segunda-feira, janeiro 10, 2022

As 3 eleições da América Latina em 2022 e como elas podem mudar ou consolidar a política da região




Preparativos para eleição presidencial na Colômbia, em maio; pleito, ao lado do brasileiro, será decisivo para ditar rumos da esquerda no continente

Por Gerardo Lissardy

Nos primeiros anos do século 21, a reeleição de presidentes em exercício na América Latina foi um fato corriqueiro, tanto entre líderes da esquerda quanto da direita.

Mas logo acabou o boom de matérias-primas (principais itens exportados pelo continente), surgiram problemas econômicos profundos, vieram à tona escândalos de corrupção e cresceu o mal-estar social (manifestado em diferentes ondas de protestos), tudo isso aprofundado pela pandemia de covid-19.

Então, a tendência eleitoral latino-americana mudou: passou a ser votar contra o establishment e dar espaço à oposição.

Em 11 das 12 eleições presidenciais realizadas na América Latina desde 2019, o voto majoritário foi para mudar o partido que estava no poder.

A exceção foi a Nicarágua, mas suas eleições, realizadas em novembro, foram contestadas e consideradas ilegítimas por alguns países: o presidente Daniel Ortega se reelegeu pela quarta vez consecutiva, e todos os demais candidatos estavam presos.

"Há uma insatisfação geral com a classe política e quem acaba pagando a conta é o partido no poder", diz Paulo Velasco, professor de Política Internacional da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Esse quadro de descontentamento pode se completar em 2022, com três eleições previstas na região, duas delas nos países mais populosos da América do Sul: Brasil e Colômbia.

Agenda e cenários

O primeiro dos pleitos está agendado para 6 de fevereiro na Costa Rica, com um possível segundo turno em 3 de abril entre os dois candidatos mais votados.

Entre os mais de 20 candidatos registrados, há nomes conhecidos por ali, como o ex-presidente centrista José María Figueres, a ex-vice-presidente conservadora Lineth Saborío e Fabricio Alvarado, um líder evangélico de direita que em 2018 perdeu para o atual mandatário, Carlos Alvarado.

Em outro sinal de descontentamento popular com os governos de turno, Welmer Ramos, o candidato do governista Partido Ação Cidadã, tem intenção de voto inferior à margem de erro em algumas pesquisas de opinião.

Mas as duas eleições que vão concentrar as atenções na região neste ano são, por ordem cronológica, as de Colômbia e Brasil.

O primeiro turno do pleito colombiano está marcado para 29 de maio (mais de dois meses depois das eleições legislativas, em março) e o possível segundo turno será em 19 de junho.

Sob o pano de fundo dos enormes protestos de rua de 2021 e vários desafios econômicos, a maioria das pesquisas de opinião na Colômbia apontam a dianteira do esquerdista Gustavo Petro, um economista, ex-guerrilheiro e ex-prefeito de Bogotá que em 2018 perdeu o segundo turno para o atual presidente, Iván Duque.

'Depois de perder no segundo turno, em 2018, Gustavo Petro tentará ser o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia'

Um eventual triunfo de Petro marcaria algo inédito: a primeira vez que um candidato de esquerda seria eleito presidente da Colômbia.

Mas pode haver um cenário diferente da polarização esquerda-direita das recentes eleições latino-americanas.

A direita colombiana, liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, está desgastada depois do governo de Duque, e talvez Petro tenha que competir com um candidato de centro, como o ex-prefeito de Medellín Sergio Fajardo, o economista Alejandro Gaviria e o ex-senador Carlos Fernando Galán.

"Essa é uma possibilidade forte: não temos assegurada hoje essa polarização entre um candidato de esquerda e outro de direita", diz Patricia Muñoz, professora de Ciência Política na Pontifícia Universidade Javeriana, em Bogotá.

Em contrapartida, tudo indica que o Brasil terá, nas eleições de outubro, um enfrentamento entre o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por enquanto líder nas pesquisas de intenção de voto para o pleito de 2 de outubro (com um possível segundo turno em 30 de outubro).

'Esquerda predominou na América Latina no início deste milênio, mas perdeu terreno'

Até o momento, as pesquisas não indicam grandes intenções de voto em candidatos da chamada "terceira via", como o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro (Podemos) e o ex-governador Ciro Gomes (PDT).

