terça-feira, abril 12, 2022

A força do Ocidente

 



Para certos ideólogos conservadores, a Europa ocidental – e a oriental dela dependente ou associada – seria incapaz de responder a uma invasão russa.

Por Denis Lerrer Rosenfield* (foto)

Tornou-se um ponto comum de certo pensamento conservador considerar o Ocidente como decadente. Estaríamos no fim de um tipo de civilização, que se esgotaria no niilismo, na autossatisfação e no egoísmo, resultantes do abandono dos valores tradicionais e religiosos. Tal pensamento terminou se desenvolvendo de uma forma política e ideologicamente marcante na Rússia, baseando-se em sua própria história e tradição e, em particular, na Igreja Ortodoxa. Para esses ideólogos, estaria aí o alvorecer de uma nova civilização, superior à ocidental, devendo, porém, ainda enfrentar o poderio econômico e militar americano, aliando-se a outros Estados, como o chinês e o islâmico, culturalmente diferenciados e alternativos.

Mais especificamente, a Europa ocidental – e a oriental dela dependente ou associada – seria incapaz de responder a uma invasão russa, por estar imersa no hedonismo, no individualismo, na liberdade de escolha e no questionamento dos valores. Estados democráticos fundados e organizados em torno da ideia de bem-estar social tornam-se inaptos para a guerra, não abraçam o patriotismo, cedendo para conservarem o seu status quo. O indivíduo impera sobre tudo, com o consequente abandono das formas de vida comunitária, não sabendo resistir a pressões externas. Sempre procurarão a acomodação e a negociação diplomática, contanto que o seu bem-estar não seja prejudicado.

Os russos, ao contrário, conforme ao pensamento eurasiano, seriam um povo culturalmente diferenciado, baseado no desprezo da democracia e do individualismo, porque, para eles, o primado dos valores comunitários e religiosos seria outro, hierárquico, obediente ao Estado e ancorado numa elite que prima por ser a representação última desses valores. Em sua história intelectual, chegaram inclusive a considerar Moscou como o lugar de uma “nova Roma”, uma “nova Jerusalém”, em sua luta contra o anti-Cristo. A vida como princípio seria diferente da ocidental, na medida em que reconhecem, também, o valor da morte para a Pátria em guerra, com o consequente elogio das virtudes guerreiras. Enquanto os ocidentais evitam a todo custo mortes no campo de batalha, os russos a enfrentariam com galhardia.

Qual não deve ter sido a surpresa de Vladimir Putin, do seu serviço secreto e dos seus militares quando o Ocidente não se acovardou na invasão da Ucrânia e reagiu prontamente, tanto enviando armamentos sofisticados quanto impondo pesadas sanções econômicas? Sanções que são, assinale-se, pesadas não apenas para a Rússia, mas também para os países ocidentais, europeus principalmente, com cortes em suas fontes tradicionais de abastecimento, como o gás, o petróleo, o carvão e produtos alimentares como o trigo. Ou seja, na defesa dos seus valores, os ocidentais tomaram decisões que afetam seu próprio nível de vida, sendo eles igualmente obrigados a se transformarem. Ressalte-se que assumiram seus próprios princípios, assegurando-os. Até empresas privadas, em movimento inédito, optaram por fechar suas filiais russas, seguindo pressões da própria opinião pública ocidental.

Militarmente, talvez os ocidentais poderiam ter se arriscado mais na defesa da Ucrânia, enviando aviões, por exemplo, e navios de guerra, ou mesmo intervindo com tropas. Contudo, forçoso é reconhecer que tais medidas poderiam precipitar uma terceira guerra mundial, com utilização de armamentos nucleares, com consequências planetárias imprevisíveis. A opção escolhida foi circunscrever o conflito ao território ucraniano, não sem antes o envio de mensagens explícitas de que outros países, membros da Otan, seriam defendidos militarmente. Uma fronteira foi claramente circunscrita. E isso, frise-se, com amplo apoio da opinião pública destes países, que disseram um rotundo não à ditadura, à autocracia e ao emprego arbitrário e injustificado da violência.

Para Putin e seu grupo, outra quebra de expectativa residiu na reação dos ucranianos. Sendo eslavos e predominantemente ortodoxos, era de esperar que receberiam de braços abertos os irmãos “culturais” russos. Foram recebidos a bala, demonstrando em suas ações uma força que abalou o Exército russo, que terminou mostrando falta de preparo, manobras militares inconsistentes e falta de coesão moral. Pelo que lutam os soldados russos? Nem eles sabem. Pelo que lutam os soldados e a população ucraniana? Pelo seu país e por suas liberdades. Os russos também acharam que a Ucrânia carecia de um líder importante, apostando em que um ex-comediante jamais poderia tornar-se um ator dramático, inclusive, trágico, de primeira grandeza.

Para Putin e seu grupo, era insuportável que a Ucrânia estivesse se ocidentalizando, optando por outros valores, por seu modo de vida, usufruindo de liberdades e querendo ingressar na União Europeia e na Otan. Que um povo eslavo, de história comum à dos russos, queira isso veio a ser algo intolerável. Foram seus próprios valores e princípios que foram postos em questão.

*Professor de filosofia na UFGRS.

O Estado de São Paulo



Para certos ideólogos conservadores, a Europa ocidental – e a oriental dela dependente ou associada – seria incapaz de responder a uma invasão russa.

