quarta-feira, abril 06, 2022

A médica que quer mudar visão sobre a morte no século 21: 'Medicina não é suficiente'

 




A médica Libby Sallnow tenta mudar a forma como as pessoas veem a morte e o processo de morrer nos tempos atuais

Grupo de cientistas quer trazer o manejo de morte de volta à comunidade

Por André Biernath, em Londres

Há algo de errado na forma que lidamos com a morte e precisamos fazer alguma coisa para mudar isso.

Essa é a principal conclusão de um relatório produzido pela Comissão sobre o Valor da Morte, um grupo de especialistas que se reuniu para investigar o que significa morrer nos tempos atuais.

O material, que recebeu o título sugestivo de "Trazendo a morte de volta à vida", foi publicado recentemente no The Lancet, um dos principais periódicos científicos do mundo.

Logo nos primeiros parágrafos do artigo, os autores apontam que "a história do morrer no século 21 é cheia de paradoxos".

"Enquanto muitas pessoas recebem tratamentos excessivos e fúteis nos hospitais, longe da família e da comunidade, outra parcela da população não tem acesso a nenhum tipo de terapia, nem para aliviar a dor, e morre de doenças preveníveis", escrevem.

A BBC News Brasil conversou com a médica inglesa Libby Sallnow, autora principal do relatório e especialista em cuidados paliativos. Ela atua no serviço público de saúde do Reino Unido, no St. Christopher Hospice, uma casa de cuidados para pacientes terminais, e nas universidades de Bruxelas, na Bélgica, e College London, na Inglaterra.

Confira os principais trechos da entrevista a seguir.

BBC News Brasil - No seu ponto de vista, o que é a morte?

Libby Sallnow - Nós costumamos falar da morte como um evento. E, como mencionamos no artigo, a morte se tornou mais difícil de acontecer, graças à tecnologia médica. Partes do corpo que antes falhavam, e definiam esse fim, agora podem ser substituídas por máquinas ou por novos órgãos em transplantes.

A tecnologia está ampliando os limites do que entendemos como morte. Mas, de forma geral, a morte é vista como um ponto final, um evento que acontece com todos.

BBC News Brasil - E o que é morrer?

Sallnow - Morrer é um processo cujo entendimento fica muito mais aberto, especialmente na hora de definir o começo. Em termos médicos, falar que alguém está morrendo envolve os últimos dias, ou as últimas horas. Mas os cuidados paliativos podem começar a partir do diagnóstico de uma doença, ainda que a pessoa esteja se sentindo bem naquele momento.

Para algumas pessoas, morrer pode durar muito tempo mais. Alguns até acreditam que esse processo se inicia assim que nascemos. Afinal, a cada dia que passa, estamos mais próximos de morrer.

Essa resposta então vai depender da perspectiva de cada um e se você está analisando a questão do ponto de vista médico ou filosófico. Muitas pessoas que conheci na minha prática clínica me disseram que estavam morrendo. E isso não significava que a morte delas aconteceria nos próximos dias. Elas apenas queriam dizer que o processo já havia começado.

Como mencionei mais acima, definir o que é morrer se tornou mais difícil com o avanço da medicina. Antigamente, as pessoas estavam com uma doença ou sofriam um acidente e era bem mais fácil de dizer se elas iam morrer ou se recuperar.

Agora, com as doenças crônicas, como a demência e a insuficiência cardíaca, falamos de um processo que pode levar anos. Então o foco nesses casos é tentar viver bem, mesmo como uma enfermidade considerada terminal. Pode ser, inclusive, que você acabe morrendo de outra coisa no caminho.

BBC News Brasil - É curioso como essa discussão ultrapassa as barreiras da ciência. O cantor e compositor brasileiro Gilberto Gil, por exemplo, tem uma música em que ele diz "não ter medo da morte, mas, sim, medo de morrer"...

Sallnow - Isso é muito interessante de se pensar. A compreensão cultural do que morrer significa é geralmente mais poderosa do que o conceito técnico da medicina. As narrativas populares é que nos dão o contexto necessário para entender isso. Inclusive, o famoso diretor americano Woody Allen tem uma frase famosa a esse respeito: "Eu não tenho medo de morrer. Só não quero estar lá quando acontecer".

Sim, a morte é amedrontadora e desconhecida. Nós perdemos o controle e nos tornamos dependentes dos outros. Tudo isso vai contra a narrativa da nossa época, em que independência, força, autonomia e controle do corpo e das próprias decisões são tão importantes.

E isso me leva a uma outra discussão sobre o desconhecimento. Há uma noção de que a morte costumava ser mais familiar para muitas comunidades e culturas em todo o mundo. As pessoas estavam acostumadas com o que era morrer.

Na minha profissão, vejo pessoas morrendo o tempo todo. Mas, fora desse contexto, especialmente nos países mais ricos, as pessoas não veem mais isso. Nós morremos cada vez mais tarde, o que é ótimo. Trata-se de uma conquista da medicina e da saúde pública.

Mas isso também significa que você pode ser muito mais velho quando vê a primeira pessoa mais próxima morrer. Isso pode ser muito assustador e no geral não se sabe muito bem quais são os sinais e como oferecer apoio nesse momento final.

Existe um padrão do que acontece quando a pessoa está nas suas últimas horas. Ocorre uma alteração no ritmo da respiração, há mudanças de fala e outros detalhes muito comuns. Mas, se você nunca viu isso antes, essa cena pode ser assustadora.

Isso faz com que os amigos e familiares enviem a pessoa que está morrendo para o hospital, porque há uma ideia de que essa mudança de padrões do corpo não é natural. E, claro, elas têm medo de não fazer a coisa certa pela pessoa que amam. Há um temor de que o indivíduo está sofrendo e sem o apoio necessário. O resultado disso é o aumento das mortes em hospitais. ]

'No Japão, as pessoas fazem cerimônias para honrar e lembrar dos antepassados'

Me parece que temos um enorme desafio pela frente. A morte se tornou tão desconhecida e fora do radar que isso nos leva a um círculo vicioso. Nós transferimos a responsabilidade de cuidar da pessoa para o sistema de saúde, quando o fim da vida pode acontecer no conforto de casa em muitos casos.

De certa maneira, isso me lembra de toda a discussão sobre o parto. Há uma medicalização do nascimento e também da morte. É claro que, em ambos os casos, há um componente ligado à medicina, mas não podemos nos esquecer da importância da família e dos relacionamentos próximos nesses momentos-chave.

Nosso objetivo com a comissão foi mostrar que há algo errado. E precisamos, sim, de medicações, cuidados paliativos e suporte à saúde na hora da morte. Mas isso não pode ser a única coisa que oferecemos.

Nós temos ótimos serviços de cuidados paliativos espalhados pelo mundo, mas às vezes sinto que essa é a única resposta que damos à morte. É claro que o indivíduo precisa desses cuidados, de remédios para a dor, de uma boa cama... Mas tudo isso são apenas ferramentas, uma maneira de garantir que elas tenham boas conversas com familiares e amigos, para que possam refletir sobre o sentido da vida e se preparar para morrer. Essas sim são as coisas grandes, os fatores existenciais e significativos.

BBC News Brasil - E como a senhora se interessou por esse assunto e direcionou a carreira para essa área?

Sallnow - Quando eu era estudante de medicina, comecei a aprender sobre os cuidados paliativos. E, para mim, ser médica vai muito além de prescrever comprimidos. É claro que o tratamento é uma parte importante do meu trabalho, mas eu estava mais interessada em entender como a comunidade, as relações e os contatos são promotores de saúde.

Existem muitos estudos comprovando que os sistemas de saúde não constroem vidas mais saudáveis sozinhos. O importante é o ambiente. Os determinantes sociais de saúde são muito mais poderosos para determinar a forma que vivemos e morremos.

