segunda-feira, fevereiro 07, 2022

Amizade tem limites

 




Na ida à Rússia, Bolsonaro busca fotos para usar na reeleição e esfregar na cara de Biden

Por Eliane Cantanhêde (foto)

A viagem do presidente Jair Bolsonaro à Rússia, entre os dias 14 e 17, é arriscada e pode se confirmar inconveniente sob vários ângulos: será no pior momento, em meio à crise da Ucrânia, e Bolsonaro tem um longo histórico de fiascos em suas investidas internacionais, por falta de gosto, talento, conhecimento, instrumental e... de fazer o dever de casa.

Não foi à toa que os EUA pediram ao presidente que adiasse a visita, já que a ameaça russa de invadir a Ucrânia se transformou num confronto entre Washington e Moscou, desde que a Europa faz corpo mole e mais ainda quando a China sela uma “amizade sem limites” com a Rússia, tentando equilibrar melhor sua fragilidade política com sua força econômica.

E o Brasil com isso? Presidentes só se metem em vespeiros assim quando têm peso para mediação ou os interesses internos se sobrepõem. O Brasil é peça miúda num tabuleiro de gigantes, distante do conflito e vai ladeira abaixo pela política externa, a gestão da pandemia e do ambiente e pelas próprias viagens de Bolsonaro, desde que desperdiçou preciosos minutos de discurso em Davos no início do governo.

A orientação da diplomacia para Bolsonaro é ter foco no bilateral e nas convergências com a Rússia, que divide assentos com o Brasil nos Brics, no G-20 e no Conselho de Segurança da ONU, e “encapsular” o tema Ucrânia: falar pouco e manifestar opinião menos ainda. Oremos!

Basta decorar algumas linhas: o Brasil se mantém fiel à resolução 2202 do Conselho de Segurança, a favor das vias diplomáticas, não militares. No mais, sorrisos, fotos, acertos bilaterais, preces e torcida para que ele não invente fazer uma gracinha ou dar uma de machão.

Na agenda bilateral, desenhada em idas à Rússia dos ministros Bento Albuquerque (MME) e Tereza Cristina (Agricultura), além do almirante Flávio Rocha (Assuntos Estratégicos), estão comércio, energia, fertilizantes, agricultura e defesa.

Bolsonaro, porém, busca fotos. Uma para esfregar na cara de Joe Biden, outra para tentar neutralizar na campanha à reeleição a pizza nas ruas de Nova York, os discursos na ONU, a ausência na COP 26, o fiasco no G-20, o vexame de ignorar o novo chanceler da Alemanha, as desfeitas com a França, os ataques à China...

Um constrangimento a mais é que Bolsonaro, que dará uma esticada ideológica à Hungria, não é vacinado contra a covid19 e a ideia do Cerimonial de Vladimir Putin pode ser um tapete de uns 20 metros no brinde entre os dois. Pode resolver o problema do vírus, não as fotos para Washington e para a campanha brasileira.

O Estado de São Paulo

Quem vai até o fim com Bolsonaro?




POR GILBERTO MENEZES CÔRTES

A história está à disposição de todos para que qualquer tentativa de repetição não a transforme em farsa. O ano de 2022 é muito simbólico para o Brasil. O cidadão/contribuinte/eleitor vai decidir em outubro (em 1º e/ou 2º turno) quem governará o país nos próximos quatro anos. Completam 200 anos a Independência do Brasil de Portugal, proclamada em 7 de setembro de 1822 por Pedro I, filho de D. João VI, que comandava o reino de Portugal, Brasil e Algarves, e o centenário da Semana de Arte Moderna, que sacudiu a chamada “Paulicéia Desvairada”, movimento de artistas e intelectuais da época que visava criar uma identidade nacional do ponto de vista cultural. Como a cultura não está nas prioridades ou no raio de alcance do governo Bolsonaro, como indica o quilate dos gestores que nomeou para a área cultural, de resto tratada a ferro e fogo, segundo o conceito do falecido guru, o “terraplanista” Olavo de Carvalho, de que a guerra ideológica faz do “marxismo cultural” o seu Cavalo de Troia, restaria alguma luz sobre o bicentenário da Independência.

Entretanto, se as pesquisas eleitorais não indicarem, até o fim de março, uma opção mais confortável para o presidente Jair Bolsonaro que a possibilidade de derrota para Lula ainda no 1º turno, ou derrota certa no 2º - o que poderia levar o atual candidato à reeleição a tentar se blindar politicamente contra uma enxurrada de processos se perder o cargo de presidente, mediante a renúncia ao cargo majoritário em troca de uma eleição garantida para o Senado Federal ou a Câmara dos Deputados, onde teria imunidade -, em 31 de março o presidente da República promoverá, como já disse, a troca de 11 ministros atuais que deverão concorrer a cargos de governador (três em princípio: Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo, Onyx Lorenzoni, ao do Rio Grande do Sul, e João Roma, ao da Bahia; os demais disputariam vaga no Senado ou na Câmara). E o mês da Independência será tomado pela campanha.

Considerado “um mau soldado” pelo ex-presidente Geisel - um general cioso da hierarquia e da disciplina nas Forças Armadas, que demitiu, por insubordinação à orientação de abertura política de seu governo, o general Ednardo D’Ávila Mello, comandante do II Exército (SP), após as mortes, por torturas nas celas do DOI-CODI (defendidas pelo deputado e presidente), do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho; o ministro do Exército, general Sylvio Frota; e o ministro chefe da Casa Militar, general Hugo Abreu, da Brigada de Paraquedista, arma de Bolsonaro. Geisel deu a Abreu a opção de pedir demissão. Reformado como capitão, Jair Messias Bolsonaro nunca teve posto de comando. Quando muito, liderava um pelotão. Se chegasse a coronel poderia comandar Regimento. Nas três patentes de general, com uma estrela, poderia comandar uma brigada; com duas, uma divisão de Exército e, com três estrelas, uma das regiões militares do país. Se ficasse no Exército e galgasse cargos de major para cima poderia ter frequentado cursos da Escola de Comando de Oficiais e a graduação na Escola Superior de Guerra.

Em todas as etapas participaria de reuniões de Estado-Maior, nas quais se discute amplamente uma situação para se ver as possibilidades de sucesso ou fracasso de determinação ação. Como não foi burilado pela responsabilidade compartilhada, viu-se nas reuniões ministeriais (como a famosa de 22 de abril de 2020) porque faltavam método e pauta, coisa corriqueira até em uma reunião de condomínio. E no longo período de mandato parlamentar, iniciado como vereador no Rio de Janeiro (1998 a 1991, quando, eleito em outubro de 1990, assumiu a cadeira de deputado federal pelo RJ), jamais pensou grande. Fez carreira política, defendendo interesses corporativos das forças armadas, PMs e bombeiros, com extensão a milicianos egressos das forças auxiliares. Além de nomear parentes, usou o apartamento funcional para “comer gente (sic)”.

