sexta-feira, abril 08, 2022

Alemanha colhe indícios de envolvimento russo em atrocidades




Reportagem da revista "Der Spiegel" aponta que serviço de inteligência alemã interceptou áudios de soldados russos discutindo assassinato de civis ucranianos. Fonte do governo, por sua vez, cita imagens de satélites.

Uma reportagem da revista alemã Der Spiegel desta quarta-feira (07/04) revela que o Departamento Federal de Investigações da Alemanha (BND), a agência alemã de inteligência, interceptou mensagens de rádio de tropas russas discutindo o assassinato de civis na cidade ucraniana de Bucha.

As imagens de civis mortos nas ruas da pequena cidade, a 37 quilômetros de Kiev, chocaram o mundo. Bucha foi invadida por tropas russas no início da invasão à Ucrânia, no final de fevereiro e permaneceu sob ocupação até a semana passada.

Segundo autoridades ucranianas, mais de 300 pessoas foram assassinadas pelos soldados russos, incluindo 50 civis que teriam sido executados. O episódio gerou condenação internacional e resultou em acusações de crimes de guerra contra Moscou.

A Rússia nega ter cometido as atrocidades, alegando sem provas que o massacre teria sido uma encenação por parte dos ucranianos. Várias organizações, no entanto, rechaçaram as alegações de Moscou.

Segundo a reportagem, as provas encontradas pelo BND incluem transmissões via rádio que correspondem à localização dos corpos, encontrados na principal avenida da cidade.

A Spiegel afirma que, em um dos áudios, um soldado diz a seus colegas que atingiu um ciclista. No mesmo local, um corpo foi encontrado ao lado de uma bicicleta. Haveria ainda gravações cuja origem seria mais difícil de determinar, o que sugere que ações semelhantes possam ter ocorrido em outras cidades ucranianas.

A reportagem diz que as provas foram apresentadas ao Bundestag (Parlamento alemão) nesta quarta-feira. A Spiegel, entretanto, não revelou a origem das informações publicadas. 

Imagens de satélite contradizem Moscou

A agência de notícias Reuters afirmou, citando fontes anônimas, que o governo alemão possuiria "indícios" de que a Rússia estaria envolvida no massacre, e que estes seriam imagens de satélite. Mas, segundo a Reuters, as transmissões de rádio não poderiam ser claramente atribuídas às tropas russas em Bucha.

"É verdade que o governo federal tem indícios de ações russas em Bucha", afirmou uma fonte à agência. "No entanto, essas descobertas em Bucha referem-se a imagens de satélite. As transmissões de rádio não podem ser claramente atribuídas a Bucha."

Nesta quarta-feira, o porta-voz do governo alemão, Steffen Hebestreit, disse que analises de imagens de satélites não comerciais mostravam que as vítimas estariam nas ruas de Bucha pelo menos desde o dia 10 de março.

"Evidências confiáveis demonstram que as Forças Armadas e de Segurança da Rússia foram enviadas para a região entre o dia 7 e 30 de março. Elas estiveram envolvidas no interrogatório de prisioneiros que foram posteriormente executados. Essas são as provas que temos", afirmou.

"As declarações feitas pela Rússia, de que estas seriam encenações, e que eles não seriam os responsáveis pelos assassinatos, portanto, não são consistentes, em nossa perspectiva."

Alemanha encaminha investigação

A ex-ministra alemã da Justiça Sabine Leutheusser-Schnarrenberger e o ex-ministro do Interior Gerhart Baum entraram com uma queixa-crime de 140 páginas contra a invasão da Ucrânia pela Rússia, junto a promotores públicos alemães.

Segundo Nikolaos Gazeas, advogado dos dois ex-ministros, ambos pedem a abertura de uma investigação sobre crimes de guerra contra autoridades russas, incluindo o presidente Vladimir Putin, além de uma série de membros das Forças Armadas do país.

Gazeas e disse que os promotores podem usar as informações obtidas pelo BND, divulgadas na reportagem da Spiegel, ao tomarem a decisão sobre a abertura de um inquérito. Os crimes relacionados na queixa-crime incluem ainda o ataque a uma usina nuclear e o bombardeio a um hospital e maternidade em Mariupol.

Promotores do Tribunal Penal Internacional (TPI) já deram início a uma investigação sobre possíveis crimes de guerra na Ucrânia. Segundo Gazeas, as investigações em jurisdições diferentes podem ser complementares. "A lei é a arma, nesse caso", disse o ex-ministro Baum, "e nós pretendemos usá-la".

Deutsche Welle

Como a Rússia busca substituir UE na venda de gás e petróleo

 




União Europeia é um dos melhores clientes de Moscou. Porém, após a invasão da Ucrânia, bloco busca se livrar deste parceiro comercial. Se os planos derem certo, a Rússia precisará urgentemente de novos compradores.

