domingo, abril 20, 2025

Anistia mascarou violências na história antes de virar bandeira de Bolsonaro, dizem pesquisadores

Foto: Gabriela Biló/Folhapress/Arquivo
Deputados no Aeroporto de Brasília recolhem assinaturas para Anistia19 de abril de 2025 | 16:28

Anistia mascarou violências na história antes de virar bandeira de Bolsonaro, dizem pesquisadores

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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), se volta ao passado ao manifestar apoio à anistia aos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, bandeira do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), réu sob a acusação de tentativa de golpe.

Em protesto bolsonarista no início do mês na avenida Paulista, em São Paulo, ele comparou a anistia a um remédio político conhecido e pressionou o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), a votar a matéria, enumerando alguns episódios históricos em que o perdão fora concedido.

Uma pesquisa feita pela Agência do Senado no acervo do Congresso mostra que o recurso da anistia já foi empregado 80 vezes ao longo do tempo, incluindo em momentos como a Independência, a Revolta da Chibata e o fim do Estado Novo.

O recorrente emprego do perdão como saída política, afirmam especialistas, está ligado à dificuldade que a população tem de enfrentar crises e punir quem se deve, numa tendência de pacificação.

“Uma anistia agora mostraria que é possível tentar dar um golpe e nada acontecer”, diz Paulo Ramirez, professor de ciências sociais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). “A impunidade é um recado de que um golpe contra a democracia pode ocorrer sem consequências.”

Na visão de Ramirez, a tendência ao perdão está ligada ao conceito de cordialidade, tal como desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda em sua obra clássica “Raízes do Brasil”, publicada em 1936. O autor emprega a palavra cordialidade, cuja origem etimológica latina remonta ao que é próprio do coração, para criticar o traço comportamental brasileiro de mascarar a violência cotidiana, sempre com uma atitude carismática e afetuosa.

Não à toa, o especialista diz que o processo de redemocratização foi conservador. Embora a Lei da Anistia, promulgada em 1979 no governo João Batista Figueiredo, tenha possibilitado a volta de exilados políticos ao país, o perdão se estendeu a militares que torturaram e mataram —e nunca foram punidos.

A cordialidade, que se manifesta em uma postura conciliatória, reside na ambiguidade dessa lei. “A redemocratização varreu para debaixo do tapete todos os crimes humanitários da ditadura, e mesmo partidos do regime militar passaram a atuar em plena democracia”, afirma Ramiro.

Nesse aspecto, a proposta da base bolsonarista na Câmara é bem diferente. Nela, não há ambiguidade, porque beneficia um único grupo social. Em contraste, a Argentina condenou mais de mil pessoas por crimes cometidos na última ditadura, de 1976, como foi mostrado, há três anos, no filme “Argentina: 1985”, do diretor Santiago Mitre.

A história da anistia no Brasil se iniciou no dia 7 de setembro de 1822. O Imperador Dom Pedro 1º perdoou todos que tinham opiniões contrárias à Independência, com exceção daqueles que já estavam presos. Do mesmo modo, a medida impôs uma única restrição: quem continuasse contra a Independência seria punido.

Décadas mais tarde, a República Velha seria marcada por sublevações sociais, a maioria delas resolvida com o pacto conciliatório.

Nessa época, o jurista Rui Barbosa, cumprindo mandatos como senador, surgiu como um defensor e teórico da anistia. Ele apresentou, por exemplo, a proposta de perdão a quem se envolvera na Revolta da Vacina, marcada pela reação popular contra a política sanitária do ex-presidente Rodrigues Alves. Barbosa também atuou pelo perdão aos marinheiros da Revolta da Chibata.

“A anistia não é senão o olvido do passado absoluto. Nem a história, nem o direito, nem a política a admitem senão como preparatório a uma nova ordem das cousas”, dizia o jurista.

Liderada por João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, a Revolta da Chibata foi motivada pelos castigos físicos contra os oficiais da Marinha, mesmo depois da escravatura.

O perdão concedido pelo ex-presidente Hermes da Fonseca mascararia a violência: o grupo de revoltosos foi preso e muitos deles mortos. Felisberto foi internado num manicômio.

