segunda-feira, novembro 23, 2020

Giannetti faz boas reflexões, ao analisar a ética nas visões de Sócrates, Platão e Gláucon


Chamamos de ética o conjunto de coisas... Oscar WildeFernanda Perrin
Folha

O que você faria se pudesse ficar invisível? – é em torno desse questionamento singelo que o economista Eduardo Giannetti desenvolve uma elaborada reflexão sobre a ética, tema de seu mais novo livro, “O Anel de Giges”, que chega às livrarias nesta segunda-feira (16).

O objeto que dá nome à obra vem da “República”, de Platão. Como provocação a Sócrates, defensor da ideia de que ser uma pessoa justa é um bem em si —ou seja, independe das vantagens que o comportamento acarreta—, Gláucon, irmão mais velho de Platão, conta a história de Giges.

LEVANDO VANTAGEM – Na fábula, um camponês (Giges) descobre um anel capaz de torná-lo invisível. De posse do objeto, vai até a sede do reino da Lídia, região que habitava, seduz a rainha, mata o rei e toma posse do trono.

Para Gláucon, portanto, a história mostraria que um cidadão pacato, quando protegido do olhar alheio e do risco de punição, não hesita em obter vantagens para si, violando sem medo preceitos éticos e morais que até então —hipocritamente— respeitava.

Mais: não há possibilidade de agir de outra forma, defende Gláucon, que encara a busca incessante do autointeresse e a felicidade como equivalentes entre si. Nessa visão, diante da garantia de impunidade, não há por que respeitar regras sociais que se interponham entre o sujeito e o benefício almejado.

RESPONDE SÓCRATES – Em resposta, Sócrates defende que uma pessoa verdadeiramente ética não mudaria em nada sua conduta de posse do anel, uma vez que ser honesto e justo corresponde à felicidade.

Como observa Giannetti, há, portanto, um debate entre a ética como um valor instrumental (um meio para alcançar coisas, utilizado na medida em que for compatível com o autointeresse do indivíduo e jogado fora quando deixa de sê-lo, como defende Gláucon) e como valor intrínseco (um bem em si, como coloca Sócrates).

No pensamento de Platão, o Giges-ideal, modelo de comportamento a ser perseguido pelos guardiões de sua sociedade utópica, é aquele para quem a posse do anel pouco importa. Isso porque ele não se apraz com o aplauso alheio e se orienta apenas em fazer o que é correto e justo (tendo sido moldado pela educação recebida desde a infância).

ÉTICA CRISTà– Em um dos pontos mais interessantes do livro, Giannetti aproxima a ética platônica da cristã.

De modo semelhante ao Giges platônico, o Giges ideal cristão guia-se por uma renúncia de si mesmo: não há espaço para autointeresse egoísta, mas sim uma genuína disposição da alma pelo respeito à lei moral. É ela a sua felicidade.

Apresentadas as concepções, o autor passa a criticá-las. “O fulcro da ética platônica-cristã é a reconfiguração do campo de forças intrapsíquico mediante a subordinação das pulsões, fantasias e inclinações espontâneas da psique —o mundo-gueto da alma— ao primado de uma vontade ordenadora e à soberania do bem.”

Irrealista, inexequível, indesejável. Alguém que reprima a tal ponto suas paixões a ponto de não ser afetado pela posse do anel não é desejável, em suma. Em algum momento esse dique vai romper.

DUAS POSSIBILIDADES? – No outro extremo, tampouco defende-se o Giges inescrupuloso da fábula de Platão como uma visão realista do comportamento humano.

A questão que Giannetti coloca é: existem apenas essas duas possibilidades? Não seriam elas extremos raros no mundo empírico, tipos ideais que obscurecem tudo o que, de fato, encontramos entre um ponto e outro?

Pensando sobre esse ponto, o autor busca um dos clichês em termos de teste de honestidade: a carteira perdida. Um estudo extenso publicado na revista Science em 2019 simulou a perda do objeto, com e sem dinheiro, em diversos países.

LISTA E E-MAIL – Acompanhava a carteira um cartão com um endereço de e-mail (para possibilitar uma tentativa de retorno) e uma lista de compras. O valor contido nas que levavam dinheiro era de US$ 13,45 (ajustado país a país pela paridade do poder de compra).

Contra as apostas de economistas, a taxa de devolução das carteiras foi maior entre aquelas com dinheiro do que nas vazias, em todos os países pesquisados.

