sábado, abril 09, 2022

Eleição com cheiro de naftalina




Por Vera Magalhães (foto)

Não são só os líderes das pesquisas da eleição presidencial que são velhos conhecidos do Brasil. Os temas postos em discussão até aqui e, sobretudo, os esboços de propostas em torno deles são para lá de batidos. Cheiram a naftalina.

O odor característico dos armários dos nossos avós me subiu às narinas quando vi de volta à pauta o velho e estéril, da forma como é entabulado, debate sobre aborto. Que essa pegadinha seria trazida de volta por Jair Bolsonaro, Damares Alves e companhia já era esperado. Mas que Lula, com décadas de campanhas nas costas, atravessasse a rua voluntariamente para escorregar nessa casca de banana foi mais surpreendente.

Uma boa forma de não mudar nada na política de saúde pública concernente ao aborto é insistir em tratar o tema de forma atabalhoada numa campanha, com a exploração sempre feita por lideranças evangélicas. Lula sabe disso desde suas corridas presidenciais anteriores e da primeira eleição de Dilma Rousseff, em 2010, quando esse foi o primeiro e maior bode colocado na sala.

A celeuma ocasionada pelas declarações do petista e seu recuo depois mostram que, embora acerte no diagnóstico de que hoje são as mulheres pobres as mais vulneráveis diante de uma realidade em que abortos clandestinos são praticados em todo o país, ainda é necessário um debate aprofundado na sociedade a respeito da questão, mostrando dados e afastando o estigma moralista e religioso. É, antes, um tema para o Congresso, com a realização de audiências públicas e a convocação de especialistas. Numa campanha, tende a produzir mais calor e faíscas que luz.

O aborto é só um exemplo de como patinamos, em 2022, em falas polêmicas e assuntos que nem de perto dizem respeito às urgências postas para um país que sai da pandemia mais pobre, mais desigual e com piores indicadores em áreas como meio ambiente, educação e direitos humanos.

Enquanto o mundo discute caminhos para a economia que levam forçosamente em conta temas universais como envelhecimento da população, revolução no mundo do trabalho, necessidade de transição energética começando imediatamente e educação que apresente ferramentas para tudo isso, por aqui gastaremos meses discutindo se vamos ou não reverter a reforma trabalhista, subsídios insustentáveis a combustíveis fósseis e, na educação, se Paulo Freire é herói ou vilão.

O debate invariavelmente tende a oscilar entre uma eterna volta ao passado e o embuste ideológico puro e simples para facilitar narrativas em redes sociais e demonizar os adversários. Nada de novo no front.

Deixar que as discussões fiquem presas a esse passado que não dá mais conta de um mundo em profunda e rápida transformação é uma das fórmulas para fazer com que a polarização entre Bolsonaro e Lula vire uma profecia autorrealizada.

Para cada assunto, parece apenas haver uma comparação entre o que está sendo feito (ou desmontado) no governo atual e um legado de um período que vai de 2003 a 2016.

E o futuro? O que o Brasil almeja para os próximos anos? Ninguém consegue esboçar sequer uma resposta que mobilize grandes contingentes da sociedade, da universidade à indústria, do agronegócio ao setor financeiro. Afinal, esses grupos estão satisfeitos em gastar meses falando de aborto, regulação da mídia, “ideologia de gênero” ou qualquer outra dessas pegadinhas emboloradas?

Nós, da imprensa, também parecemos anestesiados e presos ao esquema que mantém a cobertura eleitoral pobre, estéril e desalentadora. O eleitor que busca caminhos e ideias nos lê e sai ainda mais desiludido e certo de que nada andará para a frente.

O início da fase de sabatinas, entrevistas e debates precisa quebrar esse círculo vicioso que só interessa aos candidatos que não têm o que propor. Chega de tanto blá-blá-blá nonsense quando o país tem pressa de seguir adiante.

O Globo

Bancadas do Centrão ganham mais força para as eleições - Editorial

 



O custo político de governar a República aumentou e ainda pode crescer

Os partidos do Centrão incharam com as trocas de legendas na Câmara permitidas pela janela eleitoral. Por uma série de motivos, entre os quais em primeiro lugar figuram os recursos do fundo eleitoral, um quarto dos deputados mudou de sigla - na grande maioria dos casos, é disso que se trata, da troca de letras. Dos 129 deputados que fizeram isso (o número não está completo), 70 se filiaram às legendas que carregam o presidente Jair Bolsonaro nos ombros rumo a sua tentativa de reeleição: Progressistas (PP), PL e Republicanos. No cômputo geral, a direita e o centro avançaram bastante. A esquerda entrou o ano com 141 deputados e saiu da janela com 118. Nela, apenas o PT ganhou deputados: ficou com 58, tinha 56.

O movimento em direção aos principais partidos fisiológicos foi mais intenso, porque nele aportaram parlamentares do emaranhado de legendas que já gravitavam em torno do governo, de porte pequeno e pulverizados. A proibição das coligações em eleições proporcionais, mais a cláusula de barreira, foram as razões para a debandada, e podem ser também os algozes das legendas remanescentes. Treze dos 23 partidos com representação na Câmara ficaram com uma bancada menor que os 11 deputados que terão de ser eleitos segundo as regras da cláusula de barreira nas eleições de outubro.