Eu sempre vi a morte como um evento tão importante, pelo qual todos nós vamos passar. É uma certeza universal. E uma coisa que percebi como voluntária de um asilo era que ninguém falava sobre morrer. As pessoas tentavam esconder e fugir do assunto, o que só torna todo o processo mais difícil para nós mesmos.

Ainda quando era estudante de medicina, fui para a Índia e tive contato com um novo modelo sobre a morte, em que a comunidade estava no centro de tudo. As pessoas estavam cientes do que é morrer e elas tiraram o controle de médicos e enfermeiros. Não tinha nada parecido com isso no Reino Unido, onde só víamos hospitais e casas de cuidado.

Eu voltei da Índia muito inspirada e com vontade de mudar a visão que temos sobre o morrer. Há 20 anos, comecei a trabalhar com colegas de várias partes do mundo para conhecer e desenvolver diferentes modelos para trazer a morte de volta ao controle da comunidade.

BBC News Brasil - Além da Índia, a senhora lembra de outros modelos interessantes de como lidar com a morte de forma mais saudável e sustentável?

Sallnow - Na Áustria, há uma iniciativa chamada "últimos socorros", numa referência aos primeiros socorros aos quais estamos acostumados. A ideia é empoderar todo mundo sobre o que fazer diante da morte das pessoas.

Temos projetos que focam na comunidade e tentam mostrar como é possível ajudar os outros num momento como esse. Eles também ensinam o que acontece perto da morte, o que dizer para a pessoa e como dar o suporte adequado.

Existe também o projeto das doulas da morte, inspiradas nas doulas que fazem o parto. O interessante é que essa iniciativa foca nas mulheres mais velhas, que são aquelas que comumente mais tiveram contato com a morte dentro daquela comunidade. A ideia é que elas ensinem e promovam abordagens sobre o que falar para uma família em luto e como identificar quando o processo natural da morte se inicia.

Por fim, há também um modelo de "alfabetização sobre a morte". A ideia é usar o conceito da alfabetização em saúde, que nos ensina sobre a importância da dieta e dos exercícios físicos para prevenir as doenças. No caso da morte, a proposta é fazer planos para o futuro e avisar as pessoas próximas, por exemplo, se você não quer ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ou não deseja fazer algum tratamento específico e não puder decidir na hora.

'Dia dos Mortos é uma das datas mais importantes da cultura mexicana. Familiares e amigos se reúnem para celebrar e recordar aqueles que já se foram'

BBC News Brasil - Existe uma desigualdade na forma como a morte é abordada em países ricos e pobres?

Sallnow - Sim, há uma enorme desigualdade. Se você só considerar a expectativa de vida, há uma diferença de décadas entre os índices de nações ricas e pobres. Um dos participantes da nossa comissão vem do Malaui e a expectativa de vida lá é quase 20 anos mais baixa em relação ao Reino Unido. Em outros países, essa disparidade é ainda maior.

Há diferenças significativas também se você analisar as principais causas de morte de cada lugar. Nos mais pobres, há mais óbitos por conflitos, violência ou doenças e acidentes preveníveis. E ainda existe uma enorme desigualdade no acesso aos serviços e às políticas públicas de saúde. Tudo isso ajuda a determinar como, quando e porque cada um de nós vai morrer.

Mesmo para aquelas pessoas dos países mais pobres que têm acesso aos cuidados paliativos, a última disparidade chocante é a falta de acesso a formas de aliviar a dor. Existem mapas mostrando como é a distribuição de morfina [remédio usado para aliviar esse sintoma] por várias partes do globo. No Canadá e nos Estados Unidos, acontece um uso além da conta. Já na Índia, na África e na Rússia temos uma falta desse medicamento. Então muitas pessoas ainda estão morrendo com dor, quando é possível aliviar esse sofrimento.

BBC News Brasil - A senhora mencionou o aumento da expectativa de vida nos últimos séculos. Como uma vida mais ampla modificou, para melhor e para pior, a nossa relação com a morte?

Sallnow - A expectativa de vida é uma conquista da qual devemos nos orgulhar profundamente. E isso só foi possível graças à medicina, à saúde pública, à vacinação e às mudanças na habitação. Todos esses diferentes determinantes sociais contribuíram de alguma maneira para isso, o que é brilhante e admirável.

Mas o problema agora é que morremos cada vez mais tarde e por doenças crônicas, e não de forma inesperada, por acidentes ou doenças preveníveis. Existe então uma transição, em que os óbitos ocorriam de forma aguda e em indivíduos mais jovens, para mortes por condições crônicas múltiplas, que levam dez ou mais anos. No cenário atual, a deterioração da saúde acontece de forma muito lenta.

Os sistemas de saúde, porém, sofrem para lidar com essa transição. Porque eles são baseados num modelo de cuidado agudo. Acontece o diagnóstico de uma infecção ou de uma fratura no quadril, aquilo é tratado e, pronto, você recebe alta. Mas agora a tendência é precisarmos cada vez mais de intervenções regulares, por muitos e muitos anos.

Isso revela a necessidade de um novo modelo de saúde. Porque estamos falando agora de obesidade, tabagismo, transtornos mentais e várias outras condições em que a prevenção é muito mais relevante que o tratamento.

Devemos trabalhar mais próximos da própria pessoa e de seus familiares. Afinal, são eles que farão as escolhas no dia a dia. Já o modelo antigo, que imperou por pelo menos 50 anos, é muito mais paternalista. O médico fazia o diagnóstico, prescrevia o tratamento e só.

BBC News Brasil - Em muitas comunidades, falar sobre morte é um tabu. Esse é um fenômeno recente ou vem de uma tradição antiga?

Sallnow - Existem vários exemplos disso ao longo da história. Algumas tradições populares falam sobre a morte de forma bem aberta. Há lugares que fazem funerais públicos, promovem conversas sobre o que há depois da vida e preparam as pessoas sobre o que é morrer. Outros lugares, na contramão, até falar a palavra morte já é sinal de má-sorte.

Um exemplo clássico de celebração daqueles que já se foram acontecem no México e no Japão. Mas existem também outros lugares em que amigos e familiares visitam os túmulos e conversam constantemente sobre a pessoa que morreu, até no sentido de mantê-la viva na forma de memórias coletivas.

'A pandemia de covid-19 reforçou ainda mais a medicalização da morte, acredita Sallnow'

Há comunidades que veem a morte como parte da vida. E outras que, por questões religiosas e culturais, não querem nem falar no assunto. Porém, mesmo nas sociedades em que a morte é um tabu, existem maneiras de abordar o tema de forma indireta ou figurada. Afinal, os conceitos sobre a morte já estão lá, eles só não falam diretamente nisso.

Mas percebemos que existe atualmente um sentimento geral de não se falar abertamente sobre a morte. Isso se deve parcialmente ao fato de as pessoas terem medo, mas também porque há um desconhecimento generalizado e uma ilusão de que basta ir ao hospital para resolver todos os problemas de saúde.

A morte é triste e ninguém quer perder as pessoas que ama. Não queremos minimizar isso de jeito nenhum. Mas, quando não falamos sobre o tema ou não nos preparamos para esse fato, isso é bastante prejudicial, já que não fazemos nenhum plano, não nos despedimos e quem fica não sabe como lidar com tudo.

BBC News Brasil - Nós estamos no meio de uma pandemia, em que as imagens de UTIs e pacientes intubados se tornaram comuns, assim como os números crescentes de mortes por covid. Isso nos aproximou ou nos afastou ainda mais do significado de morrer?

Sallnow - A pandemia teve muitos impactos. Primeiro, ela escancarou diariamente nos jornais e nas televisões o que é morrer. Por um lado, isso aumentou o medo de todos nós. Até porque a morte sempre foi apontada como a consequência derradeira da covid.

Por outro, toda essa crise reforçou a importância de estar conectado em tempos tão difíceis. É só lembrar das imagens de funerais em que só uma pessoa podia estar presente, ou a ideia de alguém morrendo sozinho, sem a família, isolado num hospital...