Afronta aos nordestinos

Se tivesse sido lapidado nas Forças Armadas ou na vida política, Bolsonaro, que se julga um diamante bruto, embora tenha mais o segundo que o primeiro predicado, não teria cometido o deslize mortal esta semana em sua “live” das quintas-feiras quando desdenhou da figura do Padre Cícero. Até os brasileiros mais ou menos letrados e especialmente todos os nordestinos sabem que Padre Cícero (Cícero Romão Batista), nasceu no Ceará, no Crato, e viveu e morreu em Juazeiro do Norte, no sertão cearense, onde foi erguida gigantesca estátua de concreto, ponto de veneração e romarias. Com 27 metros de altura, fora o pedestal, a imagem do santo de devoção dos nordestinos, é monumental. Mas fica não só atrás da estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro (38 metros de altura, com o pedestal), como das estátuas do Cristo em Elói Mendes (MG), construída em 2007, com 39 metros de altura, a de Nossa Senhora do Carmo, inaugurada em 2018, no Crato, também no sertão cearense, com 45 metros, superada pelos 56 metros de altura da imagem de Santa Rita de Cássia, inaugurada em 2010 em Santa Cruz (RN). A maior estátua do Brasil, réplica quase perfeita da Estátua da Liberdade, que é o símbolo das lojas Havan, surgida em Brusque (SC), com a sósia miniatura da original na entrada do Rio Hudson, em Nova Iorque, foi instalada por Luciano Hang, o empresário amigo de Bolsonaro, no estacionamento de sua mega loja no município de Barra Velha (SC), com 57 metros de altura, incluindo o pedestal. Este monumento o presidente deve ter conhecido na sua última ida ao estado barriga verde, no fim do ano passado.

Para piorar a gafe, se não bastasse o desrespeito e a falta de informação para falar de um “santo” venerado pelos nordestinos em geral, Bolsonaro indagava ao vivo se alguém sabia em “qual cidade de Pernambuco estava a estátua de Padre Cícero?”. Diante do silêncio constrangedor no estúdio, arrematou: “um monte de paus-de-arara (sic) por aqui e ninguém sabe em que cidade fica Padre Cícero, pô? Juazeiro do Norte, parabéns aí. Ceará, desculpa aí. Ceará", declarou, sem corar, o presidente. Se fosse mais culto e preparado, teria estudado o que ia falar. A menção ao Padre Cícero veio na “live” para explicar o decreto da semana anterior, quando chegou a anular 122 antigos decretos de luto pela morte de personalidades brasileiras (em seus mais de três anos de mandato, Bolsonaro, que pouco demonstrou empatia pelos mais de 630 mil mortos pela Covid-19, só decretou luto oficial duas vezes: pelas mortes do ex-vice-presidente Marco Maciel, em junho de 2021, e do guru bolsonarista Olavo de Carvalho, em janeiro último). Diante das reclamações de aliados políticos do Nordeste, o presidente voltou atrás e tentou se explicar. O tiro saiu pela culatra. Ou como se diz no Nordeste, “depois do tombo, o coice” - da cavalgadura no ginete desastrado.

A emenda foi ofensiva aos cearenses e aos nordestinos em geral. Se tivesse pensado melhor, não iria jogar uma bola fora menosprezando a população dos nove estados onde vivem 54 milhões dos 214 milhões de brasileiros e onde estão aptos a votar 42 milhões de eleitores. Os caciques políticos aliados ao governo alertaram o presidente para não bulir com Padre Cícero, pois é justamente no Nordeste, segundo a pesquisa PoderData do site Poder 360 desta semana, onde Lula tira a maior vantagem sobre Bolsonaro (51% a 26%). É no Nordeste e junto às mulheres (44% preferem Lula, o dobro das que declaram intenção de votar em Bolsonaro) que estão as maiores adesões ao ex-presidente da República. A Bahia (que não visitou nas chuvas de janeiro) é o estado mais populoso as região (15 milhões) e com mais eleitores, seguido por Pernambuco, Ceará e Maranhão. Luís Inácio da Silva, ainda menor de idade, veio de Garanhuns (PE) com a família para São Paulo, a bordo de um caminhão “pau-de-arara”. O caminhão tinha uma lona levantada na carroceria, sob a qual viajavam retirantes no fim dos anos 50. Devido aos riscos e a inúmeros acidentes com mortes, este tipo improvisado de transporte, ainda comum das áreas rurais, foi proibido de circular nas estradas federais e estaduais desde o fim dos anos 70.

Se Jair Bolsonaro tivesse uma assessoria decente e não improvisada, como é seu modo de ‘governar’, que mais parece as manobras de “zerinho” (rodopio na pista), que fez ao volante de um carro no parque Beto Carrero, em Penha (SC), poderia ter se inspirado na famosa viagem que o então presidente general Emílio Garrastazu Médici fez em julho de 1970 ao Nordeste, quando pronunciou na reunião de encerramento do Conselho da Sudene, em 6 de julho um copioso e comovente discurso sobre o homem do Nordeste. Médici, que, depois de comandar o III Exército (o de maior contingente do país, na fronteira com Uruguai, Argentina e Paraguai, os participantes, com o Brasil, da maior carnificina da América do Sul, no século 19 (a “Guerra contra o Paraguai”), foi chefiar o Serviço Nacional da Informações no governo do marechal Costa e Silva, 2º presidente do regime militar, a quem sucedeu, após a junta dos três ministros militares (a “junta dos três patetas”, segundo o jornalista Elio Gaspari) ocupar o poder por algumas semanas diante do AVC de Costa e Silva, era um homem de poucas palavras. Mas se cercou de pessoas competentes, sobretudo na secretaria de Comunicação, comandada pelo então coronel Otávio Pereira da Costa, herói da FEB. O general alagoano, que morreu em novembro do ano passado, com 100 anos, tinha entre seus auxiliares jornalistas de quilate e especialistas em comunicação, como Carlos Alberto Rabaça. Claro que o discurso não era da lavra de Médici, que não falava de improviso em público. E muita gente atribui, erradamente, a frase famosa de Médici de que “A economia vai bem, mas o povo vai mal” como tendo sido pronunciada nesta reunião da Sudene. Não é verdade. Ela foi dita quatro meses antes, em 10 de março de 1970, na abertura do ano letivo dos cursos da Escola Superior de Guerra, na Urca. Bolsonaro nunca cursou a ESG. Nesta data, em março, o país já acumulava taxas expressivas de crescimento do PIB e o teor completo da frase de Médici, que comemorava os 20 anos da criação da escola pelo ex-presidente Marechal Eurico Gaspar Dutra, e procurou traçar um desenho do Brasil futuro (tinha cinco meses de governo) foi que, segundo a edição do JORNAL DO BRASIL de 11 de março de 1970, ao examinar os esforços e os sucessos obtidos nos últimos seis anos pelos três governos militares, chegou à "pungente conclusão de que a economia pode ir bem, mas a maioria do povo ainda vai mal". Na Sudene, Médici abriu o discurso dizendo: "Aqui vim para ver, com os olhos da minha sensibilidade, a seca deste ano, e vi todo o drama do Nordeste. Vim ver a seca de 70, e vi o sofrimento e a miséria de sempre”. Esse “vim ver e vi” passou a ser reiterado em cada parágrafo ou frase. Ao final do discurso, Médici lançou a ideia que os militares pensaram ser a redenção dos nordestinos - a criação de programas “de colonização em zonas úmidas do Nordeste, do Maranhão, do Sul do Pará, do Vale do São Francisco e do Planalto Central, de forma a absorver as populações de áreas consideradas totalmente desaconselháveis à vida humana”.

