Publicado em 6 de fevereiro de 2022 por Tribuna da Internet

Medvedchuk, da oposição, está preso e com os bens bloqueados
Guillaume Binet
Revista Time
As grandes guerras às vezes começam com pequenas ofensas. Um duque assassinado. Um papa irritado. A crença de um rei solitário de que seus rivais não estão jogando limpo. Agora, a Ucrânia é um novo estopim.
A principal voz dos interesses russos na Ucrânia é o partido político de Viktor Medvedchuk, maior força de oposição no parlamento, com milhões de apoiadores. No ano passado, Medvedchuk foi acusado de traição e colocado em prisão domiciliar em Kiev. E agora em janeiro, os EUA acusaram o político e empresário de planejar um golpe com a ajuda dos militares russos.
REPRESSÃO TOTAL – Em fevereiro passado, dias após a posse do presidente Joe Biden, os aliados dos Estados Unidos em Kiev decidiram ser duros com Medvedchuk. O governo ucraniano começou tirando seus canais de TV do ar, privando a Rússia de fazer propaganda no país. A embaixada dos EUA em Kiev aplaudiu a medida.
Cerca de duas semanas depois, em 19 de fevereiro de 2021, a Ucrânia anunciou que havia confiscado os bens da família de Medvedchuk. Entre os mais importantes, estava um oleoduto que traz petróleo russo para a Europa, enriquecendo Medvedchuk e sua família e ajudando a financiar o partido político pró-Rússia.
A resposta de Putin veio menos de dois dias depois, às 7h de 21 de fevereiro. Enviou os primeiros soldados em uma escalada militar que desde então cresceu para mais de 100 mil homens.
OTAN REVIDA – Em reação, os EUA e seus aliados enviaram aviões carregados de armas para a Ucrânia e milhares de soldados para proteger o flanco leste da aliança da OTAN. O impasse resultante revive as tensões da Guerra Fria e leva a Europa à beira de um grande conflito militar.
“Sabíamos que Putin não quer caos e guerra na Ucrânia a longo prazo”, diz um conselheiro de um dos oligarcas ucranianos que financiaram partidos pró-Rússia. “Ele quer um protetorado, um governo leal, como tinha antes.” Os aliados da Rússia em Kiev queriam o direito de concorrer a cargos, comprar indústrias e controlar redes de TV.
Os EUA não estavam abertos a esse tipo de acordo, e o governo Obama adotou uma linha dura contra os agentes russos em Kiev. Muitos deles foram punidos logo após a invasão da Rússia à Crimeia em março de 2014.
NA LISTA NEGRA – Medvedchuk estava no topo da lista negra. Ainda assim, no final de 2018, os partidos pró-Rússia conseguiram um avanço na Ucrânia, formando uma aliança chamada Plataforma de Oposição – Pela Vida. Apoiados por bilionários simpatizantes de Moscou, eles possuíam três redes de televisão na Ucrânia. E o presidente do partido era o velho amigo de Putin, Medvedchuk.
Durante as eleições realizadas no ano seguinte, a Ucrânia escolheu como novo presidente um ator e comediante chamado Volodymyr Zelensky. Sua popularidade derivou de um seriado de sucesso chamado “Servant of the People” (Servidor do Povo), no qual ele estrelou como um presidente fictício. Três meses depois, o partido político de Zelensky conquistou a maioria no parlamento.
Mas a facção de Medvedchuk ficou em segundo lugar, tornando-se a maior força de oposição no país. “Milhões de cidadãos votaram em nós”, disse-me Medvedchuk. “Putin prometeu protegê-los.”
GUERRA DE COMUNICAÇÃO – Os canais de TV de Medvedchuk trabalharam para enfraquecer o novo governo. “Eles estavam comendo a base eleitoral, apenas destruindo Zelensky”, diz o ex- conselheiro de segurança nacional do presidente, Oleksandr Danyliuk. As redes de TV foram especialmente implacáveis em atacar a resposta do governo à pandemia de Covid-19 e seu fracasso em garantir suprimentos de vacinas de aliados ocidentais.
Quando a Rússia lançou sua própria vacina em agosto de 2020, Medvedchuk, a esposa e sua filha Daria foram os primeiros a obtê-la. Eles então voaram para Moscou para conversar com Putin. Foi a primeira reunião pública que o líder russo teve com alguém – sem máscara, diante das câmeras e sem distanciamento social – desde o início da pandemia.
Suas conversas naquele dia resultaram em um acordo para a Rússia fornecer à Ucrânia milhões de doses de sua vacina e permitir que os laboratórios ucranianos a produzissem gratuitamente.
OFERTA REJEITADA – Quando Medvedchuk trouxe a oferta para Kiev, o governo a rejeitou. O mesmo aconteceu com o Departamento de Estado dos EUA, que acusou a Rússia de usar sua vacina como ferramenta de influência política. Mas à medida que o número de mortos aumentava na Ucrânia – e nenhuma remessa de vacinas chegava do Ocidente – os eleitores se afastavam de Zelensky em massa.