Isso tudo nos provou que a medicina não é suficiente para lidar com a morte. Você necessita de um excelente sistema de saúde, mas as pessoas precisam estar próximas da família. Os laços sociais fortes são importantes demais para o bem-estar de todos. A pandemia então comprovou o quão ruim é estar sozinho e como a falta de suporte social pode ser destrutiva.

Num nível existencial, me parece que as pessoas estão mais reflexivas sobre o que significa a mortalidade nesse momento. Todos nos tornamos mais conscientes do papel da perda e da morte em nossas vidas, já que muitos foram afetados pela partida de alguém querido.

'Sallnow acredita que os laços sociais e a conexão com família e amigos são essenciais durante o processo de morrer'

BBC News Brasil - E também não podemos ignorar o impacto que as mudanças climáticas terão no mundo nas próximas décadas. O efeito disso na perspectiva sobre a mortalidade pode ser parecido ao que vimos na pandemia?

Sallnow - As mudanças climáticas desafiam a noção de que temos controle sobre a natureza. De certa maneira, há uma similaridade com a pandemia. Sentimos que estamos acima e mandamos na natureza, quando na verdade fazemos parte dela.

É preciso considerar que o excesso de tratamentos médicos e essa tentativa de estender a vida tem um grande custo financeiro. Isso por sua vez representa um enorme impacto no planeta, do ponto de vista de recursos naturais e da emissão de carbono. Em última análise, esse exagero pode levar a uma piora da situação global e provocar um aumento nas doenças e nas mortes. Ou seja, nossa busca por ampliar a vida hoje pode afetar a saúde das gerações futuras.

Devemos então colocar na balança o preço ético, financeiro e climático de tratamentos que não trazem benefícios claros ao paciente. E há muitas terapias fúteis que são oferecidas nos hospitais, especialmente nos momentos mais críticos, que não vão mudar em nada a progressão do quadro.

BBC News Brasil - No primeiro relatório, vocês mencionam "os cinco princípios de uma utopia realista". A senhora poderia explicar quais são eles e o que significam?

Sallnow - Nós queremos ser esperançosos sobre o futuro, porque descrevemos muitas coisas que estão erradas e não funcionam. Nosso objetivo, então, foi propor como é possível mudar esse cenário para melhor.

Nós podemos nos inspirar nos sistemas que existem para outros problemas. O combate à obesidade, por exemplo, envolve uma série de políticas públicas diferentes com um objetivo em comum. Tudo está conectado e precisamos entender essas questões de uma maneira mais ampla.

O mesmo vale para o morrer. Não basta apenas ampliar a oferta de cuidados paliativos ou focar só nas ações comunitárias. Há muitas e muitas áreas que precisam ser abordadas.

Nós definimos então cinco princípios que, se colocados em prática, podem mudar radicalmente a forma como as pessoas lidam com a morte e com o luto. Nós focamos nas desigualdades, no papel das relações sociais e das redes de contato, a ideia de que a morte não é apenas um evento fisiológico, mas envolve também questões espirituais e existenciais, e a proposta de que tudo isso deve ser abordado de uma maneira que seja apropriado para cada cultura.

'Mudanças climáticas não permitem pensar em imortalidade, acredita médica inglesa'

Essas conversas sobre morrer são importantes para todos nós durante a vida. Então precisamos encontrar maneiras de integrá-las no nosso dia a dia.

Há exemplos ao redor do mundo em que alguns aspectos dessa utopia realista já estão presentes. O que precisamos agora é começar a ampliar essas iniciativas, para que elas deixem de ser ações isoladas. A ideia é ver como podemos aprender e adaptar esses projetos para cada sociedade, sempre respeitando os aspectos culturais e religiosos.

BBC News Brasil - A ideia da imortalidade é algo que a humanidade sempre perseguiu, e vemos isso em histórias antigas e recentes. A senhora acha que chegará o dia em que seremos imortais? Ou vida e morte são eventos que estarão sempre conectados?

Sallnow - A imortalidade sempre foi um sonho. Isso é histórico e está presente no nosso imaginário há milênios. Sempre existiram lendas sobre um elixir especial que você toma e rejuvenesce ou vive para sempre.

Mas eu diria que, no momento, diante de tantas desigualdades que vemos em todo o mundo, nosso foco não deveria ser em estender ainda mais a vida daquele grupo minoritário que é capaz de pagar por isso, enquanto a maior parte do mundo ainda está morrendo de doenças preveníveis.

Isso é uma questão de justiça social. Enquanto não nos assegurarmos que a maior parte do nosso mundo vive de forma mais igualitária, é injusto investir tanto dinheiro na busca pela imortalidade.

Em segundo lugar, eu me questiono: onde essas pessoas que querem viver pra sempre acham que estão? Porque há um claro conflito entre mudanças climáticas e imortalidade.

A menos que mudemos radicalmente a forma que vivemos e consumimos os recursos do planeta, não haverá a menor possibilidade de vivermos por 200 anos ou mais. 

BBC Brasil

Um inferno do século 21 - Editorial




Imagens das atrocidades russas e relatos de execuções sumárias são aterradores e clamam por uma punição a Putin por atacar civis numa guerra sem sentido

O recuo das tropas russas nos arredores de Kiev permitiu ao mundo ver a selvageria do Kremlin com seus próprios olhos e ouvir o seu cinismo com seus ouvidos.

O Kremlin diz que nenhum residente dos subúrbios de Bucha e Irpin sofreu violência pelos russos. As fotos mostram cadáveres espalhados pelas ruas e pilhas de sacos pretos. Há um homem baleado enquanto andava de bicicleta. Há automóveis destroçados com corpos dentro.

A Procuradoria-Geral ucraniana relatou 410 cadáveres de civis, mas o número seguramente é maior. Autoridades de Bucha relatam pelo menos 280 em valas comuns. Em um bosque na vila de Motyzhyn foram exumados os corpos da prefeita, seu marido e seu filho, assassinados, segundo as autoridades, após se recusarem a cooperar com os russos.

A imprensa e organizações independentes registram evidências de execuções sumárias. Há corpos com mãos atadas ou pólvora no rosto, indicando tiros à queima-roupa, além de sinais de tortura e relatos de espancamentos e estupros.

O Kremlin declara que “as fotos e vídeos publicados pelo regime de Kiev em Bucha são só mais uma provocação”, uma “farsa” para desviar a mídia ocidental. Mas nenhum especialista em defesa ou direitos humanos está surpreso. “Qualquer um que diga que Bucha é resultado da brutalização ou de um comportamento delinquente está errado”, disse Jack Watling, do instituto britânico Royal United Services. “Esse era o plano. Foi premeditado. É consistente com os métodos russos na Chechênia. E, se o Exército russo tivesse sido mais bem-sucedido, haveria muitas outras cidades como ela.”

O pior está por vir. Há indícios de tropas e mercenários chechenos próximos a Kiev. Mas é sobretudo no leste, onde Vladimir Putin está concentrando esforços, que provavelmente atuam mercenários sírios e do Grupo Wagner, uma milícia diretamente conectada ao Kremlin. Seus paramilitares já serviram na invasão da Ucrânia em 2014. Desde então, passam-se por soldados e separatistas russos na região de Donbass, e já auxiliaram ditadores favoráveis a Putin na Síria, Líbia, Mali, República Centro-Africana, Sudão e Venezuela.

Mykhailo Podolyak, conselheiro da presidência ucraniana, disse que a região de Kiev foi um “inferno do século 21”: “Os piores crimes do nazismo voltaram à Europa”.

O secretário-geral da ONU pediu uma investigação por crimes de guerra. O presidente francês, o chanceler alemão e o presidente do Conselho Europeu apontaram nas atrocidades indícios de crimes de guerra, e prometeram retaliar com mais sanções. Em março, após o bombardeio de uma maternidade e um teatro repleto de civis em Mariupol, o presidente norte-americano, Joe Biden, já havia chamado o presidente russo de “criminoso de guerra”. Tornou a fazê-lo agora.

