domingo, fevereiro 06, 2022

O direito de dizer "não"




A liberdade individual deve estar no centdro da equação política. 

Por Fernando Schüler (foto)

“Ainda não estamos maduros para essa questão aí”, tascou Bolsonaro, sobre o projeto da volta dos cassinos no Brasil, que deve ir à votação no Congresso. Me lembrei da dona Santinha, mulher do ex-presidente Dutra. Segundo consta, foi ela, muito carola, que assoprou no ouvido do marido, em 1946, que os cassinos tinham de fechar. “Manda fechar, Eurico, aquilo é só imundície.” Foi o que ele fez. Hoje, quem quer arriscar na roleta pode ir a Livramento e cruzar a fronteira com o Uruguai, onde o povo já amadureceu, ou jogar pela internet, ou ainda fazer uma fezinha no bicho, em algum ponto de Copacabana, onde ninguém incomoda ninguém com essa história de imaturidade.

Caso parecido é o do voto obrigatório. Tempos atrás li um ministro do STF dizendo que “ainda somos uma democracia jovem” e que falta não sei quanto tempo para dar ao nosso cidadão-adolescente a escolha de votar ou deixar de votar. Me surpreendi. De onde vem essa ideia? Já votamos vinte vezes desde a redemocratização, fizemos dois plebiscitos e vamos para nossa nona eleição presidencial. Vamos sair exatamente quando da puberdade política?

Meu caso preferido é o do FGTS. O governo diz: “Vocês têm de ter uma poupança forçada, caso perderem o emprego”. E logo: “Mas quem vai administrar o dinheiro somos nós”. Dia desses fui ver o resultado. Alguém que colocou 250 reais por mês, no ano 2000, teria 76 000, pelo FGTS, no fim de 2016. Com a remuneração da Selic, em papéis que os bancos oferecem por aí, teria 166 000 reais. O governo tungou 90 000 da “poupança forçada” de nosso pacato cidadão. Mas tudo bem. Somos “hipossuficientes” para escolher, não é mesmo? Estes dias alguém me retrucou que não era bem assim, que a taxa de 3% tinha sido boa nestes dois últimos anos, quando os juros estavam perto de 2%. Legal, pensei. O trabalhador fica rezando para o juro cair. Se ficar abaixo de 3%, comemora assando umas costelas. Neste ano, com a Selic a mais de 10%, deu zebra. Melhor dobrar a reza para 2023.

A última onda do paternalismo nacional é “banir o Telegram”. “Se não fizer, vai ser um show de fake news”, leio em uma reportagem. Em outra, leio que o ministro Barroso vai conversar com seus colegas para ver o que fazer. Não acredito nisso. Fico imaginando a conversa: “Tem 50 milhões de brasileiros lá”, metade enganando, metade sendo enganada, temos de proteger essa gente toda”. Brasileiro é assim, não sabe distinguir entre o falso e o verdadeiro, não sabe quem está ameaçando a democracia, se há risco nas urnas eletrônicas, se a Terra é plana, se tem déficit na Previdência. Tem de controlar, não tem jeito. O mais curioso é a naturalidade com que se discute o assunto. “Tem de achar uma saída jurídica para banir isso, senão vão achar que foi censura política.” Foi a melhor que eu li.

Há quem diga que nossa tradição paternalista vem dos tempos da Colônia, do Estado que chegou antes da sociedade, neste imenso continente. Tradição que seguiu, na República dos coronéis, e logo em nossas duas grandes ditaduras, e impregnou nossas leis, nossa Constituição exaustiva, nossos hábitos políticos. Há quem debite tudo à desigualdade. À massa de despossuídos, que corre atrás da sobrevivência, que não faz lobby em Brasília, não tem tempo para abstrações em torno do “estado de direito”, nem força para dizer não a qualquer coisa que venha de cima. Não sei dar a resposta precisa a essa questão. O fato é que a liberdade, o rigor com os direitos individuais, o zelo pelo “contribuinte”, essa figura estranha, ficaram distantes da equação do poder.

A impagável Deirdre McCloskey culpa os economistas. Esses tipos “obcecados em oferecer conselhos utilitários, que em geral não dão a mínima para a liberdade”. No fundo é isso que há em comum nos exemplos que mencionamos. Tira a liberdade do sujeito decidir o que fazer com seu dinheiro que o país vai crescer mais rápido; tira a opção de usar esta ou aquela rede social que vai ser melhor para a democracia. A melhor: tira a liberdade de os pais escolherem a escola dos filhos que vai ser ótimo para a educação. Há algo muito errado aí. Governos deveriam focar em garantir o básico. Direitos fundamentais, incluindo acesso a educação, saúde, renda mínima, e o principal: a igualdade de todos diante da lei. Isso está inscrito desde muito em nosso contrato político.

O que não está é essa migração malandra do Estado de direito para o Estado-babá. A brutal diferença entre um governo que garante um vale-creche para uma mãe de menor renda escolher onde colocar o filho (como faz a dona da casa onde ela trabalha), e um governo que diz: “A creche que você vai colocar é na rua tal, número tal, e o que você acha ou deixa de achar não está em questão”.