Foi o começo da destruição das florestas tropicais e equatoriais do Maranhão, Sul do Pará e Norte de Mato Grosso. Os assentamentos, que seriam implantados à margens da Transamazônica e da futura Perimetral Norte, fracassaram. Mas abriram caminho para a extração de madeiras, a destruição de florestas e a explosão de Serra Pelada, quando a descoberta de pepitas de ouro, já no governo Geisel, atraiu milhares de nordestinos e brasileiros de outras regiões para o garimpo de Serra Pela. Improvisado e explorado manualmente, o garimpo extrairia muito mais ouro se fosse em escala industrial, pela então estatal Vale do Rio Doce. A exploração ficou inviável após o fechamento de Serra Pelada no governo Collor. A “febre do ouro” contaminou gerações, que se espalharam, nas décadas seguintes em garimpos ilegais em rios e parques nacionais e mais recentemente nas áreas de proteção a tribos indígenas, que foram abertas no governo Bolsonaro, completando a agressão ao meio-ambiente. Será que Bolsonaro crê que levar a água da transposição do São Francisco ao sertão do Nordeste - obra iniciada com Lula, continuada com Dilma e Temer e que teve 20% concluídos no atual governo - pode redimí-lo das ofensas ao Padim Ciço?

O mar de 200 milhas

Claro que prefiro o regime democrático, sob o comando dos políticos, com respeito às leis e aos direitos das minorias, e os militares nos quartéis, cumprindo seus deveres constitucionais. Como também devem fazer os policiais federais, os funcionários da Receita Federal, do INSS, do SUS. Os professores, os promotores, os juízes e desembargadores. Cada funcionário público com sua função e sua competência. Baseado na transição por que passaram Portugal e Espanha quando ingressaram na União Europeia em 1992 e seus soldados passaram a integrar as Forças da OTAN, há anos defendo que as Forças Armadas deviam se profissionalizar no Brasil (os armamentos modernos, caros e sofisticados, assim como máquinas agrícolas e caminhões exigem pessoas treinadas e qualificadas). O serviço militar obrigatório anual (extinto, por dispensável, na península ibérica e em outras nações europeias) poderia ser transformado num serviço cívico obrigatório, cumprido ao longo de dois anos, em períodos escalonados, preferencialmente nas férias escolares, em diversas regiões do país (nas cidades e no interior, incluindo a Amazônia e o sertão nordestino). O contato com novas realidades poderia ampliar a visão de muitos jovens sobre o Brasil, quem sabe levando ideias novas para as regiões e locais desconhecidos, onde também poderiam surgir oportunidades de trabalho. O apoio de estudantes de medicina teria sido valioso na pandemia. No censo, o IBGE poderia absorver parte deste contingente com custos bem menores. Outros programas sociais poderiam engajar os jovens. Mas isso é um tema que discuti há muitos anos (1988), com o general Otávio Costa, que lembrava, perante os saudosos Evandro Carlos de Andrade e Luiz Alberto Bitencourt, passagens do meu tio Geraldo Menezes Côrtes, quando comandou a Vila Militar de Realengo (RJ), na 2ª Guerra. Meu tio, que foi reformado como general entrou para a política em 1958, como o 3º mais votado no Distrito Federal. Recém eleito deputado federal pela UDN da Guanabara, morreu em novembro de 1962, quando, líder da UDN ia para Brasília num jatinho Paris da FAB, que caiu em Nova Lima (MG).

Para mostrar que não tenho prevenção com as boas ideias que podem nascer no meio militar, um amigo chamou atenção esta semana para manchete de “O Globo há 50 anos”. O jornal de Roberto Marinho dava como principal notícia a intenção da Petrobrás (então com acento) de explorar a plataforma marítima continental para tentar encontrar petróleo. Vale lembrar que três semanas depois do famoso discurso na ESG, em 25 de março de 1970, o governo Médici anuncia que o Brasil declarou perante a Assembleia Geral da ONU a extensão do mar territorial das tradicionais 12 milhas náuticas (22,22 quilômetros) para 200 milhas. Anos antes, apesar da soberania sobre as 12 milhas, o Brasil entrou em desavença diplomática com a França porque seus pesqueiros estavam invadindo a plataforma brasileira para capturar lagostas no litoral do Nordeste brasileiro. Na época, muita gente desdenhou do “mar de 200 milhas”, considerando que era mais um “ufanismo do regime militar”.

A manchete de O Globo em 1972 dá conta de que a diretoria da Petrobras estava programando investimentos pesados na plataforma marítima. Na verdade, desde 1967, depois de buscar, com pouco sucesso, petróleo em terra, a Petrobras se lançou a explorar a plataforma marítima, com a perspectiva de ter óleo além da área de 12 milhas. Entre os técnicos da estatal que foram estudar, no fim dos anos 60, geologia do petróleo na Universidade de Tucson (Texas), por recomendação de Mr. Walter Link (engenheiro de petróleo americano que foi execrado no Brasil quando disse, no fim dos anos 50, que “não havia petróleo no Brasil”, se referia ao território terrestre, tanto que estimulou a qualificação dos quadros técnicos da estatal para pesquisa em águas profundas, no mar, o que ocorreu de 1967 a 1975), estava Carlos Walter Marinho Campos, formado na escola de Engenharia de Minas de Ouro Preto (MG). Homenageado como o nome da sub-sede da Petrobras em Macaé, centro operacional da Bacia de Campos, Carlos Walter, chefe da geologia da estatal (quase toda reciclada em Tucson, ou na Rússia), foi o responsável por insistir na exploração na plataforma marítima, onde, em 1971, foram achados os primeiros indícios de petróleo na Bacia de Campos. A primeira descoberta, feita pela plataforma semi-sumersível Sedco 135-D, ocorreu em agosto de 1974, (furo mundial de Ênio Bacelar, do JORNAL DO BRASIL, menos de um ano após a crise do petróleo). Inconformado com a informação de que o poço era seco, Marinho insistiu com os técnicos para perfurar no campo ao lado, daí que o poço do campo de Enchova foi chamado 3-EN-1-RJS. A primeira produção efetiva veio em 1977. Hoje, com os avanços das descoberta do pré-sal, em 2007, quando outro engenheiro da Petrobras, formado em Tucson, Guilherme Estrela, descobriu o pré-sal da Bacia de Santos, a Bacia de Campos, ainda produz 30% do petróleo brasileiro, do pré-sal saem 70% do petróleo e gás, em camadas bem mais profundas, havendo até grandes reservas de pré-sal na Bacia de Campos. Se não fosse o mar de 200 milhas (arquitetado também pelos competentes quadros do Itamaraty), a Bacia de Campos e o pré-sal da Bacia de Santos, onde há campos gigantes de petróleo a mais de 300 km da costa, poderiam estar sob cobiça estrangeira. E me recordo, que aos 12 anos, ouvi meu tio (poucos dias antes dele morrer) convocar meus irmãos mais velhos a “estudar a profissão do futuro, a engenharia do petróleo”. Diante a pobreza dos atuais debates entre os militares brasileiros, concluo que a sociedade civil se capacitou bem mais para estudar e discutir as questões ambientais inerentes à soberania da Amazônia. Salvo exceções, os militares pararam no tempo.

