quinta-feira, novembro 16, 2023

CONHEÇA OS GRUPOS ENVOLVIDOS NA GUERRA DA ABIN COM A POLÍCIA FEDERAL

 Intercept Brasil

CONHEÇA OS GRUPOS ENVOLVIDOS NA GUERRA DA ABIN COM A POLÍCIA FEDERAL

Detalhamos os bastidores das disputas políticas dentro da Abin, que colocam em risco a segurança nacional.

Paulo Motoryn

A primeira parte deste texto foi publicada originalmente na newsletter do Intercept. Assine. É de graça, todos os sábados, na sua caixa de e-mails.

UMA GUERRA DE VERSÕES sobre a operação Última Milha, deflagrada pela Polícia Federal para investigar o suposto uso ilegal de um software de geolocalização pela Abin, colocou em evidência uma disputa brutal entre órgãos de inteligência brasileiros.

Publicamente, a Agência Brasileira de Inteligência e a PF discordaram sobre a colaboração da agência com as investigações sobre o FirstMile, software israelense que teria sido utilizado para espionar autoridades e adversários do governo Bolsonaro. Internamente, guerras nos dois órgãos revelam a politização e os interesses corporativos e empresariais entranhados nas instituições.

O conflito entre Abin e PF tem em 2007 um de seus marcos iniciais. Em outubro daquele ano, o cargo de diretor-geral da agência foi ocupado, pela primeira vez, por um delegado da PF, Paulo Fernando da Costa Lacerda. No ano seguinte, as duas instituições se viram no centro da CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas.

Na ocasião, a colaboração ilegal de integrantes da Abin nas investigações da Operação Satiagraha, comandada pelo delegado Protógenes Queiroz, levaram à demissão de Lacerda – e resultaram em trocas de acusações entre membros da PF e da Abin. O então diretor de contra-inteligência da Abin, Paulo Maurício Fortunato, também chegou a ser afastado. Quinze anos depois, o mesmo Fortunato foi afastado da Abin por determinação da PF e exonerado pelo governo Lula por envolvimento no caso FirstMile. Em sua casa, a PF apreendeu 171,8 mil dólares em dinheiro vivo. Até então, ele era o número três da Abin. 

Mas Fortunato não é o único personagem do atual escândalo que protagonizou o caso das escutas clandestinas, há 15 anos. Luiz Fernando Corrêa, atual diretor-geral da Abin, era o diretor da PF e chegou a depor sobre o caso na Câmara dos Deputados.

Na ocasião, Corrêa declarou que não tinha conhecimento da parceria entre a Abin e o delegado Protógenes Queiroz, da PF. “Não houve nenhuma comunicação nas instâncias superiores da polícia deste procedimento”, afirmou.

De 2008 a 2018, os servidores de carreira Wilson Roberto Trezza e Janer Táscher Alvarenga ocuparam a direção-geral da Abin, afastando os atritos com policiais federais da agência. Nem assim as tensões arrefeceram. O empoderamento das unidades de inteligência da PF em temas que estão na guarida da Abin, como o terrorismo, seguiu incomodando a agência – que acusa os policiais de não serem qualificados para atuar com inteligência de estado. Por outro lado, a demora da agência em comunicar a PF de investigações com potencial criminoso irritava a corporação.

Em 2014, uma CPI da Câmara dos Deputados que apurou as práticas de espionagem da National Security Agency, dos Estados Unidos, contra a presidente Dilma Rousseff, do PT, apontou a desarticulação do sistema de inteligência federal como uma das fragilidades da segurança nacional. Desgastada por não ter identificado a espionagem norte-americana, a Abin perdeu espaço para a PF, que comandou as investigações do caso.

Agora, novos elementos compõem a guerra entre Abin e PF, fruto da conturbada gestão do delegado Alexandre Ramagem na agência. Com nomeações de policiais federais para cargos de comando da Abin, o hoje deputado do PL do Rio de Janeiro elevou o grau de simbiose e rivalidade entre as instituições.

Em abril de 2022, em meio a um cenário de guerra entre o corpo de servidores da Abin contra a cúpula da agência, formada majoritariamente por policiais federais, as duas principais entidades de classe de servidores se uniram e formaram a Intelis – União dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin. A nova entidade passou a ser a única a representar os servidores, congregando 1,4 mil profissionais.