Por Arthur Sullivan

A Rússia é o maior exportador de petróleo e gás natural do mundo. De acordo com a Agência Internacional de Energia, 45% do orçamento russo em 2021 veio das receitas geradas por essas exportações. E a União Europeia (UE) é um dos melhores clientes dos russos.

No ano que terminou em outubro de 2021, a Administração de Informações sobre Energia dos Estados Unidos (EIA) afirmou que 49% do petróleo bruto e condensado russo foi exportado para países europeus da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Com relação ao gás natural, três quartos destas exportações foram para nações europeias neste mesmo período.

Apesar desta estreita relação comercial, a invasão da Ucrânia e as crescentes evidências de crimes de guerras levaram à UE a acelerar os planos de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis russos. No entanto, ainda não está claro quão rápido e em qual extensão países europeus como a Alemanha e Itália podem fazer isso.

Porém, se os planos da Comissão Europeia para atingir a independência dos combustíveis russos "bem antes de 2030" derem certo, a Rússia precisará urgentemente de novos clientes.

Mercados asiáticos

Moscou provavelmente precisará se concentrar em aumentar as vendas para países que não lhe impuseram sanções, como a China. O país asiático já é o maior cliente russo fora da Europa, adquirindo a maioria dos 38% do petróleo russo exportado para a Ásia e Oceania em 2021.

A Rússia é atualmente o segundo maior fornecedor de petróleo da China, atrás da Arábia Saudita, mas especialistas acreditam que um dos principais objetivos de Moscou é ultrapassar o país do Oriente Médio no mercado chinês.

"A dinâmica mais interessante da perspectiva do mercado de energia que veremos neste ano é como a Rússia tenta deslocar as relações comerciais de longa data do Oriente Médio para o Leste Asiático", avalia Fernando Ferreira, analistas de risco geopolítico da Rapidan Energy Group.

'Putin visitou Xi em fevereiro e firmou acordos para a venda de gás'

Outro alvo de Moscou deve ser a Índia. O país de 1,38 bilhões de habitantes é o terceiro maior consumidor de petróleo do mundo e depende principalmente das importações. O Iraque, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos são os maiores fornecedores do mercado indiano. Em 2021, a Rússia respondeu apenas por 2% das importações indianas.

A Índia não condenou a Rússia pela invasão da Ucrânia, e, em março e abril, aumentou significativamente a compra de petróleo russo. Como diversos países estão evitando e reduzindo as importações russas, as refinarias indianas virão uma oportunidade para conseguir bons descontos. De acordo com Margarita Balmaceda, pesquisadora associada do Centro Davis para Estudos Russos e da Eurásia da Universidade de Harvard, duas grandes refinarias indianas compraram recentemente uma carga de petróleo grande da Sokol depois dela ter sido rejeitada por vários países.

Há, porém, dúvidas sobre até que ponto a Índia e a China pode substituir a atual demanda europeia. Ferreira destaca que as relações comerciais entre o Oriente Médio e as nações asiáticas são cultivadas há décadas. "Ambos serão cautelosos em fechar completamente as portas aos países do Oriente Médio em favor dos barris russos".

O especialista acrescenta que outro problema será a capacidade da Rússia para comprar equipamentos e tecnologia necessários para a produção devido aos impactos das sanções.

Barreiras para a exportação de gás

Apesar destas dificuldades, será mais fácil para a Rússia achar compradores para seu petróleo do que para o gás, pois o país demanda de gasodutos para escoar o produto e sua capacidade de produção de GNL (gás natural liquefeito) ainda está muito aquém do a de seus concorrentes.

Aqui a China também é a maior aposta russa para substituir os mercados europeus. Em fevereiro, Pequim e Moscou anunciaram um contrato de 30 anos para a Rússia fornecer gás à China por meio de um novo gasoduto. Também foi acordado que as vendas serão feitas em euro.

Moscou investe ainda no Paquistão, onde assinou um contrato para construir um gasoduto para transportar GNL da cidade portuária Karachi até o norte do país. Como a vizinha Índia, o Paquistão não condenou a Rússia pela invasão da Ucrânia.

'Gasoduto da Sibéria para a China está em construção'

Balmaceda afirma que a retórica russa sobre mudar os volumes de exportação de gás do Ocidente para o Oriente não condiz com o que é verosímil. "Na realidade, esses projetos precisam de financiamento maciço, e se não houver financiamento, eles não saem do papel", acrescenta.

Segundo a especialistas, em teoria, a Rússia poderia construir a infraestrutura necessária para abastecer a China e a Índia, mas isso exigiria um alto investimento, algo que não parece realista dadas as perspectivas econômicas do país.

Para Ferreira, a única opção realista de mercado para o gás russo na Ásia é a China, por meio de gasodutos já existentes ou novos. "Isso vai demorar um pouco. Portanto, não há solução de curto prazo para o gás russo".

Perdendo poder

A longo prazo, Ferreira avalia que a Rússia deixará de ser um ator importante no mercado global de energia. "Eles deixarão de ser a potência energética que são atualmente. Não porque não tem recursos, mas porque simplesmente não terão acesso a mercados e tecnologias".