Por Denis Lerrer Rosenfield* (foto)

Tornou-se um ponto comum de certo pensamento conservador considerar o Ocidente como decadente. Estaríamos no fim de um tipo de civilização, que se esgotaria no niilismo, na autossatisfação e no egoísmo, resultantes do abandono dos valores tradicionais e religiosos. Tal pensamento terminou se desenvolvendo de uma forma política e ideologicamente marcante na Rússia, baseando-se em sua própria história e tradição e, em particular, na Igreja Ortodoxa. Para esses ideólogos, estaria aí o alvorecer de uma nova civilização, superior à ocidental, devendo, porém, ainda enfrentar o poderio econômico e militar americano, aliando-se a outros Estados, como o chinês e o islâmico, culturalmente diferenciados e alternativos.

Mais especificamente, a Europa ocidental – e a oriental dela dependente ou associada – seria incapaz de responder a uma invasão russa, por estar imersa no hedonismo, no individualismo, na liberdade de escolha e no questionamento dos valores. Estados democráticos fundados e organizados em torno da ideia de bem-estar social tornam-se inaptos para a guerra, não abraçam o patriotismo, cedendo para conservarem o seu status quo. O indivíduo impera sobre tudo, com o consequente abandono das formas de vida comunitária, não sabendo resistir a pressões externas. Sempre procurarão a acomodação e a negociação diplomática, contanto que o seu bem-estar não seja prejudicado.

Os russos, ao contrário, conforme ao pensamento eurasiano, seriam um povo culturalmente diferenciado, baseado no desprezo da democracia e do individualismo, porque, para eles, o primado dos valores comunitários e religiosos seria outro, hierárquico, obediente ao Estado e ancorado numa elite que prima por ser a representação última desses valores. Em sua história intelectual, chegaram inclusive a considerar Moscou como o lugar de uma “nova Roma”, uma “nova Jerusalém”, em sua luta contra o anti-Cristo. A vida como princípio seria diferente da ocidental, na medida em que reconhecem, também, o valor da morte para a Pátria em guerra, com o consequente elogio das virtudes guerreiras. Enquanto os ocidentais evitam a todo custo mortes no campo de batalha, os russos a enfrentariam com galhardia.

Qual não deve ter sido a surpresa de Vladimir Putin, do seu serviço secreto e dos seus militares quando o Ocidente não se acovardou na invasão da Ucrânia e reagiu prontamente, tanto enviando armamentos sofisticados quanto impondo pesadas sanções econômicas? Sanções que são, assinale-se, pesadas não apenas para a Rússia, mas também para os países ocidentais, europeus principalmente, com cortes em suas fontes tradicionais de abastecimento, como o gás, o petróleo, o carvão e produtos alimentares como o trigo. Ou seja, na defesa dos seus valores, os ocidentais tomaram decisões que afetam seu próprio nível de vida, sendo eles igualmente obrigados a se transformarem. Ressalte-se que assumiram seus próprios princípios, assegurando-os. Até empresas privadas, em movimento inédito, optaram por fechar suas filiais russas, seguindo pressões da própria opinião pública ocidental.

Militarmente, talvez os ocidentais poderiam ter se arriscado mais na defesa da Ucrânia, enviando aviões, por exemplo, e navios de guerra, ou mesmo intervindo com tropas. Contudo, forçoso é reconhecer que tais medidas poderiam precipitar uma terceira guerra mundial, com utilização de armamentos nucleares, com consequências planetárias imprevisíveis. A opção escolhida foi circunscrever o conflito ao território ucraniano, não sem antes o envio de mensagens explícitas de que outros países, membros da Otan, seriam defendidos militarmente. Uma fronteira foi claramente circunscrita. E isso, frise-se, com amplo apoio da opinião pública destes países, que disseram um rotundo não à ditadura, à autocracia e ao emprego arbitrário e injustificado da violência.

Para Putin e seu grupo, outra quebra de expectativa residiu na reação dos ucranianos. Sendo eslavos e predominantemente ortodoxos, era de esperar que receberiam de braços abertos os irmãos “culturais” russos. Foram recebidos a bala, demonstrando em suas ações uma força que abalou o Exército russo, que terminou mostrando falta de preparo, manobras militares inconsistentes e falta de coesão moral. Pelo que lutam os soldados russos? Nem eles sabem. Pelo que lutam os soldados e a população ucraniana? Pelo seu país e por suas liberdades. Os russos também acharam que a Ucrânia carecia de um líder importante, apostando em que um ex-comediante jamais poderia tornar-se um ator dramático, inclusive, trágico, de primeira grandeza.

Para Putin e seu grupo, era insuportável que a Ucrânia estivesse se ocidentalizando, optando por outros valores, por seu modo de vida, usufruindo de liberdades e querendo ingressar na União Europeia e na Otan. Que um povo eslavo, de história comum à dos russos, queira isso veio a ser algo intolerável. Foram seus próprios valores e princípios que foram postos em questão.

*Professor de filosofia na UFGRS.

O Estado de São Paulo

Líder da Áustria relata "conversa dura" com Putin em Moscou

 




Primeira visita de um líder ocidental à Rússia após início da invasão à Ucrânia "não deixou margem para otimismo". Karl Nehammer relatou conversa franca e aberta, na qual teria defendido punições pelo massacre em Bucha.

O chanceler austríaco, Karl Nehammer, se reuniu com presidente russo, Vladimir Putin, em Moscou nesta segunda-feira (11/04), na primeira visita de um líder europeu ao Kremlin desde o início da invasão russa à Ucrânia.

Em nota divulgada por seu gabinete, Nehammer disse que a conversa com foi "muito direta, aberta e dura". Sua mensagem para Putin, segundo o comunicado, era a de que "esta guerra precisa acabar, porque, na guerra, os dois lados têm somente a perder".

