domingo, abril 10, 2022

Escalas da covardia

 



Eduardo Bolsonaro orgulha-se dos atos de máxima covardia alheia celebrando a tortura

Por Demétrio Magnoli (foto)

"Ainda com pena da cobra" – o tuíte sarcástico de Eduardo Bolsonaro, referência à tortura da jornalista Míriam Leitão, deixada nua num porão escuro com uma jiboia, não deve ser condenado apenas, nem principalmente, na esfera ideológica. Trata-se, como muitos destacaram, de uma questão de caráter. É um jato de luz sobre as escalas da covardia.

A jornalista tinha 21 anos e estava grávida quando, em 1972, experimentou o inferno num quartel de Vila Velha (ES). Muitas décadas depois, aos 66, viu-se alvo, também por motivos políticos, de um exercício distinto de covardia.

Foi em junho de 2017, ano seguinte ao impeachment de Dilma Rousseff, outra vítima de torturas da ditadura militar, no voo 6237 da Avianca, em que viajava uma chusma de delegados do Congresso Nacional do PT.

Durante duas horas, os soldados do "controle social da mídia" hostilizaram-na sem cessar, gritando ofensas, entoando palavras de ordem, esbarrando em sua poltrona. Os covardes aproveitavam-se da dupla circunstância de que a vítima não podia sair da aeronave e, sozinha, teria seus argumentos abafados pelos berros da matilha.

À primeira vista, os militantes adultos, muitos já grisalhos, imitavam arruaças de adolescentes. De fato, inspiravam-se no modelo do "ato de repúdio" utilizado incontáveis vezes por regimes comunistas e fascistas.

O episódio do voo 6237 figura na escala inferior da covardia. Já o "ato de repúdio", na sua forma clássica, figura num lugar intermediário. É um método de ação política no qual o regime autoritário mobiliza informalmente bandos de militantes para intimidar e ameaçar dissidentes em lugares públicos.

A diferença relevante com sua contrafação, os "atos de repúdio" realizados em sistemas democráticos, é que a polícia política espreita atrás da malta amestrada. Na URSS stalinista, na Itália fascista ou na Cuba castrista a vítima sabia (ou sabe) que, após a agressão simbólica coletiva, sujeita-se à prisão, a suplícios e, no limite, à morte.

A tortura ocupa o topo da escala da covardia. Tipicamente, é prática corriqueira de ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda, religiosas ou laicas, conservadoras ou revolucionárias. Mas, excepcionalmente, ocorre também em países democráticos.

Presos comuns sofrem maus-tratos em cadeias brasileiras. Sob a "guerra ao terror" de George W. Bush, a CIA comandou uma rede internacional de porões de suplício. Contudo, e isso é crucial na avaliação do tuíte do filho do presidente, os responsáveis pela tortura sempre negam sua ocorrência ou, ao menos, a existência de aval oficial aos torturadores.

A negativa ritual decorre, obviamente, do temor de hipotéticas implicações judiciais de longo prazo, especialmente depois que a tortura foi classificada como crime contra a humanidade pelo Estatuto de Roma, do Tribunal Penal Internacional, em 1998.

Mas a negativa tem outra fonte, mais profunda, que é a vergonha. Carlos Brilhante Ustra, primeiro militar brasileiro condenado por tortura, em 2008, declarou-se inocente até o fim, contra todas as provas e sabendo que, ao abrigo da Lei de Anistia, jamais cumpriria pena. O torturador foge ao estigma vergonhoso da covardia extrema.

Eduardo Bolsonaro nasceu em 1984, no outono do regime militar, quando já não havia tortura política no Brasil. Nunca torturou ninguém e, portanto, não precisa conviver com uma mancha abjeta no seu passado. Porém, ao contrário dos torturadores, orgulha-se dos atos de máxima covardia alheia, celebrando a tortura. Minha tese: ele detona a escala da covardia, exigindo uma redefinição de seu valor máximo.

O trágico, nisso, é que não estamos diante de um caso pessoal. O presidente, seu pai, classificou Ustra como "herói nacional" em agosto de 2019. O tuíte repulsivo deve ser lido como fotografia oficial de um governo que explodiu a escala da covardia.

Folha de São Paulo

Um roteiro em busca de um ator




A terceira via tem eleitor e tem candidatos, mas nada acontece

Por Murillo de Aragão (foto)

Hoje, ao contrário de 2018, há uma narrativa antipolarização que está se esvaindo por falta de voz. Ou seja, existe agora um eleitorado que, mesmo fragmentado e sem um nome que o represente, acredita haver uma opção além do presidente Jair Bolsonaro (PL) e do ex-presidente Lula (PT), pré-candidatos que lideram a polarização. Ao mesmo tempo, porém, a terceira via ainda não conseguiu se materializar em um candidato ou em uma agenda propositiva. Um aspecto que atrapalha essa construção é a ausência de um entendimento interno entre os partidos que se propõem a construir essa via alternativa.

Como consequência, o candidato da terceira via, que poderia surgir da aliança entre PSDB, MDB e União Brasil, entre outros, precisará gerenciar várias divisões internas. O PSDB, independentemente de quem vença a batalha no ninho tucano — João Doria ou Eduardo Leite —, sairá dividido do processo. O MDB, por ser historicamente uma legenda mais regional do que nacional, já estará naturalmente fragmentado, enquanto o União Brasil terá dificuldades para conciliar os interesses das alas do ex-PSL e do ex-DEM.