Balmaceda, porém, não tem tanta certeza se esse realmente será o futuro da Rússia. A especialista acredita que a energia russa pode voltar a ser uma opção para os mercados europeus, a menos que uma coalizão forte o suficiente de grupos de interesses contrários aos combustíveis fósseis russos – por exemplo, produtores de carvão, de GNL ou energias renováveis – possam convencer os políticos de ficarem longe da energia russa a longo prazo.

Ela cita o exemplo dos chamados custos irrecuperáveis – onde foi investido dinheiro que não pode ser recuperado – como um dos argumentos que algumas empresas podem usar como uma razão econômica para continuar importando gás da Rússia. Balmaceda também lembra que alguns países da Europa Central e Oriental, como Hungria e Sérvia, estão dispostos a continuar comprando gás russo.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro húngaro, Vikto Orbán, disse que a Hungria está disposta a atender as exigências de Vladimir Putin e pagar pelo gás importando do país em rublos. "São países relativamente pequenos, mas ainda assim é perturbador que isso esteja acontecendo", afirma Balmaceda.

Deutsche Welle

"Número de mortos cresce a cada dia", diz prefeito de Bucha




Destruição pode ser observada tanto dentro da cidade quanto nas vias de acesso que levam ao município.

Palco de matanças, cidade ucraniana tenta restabelecer infraestrutura básica após retirada russa. Em entrevista à DW, prefeito afirma que mais de 300 corpos de civis já foram encontrados na cidade.

Por Lilia Rzheutska

Na cidade de Bucha, a noroeste de Kiev, corpos de moradores baleados foram deixados na rua após a retirada do exército russo.

Além disso, também foram encontradas valas comuns com corpos que exibiam sinais de tortura. Diante das atrocidades, a Ucrânia acusou a Rússia de crimes de guerra.

A infraestrutura foi destruída, e muito vagarosamente a vida começa a voltar ao normal.

A Deutsche Welle conversou com o prefeito de Bucha, Anatolij Fedoruk, sobre o que aconteceu na cidade.

DW: Prefeito Fedoruk, como está a situação em sua cidade?

Anatolij Fedoruk: Pelo quarto dia consecutivo, os especialistas estão ocupados em rastrear os atos de sabotagem e remover as minas. Os serviços públicos estão restabelecendo a infraestrutura, especialmente o fornecimento de eletricidade, gás e água. Há também questões humanitárias que estamos cuidando.

Organizamos entregas de alimentos, remédios, produtos de higiene e ração animal. Como não há gás ou eletricidade, adquirimos mil botijões e mil fogões e montamos locais onde as pessoas podem preparar alimentos. Distribuímos os fogões e os botijões em áreas onde muitas pessoas vivem próximas umas das outras. Também nomeamos pessoas encarregadas de cozinhar.

Quantas pessoas viviam no município antes da guerra, especialmente em Bucha, e quantas vivem agora?

Bucha tinha 50 mil habitantes. Incluindo os vilarejos vizinhos, havia um total de 67 mil pessoas. Atualmente, há 3.700 moradores em Bucha, mas o número está aumentando lentamente, à medida que os trabalhadores dos serviços de emergência atuam para restaurar a infraestrutura. Nos outros vilarejos do município, a população diminuiu 30%.

Ontem, estive em Sdwyschywka. Lá, de 1.780 moradores, 760 permaneceram. Infelizmente, seis civis foram baleados por invasores russos. Os vilarejos ao norte de Kiev foram ocupados logo no primeiro ou segundo dia de guerra, então as pessoas não conseguiram fugir. Mas a população se apoiou mutuamente, distribuiu alimentos, remédios e, assim, sobreviveu à ocupação.

O número exato de mortos já é conhecido?

Até o momento, 320 civis [morreram]. Especialistas, criminologistas e investigadores estão agora examinando as vítimas. Mas o número de mortos cresce a cada dia. Corpos têm sido encontrados em propriedades privadas, parques. Lugares onde os corpos podiam ser enterrados durante pausas de bombardeios. As pessoas queriam enterrá-los para que não fossem comidos por cachorros. A cada dia vemos mais enterros improvisados nos vilarejos da nossa comunidade.

'Segundo o prefeito de Bucha, Anatolij Fedoruk, número de mortos aumenta a cada dia na cidade'.

As pessoas foram mortas por tiros ou por artilharia?

Quase 90% têm ferimentos de bala, portanto, não há ferimentos feitos por fragmentos [o que seria característico de artilharia].

As imagens das valas comuns são horríveis e chocaram o mundo. Quantos túmulos como esses foram encontrados em Bucha?

Três foram descobertos em Bucha: nas instalações de uma empresa de abastecimento agrícola, onde os invasores russos empilharam os corpos como lenha, de pessoas que estavam com as mãos atadas. E também nas ruas Woksalna e Jablunska, perto de uma casa de repouso para crianças, onde também foram encontradas pessoas feridas de bala e com as mãos atadas.