As evidências se acumulam. Mas Putin e seus correligionários estão longe de uma punição. Mais de 1 milhão de pessoas, incluindo dois ex-primeiros-ministros britânicos, peticionou por um tribunal nos moldes de Nuremberg. O crime de agressão, sob jurisdição da Corte Internacional de Justiça, que julga Estados, parece claro. Mas qualquer sanção depende do Conselho de Segurança da ONU, onde a Rússia tem poder de veto.

O Tribunal Penal Internacional, que julga indivíduos, investiga crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. Mas as ordens criminosas precisam ser documentadas, e, mesmo que fossem, a Rússia não reconhece a Corte e não entregará cidadãos russos, muito menos dos altos escalões.

Isso não significa que os processos não devam avançar. Se as ferramentas forenses não forem empregadas agora, muitas evidências se perderão. 

Muitos dirão que jogar Putin contra as cordas é contraproducente para a paz. Mas a história mostra que apaziguar tiranos só lhes dá fôlego para perpetrar mais atrocidades. A legitimação das Cortes pode revigorar os ucranianos, impulsionar o auxílio do Ocidente e desencorajar soldados e oficiais russos. De resto, por remota que seja no presente, há sempre a possibilidade de que no futuro o povo russo deponha Putin e faça justiça a seus irmãos ucranianos, entregando-o ao banco dos réus.

O Estado de São Paulo

"Bolsonaro é o fanatismo religioso como projeto de poder"




Organizador da campanha "Derrotar Bolsonaro é um Ato de Fé", o pastor progressista Henrique Vieira acredita que a crise social e econômica sob Bolsonaro terá impacto no voto evangélico, reduzindo o peso da "pauta moral"

Por Malu Delgado

A atuação de evangélicos progressistas passou a ser um ativo importante para a centro-esquerda na disputa presidencial de 2022, com boa parte do segmento pentecostal alinhado ao presidente Jair Bolsonaro.

Midiático, com mais de meio milhão de seguidores no Instagram, o pastor Henrique Vieira, da Igreja Batista do Caminho, – também ator, poeta, militante da esquerda e provável candidato a deputado federal pelo Psol no Rio de Janeiro – é um dos organizadores da campanha "

Derrotar Bolsonaro é um Ato de Fé”.

Em entrevista à DW Brasil, Vieira explica que essa frente não será composta apenas por evangélicos, mas por cristãos, e tem por objetivo defender um projeto de sociedade com democracia, justiça social e direitos humanos. Segundo ele, não se trata de uma frente pró-Lula, ainda que pessoalmente o pastor assuma abertamente seu voto e engajamento na campanha do petista.

A esquerda brasileira, segundo o pastor, avançou na compreensão sobre a heterogeneidade do público – e do eleitor – evangélico no Brasil (cerca de 30% da população do país), mas ainda comete erros, segundo ele.

"Não acho que o diálogo com o campo evangélico tenha que ser pragmático visando as urnas, apenas. Tem que ser um debate sobre o país. Ainda vejo esforço de pactuação com lideranças evangélicas conservadoras. Questiono quando a relação prioritária é com lideranças pragmáticas, fisiológicas, que têm projeto de poder.”

Como o campo de fiéis evangélicos é majoritariamente popular e pobre, o pastor acredita que a crise econômica e social do Brasil terá impacto no voto desse eleitorado, maior que a pauta moral. Além disso, ele aposta que a indiferença do presidente com o sofrimento das pessoas, na pandemia, e os laços da família Bolsonaro com as milícias, que aterrorizam as favelas, também vão reduzir o apoio de evangélicos ao projeto da extrema direita.

DW Brasil: Você está à frente de uma campanha para criar a frente para derrotar Bolsonaro. Em que consiste?

Henrique Vieira: Estamos lançando a campanha "Derrotar Bolsonaro é um Ato de Amor”. Quem está conduzindo é o Coletivo Esperançar, do qual faço parte, de cristãos, que têm compromisso com uma agenda de justiça social, direitos humanos e respeito à diversidade. Sou o porta-voz.

Até agora pelo menos 10 mil pessoas responderam dizendo que a partir da fé querem se organizar para fazer o contraponto a Bolsonaro e ao bolsonarismo. Vamos lançar um site para que as pessoas possam se cadastrar e mapear igrejas e coletivos. Vamos criar comunidades virtuais, grupos de whatsApp.

Ou seja, vamos atuar onde o bolsonarismo atua. Só que eles atuam com dinheiro que não sabemos de onde vem, com mecanismos antiéticos e por vezes criminosos, espalhando fake news e ódio. Nós vamos agir dentro da lei, com ética, e só cadastrar pessoas que voluntariamente quiserem e vamos usar esses grupos como espaço de multiplicação de um material consistente, bíblico, teológico e político para demonstrar a incompatibilidade do bolsonarismo com o Evangelho. E vamos lançar um curso, com o nome da campanha. Vamos apostar também na dimensão presencial, fazendo comitês no Brasil inteiro.

Essa campanha pretende reunir não apenas evangélicos, mas também católicos e pessoas de outras religiões?

Sim. Meu objetivo, como pastor, é disputar a narrativa do cristianismo. Vamos acolher nos grupos pessoas não cristãs que querem fortalecer essa resistência ao bolsonarismo.

Essa campanha contra o bolsonarismo terá vinculação com a candidatura do ex-presidente Lula? Ou é apenas anti-Bolsonaro e cada um que faça suas escolhas políticas?

Exatamente isso. Não é só anti-bolsonarismo. Vamos trabalhar com um conjunto de valores: direitos humanos, justiça social, reforma agrária, justiça socioambiental, pauta antirracista. Isso vai se associar diretamente a uma campanha presidencial? Não. Não vamos declarar, como campanha, apoio ao Lula. Eu vou fazer campanha para o Lula. Mas essa frente é para organizar cristãos e cristãs para derrotar Bolsonaro.

Em manifestações recentes você tem pontuado a dificuldade da esquerda para dialogar com evangélicos. Houve evolução de diálogo de 2018 pra cá?

Vejo avanços sim. Se compreende a importância do campo evangélico no cenário político brasileiro. Percebo na esquerda que não se reproduz mais uma visão genérica e preconceituosa. Parte significativa da esquerda já percebeu que o campo evangélico é plural, não é exclusivamente conservador e que é majoritariamente popular, pobre, formado por trabalhadores.

Mas o debate ainda não está bem encaixado, bem qualificado. Os desafios são enormes. Por exemplo: o debate ainda está muito vinculado ao processo eleitoral, e isso é um limite. Não acho que o diálogo com o campo evangélico tenha que ser pragmático visando as urnas, apenas. Tem que ser um debate sobre o país, compreendendo uma parcela do povo trabalhador e pobre do Brasil.

Outro ponto: ainda vejo esforço de pactuação com lideranças evangélicas conservadoras. O conservadorismo no Brasil é amplo, está enraizado, e não podemos deixar de dialogar com as pessoas porque são conservadoras. Questiono quando a relação prioritária é com lideranças pragmáticas, fisiológicas, que têm projeto de poder. Essas lideranças podem apoiar [a esquerda] hoje, numa lógica de custo-benefício, mas ali na frente podem ajudar a dar o golpe.

O debate prioritário não tem que ser com essas lideranças, algumas inescrupulosas; tem que ser com a base, com o povo que se organiza nas ruas, nas esquinas, nas praças e dentro das igrejas. Não é chamar e tirar foto com lideranças poderosas: é caminhar ao lado desse povo, que lota as igrejas evangélicas nas periferias, no cotidiano.