No cenário pré-eleitoral, uma das consequências é a de que grupos mais fisiológicos do Congresso têm agora mais chances de aumentar suas bancadas na próxima legislatura e ampliar seu domínio sobre a pauta do Legislativo. Os partidos robustecidos que vão às urnas com Bolsonaro dão mais visibilidade ao presidente em suas campanhas, embora o decisivo, no caso, sejam os palanques estaduais, em que governadores se alinham a um candidato ao Planalto que puxe votos para todos.

Como esses partidos não têm ideologia e se movem em grande parte pela sobrevivência, parte de forças bolsonaristas formarão palanque para Lula no Nordeste, onde o ex-presidente é imbatível. Aconselhado por velhas raposas da política, como Ciro Nogueira (PP) e Valdemar Costa Neto (PL), o suprassumo da “velha política”, Bolsonaro montou apoios fortes em São Paulo, Rio e Minas, o primeiro, segundo e quarto maiores colégios eleitorais do país, e pode se beneficiar da discórdia do PT na Bahia, o terceiro maior.

Ainda que não tenha possibilidades de vencer no Nordeste, Bolsonaro e seus aliados têm candidatos com alguma competitividade em vários Estados da região (como Ceará e Rio Grande do Norte) e buscarão diminuir a diferença imensa de votos nordestinos nos petistas em relação aos governistas.

No cenário pós-eleitoral, as consequências são mais profundas e perigosas. O Centrão vivia disperso até 2015, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) deu-lhes uma liderança e os uniu em torno de propósitos - entre eles, obter recursos por meio do orçamento impositivo e apoiar o impeachment de Dilma Rousseff. Os partidos fisiológicos tomaram gosto pela coisa e tornaram obrigatórias não só as emendas individuais, como as de bancada.

Quando o presidente Bolsonaro entregou as chaves do Congresso ao Centrão, os partidos entronizaram líderes do baixo clero, como Arthur Lira (PP), presidente da Câmara e os comandantes do PL e do Republicanos. No acordo para sustentar Bolsonaro surgiram as vergonhosas emendas do relator, ou secretas - envio de recursos para Estados e municípios sem identificação de quem pediu e, muitas vezes, quem recebeu. Líderes destes partidos e até seus parentes de distintos graus foram beneficiados por elas.

As três legendas saíram de 101 deputados para 171 no ano eleitoral e, com diferença qualitativa, isto é, com líderes visíveis e com uma agenda política que dista muito de qualquer coisa parecida com austeridade e probidade na destinação de recursos públicos. Um novo crescimento nas urnas, como vem ocorrendo desde 2014 e que produziu o desastre político da ascensão de Bolsonaro, tornará muito mais difícil a vida do próximo presidente, caso não seja Bolsonaro. Mesmo Lula, com sua habilidade de formação de coalizões - havia mais de uma dezena de partidos na base de Dilma Rousseff - e desprezo pelas consequências desses acordos (petrolão, por exemplo), terá dificuldades de se impor diante do Centrão. O custo político de governar a República aumentou e ainda pode crescer.

Valor Econômico

A descoberta que pode desencadear 'maior revolução na Física desde as teorias de Einstein'




Detector do Colisor no Fermilab obteve resultado que pode revolucionar Física moderna

Por Pallab Ghosh

Cientistas nos arredores de Chicago, nos Estados Unidos, descobriram que a massa de uma partícula subatômica não é o que deveria ser - uma descoberta surpreendente que pode revolucionar a Física e nossa compreensão sobre o Universo.

A medição é o primeiro resultado conclusivo de um experimento que está em desacordo com uma das teorias mais importantes e bem-sucedidas da Física moderna.

A equipe descobriu que a partícula, conhecida como bóson W, tem mais massa do que o que as teorias previam.

O resultado foi descrito como "chocante" pelo professor David Toback, co-porta-voz do projeto.

A descoberta pode levar ao desenvolvimento de uma nova e mais completa teoria de como o Universo funciona.

"Se esses resultados forem comprovados por outros experimentos, o mundo parecerá diferente", diz ele à BBC News. "Tem que haver uma mudança de paradigma. A esperança é que talvez esse resultado seja o que causará uma ruptura".

"O famoso astrônomo Carl Sagan disse que 'afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias'. Acreditamos que temos isso."

Os cientistas do CDF (Fermilab Collider Detector, ou Detector do Colisor no Fermilab), no Estado americano de Illinois, encontraram apenas uma pequena diferença na massa do bóson W em comparação com o que a teoria diz que deveria ser — apenas 0,1%.

Mas, se isso for confirmado por outros experimentos, as implicações são enormes. O chamado Modelo Padrão da física de partículas previu o comportamento e as propriedades das partículas subatômicas sem qualquer discrepância por 50 anos. Até agora.

O outro co-porta-voz da CDF, professor Giorgio Chiarelli, do INFN Sezione di Pisa, na Itália, diz à BBC News que a equipe de pesquisa mal pôde acreditar quando viu os resultados.