O resultado contraintuitivo é atribuído pelos autores a fatores econômicos (a vantagem financeira e o custo de procurar o dono da carteira) e psicológico (altruísmo e não querer sentir-se um ladrão).

GRADAÇÃO ÉTICA – Ou seja, há toda uma gradação ética possível, guiada não apenas por uma lógica racional egoísta mas também por elementos subjetivos, como autoimagem e empatia. Giannetti acerta ao bater na tecla da importância dos afetos para a satisfação humana (em mais um clichê: “a felicidade só é real quando compartilhada”).

A discussão que o livro pincela, mas não avança, é o impacto de fatores culturais nessa dispersão. Como mostra o experimento, a taxa de devolução das carteiras cheias e vazias variou enormemente país a país. Outro exemplo citado no livro, sobre diplomatas e multas de trânsito, convida a uma análise semelhante —mas não é atendido.

DIFERENÇAS CULTURAIS – Os impulsos, as paixões, os afetos e a empatia que Giannetti com razão destaca são universais e, portanto, não explicam as diferenças culturais em termos de ética observadas.

Essa lacuna na análise se faz sentir quando tentamos fazer a ponte da reflexão ética individual para a coletiva, pensando de que forma o conjunto diverso de tantos Giges possíveis explica sociedades mais ou menos justas e desiguais.

Ex-presidente francês Sarkozy pode pegar 10 anos de prisão por corrupção. Enquanto isso, no Brasil…


retrato de nicolas sarkozy, que franze o cenho em expressão de preocupação

Se fosse Brasileiro, Sarkosy estaria na maior tranquilidade

Deu na Folha

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy (2007-2012) será julgado na segunda-feira (23) em Paris por corrupção e tráfico de influência no chamado “caso das escutas telefônicas”, tornando-se assim o primeiro ex-chefe de Estado a ser julgado por esses crimes na França em 60 anos.

As provas apresentadas no processo foram obtidas durante um inquérito aberto para apurar outras acusações: os procuradores suspeitavam que Sarkozy teria recebido recursos da ditadura líbia de Muammar Gaddafi para financiar a campanha eleitoral que o levou à Presidência, em 2007.

GRAMPO NO TELEFONE – No curso dessa investigação, os juízes autorizaram um grampo no telefone de Sarkozy —foi assim que investigadores descobriram que ele tinha uma linha secreta na qual usava o pseudônimo “Paul Bismuth”.

Segundo os investigadores, algumas das conversas revelaram a existência de um pacto de corrupção. Junto com seu advogado, Thierry Herzog, Sarkozy teria tentado obter informações secretas do “caso Bettancourt” por meio do juiz Gilbert Azibert.

O caso envolve a herdeira bilionária da L’Oréal, Liliane Bettencourt. Sarkozy foi acusado de ter se aproveitado de sua senilidade mental para obter doações acima do teto legal e financiar sua campanha presidencial de 2007. A denúncia contra o ex-presidente nesse processo foi arquivada em 2013.

TRÁFICO DE INFLUÊNCIA – Azibert também teria tentado influenciar o julgamento de seus colegas magistrados. Em troca, Sarkozy teria prometido ajudá-lo a conseguir um cargo altamente cobiçado no Conselho de Estado de Mônaco.

Se condenado, o ex-presidente pode ter de cumprir uma pena de prisão de até dez anos e multa máxima de 1 milhão de euros (R$ 6,4 milhões).

O ex-presidente nega todas as acusações. Segundo os promotores, o recuo do então presidente foi uma indicação de soube que a linha telefônica estava grampeada.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Enquanto isso, no Brasil, um ex-presidente que montou o maior esquema de corrupção estatal do mundo, já condenado em três instâncias, continua livre, leve e solto, como diz o jornalista e compositor Nelson Motta. (C.N .)

Meio Ambiente falseia dados que Bolsonaro citou no G-20 como se fossem verdadeiros

 

Deu no G1

A política ambiental do governo Bolsonaro e os números que apontam para aumento do desmatamento e das queimadas no país têm gerado pressões internacionais e ameaças de países de boicote a produtos brasileiros. O governo brasileiro vem apontando interesses comerciais nas críticas e que elas têm objetivo de prejudicar produtos nacionais, especialmente os ligados ao agronegócio.