Nehammer foi o primeiro líder europeu a visitar Moscou desde o início da guerra, no dia 24 de fevereiro. O chanceler ressaltou que esta não foi uma visita amigável, mas sim, para cumprir seu dever de "esgotar todas as possibilidades para pôr fim à violência na Ucrânia".

O encontro, porém, não deixou margem para otimismo, segundo disse o austríaco aos jornalistas. "Eu, de modo geral, não tenho uma impressão otimista que possa relatar a vocês dessa conversa com o presidente Putin. A ofensiva [no leste da Ucrânia] está sendo evidentemente preparada em uma escala enorme", afirmou.

Nehammer disse que conversou sobre os "graves crimes de guerra” cometidos por soldados russos na Ucrânia e relatou ter dito a Putin que todo os responsáveis pelo massacre na cidade de Bucha e em outras regiões serão punidos.

Ele destacou a necessidade de se abrirem corredores humanitários para que os civis que estão encurralados nas cidades sob ataque possam ter acesso a recursos essenciais, como água e alimentos.

Limites da neutralidade austríaca 

A viagem a Moscou ocorreu dois dias após a passagem do chanceler pela Ucrânia, onde se reuniu com o presidente Volodimir Zelenski.

A Áustria, como Estado-membro da União Europeia (UE), apoia as sanções do bloco europeu contra a Rússia, embora tenha se oposto a uma possível eliminação das importações de gás natural russo.

O país é militarmente neutro e não é membro da Otan. Ainda assim, Nehammer e outras autoridades austríacas ressaltam que a neutralidade não se aplica a questões morais.

"Somos militarmente neutros, mas temos uma posição clara sobre a agressão russa contra a Ucrânia", escreveu o chanceler em seu perfil no Twitter no último domingo, quando anunciou sua visita à Moscou.

Nesta segunda-feira, ele relatou ter dito a Putin que a UE está "tão unida quanto sempre esteve" em torno das sanções, e que as punições serão mantidas ou até reforçadas enquanto as mortes de ucranianos continuarem ocorrendo.

"Inferno humanitário"

O ministro austríaco do Exterior, Alexander Schallenberg, disse que o chanceler decidiu ir a Moscou depois de se reunir com Zelenski em Kiev. A decisão foi tomada após consultas à Turquia, Alemanha e à UE.

Schallenberg disse se tratar de um esforço para "aproveitar todas as chances de pôr fim ao inferno humanitário" que vivem os ucranianos.

"Cada uma das vozes que deixam claro a Putin como as coisas realmente são vistas do lado de fora dos muros do Kremlin não será uma voz perdida", afirmou o ministro.

Deutsche Welle

França encara séria ameaça a sua democracia

 




Separados por poucos pontos percentuais, Marine le Pen e Emmanuel Macron se enfrentarão no 2º turno

Por Lisa Louis*

De um lado, um presidente imperfeito, mas democrata. Do outro, uma extremista de direita declarada. Ao optar entre Macron e Le Pen, franceses precisam se perguntar até que ponto prezam sua democracia.

Embora o segundo turno da eleição presidencial na França possa parecer uma reedição do pleito de 2017, a situação não é bem a mesma. Cinco anos atrás, se observadores internacionais temiam uma vitória de Marine Le Pen, os analistas do próprio país excluíam essa possibilidade categórica e unanimemente.

Desta vez, entretanto, com ar resignado, os gurus políticos franceses dizem que a candidata de ultradireita tem chances de vencer: as pesquisas de intenção de voto a mostram pau a pau com o presidente Emmanuel Macron.

Como isso pôde acontecer, sobretudo quando meses atrás as pesquisas previam que Macron venceria confortavelmente? Suas taxas de aprovação cresceram ainda mais depois que a Rússia invadiu a Ucrânia e os franceses se reuniram em torno de seu líder em tempos de crise – porém esse efeito se desfez rapidamente.

À medida que o Ocidente impôs sanções contra a Rússia, os preços de energia aumentaram na França, e com eles, a principal preocupação: como custear a vida? Le Pen pareceu abordar essa apreensão: durante meses, ela havia visitado lugarejos, cidades e mercados, representando o papel da candidata próxima ao povo, assegurando a todos que, caso eleita, manteria estáveis os preços dos gêneros essenciais e reduziria os impostos sobre combustível e energia.

Le Pen posa de "extrema direita mais branda"

Por sua vez, aparentemente ocupado em lidar com o presidente russo, Vladimir Putin, Macron esperou até o último momento para entrar na campanha, a qual se limitou a alguns comícios pequenos e um maior. Os eleitores tiveram a impressão que seu chefe de Estado não se importava com suas vidas quotidianas e estava um pouquinho seguro demais da própria vitória.

Além disso, outro político inadvertidamente ajudou Le Pen a ganhar terreno: o jornalista de extrema direita convertido em candidato Eric Zemmour. Baseando sua campanha em slogans ainda mais abertamente racistas, ele pareceu ser ainda mais extremo do que a sua rival no mesmo campo, o que por um tempo o impulsionou nas pesquisas eleitorais, até acima de Le Pen.

Contudo sua cotação acabou por despencar, também por ele ter hesitado em apoiar o acolhimento de refugiados ucranianos e mantido uma atitude ambivalente em relação a Putin, por quem expressara admiração no passado.

Inexplicavelmente, a campanha de Le Pen não fraquejou, apesar de sua proximidade histórica com o chefe do Kremlin e do apoio financeiro que no passado recebeu da Rússia. Pelo contrário, ela até se fortaleceu mais. As declarações crassas de Zemmour lenta, mas seguramente a estabeleceram como a candidata mais "branda" da extrema adireita.