Os ricos e a hipocrisia nos impostos

O ex-secretário da Receita Federal, o pernambucano Everaldo Maciel, publicou esta semana um contundente artigo na “Coluna do Noblat”, do conterrâneo Ricardo Noblat, no site “Metrópoles”. O tema é a injusta e desigual tributação que penaliza mais os pobres que os ricos. (no Brasil, como a carga tributária é mais de 70% assentada nos impostos indiretos incidentes sobre bens e serviços, os pobres ainda sofrem mais desigualdade que no 1º mundo). Esta é uma correção que o Brasil precisa fazer para pleitear o ingresso no clube da OCDE, que atualmente congrega 38 países, com carga tributária mais calibrada sobre a renda e o patrimônio do que sobre o consumo.

Maciel lembrou que no “Forum Econômico Mundial”, de Davos (Suíça), um grupo de 100 milionários presentes, autodesignado “Milionários Patriotas”, divulgou carta em que reconheciam que suas fortunas cresceram com a pandemia e que os sistemas tributários eram injustos. Piedosamente, pediam para ser mais tributados. Ironicamente, Maciel citou frase atribuída ao pensador francês La Rochefoucauld (1613-1680): “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”, para lembrar ser certo “que os ricos, especialmente os milionários, pagam desproporcionalmente menos impostos que os demais contribuintes”. Porém, afirmou, “é igualmente certo que as leis tributárias, que lhes permitem pagar menos impostos, não decorrem, por óbvio, de pressão política dos pobres. Ao contrário, como se constata na forte oposição, no Congresso norte-americano, às propostas tributárias do presidente Biden”.

E completou com o conhecimento de causa de quem comandou o Fisco durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso e enfrentou forte “lobby” no Congresso e na mídia quando quis taxar mais os mais ricos. “Para evitar o pagamento de impostos, grandes multinacionais e milionários não praticam a vulgar sonegação. Recorrem a talentosos e bem remunerados especialistas que produzem requintados planejamentos tributários, invulneráveis a alíquotas nominais elevadas ou a pretensões de tributação das fortunas. Essa arma, não tão secreta, ainda que desconhecida para os leigos, é um agente formidável na geração de desigualdades entre pessoas e países”.

E completou: “os que se valem do planejamento abusivo alegam que tão somente lançam mão de brechas na legislação tributária, como se elas nascessem por geração espontânea”.

Maciel lembrou que em 2021, Chuck Collins, professor do “Institute for Policy Studies”, em Washington, publicou um livro (“The Wealth Hoarders”) em que mostra como “os bilionários pagam milhões para esconder trilhões e assim acumular riquezas, por meio de astuciosos planejamentos”. Assinala o autor, entre muitos exemplos, que quase a metade das empresas norte-americanas têm inscrição fiscal em Delaware o estado americano que cobra a menor tributação e é conhecido como paraíso fiscal. Acrescenta que um único endereço em Wilmington, mais populosa cidade daquele Estado, é o domicílio fiscal de 285 mil empresas”, destaca o ex-secretário da Receita.

Aqui, os brasileiros preferem os paraísos fiscais do Caribe (Bahamas, Ilhas Cayman, Aruba ou as Ilhas Virgens Britânicas, onde Paulo Guedes, quando Lula foi eleito, em 2002 abriu empresa “off shore” para guardar US$ 9,5 milhões, segundo documentos da “Pandora Papers”. Antes, os “Panama Papers” indicavam que só uma das gavetas de um escritório de advocacia e contabilidade na Cidade do Panamá era sede de uma centena de empresas. E o Brasil, por ora, para evitar a fuga de capitais para paraísos fiscais, se dispõe a igualar os tributos sobre as empresas transnacionais.

Essas facilidades de que dispõem os muito ricos estão fora do alcance dos assalariados. Os que ganham acima de cinco salários mínimos descontam 27,5% de Imposto de Renda na fonte. Mas a imensa maioria paga seus “dízimos tributários”, que vão até 32% de impostos no consumo de combustíveis, nas contas de telefone e nas contas de luz, a título de ICMS.

Jornal do Brasil

Negócios eleitorais




Por Merval Pereira (foto)

A busca de uma alternativa à polarização entre o passado e o presente que não satisfazem esbarra em interesses amesquinhados que impedem uma visão mais ampla de futuro. São tantos partidos, e tão baixas as negociações comerciais, não políticas, que trabalhar em cima de um consenso ou de um programa comum torna-se tarefa impossível nesta fase da campanha eleitoral. Nem se fala nisso, na verdade.

O PL teria oferecido R$ 30 milhões para assumir o controle societário do PTB? O União Brasil, fruto de uma joint venture entre o PSL e o DEM, será dominado pelo caixa milionário de Bivar ou pelos interesses baianos do ACM Neto? O MDB vai apoiar mesmo Simone Tebet, ou está apenas marcando posição para vender no mercado futuro seu apoio? O PSDB de Doria terá condições de conseguir uma federação partidária que o apoie ou ficará isolado diante da resiliência do governa- dor paulista, cujo objetivo é a Presidência da República?

O instituto da federação partidária é dos mais importantes já concebidos na nossa geleia geral partidária. Daria consistência à união de legendas, pois teriam que atuar em conjunto nos próximos quatro anos, o que geraria uma homogeneidade de atuação que se refletiria nos votos. Além do mais, enxuga- ria, na prática, o número de partidos em ação no Congresso.