"Ninguém estava esperando por isso. Achamos que talvez tivéssemos algo errado."

Mas os pesquisadores analisaram meticulosamente os resultados e tentaram procurar erros. E não encontraram nenhum.

A conclusão, publicada na prestigiosa revista científica Science, pode estar relacionada a pistas de outros experimentos no Fermilab e no Grande Colisor de Hádrons, na fronteira suíço-francesa. Essas conclusões, ainda não confirmadas, também sugerem desvios do Modelo Padrão, possivelmente como resultado de uma quinta força da natureza em jogo ainda não descoberta.

Os físicos sabem há algum tempo que a teoria precisa ser atualizada. O conceito não é capaz de explicar a presença de material invisível no espaço, chamado Matéria Escura, nem a contínua expansão acelerada do Universo por uma força chamada Energia Escura. Tampouco a gravidade.

Mitesh Patel, da Universidade Imperial College de Londres, no Reino Unido, que trabalha no LHC, diz acreditar que, se o resultado do Fermilab for comprovado, pode ser o primeiro de muitos novos resultados capazes de provocar a maior mudança em nossa compreensão do Universo desde as teorias da relatividade de Einstein, mais de cem anos atrás.

"A esperança é que essas rachaduras se transformem em abismos e, eventualmente, veremos algum sinal espetacular que não apenas confirma que o Modelo Padrão caiu por terra como uma descrição da natureza, mas também nos dá uma nova direção para nos ajudar a entender o que estamos vendo e como é a nova teoria da física".

"Se isso for verdade, deve haver novas partículas e novas forças para explicar como tornar esses dados consistentes".

'Sediado em um terreno de 2,7 mil hectares perto de Chicago, Fermilab é o principal laboratório de física de partículas dos Estados Unidos'

Mas, apesar do entusiasmo, a comunidade física permanece cautelosa. Embora o resultado do Fermilab seja a medida mais precisa da massa do bóson W até hoje, ele está em desacordo com duas das próximas medidas mais precisas de dois experimentos separados que estão de acordo com o Modelo Padrão.

"Isso vai desagradar algumas pessoas", diz o professor Ben Allanach, físico teórico da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

"Precisamos saber o que está acontecendo com a medição. O fato de termos dois outros experimentos que concordam entre si e com o Modelo Padrão e discordam fortemente desse experimento me preocupa".

Todas as atenções estão agora voltadas para o Grande Colisor de Hádrons, que deve reiniciar seus experimentos após uma reforma de três anos. A esperança é que esses testes forneçam os resultados que estabelecerão as bases para uma nova teoria da física mais completa.

"A maioria dos cientistas vai estar um pouco cautelosa", diz Patel.

"Já passamos por situações parecidas antes e ficamos desapontados, mas todos esperamos secretamente que seja realmente isso, e que em nossa vida possamos ver o tipo de transformação sobre a qual lemos nos livros de história".

BBC Brasil

Vácuo de lideranças




Com líderes como Gilberto Kassab, Luciano Bivar e ACM Neto, onde o Brasil vai chegar?

Por Eliane Cantanhêde (foto)

Um dos grandes problemas brasileiros, em meio a uma pandemia, uma guerra com repercussões internacionais e uma eleição tão polarizada é a falta de líderes que comandem os debates, ajustem interesses e deem racionalidade e consequência ao processo. Essa mercadoria andava em falta, mas a carência agora é dramática.

O Brasil já conseguiu reunir no Congresso a direita culta, a esquerda combativa e o centro capaz de garantir o equilíbrio, enquanto os radicais cumpriam seu papel: o de minorias que chacoalham as certezas e tiram a maioria da zona de conforto.

Na Constituinte de 1988, Roberto Campos e Delfim Netto discutindo com Lula e José Genoino, Fernando Henrique Cardoso, Ulysses Guimarães e Mário Covas dando rumos e segurança ao debate, enquanto uma nova leva de políticos articulava e construía o futuro.

Gente que vinha dos movimentos estudantis, sindicatos e meios jurídicos, empresariais ou religiosos, como José Serra, Nelson Jobim e os “capuchinhos”, grupo de centro-esquerda em que brilhava um tal de Dante de Oliveira, que emprestara a ousadia e o nome à emenda das “Diretas-Já”.

Congresso brilhante, política efervescente, um cheiro de futuro no ar, no eterno “país do futuro”. Um futuro que nunca chega. Ou que chega aonde chegamos. Olhem as mexidas nas Forças Armadas e os líderes do Executivo, Legislativo, empresariado, igrejas…

É por isso que boa parte do eleitorado deseja ardentemente e não acha a solução para uma transição, um pacto para interromper o desmanche e começar a reconstrução – inclusive, talvez principalmente, de princípios, com a democracia em primeiro lugar.

Sem Ulysses, Tancredo, Aureliano e FHC e com Lula abdicando da liderança do processo para ser, sempre, o candidato, quem se arvora são os espertos, que se movem convencidos e convencendo de que dão nó em pingo d’água. Não está dando certo.