Quatro décadas mais tarde, Getúlio Vargas empregaria o perdão a serviço de suas pretensões continuístas. No fim do Estado Novo, anistiou todos os presos políticos durante a sua ditadura, incluindo integrantes da Intentona Comunista e do Levante Integralista.

Vargas foi deposto em outubro de 1945, por um movimento militar, liderado por generais que integravam seu governo. Para a pesquisadora Maria Clara Spada de Castro, da UFRRJ, (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), cada anistia tem um significado político distinto, a depender do momento histórico.

Embora reconheça a tendência conciliatória, a pesquisadora lembra que não seria a primeira vez que oficiais do Exército seriam punidos, caso não haja agora anistia aos acusados de estarem entre os mentores dos ataques de 8 de janeiro.

Afinal, a Revolta Paulista de 1924 reuniu integrantes do chamado tenentismo que desejavam depor o então presidente Artur Bernardes, porque estavam insatisfeitos com os rumos do governo. A especialista afirma que, na ocasião, parte dos militares foi condenada e punida pela revolta. “A maioria dos punidos era de baixa patente, porque os mais poderosos conseguiram fugir”, diz Castro.

Na visão da pesquisadora, o que permanece na história brasileira é a dificuldade de se estabelecer limites entre os militares e os poderes democraticamente instituídos. “Nós nunca conseguimos resolver de fato a questão militar no país”, afirma Castro. “Esses limites não foram bem delimitados, e a Lei da Anistia, de 1979, nos atrapalhou muito nesse sentido.”

Gustavo Zeitel, Folhapress

PoliticaLivre 

PT pede urnas eletrônicas ao TSE e analisa voto por celular em eleição do partido

 Foto: Agência Brasil /Arquivo

Humberto Costa, senador e presidente do PT19 de abril de 2025 | 17:30

PT pede urnas eletrônicas ao TSE e analisa voto por celular em eleição do partido

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O PT solicitou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) o empréstimo de urnas eletrônicas para a realização da eleição interna para escolher o presidente do partido, em julho.

O presidente interino da legenda, senador Humberto Costa (PE), e a tesoureira, Gleide Andrade, se reuniram no final de março com a presidente da corte, ministra Cármen Lúcia. O tribunal ainda não deu resposta sobre a solicitação.

O partido avalia também outros métodos de votação. Um dele é o modelo seguido pela seção paulista da OAB no ano passado, em que a eleição foi feita por um aplicativo próprio de celular.

A expectativa é de que entre 200 mil e 300 mil petistas participem da eleição, em cerca de 3.000 municípios.

Fabio Zanini, FolhapressPoliticalivre

Ex-assessor de Bolsonaro pede permissão para circular por Brasília sem punição

 Foto: Agência Senado/Arquivo

O ex-assessor de Assuntos Internacionais da Presidência Filipe Garcia Martins19 de abril de 2025 | 18:58

Ex-assessor de Bolsonaro pede permissão para circular por Brasília sem punição

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A defesa do ex-assessor de Assuntos Internacionais da Presidência Filipe Garcia Martins pediu permissão ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para circular livremente por Brasília entre segunda-feira, 21, e a quarta-feira, 23. A defesa de Martins também quer que ele não perca a liberdade condicional caso seja fotografado ou gravado por profissionais da imprensa.

Nesta quinta-feira, 17, Moraes permitiu que Filipe Martins possa acompanhar presencialmente o julgamento da Primeira Turma do STF na próxima terça-feira, 22. Neste dia, o colegiado vai começar a julgar se aceita a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ex-assessor e outras cinco pessoas por participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

Moraes garantiu a presença de Filipe Martins no julgamento e o autorizou a “se deslocar tão somente entre aeroporto, hotel e o local da sessão de julgamento”. O desembargador Sebastião Coelho, que defende o ex-assessor, argumenta que ele deve ter o direito de circular pela capital federal, mas se resguardar no período noturno.