Vai aí o abismo civilizacional brasileiro. Tem um país feito de gente que pode achar alguma coisa e no fim dizer “não”. Que vai ao mercado se defender da precariedade do Estado e seus serviços. E tem outro que não pode. Que vive numa pré-modernidade, numa cidadania pela metade, que gostamos de empurrar para baixo do tapete.

Por vezes isso adquire dimensão trágica. É o caso da Betina, lá de Cruz Alta, no meu Rio Grande do Sul. Betina começou a vomitar e passar mal no domingo depois do Natal. O Rodrigo e a Catiele, seus pais, levaram-na à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do SUS. Entre idas e vindas, só na quinta a Betina foi transferida para o hospital, o que não adiantou muita coisa. Ela precisava de diálise, precisava de uma cirurgia, era fim de ano, não havia profissionais lá para fazer isso. Betina ficou esperando numa cama, a infecção tomando conta, os pais em desespero. E ela indo embora desta vida, enroscada na burocracia do SUS. No sábado à tarde, enquanto o país comemorava o início do novo ano, Betina se foi. Ela só tinha 2 anos e 10 meses.

Se foi porque não tinha escolha. Era a UPA ou nada. Era o “sistema único”, que deveria ter evitado que ela se fosse, ou coisa nenhuma. Fosse filha de classe média, com um plano de saúde razoável, os pais tiravam de lá na segunda meia hora. Betina se foi porque nosso Estado faz-tudo não fez o mínimo que devia ter feito.

O fato é que fomos nos acostumando. Lemos as histórias tristes do SUS, da escola pública, os números do FGTS, a invasão de nossos direitos à expressão, e vamos dando de ombros. Em parte, porque nunca é bem com a gente; em parte, porque quem paga a maior parte da conta, em regra os mais pobres, não tem força para interferir no jogo. É assim que o fantasma de dona Santinha vai fazendo seu trabalho: a indiferença dos de cima, o silêncio dos de baixo.

O caminho para mudar essas coisas não é fácil, mas sua direção me parece bastante clara: colocar a liberdade individual no centro da equação política brasileira. Garantir às pessoas o direito mais elementar, negado ao Rodrigo e à Catiele, de dizer “não”. Ele é, no fundo, o melhor antídoto à prepotência do Estado. A melhor bússola para dizer a que distância andamos de uma boa sociedade liberal.

*Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Revista Veja

O polêmico plano da União Europeia de tratar energia nuclear como sustentável

 




Central Nuclear de Temelín, na República Tcheca: UE está dividida em relação à modalidade

As usinas nucleares e a gás natural podem ser consideradas como produtoras de "energia verde", segundo controversos planos da União Europeia que foram apresentados na última semana.

A Comissão Europeia declarou ter decidido que ambos os tipos de energia podem ser classificados como um "investimento sustentável" se cumprirem certas metas.

A medida, contudo, dividiu os países do bloco e foi ferozmente combatida por alguns membros.

O chanceler da Áustria respondeu à notícia dizendo que "a energia nuclear não é verde e nem sustentável".

"Não consigo entender a decisão da UE", afirmou Karl Nehammer.

O chanceler acrescentou que apoiaria sua ministra do Meio Ambiente, Leonore Gewessler, no acionamento do Tribunal de Justiça Europeu caso os planos sigam adiante.

"Esta decisão é errada", declarou Gewessler. "A Comissão da UE aprovou hoje seu programa de greenwashing (algo como "lavagem verde", expressão que indica forjar uma aparência ambientalmente correta em produtos e ações) para a energia nuclear e para o gás natural."

Luxemburgo também disse que se juntaria a uma ação legal.

A Espanha foi outro país que se opôs fortemente à decisão, que foi formulada durante meses de debate até ser formalmente apresentada na quarta-feira (2/2).

As objeções, entretanto, têm como contraponto o apoio de membros da UE que usam de forma intensiva a energia nuclear, como a França. A modalidade libera menos emissões de carbono, mas traz diferentes preocupações relativas à segurança e requer a eliminação de resíduos perigosos.

Classificar o gás natural como "sustentável", por sua vez, é algo defendido por aqueles que dizem que isso seria um incentivo para países ainda dependentes do carvão, como a Polônia, migrarem gradativamente para formas mais limpas de energia.

A Alemanha, um país poderoso na política da UE, também tem forte dependência do gás em sua própria matriz energética, embora sua ministra do Meio Ambiente, Steffi Lemke, tenha criticado os planos recém-anunciados do bloco.

A decisão de rotular ambas as indústrias controversas como "verdes" ainda não é definitiva. Além da ameaça de ação legal da Áustria e de Luxemburgo, o Parlamento Europeu e o conselho de chefes de Estado têm quatro meses para considerar a proposta e, eventualmente, contestá-la.

Batalha à frente

'A comissária europeia Mairead McGuinness defende que toda oportunidade para atingir metas climáticas devem ser usadas'

A União Europeia estabeleceu o objetivo de neutralizar a emissão de gases poluentes até 2050. A Comissão Europeia argumentou que, para chegar lá, é necessário um grande investimento privado. Assim, suas propostas visam orientar os investidores.