O PT nomeou como interlocutor evangélico o pastor Paulo Marcelo, ligado no passado a Silas Malafaia. Malafaia e Edir Macedo já estiveram ao lado de Lula, mas hoje são grandes aliados de Bolsonaro.

Essa é a crítica que eu faço. O esforço que o PT está fazendo não é equivocado, pelo contrário. Tem um esforço positivo. A criação dos núcleos evangélicos [uma proposta do PT] é pedagógica.

O problema está numa articulação prioritária com setores que não comungam com um projeto de sociedade que é o que nós defendemos. São lideranças contrárias, antagônicas ao que defendemos. Aí é apenas uma relação pragmática para dar estabilidade eleitoral, mas que não tem fôlego, não tem durabilidade.

Você é defensor do Estado laico. O neopentecostalismo no Brasil avança diante da omissão do Estado, sobretudo nas camadas sociais mais vulneráveis. Pessoas encontram amparo religioso onde não há resposta governamental. Como garantir o Estado laico neste contexto, em que lideranças evangélicas têm um claro projeto de poder?

O Estado laico não é contra religião. Ao contrário: preserva e resguarda o direito à crença religiosa, manifestações religiosas e o direito à não crença. É uma perspectiva de democracia, de respeito à individualidade. Defender o Estado laico não significa tirar da fé o seu caráter público e político.

Quando a fé é capturada por uma lógica fundamentalista, ela se torna um projeto de poder e de imposição, não respeita a individualidade e a diversidade,  se apropria do Estado, das leis e de políticas públicas. Esse projeto de poder impositivo, perigoso, violento, anti-laico e anti-democrático precisa ser derrotado. Esse projeto é o de determinadas lideranças evangélicas hoje.

'Vários setores do movimento evangélico se alinharam com Bolsonaro'

O governo Bolsonaro parece ser o exemplo mais latente da permissividade do Estado com esse projeto religioso de poder.

O governo Bolsonaro é mais do que fundamentalista, é o fanatismo religioso como projeto de poder. Isso é violento, anti-laico, anti-democrático, e mata. A experiência religiosa tem essa característica: quando ela é atravessada pelo amor, pelo engajamento profundo com a humanidade, a gente olha para a história e vê exemplos lindos, individuais e comunitários.

As comunidades eclesiais de base no Brasil, a luta antirracista nos EUA atravessada pelo gospel e pela linguagem cristã são exemplos. Agora, o inverso também é verdade. Quando se produz violência em nome de Deus, o resultado é incontrolável. O governo Bolsonaro usa uma simbologia religiosa que legitima a barbárie.  Por isso estamos organizando essa campanha. Sabemos do potencial de carnificina que se pode fazer em nome de Deus.

Você afirma que nem todo evangélico é conservador. O governo Bolsonaro se ancora na pauta dos costumes. Acha que se repetirá o quadro de 2018, com debates sobre aborto, "kit gay", de maneira massiva, com fake news associadas à religião?

Nem todo evangélico é conservador, nem todo conservador é fascista. Há pessoas que têm o conservadorismo como o eixo estruturante da sua vida, da sua família, mas de projeto de sociedade também. Querem pautar o Estado e a sociedade. Começa aí a ganhar um contorno autoritário, violento, impositivo e fascista. Essa compreensão nos ajuda a conversar com as pessoas, sem descartá-las ao primeiro indício de conservadorismo.

Tem uma parcela de extrema-direita fascista na sociedade brasileira e com ela não há diálogo. Mas há uma parcela conservadora com quem precisamos aprender a dialogar para pensar num projeto de país.

Esses temas de costume vão surgir na eleição com mais força?

O bolsonarismo se utiliza e potencializa traços conservadores da nossa história. Tenho dúvidas quando as pessoas falam que isso é cortina de fumaça. Eu acho que é o projeto do bolsonarismo e da extrema direita. Não é apenas tático, é estratégico. Não é apenas propaganda para eles ganharem votos. Eles realmente acreditam e defendem um projeto de sociedade pautado nestes pilares colonizadores: patriarcado, elitismo, aversão ao pobre, racismo e cis-heteronormatividade.

O bolsonarismo potencializa dispositivos existentes na formação política, econômica e cultural do Brasil e reafirma esse projeto colonizador: o homem hétero, pai de família, chefe da casa, com a mulher em seu devido lugar, de submissão e silenciamento. Não há espaço para a diversidade religiosa, de pensamento e de sexualidade. O bolsonarismo, mais uma vez, vai ativar na eleição essa memória, esse registro colonizador, que no Brasil tem grande atravessamento religioso.

O cristianismo institucional hegemônico é parte fundamental deste projeto, desde sempre. Por isso vem tudo junto.  O projeto deles é de supremacia masculina, hétero, branca. Querem esse futuro.

Como prevê a postura de evangélicos na disputa presidencial?

Espero é que parte significativa do campo evangélico possa orientar o seu voto não só pela dimensão moral. Tem outra coisa batendo à porta: a fome, o desemprego, a inflação, a precariedade cada vez maior das condições de vida, preço dos alimentos, da gasolina.

Minha expectativa é que essa dimensão material, econômica e social seja um fator para reduzir o peso da pauta moral na orientação do voto. O governo Bolsonaro piora a vida do povo, ajuda a precarizar ainda mais as condições de vida do povo. Minha aposta é que essa pauta social ganhe força no imaginário evangélico e reduza o peso do bolsonarismo.

Segunda aposta: uma parcela do campo evangélico começa a perceber que uma coisa é ser conservador, mas Bolsonaro foi indiferente ao sofrimento das pessoas na época da covid. Indiferença ao sofrimento humano não bate com os princípios da fé. E Bolsonaro tem relação com milícias, com grupos armados que tocam o terror nas favelas? Uma coisa é o conservadorismo, outra coisa é perceber que o presidente da República tem relação com grupos criminosos, que a família dele está envolvida com coisas estranhas e ele fica trocando as pessoas da Polícia Federal para blindar seus filhos.

Além da dimensão social, o caráter violento, arrogante, desrespeitoso e indiferente de Bolsonaro queimam ele numa base evangélica conservadora. Esse é um dado que tem segurado o crescimento dele no campo evangélico. São dados novos, que não estavam bem colocados em 2018.

Deutsche Welle

Análise desmente "cadáveres em movimento" nas ruas de Bucha




Governo russo e perfis pró-Russia em redes sociais afirmam que imagens de corpos espalhados pelas ruas da cidade ucraniana foram encenadas. Checagens da DW e do "NYT" desmentem as alegações.

Por Kathrin Wesolowski e Joscha Weber

Desde o final de semana, circulam diversas imagens terríveis do que restou em Bucha, nos arredores de Kiev, após a retirada das tropas russas. Uma rua repleta de corpos pelo chão. As vítimas não usam uniformes militares. Algumas estão amarradas. Após a divulgação de vídeos pelas Forças Armadas da Ucrânia nos dias
1 de abril e 2 de abril, jornalistas de veículos internacionais também estiveram na região e noticiaram sobre os mortos.

Soldados russos são acusados de fuzilarem civis. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, falou em "genocídio"; o chanceler federal da Alemanha, Olaf Scholz, condenou "os crimes das forças de segurança da Rússia", e o secretário-geral da ONU, António Guterres, se disse "profundamente chocado".

Ao mesmo tempo circula nas redes sociais, impulsionada pela Rússia, uma acusação monstruosa: de que as cenas de Bucha não passam de uma encenação.

O Ministério da Defesa da Rússia escreveu no Telegram que os vídeos são uma "produção encenada e provocação". A embaixada russa em Berlim seguiu a alegação e disse considerar as imagens de Bucha "mais uma encenação do regime de Kiev para a imprensa ocidental". A porta-voz do Ministério do Exterior russo, Maria Zakharova, chegou a dizer que sabe que os Estados Unidos e a Otan supostamente encomendaram os vídeos para colocar a culpa em Moscou.