De discriminação legalizada a um "Frexit"

Mas que ninguém se engane: a plataforma da política de 53 anos ainda é bem arraigada no espírito do cofundador do partido, seu pai Jean-Marie Le Pen, condenado diversas vezes por negar o Holocausto e incitar o ódio racial.

Caso eleita, Marine realizaria um referendo para consagrar na Constituição francesa o assim chamado "princípio de preferência nacional": cidadãos de nacionalidade francesa teriam precedência perante estrangeiros no tocante a acesso a empregos, moradia e saúde. A discriminação estaria legalizada.

Como presidente, ela também tornaria punível por lei a ajuda para imigrantes ilegais entrarem e permanecerem na França; limitaria o direito a asilo e não hesitaria em enviar estrangeiros de volta a países onde perseguição ou morte os aguardam.

Embora não mencione mais explicitamente um "Frexit" em seu programa, adotando o vocabulário de "renegociação de tratados", na prática essas reformas resultariam num divórcio em relação à União Europeia, sedimentando a visão antiglobalização de Le Pen e seus planos de reforçar as fronteiras nacionais e incentivar o protecionismo econômico.

Pró-europeu imperfeito x ameaça à democracia

Embora tudo isso contraste fortemente com a postura pró-europeia, integracionista de Macron, o presidente está longe de não ter defeitos. Os franceses o criticam por suas reformas voltadas para o mercado, em favor dos empresários, que lhe valeram o epíteto "presidente dos ricos".

Diz-se que, se reeleito, ele irá ainda mais longe, aumentando a idade mínima de aposentadoria e forçando os receptores de benefícios sociais a trabalharem ou a participarem de programas de treinamento profissional. Grupos ambientalistas também condenam Macron por não enfrentar devidamente a mudança climática; ativistas dos direitos femininos o acusam de não se empenhar o suficiente pela igualdade de gêneros.

No entanto, durante seu mandato presidencial o desemprego caiu e a economia vai relativamente bem, também graças aos bilhões direcionados por Paris para abrandar o impacto da pandemia de covid-19. E, apesar de prometer que limitará a imigração, o político de 44 anos também pretende introduzir leis contra a discriminação de estrangeiros no acesso a empregos e moradia.

Mais do que tudo: as críticas a Emmanuel Macron não se comparam à ameaça que uma vitória de Marine Le Pen representaria para os próprios fundamentos da democracia francesa. O único modo de proteger o país contra o totalitarismo é impedi-la de subir ao poder. Os eleitores franceses precisam se perguntar seriamente que valor dão à sua democracia, antes de darem seu voto, dentro de duas semanas.

*Lisa Louis é correspondente da DW em Paris.

Deutsche Welle

Exército ucraniano se prepara para “última batalha” em Mariupol




O Exército ucraniano afirmou segunda-feira (11) que se prepara para última batalha no porto de Mariupol, cercado por tropas russas, enquanto europeus continuam esforços diplomáticos e preparam novo pacote de sanções contra a Rússia, sem incluir petróleo e gás.

A mensagem “hoje será provavelmente a última batalha porque nossas munições estão acabando (...) Será a morte para alguns de nós e a catividade para outros”, foi publicada no Facebook da 36ª brigada da Marinha nacional, que faz parte das Forças armadas ucranianas.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou em um discurso retransmitido por vídeo a parlamentares da Coreia do Sul que dezenas de milhares de pessoas foram provavelmente assassinadas até agora vítima dos ataques russos contra à cidade do sul da Ucrânia.

“Mariupol foi destruída, tem dezenas de milhares de mortos, mas, apesar disso, os russos não param sua ofensiva”, disse o presidente ucraniano. A cidade portuária esta certada e vem sendo bombardeada desde os primeiros dias da ofensiva militar russa, que começou em 24 de fevereiro.

Donbass como objetivo

As tropas russas se empenham atualmente em conquistar a região do Donbass, no leste da Ucrânia, objetivo prioritário após a retirada das tropas de Kiev e do norte. Analistas acreditam que Vladimir Putin quer obter uma vitória na região antes do desfile militar de 9 de maio, que marca a vitória soviética contra os nazistas, em 1945.

Em comunicado, o presidente ucraniano afirmou que o exército russo se prepara para atacar. Uma ofensiva que, segundo ele, deve durar vários dias e pode ser tão violenta como em Mariupol.

Na zona rural de Barvinkove, no leste do país, soldados ucranianos e membros da Defesa territorial, se preparam para a ofensiva, colocando minas terrestres em estradas e instalando obstáculos contra os tanques.

Mortes e buscas de corpos

Enquanto a população tenta fugir das regiões orientais da Ucrânia para escapar da batalha, ataques aéreos e bombardeios continuam. Domingo (10), ao menos 11 pessoas morreram, entre elas, uma criança de 7 anos, e 14 ficaram feridas em Kharkiv (leste) e arredores, de acordo com o governador regional Oleg Sinegoubov.

Segundo os serviços da procuradora geral, Iryna Venediktova, 183 crianças morreram e mais de 342 ficaram feridas no país desde o começo da invasão russa. As buscas por corpos continuam na capital da Ucrânia.

“Atualmente temos 1.222 mortos somente na região de Kiev”, declarou Venediktova ao canal britânico Sky News. Ela não detalhou se os corpos eram de civis, mas falou de 5.600 investigações abertas por possíveis crimes de guerra desde o começo do conflito.