Autoridades da UE fizeram questão de enfatizar que a mudança não resultaria em qualquer requisito para que governos ou empresas investissem em gás natural ou energia nuclear.

Em vez disso, o que está sendo discutido é um conjunto de regras altamente técnico, chamado de "Taxonomia da UE", uma classificação relativa à sustentabilidade para que os investidores privados possam decidir onde colocar recursos.

A lista deve ajudar a dar reconhecimento a projetos verdes que fazem uma contribuição "substancial" para pelo menos um dos objetivos ambientais do bloco, embora não possam prejudicar significativamente nenhuma dessas metas.

Membros da comissão apontam para a rigidez das regras propostas. Por exemplo, a geração de gás natural estaria bastante limitada à quantidade de emissões de CO2 permitidas e atrelada à exigência de transição para gases de baixo carbono até 2035. A energia nuclear, por sua vez, deve ser usada em países com planos bem estruturados e verbas para gerir os resíduos nucleares.

Para barrar o projeto, é preciso uma maioria dos votos dos parlamentares ou pelos menos de 20 dos 27 líderes nacionais.

Os partidos verdes, que junto com representantes independentes e outras siglas formam um dos principais blocos de poder no Parlamento Europeu, estão fazendo campanha feroz contra o plano.

A comissária europeia Mairead McGuinness disse, porém, que é preciso "usar todas as ferramentas à nossa disposição" para alcançar a meta de neutralidade climática.

O investimento privado é "chave", defendeu ela, para quem as propostas estabelecem "condições rígidas para ajudar na mobilização de verbas de apoio à transição (para formas mais limpas de energia)".

BBC Brasil

EUA superam 900 mil mortes por covid-19




Presidente dos EUA, Joe Biden, lamentou as 900 mil mortes e pediu maior adesão do americanos à vacinação

Presidente Biden diz que país atingiu marco trágico, enquanto parte da população ainda resiste à vacina após campanhas de desinformação e disputas legais e políticas. Casos e hospitalizações se mantêm em alta.

Os Estados Unidos superaram a marca de 900 mil mortes associadas à covid-19, segundo dados da Universidade Johns Hopkins (JHU) registrados neste sábado (05/02).

O número de óbitos já é maior do que a população de cidades como São Francisco, Indianápolis ou Charlotte.

As contagens diárias de novos casos vêm caindo, permanecendo abaixo de meio milhão desde meados de janeiro, quando foram registradas mais de 800 mil infecções em um só dia. O número de americanos hospitalizados por covid-19 diminuiu 15% desde janeiro, mas ainda se mantêm em um patamar bastante alto, com ao menos 124 mil pessoas internadas.

A contagem de novos casos atribuídos à variante ômicron do coronavírus está em queda, mas as mortes diárias em razão da doença atingiram média de 2,4 mil, segundo dados do governo. Os óbitos estão em alta em ao menos 35 dos 50 estados americanos.

O país havia superado a marca de 800 mil óbitos em meados de dezembro. Contudo, a maior incidência de casos da ômicron do fez com que os números da doença aumentassem rapidamente.

"As hospitalizações ainda estão em alta, o que gera maior pressão sobre as capacidades do sistema de saúde e da força de trabalho”, afirma a diretora do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), Rochelle Walensky. Ela explicou que a alta das mortes surge mais tarde do que o pico de novos casos, uma vez que os óbitos somente ocorrem semanas após as infecções.

Os Estados Unidos, com aproximadamente 330 milhões de habitantes, registram mais mortes do que qualquer outro país. Segundo a JHU, o país acumula 901.391 mortes e 76,3 milhões de infecções.

Os EUA atingiram as 900 mil mortes pouco mais de 13 meses após o início da vacinação no país. A campanha foi bastante prejudicada pela desinformação e por disputas legais e políticas, apesar das evidências científicas de que os imunizantes são seguros e eficazes ao evitarem os estágios mais avançados da doença e um número ainda maior de mortes.

Somente 64% da população americana está vacinada com duas doses, enquanto 42% das pessoas receberam a terceira.

Marco trágico

"Hoje, nossa nação atingiu outro marco trágico: 900 mil vidas americanas foram perdidas para a covid-19”, afirmou o presidente americano, Joe Biden, em nota. "Cada alma perdida é insubstituível. Rezamos pelos entes queridos que eles deixaram e guardamos em nossos corações todas as famílias que enfrentam essa dor.”

Biden pediu uma maior adesão dos americanos à vacinação. "Vacinas e doses de reforço se provaram incrivelmente eficientes, e oferecem o mais alto nível de proteção”, afirmou

O professor Joshua M. Sharfstein, da Faculdade Johns Hopkins Bloomberg de Saúde Pública, criticou a postura de muitos americanos contrários à vacinação.

"Subestimamos nosso inimigo, e preparamos mal a nossa defesa”, afirmou. "Aprendemos um alto grau de humildade, frente a um vírus respiratório letal e contagioso.”