O senhor estava na cidade na época da invasão? E viu civis sendo baleados?

Tanto antes quanto durante a ocupação eu estava na cidade, como deveria ter estado. Pessoalmente, vi três casos em um único lugar.

Eu estava em uma propriedade privada onde ocorria um tiroteio nas proximidades. Isso foi na rua Lech Kaczynski. Neste local, havia um posto de controle da ocupação russa, e eles simplesmente atiraram em três carros.

Em um deles, havia um homem, sua esposa grávida e dois filhos. Somente o homem sobreviveu. Ele enterrou a esposa grávida em uma trincheira que os russos haviam cavado para proteger a si mesmos. Em vez de uma cruz, o homem colocou a placa do seu carro no local. Os corpos das crianças foram levados para a igreja e lá enterrados. Não sei se o homem ainda está vivo e qual é a sua situação agora.

Os crimes devem ser documentados, mostrando quem são as vítimas e como elas morreram? Há representantes do Tribunal Penal Internacional envolvidos?

Todas as agências internacionais e ucranianas relevantes estão envolvidas em descobrir os nomes de todas as pessoas que foram baleadas, especialmente para poder usar as evidências e levar os criminosos à Justiça.

Estão ocorrendo saques na cidade?

A polícia nacional patrulha todas as ruas, e não há saques. Devido ao que viveram, nossos cidadãos não podem sequer imaginar tal coisa.

Há estimativas preliminares de quantas casas foram destruídas?

Ao menos 112 residências foram completamente destruídas e não poderão ser reconstruídas. Outras 100 foram danificadas. Além disso, 18 prédios de apartamentos foram bastante danificados pela artilharia e também queimados. Dois deles, pré-fabricados, não poderão ser reparados. Posteriormente, especialistas vão dar mais detalhes sobre o que poderá ser restaurado e o que deverá ser demolido.

Qual é a gravidade da destruição da infraestrutura de Bucha?

A infraestrutura principal nos acessos à cidade e também dentro da própria cidade está quase que completamente destruída. No terceiro dia da guerra, os russos destruíram a subestação de energia que abastecia tanto a cidade quanto a ferrovia ucraniana. A subestação não poderá ser reconstruída, uma nova terá de ser erguida. Quanto ao abastecimento de água, a cidade tem uma certa peculiaridade porque os três distritos tinham três sistemas. A central não está funcionando, e os soldadores estão agora fechando buracos nos tubos causados por bombardeios.

Quanto tempo será necessário para restaurar a infraestrutura da cidade?

Estamos fazendo tudo o que podemos para que seja o mais rápido possível. Estávamos contando os dias até a libertação pelo exército ucraniano. É o mesmo agora, mal podemos esperar para que a cidade volte à vida. Estamos fazendo todos os esforços possíveis.

Muitas pessoas querem ir para casa. Quando elas poderão voltar para Bucha?

Atualmente, há um toque de recolher que vai vigorar até 7 de abril. O que será decidido depois, ainda não está claro. Mas aconselho os civis que não estão envolvidos nos trabalhos comunitários, médicos ou sociais a não retornarem até que uma decisão seja tomada. Isso vale especialmente para mulheres e crianças, já que ainda não há eletricidade, água ou gás na cidade.

Deutsche Welle

Sincericídios a granel




Por Merval Pereira (foto)

Lula e Bolsonaro, no afã de manter a polarização da campanha presidencial, jogam cada qual para seu núcleo radical de eleitores, abrindo mão, neste momento, de tentar ampliar o alcance de suas candidaturas. Lula entra em conflito com a classe média, retomando a tese da filósofa petista Marilena Chaui, que berrava: “Eu odeio a classe média”. Bolsonaro também assusta a classe média, que votou nele em peso em 2018, ao insistir na possibilidade de intervenção militar. Vamos por partes.

Lula se excedeu em sincericídios nos últimos dias, a começar pela exortação a seu pessoal da CUT para que tire “a tranquilidade de políticos”, cercando-os e às famílias em suas residências. Em resposta, vários parlamentares bolsonaristas mostraram suas armas, avisando que os petistas seriam recebidos à bala se tentassem essa intimidação. Quer melhor polarização do que essa? Com quem você fica: com aquele que se defende armado, seguindo a orientação de Bolsonaro, ou com os que, incentivados por Lula, cercarão a casa dos outros? Não há opção boa. Sem contar a bobagem desmoralizante de resolver a guerra da Ucrânia na mesa de um bar.
O ex-presidente também voltou a um tema delicado, que sempre atrapalhou os petistas. Segundo afirmou em evento da Fundação Perseu Abramo, a elite brasileira é “escravista”, e a classe média “ostenta um padrão de vida desnecessário”. Isso depois de ter jantado com representantes da elite do Judiciário que pagaram R$ 500 por pessoa e de ter tido um encontro reservado com o banqueiro André Esteves.

