Apenas a Organização Mundial de Saúde tem o poder de rebaixar a pandemia para endemia
Apesar da desaceleração do número de mortes causadas pela covid-19 no Brasil, o país entrou em abril acima da marca de 660 mil mortes desde o início da pandemia. Segundo a Universidade de Johns Hopkins, o país está em segundo lugar no ranking global, após os EUA, consequência de uma série de erros, como o atraso no reconhecimento da gravidade da pandemia e na compra de vacinas, e da descoordenação do enfrentamento da doença; e até as campanhas de descrédito à efetividade das vacinas, inspiradas pelo próprio presidente Jair Bolsonaro.
Aproveitando a redução dos casos, Bolsonaro decidiu decretar o fim da pandemia e logo teve apoio do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Queiroga levou o plano ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Havia até data marcada para o anúncio: 31 de março, aniversário do golpe de 1964. Até que alguém descobriu que apenas a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem o poder de rebaixar a pandemia para endemia.
Mesmo ciente disso, Bolsonaro seguiu disseminando entre apoiadores e nas redes sociais a ideia de que não se justificava mais pensar em pandemia e que era desnecessário o uso de máscaras e outros cuidados. Sob pressão do Palácio do Planalto e, para não admitir o fiasco, Queiroga buscou atender o chefe com a flexibilização de medidas de prevenção, embora vários Estados já tenham adotado algumas delas, como a dispensa do uso de máscaras em ambientes abertos e até nos fechados.
Já o fim da situação de emergência sanitária no país, como deseja Bolsonaro, seria um “desastre”, avisou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Entre as consequências mais sérias estaria a proibição do uso das vacinas Coronavac e a Janssen, que estão sendo aplicadas em caráter emergencial e ainda não receberam registro definitivo. Há também medicamentos e testes que estão sendo utilizados nessas condições. Até com receio de uma judicialização do assunto, Queiroga passou a moderar o discurso e as promessas.
Antes dessa batalha, porém, o governo havia conseguido passar pelo Congresso a lei que permite o uso de medicamentos “off label”, ou seja, para finalidades não indicadas na bula nem autorizadas pela Anvisa, desde que haja recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec). A comissão é vinculada ao Ministério da Saúde e conta com integrantes da pasta, do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, da Anvisa e do Conselho Federal de Medicina (CFM), e consultores externos.
Resta saber quem em uma comissão tão ampla quanto a Conitec vai se responsabilizar por algum eventual efeito adverso em pacientes que receberem o medicamento off label. Um dos exemplos mais temidos de uso off label foi o da cloroquina no tratamento da covid-19, estimulado por Bolsonaro. Outro medicamento recomendado por ele para enfrentar a pandemia, o antiparasitário invermectina, acaba de ser contraindicado para a covid-19 por um estudo brasileiro amplo, que constatou que ele não diminui risco de internação, não aumenta a velocidade de recuperação, não reduz tempo no hospital nem o risco de morte.
Agora o ministro da Saúde está entusiasmado com a ideia de implantar o sistema de open health, inspirado no open banking. A proposta implicaria o compartilhamento dos dados da população em plataforma eletrônica e a criação de um cadastro positivo da saúde. A ideia é estimular a competição entre os planos de saúde e reduzir custos para as pessoas. O ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, torpedeou a proposta (Folha de S. Paulo 21/3). Criticou em especial o compartilhamento de informações pessoais sensíveis; e evidenciou as diferenças entre o setor financeiro e o serviço de saúde.
Problemas mais urgentes, mas menos midiáticos, não faltam. Fraga sugeriu que o ministro se dedicasse a fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS), que enfrenta “inúmeras dificuldades”. De fato, pesquisadores do FGV-Saúde acabam de publicar na revista científica “The Lancet” estudo que aborda a redução considerável das consultas médicas, diagnósticos, cirurgias de baixa, média e até alta complexidade nas unidades do SUS desde 2019, o que pode manter os hospitais sobrecarregados por um bom tempo. A distribuição igualitária dos repasses federais aos Estados durante a pandemia, sem levar em consideração os locais mais vulneráveis, é outro problema identificado.
Valor Econômico