A pergunta essencial é a seguinte: se a terceira via tem um eleitorado em potencial, por que ele não se manifesta em favor de um candidato que, digamos, poderia ter nos dias de hoje uns 15% da preferência? Tal porcentagem seria resultado da soma dos que escolhem outros candidatos, fora da polarização, ou que não têm candidatos. A pergunta fica sem resposta, visto que, no limite, existe o eleitorado e existem vários candidatos disponíveis. Mas nada acontece. Por que não deu “match”? Duas direções se apresentam para a terceira via, ambas difíceis.

A primeira seria um arranjo top down das legendas em torno de um candidato. Há quem queira um arranjo desse tipo tendo Eduardo Leite como líder da coligação PSDB-União Brasil-­MDB. Resta saber como colocar de pé tal arranjo deixando João Doria pelo meio do caminho. A outra direção implicaria que algum dos candidatos da terceira via — hoje limitados a três nomes: João Doria, Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) — começasse a se descolar nas pesquisas de intenção de voto e a empolgar o eleitorado.

Existem movimentações sub-reptícias e discretas a partir da crença de que será competitivo qualquer nome que obtenha o apoio de três ou quatro dos partidos de centro — a saber: PSDB, União, MDB e PSD. Desde que, evidentemente, o seu nome não tenha sido manchado pela Lava-Jato. E desde que se trate de uma candidatura ágil e agressiva o suficiente para desconstruir os pontos fracos dos demais candidatos.

Em 2018, a essa altura dos acontecimentos, a polarização estava praticamente dada. Hoje, temos parcela do antibolsonarismo abrigada no lulismo, mas sem a convicção de que ele seja a opção adequada. Outros vão para o bolsonarismo por convicção. Alguns vão por horror ao petismo. Até agora o processo tem sido dirigido pela rejeição. Porém a eleição será em dois turnos e, a partir de maio, o debate passa a ser mais consequente. Os resultados das pesquisas de hoje podem não ser os que vão prevalecer adiante.

Revista Veja

O novo Alckmin, o velho Lula - Editorial




Líder petista e seus engodos eleitoreiros são bem conhecidos; a novidade é a adesão de Alckmin, que pautou sua bem-sucedida vida como governante em SP sendo antítese perfeita do petismo

Anunciada pela sua nova legenda, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), a indicação de Geraldo Alckmin para ser vice na chapa presidencial do petista Lula da Silva oficializa um equívoco singular, que vem causando, desde suas primeiras movimentações, imensa perplexidade entre o eleitorado do ex-governador paulista. Com o ato, Alckmin renega toda a sua biografia política para participar do engodo petista de que a volta de Lula ao poder seria nada menos que a salvação da democracia.

Na vida política, é normal que haja mudanças. Mas não é nada normal que um político abandone, de forma tão espetacular, seu eleitorado construído ao longo de décadas. Por mais explicações que agora queiram dar, o fato é que Alckmin sempre se colocou em campo político-ideológico diametralmente oposto ao do PT. E verdade seja dita: atuando dessa forma, conquistou e manteve a confiança do eleitor paulista. Prova disso é sua longa permanência no Palácio dos Bandeirantes, sempre pelo PSDB.

Sendo tão contraditório com sua trajetória política, o passo que Geraldo Alckmin agora dá contribui para a desconfiança da população na política. As dúvidas brotam abundantes. Então era esse o candidato a presidente que, em 2006, prometia governar de forma diferente do PT, sem corromper o Congresso com o mensalão, revelado no ano anterior? Então era esse o candidato que, em 2018, se colocava como representante do centro democrático, distante tanto do lulopetismo quanto do bolsonarismo? A política, a genuína política, requer um pouco mais de constância nos princípios.

Para piorar, as novas vestes políticas de Alckmin reforçam o embuste contra a democracia que o PT pretende impor ao eleitor brasileiro. Depois dos anos de desgoverno e negacionismo de Jair Bolsonaro, é preciso reconduzir o governo aos trilhos da responsabilidade e do interesse público, mas Lula obviamente não é a solução e, menos ainda, a única solução, como os petistas querem fazer acreditar.

Lula da Silva e Jair Bolsonaro são parte do problema, como tão bem mostram suas propostas de intervencionismo na economia, de irresponsabilidade fiscal, de demagogia nos preços administrados e de enfraquecimento da autonomia das agências reguladoras. Os dois propõem o atraso e querem que o eleitor acredite que não há alternativa a eles. 

Se a preocupação de Alckmin é com a democracia no País e com os rumos tomados pelo governo Bolsonaro, não é se juntando a Lula da Silva que vai realizar seus propósitos. De novo, a política, a genuína política, é mais do que simplesmente aderir a quem aparece na frente nas pesquisas. Sucumbir ao canto do populismo é reproduzir precisamente o percurso que tanto mal tem feito ao País – e do qual, até há pouco, se pensava que Alckmin fosse um combativo opositor.

De forma muito concreta, o caminho da democracia passa pela união de forças em torno de uma candidatura de centro, responsável e comprometida com o interesse público. Certamente, não é se aliando ao partido que produziu os maiores escândalos de corrupção da história nacional e uma profunda crise econômica resultante de irresponsabilidade fiscal que Alckmin contribuirá com a reconstrução do País.

“O que estará em questão nas eleições de 2022 é o confronto decisivo entre democracia e autoritarismo”, disse o presidente do PSB, Carlos Siqueira, ao oficializar a disposição do partido de unir-se à chapa petista. É realmente esquisito como alguns partidos se submetem à pretensão de hegemonia petista, reforçando um discurso que nada tem de democrático. A democracia é plural. 

O PT finge que não sabe, mas quem é democrático respeita as leis do País, não trata quem pensa diferente como inimigo, não chama de “golpe” decisões constitucionais do Congresso e do Judiciário, não faz aparelhamento político-ideológico do Estado, não destrói as estatais. Tudo isso já era conhecido. A novidade é contar agora com o aplauso de Alckmin, que pautou sua bem-sucedida vida como governante em São Paulo sendo a antítese perfeita do petismo.