"Brigamos entre nós por causa das ferramentas que, na verdade, salvam vidas. A quantidade de política e desinformação em torno das vacinas, que são altamente eficazes e seguras, é assombrosa”, destacou Sharfstein. "Esta é a consequência.”

Deutsche Welle

Marqueteiro de Moro quer atrair bolsonarista desiludido e tornar ex-juiz menos formal




Os primeiros alvos de Sergio Moro (Podemos) na campanha presidencial serão os bolsonaristas desiludidos, diz o publicitário que cuidará de sua candidatura, Pablo Nobel, 56.

“Alguns aliados de primeira hora de Bolsonaro, tanto na sociedade como na mídia e mesmo na política, começam a debandar. A pergunta é para onde vão esses votos. Aí há um espaço para a gente trabalhar”, afirma ele, argentino que vive há mais de 40 anos no Brasil.

Anunciado nesta semana, Nobel diz que tem como uma de suas tarefas apresentar um Moro mais informal, sem as amarras que o cargo de juiz exige.

“Imagina que esse homem passou todos esses anos sem poder expressar muito as emoções, tendo que passar uma coisa mais séria, imparcial. São atributos de um juiz, mas não necessariamente de um candidato”, afirma.

Juiz da Lava Jato, Moro abandonou a magistratura para assumir o Ministério da Justiça do governo Bolsonaro, com quem se desentendeu –isso motivou seu pedido de demissão em abril de 2020.

Em 2021, Moro sofreu uma dura derrota no STF (Supremo Tribunal Federal), que o considerou parcial nas ações em que atuou como juiz federal contra o ex-presidente Lula (PT). Com isso, foram anuladas ações dos casos tríplex, sítio de Atibaia e Instituto Lula.

Esta será a nona campanha presidencial de Nobel, que já teve clientes do PT ao PSDB, além de trabalhos fora do Brasil. Em geral exerceu a função de diretor de programas, não de marqueteiro, termo que ele rejeita. “Prefiro coordenador”, diz.

PERGUNTA – Que ideias iniciais o sr. tem para a campanha do Moro?

PABLO NOBEL – A campanha neste ano começou muito cedo. Em 2018 a coisa esquentou a partir de junho, julho. Estamos no começo de fevereiro e parece que falta uma semana para a eleição. Estou partindo de um candidato que está sob fogo cerrado, um patrulhamento de grande parte da elite. O fato de ele ter sido um protagonista no processo de colocar corruptos poderosos na cadeia gera emoções muito fortes.

O que percebo é que o quadro está em movimento. Alguns aliados de primeira hora de Bolsonaro, tanto na sociedade como na mídia e mesmo na política, começam a debandar. A pergunta é para onde vão esses votos. Aí há um espaço para a gente trabalhar. É uma avenida? Não. É uma trilha? Mas ele existe.

Em termos mais estratégicos, entendo que votar em Bolsonaro é eleger o Lula. Isso faz com que ele [Moro] se torne um pouco alvo de ambos. Nosso trabalho é de paciência. Não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona, e ao longo dela os cenários vão mudar.

O primeiro alvo são os que estão deixando Bolsonaro?

PN – Exatamente. O espectro político do Sergio Moro é esse centro, centro-direita. Por outro lado, é preciso fazer a apresentação dele, desse personagem, desse protagonista, de um outro ponto de vista. O Moro é conhecido, teve muita exposição nos últimos anos, mas no papel de juiz. Vou apresentar agora outro viés. Essa é minha tarefa.

O rompimento do Moro com Bolsonaro foi muito duro, ele foi chamado de traidor. É possível atrair eleitores do Bolsonaro mesmo nesse contexto?

PN – É. Assim como muitos milhões de brasileiros estão decepcionados com Bolsonaro, o Moro é mais um. O Moro sai [do ministério] não porque está arrependido de ter ido. O Moro entra lá porque entende que é a melhor maneira de ajudar o Brasil, transformar alguma coisa. Era a crença dele naquele momento.

Estando lá dentro, percebe que os interesses do Bolsonaro são outros, especialmente no que diz respeito ao Ministério da Justiça. E nesse momento ele diz: ‘não, dessa maneira não, não é para isso que eu vim’. Sai profundamente decepcionado. Há uma identificação empática de Moro com quem votou nele [Bolsonaro] e está decepcionado. É com este brasileiro que eu preciso dialogar.

Nos últimos três anos, Moro sofreu uma série de críticas e derrotas: diálogos vazados, suspeição determinada pelo STF, a polêmica do contrato com a Alvarez & Marsal, além de ter ido para o ministério. Ele deveria fazer algum mea culpa?

PN – Ainda não tenho resposta para isso. Preciso entender melhor essa matéria-prima toda. Construir essa narrativa e entender o que é acerto, o que é erro, o que merece mea culpa ou não. Temos de estudar isso melhor.

Mas o sr. concorda que são pontos fracos dele na campanha?

PN – Não sei ainda avaliar se são pontos fracos, dificuldades ou se podem ser oportunidades também. Campanhas políticas são, antes de mais nada, guerras de narrativas. Como a gente ainda vai construir a narrativa, precisamos entender como essas peças se encaixam. Campanhas não são guerras de argumentos, são guerras de impressões, há uma subjetividade em cada uma dessas coisas que precisa ser avaliada.