Mas até agora não se consegue chegar a um acordo, mesmo entre partidos de esquerda que geralmente são satélites do PT, mas se vendem caro nessa fase do processo. O PSB é o único que tem condições de caminhar pelas próprias pernas, com força real em Pernambuco, Rio Grande do Sul, São Paulo e Espírito Santo, mas ideologicamente tem setores que se aproximam do PT.

PSOL e PCdoB precisam da federação para sobreviver às cláusulas de barreira. Rede, PV e Cidadania também, mas desses, o único que pode fazer uma federação mais ao centro é o Cidadania, que tem no PSDB seu parceiro preferencial. Todos estes casos são circunscritos à esquerda, onde provavelmente será mais fácil um acordo, devido à vantagem que o ex-presidente Lula tem nas pesquisas eleitorais.

Lula, que não se deixa morder pela mosca azul, sabe que a vitória não está garantida, embora provável. Não cai na esparrela de alguns setores da esquerda que, certos da eleição oito meses antes, já começam a desdenhar dos opositores, a apresentar planos mirabolantes de repetir os mesmos erros de sempre. Ao contrário, o ex-presidente trata de consolidar sua dianteira procurando setores não alinhados ideologicamente, como o representado pelo ex-tucano Geraldo Alckmim.

Outro objetivo de Lula é o PSD de Gilberto Kassab, que está à cata de um candidato para seu partido, porque Rodrigo Pacheco não decolou. Apareceu agora a ideia de convidar o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, para ir para o PSD e fazer o papel de candidato à presidência. É possível que aconteça, mas vai ter um impacto muito menor do que se tivesse vencido as prévias do PSDB. Aí sim, ele apareceria como um grande líder político dentro de um partido forte, ao derrotar o governador João Doria.

Teria outra importância a vitória dele, viabilizando uma campanha eleitoral importante. Hoje, se acontecer essa adesão, não vejo muita novidade, nem possibilidade de ele levantar apoios e empolgar eleitores a ponto de se transformar em uma alternativa a Lula e Bolsonaro.

A política tem símbolos e momentos importantes, e acho que o momento de Eduardo Leite já passou. Ele não tem carisma, nem história política que justifiquem uma mudança do quadro eleitoral. Não é uma escolha que tenha consequências no jogo político. Se não der certo, Kassab vai para o plano C, que sempre foi, na verdade, seu plano A: aderir a Lula, mas numa posição de independência, de força, e não uma adesão pura e simples. Por isso, tenta viabilizar um candidato que dê a ele cacife para nego- ciar apoio a Lula no segundo turno. Se não der certo, Kassab vai para o plano C, que na verdade sempre foi seu plano A; aderir a Lula, mas numa posição de independência de força, e não uma adesão pura e simples. Por isso, tenta viabilizar um candidato um candidato que dê a ele cacife para negociar apoio a Lula no segundo turno. Se não der certo esta manobra com Eduardo Leite, e não aparecer outro candidato, é provável que Kassab apoie Lula ainda no primeiro turno.

A novidade da vez pode ser a senadora Simone Tebet, com notável capacidade de mobilização do eleitorado feminino, que representa mais da metade do brasileiro. Se contar com o apoio do MDB, que tem capilaridade nacional, pode ter viabilidade.

O Globo

Alemanha considera reforçar tropas militares na Lituânia




Ministra da Defesa alemã, Christine Lambrecht, disse que a ação ocorreria devido às tensões regionais com a Rússia no Leste Europeu. Ela também defendeu a decisão de Berlim de não enviar ou fornecer armas para a Ucrânia.

Único país europeu a ter tropas de combate estacionadas na Lituânia, a Alemanha estuda a possibilidade de reforçar a quantidade de soldados e de armamentos no país. O motivo, segundo a ministra da Defesa alemã, Christine Lambrecht, seriam as recorrentes tensões regionais envolvendo a Rússia.

Os chamados grupos de combate da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), formados por Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Canadá, seriam utilizados para ganhar tempo e, assim, tentar frear um possível ataque russo à Ucrânia.

Segundo a Otan, a Rússia teria mais de cem mil soldados prontos para invadir a Ucrânia por todos os lados. Os russos, em contrapartida, negam essa informação.

"Nós (Alemanha) já contribuímos de maneira muito importante na Lituânia, onde somos o único país da União Europeia a ter um grupo de batalha. Por uma questão de princípio, tropas adicionais estão disponíveis como reforço. No momento, estamos em conversações com a Lituânia para concluir o que exatamente faria sentido a esse respeito", afirmou Lambrecht, em entrevista para o grupo de mídia Funke neste domingo (06/02).

Além de mais tropas e arsenal na Lituânia, caças Eurofighters seriam destacados para a Romênia, que faz fronteira com a Ucrânia.

"Todos na Otan podem confiar em nós", disse a ministra, que visitou a Lituânia em dezembro, em sua primeira viagem ao exterior.

Há cinco anos, a Alemanha é a nação que lidera as operações da Otan na Lituânia. O país fornece cerca da metade dos 1.200 homens e mulheres da chamada unidade multinacional.

'Nos arredores de Kiev, capital da Ucrânia, civis treinam para um possível conflito com a Rússia'

Ministra mantém posição sobre repasse de armamentos à Ucrânia

Ao mesmo tempo em que declarou que a Alemanha não descarta enviar mais tropas para a Lituânia, a ministra também reiterou sua posição em relação às negativas no repasse de armas para a Ucrânia por parte da Alemanha.

A medida tem sido alvo de críticas por parte da Ucrânia, principalmente depois que a embaixada ucraniana em Berlim enviou uma lista de pedidos às ministras do Exterior, Annalena Baerbock, e da Defesa.

A lista inclui sistemas de defesa antimísseis, ferramentas eletrônicas, óculos de visão noturna, rádios digitais, estações de radar e ambulâncias militares.

"A posição do governo federal tem sido clara há bastante tempo, mesmo em períodos legislativos anteriores: não entregamos armas em áreas de crise para não aumentar a quantidade de armamento na região. Na questão da Ucrânia, temos parceiros de negociação que voltaram à mesa... É por isso que agora temos a tarefa de frear as tensões. Queremos resolver esse conflito pacificamente", enfatizou Lambrecht.

'Desta vez como chanceler federal alemão, Olaf Scholz retorna a Washington para conversações a partir deste domingo'

Scholz começa série de visitas internacionais

Neste domingo, o chanceler federal alemão Olaf Scholz viajou para Washington a fim de dar início a uma ofensiva diplomática focada no possível conflito e, assim, tentar diminuir as tensões com a Rússia. Em entrevista concedida na última quarta-feira (02/02), Scholz reforçou que os aliados "sabem exatamente" qual é a posição de Berlim.

Na quinta-feira (10/02), Scholz deve receber chefes de governo de países bálticos na capital alemã, concentrando os diálogos na crise na Ucrânia e na segurança das nações do Leste Europeu. Nos dias 14 e 15 de fevereiro, o chanceler alemão visitará Ucrânia e Rússia, respectivamente.

