terça-feira, janeiro 11, 2022

EUA têm recorde de hospitalizações por covid-19




Em meio à disseminação da variante ômicron e à escassez de mão de obra, instituições estão permitindo que profissionais da saúde sigam trabalhando mesmo se testarem positivo para o coronavírus.

As hospitalizações por covid-19 nos Estados Unidos atingiram o recorde nesta segunda-feira (10/01), de acordo com uma contagem da agência de notícias reuters, à medida que a variante ômicron se espalha pelo país, preocupando as autoridades quanto a uma possível saturação dos sistemas de saúde.

Foram 132.646 pessoas hospitalizadas com covid-19 nesta segunda-feira, superando o recorde anterior de 132.051 pacientes em hospitais, em janeiro do ano passado.

As hospitalizações aumentaram de forma constante desde o final de dezembro, dobrando nas últimas três semanas, quando a ômicron rapidamente ultrapassou a delta e se tornou a variante dominante nos EUA.

Embora potencialmente menos grave, as autoridades de saúde alertam que o grande número de infecções causadas pela ômicron pode sobrecarregar os sistemas hospitalares. Algumas instituições já suspenderam procedimentos eletivos. Outras estão permitindo que profissionais da saúde que testaram positivo para covid-19 continuem trabalhando.

Delaware, Illinois, Maine, Maryland, Missouri, Ohio, Pensilvânia, Porto Rico, Ilhas Virgens Americanas, Vermont, Virgínia, Washington D.C. e Wisconsin relataram níveis recordes de pacientes hospitalizados com o coronavírus recentemente, de acordo com a análise da reuters.

A variante ômicron fez os casos de covid-19 nos EUA explodirem para uma média de 700.000 por dia. Apenas sete estados não estabeleceram recordes de infecções por covid-19 em 2022: Arizona, Idaho, Maine, Montana, Dakota do Norte, Ohio e Wyoming, segundo reuters.

Levando em consideração a população, Washington, D.C., lidera o ranking de novas infecções, seguido de Rhode Island, Nova York, Nova Jersey, Massachusetts e Vermont.

Hospitais autorizam positivados a trabalhar

Autoridades de saúde da Califórnia anunciaram no fim de semana que funcionários de hospitais com resultado positivo para covid-19, mas sem sintomas, podem continuar trabalhando. Alguns hospitais em Rhode Island e no Arizona fizeram o mesmo. 

O Departamento de Saúde Pública da Califórnia disse que a nova política foi motivada por "escassez crítica de pessoal".

No mês passado, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças disse que os profissionais de saúde infectados que não apresentem sintomas podem retornar ao trabalho após sete dias e com um teste negativo. No entanto, o tempo de isolamento pode ser reduzido ainda mais se houver escassez de pessoal.

Os trabalhadores infectados serão obrigados a usar máscaras N95 e devem tratar apenas pacientes positivos para covid-19. 

A Associação de Enfermeiros da Califórnia, com cerca de 100.000 membros, se opôs à decisão e alertou que isso levará a mais infecções.

A presidente da entidade, Cathy Kennedy, disse que o governador Gavin Newsom e outros líderes estaduais "estão colocando as necessidades das empresas de saúde antes da segurança de pacientes e trabalhadores". "Queremos cuidar de nossos pacientes e vê-los melhorar, não potencialmente infectá-los", completou.

Na área de Phoenix, a Dignity Health, uma importante operadora de hospitais, enviou um memorando aos funcionários dizendo que os contaminados com o coronavírus que se sentem bem o suficiente para trabalhar podem solicitar autorização a seus gerentes.

Na semana passada, a França anunciou que permitiria que profissionais de saúde com sintomas leves de covis-19 ou assintomáticos continussem tratando pacientes.

Deutsche Welle

A jogada de Putin - Editorial




Convulsão no Cazaquistão traz riscos, mas pode fortalecer russo na disputa que trava na Ucrânia

Durante os 30 anos que se seguiram ao fim da União Soviética, o Cazaquistão só fez manchetes no Ocidente quando seu ditador passou o bastão para um autocrata em 2019, um processo algo turbulento.

No mais, era conhecido como o país que sedia a base espacial russa de Baikonur, polo de mineração de bitcoins, grande exportador de hidrocarbonetos e urânio e pátria do personagem satírico Borat.

Foi assim até quarta passada (5), quando houve uma erupção social na maior nação da Ásia Central. Naquele dia, prédios públicos foram incendiados, dezenas morreram. Um choque para quem mirava lá uma ilha de estabilidade.

Como ocorreu no Brasil de 2013, tudo começou com um protesto econômico, no caso o aumento do gás liquefeito de petróleo, que é muito usado em veículos.

Mas a situação escalou para um confronto armado, apesar da escassez de relatos, até porque o governo tirou da tomada tanto a internet quanto a telefonia móvel.