A Intelis passou a emitir posicionamentos públicos sobre os principais casos que envolveram a agência a partir dali – alegando que os eventuais escândalos se deviam à má gestão de Ramagem e aos policiais. As antigas entidades evitavam se posicionar – um dos elementos apontados por agentes da Abin para seu desgaste.

O incômodo fazia sentido: não foram poucas as vezes que homens de confiança de Ramagem se envolveram em escândalos na Abin. Em dezembro de 2020, a revista Época revelou que a agência produziu relatórios para ajudar o senador Flávio Bolsonaro, do Republicanos fluminense, a buscar a anulação do caso Queiroz, em que o político era investigado pelo esquema de “rachadinha”.

Em agosto de 2022, a Polícia Federal afirmou que a Abin atrapalhou o andamento de uma investigação envolvendo Jair Renan Bolsonaro, filho mais novo do ex-presidente. Um integrante do órgão admitiu em depoimento que recebeu a missão de levantar informações de um episódio relacionado a Renan, sob apuração da PF. Segundo o espião, o objetivo era prevenir “riscos à imagem” do chefe do Executivo.

Em outubro de 2022, durante a campanha do então candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também do Republicanos, ex-ministro de Bolsonaro, o Intercept revelou que um oficial de inteligência licenciado da Abin foi quem pediu a um cinegrafista da Jovem Pan para apagar imagens do tiroteio ocorrido em 17 de outubro em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Segundo testemunhas, um segurança de Tarcísio matou um homem desarmado. Em janeiro, o inquérito foi concluído sem identificarem de qual arma partiram os tiros. 

Com a vitória de Lula, novos atores emergiram para disputar o comando da Abin e da PF. Entre eles, os novos diretores-gerais: Corrêa, da Abin; e Andrei Passos Rodrigues, da Polícia Federal. A relação entre os dois ficou praticamente inviabilizada após a Operação Última Milha. Além deles, um casal em cargos-chave da Abin e PF, whistleblowers acusados de chantagem e uma entidade de classe cada vez mais poderosa compõem a guerra entre os órgãos.

A turma do DG

Grupo pequeno liderado pelo diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa, e pelo diretor-adjunto Alessandro Moretti, ambos ex-delegados da Polícia Federal. Eles trouxeram poucos membros da PF para a alta gestão da Abin e optaram por oficiais de inteligência e servidores de carreira em cargos-chave.

Durante a transição de governo, Corrêa, escolhido por Lula e Aloizio Mercadante, se aliou à Intelis, entidade representativa de profissionais de inteligência. O delegado aposentado da PF defendeu a proposta do grupo de desvincular a Abin do GSI e de transferi-la para a Casa Civil, o que acabou ocorrendo.

O grupo de Andrei

Em guerra com Corrêa, o atual diretor-geral da PF, o delegado Andrei Passos chefiou as equipes de segurança de Lula na campanha eleitoral de 2022 e de Dilma Rousseff, em 2010. Mais tarde, foi responsável pela segurança durante a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

A relação de sua gestão com órgãos estrangeiros em operações sobre terrorismo tem irritado a Abin. Foi o caso do último dia 8, com a deflagração da Operação Trapiche, parceria da PF com o serviço secreto de Israel, órgãos de investigação dos Estados Unidos e a Interpol. 

A prisão de duas pessoas supostamente envolvidas com o Hezbollah para recrutar brasileiros para atos extremistas contra entidades judaicas pegou de surpresa a Abin – operações como essa costumam ser feitas em conjunto. Não foi o caso. A alegação entre os agentes é que a PF desrespeitou o Sistema Brasileiro de Inteligência, o Sisbin, que coloca a Abin como órgão coordenador das atividades de inteligência do Brasil. Já sob Lula, em setembro deste ano, um decreto reforçou o papel da Abin como instituição central do Sisbin.

O ministro da Justiça, Flávio Dino, indicou o delegado Andrei Passos para a direção-geral da Polícia Federal. Foto: José Cruz/Agência Brasil.

