segunda-feira, maio 08, 2023

Lula diz que Campos Neto não tem compromisso com o Brasil e elogia atuação de Meirelles Publicado em 8 de maio de 2023 por Tribuna da Internet


Entrevista foi o ataque mais forte desfechado contra Campos Neto

Pedro do Coutto

Numa entrevista à imprensa brasileira e internacional, em Londres, neste sábado, o presidente Lula da Silva afirmou que Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, não tem compromisso com o Brasil, mas com o governo Bolsonaro que o nomeou para o cargo que ocupa.

Lula assinalou também que, outro dia, Roberto Campos Neto disse que para atingir a meta de inflação na escala de 3% ao ano, a taxa de juros da Selic deve ser acima de 20%. “Está louco. Ele não está falando a verdade”, disse Lula. Reportagens sobre o pronunciamento de Lula contra Campos Neto são de Ivan Pinoti, Folha de S. Paulo, e de Vivian Oswald, O Globo, edição deste domingo.

AUTONOMIA – Lula destacou ainda que não discute sobre a autonomia do BC, mas elogiou, como exemplo de sintonização com o Palácio do Planalto, o desempenho de Henrique Meirelles ao longo de oito anos de seus dois primeiros governos.

“Eu o indiquei para o posto e duvido que esse cidadão (referindo-se a Campos Neto) tenha mais autonomia do que aquela que Meirelles teve. Mas há uma diferença, Henrique Meirelles tinha responsabilidade de estar num governo discutindo as suas preocupações com o presidente da República. Esse cidadão (Roberto Campos Neto) não tem”, afirmou.

A entrevista de Londres foi o ataque mais forte desfechado contra Roberto Campos Neto, cuja presença no Banco Central, na minha opinião, se tornou impossível. Afinal, o Brasil não pode ter à frente do Bacen alguém que confronte com o presidente da República. Essa dualidade não existe na prática. Campos Neto deveria pedir demissão imediatamente. Não tem condições políticas e morais para permanecer.

PRIVATIZAÇÃO –  Na entrevista de Londres, Lula ressaltou que também pretende entrar com uma ação no Supremo Tribunal Federal questionando a privatização da Eletrobras. Já ingressou com um recurso contra a legitimidade dos dispositivos incluídos no escândalo que fixou no máximo de 10% dos votos da União na holding , embora possua 42% das ações da empresa.

Além disso, focalizou, como assinalei na coluna de ontem, uma desigualdade estranha: se a União quiser recomprar ações da Eletrobras, terá que pagar três vezes mais o valor dos papéis no mercado financeiro. Tal dispositivo, digo, é um dos maiores absurdos ilegítimos da história da economia brasileira. Como se não bastassem esses exemplos, os diretores da Eletrobras aumentaram os seus salários de R$ 60 mil para R$ 360 mil por mês. Uma escalada de ações danosas, abusadas, ilegítimas e até inconstitucionais.  

GOOGLE –  Muito interesse o título inspirado em Milan Kundera e o texto do artigo “A insustentável levea do Google”. do jornalista José Henrique Mariante, Folha de S. Paulo de ontem. O título de Milan Kundera é a “Instável leveza do ser”. No artigo, Mariante destaca que o Google no caso da restrição às suas publicações cita sempre a liberdade de expressão.

Mas, de forma contraditória, não publica as críticas que são enviadas à plataforma contra o seu próprio desempenho. Ataca a restrição para si, sem discutir conteúdos, mas pratica a censura prévia contra os que criticam a rede social.  

REALEZA –  Na Folha de S. Paulo de domingo, Sylvia Colombo escreve sobre o fascínio que eventos como a coroação de reis e rainhas, no caso da Inglaterra, toca a sensibilidade e fascina multidões. É verdade. Na minha opinião, momentos estéticos e coloridos de pompa, característicos da monarquia, continuam influenciando e provocando emoção  em multidões.

Há pessoas que são contra a monarquia, mas todos reconhecem a beleza de acontecimentos como os da coroação da Rainha Elizabeth II, em 1952, e a de seu filho Charles III, em 2023. São formas, requintes, é a elegância e o espetáculo de uma festa deslumbrante e peculiar. Há os que se voltam contra a aristocracia, mas no fundo quase todos gostariam de fazer parte dessa escala social.

domingo, maio 07, 2023

O Tista de Deda não brinca em serviço já visitou mais uma prole dos Montalvão


 É isso ai Tista, o caminho é longo, mas quem sabe faz a hora não espera acontecer.