O Estado de São Paulo

Eleições na França: como candidata de direita radical está corroendo favoritismo de Macron




'Partido de direita radical Frente Nacional vem crescendo há alguns anos'

Marine Le Pen moderou seu discurso e mudou seu programa para atrair eleitores

Por Daniela Fernandes, De Paris

Na reta final da campanha das eleições presidenciais na França em abril, com o primeiro turno neste domingo, o presidente Emmanuel Macron, apontado como favorito há vários meses, vem sofrendo uma erosão progressiva nas pesquisas, enquanto a candidata da direita radical Marine Le Pen registra progressão constante.

A diferença entre os dois nas intenções de voto no segundo turno, dia 24 de abril, que era de 16 a 22 pontos percentuais em meados de março, caiu drasticamente agora para quatro a seis pontos, de acordo com alguns institutos de pesquisa opinião, algo jamais visto em relação a um partido da direita radical numa votação presidencial.

Até recentemente, estas eleições francesas pareciam não ter suspense em relação à provável vitória de Macron, que vem liderando as pesquisas há vários meses. Elas indicam que o segundo turno deverá ser novamente disputado, como em 2017, entre Macron e Le Pen, do Rassemblement National (Agrupamento Nacional, antiga Frente Nacional). Mas agora, com a redução considerável da diferença entre os dois, dentro da margem de erro das intenções de votos, o cenário político mudou, reforçando a ideia de que o resultado final pode não ser o previsto.

Le Pen chegou a ficar fortemente enfraquecida no final do ano passado com o surgimento da candidatura de Éric Zemmour, polêmico jornalista de discurso extremista que acumula na Justiça processos por incitação ao ódio racial e religioso e que atraiu parte do eleitorado de Le Pen.

A candidata do Rassemblement National mudou então o foco de sua campanha, deixando em segundo plano temáticas fortes do partido, como imigração, islã e segurança, que se mantêm radicais, para concentrar seus discursos e projetos em questões econômicas de interesse dos franceses em geral, principalmente ligadas ao poder de compra, a maior preocupação do eleitorado nesta campanha, sobretudo em razão da alta da inflação.

Uma das medidas de seu programa com forte apelo para a população na conjuntura atual é a redução do tributo equivale ao ICMS de 20% para 5,5% sobre a energia (combustíveis, eletricidade e gás), que ela considera como "produtos de primeira necessidade". Le Pen também prevê indexar as aposentadorias à inflação, aumentar os salários dos professores, profissionais de saúde e dos trabalhadores que ganham até três mínimos, nesse caso com a exoneração dos encargos sociais, além da isenção de impostos para jovens com até 30 anos.

Embora o partido, fundado por seu pai, Jean-Marie Le Pen, seja há décadas considerado uma sigla de direita radical na França, Marine Le Pen moderou seu discurso e mudou seu programa para atrair eleitores que tradicionalmente votam em partidos de esquerda. Em 2017, ela já havia conquistado 39% do voto operário na França. Nesta eleição, incluiu em seu programa medidas sociais, a melhoria dos serviços públicos e a defesa de um Estado protetor, que são marcos fortes da esquerda.

Já o presidente Macron - que declarou oficialmente sua candidatura apenas no início de março, na véspera da expiração do prazo final, e se recusou a participar de debates com os rivais antes do primeiro turno, que não ocorreram - anunciou alguns projetos considerados bem impopulares. Um deles é o aumento da idade mínima para aposentadoria dos atuais 62 para 65 anos. Outra medida bastante criticada é a exigência para quem recebe o benefício de uma renda mínima (concedido a dois milhões de pessoas) de trabalhar 15 a 20 horas por mês. Essa ajuda é concedida a pessoas que não têm mais direito de receber o seguro-desemprego.

A forma como a campanha vem sendo realizada também é totalmente diferente entre os dois candidatos. "Le Pen tem feito uma campanha ativa e de proximidade com os eleitores em áreas rurais e nas periferias dos grandes centros urbanos, em vez de grandes comícios com partidários", afirma Mathieu Gallard, diretor de pesquisas do instituto Ipsos.

Macron, até então confortável na posição de grande favorito, optou sobretudo por conversas com leitores de jornais ou eleitores convidados por políticos próximos ao presidente, além de vídeos em comícios de seu partido e nas redes sociais. Para alguns, ele preferiu não assumir o risco de fazer campanha. Recusou inclusive o convite para participar do programa Elysée 2022 do canal France 2 na semana passada, no qual seria entrevistado. Foi o único entre os 12 candidatos (divididos em dois programas) que não participou.

No início da guerra na Ucrânia, Macron ganhou vários pontos nas pesquisas. O presidente francês já teve inúmeros contatos telefônicos com o líder russo, Vladmir Putin, desde a invasão da Ucrânia. Mas esse efeito inicial sobre as intenções de voto a favor de Macron perdeu força. Os franceses estão aparentemente mais preocupados com as consequências econômicas do conflito.

Mesmo se os vários compromissos internacionais ligados à Ucrânia deram visibilidade ao presidente nas últimas semanas, isso também impediu que ele fizesse campanha e contribuiu para que parecesse distante dos franceses, apesar do seu slogan "Macron com você".

O presidente tentou corrigir isso na reta final da campanha ao fazer aparições em algumas localidades. "Ao mesmo tempo que a gestão da guerra beneficiou Macron, isso deixou de ser uma força para ele porque, enquanto seus adversários iam ao contato do público e debatiam, ele estava fora disso", diz Brice Teinturier, diretor-geral do instituto Ipsos.