Ninguém fala do “PSD”, só do “PSD do Kassab”, mas Gilberto Kassab deixou no ar desde o início que estava fechado com Lula, lançou Rodrigo Pacheco, prometeu mundos e fundos para Eduardo Leite, jogou a rede para Paulo Hartung. E nada. O risco é um estouro da boiada no partido.

Outro que ganhou ares de grande articulador foi Luciano Bivar, ao ceder o PSL para Jair Bolsonaro em 2018. Depois, foi jogado ao mar e enfim se agarrou à boia do DEM, que ACM Neto lhe jogou para evitar seu próprio naufrágio. Com “lideres” como Kassab, Bivar e ACM Neto, a terceira via não vai a lugar nenhum. Nem o Brasil.

PS: Começa amanhã a oitava Brazil Conference, organizada por alunos da comunidade acadêmica de Boston e Harvard, com transmissão do Estadão. Vai perder? 

O Estado de São Paulo

De pastores e competências




É mais fácil preferir o varejo das verbas administradas pelo Centrão ao compromisso com os resultados da educação.

Por Simon Schwartzman* (foto)

A revelação de que dois pastores amigos do presidente da República cobravam uns trocados para liberar recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) tomou conta do noticiário durante dias e provocou a queda do ministro. Mas ninguém se deu ao trabalho de explicar o que é e como funciona este fundo, que maneja R$ 50 bilhões ao ano. E uma outra notícia, a da aprovação, pelo Ministério da Educação, de uma desastrosa proposta de alteração do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que pode afetar a vida de milhões de jovens nos próximos anos, passou totalmente despercebida. É assim que a educação brasileira não anda: gasta-se enorme energia discutindo os detalhes, e ignoram-se as questões maiores.

O FNDE é uma autarquia que administra e repassa para Estados e municípios recursos obrigatórios, como o Fundeb, o crédito educativo (Fies) e os recursos do salário-educação, e executa um enorme varejo de programas, como os de livros didáticos, transporte escolar, dinheiro direto nas escolas, alimentação escolar, construção de prédios e outros. Vários bilhões são classificados como “transferências voluntárias” e dependem, para ser liberados, do bom entendimento entre a direção do fundo e os governadores e prefeitos. Não é à toa que o Centrão sempre teve interesse em controlar o FNDE.

Precisamos, mesmo, de uma autarquia como essa? Não seria melhor simplesmente transferir os recursos diretamente para as redes escolares carentes, em função de critérios de equidade e desempenho, e tirá-los das mãos dos políticos? É isso o que precisaria ser discutido.

Sobre o novo Enem, o Conselho Nacional de Educação (CNE) desenvolveu recentemente um projeto bastante razoável, alinhado com o que ocorre no resto do mundo, em que os alunos que se destinam a cursos superiores seriam avaliados conforme as grandes áreas de orientação profissional – tecnologia e engenharia, ciências biológicas e da saúde, profissões sociais, humanidades. Se bem executada, a proposta poderia ajudar a dar um rumo à reforma do ensino médio, que se arrasta há anos. No entanto, o Ministério da Educação preferiu adotar um projeto prolixo e inexequível que combina quatro “eixos estruturantes” (investigação científica, processos criativos, mediação e intervenção sociocultural e empreendedorismo) com quatro estranhos “itinerários formativos”: linguagens, que vão do Português à dança, passando por informática; ciências naturais, que vão da Física à Biologia molecular, mas excluem as engenharias; ciências sociais e humanas, que vão da Sociologia à Filosofia, mas excluem Economia e Direito; e Matemática, que – Deus sabe por que – fica sozinha. Teria sido uma oportunidade para o CNE publicar sua proposta, num texto claro e simples, livre de jargão jurídico e pedagógico, firmando posição e abrindo um debate que seria de grande importância para quando tivermos um outro governo. Mas, ao invés disso, o CNE preferiu colocar sua proposta na gaveta e endossar a que veio da burocracia ministerial. Se é para fazer isso, para que, mesmo, serve este conselho?

Há mais de dez anos eu e outras poucas pessoas vimos escrevendo sobre os equívocos que começaram com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), se desdobraram nas deformações introduzidas na reforma do ensino médio e culminam, agora, nesta proposta do novo Enem. O que defendemos é o que se faz em todo o mundo onde a educação funciona. Ninguém contesta, mas a burocracia pedagógica segue impávida em sua falta de rumo.

A questão central é que a educação não pode ser pensada como o acúmulo de habilidades ou competências separadas, mas como a transmissão e o desenvolvimento de culturas que combinam conteúdos e práticas de forma viva e significativa. Se eu juntar um sistema digestivo, um sistema respiratório, um cérebro etc., eu, no máximo, construiria um Frankenstein, nunca uma pessoa. Da mesma forma, não se aprende uma língua decorando regras gramaticais e taxonomias de estilos literários, mas interagindo, falando, lendo, escrevendo e, depois, analisando; e não se formam bons profissionais com aulas de empreendedorismo e processos criativos, mas com o desenvolvimento integrado de conhecimentos, práticas e valores das diferentes áreas de atuação.