Não há provas de encenação

As instituições russas, no entanto, não fornecem provas para essas alegações. Perfis pró-Rússia propagam a narrativa nas redes sociais de que tudo não passa de uma grande mentira: atores teriam sido posicionados nas ruas para parecerem corpos. A prova estaria num dos vídeos que mostram os mortos numa rua em Bucha.

As alegações: um usuário de uma rede social afirma que um dos corpos do lado direito do vídeo teria movimentado o braço. Outro pergunta sarcástico se um cadáver pode mexer a mão e outro se levantar. "O que está sendo encenado aqui?", acrescenta.

De acordo com a checagem de fatos da DW, essa alegação é falsa.

No vídeo citado, não dá para ver um corpo levantando o braço ou um dos cadáveres se levantando de repente. A DW verificou as duas alegações e localizou a área onde as imagens foram gravadas: a rua Yablunska, em Bucha. Alguns edifícios aparecem em imagens do Google Street View feitas em 2015, e outros foram construídos aparentemente depois. O comboio que gravou o vídeo ia na direção nordeste.

'Vídeo mostraria corpos supostamente se mexendo'

A primeira alegação seria de que um dos corpos à direita do vídeo teria mexido a mão. Realmente parece que há algo que se move à medida que a imagem se aproxima do corpo, porém, não se trata de uma mão. Análises de imagem feitas pela DW mostram que se trata de uma gota de chuva no para-brisa do carro de onde está sendo feita a gravação. Essa gota se move para cima devido ao vento contrário, dando a impressão de um movimento. Uma outra versão do vídeo, filmada em melhor qualidade, mostra claramente que se trata de uma gota de chuva e não de um movimento de mão.

O legista forense digital Dirk Labudde, professor da Faculdade de Mittweida, analisou as imagens para a DW. Após separar os frames do vídeo, o especialista constatou que se trata "de um artefato no para-brisa do veículo de onde está sendo feita a filmagem que aparece em todos os frames" e que "numa análise detalhada não foi identificado movimento de uma pessoa".

Curvatura do retrovisor sugere movimento

A outra alegação seria de um corpo que se levanta após a passagem do carro de onde está sendo feita a filmagem. O movimento teria aparecido no espelho retrovisor do veículo. Aqui mais uma vez se trata de uma falsa interpretação. A análise feita pela DW mostra que o corpo continua deitado no lugar onde estava.

A combinação do movimento do carro com a mudança de direção da câmera para a frente explica essa falsa interpretação. O espelho retrovisor possui uma curvatura que aumenta o campo de visão. A reprodução do vídeo em velocidade menor mostra que o corpo permanece na mesma posição até mesmo na imagem gravada no retrovisor. Essa também é a conclusão de Labudde.

"Uma alteração na imagem no espelho pode ser percebida devido à mudança de perspectiva da câmera, da curvatura desigual do retrovisor e da distorção do reflexo gerada por isso. Essa alteração dá a impressão de que o corpo que aparece no retrovisor se move. Essa alteração, porém, é coerente com os pontos imóveis ao redor do corpo. Isso indica que não houve nenhum movimento real desse corpo enquanto a câmera estava gravando", explica o especialista.

Corpos estariam nas ruas desde março

Uma investigação do jornal americano The New York Times, com base em imagens de satélites feitas pela empresa Maxar, revelou ainda que os corpos estão desde 19 de março nas ruas de Bucha, e em alguns dos casos, como na rua Yablunska, eles aparecem nas imagens desde 11 de março.

O antes e depois comparando as imagens de satélite de 19 de março e o vídeo de 2 de abril mostra que os corpos estão na mesma posição. Isso rebate claramente a alegação da Rússia de que os corpos apareceram nas ruas depois da retirada das tropas russas em 30 de março.

Essa não é a primeira vez desde a invasão da Ucrânia que a Rússia nega acusações de supostos crimes de guerra e alega que provas para tais atos seriam falsas.

Moscou também classificou as imagens do ataque a uma maternidade em Mariupol como encenação. O ataque e suas consequências para a população civil foram documentados em detalhes desde então. Já o governo russo não forneceu nenhuma prova para a alegada encenação do ataque.

Deutsche Welle

Guerra na Ucrânia: imagem chocante de satélite mostra corpos pelo chão e contradiz versão russa




O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, pediu uma investigação independente sobre “as imagens de civis mortos em Bucha, na Ucrânia”.

Alerta: Esta reportagem contém imagens fortes que podem ser consideradas perturbadoras.

Depois que as tropas russas se retiraram da cidade nos arredores de Kiev, surgiram imagens de corpos nas ruas, que também foram vistos por equipes de meios de comunicação.

A Ucrânia acusou a Rússia de um “massacre deliberado” — mas Moscou disse que tudo foi “encenado” depois que suas forças militares se retiraram da área. E fez uma série de alegações infundadas sobre as imagens de Bucha.

Alegação: ‘Cadáveres falsos’

Após a retirada russa, imagens feitas de um carro que passava pela cidade mostraram corpos em ambos os lados da estrada.

As imagens, publicadas pela primeira vez pelo jornal americano The New York Times e verificadas pela BBC, mostram corpos nas exatas posições e na mesma rua que o vídeo que a Rússia alega ter sido encenado depois que suas tropas partiram.

Perfis de rede social pró-Rússia circularam uma versão em câmera lenta do vídeo, alegando que o braço de um dos corpos se moveu.

A imagem do vídeo está granulada, mas uma análise mais detalhada mostra que o que se alega ser um braço em movimento é, na verdade, uma marca no canto inferior direito do para-brisa do veículo.

A marca em questão aparenta ser uma gota de chuva ou uma partícula de sujeira, e há outras semelhantes visíveis no para-brisas do carro no início do vídeo.

Outra alegação russa se concentra em uma parte diferente da filmagem. O carro passa por outro corpo, que jaz ao lado de uma calçada com pedras vermelhas e amarelas e uma cerca marrom destruída.

À medida que o veículo avança, o corpo pode ser visto brevemente no retrovisor direito. Perfis pró-Rússia afirmam que o corpo “se senta”.

Mas uma versão mais lenta do vídeo mostra que o espelho retrovisor está distorcendo claramente o reflexo do corpo, assim como as casas ao fundo.

O mesmo efeito pode ser observado em vídeos de espelhos retrovisores semelhantes postados na internet.

A BBC comparou os dois corpos do vídeo (publicado em 2 de abril) com fotos de alta resolução fornecidas pela Getty Images e pela AFP em 3 de abril.

No vídeo, o primeiro corpo jaz de costas perto de um meio-fio branco e amarelo. A calçada à direita é parte asfaltada, parte grama. Um carro prateado pode ser visto na calçada com o porta-malas aberto na frente de uma cerca branca. O mesmo carro, meio-fio, calçada e cerca são visíveis na imagem da Getty/AFP.

O segundo corpo tem uma jaqueta preta e o que parece ser um torniquete ou curativo ensanguentado no braço direito. Está deitado de lado próximo a uma calçada vermelha e amarela, em frente a uma cerca marrom destruída. A jaqueta preta, o torniquete/curativo, a calçada e a cerca correspondem à foto do corpo publicada pela Getty/AFP.

Alegação: Corpos ‘não enrijecidos’

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia tuitou: “É particularmente preocupante que todos os corpos das pessoas cujas imagens foram publicadas pelo regime de Kiev não estejam enrijecidos após pelo menos quatro dias”.

De acordo com os militares ucranianos, os russos partiram na madrugada de 31 de março. A Rússia diz que eles saíram em 30 de março.

Nas horas seguintes à morte, os corpos passam por um processo chamado rigor mortis, em que os músculos se contraem e endurecem.

Pedimos a opinião de um patologista forense para saber se um corpo deveria ficar “enrijecido” após quatro dias. O especialista, que trabalhou em lugares como Kosovo e Ruanda em investigações de crimes de guerra, não quis ser identificado, mas disse à BBC que em quatro dias o rigor mortis “geralmente diminui”.