Os servidores da Intelis

Seus integrantes ascenderam no governo Lula, após a saída de policiais federais levados por Ramagem. A entidade passou a apoiar o ex-delegado Corrêa para o cargo de diretor-geral após ele advogar favoravelmente pela saída da Abin do GSI.

A Intelis defende que possíveis usos ilegais do FirstMile e de outros softwares sejam investigados, mas critica a operação da PF, alegando que foi pouco cuidadosa com dados sigilosos de agentes, informantes e operações. A entidade é contrária a uma CPI para investigar o caso por considerar que CPIs não sabem lidar com informações sigilosas. Como alternativa, sugere mais poderes à Comissão Mista de Controle da Atividade de Inteligência do Congresso Nacional.

Os filhos do Ramagem

Este grupo é composto por agentes bolsonaristas da Abin, policiais federais próximos ao ex-ministro do GSI e Alexandre Ramagem, recrutados para a agência durante o governo Bolsonaro. São apontados pela Polícia Federal como os operadores do FirstMile. Alguns deles, pós-Bolsonaro, estão na iniciativa privada. Outros retornaram à PF.

Um deles, Fabrício Cardoso de Paiva, é o mesmo oficial de inteligência envolvido na campanha de Tarcísio em 2022. De acordo com a colunista Bela Megale, ele foi um dos alvos da operação Última Milha, por suposto envolvimento com o esquema de espionagem. Segundo a jornalista, Paiva tem sido visto no Palácio dos Bandeirantes.

O grupo não apoia a atual gestão da Abin e tem trabalhado contra o diretor-geral Luiz Fernando Corrêa. Após a Operação Última Milha os possíveis exageros da PF no caso viraram combustível contra o diretor-geral Andrei Passos.

Os vazadores presos

Eduardo Izycki e Rodrigo Colli, agentes da Abin presos na Última Milha, fundaram uma empresa em sociedade, a ICCiber, e foram licenciados para atividades empresariais e acadêmicas durante o governo Bolsonaro. Alvo de processos administrativos por terem criado uma empresa em nome do pai de Izycki, eles teriam ameaçado vazar informações sobre supostas ilegalidades na Abin, como o FirstMile, para evitar a demissão.

Em julho de 2022, Izycki participou, como doutorando da UnB, de um seminário online do Instituto Lula sobre segurança cibernética, fato usado por colegas para taxá-lo de petista. Ao contrário do que foi noticiado, eles não são acusados de operar softwares espiões.

O casal da inteligência

A atual corregedora da Abin, Lidiane Souza, é casada com Elias Milhomens de Araújo, delegado da Polícia Federal que já chefiou diversas unidades de inteligência da corporação. Uma fonte da Abin disse que a prisão dos agentes Eduardo Iczyki e Rodrigo Colli é um “presente” de Milhomens à sua mulher, que acusava a dupla de ter plantado notas na imprensa contra ela e de vazar informações da agência.

ULTRAJANTE! A repórter Schirlei Alves foi condenada a um ano de prisão aberta e multa de R$ 400 mil por ter revelado no Intercept Brasil a revitimização de Mari Ferrer por autoridades judiciais em seu processo de estupro.

A reportagem levou a uma lei nacional, à censura do juiz e desencadeou um debate nacional que os membros do judiciário não querem ter. Esse é o impacto de nosso trabalho.

Agora eles querem nos silenciar. Nos ajude a resistir e a cobrir os custos legais de Schirlei e de todos os nossos jornalistas.

https://www.intercept.com.br/2023/11/14/abin-bastidores-da-guerra-com-policia-federal-apos-escandalo-de-espionagem/

Acordo China x EUA - Justiça de SC condena jornalista a prisão - O colapso de Israel e muito mais.....