O que se deve buscar na educação não é substituir o ensino burocrático e tradicional dos currículos de Química, Biologia, História e Geografia por competências genéricas vazias, mas dar aos estudantes condições e oportunidades para absorver e fazer parte da cultura viva e rica de conteúdos que começa com a linguagem e o uso dos números e culmina nas diversas áreas de formação acadêmica e profissional.

Parece óbvio, e a grande dúvida é por que tanta gente é contra ou indiferente. Minha explicação é de que manter e desenvolver a cultura viva é muito mais difícil do que persistir na rotina do ensino burocrático, que continua a mesma quando se pretende substituir as matérias enlatadas pelas “competências” da moda. Da mesma maneira que se prefere o varejo das verbas federais administradas pelo Centrão ao compromisso e a responsabilidade com os resultados da educação.

*Sociólogo, é membro da Academia Brasileira de Ciências

O Estado de São Paulo

Guterres e o lobo




“O exagero é a mentira da gente honesta” - Joseph De Maistre

As alterações climáticas não são nenhuma brincadeira. A brincadeira é o catastrofismo que alguns protagonistas lhe incutem com o objetivo de mobilizar a sociedade para o seu combate. 

Por João Adrião 

“Pedro e o Lobo” é um clássico que todos conhecemos. A fábula, atribuída a Esopo, como qualquer fábula, tem um fim pedagógico, ensinando tanto a crianças como a adultos uma importante lição: Pedro, um pequeno pastor, tanto brinca com mentiras que já ninguém o leva a sério e acaba por sofrer as consequências.

Era uma vez um menino chamado Pedro. Pastor, tomava conta do seu rebanho de ovelhas, o que por vezes, sem ninguém com quem brincar ou falar, se tornava aborrecido. Então um dia experimentou uma brincadeira, desatando a gritar: socorro, vem lobo! vem lobo! Ouvindo os gritos, os aldeões correrem para o ajudar. No entanto, não havia lobo nenhum, apenas as risadas de Pedro enquanto os aldeões se iam embora chateados. Uns dias mais tarde, o episódio repete-se e os aldeões voltam a cair na partida. Mas, mais uma vez mas não havia lobo nenhum e os aldeões ficaram ainda mais chateados, indo embora a barafustar.

Será possível que nas altas instâncias internacionais ninguém conheça esta história? Quando António Guterres, em 2018, advertiu que o mundo só tinha dois anos para agir contra as mudanças climáticas, não pensou nos riscos que a brincadeira de Pedro acarretava? Pois, provavelmente não, já que continua a insistir na estratégia: “É agora ou nunca” voltou a dizer ainda esta semana. E lá para as pastagens das Nações Unidas há muitos Pedros: este ano, a propósito do Dia Mundial da Saúde, o tema escolhido foi… A crise climática, “a maior ameaça à saúde que a humanidade enfrenta” diz a Organização Mundial de Saúde (OMS), agora que o palco lhes foge dos pés com o desinteresse face à Covid. O tal planeta inabitável que Guterres prognosticava há uns dias? Bom, outro dos seus pares, no caso a Organização Meteorológica Mundial (OMM) disse no mais abrangente relatório sobre o tema: “A mortalidade associada a desastres naturais (que, note-se, nem todos se devem às Alterações Climáticas) é quase três vezes inferior em 2019 face a 1970”. E uma simples pesquisa no site Our World in Data mostra destacadamente Doenças Cardiovasculares, seguidas de Cancro, com ambas a responderem por metade das mortes mundiais.

Qual era então a consequência de gritar que o lobo vinha?

Eis que certo dia se ouviram de novo os gritos. Não obstante, desta vez os aldeões olharam uns para os outros e encolheram os ombros. Não queriam ser enganados mais uma vez e ignoraram Pedro. Acontece que desta vez era mesmo um lobo. E Pedro regressa à aldeia a chorar por ter ficado sem as ovelhas. Perante a tristeza, os aldeões deram-lhe uma lição e explicaram que não ajudaram porque pensaram que se tratava de mais uma brincadeira.

As alterações climáticas não são nenhuma brincadeira. A brincadeira é o catastrofismo que alguns protagonistas lhe incutem com o objetivo de mobilizar a sociedade para o seu combate. Não o fazem por mal, mas porque estão assustados, preocupados e bem intencionados desejam ação. Todavia, as limitações e riscos desta estratégia são evidentes, sobretudo quando percebemos que não faltam preocupações a reclamar a nossa atenção, como a Covid ou agora a Guerra na Ucrânia, tragédia que nem assim coibiu Guterres de fazer uso do alarmismo climático. É preciso ser muito crédulo para julgar que Putin (sendo que a Rússia até esfrega as mãos de contente com os efeitos expectáveis das alterações Climáticas: calor num país gelado é bem vindo, os solos serão mais produtivos para a agricultura, o mar da Sibéria tornar-se-á navegável…) abandonaria o conflito para não ficar com CO2 na consciência.