O relógio Piaget, com que foi fotografado recentemente, que Lula diz ter sido um presente que ganhou quando presidente, certamente é uma “ostentação”. Vale cerca de R$ 80 mil. Um presente desse valor não poderia ter sido aceito, segundo as normas do Código de Ética da Presidência da República.

Sobre a classe média, Lula esqueceu que foi graças a seu apoio que ganhou a Presidência em 2002, quando criou o personagem “Lulinha, Paz e Amor”, deixando de lado a radicalização do PT que assustara o mesmo eleitorado em 1989. Quando a filósofa Marilena Chaui fez sua crítica agressiva à classe média, Lula estava presente e riu muito das diatribes proferidas por ela. Aliás, Lula comemorou o último debate naquele ano, que já indicava sua vitória próxima, bebendo um vinho Romanée-Conti, ostentação de seu marqueteiro Duda Mendonça, num restaurante em Ipanema.

Outro sincericídio foi a defesa do direito ao aborto que “toda mulher deveria ter”. Há quem concorde, inclusive eu, mas com ressalvas que ele deveria ter colocado. Por exemplo ao aborto até seis meses de gestação, aprovado recentemente na Colômbia, inaceitável nos termos propostos. O feto já pode sobreviver fora do corpo da mãe àquela altura da gestação.

O presidente Bolsonaro, por sua vez, abusou de nossa paciência nos últimos dias, voltando a defender em público a intervenção militar. Mais uma vez, diante de oficiais-generais, atribuiu “às tropas” uma importância que elas não podem ter: “O mais importante ministério é o da Defesa, porque controla as tropas”. E qual a importância disso? “As tropas poderão fazer o país rumar à normalidade.” Dá bem a dimensão de um governo inoperante nas áreas cruciais de um país: educação, saúde, cultura.

Como não é a primeira vez que diz isso, e retomou o hábito de comemorar o dia 31 de março, classificando o golpe militar como salvador do país, que seria “uma republiqueta” sem ele, trata-se de uma obsessão perigosa para a democracia. Além de defender o golpe militar, Bolsonaro e família defendem também a tortura. O filho Zero Três, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que no início do governo dissera que bastava “um cabo e um soldado” para fechar o Supremo Tribunal Federal, debochou sadicamente da jornalista Míriam Leitão, torturada durante o regime militar.

Desde que saudou o torturador coronel Brilhante Ustra no microfone da Câmara, e não sofreu nenhuma sanção, Bolsonaro vem tentando criar um ambiente que favoreça um golpe militar. Volta a insistir, preparando o clima para a tentativa de impugnação de uma vitória de Lula na eleição presidencial. Colocando como vice seu mais recente ministro da Defesa, o general Braga Netto, Bolsonaro quer ter o controle das tropas. Usa os militares para fins políticos pessoais.

O Globo

O que é o Wagner Group, que enviou mercenários russos para guerra na Ucrânia




A inteligência militar britânica diz que 1.000 mercenários da empresa militar privada russa Wagner Group estão sendo enviados para o leste da Ucrânia.

O grupo tem atuado nos últimos 8 anos na Ucrânia, Síria e países africanos, e tem sido repetidamente acusado de crimes de guerra e abusos dos direitos humanos.

Como surgiu o Wagner Group?

Uma investigação da BBC sobre o Wagner Group apontou para o suposto envolvimento de um ex-oficial do exército russo de 51 anos, Dmitri Utkin. Acredita-se que ele tenha fundado o Wagner e dado o nome - seu próprio antigo nome de guerra.

Ele é um veterano das guerras da Chechênia, ex-oficial das forças especiais e tenente-coronel do GRU, o serviço de inteligência militar da Rússia.

O Wagner Group entrou em ação pela primeira vez durante a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, diz Tracey German, professora de conflito e segurança do King's College de Londres.

"Acredita-se que seus mercenários sejam alguns dos 'homenzinhos verdes' que ocuparam a região", diz ela. "Cerca de 1.000 mercenários apoiaram as milícias pró-Rússia que lutavam pelo controle das regiões de Luhansk e Donetsk.

"Comandar um exército mercenário é contra a constituição russa", acrescenta ela.

"No entanto, Wagner fornece ao governo uma força que é inegável. Wagner pode se envolver no exterior e o Kremlin pode dizer: 'Não temos nada a ver com isso'."

Samuel Ramani, membro associado do Royal United Services Institute, diz que o Wagner recruta principalmente veteranos do exército que precisam pagar dívidas: "Eles vêm de áreas rurais onde há poucas outras oportunidades para ganhar dinheiro".

Quem financia o Wagner Group?

Alguns especialistas sugerem que a agência de inteligência militar da Rússia, GRU, secretamente financia e supervisiona o Wagner Group.

Fontes mercenárias disseram à BBC que a base de treinamento deles em Mol'kino, no sul da Rússia, fica ao lado de uma base do exército russo.

A Rússia negou consistentemente que Wagner tenha qualquer conexão com o Estado.