Na arte da estupidez, Bolsonaro é exemplo de como um político pode causar danos

Publicado em 7 de maio de 2023 por Tribuna da Internet

A Gazeta | De 'jacaré' a 'vacina do Doria': relembre frases de Bolsonaro  sobre vacinação

Bolsonaro foi garoto-propaganda dos remédios inúteis

José Casado
Veja

No meio da agonia pandêmica, em 2020, apareceu um bálsamo nas livrarias — a primeira edição brasileira do livro “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana”. Num ensaio enxuto e divertido, o historiador medievalista italiano Carlo Cipolla tateia um dos mistérios mais antigos e insondáveis da política: como e por que pessoas estúpidas conseguem alcançar posições de poder e relevância.

“Não é difícil”, escreveu Cipolla, “entender como o poder social, político e institucional aumenta o potencial que uma pessoa estúpida tem de causar danos. Mas ainda é preciso explicar e entender o que, essencialmente, torna uma pessoa estúpida perigosa para outras pessoas — ou seja, no que constitui o poder da estupidez. Pessoas essencialmente estúpidas são perigosas e prejudiciais porque pessoas racionais acham difícil imaginar e compreender o comportamento irracional.”

E DISSE MAIS – “O fato de a atividade e os movimentos de uma criatura estúpida serem absolutamente instáveis e irracionais não apenas tornam a defesa problemática, mas também fazem com que qualquer contra-ataque seja extremamente difícil — como tentar atirar em um objeto capaz dos movimentos mais improváveis e inimagináveis”, acrescentou o historiador.

A sensação de impotência diante da mortandade espalhou angústia e produziu uma expectativa planetária sobre a produção de uma vacina contra o coronavírus. No Brasil, poucas coisas mataram tanto quanto as campanhas de desinformação sobre a Covid-19 disseminadas nas redes sociais. Com frequência diária, parte das informações ruins, notícias falsas e fake news foi promovida por Jair Bolsonaro.

Muita gente perdeu tempo na tentativa de entender por que ele fazia o que fazia na Presidência da República. Repudiava a ciência como premissa da política de saúde pública. Disseminava informações fraudadas e gastava dinheiro público com “pílulas milagrosas” de cloroquina e de ivermectina para alegria dos fabricantes, cujos lucros subiram até 730%.

ATOS ESTÚPIDOS – Quando a vacina ficou disponível, passou a adiar a compra com argumentos insólitos: “A pressa não se justifica, porque você mexe com a vida das pessoas”.

Efeito notável desse desgoverno foi a desconexão com a sociedade. Ironicamente, ampla maioria do eleitorado (60%) passou a dizer nas pesquisas que não confiava naquilo que dizia o presidente, candidato à reeleição, recusando-se a segui-lo na emergência sanitária.

Aconteceu, então, um raro caso de inépcia política passada em cartório. O Supremo Tribunal Federal certificou a incompetência do governo Bolsonaro em cumprir o dever constitucional de defender a segurança sanitária da população e liberou os governos estaduais para aquisição de imunizantes e vacinação descentralizada.

ANÁLISE CIENTÍFICA – No ensaio sobre a estupidez, Cipolla diz acreditar que ela é um privilégio indiscriminado de todos os grupos humanos e distribuída de maneira uniforme de acordo com uma proporção constante.

“De modo científico”, ele fundamenta: “A probabilidade de determinada pessoa ser estúpida independe de qualquer outra característica dessa pessoa”.

Os fatos costumam ser mais expressivos do que palavras. Foi assim com a expansão dos cemitérios brasileiros durante a etapa pandêmica de negacionismo da ciência. Repete-se na história dos atestados de vacinação fraudados que Bolsonaro usou para trapacear o governo dos Estados Unidos, driblando leis e normas de proteção sanitária da população americana.

AUMENTA A CONFUSÃO – O potencial de estupidez na política sempre supera expectativas. No Congresso, por exemplo, aumentou a confusão entre deputados sobre o que as empresas donas de plataformas de redes sociais dizem ser verdade ou mentira no projeto de lei para repressão das usinas de fraudes, informações falsas, fake news.

Na agonia pandêmica de 2020 o Senado aprovou o texto original com trinta artigos. A Câmara adicionou outros trinta em dois anos e meio de discussões. No dia da votação recebeu setenta novas emendas — seis por hora no expediente da terça-feira 2.

Os deputados querem garantir a própria impunidade e a de outros 50 000 “agentes políticos” sobre tudo que publicam nas redes sociais. Desenham um cercadinho VIP para a casta política no mundo virtual, isolando-a da vida real dos brasileiros. Assim, tem-se novo caso de estudo à luz das “leis fundamentais” de Cipolla.