Ato contínuo, administração de Kassim-Jomart Tokaiev tomou medidas além da repressão. Após o presidente retirar algumas funções do antecessor, que ainda flutuava sobre o establishment local, ele apelou a Vladimir Putin no Kremlin.

O Cazaquistão é parte da chamada periferia ex-soviética, que o líder russo quer restaurar como área de influência para garantir espaço estratégico contra inimigos.

Sua presença convocada por Tokaiev, na forma dissimulada de tropas de uma aliança militar de antigos membros da União Soviética sob comando de Moscou, seria esperada num caso desses.

Mas o momento para tudo isso traz elementos que desafiam a casualidade. Nesta segunda (10), russos e americanos começam a debater o impasse em torno da pressão militar que o Kremlin impõe à Ucrânia, com mais de 100 mil soldados em posição que o Ocidente lê como a de uma invasão para garantir seus interesses e a autonomia de separatistas pró-Rússia.

Assim, ou bem a crise cazaque atrapalhará Putin como diversionismo, ou o ajudará, pois uma solução que parece se encaminhar o pinta como alguém que garante a paz com o uso da força. Ele sentará à mesa com mais musculatura.

Ambas as alternativas apontam para teorias conspiratórias sobre quem sequestrou os atos e os manipulou. Na prática, tanto faz para o longevo presidente russo: até aqui, tudo sugere que ele sairá beneficiado deste momento agudo.

Folha de São Paulo

Sob Bolsonaro, extrema direita se radicalizou




Analistas apontam que grupo normalizou valores sociais radicais e se tornou risco real à democracia, mas perdeu chance de se formalizar partidariamente

Por Guilherme Caetano 

SÃO PAULO — Cientistas políticos apontam que, desde 2018, grupo normalizou valores sociais radicais e se tornou risco real à democracia, mas perdeu oportunidade de se formalizar em um partido político, o que pode afetar organização futura

Após três anos de governo Bolsonaro, a extrema direita que o ajudou a se eleger conquistou avanços, normalizou valores sociais que defende e perdeu oportunidades inéditas. É o que aponta análise de estudiosos do bolsonarismo, convidados pelo GLOBO a fazer um balanço, desde 2018, do grupo mais à direita do espectro político no país.

Uma das mais notáveis mudanças foi a aceleração da internacionalização da extrema-direita brasileira, agora ator global de peso, diz Odilon Caldeira Neto, coordenador do Observatório da Extrema Direita. E, após as derrotas de Donald Trump nos EUA e José Antonio Kast no Chile, as eleições brasileiras, afirma, ganharam mais relevância:

— O Brasil passou de receptor a produtor de premissas de extrema direita. Não à toa, Steve Bannon tem muito interesse na eleição daqui — diz.

O ex-conselheiro político do ex-presidente Trump foi considerado um dos responsáveis pela vitória do republicano em 2016. E antes mesmo de assumir a Presidência, Bolsonaro já mantinha contato com Bannon, relação cujo elo sempre foi o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Mas, com o naufrágio do Aliança pelo Brasil, partido que Jair Bolsonaro (PL) tentou montar após deixar o PSL, em 2019, a direita radical perdeu a oportunidade de se “institucionalizar”. É o que defende Christian Lynch, da Uerj. A “perda de timing”, diz, pode ter sido crucial para a organização política futura do grupo.

— Em vez de se materializar num partido, o bolsonarismo alugou o Centrão. Uma eventual derrota eleitoral de Bolsonaro será um baque muito mais duro do que foi para a esquerda o impeachment de Dilma, pois o PT tem enraizamento social, hierarquia, burocracia, intelectuais — diz Lynch.

Base capilarizada

Aliados de Bolsonaro já vaticinavam que a falta de um partido único que abrigasse a base ideológica do presidente havia sido responsável pela derrota do governo nas eleições municipais de 2020. Pulverizados em siglas como PRTB, PTB, PSL, PSC, Patriota e Republicanos, poucos bolsonaristas se elegeram.

A cientista política Camila Rocha, da USP, por outro lado, avalia que o poder de mobilização de Bolsonaro, mesmo sem um partido próprio, é expressivo. Ela destaca que, enquanto Bolsonaro estava no PSL, seus correligionários fundaram diretórios em cidades pequenas, o que ajudou a capilarizar sua base. E afirma que o grupo se vê mais como um movimento, uma “frente”.

— Não ter um partido único é estratégia bem anterior à ascensão bolsonarista, já estava desenhada na nova direita e faz sentido para quem se vê como antissistema — diz.

Bolsonaro se filiou ao PL em novembro, mas sua base de apoio está dispersa por partidos diversos. E aliados do presidente, sob reserva, ponderam se uma migração em massa para o PL seria a melhor estratégia para a reeleição.

Caldeira Neto lembra também que, em três anos de governo Bolsonaro, houve “certa normalização” de grupos extremistas, mais legitimados a manifestar seu discurso de ódio e praticar crimes de intolerância. Autoritarismo, hierarquia e nacionalismo se tornaram mais difundidos.