O tuíte russo também alegou que os corpos “não têm manchas típicas de cadáveres”.

Não está claro o que isso significa, mas o patologista disse que a aparência de alguém que morreu por um ferimento de bala ou outro ato de violência varia muito dependendo da arma usada, da distância em que foi atingido e assim por diante.

Nem sempre há muito sangue visível, uma vez que pode se acumular embaixo dos corpos ou encharcar roupas pesadas, especialmente se a pessoa estiver preparada para o frio.

O tuíte pode estar se referindo ao fato de o sangue dentro do corpo se acumular após a morte, pois para de circular, o que pode levar a pele a ficar avermelhada ou roxa.

Mas se alguém estiver deitado, o local desse acúmulo de sangue e descoloração pode não ser visível apenas por uma imagem.

Alegação: ‘Nenhum morador local sofreu qualquer ação violenta’

O Ministério da Defesa russo alegou que, enquanto Bucha estava sob controle russo, “nenhum morador local sofreu qualquer ação violenta”.

Esta alegação contradiz, no entanto, inúmeros testemunhos de moradores.

Um professor local disse à ONG Human Rights Watch em 4 de março que as forças russas prenderam cinco homens e executaram sumariamente um deles.

Moradores que falaram com o site investigativo russo The Insider pintaram uma imagem semelhante. “Foram dias horríveis. Quando nem seu quintal, sua casa ou até mesmo sua vida pertencem a você. Não há eletricidade, água, gás. É proibido sair de casa, se sair — você leva um tiro”, disse Kristina ao The Insider.

Moradores contaram à BBC que os russos arrombaram portas sistematicamente para saquear apartamentos e, enquanto os soldados roubavam objetos de valor e comida, os moradores eram forçados a se sentar no porão.

Reportagem: Jake Horton, Shayan Sardarizadeh, Rachel Schraer, Olga Robinson, Alistair Coleman e Daniele Palumbo.

BBC Brasil / Daynews

Qual é o futuro dos Brics após guerra da Ucrânia - e como Brasil se equilibra no bloco?




Da esquerda para a direita, os líderes de China, Rússia, Brasil, Índia e África do Sul em reunião dos Brics em 2019
~
O bloco formado por Rússia, Índia, Brasil, China e África do Sul prometia ser nova locomotiva econômica no sistema internacional

Por Mariana Sanches, em Washington

Quinze anos depois de ser criado, o bloco de países emergentes formado por Brasil, Rússia, China, Índia e, mais tarde, África do Sul, e conhecido pela sigla Brics, está numa encruzilhada.

A Guerra da Ucrânia, iniciada por um de seus cinco membros, pode forçar o grupo a cumprir um dos destinos que analistas internacionais apontam como o futuro da instituição: de um lado, virar um "bloco zumbi", sem impactos práticos para seus membros; de outro, se fortalecer a ponto de representar uma força alternativa ou antagonista a grupos dos países ricos como o G7 (composto por Canadá, França, Alemanha, Japão, Reino Unido, Itália e EUA).

Especialistas em relações internacionais ouvidos pela BBC News Brasil se dividem sobre qual será o destino dos Brics mais de um mês após os tanques russos adentrarem as fronteiras com a Ucrânia, em uma guerra que já gerou milhares de mortos e mais de 4 milhões de refugiados na Europa.

"Instituições não somem e por isso os Brics devem seguir funcionando, mas com pouca relevância em termos de definições de posicionamentos e de peso geopolítico. O bloco flerta com a condição de zumbi, não há coesão ideológica e seus membros devem seguir com planos independentes paralelamente ao bloco", afirmou à BBC News Brasil Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e membro do Policy Center for The New South, que acompanhou a formação e o desenvolvimento dos Brics.

Já Manjari Chatterjee Miller, pesquisadora sênior para Índia, Paquistão e Sul da Ásia do Council on Foreign Relations, discorda do prognóstico de Canuto. Segundo ela, nos quase 16 anos de existência, os Brics permitiram a seus membros compartilhar informação (não só econômica, mas estratégica, como dados de segurança) e tirar do papel planos compartilhados, como a criação do banco do bloco, o New Development Bank (NDB).

O NDB, composto por cotas de 20% de cada um dos países membros, financia projetos em países emergentes a juros mais baixos e em moeda local, uma forma de proteger as economias desses países das oscilações do dólar.

No começo de março, o banco informou que, por decisão "técnica", suspendeu as operações com a Rússia, depois que parte significativa do sistema bancário russo foi alvo de sanções e de exclusão do sistema internacional de transações financeiras, o Swift.

"Tudo isso foi feito em um espaço que excluía países ocidentais e os Estados Unidos. E foi muito importante para todos os seus membros porque fomentou a cooperação e permitiu a liderança. Duvido que veremos uma desintegração do Brics em breve, mesmo que haja bloqueios e recuos pontuais atualmente, como no caso do NDB, que suspendeu todas as novas transações na Rússia por causa da crise na Ucrânia", disse Manjari à BBC News Brasil.

O termo Bric foi cunhado em 2001 pelo economista-chefe do banco Goldman Sachs, Jim O'Neil, como uma categoria analítica que olhava para Brasil, Rússia, China e Índia como países emergentes que poderiam se tornar, dado seu então crescimento acelerado, um novo eixo de governança econômica do mundo.

Em 2006, o conceito ganhou vida fora da análise econômica quando o presidente russo Vladimir Putin convidou seus colegas do Brasil, da China e da Índia, a viabilizar a existência do grupo, em uma conversa inicial entre diplomatas à margem da Assembleia Geral da ONU, quase 16 anos atrás. O primeiro encontro no nível mais alto do grupo aconteceria só em 2009. E a África do Sul, não prevista no modelo de O'Neil, chegaria apenas 4 anos mais tarde, como a representante do continente africano.

"A vocação primordial dos Brics era funcionar como uma alavanca para os interesses comuns dos membros, aumentar o peso deles nas instituições multilaterais", afirma Canuto, que em 2010 publicou o livro "The day after tomorrow", em que sugeria que poderia haver uma "troca de locomotivas na economia global", já que a importância dos emergentes naquele momento era muito maior do que havia sido no fim dos anos 1980 e 1990, o que deveria provocar mudanças na maneira como as decisões geopolíticas eram tomadas. Entre 2003 e 2007, por exemplo, o crescimento de Brasil, China, Rússia e Índia representou 65% da expansão do PIB mundial.

O próprio Canuto, no entanto, nota que o "entusiasmo" mostrou seus limites. "Os Brics nunca tiveram uma real integração, estão longe de concordar em muita coisa e de levar em conta o posicionamento dos pares nas decisões, como faz o G7", diz o economista, para quem o bloco se mostrou pouco "ambicioso".

Além disso, o próprio ritmo de crescimento dos membros se mostrou intensamente variado, o que torna difícil colocá-los em patamares semelhantes. Enquanto em 2000 o PIB da China era apenas o dobro do que o da segunda maior economia do bloco, na época o Brasil, em 2020 a economia chinesa se mostrou 6 vezes maior do que o segundo colocado no grupo, a Índia (o Brasil foi o quarto maior, apenas à frente da África do Sul).

'O economista Jim O'Neill, que cunhou a sigla Bric, disse que a China foi o único país no bloco que consistentemente exerceu todo o potencial econômico que ele vislumbrara em 2001'

Em um artigo escrito pelo próprio Jim O'Neil em 2021, quando o termo que ele criou completou 20 anos, e publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o economista afirma que a China foi o único país no bloco que consistentemente exerceu todo o potencial econômico que ele vislumbrara em 2001. Já Brasil e Rússia, além da África do Sul, enfrentaram recessões nos anos 2010.