O que o sr. achou da live dele em que mostrou quanto ganhou da consultoria? Muitos aliados acharam que foi uma exposição desnecessária.

PN – Achei que foi muito bom. Me parece que trouxe transparência, protagonismo e trouxe muita internet, muito engajamento. E fica nossa provocação para os adversários. A hashtag #AbreAsContasBolsoLula virou trending topic. Então há um interesse nessa transparência, e ele deu o pontapé inicial. Agora queremos que o Lula abra as contas das palestras da Odebrecht e o Bolsonaro, as das rachadinhas.

Suas primeiras peças vão ser mais de apresentação de Moro ou crítica a adversários?

PN – Vai ser um mix. Temos uma campanha a ser construída, apresentando esse outro lado, mais biográfico, do Sergio, não apenas o que as pessoas conhecem via TV como juiz, traduzir isso para o que ele é de verdade. Posicionar ele como candidato. Isso é uma construção, vai acontecer em todas as mídias, vou tentar impor essa marca.

Muita gente tem uma avaliação de que Moro precisa melhorar na forma, no jeito que fala, maneira de se expressar, tem uma imagem muito dura. É uma preocupação?

PN – Quando você está acostumado a ser médico, cria hábitos por ser médico. Imagina que esse homem passou todos esses anos sem poder expressar muito as emoções, tendo que passar uma coisa mais séria, imparcial. São atributos de um juiz, mas não necessariamente de um candidato. Claro que tudo isso vai ser trabalhado.

A ideia é que ele fique um pouco mais informal?

PN – Sim, que ele fique mais informal é uma palavra boa, que ele fique mais próximo das pessoas, que vista esse figurino de candidato, de político, saia um pouco do papel do juiz, que é sempre mais distante.

Combate à corrupção será o mote de campanha?

PN – Não. Não vejo isso do interesse da audiência, do leitor médio. Isso faz parte dele, claro, mas não vem como principal bandeira. Temos coisas muito mais urgentes no Brasil hoje, que conversam mais com as necessidades de seu cotidiano, e é sobre isso que a gente vai precisar se conectar, falar. Economia, Covid, políticas sociais, o que está acontecendo com essa população que sofreu tanto os anos da Dilma [Rousseff] e agora com Bolsonaro. Esse empobrecimento traz questões que não dá para passar ao largo.

Como será feita a crítica ao Lula? É mais difícil ele ser tirado do segundo turno do que o Bolsonaro, não?

PN – Claro. Não tenho nenhuma pretensão de tirar Lula de nada. Seria ingenuidade da nossa parte, fantasia política. Temos dois adversários: um é Lula, por questões ideológicas, práticas, pela história do candidato, e o outro é Bolsonaro, em função do desastre que está acontecendo nesse país. O Bolsonaro está no nosso espectro. O eleitor do Lula não vai mudar de ideia e votar em mim [Moro] agora. Claro que vamos questionar os dois lados, para fazer as pessoas pensarem.

O MBL vai participar da campanha, especialmente em redes sociais?

PN – Estamos conversando e a ideia é trabalhar juntos. Usar o conhecimento grande que eles têm, aderência, engajamento e ir trazendo devagar os conteúdos que a gente achar pertinente.

Seu perfil é de diretor de programas, mas muita gente aponta sua falta de experiência como marqueteiro, estrategista. O que acha disso?

PN – Eu prefiro a palavra coordenador. Há uma mitificação sobre a genialidade dos marqueteiros da outra geração, de tirar um coelho da cartola. Eu já faço parte de outra geração. Meu trabalho é de equipe. Apesar de minha especialidade ser todo esse trabalho de imagem etc., eu estou sentado na mesa com as principais cabeças há muitos anos, a gente discute de estratégia até roteiros, a forma de a pessoa se apresentar.

RAIO X – PABLO NOBEL
Idade: 56
Local de nascimento: Buenos Aires
Formação: Ciências Sociais e Política na PUC-SP
Principais campanhas: Alberto Fernandez (Argentina, 2019), Geraldo Alckmin (2018), Daniel Scioli (Argentina, 2015), Aécio Neves (2014), Antonio Anastasia (2010), José Eduardo dos Santos (Angola, 2008), Luiz Inácio Lula da Silva (2002)

POR FÁBIO ZANINI 

Folha de São Paulo / Daynews

Assombroso não é ter câncer, mas sim não ter': pesquisador explica por que vê nossa sobrevivência como 'um milagre'




Carlos López-Otín pesquisa biologia de tumores há três décadas

Por Diana Massis

As células que provocam o câncer assim o fazem porque se tornam "egoístas", explica o professor espanhol de bioquímica e biologia molecular Carlos López-Otín, que chefia um laboratório de pesquisas dentro do Instituto Universitário de Oncologia do Principado de Astúrias, na Espanha.

O livro mais recente de López-Otín sobre o assunto se chama justamente Egoístas, Imortais e Viajantes - As chaves do câncer e de seus novos tratamentos: conhecer para curar (em tradução livre para o português).