'Emmanuel Macron ainda é o favorito na disputa'

Incógnitas

Às vésperas do primeiro turno, quase um terço dos eleitores franceses ainda continua indeciso. Uma outra incógnita que pode alterar o resultado da votação é a taxa de abstenção, estimada em cerca de 20%, segundo pesquisas. Alguns especialistas prevêem que ela poderá bater o recorde de 2002 (28,4%), quando o pai de Marine Le Pen chegou ao segundo turno surpreendendo as expectativas.

Operários, agricultores e trabalhadores em geral menos qualificados são os que mais devem se abster de votar, de acordo com pesquisas. É um eleitorado que tende a votar mais em Marine Le Pen.

Segundo as últimas pesquisas, Macron lidera o primeiro turno com 26% a 27% na maioria delas. Le Pen se situa entre 22% e 24%. Em meados de março, a candidata do Rassemblement National tinha entre 17% e 18%.

O terceiro colocado, que como Le Pen vem crescendo progressivamente, é o candidato da França Insubmissa, da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, com cerca de 17%.

Mélenchon vem se beneficiando da transferência de votos de eleitores de outros partidos da esquerda, reforçando a dinâmica de voto útil que ele mesmo destaca em seus discursos, chamando de "voto eficaz".

Os dois partidos tradicionais, que governaram a França nas últimas décadas, Os Republicanos, da direita, e o partido socialista, de esquerda, correm o risco de implodir nessa eleição. Valérie Pecresse, de Os Republicanos, registra cerca de 9% nas pesquisas e a socialista Anne Hidalgo, prefeita de Paris, apenas 2%.

Mélenchon não é o único que pode se beneficiar da dinâmica de "voto útil". Le Pen também espera atrair eleitores de Zemmour, além de passar a mensagem de que ela é a única com condições de vencer Macron, o que pode influenciar os opositores mais ferrenhos do presidente. O líder francês também espera tirar proveito do "voto útil" ao representar a estabilidade em um período de crise sanitária e internacional por conta da guerra na Ucrânia e, ao mesmo tempo, a moderação capaz de barrar a direita radical de Le Pen.

BBC Brasil

O Brasil não precisa importar trigo




A Embrapa Territorial identificou quase 3 milhões de hectares com condições favoráveis para a triticultura nos cerrados brasileiros. 

Por Evaristo de Miranda 

Companheiro! Hoje, essa expressão possui tons políticos. Seu significado literal evoca aquele com quem compartilhamos o pão (cum panis). O pão é um dos maiores símbolos da alimentação humana. É alimento material e espiritual. Como na metonímia, o pão nosso de cada dia. O Cristianismo considera Jesus Cristo o Pão da Vida (Jo 6,48) e associa Pai Nosso (oração) e Pão Nosso (eucaristia). A fabricação do pão é simples: farinha de trigo amassada com água e um pouco de sal. A massa com levedura descansa, cresce e vai a um forno com temperaturas altas. Quando falta trigo, falta pão. E não só. A farinha de trigo é a base de macarrões, bolachas, bolos, pizzas, pastéis, pudins, bolinhos…

O trigo é o segundo cereal mais cultivado e produzido no mundo, depois do milho. E é também o segundo cereal em consumo humano, depois do arroz. Mais de 70% do trigo é destinado à alimentação humana, enquanto boa parte do milho é usada na produção de etanol, ração animal e outras finalidades não alimentares. O trigo é a principal fonte de calorias em mais de 80 países. O Brasil, grande produtor e exportador de alimentos, depende de importações de trigo.

O Brasil é o sétimo importador mundial de trigo e compra na ordem de 7 milhões de toneladas por ano, essencialmente da Argentina (85%). Foram quase US$ 3 bilhões, apenas em 2021, enviados ao exterior para não faltar pão nem macarrão. Em 2021, o país plantou 2,74 milhões de hectares de trigo e colheu 7,7 milhões de toneladas. Uma safra recorde. O consumo interno foi de 12,5 milhões. A atual produção brasileira atende mais da metade da demanda interna.

Os cinco principais exportadores de trigo são Rússia, Estados Unidos, União Europeia, Ucrânia e Argentina. A produção mundial em 2020 foi da ordem de 770 milhões de toneladas, cultivados em cerca de 219 milhões de hectares. Rússia e Ucrânia representam juntas cerca de um terço do trigo exportado no mundo e são os grandes fornecedores da África do Norte. A Ucrânia é o quarto exportador de trigo. A guerra elevou o preço internacional do trigo em mais de 30%.

Moinhos, indústria agroalimentar e de rações relutam em pagar por aqui as valorizações refletidas do mercado internacional pela guerra para os cereais. O milho está em patamares próximos das máximas históricas no Brasil. As cotações do trigo atingiram o maior valor em 14 anos. O mercado interno anda devagar, à espera de alguma pouco provável acomodação nos preços.

O Brasil também exporta trigo. Milhões de toneladas. Todo santo ano. Em 2021, por razões logísticas e econômicas, houve uma exportação recorde de mais de 2 milhões de toneladas de trigo brasileiro. E a exportação prossegue em 2022. Razões de mercado não faltam, e a guerra na Ucrânia ajuda.

Com câmbio favorável e um mercado interno em marcha lenta, a exportação de trigo atingiu volumes nunca vistos. A estimativa de exportação de trigo do Brasil no período 2021/22 (de agosto a julho) foi revisada de 2,5 para 2,7 milhões de toneladas. De dezembro de 2021 a fevereiro de 2022, os embarques de trigo somaram cerca de 2 milhões de toneladas, o dobro do volume de todo o ano passado. Em todo o mundo, a guerra ampliou a exportação de trigo em 25%.