“Com o devido respeito, tal formulação impõe uma restrição mais severa do que aquela já observada pelo Requerente em sua comarca de origem (Ponta Grossa-PR), onde cumpre medida cautelar de recolhimento domiciliar noturno, com monitoramento eletrônico, mas com possibilidade de circulação durante o período diurno dentro dos limites da comarca”, disse Coelho.

Segundo o desembargador, caso Martins fique limitado a transitar entre o aeroporto, o hotel e o STF, o ex-assessor poderá ser submetido a “constrangimentos operacionais e jurídicos desnecessários, inclusive no acesso à alimentação, cuidados pessoais, reuniões com a defesa técnica ou deslocamentos imprevistos”.

Ao ganhar o direito à prisão domiciliar, em agosto do ano passado, Martins teve que seguir medidas cautelares como o uso de tornozeleiras eletrônicas e a proibição de conceder entrevistas e a proibição de utilizar redes sociais, com uma multa de R$ 20 mil por publicação feita por ele.

O advogado de Filipe Martins pediu a Moraes que não o puna por “imagens, vídeos ou registros” feitos por pessoas comuns ou profissionais de imprensa. No último dia 7, o ministro do STF multou o ex-assessor em R$ 20 mil por ele aparecer em uma publicação de Sebastião Coelho feita em outubro do ano passado.

“Que seja integrada e esclarecida a decisão, com a inclusão expressa de ressalva quanto à responsabilização do Requerente por imagens, vídeos ou registros feitos por terceiros, inclusive profissionais da imprensa, para que tais exposições involuntárias não sejam interpretadas como violação das medidas cautelares impostas, sobretudo diante da publicidade inerente ao julgamento e da impossibilidade fática de controle sobre a circulação de registros audiovisuais em ambiente digital”, solicitou o defensor.

Martins passou seis meses preso preventivamente durante a condução do inquérito dos atos golpistas. A justificativa foi de que ele teria tentado fugir do Brasil para escapar da investigação. O nome do ex-assessor constou em uma lista de passageiros do avião presidencial que decolou para Orlando, nos Estados Unidos, em 30 de dezembro de 2022. A defesa, posteriormente, defendeu que ele não embarcou e estava no Brasil naquele dia e o ex-assessor foi solto.

A PGR imputou a ele a confecção de uma das minutas do golpe, aquela que previa prender Moraes, o também ministro do STF Gilmar Mendes, além do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), então presidente do Senado.

Além de Martins, a Primeira Turma do STF vai decidir, a partir das 14 horas da terça, se aceita a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Fernando de Sousa Oliveira, Marcelo Costa Câmara, Marília Ferreira de Alencar, Mário Fernandes e Silvinei Vasques.

O Estado de S. PauloPaulo Afonso

Fã de Hugo Chávez, Glauber Braga ganhou cargo da mãe e teve atrito com Romário

 Foto: Glauber Braga no X/Arquivo

O deputado federal Glauber Braga (PSOL) ao lado do ditador venezuelano Hugo Chavez, morto em 2013, durante a posse de Dilma Rousseff na Presidência da República, em 201120 de abril de 2025 | 07:37

Fã de Hugo Chávez, Glauber Braga ganhou cargo da mãe e teve atrito com Romário

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Em um dos inúmeros embates da ex-prefeita de Nova Friburgo (RJ) Saudade Braga (PSB) com vereadores, seu filho, Glauber Braga, decidiu gravar os pedidos feitos pelos adversários que dificultavam o mandato da mãe.

A exposição pública de rivais gerou investigação e burburinho na cidade e mostra, para Fábio Gripp, assessor do deputado federal do PSOL, como Glauber atua em situações de enfrentamento, expondo o que considera erros de adversários.

Nos últimos anos, Glauber ganhou projeção ao fazer embates públicos com Sergio Moro (União Brasil), Eduardo Cunha (MDB) e Arthur Lira (PP). O estilo se tornou motivo incômodo na Câmara dos Deputados, onde enfrenta processo de cassação por agredir um militante do MBL (Movimento Brasil Livre).

Na última quinta (17), Glauber encerrou greve de fome que durava oito dias contra a abertura do processo de cassação. A decisão foi tomada após o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), suspender o caso por dois meses.