No livro, ele descreve os processos tumorais e também a história do câncer, o turbulento caminho da ciência para desvendar sua origem e enfrentá-lo - a partir dos 30 anos de experiência do cientista na área.

"Saio à rua, começo a caminhar, olho para os lados e vejo que por coincidência duas pessoas caminham no mesmo ritmo que eu. Não as conheço, mas sei que ao menos um deles vai desenvolver um câncer ao longo da vida. Esses são os números da virulência", diz ele em conversa à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Leia os principais trechos da entrevista a seguir:

BBC - Por que o senhor diz que o câncer é uma tempestade perfeita?

Carlos López-Otín - Quando você entra (na tempestade), tudo é incerteza, mas as tormentas passam e hoje é mais fácil sobreviver ao câncer do que sucumbir a ele; há mais casos curados, mas ficam guardados os casos que não superam a tormenta.

Essa palavra é adequada porque o câncer, molecularmente, é uma tempestade de mutações, de danos no nosso material genético e seus arredores. Também é uma tempestade de medo, por causa do estigma (do câncer) se fala em sussurros. Às vezes me pergunto por quê, se tratando de uma doença tão frequente.

Já temos (incidência em) uma a cada três pessoas no mundo; delas, uma em cada dois, no mínimo, vai se curar completamente. E entre as que não se curam, muitas vão ter a doença cada vez mais controlada.

BBC - O câncer vai ser erradicado?

López-Otín - Eu acredito que não. O câncer forma parte da nossa essência biológica, é uma doença circunstancial à vida e à aquisição de complexidade celular. Enquanto tivermos componentes biológicos, células, tecidos e órgãos, haverá tumores.

Os vegetais também têm (câncer), os dinossauros tiveram, os homens das cavernas tiveram e os homens mais tecnológicos do mundo o terão, enquanto não forem substituídos por robôs.

BBC - Por que nossas células, que são generosas, altruístas e dão vida, escolhem o caminho da virulência? Como se tornam células egoístas?

López-Otín - Dependemos de as células se dividirem um determinado número de vezes, no máximo 60 ou 70, como mecanismo de segurança. Mas, de repente, uma célula sofre uma mutação. Uma só mudança nesses 3 bilhões de letras que compõem o genoma, neste longo verso interminável que é a vida, faz com que a célula adote uma estratégia egoísta: começa a se dividir e não responde a nenhum sinal de moderação.

'Câncer é formado por uma 'tempestade de mutações', diz pesquisador

Temos a esperança que isso se detenha aos 60 ou 70 ciclos, porque aí há um freio, mas ela comete mais erros, porque a sua divisão é urgente e a faz muito rapidamente.(...)

BBC - Qual o passo seguinte na sua transformação?

López-Otín - Ela (célula) necessita alcançar a imortalidade, que também está proibida. Somos mortais, e a cada segundo mais de 1 milhão de células se suicidam no nosso interior - morrem por apoptose, que é uma palavra grega (para morte celular programada).

(...) Com essas novas mutações nas células, algumas se tornam imortais e, uma vez que adquirem a imortalidade, ficam totalmente livres em sua capacidade de se dividir sem parar. Crescem tanto que esgotam os nutrientes do oxigênio.

BBC - É nesse momento que começam a viajar?

López-Otín - Elas precisam se alimentar, depois explorar outros territórios e aí é que começam com novas mutações. Esse afã viajante é uma exploração dentro do organismo. Elas usam a rodovia sanguínea e viajam até onde os nutrientes e o oxigênio não estejam comprometidos.

Por sorte, poucas - menos de 0,001% das que começam a viagem conseguem completá-la, mas, quando o fazem, começa sua aventura de colonização, como fazem as sociedades humanas quando buscam novos territórios. E, se são bem-sucedidas, criarão novas colônias, ocorrerão as metástases e aí nossa vida começa a ficar prejudicada.

Mas é uma viagem de condições incertas, não só pela dificuldade, mas porque está controlada pelo sistema imunológico.

BBC - Como esse sistema nos protege dessas células egoístas, imortais e viajantes?

López-Otín - O coronavírus retomou o interesse pelo entendimento do sistema imunológico como defesa contra micro-organismos, mas tem outra função decisiva: nos defender de nós mesmos, das células alteradas que estamos continuamente gerando, em um processo que chama imunovigilância tumoral.

Se você acorda com uma célula transformada, o sistema imunológico continuamente nos dá a oportunidade de reconhecê-la como estranha e eliminá-la; isso faz com que não tenhamos riscos extremos de ter tumores.

BBC - Quando o câncer se repete em uma família, o senhor recomenda investigar nossa herança genética para saber se somos propensos a gerar tumores?

López-Otín - Basicamente todos os tumores têm uma origem genética, porque surgem de danos nos nossos genes. Só alguns são infecciosos, como o vírus do papiloma ou algumas bactérias Helicobacter pylori que podem chegar a produzir câncer de estômago; são muito poucos os (tumores) que se devem a micro-organismos, que também acabam danificando ou confundindo nossos genes.