Isso comprometeu a disponibilidade interna e as margens dos moinhos. Logo, o Brasil só contará com as importações para atender à demanda interna, até a nova safra, em setembro. Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, o Brasil vive o livre mercado. Isso proporciona exportações na conjuntura atual e estimula a ampliação do plantio na nova safra. Em 2022, o Brasil semeará 3,6 milhões de hectares, a maior área dos últimos 36 anos. Se o clima ajudar e a produtividade média atingir 3 toneladas por hectare, a produção nacional se aproximará de 10 milhões de toneladas.

O trigo pode seguir o caminho da soja e do milho nas últimas décadas. Em 20 anos, o Brasil passou de 35 milhões de toneladas de milho por ano para cerca de 120 milhões. Para a Embrapa Trigo, limitados unicamente ao mercado interno, os triticultores tinham poucos incentivos. Agora, os preços externos elevados dão sustentação aos preços internos. A demanda da indústria brasileira é boa e oferece garantias aos produtores. A Argentina, principal exportador para o Brasil, está diversificando seus mercados. O Brasil tem boas oportunidades para ampliar a exportação ao mercado africano.

As regiões tradicionais no Paraná enfrentam dificuldades para expandir a área de trigo. Os cultivos de inverno ocupam apenas 20% das áreas cultivadas no verão. Já no Rio Grande do Sul, a área poderá crescer em até 30% em 2022. A Embrapa, junto com o setor privado, lidera a expansão de área e o aumento da produtividade do trigo tropical. Minas Gerais e Goiás expandiram em mais de três vezes a área cultivada entre 2012 e 2020, e ultrapassaram 100 mil hectares.

Experimentos da Embrapa e parceiros comprovam o potencial de produção de trigo tropical de sequeiro no Norte e no Nordeste, como em Roraima, Piauí, Maranhão, Alagoas e Ceará. Algo inimaginável tempos atrás. É a capacidade científica de adaptar o trigo às condições tropicais, como foi feito para a soja, com variedades adaptadas até ao clima equatorial. E essa expansão poderá ocorrer sem implicar novos desmatamentos, em áreas já utilizadas nos cerrados com a produção de grãos. A Embrapa Territorial identificou 2,7 milhões de hectares com condições favoráveis para a triticultura nos cerrados brasileiros.

A produtividade do trigo aumenta constantemente. Na década de 1990, a média era de 1,5 tonelada/hectare (ton/ha). Na de 2000, chegou a 2,5 ton/ha, quase 70% a mais. Hoje, as melhores lavouras já superam 5 ton/ha nas regiões produtoras. No Cerrado, sob irrigação, com variedades da Embrapa, como a BRS 264, produtores atingem mais de 9 ton/ha. Paulo Bonato, de Cristalina (GO), colheu 9,63 ton/ha em 2021, um recorde mundial de produtividade. O trigo avança, graças às melhores tecnologias de produção, ao empreendedorismo e à competência dos agricultores.

A conhecida expressão “pão e circo” (panem et circenses) foi usada pelo poeta satírico romano Juvenal (Decimus Iunius Iuvenalis) para denunciar a distribuição de pão e a organização de jogos pelos imperadores romanos para desviar a atenção dos cidadãos de outras preocupações importantes. No circo político atual do Brasil, o pão tem sido usado para desviar a atenção dos legítimos problemas e de suas verdadeiras soluções. A falta de trigo derivada da guerra neste momento é estimada em menos de 1% do cultivo global. E a produção de trigo no Brasil já é grande e pode avançar mais e rapidamente. Isso é relevante.

Para o presidente da Embrapa, Celso Moretti, tempos de guerra relembram a importância da segurança nacional, e isso inclui a segurança alimentar e a necessária autossuficiência brasileira na produção de trigo. O país deve adotar as políticas e os mecanismos necessários para expandir a produção tritícola. Não há solução mágica. O Ministério da Agricultura aprovou um plano da Embrapa Trigo para expansão da produção da triticultura no Cerrado. Os recursos previstos de R$ 2,9 milhões fomentarão ações por 36 meses. Os objetivos são: aumentar a área cultivada em 40% até 2025, de 252.000 hectares, em 2021, para 353.000 hectares; capacitar 70 assistentes técnicos; produzir 1.760 toneladas de sementes no período; apoiar dias de campo, unidades demonstrativas, lavouras expositivas e visitas técnicas, além de fóruns e reuniões de pesquisa.

As ações de pesquisa e transferência de tecnologia serão em São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, além do Distrito Federal. Deveriam complementar essas ações, melhorias na logística, impostos equilibrados e incentivos aos setores envolvidos, da produção à pós-colheita.

Pão de hoje, carne de ontem e vinho de outro verão fazem o homem são, diz o adágio latino. Carnem hesternam, panem hodiernum, annotina vina, sume libens dicto tempore, sanus eris. A sanidade alimentar está ao alcance de tratores e mãos dos produtores brasileiros. Sus! A Embrapa estima ser possível produzir até 22 milhões de toneladas/ano de trigo no Brasil. Isso triplicará a produção atual e tornará o país um dos dez maiores exportadores de trigo. Sus! O Brasil tem tecnologia e produtores preparados. Precisa subir no barco certo. Já dizia Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno: “Companheiro… Sus, sus! Demos à vela!”.

Revista Oeste

A polarização brasileira




Em meio à tempestade, o melhor a fazer é largar um pouco o besteirol de ambos os lados e raciocinar sobre reformas e votações no Congresso. 