Esforços diplomáticos

O chanceler austríaco, Karl Nehammer, está em Moscou, onde deve se encontrar com o presidente russo, Vladimir Putin. Nehammer será o primeiro dirigente europeu a visitar a Rússia desde o início da Guerra na Ucrânia, uma missão considerada "arriscada" pela comunidade internacional.

O líder austríaco, que esteve na Ucrânia no sábado (9), declarou ter a intenção de fazer o que for possível para que "medidas sejam tomadas em favor da paz". Segundo a chancelaria da Áustria, Nehammer pretende mencionar os crimes de guerra em Bucha.

Em Luxemburgo, ministros de Relações exteriores da União Europeia estudam nesta segunda-feira um sexto pacote de sanções contra Moscou, sem tocar, por enquanto, nas compras de petróleo e gás.

Ucrânia se prepara para grande ofensiva russa no leste

(AFP) O chanceler da Áustria, Karl Nehammer, será nesta segunda-feira (11) o primeiro chefe de Governo europeu a viajar a Moscou desde o início da invasão da Ucrânia, uma missão arriscada, enquanto Kiev se prepara para uma ofensiva russa de larga escala no leste do país. A Rússia, que retirou suas tropas da região de Kiev e do norte da Ucrânia, concentra a ofensiva no Donbass (leste), parcialmente controlada desde 2014 por separatistas pró-Moscou.

"A próxima semana não será menos importante que esta nem as anteriores. As tropas russas passarão a (fazer) operações ainda maiores no leste de nosso Estado", advertiu o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em um comunicado divulgado no domingo à noite.

"A batalha por Donbass vai durar vários dias, e durante estes dias as cidades podem ficar totalmente destruídas", afirmou no Facebook Serguii Gaidai, governador de Lugansk. "O cenário de Mariupol pode se repetir na região de Lugansk", alertou, em referência ao grande porto do sudeste do país, devastado e cercado desde o fim de fevereiro pelas tropas russas. O ministério russo da Defesa acusou no domingo Kiev e os países ocidentais de provocações "monstruosas e sem piedade" e pelas mortes de civis em Lugansk.

Analistas acreditam que o presidente russo, Vladimir Putin, quer assumir o controle da região antes do desfile militar de 9 de maio, que celebra a vitória soviética contra os nazistas. - Minas e obstáculos antitanques - À espera da ofensiva russa, as forças ucranianas tentavam fortificar suas posições e cavar novas trincheiras na zona rural de Barvinkove, leste do país.

Os soldados instalaram obstáculos antitanques nos cruzamentos das estradas e minas em toda área. A população tenta fugir para zonas mais seguras, enquanto os bombardeios prosseguem: no domingo duas pessoas morreram em Kharkiv (leste), a segunda maior cidade do país, anunciaram as autoridades locais.

"O exército russo continua fazendo a guerra contra os civis, na ausência de vitórias no front", acusou o governador regional Oleg Sinegubov. Nos arredores de Kiev, ocupados por forças russas há várias semanas, a busca por corpos continua.

"Temos até agora 1.222 mortos apenas na região de Kiev", disse a procuradora-geral da Ucrânia, Irina Venediktova, em uma entrevista ao canal britânico Sky News, na qual citou 5.600 investigações abertas por supostos crimes de guerra desde o início da invasão russa em 24 de fevereiro.

Ela não revelou se os corpos encontrados eram exclusivamente de civis. Na cidade de Bucha, ao noroeste da capital ucraniana, que virou um símbolo das atrocidades da guerra, quase 300 corpos foram enterrados em valas comuns, de acordo com um balanço divulgado pelas autoridades em 2 de abril.

Em Buzova, também perto de Kiev, foram encontrados dois corpos, com trajes civis, na saída de uma rede de esgoto, constataram correspondentes da AFP. Uma mulher entrou em desespero ao reconhecer um cadáver: "Meu filho, meu filho", gritou.

"Missão de risco"

No plano diplomático, o chanceler austríaco, Karl Nehammer, que visitou a Ucrânia no sábado, viajará nesta segunda-feira a Moscou para uma reunião com Putin. Nehammer declarou que tem "a intenção de fazer todo o possível para que sejam adotadas medidas a favor da paz", mas reconheceu que tem poucas possibilidades de alcançar a sua meta.

A viagem a Moscou é "uma missão de risco", mas também uma "janela de diálogo", afirmou, antes de insistir no poder da "diplomacia pessoal". Também espera falar sobre os "crimes de guerra" em Bucha, que visitou no sábado. "Bucha não aconteceu em um dia.

Durante muitos anos, as elites políticas russas e a propaganda incitaram o ódio, desumanizaram os ucranianos, alimentaram a superioridade russa e prepararam o terreno para estas atrocidades", afirmou o ministro ucraniano das Relações Exteriores, Dmytro Kuleba. Apesar das acusações, Kuleba disse que continua aberto a negociar com a Rússia.

RFI / DefesaNet

Por que Rússia quer dominar região de Donbas




A Rússia retirou tropas da região de Kiev e mudou grande parte do foco da guerra para o leste da Ucrânia, após uma série de derrotas perto da capital. Essa mudança para a região conhecida como Donbas pode significar o prolongamento do conflito. Do que o presidente russo Vladimir Putin precisa para poder reivindicar seu objetivo de "liberar" o antigo coração industrial da Ucrânia? E será possível atingir esse objetivo?

As forças russas já causaram uma catástrofe humanitária no leste da Ucrânia, reduzindo a cidade de Mariupol a ruínas, mas não conseguiram infligir a derrota das forças armadas ucranianas.

Preparando-se para o fortalecimento da investida russa no leste do país, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky prometeu: "vamos lutar por cada metro da nossa terra".