A Alemanha não quer energia fóssil russa. Mas tem consciência que está dependente dela – não está disposta a deixar morrer alemães ao frio ou a parar a produção industrial do país, para avançar num boicote cego como os Estados Unidos reclamam (e reclamam porque não estão dependentes. E já agora porque não é no seu território que há riscos nucleares, não é no seu território que se refugiam milhões de pessoas, etc.). De igual modo, a energia fóssil a nível global ameaça desestabilizar o já de si instável clima terrestre, mas continuamos dependentes dela em cerca de 80%. E não estamos dispostos a abdicar do tanto bem que ela nos tem feito – a todos os níveis, saúde ou ambiente incluídos.

Pedro teria formas de proteger o seu rebanho de ataques de lobos? O combate às alterações climáticas carece de enquadramento económico, social e ambiental, de participação e envolvimento público, tudo coisas dispensáveis face à urgência de haver, querem-nos convencer, um lobo atrás dos arbustos. Pedro, eventualmente poderia cercar o pasto, ou ter um cão. Mas isso não seria tão divertido – que seria do protagonismo de Greta, DiCaprio, e tantos outros? Ai, mas assim as ovelhas morrem, quando as Nações Unidas (e seguidores, caso da União Europeia) até tinham uma solução para evitar ataques de lobos: sacrificar as ovelhas para os lobos as comerem sem ataques! É mais ou menos o que nos têm pedido: sofram já para não sofrerem no futuro. Aprendam com Pedro e tenham juízo!

Observador (PT)

A máquina do medo do Imperial College: os erros da equipe que pôs o mundo em lockdown.




O Imperial certamente dever ser submetido a auditoria agora, e ela deve enfatizar as inadequações dos modelos da equipe e por que motivo recomendações políticas foram feitas com base neles.

Por Steve Hanke* e Kevin Dowd*, National Review

O evento decisivo dos lockdowns ocidentais para conter a COVID-19 ocorreu em 16 de março de 2020, com a publicação do agora infame relatório da covid do Imperial College em Londres, que previu que na “ausência de medidas de controle ou mudanças espontâneas no comportamento individual” haveria 510 mil mortes por covid na Grã-Bretanha e 2,2 milhões nos Estados Unidos. Essa previsão foi o epicentro de um abalo que se espalhou pelo mundo. No dia seguinte, a imprensa britânica anunciou que o país começaria um lockdown.

O impacto do relatório foi amplificado pela máquina de soft power do Reino Unido, a BBC. Seu alcance é sem igual: faz transmissão em 42 línguas, alcançando 468 milhões de pessoas semanalmente no mundo e disseminando de forma eficiente a sua mensagem. Com a BBC abrindo o berreiro e o público alarmado, não havia espaço para a discordância.

Uma cascata de imitação então se estabeleceu, com os EUA e outros países adotando a mensagem e as políticas de Londres. O resultado foi uma política baseada em um modelo defeituoso que se originou no Imperial College sob a liderança de Neil Ferguson.

O maior defeito do modelo é sua presunção de que as pessoas seriam indiferentes aos perigos que acompanham uma pandemia. Esse pressuposto comportamental não é realista. Se as pessoas ouvem que estão em risco de pegar uma doença potencialmente letal, a maioria vai agir para reduzir sua exposição. A equipe do Imperial virou o mundo de ponta cabeça com números fantasiosos sobre um panorama que jamais viria a se materializar.

Antes de se apressarem a tomar decisões políticas em pânico, as autoridades britânicas deveriam ter se informado que a equipe do Neil Ferguson no Imperial College tinha um histórico de modelagem defeituosa. Com mínimo esforço, teriam descoberto rapidamente que a equipe tinha um histórico que faz a astrologia parecer respeitável.

O histórico lamentável começou com a epidemia de febre aftosa [no gado] em 2001, durante a qual os modeladores do Imperial College convenceram o governo a adotar uma política de abate em massa de animais. O modelo deles previa que a incidência diária de casos atingiria o pico em cerca de 420. Na época, o número de incidências já tinha atingido o máximo em pouco mais de 50 e estava caindo. A previsão errou o alvo, e até 10 milhões de animais, a maioria dos quais poderiam ter sido vacinados, foram mortos sem necessidade.

Pouco depois, em janeiro de 2002, a equipe do Imperial sugeriu que até 150 mil pessoas no Reino Unido poderiam morrer de mal da vaca louca. Na realidade, o número total de mortes no país foi 178 — outro erro da equipe do Imperial.

Então, em 2005, Neil Ferguson sugeriu que “até cerca de 200 milhões” poderiam morrer de gripe do frango no mundo. Ele justificou essa alegação pela comparação da letalidade da gripe do frango com a do surto de gripe espanhola de 1918, que matou 40 milhões. Até 2021, a gripe do frango tinha matado 456 pessoas ao redor do mundo, o que faz desse o maior erro do Imperial até agora.

Neil Ferguson e sua equipe voltaram à ativa em 2009, quando alegaram que 65 mil pessoas poderiam morrer de gripe suína no Reino Unido. Até o fim de março de 2010, o surto tinha matado menos de 500 pessoas antes de se dissipar. O “pior cenário razoável” de Neil Ferguson era 130 vezes grande demais — outro erro de monta.