Por Fernando Schüler* (foto)

Lula vem sendo particularmente claro sobre o que pretende fazer no governo. Já disse que é contra a regra do teto, que vai “regular os meios de comunicação deste país”, que é contra privatizações, que vai intervir na política de preços da Petrobras e que vai reverter a reforma trabalhista. “O que está havendo com Lula?”, me perguntou, dias atrás, um jornalista experiente. Fiquei pensando. Há quem dê de ombros e diga que tudo isso não passa de papo de campanha. Que Lula é uma “metamorfose ambulante”, e que logo teremos uma nova “carta ao povo brasileiro”, pedindo para esquecermos qualquer radicalismo. Não vejo as coisas assim. Penso que Lula está sendo sincero, e isso é ótimo para o debate democrático.

Vale o mesmo para Bolsonaro. Não que ele apresente uma visão estruturada sobre o país, mas tudo o que seu governo vem fazendo caminha na direção contrária à de Lula. Bolsonaro diz que não vai regular a mídia nem as redes sociais. Dias atrás lembrou que não deixou de considerar o coronel Brilhante Ustra um “grande brasileiro”. Bolsonaro votou na regra do teto, na reforma trabalhista e aprovou a reforma da Previdência, já no seu governo. Fez andar à frente, ainda que aos tropeços, algumas privatizações e recentemente disse querer se ver “livre” da Petrobras, sugerindo que vai privatizá-la, caso reeleito.

De novo, pode-se dizer que tudo é balela, que o tal programa liberal de Paulo Guedes não andou e que lá no fundo Bolsonaro é tão “corporativista” quanto a esquerda. De fato, Bolsonaro tem um histórico corporativista, mas muitas das iniciativas do governo contam uma história um pouco diferente. Alguém acha corporativista a autonomia do Banco Central? Ou a lei da liberdade econômica? Ou quem sabe o novo marco do saneamento básico, chamado pelos deputados petistas de “privatização da água”?

Ainda na outra semana li um jornalista que escreveu que a terceira via erra ao equiparar Lula com Bolsonaro. Também acho. Se observarmos com alguma frieza, o grupo político ao qual Bolsonaro se associa, com idas e vindas, votou a favor de toda a série de reformas que o país fez, desde o processo de impeachment de Dilma. Teto de gastos, lei das estatais, reformas trabalhista e previdenciária, lei das terceirizações, Banco Central, novos marcos regulatórios, privatização da Eletrobras. A lista não é pequena. O grupo em torno de Lula votou contra tudo. Não estamos falando de retórica, mas de um padrão consistente de votações no Congresso, ao longo de quase seis anos. Cada um pode ter a opinião que quiser sobre essas reformas. Mas não passa de discurso vazio sugerir que não existem diferenças bastante objetivas entre os dois blocos políticos. Por óbvio, há inconsistências por todos os lados. A falta de firmeza do governo em temas centrais, como as reformas administrativa e tributária, é exemplo disso.

Na chamada “questão democrática” há um curioso jogo de aproximação e afastamento. Bolsonaro não esconde seus ditadores favoritos, que são basicamente nossos generais-­presidentes. Lula nunca escondeu suas simpatias pela ampla variedade de ditadores da esquerda latino-americana. Amigo dos irmãos Castro, nunca deu um pio sobre temas de direitos humanos na ilha do Caribe. Mesmo diante daquela repórter indignada, na Espanha, defendeu bravamente Daniel Ortega e Hugo Chávez, com direito à pergunta que ficou famosa: “Se a Angela Merkel pode ficar dezesseis anos no poder, por que Daniel Ortega não?”. Para ficar em dois exemplos chilenos, nem Bolsonaro representa uma direita “racional” e moderada, ao estilo de um Sebastián Piñera, nem Lula é um Gabriel Boric, crítico duro das ditaduras de esquerda e explícito na defesa de políticas de responsabilidade fiscal.

O curioso nisso tudo é o posicionamento da terceira via. O Radar do Congresso mostra que os partidos da chamada terceira via são, de fato, governistas, no mundo real das votações em Brasília. Ao longo do mandato de Bolsonaro, o PSDB votou 83% das vezes com o governo. João Doria pode dizer que Bolsonaro é o capeta, mas, a cada dez votações no Congresso, seu partido fechou oito vezes com o governo. No PSD, o índice de governismo vai a 91%. No União Brasil, o novo partido de Sergio Moro, vai a 90%. Do outro lado do jogo, de fato há uma oposição. O PT só acompanhou o governo em 24% das votações; o PSOL, em 18%. Lula e seus apoiadores foram coerentes não só durante o governo Bolsonaro, mas desde as primeiras votações no pós-­im­peach­ment.

A terceira via, numa palavra, carece de identidade. A retórica por vezes radical contra o governo, logo abaixo do teatro da política, se mostra um tanto vazia. Isso sob um aspecto vital da política, que efetivamente diz respeito à vida dos cidadãos: as leis e projetos votados no Congresso. Sob esse aspecto, só há efetivamente duas vias em disputa, nas eleições deste ano. Talvez isso explique um pouco de nossa polarização política, que é hoje ainda maior do que há quatro anos. Em abril de 2018, os dois líderes somavam 47%. Hoje, têm 69%. É difícil, ainda que não impossível, que a terceira via consiga se viabilizar. Seria ótimo que o país dispusesse de uma esquerda moderna, que não goste de ditaduras e leve a sério a responsabilidade fiscal; e uma vertente liberal, que não ache que 64 foi uma “revolução para salvar a democracia” e não misture política com religião.

Mas não há nada disso muito viável no horizonte político. E a culpa é única e exclusivamente dos eleitores. Aprendemos a nos contentar com isso que está aí. O que temos são opções com alguma nitidez, no terreno econômico, dadas pelo histórico de votações no Congresso. Elas projetam uma imagem do Brasil, para os próximos anos, e é bom que cada um forme seu juízo. Não sou dos que acham que há apenas um lado legítimo na democracia, ou que alguém seja o “dono” da própria democracia, como parece que virou moda por aí.