Todo câncer, portanto, é genético, mas só uma porcentagem mínima - menos de 10% - é hereditário, ou seja, os defeitos já trazemos de fábrica, de nossos progenitores, e isso nos torna suscetíveis a um tipo de tumor concreto.

Entre os mais comuns estão o câncer de mama e o câncer de cólon, mas há mais de 50 síndromes hereditárias de câncer.

'Autor diz que células que causam o câncer assim o fazem porque se tornam 'egoístas, imortais e viajantes'

É bastante fácil reconhecer e é importante ir a uma consulta de aconselhamento genético.

BBC - Seu livro relata o caso de Angelina Jolie e comenta as críticas que ela recebeu por sua decisão de realizar uma dupla mastectomia preventiva.

López-Otín - A mãe, a tia e a avó dela tinham morrido de câncer de mama ou de ovário; é um caso paradigmático.

No entanto, ela, com grande acesso à informação e a tantos recursos, esperou ter mais de 40 anos e ter filhos biológicos para testar se havia herdado a aparente mutação que existia na sua família, com uns 50% de possibilidade de tê-la herdado. E de fato a tinha, por isso ela tomou medidas profiláticas, agressivas para alguns, mas muito necessárias para pacientes.

(...) Os exames de câncer de mama hereditário são simples, você pode dar prosseguimento e tomar medidas mais radicais. As doenças de câncer hereditário, que são interpretadas como uma desgraça, são as que podem ser erradicadas em uma família concreta, porque você sabe qual é o defeito e pode agir com a legislação adequada (em cada país).

BBC - Haverá pessoas que se sintam negativamente afetadas por saber que têm um risco maior (de desenvolver tumores), que prefiram não saber?

López-Otín - No caso do câncer, (é melhor) saber, sempre saber, porque há muitas medidas que podem ser tomadas.

Angelina Jolie será a primeira na sua família a não morrer de câncer de mama ou ovário, apesar de ter a mutação para tal.

Outra questão são as doenças que ainda não nos dão uma oportunidade, como as neurodegenerativas.

Na Colômbia, há alguns núcleos com muitos casos de Alzheimer familiar e, na Venezuela, de doença de Huntington, para citar casos que vêm à mente. Neles, a possibilidade de intervenções são muito menores que no caso do câncer. Prefiro a informação, mas entendo que, se não há alternativas (de prevenção e cura), haja pessoas que não a queiram.

BBC - É relevante conhecer nosso genoma?

López-Otín - (...) Deciframos centenas de genomas completos de pacientes, especialmente com leucemia, mas também com tumores sólidos e toda a informação coletada tem sido extraordinária e gera mais alívio do que danos.

No entanto, no nosso genoma também temos escritas algumas predisposições - não mutações, mas sim predisposições -, que em determinados momentos podem favorecer o desenvolvimento de algum tipo de câncer, e também acho que seja muito importante saber.

'Quando você conhece os detalhes da delicadeza molecular, percebe que a sobrevivência é um milagre', diz Carlos López-Otín

BBC - Vai virar habitual analisar o próprio genoma, ou só algumas pessoas poderão fazer isso?

López-Otín - Não acho que esteja próximo que alguém diga 'vou fazer um exame para evitar o câncer', porque você não vai evitá-lo enquanto houver um componente de azar tão importante.

No nosso país (Espanha) deciframos centenas de genomas, encontramos mutações causadoras de tumores e, em alguns casos, pudemos desenvolver terapias específicas para os pacientes.

Isso não custou nem um euro, nada. Há sistemas muito simples que chamamos de painéis de genes que vão sendo implementados pouco a pouco em hospitais da rede pública - me refiro a sistemas baratos, simples, que garantem a justiça social.

BBC - Quando olhamos as possibilidades de modificação ou seleção genética, parece que poderia se abrir um novo sistema de desigualdades. É algo a se temer no futuro?

López-Otín - Teremos que ver qual será o alcance. A edição genética é outra das fronteiras que temos, ou seja, a modificação genética logo no início para evitar alguns males. É um passo a mais que gera muitíssimas dificuldades éticas.

Na China, foram violados, ao menos uma vez, todos os códigos a respeito disso, o que foi detido a tempo. Existe um grande consenso de que é preciso ter muito cuidado com intervenções.

Demoramos 3,5 bilhões de anos para sintonizar nosso genoma ao ambiente em que vivemos, e não é possível que em poucos anos, e por questões banais, estejamos dispostos a fazer modificações que não contribuem com nada essencial, mas que podem abrir brechas de discriminação.

Se fala também de neuroaumentação, o aumento das possibilidades neurológicas de uns e outros. A revista Time anunciou mais de dez anos atrás que em 2045 surgiriam os primeiros humanos imortais. Faltam só 23 anos, e nessa data haverá 100 milhões de seres humanos diagnosticados com Alzheimer.

Tudo o que tem a ver com o fato de que o cérebro segue sendo a última fronteira biológica de conhecimento.

Com isso, não entendo como o discurso vai sempre em direção a questões que nos fazem cair na arrogância, na prepotência. E na realidade estamos na ignorância, embora siga havendo iniciativas de investimentos multimilionários em busca da imortalidade.