Levantamento do GLOBO mostrou que o número de inquéritos abertos pela Polícia Federal para investigar casos de apologia ao nazismo, por exemplo, disparou em 2020, na comparação com a série histórica da última década, passando de 20 em 2018 para 110 em 2020.

Risco à democracia

A professora da UFSC Letícia Cesarino, que estuda grupos extremistas em plataformas digitais, diz que a rede de informação bolsonarista está menor, mas mais radicalizada. E alerta que seu ecossistema — WhatsApp, Telegram, Facebook, Twitter, YouTube e outras redes —, onde circulam conteúdos com ataques e de descrença a instituições como imprensa, universidades e partidos políticos, contribui para a corrosão da democracia.

Ela detecta uma “zona cinzenta” entre o subterrâneo das redes digitais bolsonaristas e a arena pública. Nesse espaço, diz, ideias radicais circulam entre pessoas que não são necessariamente extremistas.

Um exemplo são os canais antivacina do Telegram, ao unir pessoas que defendem estilo de vida “natural”, livre de medicamentos produzidos em laboratório, e apoiadores de Bolsonaro que replicam seus ataques à imunização contra a Covid-19 e disseminam mentiras e distorções sobre a pandemia.

— A pandemia acelerou isso, e questões como a desinformação sobre urnas eletrônicas já começam a repercutir nesse segmento intermediário — afirma.

O Globo

Como será a nova onda de Covid no Brasil?




A abordagem das autoridades brasileiras diante dessa realidade também precisa ser diferente do que ocorreu nas ondas anteriores. 

Por Diogo Schelp (foto)

Apesar do apagão de dados na plataforma Sivep-Gripe (Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe), que permitiria conhecer com mais detalhes a evolução das estatísticas de casos graves, internações e mortes por influenza e covid-19 no Brasil, um levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde na sexta-feira (7) confirma que estamos vivendo o início de uma nova onda de covid no país. Em apenas uma semana, o número de casos diários aumentou mais de seis vezes. Os óbitos, por sua vez, quase triplicaram.

A nova variante do coronavírus, a Ômicron, já demonstrou em países do hemisfério norte o que é capaz de provocar. Os Estados Unidos bateram, nesta sexta-feira (7), o seu recorde de novos casos registrados em um único dia desde o início da pandemia: quase 900.000. A Alemanha registrou o seu pico em 1º de dezembro, com mais de 74.000 casos. Os dados são da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Cenário semelhante deve ocorrer no Brasil nas próximas semanas. "Vamos ter uma avalanche de casos. Isso que já estamos vivendo ainda vai piorar, tornando-se a maior onda de casos de covid-19 desde o início da pandemia", prevê o infectologista Alexandre Naime Barbosa, professor e pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

"Mas isso não vai, provavelmente, refletir da mesma forma nos chamados 'desfechos duros', nas internações e nos óbitos", afirma o especialista.

Ou seja, a nova onda de covid vai se caracterizar por um número maior de infectados, mas por uma proporção menor de casos graves, que resultam em hospitalização ou morte.

A explosão de casos vai ocorrer porque a Ômicron é uma variante muito mais transmissível do que as anteriores. Um indivíduo contaminado transmite o vírus para outras 10 a 20 pessoas, em média. Um paciente infectado pela Delta, a variante predominante na onda anterior de covid-19, transmite o vírus para até 4 pessoas, em média.

Por outro lado, a proporção de casos graves, com hospitalização ou morte, vai ser menor nessa nova onda de covid por dois motivos.

Primeiro, porque uma parcela significativa da população com 12 anos de idade ou mais no Brasil, quase 80%, já está com a vacinação contra covid-19 completa.

A vacinação, principalmente com a dose de reforço, diminui o risco individual de hospitalização e óbito.

O indivíduo vacinado tem menos chance de pegar covid do que o não vacinado, mas a imunização não é garantia contra a infecção. O maior benefício da vacinação, como afirmam os especialistas desde o início, é a redução da gravidade da doença, ou seja, do risco de internação e óbito. A vacina deixa menos provável, entre 20 a 30 vezes menos, que a doença evolua para o estado grave, em que o paciente precise ser hospitalizado ou venha a óbito.

Segundo, porque já existem suficientes evidências científicas de que a Ômicron, apesar de mais transmissível, é menos patogênica ou virulenta que as variantes anteriores do coronavírus.

"Mesmo quando se isola o impacto positivo da vacinação, estudos de laboratório mostram que a Ômicron tem menos predileção pelo trato respiratório baixo, pelas células do pulmão", explica o infectologista Naime Barbosa.

Um estudo divulgado no mês passado pelas autoridades sanitárias da África do Sul, onde a Ômicron se originou, indica que a chance de a infecção pela nova variante exigir a internação do paciente é 80% menor do que ocorria com as cepas anteriores do vírus.