No discurso no G-20, sexta-feira, Bolsonaro voltou a atacar os críticos. Afirmou que o Brasil, com sua produção agrícola e pecuária, alimenta “quase um bilhão e meio de pessoas” enquanto mantém mais de 60% do território preservado, e que os ataques ao país partem de “nações menos competitivas” no agronegócio.

DISSE BOLSONARO – “Ressalto que essa verdadeira revolução agrícola no Brasil foi realizada utilizando apenas 8% de nossas terras. Por isso, mais de 60% de nosso território ainda se encontra preservado com vegetação nativa. Tenho orgulho de apresentar esses números e reafirmar que trabalharemos sempre para manter esse elevado nível de preservação, bem como para repelir ataques injustificados proferidos por nações menos competitivas e menos sustentáveis”, afirmou.

Na verdade, a agropecuária foi responsável por 90% da perda de vegetação natural do Brasil, aponta os especialistas. O engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador da ONG Mapbiomas, diz que na verdade o Brasil ainda tem 67% do seu território com vegetação nativa, considerando o que está degradado e que está regenerando.

“A gente estima que, desse total [de vegetação nativa] que existe no Brasil, pelo menos um terço já foi desmatado alguma vez ou já foi fortemente degradado. Então o número correto seria mais ou menos alguma coisa como 45%, 50%” – Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas. Como o G1 mostrou na série Desafio Natureza, mesmo áreas que deveriam contar com preservação garantida em demarcação sofrem com desmatamento.

VEGETAÇÃO NATIVA – O especialista em gestão ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Raoni Rajão, também rebate a afirmação.

“É errado dizer que mais de 60% do Brasil estão preservados. Mais de 60% do Brasil estão com vegetação nativa. E isso inclui, por exemplo, os pampas, onde você tem pecuária. Isso inclui os campos gerais onde também há pecuária. Inclui, por exemplo, todas as áreas florestais onde tem extrativismo”, diz Rajão.

“Quando uma área é de preservação, voltada para a preservação integral, isso significa que ela não pode ser explorada para fins econômicos. E as unidades de conservação de proteção ambiental integral alcançam apenas 9,9% do território nacional, segundo um levantamento da UFMG, com dados de ICMBio, Incra, Funai, SFB e MMA.

DADO DISTORCIDO – Sobre a fala de Bolsonaro de que a revolução agrícola no Brasil “foi realizada utilizando apenas 8% de nossas terras”, o professor Raoni Rajão diz que o dado é “distorcido”, porque está levando com conta apenas as áreas que são cultivadas e desprezando as pastagens..

“De fato, por volta de 8% a 10% do território nacional são usados para culturas agrícolas, soja, milho etc. Mas você precisa somar mais uns 20% das áreas voltadas para a pecuária. Então falar que foi 8% que deu independência alimentar para o Brasil é errado. E os outros 20% da pecuária?”, questiona Rajão.

‘FIRME COMPROMISSO’ – Em outro ponto do discurso, Bolsonaro disse que o governo brasileiro “mantém o firme compromisso de continuar a preservar nosso patrimônio ambiental” e de “buscar o desenvolvimento sustentável em sua plenitude, de forma a integrar a conservação ambiental à prosperidade econômica e social.”

Ele defendeu o esforço dos países na redução das emissões de carbono, que são responsáveis pelo processo de aquecimento global. E afirmou que o Brasil tem “a matriz energética mais limpa entre os países integrantes do G20” e responde hoje “por menos de 3% da emissão de carbono” apesar de ser “uma das 10 maiores economias do mundo.”

“O que apresento aqui são fatos, e não narrativas. São dados concretos e não frases demagógicas que rebaixam o debate público e, no limite, ferem a própria causa que fingem apoiar” – Jair Bolsonaro

EMISSÃO PER CAPITA – Tasso Azevedo aponta que o percentual de 3% de emissão de carbono é um fato, mas ele isoladamente não credencia o Brasil como um bom exemplo. O especialista aponta a comparação da emissão média per capita: a do mundo é de 7,1 toneladas de CO² e a do Brasil é de 10,4 toneladas de CO².

“Falar que a gente tem 3% das emissões globais, embora seja uma das 10 maiores economias, não quer dizer absolutamente nada. Basta pegar o tamanho do nosso PIB versus o PIB global, é muito menos do que 3%. (…) O que importa é a emissão per capita – a emissão per capita do Brasil é maior do que a do mundo. A gente ajuda a piorar a média do mundo, não o contrário”, diz  Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.