O melhor a fazer, em meio à tempestade, é largar um pouco o besteirol, o bate-boca do Twitter e os hooli­gans, de ambos os lados, e raciocinar sobre reformas e votações no Congresso. Observar o lado em que cada um esteve. Cada um pode ajudar a inocular um pouco de racionalidade em um mundo político que se tornou teatral e algo pueril. Se disser isso por aí e alguém lhe dirigir alguns palavrões, acredite: você está no caminho certo.

*Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Revista Veja

Ministra alemã da Defesa: armas para Ucrânia "no limite"




Segundo Christine Lambrecht, novos fornecimentos dos arsenais nacionais comprometeriam defesa da Alemanha: é hora de indústria armamentista colaborar. Declaração contrasta com promessas de chefe de governo Scholz.

A ministra alemã da Defesa, Christine Lambrecht, declarou não ver praticamente nenhuma possibilidade de fornecer à Ucrânia mais armas e equipamentos diretamente dos arsenais militares da Alemanha, como apoio contra a guerra de agressão iniciada pela Rússia em 24 de fevereiro.

Em entrevista ao jornal Augsburger Allgemeine, publicada neste sábado (09/04), a política social-democrata explicou que, a fim de manter a capacidade de defesa nacional, fornecimentos futuros para o país invadido teriam que partir da própria indústria armamentista.

"Para esse fim, estamos nos coordenando continuamente com a Ucrânia. No caso das entregas a partir dos estoques da Bundeswehr [Forças Armadas alemãs], porém, tenho que ser honesta: nós atingimos um limite."

'Ministra da Defesa alemã, Christine Lambrecht: No caso das entregas a partir dos estoques da Bundeswehr, nós atingimos um limite"

Esse posicionamento da ministra da Defesa vem num momento de aumento da pressão sobre Berlim para que apoie materialmente o país sob invasão. Recentemente, Kiev solicitou a transferência de 100 tanques blindados do tipo, além de outros armamentos: "Precisamos de armas pesadas. O veículo Marder de combate seria uma alternativa", comentou o enviado da Ucrânia para a Alemanha Andriy Melnyk ao portal de notícias The Pioneer.

Lambrecht reiterou, ainda, que não revelará detalhes relativos aos fornecimentos: "Há bons motivos para termos mantido confidencial justamente essa informação. Fizemos isso em resposta à solicitação explícita da Ucrânia. É preciso ter em mente: do momento em que as entregas fossem divulgadas em detalhe, a Rússia também disporia dessa informação. E isso, por si, teria implicações estratégicas militares."

Promessas de Scholz em Londres

A declaração de Lambrecht contrasta com as promessas da véspera do chefe de governo alemão, Olaf Scholz, em Londres. Em coletiva de imprensa ele e seu homólogo britânico, Boris Johnson, prometeram novas entregas de armas para a Ucrânia.

Os líderes das duas nações da Otan manifestaram unidade demonstrativa, frisando que não pretendem se transformar em partidos de guerra, mas querem ajudar o país invadido a se defender.

Segundo o primeiro-ministro Johnson, o Reino Unido se dispõe a fornecer "tudo o que tenha caráter defensivo", citando mísseis antiaéreos Starstreak, 800 mísseis antitanques e munição de precisão capaz de permanecer no ar até ser direcionada contra seu alvo.

'Olaf Scholz e Boris Johnson mostraram grande coesão durante coletiva de imprensa em Londres'

Scholz prometeu o fornecimento "continuado" de armas com o fim de reforçar a luta de defesa contra a invasão russa. Por outro lado, reagiu com reticência ao pedido de Kiev por tanques blindados Marder dos arsenais alemães.

"Nós nos esforçamos para fornecer armamentos que sejam úteis e possam ser bem empregados. E os êxitos alcançados pelo exército ucraniano mostram que as armas fornecidas são especialmente eficazes", observou. Assim como Johnson, porém, ele parte do princípio que "só com base em grande expertise" se pode determinar que equipamento seja mais adequado.

Aposta em sanções "altamente eficazes"

Referindo-se ao recente ataque com mísseis à estação ferroviária de Kramatorsk, no leste da Ucrânia, o chanceler federal alemão disse que a matança de civis é um crime de guerra, cuja "responsabilidade cabe ao presidente russo".

Ele renovou o apelo à Rússia por corredores humanitários para evacuação das zonas de conflito no país sob invasão, e instou Vladimir Putin a decretar um cessar-fogo: "A guerra tem que parar, e já."

Scholz disse considerar "altamente eficazes" as sanções ocidentais contra a Rússia, em reação a sua guerra ofensiva contra a Ucrânia: com o congelamento de bens e capital, atinge-se também a "panela do poder" em Moscou, assegurou.

O chefe de governo comentou que, com a ofensiva militar contra a Ucrânia, Putin teria feito um péssimo cálculo, e o acusou de colocar em jogo o futuro da Rússia, para quem as sanções ocidentais terão "custos dramáticos". Ainda em 2022 a Alemanha substituirá as importações de petróleo russo, reforçou.

Em relação às controversas importações de gás da Rússia, Scholz defendeu a posição alemã de não suspender imediatamente o abastecimento. Trata-se de uma dependência que se está trabalhando duro para cortar. Mesmo após um fim da guerra, a Alemanha pretende se libertar das importações russas, complementou o político social-democrata.