'Onda' da esquerda?

Eventuais vitórias de Lula e Petro dariam um novo impulso à esquerda na América Latina, não só pelo peso relativo de Brasil e Colômbia no continente.

Entre 2020 e 2021, ganharam candidatos da esquerda na maioria das eleições realizadas na região: Luis Arce na Bolívia, Pedro Castillo no Peru, Xiomara Castro em Honduras e Gabriel Boric no Chile, além do caso particular da Nicarágua.

No entanto, alguns analistas descartam que seja possível prever agora uma nova tendência regional como a que houve na primeira década do século, quando vários governos de esquerda foram consolidados e reeleitos.

"Começa a se desenhar um quadro em que os governos de esquerda são maioria, mas não seguem a mesma tendência e não vejo uma onda como nos anos 2000", diz Velasco.

'Espaço perdido pela esquerda no Brasil pode ser reconquistado em meio a problemas econômicos, sociais e políticos enfrentados pelo governo de Jair Bolsonaro'

A seu ver, é normal que em vários países o eleitor migre à esquerda depois da decepção demonstrada com presidentes de direita eleitos para substituir os do polo contrário.

"Se houvesse mais governos de esquerda neste momento, a tendência seria que ganhasse a direita ou a centro-direita", afirma.

O grande desafio para governantes latino-americanos segue sendo cumprir com a demanda de melhores serviços públicos e seguridade social, assim como pela menor desigualdade, talvez temas com os quais a esquerda tenha mais sintonia.

Executar a tarefa, porém, será difícil em uma América Latina de crescimento moderado (a média regional é de cerca de 3% em 2022, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe - Cepal), pressão inflacionária, maior dívida pública e a incerteza trazida agora pela variante ômicron do coronavírus.

Alguns especialistas advertem também que o mal-estar social pode voltar a dar a caras, com protestos populares na região.

'Protestos como os ocorridos na Colômbia em 2021 podem voltar na América Latina neste ano'

"A deficiente ou escassa resposta de vários governos da América Latina e Caribe (...) às múltiplas crises atuais pode gerar uma nova onda de protestos sociais massivos e violentos", indicou o instituto intergovernamental Idea, sediado na Suécia, em seu relatório sobre o estado da democracia na região, publicado em novembro.

Embora o relatório destaque que a democracia deu sinais de resiliência durante a pandemia, agrega que "os ataques a órgãos eleitorais se tornaram mais frequentes" na América Latina, tanto por parte de governos quanto da oposição em países como Brasil, El Salvador, México e Peru.

Nesse contexto, os olhares também estarão sobre a eleição brasileira depois de ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral (em novembro, ele recuou e disse que "passou a acreditar no voto eletrônico") e de o presidente brasileiro apoiar a reivindicação de Donald Trump, sem provas, de que teria havido fraude na eleição presidencial americana de 2020.

BBC Brasil

Os sinais de Washington




POR GILBERTO MENEZES CÔRTES

Em meio aos riscos crescentes da Covid-19, agora transmutada na variante Ômicron, mais rápida no contágio e com grau de letalidade ainda não totalmente definido, dois acontecimentos a oeste e a leste do mundo reavivaram a importância da Democracia como a melhor forma de convivência responsável entre os seres humanos. Nos Estados Unidos, em Washington, o presidente Joe Biden, eleito pelo Partido Democrata com mais de 3 milhões de votos de vantagem e com maioria no Colégio Eleitoral sobre o oponente do Partido Republicano, o então presidente Donald Trump, que tentava uma reeleição que dava como certa, mas foi perdendo o apoio popular pelo descaso como tratou os norte-americanos durante a pandemia da Covid-19, lembrava no dia 6 de janeiro, o aniversário da infame invasão do Capitólio, a casa que abriga a Câmara dos Representantes e o Senado dos Estados Unidos) pela horda de desordeiros e inimigos da Democracia instigados por Trump, na última tentativa de impedir, na marra e por golpe de Estado, a diplomação do presidente e da vice eleita (a senadora Kamala Harris), após recusadas em todas as instâncias judiciais no país as suas alegadas e fantasiosas acusações de fraudes nas eleições de novembro, na cerimônia que era presidida por Mike Pence, o então vice-presidente, que tem a prerrogativa de presidir o Senado em ocasiões especiais.