Segundo informações publicadas neste sábado (05/02) no jornal The New York Times, oficiais americanos disseram a integrantes do governo que uma invasão russa em larga escala na Ucrânia poderia matar até 50 mil civis e provocar uma crise de refugiados na Europa.

Por isso, o gabinete da presidência da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, declarou, neste domingo, que acredita que a chance de resolver a escalada nas tensões com a Rússia por meio da diplomacia continua maior do que a de um ataque.

"Uma avaliação honesta da situação sugere que a chance de encontrar uma solução diplomática para a diminuição das tensões ainda é substancialmente maior do que a ameaça de uma invasão", disse, por meio de um comunicado, o conselheiro Mykhailo Podolyak.

'Neste sábado, manifestantes foram às ruas de cidades ucranianas pedir o fim das agressões russas contra o país'

Imagens mostram treinamento em Belarus

Neste domingo, Washington anunciou que a Rússia já deslocou em torno de 70% de todo o seu poderio militar para as fronteiras com a Ucrânia. Os Estados Unidos e a Otan estimam que mais de 100 mil soldados russos estejam estacionados na região, o que tem gerado temores de uma invasão.

Também neste domingo, uma empresa de tecnologia privada americana publicou imagens de satélite nas quais exibe detalhes de manobras militares da Rússia na fronteira de Belarus com a Ucrânia.

As imagens mostraram unidades militares armadas com mísseis, lançadores de mísseis e aviões de ataque que teriam sido enviados para Belarus em três locais próximos à fronteira com a Ucrânia.

A Rússia e Belarus disseram que realizarão exercícios conjuntos entre 10 e 20 de fevereiro com o objetivo de treinar para evitar um ataque às fronteiras do sul de sua aliança.

Em meio à crise, a Rússia nega ter a intenção de investir contra a Ucrânia, mas exige "garantias de segurança" da Otan. Mais especificamente, Moscou pede que o país vizinho não seja incluído na aliança e que esta reduza sua presença militar no Leste Europeu - demandas que os EUA e a Otan rejeitaram.

Fundada em 1949 em Bruxelas, a Otan é uma aliança intergovernamental comandada pelos Estados Unidos e composta por 30 países, a maioria europeus. A principal prerrogativa do grupo é defender os territórios parceiros em caso de agressões militares causadas por terceiros.

Deutsche Welle

As vantagens do atraso: o centrão e a força do clientelismo




Por José Eduardo Faria (foto)

Eleito fazendo do que chamou de “nova política” uma de suas bandeiras eleitorais, apesar de ter sobrevivido em vários mandatos parlamentares recorrendo aos métodos tradicionais da “velha política”, o presidente Jair Bolsonaro está terminando seu mandato de modo patético. Não só terceirizou a gestão da máquina pública para o Centrão, como ainda assinou um decreto em que conferiu ao chefe da Casa Civil a última palavra em matéria de execução orçamentária.

O que é o Centrão? Com cerca de 230 deputados na Câmara, em uma casa legislativa com 513 parlamentares, ele é um agrupamento de políticos sem ideologia, preocupados com seus próprios interesses e acostumados a negociar apoio ao governante de plantão em troca de cargos. O que importa no Centrão são ganhos patrimonialistas propiciados pelo tráfico político de funções públicas e acesso às chaves dos cofres governamentais. O ethos do Centrão é conformado pelo fisiologismo como método no âmbito de um presidencialismo de coalizão. Responsável por algumas determinantes que condicionam o sistema político e o próprio Estado, especialmente o funcionamento de sua máquina administrativa e a alocação de recursos públicos, o Centrão resulta de uma patologia na formação histórica brasileira.

Como o país não dispõe de partidos grandes, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, quando um presidente da República é eleito ele não tem base partidária para apoiar sua gestão. Por isso, precisa formar uma coalisão, muitas vezes fora do espectro de partidos com que tenha algum alinhamento ideológico. Nas últimas décadas, houve uma explosão de partidos, quase todos criados apenas para vender esse apoio. Isso explica porque a Câmara e o Senado acabam, por vezes, sendo dirigidos por parlamentares medíocres. Político cuja base eleitoral se situa numa cidade onde seu pai é prefeito, além de pecuarista, o atual presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) é só um exemplo. Guardadas as diferenças de recursos financeiros, não discrepa muito de um Severino Cavalcanti, que também militou no mesmo partido de Lira e presidiu a Câmara, em 2005.

Apropriadores de recursos públicos em troca de apoio, eles representam o que se chama de clientelismo. O conceito foi cunhado por um brilhante cientista político, Victor Nunes Leal, autor de Coronelismo, Enxada e Voto. Lançado em 1949, é um trabalho sobre o município na vida política e administrativa. O autor analisa suas atribuições, suas receitas e seu papel na organização policial. Estuda o sistema político vigente na Primeira República – um período de decadência econômica dos proprietários rurais. E mostra como as relações de poder se desenvolviam a partir do município até chegar à presidência da República, com base numa complexa rede de relações envolvendo compromissos recíprocos.

Partindo da premissa de que o coronelismo resulta de um pacto entre chefes locais decadentes e um poder público que se fortalece, Victor Nunes afirma que a atuação política local sempre foi associada a relações hierárquicas e de dependência pessoal. Sempre dependeu de um coronel nos grotões. Décadas antes da publicação de Coronelismo, Enxada e Voto, os autores da Constituição de 1891 haviam se deixado levar pela ideia moderna e liberal de submeter a sociedade brasileira aos fundamentos de leis republicanas – ou seja, ao estabelecimento de uma vontade não arbitrária que se aplicaria a todos os cidadãos, tornando-os efetivamente livres. O livro de Victor Nunes, que mais tarde seria ministro do STF, aponta a distância entre o sonho republicano dos constituintes e a realidade no interior do Brasil profundo, onde há pobreza e concentração fundiária. 

O texto foi apresentado como tese para concurso da cátedra de ciência política na Faculdade de Filosofia da antiga Universidade do Brasil, com o título “O município e o Regime Representativo no Brasil: contribuição ao estudo do coronelismo”. O subtítulo, porém, acabou prevalecendo. Por ter buscado identificar as interconexões do processo político, em vez de explicá-lo a partir da índole do povo, como era comum até então, a tese de Victor Nunes é a primeira análise sistêmica da vida política brasileira. Contrapondo-se à ideia de que o coronelismo seria decorrência natural da força da propriedade latifundiária, que se sobreporia ao poder público, o autor afirma que aquela fórmula só expressa o compromisso entre o poder privado e o poder público.  