 

A experiência do inconsciente, no visão da psicanalista Ivanisa Teitelroit Martins

Publicado em 7 de maio de 2023 por Tribuna da Internet

 - Psicanalista - Escola Letra Freudiana | LinkedIn

Ivanisa Teitelroit Martins expõe a importância do inconsciente

José Carlos Werneck

Será no sábado, 13 de maio, às 22 horas, na Livraria da Vila em São Paulo, o lançamento do novo livro de Ivanisa Teitelroit Martins, “Psicanálise: uma experiência do inconsciente”.

Considerada uma das maiores psicanalistas da atualidade, Ivanisa Martins é articulista da coluna “Nem Freud explica”, da Carta Maior. Publica ensaios em revistas especializadas, desde 1998 exerce a prática clínica em Brasília e no Rio de Janeiro como especialista em teoria psicanalítica, e participa dos encontros e seminários da Escola Letra Freudiana, voltados para a transmissão do ensino de Freud e Lacan.

Leia, a seguir, um breve texto que demonstra bem o alto nível do conhecimento psicanalítico de Ivanisa Martins.

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TUDO PODE SER MAFIOSO, PROMÍSCUO E CRIMINOSO
Ivanisa Teitelroit Martins

“O mal-estar na cultura que Freud tão bem articulou é vivido no cotidiano das instituições e das estruturas. Pela saturação imaginária, provocada pelas diversas CPIs sempre em curso no Congresso, em que se cometem excessos no ato de acusar, em que depoentes já estão condenados por antecipação sem provas, produz-se um ruído de fundo e um rumor de mal-estar transformado em peste moral que cresce sem parar, loucamente, e ameaça, em alguns momentos, destruir tudo e causar a disrupção da razão.

Há pelo menos dois tipos de destruição, que não cabe trazer a esta reflexão. Mas, diferente destes, há a lógica do campo de concentração, exercida com maldade burocrática a frio, construindo o estado de exceção.

O extermínio da exceção só foi possível porque conduzido pela burocracia, como é, hoje em dia, pela técnica moderna. De um lado o texto impresso que é lento, de outro a velocidade da Internet que ofusca a reflexão, que produz vociferações anônimas.

A técnica moderna introduz uma gramática sem discurso e um discurso que pode aniquilar todos os discursos. Instaura-se um tribunal virtual e simulado com poder de disseminação de acusações, apoiadas em supostas informações sobre vínculos de jornalistas a esta ou aquela corrente partidária, como máfia, ou a um partido como organização criminosa. Incrimina-se o próprio ato de pensar ou ter opinião. Pensar, fazer pensar, informar e compartilhar com outros que pensam da mesma maneira é mafioso, é promíscuo, é criminoso.


Torres se dedicava ao golpe e Cid cumpria tarefas ‘pontuais’, como joias, caixa 2, vacinas…

 

Jair Bolsonaro e Mauro Cid (à direita) em Brasília, em 2022; tenente-coronel foi preso na quarta-feira

Bolsonaro sabia escolher quem iria fazer o trabalho sujo

Eliane Cantanhêde
Estadão

O ex-presidente Jair Bolsonaro tem não só mais um escândalo, mas também mais um homem-bomba contra ele: o tenente-coronel da ativa Mauro Cid, preso desde a quarta-feira, que se une ao delegado federal Anderson Torres, preso desde janeiro. Os dois sabem de tudo e participaram de tudo que hoje ameaça levar Bolsonaro a lhes fazer companhia na prisão.

Torres se dedicava ao golpe, mapeando onde o agora presidente Lula venceu no primeiro turno, orientando a PRF contra eleitores petistas e guardando uma minuta para implodir o TSE e anular as eleições. Saiu da Justiça direto para a Secretaria de Segurança do DF, onde deixou tudo pronto, ou nada pronto, para o 8 de janeiro e se mandou para os EUA.

Já Mauro Cid tinha tarefas mais pontuais, usar avião da FAB para “recuperar” os tesouros da Arábia Saudita que jamais seriam de Bolsonaro, até providenciar atestados fraudulentos de vacina da covid para Bolsonaro e a filha, ser o “caixa 2″ da família presidencial. Coisa feia. E mais: criminosa.

DESVIO DE FUNÇÃO – Nada disso é função de ajudantes de ordens de presidentes, como deve saber o comandante do Exército, general Tomás Paiva, que ocupou a função exemplarmente em dois governos, de Itamar Franco e de Fernando Henrique, com quem conversa há anos sobre o Brasil e o mundo.