A investigação da BBC que identificou as ligações de Utkin com o Wagner Group também o liga a Yevgeny Prigozhin, o oligarca conhecido como "chef de Putin" - assim chamado porque ele passou de dono de restaurante a fornecedor do Kremlin.

Muitas das empresas de Prigozhin estão atualmente sob sanções dos EUA pelo que chamam de "influência política e econômica maligna em todo o mundo". Eles sempre negaram qualquer ligação com o Grupo Wagner.

'Uma foto de novembro de 2011 mostra Yevgeny Prigozhin auxiliando Vladimir Putin em um banquete perto de Moscou'

Onde o Grupo Wagner operou?

Em 2015, o Wagner Group começou a operar na Síria, lutando ao lado de forças pró-governo e protegendo campos de petróleo.

Atua na Líbia desde 2016, apoiando as forças leais ao general Khalifa Haftar. Acredita-se que até 1.000 mercenários Wagner participaram do avanço de Haftar sobre o governo oficial em Trípoli, em 2019.

Em 2017, o Wagner Group foi convidado para a República Centro-Africana (RCA) para proteger minas de diamantes. Também há relatos de que está trabalhando no Sudão, guardando minas de ouro.

Em 2020, o Tesouro dos EUA disse que o Wagner Group também estava "agindo como uma cobertura" nesses países para as mineradoras de Prigozin, como M Invest e Lobaye Invest - e as colocou sob sanções.

Mais recentemente, o Wagner Group foi convidado pelo governo do Mali, na África Ocidental, para fornecer segurança contra grupos militantes islâmicos. Sua chegada em 2021 influenciou a decisão da França de retirar suas tropas do país.

Samuel Ramani diz que o Wagner Group tem cerca de 5.000 mercenários no total operando em todo o mundo.

Quais crimes Wagner supostamente cometeu?

As Nações Unidas e o governo francês acusaram os mercenários Wagner de cometer estupros e roubos contra civis na República Centro-Africana, e a União Europeia impôs sanções a eles por isso.

Em 2020, os militares dos Estados Unidos acusaram os mercenários de Wagner de terem plantado minas terrestres e outros artefatos explosivos improvisados ​​dentro e ao redor da capital líbia, Trípoli.

"O uso imprudente de minas terrestres e armadilhas pelo Wagner Group está prejudicando civis inocentes", disse a contra-almirante Heidi Berg, diretora de inteligência do Comando da África do Exército dos EUA.

O que o Grupo Wagner está fazendo na atual guerra da Ucrânia?

Nas semanas que antecederam a invasão da Ucrânia pela Rússia, acredita-se que os mercenários do Wagner Group realizaram ataques de "bandeira falsa" no leste da Ucrânia para dar à Rússia um pretexto para atacar, diz Tracey German.

Agora, mensagens apareceram nas redes sociais russas recrutando mercenários e convidando-os para "um piquenique na Ucrânia".

No entanto, também há outros grupos mercenários, como o The Hawks.

Candace Rondeaux, professora de estudos russos, eurasianos e do Leste Europeu na Arizona State University, diz que isso pode marcar uma tentativa de se afastar do nome Wagner porque "a marca está manchada".

BBC Brasil

A nova ordem




Por Hubert Alquéres (foto)

Ainda não sabe como e quando terminará a guerra de Vladimir Putin na Ucrânia, mas já há uma certeza: o conflito representa o fim de uma era e o marco de uma nova ordem mundial. A queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética geraram um mundo unipolar com forte hegemonia dos Estados Unidos. Foram tempos de intensa globalização da economia, com o advento das grandes cadeias produtivas globais e o fortalecimento dos valores liberais.

A guerra da Ucrânia reduziu a pó a premonição do cientista político Francis Fukuyama do fim da história e de uma ordem que seria eterna. O conflito instalou um momento disruptivo, com o restabelecimento da bipolaridade e sua consequente divisão do mundo em dois blocos geopolíticos. De um lado, a aliança norte-atlântica constituída pelos EUA e a Europa Ocidental e, de outro, o bloco eurasiano, a partir do eixo Pequim-Moscou, com tendências de se expandir para a Índia, Turquia e Irã.

O conflito bélico na Ucrânia, o primeiro envolvendo dois países europeus pós segunda guerra mundial, é a parte quente de uma nova guerra-fria. Mas há aqui uma diferença fundamental em relação à bipolaridade do século passado.

Esta se dava entre dois sistemas antagônicos – capitalismo versus comunismo – e o alinhamento geopolítico se dava por princípios comuns e afinidades ideológicas. A guerra-fria contemporânea se apoia fundamentalmente no terreno econômico. A corrida principal não é nuclear ou bélica, é econômica e tecnológica. Pode até haver valores em jogo, uma vez que a maioria dos países da aliança atlântica tem regimes liberais, enquanto os da eurásia são iliberais, quando não ditatoriais.