Os enfrentamentos marcaram a nacionalização do perfil de atuação política do deputado, antes mais vinculada à sua origem na Região Serrana fluminense.

Filho de um casal de médicos brizolistas, Glauber acompanhava na juventude a mãe na Câmara Municipal. Assim que foi eleita prefeita, em 2000, Saudade nomeou o filho, aos 18 anos, como assessor em uma subprefeitura da cidade.

“Ele assistia à articulação política e vivia o brizolismo dentro de casa. Foi uma liderança que surgiu domesticamente, mas tão logo iniciou o governo, propiciou essa afirmação trabalhando nos bairros”, disse Gripp, que o acompanha desde os primeiros passos na política.

A primeira candidatura de Glauber para a Câmara, pelo PSB em 2006, foi durante o mandato da mãe. Atraiu quase 40% dos votos da cidade, mas os 51 mil recebidos o deixaram na suplência. Ele assumiu uma cadeira em 2009, após a nomeação do ex-deputado Jorge Bittar (PT) para uma secretaria no Rio de Janeiro.

Assim que chegou ao Congresso, comentou sobre a trajetória ligada à mãe e os cargos na prefeitura, onde foi secretário de Governo entre 2007 e 2008. A prática do nepotismo foi proibida pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em agosto de 2008, após as nomeações de Glauber, mas sempre foi criticada pela esquerda.

“Se você considerar que nepotismo é empregar parente, foi um caso. Mas se a definição for dar emprego a pessoas que não têm condições de exercer a tarefa, não é nepotismo. Não sou a favor de tirar a possibilidade de pessoas com vocação para fazer essas tarefas”, respondeu ao jornal O Globo, em 2009.

Foi reeleito em 2010, ainda com votação concentrada em Nova Friburgo, e focou o segundo mandato no acompanhamento dos investimentos na Região Serrana após o desastre climático de 2011. Ele foi um dos que tiveram a casa destruída na tragédia que matou mais de mil pessoas.

No segundo mandato, começou a galgar posições dentro do PSB. Foi um dos artífices da intervenção do Diretório Nacional da sigla no Rio de Janeiro. Acusou o então presidente regional, Alexandre Cardoso, de agir “como um laranja” do ex-governador Sérgio Cabral, por indicar nomes para filiação ao PMDB em vez da própria agremiação.

“Glauber sempre foi muito impulsivo”, disse Cardoso.

O deputado assumiu o comando do partido ao lado do então deputado Romário. Atuou na campanha de Eduardo Campos à Presidência e coordenou o desembarque da gestão Cabral. Glauber foi reeleito em 2014 com sua maior votação já registrada (82 mil votos). Em Nova Friburgo, teve mais de 60% dos votos.

No ano seguinte, rompeu com Romário e o PSB. Ficou na sigla até setembro de 2015, quando foi para o PSOL em razão da adesão do antigo partido ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Neste período, ganhou notoriedade ao integrar um grupo contra a atuação de Eduardo Cunha no comando da Câmara. Durante a votação do impeachment, em 2016, o chamou de “gângster”.

O ano de 2016 marcou a virada no perfil político de Glauber. Com visibilidade nacional, o deputado tentou, sem sucesso, a Prefeitura de Nova Friburgo.

“A ida para o PSOL não repercutiu bem no interior, onde a entrada do partido ainda é muito difícil”, afirma Gripp.

Em 2018, seu mapa eleitoral deu os primeiros sinais de mudança. Um terço dos 40 mil votos (metade da eleição anterior) veio da capital fluminense, superando os 10 mil registrados em Nova Friburgo (10% da cidade).

Durante a gestão Jair Bolsonaro (PL), manteve em evidência a verve contra o senador Sergio Moro, a quem chamou de “juiz ladrão” por sua atuação como magistrado na Operação Lava Jato.

Nas eleições de 2022, criticou o PSOL pela aliança com o presidente Lula. Defendeu uma candidatura própria à Presidência e se colocou à disposição para a disputa. Derrotado na sigla, quase dobrou os votos para a Câmara (78 mil), tendo quase metade de sua votação na capital fluminense. Manteve o patamar de 10% do pleito anterior em Nova Friburgo.