Bolsonaro envolveu militares na guerra contra vacinas, urnas eletrônicas e instituições, e em operações porcas como as das joias e dos atestados de vacinação.

Dos seis presos pela PF, cinco são ou foram militares. E Cid e Torres foram tragados para o fundo do poço, com os generais Braga Netto, Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos, na lista da CPI do golpe, mais Paulo Sérgio, com a imagem arranhada, e Eduardo Pazuello, que dispensa comentários.

COINCIDÊNCIAS – A queda e os vídeos da inércia do general G. Dias no 8/1 foram divulgados no Dia do Exército, após confraternização de Lula com a cúpula militar. E quis o destino (será?) que a prisão do coronel Cid fosse no dia do primeiro almoço de Lula com o Alto-Comando do Exército.

Há incômodo entre colegas de farda com a sabujice de Pazuellos, Paulos Sérgios e Mauros Cids diante de Bolsonaro, com o consenso de que não dá para passar pano. Mas, de outro lado, há desconforto com a prisão do tenente-coronel, considerada “desnecessária”.

Lula, o comandante Tomás e o ministro da Defesa, José Múcio, têm a mesma posição pública: isso é problema da Justiça. Mas é também uma questão política, que mobiliza os bolsonaristas e empurra os mais radicais contra as Forças Armadas nas redes sociais, o que pode dificultar a pacificação entre os militares e Lula. Tomara que não.


Lei das Fakes News tem origem na defesa da liberdade, mas inclui a censura sinistra


Charge: STF

Charge do Milton César (Arquivo Google)

Fernando Schüler
Veja

Na incrível fábrica brasileira de explicações simples para problemas complicados, escutamos de tudo. Há quem tenha culpado os jogos eletrônicos pela violência nas escolas. De um ministro escutei que a culpa era da “liberação das armas”, diante da monstruosidade feita com uma machadinha, em Blumenau.

Em um grupo de Whats­App, alguém foi taxativo: “A culpa é do Bolsonaro”. Imagino que em outros o culpado tenha sido o Lula. E de uma outra autoridade li que aquilo teria algo a ver com o “golpismo do 8 de Janeiro”.

FAVORITA DA VEZ – Na cacofonia brasileira, cada um vai espalhando suas impressões. A favorita da vez é a de que as redes sociais têm culpa no cartório. Seja pelo 8 de Janeiro, seja pela violência, seja por tudo de ruim que anda por aí. E que, como é próprio da tradição brasileira, precisamos de mais uma lei para “pôr ordem em toda essa bagunça”.

É sobre isso o debate em torno da Lei das Fake News. O Estado, como se tornou comum por aqui, resolveu regular a discussão. E o fez à moda brasileira: empresas de comunicação, com óbvios interesses no projeto, podem fazer editoriais e emitir sua opinião favorável ao projeto.

Empresas com visão contrária, negativo. São intimadas a depor, a retirar sua opinião, e se tornam “suspeitas” de uma penca de crimes. Não deixa de ser didático. Nos ajuda a pensar um pouco sobre o que está em jogo.

UMA REGULAÇÃO MALUCA – Os defensores da lei dizem que é preciso regular. É preciso mudar os termos no Marco Civil da Internet, uma antiga lei da época em que se imaginava a internet como um espaço aberto, e determinar que as plataformas devem “atuar diligentemente” para “prevenir e mitigar” toda a sorte de crimes, inclusive aqueles de natureza política, como os “crimes contra as instituições democráticas”.

Uma plataforma terá de decidir o que entra ou não na conta de uma “grave ameaça” ao estado democrático de direito. E, se não acertar, será responsabilizada. As plataformas igualmente terão de monitorar as redes para identificar se há alguma suspeita de crime atual ou que “possa ocorrer no futuro”. Se não o fizer, e não comunicar às autoridades, também podem ser responsabilizadas.

Por fim, a lei dá amplos poderes ao Comitê Gestor da Internet para fixar “diretrizes” para os códigos de conduta das redes, e igualmente depois para “validar” a sua redação.

PODERES ILIMITADOS – O Comitê terá poderes para “limitar a distribuição massiva de conteúdos e mídias”, pelas empresas de mensagens, como o Whats­App, e deve fazer uma “conferência anual” para discutir todos esses assuntos. Este último item demonstra a displicência com que fazemos leis no Brasil.