"A segunda década deste século foi um grande contraste com a primeira década, que para todos os quatro países (Brasil, Rússia, China, Índia) se mostrou ainda melhor do que nos cenários que projetei em 2001. Embora a Índia tenha decepcionado notavelmente nos últimos anos, está se desenvolvendo amplamente ao longo do caminho que imaginei. Tanto para o Brasil quanto para a Rússia, no entanto, o desempenho econômico de 2010 a 2020 foi muito decepcionante, o que ocasionalmente me levou a brincar que talvez eu devesse ter chamado os 'Brics' de 'ICs'", escreveu O'Neil.

Para ele, o Brasil e a Rússia sofreram com o que o economista chama de "maldição das commodities", ou seja, ficaram muito dependentes de alguns poucos produtos essenciais e vulneráveis à flutuação do mercado internacional desses itens. Ambos, segundo ele, precisariam diversificar mais a economia e expandir a participação do setor privado nos negócios.

Os RICs e o fim do G20

Se do ponto de vista econômico os BRICS não mostraram estar no mesmo ritmo, do ponto de vista geopolítico, o peso e a importância desses países, além de sua conexão, também não foi consistente ao longo do tempo. Mas esse é um cenário que a Guerra da Ucrânia pode alterar profundamente.

"Há aí uma oportunidade pra reativação do bloco, se é que ele estava dormente. É um bloco anti-hegemonia por princípio, revisionista e reformista da ordem mundial estabelecida no pós-guerra fria. Nesse sentido, goste-se ou não, o bloco tende a ganhar com a guerra da Ucrânia", afirma Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP.

Vieira nota que, enquanto o G7 mostrou coesão e musculatura na crise da Ucrânia (impondo sanções em conjunto à Rússia e realizando reuniões semanais desde o início da guerra), o G20, seu antagonista que incluía países emergentes e nações fora do eixo Europa-EUA deve perder condições práticas de operar. Em resposta, países como China, Índia e Rússia procurarão acelerar sua independência em relação ao dólar e fortalecer seus posicionamentos regionais e em blocos multilaterais, processos iniciados antes da guerra da Ucrânia.

"O G7 acena com a exclusão da Rússia do G20, os Brics já disseram que não concordam com isso, mas na prática é impossível imaginar os líderes da Alemanha e dos EUA apertando a mão e posando para foto ao lado do Putin, a quem (o presidente americano Joe) Biden chamou de "criminoso de guerra". Então o mais provável é que o G20 deixe de funcionar, de ter reuniões. É nesse vácuo que os Brics passam a se tornar uma instância multilateral alternativa importante", afirma Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

Há duas semanas, o Ministério de Relações Internacionais russo postou uma foto em suas redes sociais na qual o chanceler Sergey Lavrov, alvo de sanções da Europa Ocidental, EUA e outros países, posava ao lado dos embaixadores dos demais quatro países dos Brics. A mensagem por trás da postagem, avalia Stuenkel, era mostrar que a Rússia não está isolada do mundo, como gostariam os EUA e a Europa Ocidental.

E não só a Rússia está interessada em investir nesse espaço. A China, que disputa com os EUA a hegemonia econômica mundial na última década, tenta construir um polo alternativo de poder geopolítico.

"Brasil e África do Sul, mergulhada em crise doméstica, perderam muita relevância político-estratégica. O que se impõe agora é uma aproximação dos RICs - Rússia, Índia e China - que até fizeram uma cúpula à parte depois da reunião dos Brics em 2019. São 3 países que lidam com uma realidade geopolítica mais específica e mais grave", afirma Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

Casarões lembra que nem entre esses três atores internacionais é possível falar em harmonia ampla. Embora a Rússia tenha com a China uma relação que os países descreveram recentemente como uma "amizade sem limites", e com a Índia uma complementaridade econômica, com o comércio de combustível e armas, entre China e Índia, a situação é mais tensa. Isso porque os dois países travam há décadas uma disputa territorial e fronteiriça, na região da Cordilheira do Himalaia. E também porque a Índia questiona o protagonismo dado pela China ao seu rival, o Paquistão, na chamada nova rota da seda, o projeto econômico internacional de Pequim.

Apesar dessas diferenças, no entanto, China e Índia parecem dispostas a manter os Brics como um espaço multilateral.

"Todos os três grandes players do Brics - China, Índia e Rússia - têm fortes incentivos para manter o Brics funcional e relevante. Todos esses países têm diferenças entre si, e a instituição dos Brics oferece uma via de cooperação. No mínimo, a crise na Ucrânia tornou ainda mais importante manter o Brics relevante. A China, por exemplo, que sedia a cúpula do Brics este ano, quer a participação da Índia na cúpula. Os chineses veem a Índia compartilhando posição semelhante sobre a Ucrânia (ambos se recusaram a condenar publicamente a Rússia), e o bloco é um espaço que inclui a Índia e exclui os Estados Unidos. Para a Rússia, o Brics é uma instituição legitimadora em um momento em que o país se tornou um pária internacional em muitos quadrantes. Para a Índia, os Brics mantém canais abertos com a China e tem o efeito simultâneo de mostrar à Rússia que não precisa fazer negócios apenas com a China", afirma Manjari Chatterjee Miller.

O equilibrista Brasil

O posicionamento do Brasil em relação à crise da Ucrânia é uma boa síntese do equilibrismo que o país terá que adotar para navegar entre tantos parceiros comerciais fundamentais, como China, Índia e EUA, sem que essas relações tragam custos ao país.

O Brasil foi o único dos membros dos Brics a votar pela condenação das atitudes da Rússia em relação à Ucrânia, tanto no Conselho de Segurança quanto na Assembleia Geral da ONU. A própria Rússia vetou a sua admoestação e os demais países do bloco se abstiveram. O presidente brasileiro, no entanto, deu diversas declarações favoráveis a Rússia e o diplomatas do país discursaram contra as sanções aos russos.

"O que os brasileiros fizeram foi manter uma ambiguidade que pudesse agradar a todos. Fez o gesto para os americanos na ONU, mas também garantiu apoio aos russos contra as sanções. Foi o mesmo quando Putin anexou a Crimeia em 2014 e a (então presidente) Dilma (Rousseff) se recusou a condenar Putin. O posicionamento não era um alinhamento com os russos, mas uma sinalização de que essa guerra não é nossa", afirma Stuenkel.

Dentre os membros do bloco, o Brasil é o que parece ter menores condições de romper ou perturbar a relação com qualquer um dos lados da disputa. Se, por um lado, a China é o maior parceiro comercial do Brasil, por outro, os EUA são o segundo.

Manter esse fino equilíbrio agora, no entanto, pode ser ainda mais difícil do que já foi no passado. Segundo Stuenkel, entre diplomatas europeus, o comportamento brasileiro hoje é visto como pró-Rússia e essa percepção pode ser usada para dificultar as relações do Brasil no exterior, já abaladas recentemente.

Os americanos, por exemplo, ameaçaram sanções à China se Pequim aceitar enviar socorro financeiro ou armamentício a Moscou, algo que os chineses negam que farão. A Índia anunciou que seguiria comprando petróleo russo, mais barato dadas as sanções de dezenas de países ao produto. Em resposta, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse que o movimento colocaria a maior democracia do mundo "no lado errado da História", mesma acusação feita por ela ao Brasil quando o presidente brasileiro Jair Bolsonaro expressou "solidariedade" aos russos em uma visita a Moscou, em fevereiro.

"O Brasil terá que fazer um esforço político real para transformar os Brics em um bloco viável sem necessariamente focar nas questões geopolíticas, que realmente dividem esse grupo de maneira incontornável", afirma Casarões.

BBC Brasil

Em destaque

As duas Masters derrotas do Estado Democrático de Direito

Publicado em 03/05/2026 às 06:07 Alterado em 03/05/2026 às 09:18   E o acordão no Congresso para enterrar a CPI do Master, dará certo? Há qu...

Mais visitadas