No mais recente levantamento do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), divulgado pela organização não-governamental Observatório do Clima (OC), foi verificado que as emissões dos gases do efeito estufa no Brasil aumentaram 9,6% em 2019, em comparação com 2018.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Os especialistas ouvidos pelo G! demonstram um fato revoltante e inadmissível – o presidente Bolsonaro está sendo iludido com dados facciosos que lhe são fornecidos pelo Ministério do Meio Ambiente e pela assessoria do Planalto. O resultado é que o presidente brasileiro está se apresentando ao mundo como um idiota completo, que não sabe o que está dizendo. Nenhum setor do governo pode manipular estatísticas e iludir o chefe da Nação. É uma situação vexatória, que precisa acabar imediatamente(C.N.)

Impostos não pagos por milionários e empresas custam “uma reforma da Previdência” por ano


Charge do Tiago Recchia (Arquivo Google)

Thais Carrança
BBC News Brasil

O Brasil deixa de arrecadar por ano em impostos não pagos por multinacionais e milionários o equivalente à economia média anual esperada pelo governo com a reforma da Previdência, aponta estudo inédito divulgado na quinta-feira (19/11) pela Rede de Justiça Fiscal (Tax Justice Network).

Segundo o levantamento, são US$ 14,9 bilhões (cerca de R$ 79 bilhões ao câmbio atual) em impostos que deixam de ser recolhidos pelo país por ano. A economia estimada pelo governo com a reforma da Previdência é de R$ 800,3 bilhões em uma década, o que resulta em uma média anual de R$ 80 bilhões.

QUINTO DO MUNDO  – Esse valor faz do Brasil o quinto país do mundo que mais perde impostos devido à elisão (uso de manobras lícitas para evitar o pagamento de taxas, impostos e outros tributos) e evasão fiscal por multinacionais e pessoas ricas, atrás apenas dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França, conforme o estudo.

Em todo o mundo, são US$ 427 bilhões (R$ 2,3 trilhões) em impostos perdidos, sendo US$ 245 bilhões devido à transferência legal ou ilegal de lucros de multinacionais para paraísos fiscais e US$ 182 bilhões não pagos por milionários que escondem ativos e rendimentos não declarados no exterior.

Os dados fazem parte da primeira edição do relatório “Estado Atual da Justiça Fiscal”, que passará a ser divulgado anualmente.

DADOS DA OCDE – O estudo foi possível pois, pela primeira vez, em julho deste ano, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) disponibilizou ao público os dados dos chamados relatórios país a país, colhidos pela entidade nos últimos cinco anos como parte da iniciativa Beps (Erosão da base tributária e transferência de lucros tributáveis, na sigla em inglês).

Nesses relatórios, todos as multinacionais com sedes em países da OCDE e lucro acima de 750 milhões de euros (R$ 4,7 bilhões) por ano são obrigadas a reportar seus registros financeiros, com dados para cada país em que a empresa atua.

“É evidente que existe um problema de desequilíbrio das contas públicas no Brasil e um ajuste fiscal precisa ser feito, mas as propostas sempre focam no lado do corte de despesas”, afirma Gabriel Casnati, coordenador de projetos internacionais da ISP (Internacional de Serviços Públicos), entidade parceira da Rede de Justiça Fiscal na realização do estudo.

AJUSTE NA RECEITA – “O que os dados mostram é que há espaço para se pensar o ajuste através de melhorias na arrecadação”, diz Casnati.

“Os dois eixos principais para isso são reformas tributárias progressivas a nível nacional — porque hoje, no Brasil, os mais pobres pagam mais impostos, e benefícios fiscais para grandes empresas poderiam ser revistos —, e o combate à evasão e elisão fiscal, que são problemas globais, cuja solução exige coordenação internacional.”

Segundo o coordenador da ISP, o esforço de aumentar a arrecadação se torna ainda mais relevante no mundo pós-pandemia, onde os países enfrentam forte aumento de suas dívidas e déficits fiscais, devido às despesas em resposta ao coronavírus.

DÉFICIT PRIMÁRIO – No Brasil, o Ministério da Economia estima que o déficit primário (diferença entre a arrecadação e os gastos do governo, sem contar despesas com juros da dívida pública) deve chegar a 12,7% do PIB (Produto Interno Bruto) ou R$ 905,4 bilhões em 2020. Já a dívida bruta deve ir a 96% do PIB este ano, superando os 100% do PIB até 2026.