Diante dessas particularidades previstas para a nova onda de covid, qual será o impacto sobre o sistema de saúde e quais devem ser as políticas públicas a serem adotadas?

Com uma alta taxa de transmissão e recorde no número de novos casos, é inevitável que ocorra uma pressão sobre o sistema hospitalar, principalmente nos prontos-socorros. Hospitais públicos e privados precisam se preparar para o aumento na procura de suas instalações. Vai ser necessário estar atento também para a abertura de novos leitos de covid-19, possivelmente mais de enfermaria do que de UTI — e com atenção especial para as vagas pediátricas.

Isso porque, mesmo sendo a Ômicron proporcionalmente menos letal, o grande número de novos casos vai acabar resultando em uma quantidade não desprezível de casos graves. É uma questão estatística. Digamos, apenas hipoteticamente, que a cada 100 indivíduos contaminados pela variante Delta um morria, e que com a Ômicron a proporção é de 1 a cada 500. Se, no entanto, a Ômicron for capaz de infectar mais pessoas, ainda assim teremos um grande número de casos graves.

Em uma população que já está previamente imunizada, haverá uma concentração maior (ainda que não exclusiva) desses casos graves e desses óbitos entre as pessoas não vacinadas, o que inclui as crianças até 11 anos, entre aquelas com comorbidades (é o caso da primeira morte pela Ômicron confirmada no Brasil) ou entre indivíduos que por alguma condição de saúde anterior, como uma doença autoimune, não adquiriram anticorpos com a imunização (é o caso do brasileiro que se tornou o primeiro a receber a pílula experimental da Pfizer de tratamento precoce contra covid-19, em Israel).

Ainda assim, a expectativa é que os óbitos não aumentem na mesma proporção da explosão de casos. Na Alemanha, por exemplo, no auge do registro de novos casos da atual onda de covid, no início de dezembro de 2021, chegou-se a uma média diária de 1 morte para cada 193 infectados. No pior momento da pandemia no país, em dezembro de 2020, a proporção atingiu a marca de 1 óbito por 39 casos novos na média diária de sete dias.

A abordagem das autoridades brasileiras diante dessa realidade também precisa ser diferente do que ocorreu nas ondas anteriores.

Não faz sentido, por exemplo, adotar as medidas de restrição de atividades econômicas das primeiras duas ondas, quando não havia vacinação em massa e as variantes eram mais agressivas, com fechamento de comércio, restaurantes e serviços.

Outras medidas, menos limitantes e com menor impacto econômico, são mais adequadas, como o uso de máscaras e a recomendação para que a população evite aglomerações. A realização do Carnaval 2022, portanto, está de fato ameaçada.

Também convém investir mais na estratégia de testagem em massa, inclusive com a liberação do autoteste pela Anvisa. É preciso facilitar o acesso dos cidadãos com sintomas leves aos testes, sem que precisem se expor em prontos-socorros, lotando-os desnecessariamente.

Com o teste com 80% de acurácia que se poderia comprar em uma farmácia para fazer em casa, como ocorre em muitos países da Europa, o cidadão pode confirmar se está ou não contaminado e a partir daí estabelecer uma estratégia individual para não infectar outras pessoas, isolando-se em casa por alguns dias.

Essa talvez seja a última grande onda da pandemia de covid-19. A vacinação, o uso de máscaras e a testagem em massa são as melhores estratégias para enfrentá-la.

Gazeta do Povo (PR)

Rússia garante aos EUA que não pretende invadir a Ucrânia




Diplomatas de alto escalão dos dois países se reuniram em Genebra para discutir tensão provocada por estimados 100 mil soldados russos estacionados na fronteira com a Ucrânia. EUA ameaçaram impor sanções.

Diplomatas de alto escalão dos Estados Unidos e da Rússia discutiram nesta segunda-feira (10/01), em Genebra, na Suíça, as crescentes tensões envolvendo  tropas russas estacionadas perto da fronteira com a Ucrânia.

Após o encontro de oito horas, Moscou assegurou não ter "qualquer intenção de atacar" o país vizinho. Já Washington reiterou advertências sobre uma eventual invasão.

O vice-ministro do Exterior da Rússia, Serguei Ryabkov, descreveu as conversas como difíceis, mas afirmou que as posições dos EUA não foram "surpreendentes". 

"Algumas ameaças ou avisos foram apresentados. Explicamos aos nossos colegas [americanos] que não temos planos de 'atacar' a Ucrânia", destacou Ryabkov. "Não há base para temer qualquer cenário de escalada nesse sentido", acrescentou o diplomata.

A vice-secretária de Estado dos EUA, Wendy Sherman, descreveu as conversas como "francas e diretas", porém, acrescentou que Washington rejeitou propostas de segurança feitas por Moscou. Além disso, ela disse que não ficou claro nesta segunda se o Kremlin se comprometeria com a "desescalada".

"Acho que não sabemos a resposta para isso. Deixamos bem claro que é muito difícil ter uma diplomacia construtiva, produtiva e bem-sucedida sem desescalada", afirmou Sherman a repórteres.