 

EUA e China concordam em triplicar capacidade global de energia renovável até 2030

Em declaração conjunta, os dois países ainda se comprometeram em ampliar esforços para combater e reverter a perda de florestas. Os Estados Unidos e a China, respectivamente o maior emissor histórico de gases-estufa e o maior emissor do presente, concordaram em triplicar a capacidade global de energia renovável até 2030. Também se comprometeram em ampliar … Ler mais

JUSTIÇA DE SC CONDENA JORNALISTA A PRISÃO POR REVELAR CASO MARI FERRER

A Justiça de Santa Catarina condenou a jornalista Schirlei Alves, autora de reportagem que revelou o caso Mari Ferrer, a um ano de prisão em regime aberto por difamação contra funcionário público em razão de suas funções. De acordo com a decisão, Schirlei também terá que pagar R$ 400 mil. A informação foi divulgada inicialmente … Ler mais

NOOSFERA: A GUERRA PELA HEGEMONIA – O LADO ONTOLÓGICO DO CONFRONTO

“O mal não existe como consciência, como nos ensinam os mestres cabalistas. É sim, a maior ou menor ausência do soberano Bem (a essência divina) que gera as ilusões. Nesse sentido, o que se entende por “mal” nada mais é do que a ignorância, a maior ausência do Bem, que é a Luz da pura … Ler mais

CHINA LANÇA A INTERNET MAIS RÁPIDA DO MUNDO

Especialistas chineses de mais de 40 universidades desenvolveram uma rede entre cidades que pode transmitir dados a uma velocidade de 1,2 terabyte por segundo. A rede, entre as cidades de Pequim, no norte, Wuhan, no centro, e Guangzhou, no sul de Guangdong, é composta por aproximadamente três mil quilômetros de cabos de fibra óptica. Wu … Ler mais

O governo Lula do Brasil acaba de exigir vacinas COVID-19 para todas as crianças com mais de 6 meses de idade

“A Ministra da Saúde, Nísia Trindade, afirma que todas as vacinas contra a COVID-19 provaram ser eficazes e seguras e que a COVID-19 é uma doença evitável por vacinação.” Nota Saker Latinoamérica: Quantum Bird aqui. O que dizer sobre isto? Difícil não ser vulgar… mas enfim, há um par de semanas testemunhamos outra ministra (Ministra … Ler mais

O colapso de Israel e dos Estados Unidos

Pela primeira vez, o mundo assiste a um crime contra a humanidade ao vivo pela televisão. Os Estados Unidos e Israel, que há muito uniram forças, serão ambos responsabilizados pelos massacres em massa em Gaza. Em todos os lugares, exceto na Europa, os aliados de Washington estão retirando os seus embaixadores de Tel Aviv. Amanhã … Ler mais

EUA alertam Ucrânia que ajuda pode diminuir e expressam ressalvas sobre adesão à Otan

Capacidade dos Estados Unidos de apoiar a Ucrânia da maneira como vem fazendo está diminuindo. A adesão da Ucrânia à Otan sem a inclusão da Crimeia e de Donbas é problemática e pode potencialmente levar a um conflito com a Rússia, disse nesta quarta-feira (15) Douglas Jones, secretário assistente adjunto de Estado para Assuntos Europeus … Ler mais

Israel diz que não cumprirá resolução da ONU e decide manter ações terroristas e genocidas contra crianças palestinas

Embaixador de Israel na ONU e Ministério das Relações Exteriores anunciaram rejeição à deliberação do Conselho de Segurança: “continuaremos a agir até que o Hamas seja destruído”. Após o Conselho de Segurança da ONU, enfim, aprovar uma resolução pedindo “pausas humanitárias urgentes e prolongadas e corredores em toda a Faixa de Gaza”, autoridades israelenses afirmaram que … Ler mais

Dividido entre três nomes, Lula deve anunciar novo PGR semana que vem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve anunciar na semana que vem o novo procurador-geral da República. O cargo está vago desde o fim do mandato de Augusto Aras, em 26 de setembro. Depois de 50 dias, aliados do presidente dizem que ele ainda não decidiu quem será o sucessor na cadeira. Lula estaria em dúvida em … Ler mais

Porque os EUA precisam dessa guerra em Gaza, ou “O mundo árabe impotente para superar seu seculo de humilhação”

O Sul Global estava esperando o amanhecer de uma nova realidade árabe. Afinal de contas, as ruas árabes – mesmo quando reprimidas em seus países de origem – têm pulsado com protestos que expressam uma raiva feroz contra o massacre em massa de palestinos por Israel na Faixa de Gaza. Os líderes árabes foram forçados … Ler mais

É a economia (e a saúde), estúpido!