“Diversos países da América Latina, e também o Brasil, já tinham um problema fiscal muito grave antes”, diz Casnati. “A pandemia acelerou a crise, ao obrigar os Estados a gastarem mais. Governos de esquerda e direita tiveram que aumentar o gasto público emergencialmente, ao mesmo tempo em que a arrecadação caiu muito.”

COMO PAGAR A CONTA – “O grande debate para todos os países nos próximos anos será como pagar essa conta”, avalia.”Nesse sentido, é fundamental colocar na agenda do dia que grandes corporações e os 0,1% mais ricos utilizam mecanismos legais e ilegais para transferir dinheiro para fora e isso drena recursos do país. Independentemente da ideologia, os políticos deveriam estar preocupados em resgatar esse dinheiro, como forma de que a população pague menos a conta da crise.”

A título de comparação, o estudo estima que a perda de arrecadação do Brasil com impostos não pagos por multinacionais e milionários são equivalentes a 20% do orçamento do país destinado à saúde ou ao salário anual de mais de 2 milhões de enfermeiros.

Assim, a Rede de Justiça Fiscal e seus parceiros na elaboração do relatório fazem algumas recomendações para que esse quadro de perda de arrecadação possa ser mitigado.

GANHOS EXCESSIVOS – A primeira delas é que seja introduzido pelos governos um imposto sobre multinacionais que estão obtendo ganhos considerados “excessivos” durante a pandemia, como as gigantes digitais globais.

Uma segunda recomendação é a introdução de um imposto sobre a riqueza para financiar o combate à covid-19 e tratar as desigualdades de longo prazo exacerbadas pela pandemia.

Por fim, as entidades defendem que a discussão sobre um padrão internacional para a tributação de empresas, além de medidas de cooperação e transparência fiscal, devem se dar no âmbito da ONU (Organização das Nações Unidas) e não da OCDE, já que esta entidade reúne apenas os países mais ricos.

MULTINACIONAIS – Casnati defende ainda que o projeto Beps de combate à erosão da base tributária deveria ser ampliado, para que as multinacionais reportem seus dados fiscais não só para seus países-sede, mas também para os países onde suas filiais operam.

Para ele, a declaração de registros financeiros deveria incluir mais empresas, e não somente aquelas com lucros acima de 750 milhões de euros por ano. As multinacionais também deveriam, na sua opinião, ser tributadas como entidades únicas, posto que atualmente muitas têm suas operações internacionais consideradas como entes independentes.

E, por fim, para encerrar a guerra fiscal internacional, o analista avalia que seria desejável a criação de uma taxação mínima para empresas a nível global. “Isso impediria o que acontece hoje, um leilão ao contrário em que quem dá menos [exige menos impostos] ganha e todos os países perdem arrecadação”, diz Casnati.

TAXAÇÃO MÍNIMA – Em junho deste ano, o ICRICT (Comissão Independente para a Reforma da Taxação Internacional de Empresas, em tradução livre) — grupo formado por nomes de peso da economia como o americano Joseph Stiglitz, os franceses Thomas Piketty e Gabriel Zucman, a indiana Jayati Ghosh e o colombiano José Antonio Ocampo — lançou um documento propondo, entre outras medidas, uma taxação mínima global de 25% sobre as companhias para evitar que elas busquem países de menor tributação.

À época, a proposta teve sua viabilidade questionada por alguns especialistas em tributação, diante do pesado esforço multilateral que seria necessário para colocar uma medida do tipo em prática.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – A matéria, importantíssima, foi enviada por José Vidal, um comentarista altamente intelectualizado e que entendeu bem o objetivo do blog, de discutir os temas de interesse nacional. A discussão da dívida pública deveria ser permanente, mas no Brasil ainda nem começou. (C.N.)

domingo, novembro 22, 2020

Vampiros, eles estão aqui.

 

Vampiros, eles estão aqui.

Há quem se questione por que diabos é tão difícil ser uma pessoa perfeita – boa; amorosa e que ajuda a todos sem nada esperar. Se você é um desses, não se apoquente. Como Fiódor Dostoiévski prova em “O idiota”, ser perfeito não é bom. Melhor é ser prefeito.

Por Mohammad Jamal.