Alguém poderia se perguntar por que cargas-d’água o contribuinte brasileiro precisa pagar, ano após ano, uma conferência anual para discutir qualquer coisa referente à liberdade e à regulação da internet. Não há resposta. Apenas uma lei feita no embalo do ativismo e da fúria reguladora que há alguns anos tomou conta do país.

O Comitê Gestor existe desde os anos 1990, sempre teve atribuições essencialmente técnicas. Se aprovada a lei, a conversa será outra. Ele passa a propor coisas como “diretrizes estratégicas para a liberdade na internet”. Dirá, por exemplo, para quantas pessoas você e eu poderemos mandar uma mensagem, no Whats­App, e dirá o que as plataformas deverão admitir ou banir. Não é pouca coisa.

EXEMPLO DOS EUA – Podemos até fazer de conta que vivemos todos em uma grande reunião de escoteiros e que não há problema algum em delegar essas coisas a uma instância de poder qualquer. Quando Madison e os fundadores dos Estados Unidos desenharam o Bill of Rights na Constituição americana, era exatamente para que uma coisa dessas não acontecesse.

Que o Congresso “não faria leis” restringindo um direito que, na sua visão, pertencia às pessoas, aos cidadãos, e não ao Estado. Isso não quer dizer que eles estavam certos. Eles apenas escolheram um caminho, diferente do qual parecemos adentrar, no Brasil.

As guerras culturais da democracia atual fizeram com que muita gente trocasse a defesa da liberdade de expressão por outros tipos de prioridade. O “combate às fake news” e aos “discursos de ódio” é exemplo óbvio. Nada disso é novo, muito menos a pergunta xarope que vem logo depois: quem teria o poder para definir essas coisas? Quem definirá o que significa um “risco sistêmico ao estado democrático de direito”, conforme se lê, insistentemente, no projeto?

PROIBIDO ATACAR O STF – Alguém poderia dizer que tudo isso é autoevidente. O PCO que o diga. Foi banido por “atacar” o STF, ou coisa do tipo. Daria uma tese de doutorado analisar tudo que foi incluído na conta de “ameaça ao estado de direito” no Brasil dos últimos anos.

Do famoso tuíte do professor Marcos Cintra “ponderando” sobre as urnas eletrônicas a um dedo médio apontado para o edifício do STF. O atual projeto criminaliza a divulgação de “fato que (alguém) sabe inverídico” sobre o processo eleitoral. Ou um fato “passível de sanção criminal”. É duro ter de perguntar, pela enésima vez, o que é exatamente uma informação “verídica”?

Dar uma opinião contrária ao sistema eleitoral ainda será permitido? Alguém assumirá a possibilidade de cair na malha do “risco sistêmico” ou da “grave ameaça”? As plataformas assumirão o risco? Os cidadãos? Ou estamos (quase) todos alegres em viver numa democracia pautada pelo medo? Suspeito que sim. E talvez seja exatamente aí que resida o problema.

UMA LEI VAGA – O que estamos discutindo, na verdade, é uma lei vaga, com uma redação displicente, que aprofunda um pouco mais nossa democracia de tutela. É democracia dos tipos penais abertos, da censura prévia, dos banimentos de jornalistas, das decisões “de ofício”, sem contraditório, sem devido processo legal, essas coisas que sempre nos soam tão bem quando atingem o “lado de lá” do jogo político.

De uma legislação técnica e bem-feita, que é o Marco Civil da Internet, arriscamos migrar para uma regulação com forte componente político. No eterno pêndulo liberdade versus segurança, parecemos fazer uma opção. O que esquecemos é que tanto a liberdade como a segurança têm lá seus riscos.

A liberdade traz o risco de que inverdades sejam ditas; a segurança, o risco de que apenas certos tipos de inverdade possam ser ditos. E não acho que precisamos ir longe para saber disso, no Brasil atual.

CAVALO DE TRÓIA – Alguém me definiu o projeto todo como um cava­lo de Troia. Nos preâmbulos, palavras amenas sobre a “liberdade”. “Garantir a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o fomento à diversidade.” Logo adiante, quando a lei passa aos comandos objetivos, a liberdade desaparece.

Surgem aí o comitê, os códigos, as remoções e punições. É a lógica de decisões recentes sobre a censura, no Brasil de hoje. Na epiderme, a defesa da liberdade; um pouco abaixo, a tutela.

Não é bom caminho. Mas reconheço que ele é perfeitamente adequado à nossa tradição. “Somos latinos, não anglo-saxões”, como me disse uma irritada interlocutora, tempos atrás, em um debate. Na hora, brinquei que não sabia se aquilo era uma crítica ou elogio. Mas no fundo acho que todos sabemos.

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