Trata-se de sua primeira passagem pelo Reino Unido, quatro meses após ter assumido a chefia de governo alemã. Em face à guerra iniciada por Moscou em 24 de fevereiro, temas como o processo pós-Brexit e o protocolo da Irlanda do Norte ficaram relegados a segundo plano no encontro com Johnson. Esta foi a sexta visita oficial de Olaf Scholz a um país fora da União Europeia: antes, ele esteve nos Estados Unidos, Ucrânia, Rússia, Israel e Turquia.

Deutsche Welle

2022 a 1648 – o começo e o fim do Estado nacional




O mundo hoje apresenta desafios que certos obtusos não decifram de imediato, mas, com algum afinco, acabam compreendendo.

Por Bolívar Lamounier* (foto)

Penso que nem mesmo o Dr. Pangloss, personagem de Voltaire, seria capaz de manter seu proverbial otimismo se lhe fosse dado deitar uma vista d’olhos sobre o mundo atual.

Numa fração de segundo, Pangloss certamente imergiria num sono profundo, durante o qual se lembraria da Paz de Westfalia (tratados celebrados em 1648, pondo fim à Guerra dos Trinta Anos) e da esperança dos reis lá reunidos de estarem lançando as bases de uma paz perpétua. Um mundo de Estados, quero dizer, de carapaças protetoras, que deixariam para trás os antigos castelos medievais. Estes eram bonitos, sem dúvida, mas haviam se tornado incapazes de garantir proteção a seus habitantes a partir do instante em que os exércitos se adestraram para o uso militar da pólvora.

Nesse aspecto, a grande inovação foi o reconhecimento da soberania territorial de cada Estado. Um país, mesmo se fosse dezenas de vezes mais poderoso que outro, só poderia penetrar o território deste violando sua soberania, ou seja, recorrendo à força militar e violando suas fronteiras, e ficaria sujeito à retaliação do país atacado, que certamente daria um jeito de arranjar aliados. Constituía-se, dessa forma, um sistema no qual todas as unidades políticas seriam Estados, uma vez que uma fronteira distante de seu “centro” funcionaria como uma carapaça protetora. Nascia, assim, o sistema europeu de Estados.

Dois segundos mais e Pangloss, despertando de seu sinistro sonho, teria à sua frente os escombros da Ucrânia, milhares e milhares de mortos, escolas e hospitais destroçados, falta de água potável em algumas regiões e o refulgente dourado dos trigais obliterado pelo incessante despejo de bombas. Assestando para mais longe seu binóculo, veria na janela do Kremlin a glacial figura do tirano russo.

Este mundo com que Pangloss hoje se depara nos apresenta quatro desafios que certos obtusos são incapazes de decifrar de imediato, mas que, com algum afinco, acabam compreendendo.

Primeiro, a sobrevivência da democracia. Nas últimas duas décadas, multiplicou-se por todo o mundo o número de indivíduos – muitos até portadores de diplomas universitários – que adorariam ver as democracias do planeta reunidas num féretro universal. Para nossa sorte, só em uns poucos países seu anseio está ganhando contornos de realidade. Não lhes passa pela cabeça como ficaríamos se, no mundo inteiro, a democracia fosse substituída por tiranias. Com um pequeno esforço, poderiam descortinar esse cenário, bastando-lhes para tal recordar-se de um momento em que não estivemos longe disso: se a Alemanha hitlerista, a duras penas derrotada pelos aliados, nos tivesse vencido.

O segundo desafio é que duas das três superpotências hoje existentes (Rússia e China) são regidas por regimes políticos ferreamente totalitários. A China, aparentemente mais afeita ao trabalho e capaz de interagir prudentemente com povos cujo idioma não compreende, beneficia-se da enorme vantagem de poder investir pesadamente em setores estratégicos de vários países, de comprar e vender em larga escala e de cada vez mais atrair a simpatia de terras como o Oriente Médio e a África, onde sua presença era praticamente nula até pouco tempo atrás.

Em terceiro lugar, mas não menos importante, as duas mencionadas superpotências encontram-se confortavelmente sentadas em formidáveis arsenais nucleares. Permitam-me aqui os leitores um breve retorno aos tratados de Westfalia. A primeira grande brecha aberta no sistema europeu de Estados foi o surgimento, nos anos 1950, dos Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs, na sigla em inglês). Para ter uma ideia exata desse novo desafio, convém lembrar que as bombas atômicas lançadas ao fim da Segunda Grande Guerra sobre Hiroshima e Nagasaki foram literalmente “jogadas”, quero dizer, atiradas manualmente a partir de aeronaves de médio porte.

Um quarto capítulo nesta sinistra novela ocorreu em 1962, quando Nikita Kruschev, o chefe político da União Soviética, valendo-se do fato de Cuba ter se convertido ao comunismo, cometeu o desatino de instalar um míssil na ilha de Fidel Castro. Consta que o presidente John Kennedy e seus ministros, reunidos às pressas, mostraram-se inicialmente atarantados. O papel decisivo teria cabido a Robert Kennedy, irmão mais jovem do presidente, que teria dado um murro na mesa e tomado a decisão: ou o sr. Nikita tira aquela porcaria de lá imediatamente ou vai arcar com pesadas consequências. Kruschev entendeu o recado.

Para bem aquilatar a fundura do abismo a que chegamos, reparem que aquele rapaz que preside a Coreia do Norte tem condições de atingir com um míssil nuclear qualquer ponto dos Estados Unidos. Posso imaginar que ele não hesitaria em fazê-lo, se não fosse o puxão de orelhas que levaria de seu “grande irmão”, a China.

Eis aí, em breves linhas, a enrascada em que o mundo se meteu. A Terra não é grande coisa, mas, se queremos viver nela, convém providenciarmos presidentes e ministros mais equilibrados que o atual inquilino do Kremlin.

*Sócio-Diretor da Augurium Consultoria, é membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências

O Estado de São Paulo

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