A taxa de hemoglobina está à quase zero, mas vou chupar assim mesmoFodam-se! A fome, as privações dos recursos básicos para sobrevivência, o desemprego, a obscuridade sobre o futuro, as doenças e a má assistência social e médica prestadas pelo município e Estado, as incertezas sobre quem sobreviverá ou não a essa doença devastadora e como a família irá se sustentar à ausência do seu provedor. Tudo isso ligado ao caos político-administrativo, à roubalheira e malversação do dinheiro publico do Estado brasileiro por mãos sujas. Como se manter ou sobreviver a esse estado de incertezas administrado por incompetentes expertos? Falar ou criticar o cidadão carente porque vota errado é fácil, quando toda a culpa e responsabilidade recaem nas mãos despreparadas dos políticos, ou melhor, bem preparadas, no sentido inverso do bem do povo. Estamos chegando a uma situação onde não vemos sequer uma luzinha no fundo do túnel, embora desconfiemos que lá no fundo tenha muita gente enriquecendo criminosamente à custa de vidas da população vampirizada pelos bandos e revoadas de hematófagos alados em seus jatinhos de luxo.

A dança dos Vampiros – Dormentes em seus currais, eleitores insistem em não acreditar ou temer os Dráculas, embora percebam que são diariamente chupados e drenados do próprio sangue nas suas jugulares já cheias de cicatrizes, tipo as veias dos drogados. Ainda se fossem somente sanguessugas, mas são seres alados, grandes, gordos, rotundos, poderosos, influentes; em sua maioria, com foro privilegiado ou com parceiros poderosos nos três poderes. E lá vamos nós como aquelas crianças da caatinga nordestina que comem muito barro, calangos, ratos jupati, preás, abatidas a pedradas. Barrigas dilatadas e enormes, opados e anêmicos, pés rachados e olhos tristes, desacolhidos do frio invernal, insaciados na fome crônica sob os mantos impassíveis da exclusão e do abandono. “Meu povo!”. “Trago comigo a solução de todos os seus problemas sociais…” Quiçá um falo longo e grosso pra atochar fundo “em nóis”.

Não… Não. Cunilíngua não, por favor! E esses boquetes venoso-financeiros não ocorrem apenas em São Paulo, Brasília, Bahia, Ilhéus; predominam em todo Brasil. Os desvios de conduta, as roubalheiras, etc. deixaram de constituir ocorrências episódicas e passaram a predominar como metodologia única no cotidiano do exercício das praticas políticas mais corriqueiras. Todos a querem montar, plantar sua semente danosa, seu DNA corrupto no útero financeiro do Brasil, fazer sua poupança rendosa, um lucrinho besta de alguns milhões de reais. Política é um negócio da China. Viram o Covid-2? Temos hordas de políticos, empresários, servidores e intrujões parceiros cagando sangue fresco e dinheiro – no sentido analógico, claro – indiferentes, alegres e faceiros a despeito do ceifador de vidas, sobrecarregado, estar a fazer horas extras para cumprir as cotas de óbitos exigidos nas contrapartidas das verbas milionárias. Bandidos conscientes e seguros de que a Jihad de justiça jamais os atingirá, viraram ricos, literalmente podres de ricos!

Se contraírem a Covid serão levados de jatinho para o Sírio, o Albert Einstein, o Copa D’or! A política no Brasil, como julgam alguns, não vive um momento atípico, conforme demonstram o estranhamento e a indignação de todos os brasileiros com fatos recentes reprisados da nossa história pregressa. Apropriar-se de forma espúria do erário público em benefício próprio passou a ser algo tão trivial quanto ignorar a existência das ações do MP, das judicaturas e suas resultantes, os ternos desdobramentos da nossa Justiça. Tudo acaba bem resolvido para as partes com uma bem articulada Delação Premiada. “E, por estarem justas e convencionadas as Partes assinam o presente Acordo em duas vias idênticas, cada uma sendo tratada como um original, as quais conjuntamente constituirão um único documento original e que poderão ser transmitidas por fac-símile ou por correio eletrônico, juntamente com as testemunhas abaixo arroladas.” Como já foi dito por Lavoisier, “Neste mundo nada se perde” e, lá se vão eles fagueiros saltitando a caminho das suas mansões faustosas e seus retiros nos Alpes suíços cumprir suas penas taliônicas, restritos a caviar beluga e Château Mouton Rothschild de R$10.500 uma garrafa, seguida de um bom Puro cubano.