Foi no fim da legislatura passada que teve o principal embate com Lira. O ex-presidente da Câmara ameaçou expulsar Glauber do plenário após um bate-boca sobre a privatização da Petrobras. Desde então, os dois se viram como rivais.

O deputado do PSOL chamou Lira de “bandido” ao atribuir a ele o avanço de seu pedido de cassação, o que o ex-presidente da Câmara nega.

A vida pessoal de Glauber no período também sofreu baques. Casado com a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), teve o cunhado morto num quiosque da Barra ao ser confundido com um miliciano, em 2023. O mal de Alzheimer que acometia a mãe se agravou até sua morte, em maio de 2024.

Um mês antes da morte da mãe, Glauber agrediu Gabriel Costenaro, militante do MBL, após ouvir dele que Saudade era corrupta. Assessores do deputado afirmam que o youtuber o perseguia há meses em agendas no Rio e atribuem os chutes e empurrões à ofensa à ex-prefeita, em estado grave da doença.

Nesta legislatura, Glauber também viu crescer o filho Hugo. O nome foi, por parte do pai, uma homenagem a Hugo Chávez, ditador venezuelano morto em 2013. Por parte da mãe, Sâmia Bomfim, uma referência a Hugo Moreno, conhecido como Nahuel Moreno, revolucionário argentino.

Italo Nogueira, Folhapress

Emendas parlamentares chegam ao exterior e pagam até ONU e psicólogos nos EUA

 Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação/Arquivo

Lula na Cúpula do Futuro da ONU20 de abril de 2025 | 07:14

Emendas parlamentares chegam ao exterior e pagam até ONU e psicólogos nos EUA

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Emendas parlamentares têm sido usadas até para pagar taxas obrigatórias do Brasil à ONU (Organização das Nações Unidas) e financiar colaboradores de consulados do país no exterior, incluindo psicólogos e advogados que atendem principalmente imigrantes brasileiras em cidades como Miami, Nova York e Boston.

Com uma parcela do Orçamento cada vez maior na mão do Congresso, o Itamaraty e o Ministério do Planejamento e Orçamento —responsável pelos pagamentos a organizações internacionais— também têm buscado verbas do Legislativo para ações fora do país.

Desde 2020, deputados e senadores destinaram R$ 19 milhões a essas ações, considerando os valores já pagos e corrigidos pela inflação, segundo dados da plataforma Central das Emendas. Elas foram executadas tanto na gestão de Jair Bolsonaro (PL) quanto na de Lula (PT).

A Folha analisou esses repasses, cuja existência surpreendeu pesquisadores, técnicos e assessores parlamentares consultados que lidam diariamente com emendas. Normalmente, os congressistas costumam mandar os recursos para obras e projetos em suas bases eleitorais.

Especialistas criticam, de forma geral, a dimensão que as emendas tomaram na última década com mudanças na Constituição feitas pelo Congresso, o que gerou uma alocação fragmentada e por vezes sem critérios dos recursos federais.

As emendas usadas no exterior são uma parte pequena do total de R$ 118 bilhões pago nos últimos cinco anos, mas também quintuplicaram na comparação entre 2020 e 2024. Nesse caso, os valores são orçados em dólares, por isso a quantia paga às vezes é maior do que o previsto (empenhado).

Quase metade do montante que terminou fora do país veio das comissões de relações exteriores do Congresso. A pedido do governo, em 2023, o grupo do Senado dividiu cerca de R$ 9 milhões entre a ONU e o Tribunal Penal Internacional, enquanto o da Câmara destinou seus R$ 333 mil à Organização Internacional do Café (OIC).

Segundo o Itamaraty, os repasses se referiram à “quitação das obrigações brasileiras junto a organismos internacionais, […] que é fundamental para a atuação diplomática do Brasil no cenário internacional, evitando que o país sofra constrangimentos e sanções, entre elas a perda do direito de voto”.

