander Lukashenko, um de seus poucos aliados políticos, em visita ao Cosmódromo de Vostochny, no extremo leste da Rússia.

Questionado por funcionários da agência espacial russa se a operação na Ucrânia atingiria seus objetivos, Putin afirmou que "não tem nenhuma dúvida". "Seus objetivos são absolutamente claros e nobres", disse Putin. "Não há dúvida de que serão alcançados", acrescentou.

"O principal objetivo é ajudar o povo de Donbass, o povo de Donbass, que reconhecemos e que fomos forçados a defender, porque as autoridades de Kiev, pressionadas pelo Ocidente, se recusaram a cumprir os Acordos de Minsk visando uma solução pacífica dos problemas", afirmou.

Putin alegou que o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, declarou publicamente que Kiev "não gosta" de nenhuma cláusula dos Acordos de Minsk, enquanto "outros funcionários declararam que sua implementação é impossível".

"Eles o rejeitaram publicamente. Bem, era simplesmente impossível continuar tolerando esse genocídio que durou oito anos", afirmou Putin, referindo-se ao conflito armado entre o Exército ucraniano e os separatistas pró-Rússia em Donetsk e Lugansk.

'Lukashenko acompanhou Putin em visita a cosmódromo'

Erva daninha do neonazismo

Putin afirmou que na Ucrânia "a erva daninha do neonazismo foi especialmente cultivada" e que o confronto da Rússia contra essas forças "era inevitável".

"Infelizmente, o neonazismo se tornou um fato da vida em um país relativamente grande perto de nós. Isso é uma coisa óbvia: era inevitável, era apenas uma questão de tempo", disse. 

Kiev e o Ocidente consideram a narrativa do Kremlin como um falso pretexto para invadir a Ucrânia. O governo ucraniano afirma que está lutando por sua sobrevivência, depois que Putin anexou a Crimeia em 2014 e que reconheceu como soberanas, em 21 de fevereiro, duas regiões ucranianas onde lutam rebeldes pró-Moscou.

Putin acrescentou que a "operação militar" prosseguirá conforme o planejado, enquanto o país pró-ocidental se prepara para uma grande ofensiva russa no leste.

"Nossa tarefa é cumprir e alcançar todas as metas estabelecidas, minimizando as perdas. E vamos agir ritmicamente, com calma, de acordo com o plano originalmente proposto pelo Estado-Maior", disse.

Putin, que era onipresente na televisão russa nos primeiros dias da guerra, havia se afastado em grande parte dos olhos do público desde a retirada da Rússia do norte da Ucrânia e sinais que a invasão não correu como planejado por Moscou, com perdas significativas de material bélico e tropas.

Sua única aparição pública na semana passada havia sido no funeral de um deputado ultranacionalista aliado, ocasião na qual ele não abordou diretamente a guerra.

Na segunda-feira, ele se encontrou com o chanceler federal da Áustria em uma residência rural nos arredores de Moscou, mas nenhuma imagem da reunião foi divulgada.

Putin diz que sanções falharam

Putin também afirmou que as sanções do Ocidente impostas a Moscou devido a invasão na Ucrânia não funcionaram, com a economia russa resistindo e o rublo (a moeda russa) se recuperando. Para ele, a inflação e o aumento dos preços dos alimentos e do petróleo em países ocidentais começarão a pressionar os políticos.

Para o presidente russo, as sanções vão sair pela culatra. Como exemplo, ele citou as restrições a fertilizantes da Rússia e de Belarus, que irão aumentar os preços globais do produto, levando à escassez de alimentos e ao aumento dos fluxos migratórios.

Putin disse que "o bom senso deve prevalecer" e acrescentou que o Ocidente deve "voltar à razão e tomar decisões equilibradas". "Eles não serão capazes de fechar todas as portas e janelas", afirmou.

Ele argumentou que as novas restrições ocidentais às exportações de alta tecnologia vão encorajar a Rússia a se mover mais rápido para desenvolver novas tecnologias, abrindo uma "nova janela de oportunidades".

Como parte disso, durante o evento, Putin anunciou que reiniciará o programa lunar. "Estamos falando do lançamento desde o cosmódromo Vostochny do aparato robótico espacial Luna-25", disse o chefe de Estado.

"Precisamos enfrentar com êxito os desafios na exploração espacial, para resolver de maneira mais efetiva as tarefas de desenvolvimento nacional aqui na Terra", completou.

Putin garantiu que a Rússia seguirá trabalhando no desenvolvimento de uma nave cargueira de nova geração, com fontes de energia nuclear.

O Kremlin anunciou no ano passado que adiaria até julho de 2022 o lançamento da nave espacial Luna-25, projeto que estava programado inicialmente para outubro de 2021. A ideia era ter mais tempo para testes adicionais.

A Luna-25 será a primeira nave do novo programa russo e terá como fim investigar a região do polo sul da Lua. Em agosto de 1976, a antecessora do equipamento, a Luna-24, foi a terceira a recuperar amostras da superfície lunar.

Putin anunciou retomada do projeto lunar

Conquista da União Soviética como exemplo

Na visita ao leste da Rússia, Putin fez uma analogia entre o primeiro voo espacial de Gagarin, há 61 anos, e o desafio da Rússia hoje em dia.

"As sanções foram totais, o isolamento foi completo, mas a União Soviética ainda foi a primeira no espaço", disse Putin, que tem 69 anos, lembrando sua própria admiração como um estudante aprendendo sobre a conquista.

"Não pretendemos ficar isolados", afirmou o presidente russo. "É impossível isolar severamente qualquer pessoa no mundo moderno, especialmente um país tão vasto como a Rússia", afirmou.

O governo russo há muito cita o sucesso da União Soviética no espaço - pouco mais de uma década após a Segunda Guerra Mundial - como um alerta sobre a capacidade da Rússia de alcançar resultados espetaculares contra todas as probabilidades.

Os primeiros sucessos espaciais russos da Guerra Fria, como o voo de Gagarin e o lançamento em 1957 do Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da Terra, têm uma pertinência especial para a Rússia: ambos os eventos surpreenderam os Estados Unidos e foram consideradas vitórias de propaganda da União Soviética .

No entanto, hoje em dia, a economia da Rússia é pequena em comparação com a da superpotência União Soviética - e está bem atrás dos Estados Unidos e da China na maioria das frentes tecnológicas.

No ano passado, a produção econômica nominal da Rússia foi de 1,6 trilhão de dólares - menor que a da Itália e apenas cerca de 7% da economia de 22,9 trilhões de dólares dos EUA.

Além disso, a economia da Rússia está a caminho de uma contração de mais de 10% em 2022, a pior desde os anos que se seguiram à queda da União Soviética em 1991, disse o ex-ministro das Finanças Alexei Kudrin nesta terça-feira.

Deutsche Welle

Nota "Brasil Soberano e Livre": Putin é um ditador genocida, cínico e mentiroso.

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