BBC - O senhor compreende os que estão nessa corrida?

López-Otín - Quem quer ser imortal tem que lembrar que as verdadeiras imortais são as células egoístas que querem ser viajantes e criar tumores.

Estudamos a imortalidade para evitá-la. E, se não, que leiam o meu mestre imortal Jorge Luis Borges (escritor argentino), e em poucas páginas você se dá conta de que de nada vale ser imortal, porque em pouco tempo, em poucas centenas de anos, vai desejar voltar à fonte da mortalidade e ser como todo mundo, mortal.

BBC - O senhor teme o nada e o esquecimento, como chama a morte?

López-Otín - Não tenho medo do câncer nem de nenhuma outra doença; tomara que as que couberem a mim, como ser biológico, cheguem o mais tarde possível.

Tenho 63 anos, me parece uma façanha cósmica. Sessenta e três anos resistindo a milhares e milhares de mudanças diárias no meu genoma.

Me parece claro que o assombroso não é ter câncer, mas sim não tê-lo.

Quando você conhece os detalhes da delicadeza molecular, percebe que a sobrevivência é um milagre. Quando você observa as milhões de reações bioquímicas que fazem cada instante possível, o apreço pela vida é infinito.

O genoma está construído por 3 bilhões de peças em cada célula. E nesta noite, como em todas, o coloquei para replicar, porque cada célula que se divide faz uma cópia do material genético.

E despertei presumindo que não sofri nenhuma mutação significativa, me olhei no espelho e disse: "Nossa, hoje tampouco tenho câncer". Mas o azar pode tudo e de vez em quando ocorre alguma mudança que nos faz entrar na dinâmica de células egoístas, imortais e viajantes.

Ter completado dois terços da vida sem a chamada dessas células me parece uma grande conquista.

Não tenho medo da morte porque a considero parte da vida e, portanto, que uma doença nos roube a vida e nos converta em nada e em esquecimento me parece ser o mais natural.

BBC Brasil

Desafio: é de esquerda ou de direita?

 




Farmacêuticas e até mesmo Harry Potter mudaram de lado.

Por Vilma Gryzinski 

Ter uma única chave para explicar o mundo é um jeito garantido de aprisionarmos a nós mesmos em jaulas ideológicas. E também de levarmos grandes sustos. Ideias de esquerda que viraram de direita são um exemplo do nó mental que os simplificadores da realidade podem sofrer. Um caso muito presente em nossa vida é o das grandes farmacêuticas que desenvolveram vacinas contra a Covid-19. De vilãs do universo esquerdista, elas se transformaram em avatares da Ciência, com maiúscula, na sua forma mais pura. Na época da vilania, foram retratadas por John le Carré em O Jardineiro Fiel, depois filme de Fernando Meirelles, como as mais selvagens encarnações do capitalismo, capazes de usar crianças africanas como cobaias para um novo medicamento. Quem se revolta hoje com o poder das farmacêuticas são os militantes antivacinação, uma tribo da direita populista que tende a acreditar nas mais exóticas teorias conspiratórias. A Big Pharma, que já encontrou soluções para muitas das aflições da humanidade usando como motor a busca da recompensa material, virou a inimiga atual da direita pura e dura.

Outra extraordinária mudança de campo: a defesa da liberdade de expressão. Uma das mais tradicionais bandeiras progressistas, ancorada em campanhas históricas pela publicação de escritores proibidos, ela foi entregue de bandeja para a direita. Quem se insurge hoje contra restrições e censuras, praticadas em nome da eliminação de ofensas reais ou imaginárias, são intelectuais conservadores. A esquerda apoia a demonização até de uma escritora como J. K. Rowling, a criadora de Harry Potter, pelo crime de ter achado que mulheres biológicas têm uma realidade irreproduzível. A escritora, que passou a vida apoiando causas de esquerda e colocou dezenas de milhões de libras em obras filantrópicas, praticamente só tem defensores no lado conservador.

A pressão brutal de Vladimir Putin sobre a Ucrânia, com a intenção de reconstruir a esfera de influência do império russo, é outro caso quase inacreditável de guinada ideológica. A direita populista, que já tinha uma queda por Putin pelo estilo dominante e a defesa de valores tradicionais, parece ter se tornado porta-voz do Kremlin. Tucker Carlson, o influentíssimo apresentador da Fox, detona a causa ucraniana com mais eficiência do que qualquer profissional de agitação e propaganda. Essa versão invertida baixou, estrepitosamente, no Palácio do Planalto. O que faz a esquerda que sempre se encantou com o antiamericanismo de Putin? Arranca os cabelos com os novos aliados? Finge que não existem?

Para quem não gosta de explicações simplistas, melhor é voltar a ler A Garota do Tambor, o livro em que Le Carré testa até o limite simpatias e antipatias numa das questões mais complicadas do planeta, o conflito entre Israel e palestinos. O próprio escritor foi ficando esquerdista com a idade, num movimento oposto ao convencional. O Jardineiro Fiel é dessa fase. Não é a melhor.

Revista Veja

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