O Ministério do Planejamento também afirmou que “tais contribuições são classificadas como despesas obrigatórias de caráter continuado”, mas não respondeu por que precisou de emendas para quitá-las naquele ano.

Já a outra metade das emendas usadas no exterior é individual, de 26 congressistas. Sete dos dez nomes que fizeram as maiores indicações são do partido Republicanos, estando no topo da lista os deputados Maria Rosas (SP), Rosangela Gomes (RJ, licenciada) e Gilberto Abramo (MG), líder da sigla na Câmara.

A legenda diz que recebeu uma proposta do Itamaraty para colaborar com ações no exterior e que a acatou, pedindo que parlamentares atendessem à solicitação do ministério: “Desde 2020, é graças às emendas parlamentares dos deputados do Republicanos que muitas iniciativas no exterior se mantêm”, afirma.

Entre os 309 beneficiários das emendas aplicadas em outros países, além de organizações internacionais, entidades e empresas, a reportagem identificou 75 nomes próprios de prestadores de serviços que receberam R$ 2,3 milhões no período, por meio de pessoa física ou jurídica.

Segundo o Itamaraty e o Republicanos, a maior parte desses profissionais atua nos Espaços da Mulher Brasileira, projeto que surgiu em 2017 e hoje existe em nove consulados, nos EUA, na Europa e na Argentina. Na prática, são consultoras contratadas para auxiliar imigrantes brasileiras em situação de vulnerabilidade.

Além delas, as emendas ajudam a bancar ainda psicólogos e advogados das unidades, que também atendem essas mulheres. Os profissionais passam por processo seletivo local, têm contratos temporários e recebem em dólares, por horas trabalhadas. A maioria também demonstra atuar de forma privada.

A psicóloga Virna Moretti, por exemplo, foi a sétima maior beneficiada pelas emendas no exterior.

Ela recebeu R$ 280 mil no último ano, uma média de R$ 23 mil por mês, pelo Consulado-Geral do Brasil em Miami, onde a carga horária máxima é de 40 horas semanais. Com a variação cambial, o pagamento por um mês de trabalho passou de R$ 19 mil em fevereiro de 2024 para R$ 28 mil em dezembro.

Procurada, ela afirmou que tem formação nos dois países e que costuma atender casos delicados envolvendo tráfico humano, violência doméstica e outros crimes, “trabalho de extrema responsabilidade e sensibilidade”. “O valor pago por tais serviços, ao longo desse período, se manteve nitidamente abaixo da remuneração média correspondente nos EUA”, disse.

Em Nova York, as brasileiras Danielly Ortiz e Stephanie Mulcock receberam R$ 217 mil e R$ 191 mil desde junho de 2022, respectivamente, por “serviços de consultoria para o Espaço da Mulher Brasileira”. Em Boston, a empresária de marketing Juliana Ávila Lobo recebeu R$ 180 mil por “serviços de apoio administrativo, técnico e operacional”.

Um funcionário consular que não quis se identificar diz que o orçamento disponível para a política externa brasileira é insuficiente e classifica o uso de emendas como um “puxadinho”. Para ele, porém, nesse caso o dinheiro está sendo bem utilizado.

Marina Atoji, da ONG Transparência Brasil, afirma ser “surpreendente que representações consulares não tenham recursos suficientes” e também tenham que contar com emendas. “Tem se tornado comum algumas ações ou programas ficarem dependentes de emendas”, diz.

Questionado sobre por que teve que recorrer a essas verbas, o Itamaraty respondeu que as emendas apenas “reforçam a dotação orçamentária ‘assistência a brasileiros no exterior’ e permitem a ampliação e diversificação do apoio prestado às brasileiras no exterior por profissionais especializados”.

As duas deputadas que mais enviaram recursos também defendem a importância do projeto e dizem que a verba está em linha com sua atuação em defesa das mulheres.

Maria Rosas é 1ª Procuradora Adjunta da Mulher na Câmara e Rosangela Gomes, hoje secretária estadual de Assistência Social no RJ, foi presidente do grupo parlamentar de amizade Brasil-EUA e da rede de mulheres da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Júlia Barbon, Folhapress

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