Giovana Girardi da Agência Pública giovana.girardi@apublica.org Cancelar inscrição

 

Ed. #33 | Quinta-feira, 16 de novembro de 2023


É a economia (e a saúde), estúpido! 


Toda semana eu penso em temas para tratar aqui nesta newsletter que fujam um pouco do noticiário – com o perdão do trocadilho – literalmente quente, em um esforço de não apenas olhar para o que aconteceu, mas de fazer uma análise mais prospectiva sobre o que está por vir. Tenho falhado miseravelmente. 

Se na newsletter passada eu comentei: “rapaz, que semana foi essa?”, agora, em meio à quarta onda de calor dos últimos meses, seria impossível uma interjeição que não contenha um palavreado inadequado. Vou poupá-los dos impropérios. Então vamos apenas com: rapaz, que semana foi essa: parte 2, turbinada.

Nem preciso repetir o que 116 milhões de pessoas que estão vivendo sob alerta máximo de calor estão sentindo na pele nos últimos dias, com temperaturas batendo recordes (e sensações térmicas beirando o absurdo), mas queria destacar um outro tipo de notícia que começou a pipocar nas últimas semanas: 


🔥 Calor faz consumo de energia bater recorde

🔥Calor começa a impactar inflação e ameaça preço de alimentos e tarifa de energia

🔥Eventos climáticos extremos e seguidos impõem prejuízo bilionário ao agro

🔥Celulares e TVs podem ficar mais caros com seca na Zona Franca de Manaus

Não é de hoje que se alerta que a crise climática, mais do que um problema ambiental, vai ser (já está sendo, na real) um baita problema econômico. Só para ficar em um exemplo mais recente, o Banco Mundial divulgou um relatório em maio calculando que eventos extremos como secas, tempestades e inundações em cidades já estão causando perdas no Brasil de cerca de R$ 13 bilhões por ano.

A estimativa é que entre 800 mil e 3 milhões de brasileiros podem ser empurrados para a extrema pobreza até 2030 em decorrência dos impactos desses eventos.

Esse tipo de estudo costuma ser bem noticiado pela imprensa, mas eu não tenho bem certeza se ele é capaz de causar um impacto nos leitores, seja porque trata de projeções futuras, seja porque faz um balanço de eventos do passado dos quais em geral ninguém lembra mais. 

A diferença para o noticiário recente me parece ser justamente o timing. Estamos reportando em tempo real a deterioração econômica e estrutural provocada pela mudança climática e pela nossa total falta de adaptação a ela. 

Veja o último exemplo que eu listo acima, do agronegócio.

 

“ Ao mesmo tempo em que o setor está alavancando o PIB do Brasil, em especial da região centro-oeste, é esta também a área do Brasil onde se estima que haverá o maior aquecimento das próximas décadas. São cidades do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul, da Bahia que estão entre as mais quentes da atual onda de calor. Não dá para imaginar que essa pujança vai se manter se o planeta continuar aquecendo.

Agora veja o círculo vicioso perigoso da questão energética. Está quente demais, impossível ter conforto térmico (e saúde, verdade seja dita) sem ar condicionado, todo mundo liga os aparelhos ao mesmo tempo, gerando um pico de consumo de energia. Bem verdade que a maior parte da nossa geração de eletricidade é por fontes renováveis, mas o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) resolveu acionar também algumas usinas termelétricas para suprir a demanda recorde. 

Bem, térmicas são movidas a combustíveis fósseis, que emitem os gases de efeito estufa, que aquecem ainda mais o planeta. E vamos nos complicando cada vez mais. Agora imagina as ondas de calor em países que não têm uma matriz elétrica limpa. É resolver o calor por um lado para piorá-lo por outro.

Seria possível buscar outras alternativas. Uma reportagem super interessante da Folha de S. Paulo mostrou como a cidade de São Paulo, ao longo dos anos, “abandonou técnicas construtivas que reduzem a exposição do interior do imóvel à luz solar e, por isso, diminuem a necessidade de sistemas de refrigeração com alto consumo de energia”.

Fora que o maior consumo e o acionamento das térmicas leva a um aumento da conta de luz, piorando a desigualdade social – conta com ar condicionado quem pode pagar. Quem não pode, não só passa calor, como pode ficar doente. No último fim de semana, a cada duas horas, uma pessoa precisou de atendimento médico na rede pública do Rio.