Em cada caso houve o mesmo padrão: modelagem falha, previsões de desastres de arrepiar os cabelos que erraram o alvo, e nenhuma lição aprendida. Os mesmos erros foram repetidos de novo e de novo e nunca foram enfrentados por pessoas em posição de autoridade. Por quê? Talvez os modelos do Imperial College são máquinas ideias de gerar medo para políticos e governos com ânsia de mais poder. [O jornalista dos anos 1920] H. L. Mencken detectou esse fenômeno quando escreveu que “a meta da política prática é manter o populacho alarmado (e assim ansioso por ser guiado à segurança) com uma série infindável de monstros, a maior parte deles imaginários”.

A equipe de modelagem do Imperial College deveria ter sido submetida a uma auditoria dos seus modelos e práticas depois do fiasco com a febre aftosa mais de 20 anos atrás. Se isso tivesse sido feito, os fiascos que vieram depois poderiam ter sido evitados. Seja como for, o Imperial certamente dever ser submetido a auditoria agora, e ela deve enfatizar as inadequações dos modelos da equipe e por que motivo recomendações políticas foram feitas com base neles.

Os governos ao redor do mundo devem iniciar também os seus próprios inquéritos para aprender lições e tratar das medidas necessárias para proteger os seus cidadãos de modelos irresponsáveis em saúde pública. Nunca mais “cientistas” armados com modelos defeituosos deveriam escapar à responsabilidade por gritarem “pandemia!” em um teatro lotado de políticos e burocratas loucos para ganhar ainda mais poder.

*Steve H. Hanke é professor de economia aplicada na Universidade Johns Hopkins em Baltimore. É membro sênior e diretor do Projeto de Moedas Conturbadas no Instituto Cato em Washington, D.C.

*Kevin Dowd é professor de finanças e economia na Faculdade de Negócios da Universidade Durham, na Inglaterra.

Gazeta do Povo (PR)

Crise do MEC: qual seria o impacto de uma CPI em ano eleitoral?

 




Jair Bolsonaro e Milton Ribeiro durante evento no Palácio do Planalto em 4 de fevereiro

Em meio a uma série de denúncias de irregularidades envolvendo o Ministério da Educação, líderes da oposição no Senado estão coletando assinaturas para pedir a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e investigar a gestão no órgão.

Caso seja instalada, a CPI poderá atingir em cheio o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) em pleno período eleitoral no momento em que as pesquisas mostram um aumento nas suas intenções de voto.

Na sexta-feira (8/04), o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) anunciou pelo Twitter que tinha conseguido a quantidade necessária de assinaturas para pedir a instalação da CPI.

Horas depois, porém, a senadora Rose de Freitas (MDB-ES), cujo apoio à comissão estava contabilizado, negou ter assinado o requerimento.

Além de atingir o governo em pleno período pré-eleitoral, a CPI pode afetar um dos principais motes do presidente Jair Bolsonaro (PL): o de que em mais de três anos, seu governo não foi alvo de nenhum caso de corrupção.

A alegação vai na contramão de denúncias tanto sobre as supostas irregularidades no MEC quanto sobre a suposta cobrança de propina pela compra de vacinas contra a covid-19 revelada durante a CPI da Covid, no ano passado, e as investigações envolvendo a atuação do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, suspeito de ter beneficiado madeireiras do Pará enquanto ocupava o cargo.

Bolsonaro deverá se candidatar à reeleição e aparece atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas principais pesquisas de intenção de voto.

Mas qual a origem da crise no MEC? Qual objetivo de uma eventual CPI e que crimes seriam investigados? E que impactos essa eventual CPI poderia causar na corrida eleitoral?

Para o professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Cláudio Couto, a comissão, por seu caráter imprevisível, poderia ter efeitos negativos no governo Bolsonaro.

Apesar disso, Couto afirma que a dinâmica do período eleitoral e a necessidade de os parlamentares se dedicarem às suas próprias eleições pode acabar esvaziando a CPI.

Impactos da CPI

Para Cláudio Couto, a abertura de uma CPI sobre irregularidades no MEC pode, sim, fragilizar o governo e, por isso, ele acredita que haverá um esforço do Palácio do Planalto para dificultar a sua instauração.

"É um cenário imprevisível porque quando se inicia uma CPI, há sempre a possibilidade de uma testemunha revelar crimes e não tem como saber a repercussão disso em uma eleição acirrada. Até por isso, o governo vai tentar barrar essa comissão", afirmou Couto.

Durante a CPI, os parlamentares podem requerer o depoimento de testemunhas, incluindo ministros de estado, servidores públicos, empresários e, no caso de uma CPI sobre o MEC, os pastores suspeitos de irregularidades também estariam nesse rol. Durante a CPI da Covid, o interesse do público elevou a audiência das emissoras e sites que transmitiam os depoimentos.

Além disso, os parlamentares podem pedir acesso amplo a documentos sigilosos, extratos bancários e quebras de sigilo fiscal e telefônico que poderiam, em tese, colocar pressão sobre integrantes do governo.