Mas a China não tem a pretensão de exportar seu modelo totalitário para outros países, ao contrário dos tempos da antiga União Soviética, e sua economia é tão capitalista quanto a dos Estados Unidos, ainda que sob a forma de capitalismo de Estado.

O fato da principal batalha ser em torno da hegemonia econômica e tecnológica traz dúvidas sobre a natureza da aliança entre a Rússia e a China, reafirmada nos jogos olímpicos de inverno de Pequim. Ainda não está claro se ela é estratégica e inabalável, como a definiu Xi Jinping ou uma aliança tática, conforme considera Ronaldo Carmona, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Isso explica nuances entre os dois países mesmo em relação à guerra na Ucrânia.

A China não condenou a invasão russa, mas defende a solução pacífica para o conflito. O pano de fundo é que a China é inteiramente integrada à economia mundial, responsável por um quinto do PIB do mundo, e beneficiou-se do processo de globalização.

O segundo grande fenômeno da nova ordem econômica mundial é a desglobalização, que antecede a guerra. Vide o Brexit e a eleição de Donald Trump. A pandemia evidenciou que a dependência das cadeias produtivas globais de insumos médicos se torna crítica em momentos de grave crise sanitária, afetando a soberania dos países.

A guerra da Ucrânia expôs a olhos nus a dramaticidade da ultra dependência dessas cadeias globais. A alta do preço do petróleo e a dependência da Rússia colocou na pauta a necessidade dos países da Europa Ocidental encontrar e investir em fontes energéticas alternativas. Mesmo no terreno militar, o conflito está levando a uma redefinição da “divisão de trabalho” vigente desde a guerra-fria passada.

Os países dessa parte do continente pouco investiam em termos bélico-militar porque o poderio dos Estados Unidos servia de “elemento de contenção”, conceito formulado em 1947 pelo diplomata americano George Kennan. Donald Trump, como presidente, reclamava do fato de seu país arcar com os custos da OTAN, exigindo que os países europeus investissem na área militar. Com a guerra da Ucrânia, a Alemanha, a França e outros países pretendem aumentar seu orçamento militar, por uma questão de segurança nacional.

Como observou Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, “as punições econômicas à Rússia levarão ao desmoronamento da globalização” e vão acelerar o processo de desmontagem das cadeias produtivas globais. A China, por exemplo, já está investindo pesado para desenvolver seus próprios chips para não depender de outros países.

A desglobalização consiste exatamente em os países diminuírem a interdependência e terem mais autonomia em áreas estratégicas ou que são vulneráveis. No caso brasileiro, essa demanda ficou evidenciada em relação aos fertilizantes, face nossa dependência da Rússia. O fator custo de produção foi determinante para a formação das cadeias globais. Agora, ele não será o único. Países tendem a aceitar custos de produção maior, desde que os assegurem por meio da produção interna.

Na Nova Ordem Mundial em gestação faz todo sentido a afirmação do diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero: “Pode-se chegar a um mundo em que haja dois sistemas de pagamento, dois sistemas bancários e mesmo dois sistemas de internet separados, o que atingiria a globalização no seu âmago”.

Com a economia se transformando em arma geopolítica não estamos muito distantes do quadro descortinado por Ricúpero. O Irã já criou seu sistema de Internet. Mesmo o dólar como moeda única do sistema econômico mundial pode perder esse status. Países como a China, a Rússia, a Índia e até mesmo a Arábia Saudita – aliada histórica dos Estados Unidos – já utilizam outra moeda que não a americana nas relações comerciais interpaíses da eurásia.

A bipolaridade e a desglobalização trazem novos desafios para o Brasil. Se de um lado nos identificamos com os valores do mundo ocidental, a China é o nosso principal parceiro comercial. O pragmatismo responsável – pilar fundamental da nossa cultura diplomática – aconselha a não se alinhar com nenhum dos dois blocos e a entender que é de nosso interesse um mundo multipolar em um ambiente de paz.

Jornal Metrópoles

O silêncio do miliciano e suas consequências




Por José Nêumanne* (foto)

Daniela, irmã de Adriano, acusado pela polícia de chefiar milícia e contratação de assassinatos e herói popular segundo o presidente e seus filhos, delata trama palaciana para calá-lo

Daniela Magalhães da Nóbrega, irmã do ex-capitão da PM-RJ Adriano, teria contado a uma tia por telefone, segundo áudio obtido em grampo telefônico pela polícia fluminense, que foram negociados cargos no Palácio do Planalto em troca do silêncio definitivo daquele que a famiglia palaciana sempre tratou como herói. Segundo reportagem de Ítalo Nogueira, que motivou a manchete do UOL na quarta-feira 6 de abril, o objetivo da conjura assassina seria eliminar a eventualidade de o criminoso expulso da PM relatar suas lembranças das lambanças no lar presidencial. Não há detalhes nem muito menos provas da acusação, mas, por si só, ela é de uma gravidade enorme, já que muito já se sabe e nada é preciso para comprovar, no mínimo, as sórdidas relações entre as partes expostas.