As forças mais bem treinadas da Ucrânia já estavam a postos no leste do país, devido a uma guerra travada desde 2014 contra os separatistas apoiados pela Rússia. Acredita-se que elas tenham sofrido fortes baixas, mas ainda representam um desafio significativo para o exército invasor russo.

O que é a região de Donbas?

Quando o presidente Putin fala em Donbas, ele se refere à antiga região produtora de carvão e aço da Ucrânia. Ele quer indicar, na verdade, a totalidade de duas grandes regiões orientais, Luhansk e Donetsk, que cobrem desde a área próxima a Mariupol, no sul, até a fronteira com a Rússia no norte.

A OTAN também espera que as forças russas tentem criar uma ponte por terra que desça pelo litoral sul da Ucrânia, a oeste de Donetsk, até a Crimeia, ocupada pelos russos desde 2014.

"A questão principal é que ela [a região] foi identificada pelo Kremlin como uma parte da Ucrânia onde se fala o idioma russo, que é mais Rússia que Ucrânia", segundo Sam Cranny-Evans, do think tank (centro de pesquisa e debates) britânico Royal United Services Institute. Estas são regiões onde o russo pode ser amplamente falado, mas não são mais pró-Rússia.

"Mariupol era uma das cidades mais pró-russas da Ucrânia - e a um nível além da minha compreensão", afirma o especialista em defesa Konrad Muzyka, presidente da consultoria especializada na região Rochan Consulting, com sede na Polônia.

Após um mês de guerra, a Rússia afirma que assumiu o controle de 93% da região de Luhansk e 54% de Donetsk. O presidente russo ainda está longe de dominar toda a região, mas, mesmo se ele vier a reivindicar vitória, trata-se de um território muito grande para ser controlado.

Por que Putin quer controlar Donbas

O líder russo vem repetindo a acusação não confirmada de que a Ucrânia é responsável por genocídio no leste do país. Quando a guerra começou, dois terços dessas regiões orientais estavam nas mãos da Ucrânia. O restante era controlado pelos separatistas, que criaram pequenos Estados autônomos apoiados pela Rússia durante outra guerra, que começou oito anos atrás.

E, pouco antes da guerra atual, o presidente Putin reconheceu todo o território das duas regiões orientais como sendo independentes da Ucrânia. Se a Rússia conquistasse essas duas grandes regiões, Vladimir Putin teria alcançado algum tipo de conquista com a guerra russa.

A etapa seguinte seria anexar Donbas, da mesma forma que ocorreu com a Crimeia, após um referendo contestado em 2014. E, se a conquista viesse antes de 9 de maio, ele ainda poderia exibi-la no Dia da Vitória, quando as forças armadas russas comemoram a vitória sobre a Alemanha nazista em 1945.

O líder controlado pela Rússia em Luhansk já falou em promover um referendo em "futuro próximo", mas mesmo a ideia de uma votação imposta em uma zona de guerra parece absurda.

Qual é a estratégia de Putin?

As forças russas estão tentando cercar o exército ucraniano no leste do país, movendo-se a partir do norte, leste e do sul. "É um grande território a ser controlado e acho que não devemos subestimar as complexidades geográficas da região", afirma Tracey German, professora de conflitos e segurança do King's College de Londres.

Depois de semanas de combates, as forças russas não conseguiram capturar a segunda maior cidade da Ucrânia, Kharkiv (ao sul da fronteira com a Rússia), mas acabaram por tomar o controle de Izyum, uma cidade estratégica mais ao sul pela rodovia principal que leva à região controlada pelos separatistas no leste.

"Se você observar o que eles estão fazendo em volta de Izyum, eles estão seguindo as linhas principais das rodovias - e isso faz sentido, já que eles estão movimentando a maior parte do seu equipamento pelas estradas e ferrovias", segundo German.

As cidades que agora estão na mira da Rússia já sofreram anos de guerra desde que os separatistas apoiados pela Rússia tomaram grande parte de Donbas pela primeira vez.

O próximo grande alvo ao longo da rodovia M03 é Slovyansk, uma cidade com 125 mil habitantes que foi tomada pelas forças apoiadas pela Rússia em 2014, antes de ser recapturada. O Instituto de Estudos da Guerra (ISW, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos, afirma que, se a Ucrânia mantiver o controle de Slovyansk, a campanha russa para capturar as duas regiões "provavelmente irá fracassar".

As forças russas já estão bombardeando uma série de cidades mais a leste na região de Luhansk ainda sob controle ucraniano, incluindo Rubizhne, Lysychansk, Popasna e Severodonetsk. Blocos de apartamentos foram destruídos e civis foram mortos nas suas casas.

Essas cidades são importantes porque controlá-las permitiria à Rússia mover-se para o oeste e reunir-se às forças russas que planejam mover-se para o sudeste de Izyum, segundo o ISW.

Os russos não só estão tentando controlar as linhas de fornecimento pelas rodovias, mas também estão tentando bloquear o acesso da Ucrânia às vias ferroviárias do oeste do país.

O trem é o meio de transporte mais eficaz para as tropas e a artilharia pesada da Ucrânia, além de ser o caminho de saída mais rápido para os civis em fuga. Controlar parte da rede ferroviária também permitiria que as forças russas movimentassem suas tropas e suprimentos.

Os civis estão sendo retirados antes dos avanços russos. "Salve a você e à sua família enquanto ainda pode" foi o apelo do líder local Serhiy Haidai aos moradores, enquanto ônibus e trens se dirigiam ao oeste do país.

Na terça-feira (5 de abril), os trens ainda estavam saindo de Slovyansk, mas foram cortadas as linhas para Rubizhne e Izyum, no norte da Ucrânia, além de Mariupol e Melitopol, no sul.