Cláudio Couto diz, porém, que mesmo que ela seja criada, a CPI pode acabar esvaziada por conta da própria dinâmica eleitoral. Muitos senadores estão em plena corrida eleitoral ou empenhados nas candidaturas de seus aliados, o que diminuiria a atenção dada por eles às investigações.

"As eleições vão consumir muita energia dos senadores e isso pode acabar esvaziando essa CPI. A maior parte deles ou está tentando se reeleger ou está engajada nas campanhas em seus redutos eleitorais. Isso tem um impacto direto na energia que eles poderão dedicar a uma investigação como essa", explicou o professor.

Crise no MEC

O pedido de abertura de CPI acontece semanas depois de os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo publicarem reportagens mostrando que pastores evangélicos estariam cobrando propina de prefeitos do interior do país em troca de acesso ao ex-ministro da Educação Milton Ribeiro e da liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Em um áudio, Ribeiro admitiu que uma de suas prioridades era ajudar prefeitos que fossem próximos a um dos pastores envolvidos.

Prefeitos ouvidos pelos dois veículos afirmaram que os pedidos de propina chegavam a R$ 15 mil. Segundo eles, os pastores teriam pedido até propina paga em ouro ou na compra de Bíblias.

Ribeiro negou sua participação em irregularidades e disse ter encaminhado suspeitas aos órgãos de controle. Em uma transmissão na internet, Bolsonaro chegou a dizer que colocaria sua "cara no fogo" pela inocência de Milton Ribeiro. Mesmo assim, no dia 28 de março, Ribeiro pediu exoneração e deixou o comando do ministério.

A crise no MEC se intensificou depois que o jornal O Estado de S. Paulo revelou que o FNDE, comandado por Marcelo Ponte, um ex-assessor do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), ignorou alertas da área técnica do órgão e deu continuidade a um processo de licitação para a compra de ônibus escolares com indícios de sobrepreço.

Após a revelação, o governo reduziu o preço que seria pago pelos veículos, mas o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que o processo seria suspenso até que o caso fosse analisado pelo órgão. Inicialmente, o governo estava disposto a pagar até R$ 2.045 bilhões, mas acabou diminuindo o valor para R$ 1,5 bilhão.

Em meio a esse contexto de denúncias, a oposição passou a coletar assinaturas para a instalação da CPI. São necessárias as assinaturas de 27 senadores (o equivalente a um terço do total) para que o requerimento possa ser encaminhado à Presidência do Senado. Nos bastidores, o governo se empenha para evitar que a oposição obtenha as assinaturas

Além disso, é preciso que haja a determinação de pelo menos um fato determinado a ser investigado e que haja disponibilidade orçamentária para custear os trabalhos da comissão.

Quais acusações seriam investigadas?

De acordo com o requerimento para instauração da CPI, pelo menos oito crimes seriam investigados pelos senadores caso a comissão entre em funcionamento: peculato (quando um servidor se apropria de um bem público em proveito próprio); emprego irregular de verbas; corrupção passiva e ativa; prevaricação (quando um servidor público retarda ou deixa de cumprir suas obrigações em benefício próprio); advocacia administrativa; tráfico de influência; e usurpação de função pública.

O requerimento inclui como possíveis investigados o ex-ministro Milton Ribeiro e o presidente Bolsonaro.

Ainda de acordo com o requerimento, o prazo para a conclusão dos trabalhos é de três meses que podem ou não ser prorrogados.

Ao final do prazo estipulado, o relator ou relatora da CPI deverá entregar um relatório que pode ou não sugerir o indiciamento das pessoas consideradas responsáveis pelos crimes investigados. O relatório é depois entregue ao Ministério Público, a quem cabe abrir os eventuais processos criminais.

'Pacheco assumiu a presidência do Senado com apoio de Bolsonaro, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e até de partidos de esquerda'

Início da CPI depende de Pacheco

Apesar das assinaturas, o início do funcionamento da CPI depende do aval de Rodrigo Pacheco. Em 2021, ele hesitou para autorizar a abertura da CPI da Covid e só determinou o início dos trabalhos da comissão após uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na quinta-feira (7/03), Pacheco evitou se posicionar sobre o mérito do pedido de abertura de CPI sobre o MEC. Segundo ele, é preciso que fique claro qual é o "fato determinado" que justifique a instauração da comissão.

"Os critérios de CPI [são] assinaturas, o fato determinado, o orçamento previsto. Então, quando se exige a existência de fato determinado, há um crivo, sim, da presidência [do Senado] de se entender se aquele fato determinado deve justificar uma CPI ou não. Então, há esse critério, sim. [Não é] qualquer fato. Tem que ter um fato que justifique uma CPI", disse Pacheco. 

BBC Brasil

Em destaque

EDITORIAL: A Verdade Venceu o Tempo – TSE Confirma Fraude à Cota de Gênero em Jeremoabo e Cassa Votos do PP

  TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL   AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL ELEITORAL (12626) N.  0600425-35.2024.6.05.0051  (PJe) –  JEREMOABO  –  BAHIA   R...

Mais visitadas