Os mais vulneráveis, como sempre, são os idosos. Um relatório publicado pela revista médica Lancet nesta terça-feira (14) alertou que as mortes relacionadas ao calor de pessoas com mais de 65 anos aumentaram 85% em todo o mundo na última década, na comparação com a última década dos anos 1990.

Lancet Countdown aponta que no ano passado, a humanidade esteve, em média, exposta a 86 dias de altas temperaturas potencialmente perigosas para a saúde. E estima que o número de mortes relacionadas ao aumento das temperaturas pode crescer quase 5 vezes até metade do século.

Os autores não poupam críticas à inação de governos, empresas e bancos que são acusados de “negligência” por continuar investindo em petróleo e gás ao mesmo tempo em que os desafios e os custos da adaptação aumentam e o mundo se aproxima de danos irreversíveis. Sem uma mitigação profunda e rápida para combater as causas profundas das alterações climáticas, dizem, a saúde da humanidade corre um grave risco.

No Brasil, como noticiamos esta semana aqui na Agência Pública, já estamos passando, em média, mais de 50 dias ao ano sob ondas de calor.

 

Giovana Girardi
giovana.girardi@apublica.org
Chefe da Cobertura Socioambiental

Governo não vê base jurídica para impeachment de Dino por caso Comando Vermelho

Foto: Valter Campanato/Arquivo/Agência Brasil

O ministro Flávio Dino16 de novembro de 2023 | 11:59


Governo não vê base jurídica para impeachment de Dino por caso Comando Vermelho

BRASIL

Assessores do governo Lula dizem não ver cabimento no pedido de impeachment do ministro da Justiça, Flávio Dino, em razão dos encontros de funcionários da pasta com a mulher de um líder do Comando Vermelho preso no Amazonas. A possibilidade foi mencionada por alguns deputados da oposição.

Além de rebater politicamente a acusação de envolvimento com a advogada Luciane Farias, o governo lança mão de um argumento jurídico.

Falando hipoteticamente, um integrante da gestão Lula diz que Dino só poderia ser responsabilizado judicialmente por atos que cometeu pessoalmente, mas ele nunca lidou de forma direta com Farias. Ela foi recebida no ministério por dois assessores seus.

Além disso, um hipotético processo de impeachment contra ele correria no Supremo Tribunal Federal, e não no Congresso, como deseja a bancada bolsonarista.

Fábio Zanini/Folhapress 

Política Livre

Aeronáutica esconde da PF dados de voos do crime organizado na Amazônia

 Foto: Felipe Wernek/Ibama/Arquivo

Vista aérea da Floresta Amazônica16 de novembro de 2023 | 12:41



Aeronáutica esconde da PF dados de voos do crime organizado na Amazônia

BRASIL

A Força Aérea Brasileira (FAB) divulgou em um documento que mantém um banco de dados dos voos ilegais que cruzam as fronteiras na região amazônica. No entanto, a Aeronáutica reconhece não compartilhar essas informações com outras entidades, como a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, responsáveis por investigar atividades do crime organizado. A reportagem é do portal UOL.

Fontes da PF e do Ministério Público relataram ao UOL que a FAB não atendeu a pedidos para compartilhar dados sobre voos ilegais na Amazônia nos últimos meses. Essas informações seriam essenciais para apoiar investigações e operações, incluindo aquelas realizadas em terras yanomamis afetadas por garimpos ilegais.

Voos ilegais referem-se a aeronaves que não possuem planos de voo ou que operam à margem desses planos, conhecidos como “tráfego aéreo desconhecido” (TAD). Autoridades policiais e procuradores afirmam ao UOL que tais voos estão ligados a crimes ambientais, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Para eles, a restrição ao acesso a essas informações compromete o combate a atividades criminosas.

Política Livre

Em destaque

Cordel – 02 de Fevereiro, Dia de Iemanjá

  Cordel – 02 de Fevereiro, Dia de Iemanjá Por José Montalvão No dois de fevereiro O mar se veste em oração, É dia da Rainha d’Água, Da mais...

Mais visitadas