Países do Ocidente estão temem que a concentração de tropas e equipamentos militares da Rússia perto da fronteira com a Ucrânia possa levar a uma invasão, como a que ocorreu em 2014, na Crimeia. Estima-se que quase 100 mil soldados russos estejam perto da fronteira com a Ucrânia.

Moscou nega que essa seja a intenção e busca garantias de que a Otan não avançará mais para o leste e que a Ucrânia não entrará para a aliança militar.

Encontro paralelo

Paralelamente ao encontro em Genebra, o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, se reuniu com a vice-primeira-ministra ucraniana para a Integração Europeia e Euro-Atlântica da Ucrânia, Olga Stefanishyna.

Em uma coletiva de imprensa conjunta, Stoltenberg alertou a Rússia que "qualquer agressão adicional contra a Ucrânia teria um alto preço político e econômico" e que a Ucrânia é um "parceiro valioso e de longa data da Otan".

A escalada militar russa na fronteira com a Ucrânia será discutida novamente esta semana em reunião da Rússia com a aliança atlântica em Bruxelas, na quarta-feira, e na reunião do Conselho Permanente da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, na quinta-feira.

Stoltenberg considerou positiva a disposição da Rússia em participar do encontro.

"Vamos ouvir as preocupações da Rússia, mas qualquer diálogo significativo também deve abordar nossas preocupações sobre as ações russas", destacou

Possíveis sanções dos EUA

Nas últimas semanas, o presidente dos EUA, Joe Biden, conversou duas vezes por telefone com o presidente russo, Vladimir Putin.

Biden alertou sobre sérias consequências caso Moscou invada a Ucrânia novamente. Possíveis respostas incluiriam sanções, o cancelando da operação do gasoduto Nord Stream 2 ou até mesmo a exclusão da Rússia da rede bancária global.

Mas as autoridades dos EUA se manifestaram abertas a outras ideias, como colocar limites aos exercícios militares americanos e da Otan na Europa Oriental.

No domingo, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, disse que um resultado positivo mais provável, por enquanto, seria um acordo para diminuir as tensões a curto prazo e retornar às negociações em um momento apropriado no futuro.

Nesta segunda-feira, Ryabkov assegurou que os americanos "levam muito a sério" os avisos emitidos por Moscou, em particular sobre as consequências de uma eventual expansão da Otan em direção a leste. 

O que as conversas indicam?

A chefe da sucursal da DW em Bruxelas, Alexandra von Nahmen, disse que as declarações de Ryabkov e Sherman mostraram que um acordo entre Moscou e Washington está muito distante.

"Não temos nenhuma indicação de que os EUA ou a Rússia estejam dispostos a se comprometer nas principais questões", afirmou a repórter em Genebra.

"Ainda há risco de escalada", disse Von Nahmen, destacando que as negociações desta segunda-feira foram apenas o início de uma longa semana para a diplomacia.

A Rússia afirma que quer a questão resolvida ainda neste mês. No entanto, a Otan teme que Putin possa estar procurando um pretexto, como um fracasso nas negociações, para lançar uma invasão.

Deutsche Welle

Outra vitória de Putin: repressão sufoca protestos no Cazaquistão

 




Envio de tropas russas ajudou a acabar com a explosão de fúria popular que chegou a ameaçar derrubar o governo no “país de Borat”.

Por Vilma Gryzinski

Deve ser bom ocupar o posto não-declarado de czar de todas as Rússias no momento. Vladimir Putin pode contabilizar mais uma vitória na sua lista nada modesta de realizações.

No ano passado, a repressão bem assessorada por Moscou acabou com a onda de protestos na Belarrus, impedindo que o país escapasse da esfera muito próxima de influência da Rússia. Depois foi a Ucrânia: a concentração de tropas na fronteira e a linha dura assumida por Putin estão perto de levar o governo de Joe Biden a negociar a instalação de mísseis em outro país que o czar contemporâneo considera “seu”.

Enquanto todo mundo estava olhando para a Ucrânia, explodiu uma onda brutal de insatisfação popular no Cazaquistão. Como em tantos outros casos, o motor foi o aumento no preço de um combustível, o gás liquefeito de petróleo que move os veículos num país riquíssimo em reservas fósseis.

Debaixo de neve e de uma polícia acuada pela quantidade de gente nas ruas, os protestos contra o aumento se transformaram em insurreição próxima de derrubar o regime. A prefeitura de Almaty e outros prédios do governo tomados e incendiados, além do aeroporto ocupado por manifestantes, levaram o presidente Kassym-Jomart Tokaiev a um último recurso: chamar os russos.

Aviões de transporte militar começaram a fazer uma ponte aérea, despejando 2 500 homens de uma “força de paz”, comandada pela aliança militar da Rússia com países centro-asiáticos que eram da antiga União Soviética e depois declararam independência, mas mantiveram laços próximos com a ex-matriz.