Segundo ele, como os coronéis vinham perdendo peso econômico e como os municípios tinham muitos encargos e poucas receitas, na prática o coronelismo apresentava mais fraqueza do que força. Os chefes locais tendiam a se empobrecer na medida em que, com a industrialização do país, a partir da década de 1940, a riqueza se deslocasse do campo para as cidades.  Pragmáticos, os coronéis sabiam que dependiam da ajuda dos governos estaduais. Estes, por seu lado, reconheciam os chefes locais, concedendo-lhes favores e dando-lhes carta branca nas questões relativas à sua jurisdição, a ponto de lhes permitir nomear os funcionários estaduais – como delegados de polícia e coletores de impostos – que atuavam em seus respectivos municípios. Em troca, exigiam irrestrito apoio político aos candidatos do oficialismo nos pleitos estaduais e federais. 

Portanto, o cenário não é de uma simples troca de favores entre chefes locais e um poder público estadual, mas de uma significativa alteração na relação de forças entre proprietários rurais e poder governamental. Segundo Victor Nunes, os chefes locais são a junção mais fraca da cadeia de interconexões do processo político – o elo mais potente e forte são os governadores e suas bancadas federais, que pressionam o presidente da República e condicionam suas decisões, aprovando-as se forem atendidos. Desse modo, se a decadência do latifúndio enfraquece os senhores rurais, o coronelismo, paradoxalmente, lhes dá sobrevida ao lhes permitir intermediar a distribuição de recursos estatais.

Ao estudar pioneiramente a vida pública nacional a partir dos chefes políticos locais e dos proprietários de terras, Victor Nunes mostra como as relações hierárquicas e de dependência pessoal inerentes ao coronelismo corroem a democracia representativa, na medida em que a cidadania é minada por trocas de favores financiadas por recursos governamentais. É um cenário paradoxal. Se a primeira Constituição republicana do país substituiu os critérios censitários pelo sufrágio (embora tenha adotado um equivalente funcional: a exclusão dos analfabetos), sua abertura democrática reforçou o poder dos coronéis, constituído na ligação entre os recursos públicos e os votos dos trabalhadores sob sua dependência. Quando as bases da representação legislativa nacional se assentam nessas relações políticas paroquiais, o coronelismo ou neocoronelismo acaba sustentando o Centrão federal.

Dito de outro modo: além de comprometer a eficiência da máquina governamental, a distribuição de recursos públicos em troca do loteamento ou da apropriação de cargos e postos típicos da burocracia pública, sob a justificativa de assegurar a “governabilidade” no âmbito federal, favorece integrantes do Legislativo que disputam a reeleição. Entre outros efeitos, essa distribuição de dinheiro prejudica os opositores. Desestimula o lançamento de adversários. E dificulta a eleição de candidatos novos, que poderiam oxigenar o Legislativo e pressionar o Executivo a mudar os rumos de suas políticas.

É nessa despolitização e esvaziamento da representação democrática que está a força do Centrão. Afinal, quanto mais indiscriminadas são a liberação de verbas públicas e a concessão de subsídios e de favores aos protegidos, mais eles são utilizados por parlamentares que o compõem com o objetivo de conservar e ampliar suas clientelas políticas, viciando assim a representação política. Em seu trabalho, Victor Nunes sugere que, à medida que o Brasil se industrializasse e se modernizasse, gerando uma crescente ampliação da população urbana, aumento do nível de educação e aperfeiçoamento das leis eleitorais, o clientelismo, por ser um fenômeno de sociedades não modernas, de bases rurais, tenderia a se enfraquecer. Nos centros urbanos, daria vez ao populismo, com seus esquemas igualmente clientelísticos de corrupção eleitoral.

Ainda que a redemocratização do país tenha sido um momento histórico na década de 1980, hoje, após 33 anos de promulgação de uma Constituição concebida para assegurar a aplicação universal das normas jurídicas, garantir a separação entre o público e o privado, impor uma burocracia governamental baseada nos princípios da legalidade, da impessoalidade e da moralidade e assegurar a concretização dos direitos sociais, ela é pouco efetiva na consecução desses objetivos. Continuamos a viver num contexto sem crescimento, com fortes desigualdades e invasão do privatismo nos negócios do Estado. Graças ao peso do Centrão nas coalisões parlamentares majoritárias, as últimas matérias apreciadas pelo Congresso, por exemplo, não foram votadas com base numa noção de projeto de Nação, mas em razão de interesses menores e favorecimentos a determinados grupos corporativos ou empresariais. O perfil das duas recentes indicações para o STF feitas por um governo sustentado pelo Centrão também deixa claro o empenho das estruturas de poder oligárquicas locais e regionais empenhadas em se perpetuar. Por fim, os sucessivos cortes orçamentários no ensino público evidenciam o empenho desses políticos e do governo por eles apoiado de evitar a emancipação das novas gerações.    

Nesse contexto de perda de credibilidade das instituições governamentais e do processo legislativo, o Brasil do Centrão – que só tem a ganhar vantagens com o atraso – é um país incapaz de empreender as transformações modernizantes de que falava Victor Nunes Leal. Do mesmo modo, um governo apropriado pelo Centrão jamais conseguirá ser inovador. Jamais encarará o desenvolvimento como fenômeno dinâmico. Se caminhasse da linha da inovação institucional e da melhoria de qualidade no gasto público, estaria agindo contra seus interesses. Se valorizasse os interesses da sociedade, superando com isso as trocas de favores e o prevalecimento do poder pessoal, o governo do Centrão estaria ameaçando sua sobrevivência. Estaria serrando os frondosos galhos em que está sentado e se fartando.

O Estado de São Paulo

Bolsonaros e Garotinhos - Editorial




Em família: Bolsonaro posa com Anthony, Rosinha, Clarissa e Wladimir Garotinho na visita ao Porto do Açu 

A união dos clãs Bolsonaro e Garotinho faz todo sentido. Ambos concebem a política como um negócio familiar

O presidente Jair Bolsonaro foi ao Rio de Janeiro se encontrar com os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho em busca de apoio à sua campanha pela reeleição. Fossem tempos normais, e fosse o próprio presidente alguém imbuído de espírito público e afeito à dignidade do cargo, seria de questionar a conveniência de obter o apoio do notório casal. Afinal, entre as maiores realizações do casal Garotinho estão o agravamento da degradação da política fluminense e sua entrada no seleto rol de ex-governadores que conheceram as paredes internas do sistema penitenciário do Estado na condição de custodiados.

Mas trata-se de Jair Bolsonaro, a mesma pessoa que não viu problemas em se filiar a um partido político comandado por um condenado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que também já amargou um período na cadeia. O presidente, pois, não é dado a esse tipo de melindre, além de ter padrões morais elásticos o bastante para acomodar os interesses do seu clã entre essas, digamos, inconveniências.