Maryna Agafonova, de 27 anos, saiu da casa da família em Lysychansk, deixando seus pais para trás enquanto as bombas russas continuam a cair. "Eles atacaram hospitais e prédios residenciais.

Não há aquecimento, nem eletricidade", segundo ela. Ela disse à BBC que as forças ucranianas ainda estão resistindo em grandes números: "eles não estão deixando que os russos ocupem a cidade", segundo ela.

Vida 'assustadora' na região separatista de Luhansk

A vida sob o controle dos separatistas apoiados pela Rússia é mais calma, mas as autoridades separatistas acusaram as forças ucranianas de bombardear edifícios residenciais e matar civis. Autoridades do pequeno Estado autônomo de Donetsk afirmam que 72 civis morreram desde meados de fevereiro.

Uma mulher em Luhansk disse à BBC, sob anonimato, que havia visto muitos blindados russos na cidade e que a atmosfera agora era de medo e cautela. "Estou com medo - é simplesmente assustador", disse ela.

Ela explicou que os homens com idade para alistar-se foram convocados para as milícias locais e quem fugisse do alistamento estava escondido. "Eles estão mobilizando [os homens] nas ruas e os prendendo.

Não há homens nas lojas, na cidade, nas ruas." E, com isso, segundo ela, todas as empresas controladas por homens estão fechadas. "Nós já fazemos parte da Rússia, só que apenas informalmente. Todas as pessoas têm passaportes russos", relata ela.

As forças ucranianas conseguirão resistir?

No início da guerra, as 10 brigadas que compõem a Operação de Forças Conjuntas no leste da Ucrânia reuniam os soldados considerados os mais bem treinados e equipados do país. Mas, "na verdade, não sabemos qual é o poderio das forças ucranianas agora", segundo Sam Cranny-Evans, que acredita que os números terão sido ampliados com o ingresso de voluntários nas últimas semanas.

As forças russas já sofreram grandes perdas depois de mais de cinco semanas de conflito e acredita-se que o ânimo das tropas esteja reduzido. Elas são formadas por homens recrutados das regiões separatistas locais e do próprio exército russo.

"O principal objetivo dos ucranianos é infligir o máximo de perdas possível para o lado russo, utilizando táticas assimétricas para evitar grandes batalhas", segundo Konrad Muzyka. Um homem chamado Mykyta, que conseguiu fugir do bombardeio russo de Mariupol, afirmou que estava confiante de que a reação do exército ucraniano seria bem sucedida.

"Algum dia, eles irão devolver nossas cidades. O batalhão Azov não entregará Mariupol", disse ele à BBC. "O exército ucraniano é muito esperto. Eu não os vejo na minha cidade, mas ouço [seus movimentos] e eles se disfarçam muito bem."

BBC Brasil / DefesaNet

Como lidar com uma superpotência chefiada por um criminoso de guerra?




Putin comete erros na Ucrânia, muda de estratégia para ter algum resultado positivo, mas uma certeza é que a ordem mundial que conhecíamos mudou. 

Por Thomas Friedman, do NYT

É difícil acreditar, mas não é impossível negar, que o abrangente ordenamento que mantinha grande parte do mundo estável e próspera desde o fim da Guerra Fria foi seriamente fraturado pela invasão de Vladimir Putin à Ucrânia. De maneiras que ainda não havíamos considerado, grande parte desse ordenamento jazia sobre a capacidade do Ocidente coexistir com Putin enquanto ele dava uma de “bad boy”, testando os limites da ordem mundial, mas sem violar regras em escala.

Com a invasão não provocada de Putin à Ucrânia, sua indiscriminada destruição das cidades do país e as matanças em massa de civis ucranianos, ele passou de “bad boy” a “criminoso de guerra”. E quando o líder da Rússia — um país que cobre 11 fusos horários, com vastos recursos em petróleo, gás e minérios e mais ogivas nucleares do que qualquer outro Estado — é um criminoso de guerra e deve ser tratado como pária, é porque o mundo que conhecíamos mudou. Nada poderá ser como antes.

Como o mundo poderá ter uma Organização das Nações Unidas eficaz quando um país liderado por um criminoso de guerra ocupa assento no Conselho de Segurança permanentemente e tem poder de vetar qualquer resolução? Como o mundo poderá ver qualquer tipo de iniciativa global eficaz para combater as mudanças climáticas se não puder colaborar com o país que detém a maior massa terrestre do planeta?

Como os EUA poderão colaborar proximamente com a Rússia em relação ao pacto nuclear do Irã quando não podemos confiar nos russos de nenhuma maneira e mal nos comunicamos com Moscou? Como isolamos e tentamos enfraquecer um país tão grande e poderoso sabendo que ele poderá se tornar ainda mais perigoso caso se desintegre do que se permanecer forte? Como alimentamos e fornecemos combustível ao mundo a preços razoáveis quando a Rússia sancionada é um dos maiores exportadores de petróleo, trigo e fertilizantes?

A resposta é: não sabemos. O que é uma maneira diferente de dizer que estamos entrando num período de incerteza geopolítica e econômica de um tipo que não testemunhávamos desde 1989 — ou possivelmente desde 1939.

A situação só promete piorar antes de começar a melhorar, porque Putin parece agora um animal encurralado. Ele não apenas errou demais com sua invasão à Ucrânia; ele também produziu demais o oposto do que almejava alcançar, o que o deixa desesperado por qualquer vitória, a qualquer preço, capaz de obscurecer esse fato.