Virou o Cabaré do “Pau nun Cessa” de Carangola?  Estamos vivenciando um estado de consensualidade, condescendência e mútuas tolerâncias que, juntas, tornam impossível separar réus de vítimas; acho que somos todos, povo e políticos, réus na materialidade dessa montanha de delitos, quando uma das partes, a dos chupados, deveria ser apenas de idiotas bem comportados. Explico; não um simples idiota, mas aquele Idiota personagem central do romance soberbo, quase um épico, de Dostoievski “O Idiota”, ou mais simplesmente o Príncipe Liév Nikolaevich Míchkin (ou apenas Príncipe Míchkin). O título de príncipe é apenas um título: o jovem de 27 anos é um órfão sem quaisquer recursos e fora criado por pura bondade de um tutor. Portador de epilepsia, o príncipe passou quase toda a vida em um sanatório na Suíça. Como parte do preconceito da sociedade da época pela sua doença, o jovem é tido como um verdadeiro idiota, tratado por todos como o bobo da corte. Sua doença, sua pureza, sua total falta de malícia e sem o hábito do convívio em sociedade, tudo contribui para que seja ridicularizado constantemente. Embora tenha lido livros e se expresse de maneira perfeitamente clara, o príncipe é tratado como um verdadeiro imbecil, à semelhança do cidadão brasileiro, aquele sem eira nem beira, os lascados. Dostoiévski questiona o que é ser “inteligente” para uma sociedade hedonista, que só se importa com a vida nas altas rodas, dinheiro e poder: “Os inventores e os gênios, no início de sua trajetória (e muito amiúde também no final), não eram vistos quase sempre pela sociedade senão como imbecis- essa era a observação mais rotineira, por todos conhecida demais.”. (DOSTOIÉVSKI, 1868, pg. 368).

O “sistema” é bruto. Há quem se questione por que diabos é tão difícil ser uma pessoa perfeita – boa; amorosa e que ajuda a todos sem nada esperar. Se você é um desses, não se apoquente. Como Fiódor Dostoiévski prova em “O idiota”, ser perfeito não é bom. Melhor é ser prefeito. A ideia de Dostoiévski era retratar um homem perfeito, cheio de empatia por todo mundo e capaz de entender todos em um mundo de pessoas más de índoles sujas. Tal como vivenciamos o “sistema” no Brasil em pleno século XXII, onde pessoas más locupletam-se de verbas públicas destinadas a respiradores para UTI; para medicamentos críticos para intubações, verbas para montagem de superfaturados Hospitais de Campanha, para compra de testes diagnósticos laboratoriais, etc. e ate aqueles outros, ratos com salários de seis mil reais, servidores públicos que, com ajuda dos subterfúgios da falsidade ideológica, cadastraram-se no Programa de Ajuda Emergencial de 600 merrecas destinadas àqueles sem salario, que tem apenas a fome como legado junto com a família.

Eu descreveria aqui por horas os sofisticados estratagemas usados por gente rica, política e má, para enriquecerem mais à custa da pandemia. Eu ficaria chato e redundante, porquanto as imprensa e mídias diversas propalam em manchetes garrafais os descaminhos praticados por aqueles que deveriam ser exemplo, mas gente má, vampiros, lobisomens, hematófagos; sedentos, comem avaros até os farelos insignificantes dos centavos. Nós somos apenas idiotas. Mas neste mundo caótico e mesquinho, vale a pena ser um homem bom e, pagar pelos pecados de todos? Se você não concorda, então apresente sua versão!

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.

www.blogdogusmao.com.br

Transcrevo esse artigo que também poderá servir de orientação para os aculturados que comparam Jesus com Genésio.

 

Cacá Colchões e a promessa de 11 mil empregos

Cacá reedita a velha tática dos empregos futuros.

Por Emilio Gusmão.

O pré-candidato a prefeito de Ilhéus, Cacá Colchões (PP), desenvolveu de maneira considerável a capacidade de oratória. A voz aguda, cujo tom destoa do grave jabista, ganhou boa dicção, fôlego e convicções.

A respiração no ritmo normal é digna de nota, pois Cacá sofreu durante 20 dias num leito hospitalar. Contaminado pelo SarsCov-2, foi internado em leito de UTI como medida preventiva.

Recuperado, Cacá encheu-se de otimismo e tem feito várias promessas sem gaguejar. Uma em especial instigou o meu senso crítico.

Em plena crise sanitária, com a economia em crise e sem perspectiva de retomada, o candidato promete gerar 11 mil empregos, em 8 anos, por meio de um parque industrial que seria instalado no limite territorial com Itabuna, numa área que faz parte da Fazenda Primavera.