Com a reeleição ameaçada, Bolsonaro recorreu ao casal Garotinho, muito ligado a grupos evangélicos no Estado, como tática para tentar ao menos estancar a rejeição a seu nome. Aos ex-governadores, convém deixar claro, também é conveniente barganhar com o presidente da República para manter o que ainda resta de poder à família em um naco do território fluminense, sobretudo após as trevosas passagens de Anthony e Rosinha Garotinho pelo Palácio Guanabara e o desgaste provocado por seus dias de cárcere.

Informalmente, esse encontro dos clãs Bolsonaro e Garotinho foi considerado o “marco inicial” da campanha pela reeleição do presidente no Estado, com direito a discursos no Porto do Açu, no norte fluminense – espécie de enclave dominado pela família Garotinho há anos –, e ataques aos adversários, malgrado o ato apresentar todos os elementos de uma campanha antecipada à luz da lei eleitoral, só faltando o pedido explícito de votos. Mas aí seria demais.

Dado o retrospecto dos cabeças de dois dos mais parasitários clãs políticos da história do País, é possível afirmar que o melhor interesse público não foi nem de longe o assunto principal da conversa. Bolsonaro, o casal Garotinho e os filhos deste trataram, primordialmente, das condições de sobrevivência política das duas famílias, transformadas em holdings que administram as carreiras políticas de vários de seus membros e associados. No encontro com Bolsonaro, Anthony e Rosinha Garotinho estavam acompanhados pela deputada federal Clarissa Garotinho (PROS) e pelo prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho (PSD), filhos do casal.

A união das famílias faz todo sentido, haja vista que há mais fatores em comum entre Bolsonaros e Garotinhos do que a mera proximidade geográfica de seus redutos eleitorais. Ambos os clãs concebem a política como um empreendimento particular, sobretudo familiar. Em primeiro lugar, estão sempre os interesses familiares. Tanto faz se estes eventualmente coincidem com o interesse público. Quando não coincidem, azar da sociedade. Bolsonaro e Garotinho são casos muito bem delineados da política exercida não como vocação, nem tampouco orientada para o interesse público, mas como um meio de vida em que prevalece a manutenção do fluxo de caixa da família à custa do Estado, por meio do lançamento sucessivo de candidaturas a cada geração que não têm outro objetivo que não a perpetuação do modelo.

Há 20 anos, Bolsonaro declarou ao jornal O Globo que seu plano era “sarneyzar” o Rio, aludindo ao domínio da família Sarney no Maranhão. “Além de Carlos, de 19 anos, que já é vereador, agora pretendo ter o Flávio, de 21 anos, na Assembleia Legislativa”, disse o então deputado federal Jair Bolsonaro. “O Eduardo, de 18 anos, por enquanto ainda está na ‘suplência’. Meu quarto filho, de 4 anos, é o mais perfeito: chama-se Jair (Renan) e é boa-pinta.”

O destino político da pequena Laura, caçula do presidente, talvez só não esteja traçado ainda porque Bolsonaro considera as mulheres seres inferiores. O presidente atribui o nascimento da menina a uma de suas “fraquejadas”.

O Estado de São Paulo

Conflito na Ucrânia pode gerar cinco milhões de refugiados




Neste sábado, manifestantes foram às ruas de cidades ucranianas pedir o fim das agressões russas contra o país

Relatório divulgado pelos EUA aponta que invasão russa seria a maior operação militar no continente europeu desde a Segunda Guerra Mundial, em 1945, e que o número de civis mortos poderia chegar a 50 mil.

Uma invasão russa na Ucrânia caracterizaria a maior operação militar na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial no continente, em maio de 1945. No entanto, além disso, a ofensiva pode levar a região a experimentar, novamente, uma crise de refugiados que poderia somar até cinco milhões de pessoas.

Funcionários de altos cargos administrativos do governo americano apresentaram um relatório - publicado neste sábado por jornais como o The New York Times e o The Washington Post - no qual apontam "possíveis enormes custos humanos", em caso de conflito.

Os Estados Unidos projetam que uma invasão em larga escala da Rússia no país vizinho possa ocasionar a morte de até 50 mil civis e uma crise praticamente instantânea de refugiados na Europa. Se a guerra de fato acontecer, o prognóstico americano também indica que podem morrer entre cinco mil e 25 mil membros das forças ucranianas, e outros três mil a dez mil soldados russos.

A maioria dos milhões de refugiados, segundo o relatório, partiria em direção aos países vizinhos e também à Europa Ocidental, principalmente por meio da Polônia.

Ao mesmo tempo, o texto também reforça que ainda não está claro se Putin já decidiu ou não pela invasão à Ucrânia, o que, segundo o governo americano, não aconteceria ao menos até a segunda metade de fevereiro, e que a diplomacia ainda pode ser uma solução para o impasse.

A divulgação do relatório coincide com um momento em que cresce a concentração de tropas russas na fronteira da Ucrânia com Belarus. O Kremlin e Belarus argumentam, no entanto, que estão se preparando para a realização de exercícios conjuntos entre os dias 10 e 20 de fevereiro, com o objetivo de treinar para evitar ataques às fronteiras do sul de sua aliança.

O documento divulgado por Washington também especifica que há, no momento, ao menos 83 batalhões russos, com aproximadamente 750 militares cada, preparados para um possível ataque, além de militares que trabalham com apoio logístico, médico e aéreo.

Efetivo de 70% na fronteira com a Ucrânia

Os dados divulgados pelos Estados Unidos neste final de semana também apontam que a Rússia já concentra 70% do poderio bélico que o Kremlin planejou destacar para a fronteira com a Ucrânia até a metade deste mês.

Até o momento, segundo o governo americano, Moscou enviou 110 mil soldados para a região, mas ainda não está claro se Putin planeja, de fato, ordenar uma ofensiva.

Em uma conferência de imprensa, o porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, John Kirby, disse que a Rússia "desenvolveu capacidades para lançar uma grande operação militar na Ucrânia, e estamos trabalhando duro para preparar uma resposta".

Além da possível invasão da Ucrânia, exercícios militares em outras regiões também têm irritado os Estados Unidos e a Otan, incluindo alguns a cerca de 240 quilômetros a sudoeste da Irlanda, que tem um acordo de parceria com a Otan. Outra prerrogativa para a desconfiança ocidental em relação à Rússia baseia-se na invasão e anexação da península da Crimeia, em 2014.

O governo do presidente Vladimir Putin, por outro lado, tem repetido que não pretende invadir e que não ameaça a Ucrânia.

Nos próximos dias, líderes europeus devem intensificar os esforços para uma solução diplomática para a crise. O presidente da França, Emmanuel Macron, viajará a Kiev nesta segunda-feira e, no dia seguinte, estará em Kiev. O chanceler federal da Alemanha, Olaf Scholz, que chegou hoje aos Estados Unidos, estará na capital ucraniana no dia 14 de fevereiro, antes de se deslocar para a Rússia.

Deutsche Welle

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