Tokaiev disse que não existia a menor possibilidade de “negociar com bandidos e terroristas”, uma insinuação de que extremistas muçulmanos poderiam estar insuflando a explosão de fúria popular. Dos 18 integrantes das forças de segurança mortos, três foram decapitados. A ordem de atirar para matar que o presidente deu foi um caso raro, mesmo em regimes autoritários, de repressão assumida, sem disfarces.

A maioria dos cazaques pratica uma forma bem branda da religião islâmica. Ridicularizado por Borat, o personagem cazaque inventado por Sacha Baron Cohen, o Cazaquistão é um país enorme – um terço do tamanho do Brasil -, sem saída para o mar, cheio de recursos valiosos como petróleo e urânio.

Entrou na era pós-soviética sob a mão dura de Nursultan Nazarbaiev, um ditador de manual: reeleito sistematicamente com quase 100% dos votos, colocou o próprio nome na capital do país, espalhou estátuas em louvor a si mesmo e arrebanhou fortunas para ele próprio, a família, os agregados e uma minoria de privilegiados.

Um retrato do que fazem o dinheiro fácil do petróleo e dos contratos com um governo de caixa cheio foi traçado recentemente em Londres. Um processo movido na justiça inglesa pela filha do meio do homem forte, Alia, contra os gestores de sua fortuna, acusados de desvios, mostrou que em 2006 ela retirou 312 mihões de dólares de recursos próprios do Cazaquistão e saiu gastando.

Comprou um jatinho Challenger, uma casa num bairro chique de Londres e uma mansão em Dubai. Tem milionário que põe dinheiro na Suíça, mas ela foi além e comprou um banco no país para administrar seus recursos (o processo terminou em acordo sigiloso).

Quais as qualidades de Alya para ter tanto dinheiro, além da aparente herança genética que leva tantos filhos de corruptos a mostrar uma impressionante vocação para fazer dinheiro fácil?

Já sua irmã mais velha, Dariga, estava sendo preparada para substituir o pai. Não deu tempo. Nazarbaiev foi convencido em 2019, nos bastidores, a passar o poder para um apaniguado, o presidente atual. Aos 80 anos, manteve o tratamento de “pai da pátria” e um lugar no conselho nacional de segurança.

Agora, foi afastado desse último posto oficial. A briga interna parece tão intensa quanto os protestos da semana passada. Na quarta-feira, o chefe do serviço de espionagem, Karim Massimov, foi tirado do cargo. No dia seguinte, já estava sendo acusado de traição. Ele era ligado ao ex-presidente Nazarbaiev, “sumido: durante a crise que teve uma das imagens mais fortes no ataque de manifestantes a uma estátua gigantesca dele.

Ajudar a controlar uma explosão como a da semana passada evidentemente dá pontos extras a Vladimir Putin e mostra como ele é um jogador de apostas altas. Se o timing fosse errado, ele afundaria tropas russas no atoleiro complicado de um conflito interno num país vizinho.

Agora, os “reajustes” internos têm mais margem de manobra e os seis mil presos depois da onda de protestos não podem esperar um futuro promissor. Segundo fontes do mercado financeiro, oficialmente desmentidas, os Nazarbaiev saíram do país na quarta-feira passada e foram para Moscou em cinco jatos particulares.

Nada que Putin não possa resolver brincando. O líder russo já conseguiu garantir a sobrevivência do regime de Bashar Assad na Síria, contra todos os prognósticos; engoliu a Criméia, sob protestos internacionais protocolares; segurou a onda de Alexander Lukashenko na Belarus; colocou a poderosa Alemanha como sua credora eterna com o gasoduto que proverá as luzes acesas nos lares germânicos e está conduzido os americanos para uma solução que o favorece na Ucrânia.

Nada mau para uma ex-superpotência que virou o século rendida pela dissolução econômica e institucional. Joe Biden que se cuide para não fazer concessões que soem sobre a Ucrânia que soem extraordinariamente parecidas com mais uma vitória da política externa intervencionista de Putin.

Revista Veja

O desafio da eleição presidencial: recuperar a confiança na democracia

 



No sistema político-representativo de uma sociedade complexa como a brasileira, em que não há possibilidades de iniciativas políticas sem resistências e de ações sem réplicas, nenhum dirigente governamental e nenhum parlamentar tem condições de atender todas as demandas vinculadas aos votos que obtiveram. 

Por José Eduardo Faria*, professor 

Inoperância, insatisfação com o sistema representativo ou simples tédio com relação a retóricas e narrativas políticas vazias? Da resposta que se der a essa pergunta sobre uma paulatina perda de vigor e legitimidade das instituições e valores democráticos no país é que se poderá depreender porque os últimos anos vêm registrando um preocupante crescimento do autoritarismo, com sua intolerância, sua defesa hipócrita da lei e da ordem, sua destruição de reputações e suas mensagens de medo.