No outono de 2020, seus índices de aprovação caíram bem abaixo de 40%, em comparação com mais de 70% no ano anterior. Em algumas pesquisas realizadas naquele dezembro, o partido de Medvedchuk estava na liderança.
Zelensky ficou especialmente preocupado com os canais de televisão, que ele condenava como mensageiros da propaganda russa. Quando ele decidiu tirar esses canais do ar em fevereiro passado, não foi apenas um movimento defensivo, disse Danyliuk, seu ex-conselheiro de segurança. Queria agradar a Casa Branca.
APOIO DOS EUA – Quando o governo Zelensky decidiu ir atrás de Medvedchuk, os EUA o saudaram a iniciativa como parte da luta da Ucrânia para “combater a influência maligna russa”, acrescentou Danyliuk.
Os métodos usados nesta luta têm sido controversos. Em vez de utilizar a Justiça, o presidente Zelensky impôs sanções contra magnatas e políticos ucranianos pró-Rússia, congelando seus bens por decreto, ditatorialmente.
“Apoiamos os esforços da Ucrânia para proteger sua soberania e integridade territorial por meio de sanções”, disse a embaixada do EUA em um tuíte em fevereiro passado, um dia após as sanções congelarem os bens de Medvedchuk, que ficou furioso. “Isso é repressão política. Todas as minhas contas bancárias estão congeladas. Não consigo gerenciar meus ativos. Eu não posso nem pagar minhas contas de serviços públicos.”
ACUSADO DE TRAIÇÃO – Os promotores alegaram que Medvedchuk havia lucrado com a ocupação russa da Crimeia e o acusaram de traição. Um tribunal ordenou que ele permanecesse em prisão domiciliar até o julgamento, afastado de seus eleitores e impedido de comparecer às sessões do parlamento.
E os EUA também foram atrás de seus aliados. Oleh Voloshyn, um membro proeminente do partido de Medvedchuk, quando chegou a Washington em julho passado, foi recebido pelo FBI. Dois agentes o abordaram no Aeroporto Internacional de Dulles e pediram para falar em particular, longe de sua esposa e filho pequeno, que viajavam com ele.
Voloshyn, que atua como enviado de Medvedchuk no Ocidente, passou as três horas seguintes respondendo às perguntas dos agentes. “Eles levaram meu celular”, Voloshyn me contou sobre o incidente, que não havia sido relatado anteriormente. “E eles pegaram todas as informações do meu celular.”
BIDEN E PUTIN – No início de dezembro, quando mais de 100 mil soldados russos estavam na fronteira com a Ucrânia, Biden ligou para Putin para acalmar as tensões. De acordo com a Casa Branca, o presidente se ofereceu para ouvir todas as “preocupações estratégicas” da Rússia, abrindo a porta para um conjunto muito mais abrangente de negociações.
Foi um avanço para Putin conseguir que um presidente dos EUA se envolvesse com ele no futuro da aliança da OTAN, que Putin há muito descreveu como a principal ameaça à segurança russa.
Porém, em vez de desarmar o impasse, a abertura de Biden permitiu à Rússia expor uma longa lista de queixas contra o Ocidente, desencadeando o que um membro do Kremlin em Moscou descreveu para mim como “uma enorme pilha de tensões reprimidas”.
EUA ACUSAM – À medida que as negociações avançavam em janeiro, os russos passaram a acreditar que tinham a vantagem, desde que pudessem manter a pressão militar sobre a Ucrânia.
No entanto, em 20 de janeiro, o governo dos EUA levantou uma série surpreendente de acusações contra Voloshyn e Medvedchuk. Alegou que eles são parte de uma conspiração em curso do Kremlin para instalar um governo fantoche na Ucrânia, apoiado por uma ocupação militar russa.
“A Rússia orientou seus serviços de inteligência a recrutar atuais e ex-funcionários do governo ucraniano para se preparar para assumir o governo da Ucrânia e controlar a infraestrutura crítica da Ucrânia com uma força russa de ocupação”, disse o comunicado do Departamento do Tesouro dos EUA, que impôs sanções a Voloshyn e outros supostos conspiradores.
PERTO DA GUERRA – Os EUA rejeitaram as principais demandas da Rússia e prepararam uma série de sanções para bloquear grande parte da economia russa. Biden começou a alertar a Ucrânia e outros aliados de que uma invasão russa parece iminente. Mais de 8,5 mil soldados dos EUA foram colocados em alerta máximo em janeiro, preparados para serem enviados para a Europa Oriental ao lado de navios de guerra e aviões de guerra.
Em Kiev, o amigo de Putin está ainda mais isolado. Despojado de seus principais canais de TV e assediado por acusações criminais, o partido de Medvedchuk vem afundando nas pesquisas. Medvedchuk permanece em prisão domiciliar, com um dispositivo de rastreamento afixado em seu tornozelo e policiais estacionados do lado de fora de sua casa.
Assim, quase 12 meses desde que começou, a crise na Ucrânia se tornou muito maior e mais perigosa.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Importante matéria enviada por Mário Causanilhas. Como era muito longa, fizemos um resumo, para mostrar a gravidade da situação. (C.N.)