Observadores atentos do panorama econômico brasileiro destacam que nos últimos 30 anos, o setor industrial vem diminuindo sua importância no Produto Interno Bruto (PIB). O país passa por um processo de reprimarização que notabiliza o agronegócio e a exportação de commodities como fontes da riqueza nacional.

O pensamento econômico neoliberal, digno de minha repulsa, mas vigente, também estabeleceu um paradigma chamado “custo Brasil”. Por essa ótica, a atividade empresarial não cresce como deveria no país devido ao valor da mão de obra. Empregos formais oneram as grandes empresas, que sem alternativa interna, procuram outros territórios cujas leis trabalhistas foram precarizadas e permitem maior exploração da força de trabalho humana. Na América do Sul, o Paraguai tem se destacado como exemplo do modelo chinês, com um atrativo a mais: energia elétrica de custo mais baixo propiciada pela Usina de Itaipu.

Outra constatação que joga por terra o devaneio eleitoral de Cacá é a Quarta Revolução Industrial. Pelo mundo afora, o chão de fábrica deixou de ser o ambiente típico do trabalho contemporâneo e as indústrias já não empregam na mesma proporção de antes.

Segundo Klaus Schwab, consultor do Fórum Econômico Mundial, em 1990 as três maiores empresas de Detroit (EUA) possuíam capitalização de mercado combinada (CMB) de US$ 36 bilhões, faturamento US$ 250 bilhões e 1,2 milhão de empregados. Já em 2014, as três maiores empresas do Vale do Silício (também nos EUA) possuíam CMB de US$ 1,09 trilhão, faturamento US$ 247 bilhões e bem menos empregados, 137 mil.

Há outros argumentos fáticos que vão de encontro à promessa do candidato progressista. Um em especial fundamenta a instalação de parques industriais em territórios interioranos: a existência de matrizes econômicas locais capazes de sustentar a atividade industrial e de gerar uma nova e ampla cadeia de produção.

Quais matrizes peculiares a Ilhéus seriam capazes de fomentar a proposta de Cacá? Quando fala sobre a ideia, ele não explica essa condição indispensável.

Ao prometer a ampliação do mercado de trabalho sem demonstrar condições de viabilidade, Cacá atende uma exigência das pesquisas de opinião que colocam o emprego como desejo principal do morador de Ilhéus.

Ao propor a instalação de um parque industrial, Cacá veste uma roupa nova na antiga Zona de Processamento de Exportação (ZPE) prometida por Jabes Ribeiro e Isaac Albagli na década de 80 do século passado. A proposta lembra também a “nova” Avenida Soares Lopes, cujo projeto foi assinado por Burle Max, mas não saiu disso.

Só falta a maquete no Teatro Municipal de Ilhéus.

Emilio Gusmão é comunicólogo, repórter e editor deste blog, e mestre em conservação da biodiversidade e desenvolvimento sustentável (ESCAS/IPÊ).

BLOG DO GUSMÃO - Cidadania, política e sustentabilidade (blogdogusmao.com.br)


Nota da redação deste Blog - Inicio essa nota citando parte do comentário de José Mário Varjão quando diz:

Na última entrevista do prefeito reeleito, voltou a dizer que que vai trabalhar para que ocorra geração de emprego e renda em JEREMOABO, inclusive citou a NATVILLE como fonte geradora, eu particularmente gostaria de acreditar e digo: dos 4000 empregos diretos e indiretos"

(...)

"Quem prometeu e vem prometendo não conhece Jeremoabo e diagnosticar hoje, não é tarefa para amadores que sequer, sabem por onde começar."

Comparar Ilhéus  a Jeremoabo seria até covardia, porém, levando em conta os 11 mil empregos prometidos nessa fonte inesgotável de riquezas, e os 5 mil empregos prometidos para Jurema em Flor, dará para efetuar  uma analise de forma proporcional.

Quase nada tenho acrescentar  ao artigo acima exposto, tendo em vista que o mesmo de forma clara informa o quanto está difícil e quase impossível criar empregos.

Se para Ilhéus cidade turística  com inúmeros  hotéis, bons restaurantes, boas praias, bom comércio, com diversidade de matéria prima e mão de obra especializada, aeroporto, porto,  está sendo impossível criar 11 mil empregos, o que dizer de Jeremoabo criar até mais de 5 mil?

Só mesmo quem gosta de ser enganado, ou então os "sem noção"  que ainda acreditam em " ouro de tolo".


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