Putin afirmou que teve de invadir a Ucrânia para afastar a Otan da Rússia, e sua guerra não apenas revigorou a estagnada aliança militar do Ocidente, mas também garantiu a solidariedade da Otan e a modernização de suas armas enquanto Putin permanecer no poder — e provavelmente durante a geração seguinte.

Putin afirmou que teve de invadir a Ucrânia para remover a claque nazista que controlava Kiev e trazer tanto o povo ucraniano quanto o território do país de volta ao seio da Mãe Rússia, ao qual eles pertenciam naturalmente e pelo qual, em sua imaginação, ansiavam. Em vez disso, a invasão de Putin tornou os ucranianos — e até ucranianos anteriormente pró-Rússia — inimigos amargados por pelo menos uma geração e deu carga total ao desejo ucraniano de ser independente da Rússia e integrar a União Europeia.

Putin pensou que uma tomada em estilo blitzkrieg da Ucrânia valeria ao Exército russo o respeito adequado do Ocidente por sua destreza — colocando fim aos insultos que classificavam a Rússia, cuja economia é menor que a do Estado do Texas, simplesmente como “um posto de gasolina que possui bombas nucelares”. Em vez disso, o Exército de Putin acabou revelado como uma força incompetente e bárbara, que precisou alistar mercenários sírios e chechenos apenas para manter suas posições.

Depois de errar tanto e lançar esta guerra por iniciativa própria, Putin deve estar desesperado para mostrar que produziu algo — nem que seja ao menos controle incontestável do leste da Ucrânia, da região do Donbas em direção ao sul, até Odessa, ao longo da costa ucraniana do Mar Negro e conectando-se com a Crimeia. E ele certamente quer que isso aconteça até 9 de maio, para celebrar a conquista na parada do Dia da Vitória, que marca a vitória da Rússia sobre os nazistas na 2.ª Guerra.

O presidente Volodimir Zelenski disse em uma entrevista transmitida neste domingo nos Estados Unidos que as forças russas estão cometendo 'genocídio' na Ucrânia

Nova estratégia

Então, parece que Putin está se preparando para uma estratégia em duas frentes. Primeiro, ele está reagrupando suas forças arruinadas e concentrando-as completamente em conquistar e manter esse butim de guerra menor. Em segundo lugar, ele está dobrando a aposta na crueldade sistemática — no contínuo castigo a cidades ucranianas com foguetes e artilharia, para seguir matando o maior número possível de gente, criando o maior número possível de refugiados e provocando a maior ruína econômica que for capaz.

Putin claramente espera que seu reagrupamento de forças frature o Exército ucraniano pelo menos no leste e sua crueldade frature a Otan, à medida que seus Estados-membros fiquem inundados de refugiados e pressionem Kiev a lhe dar o que quiser para fazê-lo parar.

A Ucrânia e a Otan, portanto, precisam de uma contraestratégia eficaz.

A ação deveria ter três eixos. O primeiro é apoiar os ucranianos com diplomacia se eles quiserem negociar com Putin — o que seria escolha deles —, mas também apoiá-los com os melhores armamentos e treinamentos se eles pretenderem expulsar o Exército russo de cada centímetro do território.

O segundo é transmitir diariamente e estridentemente a mensagem de que o mundo está em guerra “contra Putin” e “não contra o povo russo”— exatamente o oposto do que Putin tem contado aos russos. E o terceiro é dobrarmos nosso esforço para acabar com nossa dependência de petróleo, que é a principal fonte da renda de Putin.

Reação Interna

A esperança é que esses elementos, juntos, coloquem em ação forças dentro da Rússia que destituam Putin do poder.

Sim, é uma proposta de alto risco e alta recompensa. A queda de Putin poderia levar alguém pior ao controle do Kremlin. Também poderia levar a caos prolongado e desintegração. Mas se levar a alguém melhor no Kremlin, com o mínimo de decência e a ambição de reconstruir a dignidade e as esferas de influência da Rússia com base em novas gerações de Tchaikovskis, Rachmaninoffs, Sakharovs, Dostoiévskis e Sergei Brins — não por meio de oligarcas proprietários de iates, hackers e assassinos armados com polônio — o mundo inteiro melhoraria. Inúmeras possibilidades de colaborações sãs ressurgiriam ou seriam forjadas.

Somente o povo russo tem o direito e a capacidade de mudar seu líder. Mas isso não será fácil, porque Putin, o ex-agente da KGB — cercado por muitos outros ex-agentes de inteligência fiéis a ele — é praticamente impossível de remover.

Mas aqui vai um possível cenário: O Exército russo é uma instituição orgulhosa, que se continuar a sofrer derrotas catastróficas na Ucrânia, posso imaginar uma situação em que ou Putin decapita sua liderança — usando os comandantes de bode-expiatório pelo fracasso na Ucrânia — ou o Exército, sabendo que isso ocorrerá, tente depor Putin primeiro. Nunca houve nenhum tipo de carinho entre o Exército russo e os tipos KGB/SVR/FSB que cercam Putin e garantem sua segurança.

Em suma, que o povo russo produza uma liderança melhor é uma condição necessária para que o mundo produza uma ordem global nova e mais resiliente para substituir a ordem global pós-Guerra Fria, que Putin acaba de despedaçar. Também é necessário, porém, que os EUA sejam um modelo de democracia e sustentabilidade que outros países queiram emular.

No momento em que ucranianos fazem o sacrifício definitivo para manter cada centímetro e cada grama de sua recém-conquistada liberdade, é muito pedir que os americanos façam sacrifícios e concessões minúsculos para manter nossa preciosa herança democrática? 

O Estado de São Paulo

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