A busca dessa resposta, contudo, não é nova. Também não é fácil, uma vez que envolve diferentes fatores. Tomando a democracia representativa em seus aspectos mais simples e conhecidos, ou seja, como um mecanismo de gestão das diferenças e da instabilidade no espaço público da palavra e da ação, por um lado, e como um sistema eleições livres dos governantes e dirigentes pelos governados e dirigidos, que se opõe a todo tipo de autoritarismo, de absolutismo e de totalitarismo, por outro lado, aponto resumidamente cinco desses fatores.

O primeiro fator é o enfraquecimento da ideia de que a democracia representativa — baseada em partidos capazes de sintetizar num discurso coerente um programa de ações políticas para enfrentar questões reais — é um dever moral. No passado, as agremiações partidárias e suas respectivas militâncias eram encaradas como instrumentos ativos de vitalidade e interesse geral, ainda que corressem o risco de serem minadas pela “lei de ferro da oligarquização burocrática”, identificada pelo sociólogo alemão Robert Michels (1876-1936) ao analisar a tendência de enrijecimento das organizações burocráticas. Hoje, os 33 partidos existentes no país são, em sua maioria, simples mecanismos artificiais de representação, meras legendas de aluguel. Quase todos têm nomes politicamente corretos propostos por esquemas de marketing, o que esconde a ausência de seiva ideológica e de um mínimo de consistência doutrinária. Suas estruturas também são viciadas e corroídas pelos grupos que comandam as máquinas partidárias.

O segundo fator diz respeito à progressiva colonização do campo de ação dos partidos políticos por movimentos sociais de todo porte. Se no passado esses movimentos eram tratados como forma supletiva da atividade política, agora, sob a forma de coletivos, têm um peso e uma autoridade de que as lideranças tradicionais, integradas por políticos profissionais, carecem. Àqueles movimentos se associam informalidade, espontaneidade, autenticidade, flexibilidade e vitalidade. Sua estrutura organizacional é fluída e descentralizada e eles dependem de consenso justamente por não adotar procedimentos formalizados para a resolução de seus conflitos internos. Sua autoidentificação não se refere apenas aos códigos culturais estabelecidos (como esquerda vs. direita), nem aos códigos socioeconômicos (como proletariado vs. burguesia), mas, também, a códigos não convencionais (como feminismo, ecologia e emancipação). Do ponto de vista institucional, porém, que tipo de interlocutores são os líderes desses movimentos? Como determinar quais são seus membros e quais não são? De que modo conseguirão deixar de ser “fluxos em movimento” para se converterem em organizações de fins, com estrutura interna e cúpulas dirigentes? Por fim, se tiverem êxito nessa empreitada não estarão perdendo justamente os atributos que os caracterizam, a começar pela espontaneidade e pela flexibilidade? Não estarão sujeitos ao risco de reproduzirem o que asfixia a vitalidade dos partidos — a oligarquização de suas estruturas?

O terceiro fator é uma certa relativização da importância da ideia de democracia participativa. Se, na transição do século 20 para o século 21 a ideia de democracia participativa foi vista como uma fórmula paritária ou como um método para corrigir erros do processo de representação, reduzindo desigualdades, hoje é possível ver as dificuldades que esse tipo de experiência enfrenta para ser eficiente. Se no passado há registros de que funcionou a contento em pequenas comunidades, hoje ele não consegue vencer os desafios inerentes a sociedades complexas, com centros de poder e decisão diversificados. Além da questão da ineficiência, a democracia participativa esbarra em outros problemas não menos importantes. Ainda que a livre participação possa ocorrer numa assembleia de bairro, num comitê de empresa ou numa associação de pais e mestres, como articular ações políticas de âmbito nacional em um país socialmente desigual e com grande extensão geográfica? Enfim, quem participa e como? De que modo os debates são conduzidos? Como deliberar e implementar decisões?

O quarto fator é decorrente do avanço das tecnologias de comunicação online e da multimídia, que abriu caminho para o advento das redes sociais. No início, elas foram aplaudidas como um poderoso instrumento de multiplicação de experiências de democracia participativa. A ideia era que, quanto mais os cidadãos têm capacidade de ouvir, menos vozes marginalizadas haveria. Com o tempo, porém, ficou evidente que a democratização da informação pelas redes sociais leva ao paradoxo da desinformação, seja por causa do mau uso da liberdade expressão, seja pela própria natureza dos novos espaços públicos, seja por irracionalidades de toda ordem, como o negacionismo científico, o discurso do ódio e a desconstrução dos adversários no processo eleitoral. Também ficou claro que a vida política se converteu num mercado onde os cidadãos comuns pensam como base no que lhes é dito por quem detém o monopólio da produção de sentido, percepção e expressão do mundo social.