Em 2003, o primogênito de Jair, Flávio, encaminhou moção de louvor ao popular meganha. Em 27 de outubro de 2005, o pai dele, então deputado federal, Jair Bolsonaro, defendeu da tribuna o à época tenente PM-RJ três dias após ter sido ele condenado a 19 anos de prisão por tribunal do júri pela participação no assassinato, um ano antes, de um flanelinha que, à véspera da execução, denunciara milicianos “O tenente, coitado, um jovem de vinte e poucos anos, foi condenado, mas não foi ele quem matou”, disse o parlamentar, registram os anais do Congresso. “Um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar”, completou o capitão com a imprecisão de hábito na tessitura de suas versões. O discurso teve como fonte única o advogado do oficial durante a sessão do júri, à qual ele fizera questão de comparecer.

Em 9 de setembro daquele ano, o presidiário Adriano recebeu na cela a visita do deputado estadual Flávio Bolsonaro, que o condecorou com a mais valiosa medalha da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – Alerj. Absolvido no processo por homicídio, o sempre suspeito de trabalhar para bicheiros foi solto um ano depois. Na operação dita Os Intocáveis, foi acusado de comandar a milícia da favela de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio, e de integrar o Escritório do Crime, formado por assassinos de aluguel. A serviço deste o ex-sargento PM-RJ Ronny Teles, acusado de ter executado a vereadora Marielle Franco, desafeta do clã, atuava num quiosque nas proximidades do Vivendas da Barra, condomínio de luxo onde o pistoleiro de aluguel morava. Vizinho de ilustres como Jair e Carlos, vulgo 02, ou seja, o segundo filho do atual presidente da República. O mano Flávio, no exercício de mandato no Senado Federal, admitiu publicamente que a mãe de Adriano, Raimunda, e a irmã, Daniela, eram remuneradas em seu gabinete, por decisão de certo Fabrício Queiroz.

No histórico das relações entre a PM-RJ e o clã presidencial o mais antigo sócio é o subtenente, que havia servido com o pater familias na Brigada Paraquedista da Vila Militar do Exército no Rio, em 1984. Gestor autorizado pelo então deputado estadual, o elo visível depositou R$ 94 mil em contas da primeira-dama, Michele. A origem do dinheiro nunca foi esclarecida e, sempre que questionado a respeito, o cônjuge usou a ocasião como pretexto para disparar impropérios em cascata.

Isolado e cercado num sítio em Esplanada, no litoral da Bahia, Adriano foi morto pelas PMs fluminense e baiana em operação conjunta, em fevereiro de 2020. Sempre mudo a respeito de assuntos polêmicos, Flávio manifestou-se. Em mensagem no Twitter, chegou a sugerir que Adriano foi “brutalmente assassinado” e pediu que fosse impedida a cremação do corpo e as circunstâncias da morte, esclarecidas pelas autoridades. “DENÚNCIA! Acaba de chegar a meu conhecimento que há pessoas acelerando a cremação de Adriano da Nóbrega para sumir com as evidências de que ele foi brutalmente assassinado na Bahia. Rogo às autoridades competentes que impeçam isso e elucidem o que de fato houve”, escreveu, então.

O áudio de que dispõe a polícia fluminense, segundo o furo do UOL, é mais uma oportunidade para as autoridades, afinal, cumprirem o que Sua Excelência exigiu, com propriedade. Daniela pode ter mentido, mas, nessa hipótese, não terá sido a única. Nem terá contado a maior patranha desse festival de lorotas sangrentas. E o mistério prossegue em dúvidas nunca esclarecidas. Que prestígio político, perícia de ofício ou talento tarefeiro teriam Raimunda e Daniela Nóbrega para desempenharem qualquer função de utilidade no gabinete de Flávio? Por que até hoje, o presidente e o filho senador nunca justificaram à Nação a defesa veemente que sempre fizeram do colega capitão contra as evidências das investigações policiais e do Ministério Público e da lógica plana dos fatos? Por que o general Braga Netto, futuro candidato a vice-presidente na chapa presidencial do chefe de governo e da família, só combateu o tráfico de entorpecentes no Rio, deixando de lado os milicianos, concorrentes daqueles?

O que as autoridades encarregadas da segurança pública planejam fazer para evitar que a revelação do áudio de Daniela cause o efeito funesto da queima de arquivo, vitimando, como sempre, a parte mais frágil, ela própria? Quais atitudes a elite dirigente, política e econômica toma ou adotará para evitar que o rastilho de pólvora ora ativado faça a Nação explodir sobre os próprios pés de barro? Que moral restará ao poder judicante se continuar fazendo papel de cego de feira e surdo na ópera diante do clima de violência generalizada que assola o País neste momento de impunidade legalizada? Se tudo for pelos ares de que bolsos poderão arrancar os milhões que exigem para o sustento da politicalha de camarinha?

*Jornalista, poeta e escritor

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