Por consequência, a comunicação virtual empobreceu a ação cívica. Aumentou o poder de elites não representativas no controle da distribuição de informações. Propiciou uma enorme variedade de produtos simbólicos estratificados. E ainda projetou figuras torpes e abjetas, como um Trump ou um Bolsonaro, fazendo com que a mídia tradicional perdesse seu caráter original de comunicação de massa. Com isso, os cidadãos perderam a capacidade de dar sentido à realidade política. Na medida em que passaram a raciocinar sob a forma de estereótipos e as informações passaram a ser desfiguradas pelas deepfakes ou traduzidas pelos fast thinkers, os pensadores midiáticos que pontificam para leigos, a participação no espaço público da palavra e da ação, em vez de aprofundar a democracia, acabou sendo substituída por pesquisas de opinião pública.

O quinto fator decorre das múltiplas tensões causadas nas estruturas dos Estados nacionais pelos fenômenos da mundialização dos mercados e da expansão das cadeias globais de valor, minando a democracia como forma de autodeterminação coletiva. Com seu poder expansivo para trazer os alcances mais distantes do mundo para seu controle, o capitalismo global criou espaços jurisdicionais acima e além dos controles democráticos. Em que medida esse fenômeno não vem comprometendo o poder de decisão política das instituições representativas dos Estados nacionais? Em outras palavras, como o declínio da soberania estatal reduz o alcance e o exercício do poder público, qual é, hoje, a efetiva capacidade dos órgãos deliberativos, das instituições representativas e dos procedimentos democráticos dos Estados nacionais para conduzir os processos econômicos e sociais dentro de suas fronteiras?

O que fundamenta essas indagações é a transferência para os organismos multilaterais e supranacionais de parte da titularidade da iniciativa legislativa dos Estados nacionais. É, também, a internacionalização das decisões econômicas, em razão do processo de fusões e incorporações que converteu as antigas multinacionais em empresas mundiais. Quanto mais esse processo avança, mais a centralidade da política como instância máxima de representação e condução da sociedade fica comprometida. Quanto maior é a integração supranacional dos processos econômicos e administrativos, menor é a congruência dos mecanismos de representação político-partidária e dos mercados. Com isso, a soberania dos Estados nacionais é posta em xeque, uma vez que a ação política dentro de suas fronteiras tende a perder capacidade de articulação, a liberdade de desenhar novos horizontes e o poder de mando em matéria de política industrial e monetária e sobre o próprio ordenamento jurídico interno.

Diante desses fatores, muitos cientistas políticos não escondem seu ceticismo com a efetividade da representação democrática, apontando as incongruências entre um pleito, enquanto mecanismo de revelação da opinião pública majoritária, e os conflitos sociais e econômicos que governos e casas legislativas têm de enfrentar. No sistema político-representativo de uma sociedade complexa como a brasileira, em que não há possibilidades de iniciativas políticas sem resistências e de ações sem réplicas, nenhum dirigente governamental e nenhum parlamentar tem condições de atender todas as demandas vinculadas aos votos que obtiveram.

No caso de um parlamento, por exemplo, seu papel como um locus de manifestações, de críticas e de reivindicações conflitantes e muitas vezes excludentes é aparar arestas, promover composições e viabilizar compromissos, fortalecendo a capacidade dos atores políticos de conviver com frustrações, fazer concessões e aprender a respeitar os próprios limites. Ao agir desse modo, o desafio de uma casa legislativa — e mesmo de um governo — é enfrentar a apatia, a indiferença e o subsequente descrédito de determinados setores da sociedade no sistema representativo, para superá-los com trabalho, negociação e organização. É tentar evitar o que chamei de decepção, indiferença e tédio ou fastio com relação à democracia, decorrente de dois sentimentos. O de que a vida política não estaria à altura do que a população espera dela, por um lado; e o de que de que votar se resume a escolher entre o mal e o pior, por outro.

Na eleição presidencial de 2018, a política tradicional não foi capaz dessa superação e da neutralização desse sentimento. Com isso, criou condições para a ascensão ao poder de um populista primário que despreza o fato de que democracia significa, entre outras coisas, o reconhecimento moral e jurídico da oposição. Acima de tudo, é um autocrata que, cercado por militares medíocres, sobrepôs seu grupo familiar ao sistema partidário, evidenciando seu desprezo por qualquer sistema de regramento impessoal e baseado em valores coletivamente compartilhados. O resultado inexorável dessa eleição não foi só a falta de perspectiva de futuro para o país. Foi, igualmente, o descrédito com relação à democracia, aumentando a desconfiança e a perda de credibilidade da sociedade com relação ao sistema representativo.

Agora, a dúvida é saber se essa tendência será mantida na eleição presidencial de 2022 ou se haverá alternativas para o afastamento de riscos à democracia e para a recuperação da confiança no processo político representativo. Como no panorama atual ainda é muito difícil encontrar uma resposta plausível para essa indagação, só resta cruzar os dedos. E repetir o lugar comum de que todo novo pleito presidencial é sempre uma renovação da esperança.

*José Eduardo Faria é Professor Titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

O Estado de São Paulo

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