Do outro lado do mundo, no distante Kazaquistão, 9º país mais extenso do mundo, com 18 milhões de habitantes (equivalente ao Chile) e a 12ª produção de petróleo e gás, além de grandes reservas de urânio, um presidente reage cruelmente às manifestações de protestos da população contra a alta brutal dos combustíveis, ordenando que as tropas de segurança “atirem para matar”. E, ato contínuo, pede auxílio às forças da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, da qual faz parte juntamente com Rússia (federação Russa), Belarus, Tadjiquistão, Quirguistão e Armênia. Ou seja, as nações independentes que ainda mantém um cordão umbilical com a poderosa Rússia do novo Czar Vladimir Putin, que reagrupou a Federação Russa após o débacle da União Soviética, em dezembro de 1991, dois anos após a queda do Muro de Berlim, e a emancipação política dos países do leste europeu, que ficaram sob o domínio russo após a derrota das tropas de Hitler. Putin, que não mede esforços para retomar a força política de Moscou, ofuscada pela irresistível ascensão econômica da China, tratou de deslocar tropas para ocupar mais uma casa no tabuleiro mundial do poder, como tenta fazer na Ucrânia.

Os dois fatos têm um denominador comum: a Democracia está à prova. Não que o regime do atual presidente, Kassym-Jomart Tokayev, substituto do veterano Nursultan Nazarbayev (81 anos), que governou o país com mão de ferro após o fim da URSS e ainda tem grande influência no governo, caminhasse em direção à democracia. Mas o Kazaquistão e demais repúblicas que ficaram independentes após o desmoronamento da União Soviética têm um longo caminho a percorrer e precisam ser incentivados no rumo democrático.

São temas que devem ser refletidos no Brasil, que este ano irá às urnas para escolher seus novos governantes (no Executivo Federal e nos estados) e nas representações da Câmara, Senado e nas assembleias legislativas estaduais. O presidente Jair Bolsonaro não se cansou de fazer ameaças à Democracia, à Constituição e ao funcionamento dos poderes Legislativo e Judiciário ao longo de 2020 e 2021. Aparentemente, refluiu no intento do golpe no 7 de setembro do ano passado (pela falta da adesão esperada da população, que ficou entre 25% e 30% de seus cálculos para obter o “autorizo”, em Brasília e em São Paulo), e pela enérgica reação do Supremo Tribunal Federal, liderado pelo ministro Luiz Fux, que solicitou imediata proteção do Exército ao prédio do Supremo, cuja invasão era pregada pela turba bolsonarista, e, no comício da Avenida Paulista, quando disse que não obedeceria mais ao ministro Alexandre de Moraes. O STF e o Tribunal Superior Eleitoral, presidido por Luís Roberto Barroso, também fez veemente defesa da Democracia e das urnas eleitorais. Dois dias depois, com ajuda do ex-presidente Temer, Bolsonaro escreveu carta pedindo perdão a Moraes e negando que pregasse o golpe.

Aparentemente, refreou os ímpetos golpistas. Mas é preciso ficar atento e forte. Bolsonaro segue firme em sua tentativa de aparelhamento do Judiciário. O fortalecimento dos benefícios para as forças militares e policiais, sua força auxiliar para o golpe que as Forças Armadas ignoraram no ano passado. A intimidação crescente de dissidentes e adversários, incluindo os ataques sórdidos aos integrantes da Anvisa. A desqualificação das instituições sociais se acentua, como na saúde, educação, economia, cultura, meio ambiente, relações exteriores, e demais instituições. As pesquisas eleitorais e de desaprovação de seu governo indicam que, se as eleições fossem hoje Bolsonaro sofreria acachapante derrota nas urnas. Talvez no 1º turno. Mas ainda restam quase 10 meses até 2 de outubro. Pode se recuperar, com o peso da ação administrativa do governo focada no mais deslavado populismo. E ainda pode tentar imitar Trump, com a tentativa de golpe após uma derrota fragorosa. A história está aí viva a nos dar sinais de alerta de Washington. É melhor nem falar dos ensaios de golpe de Adolf Hitler. Os novos golpes de Estado que têm ocorrido se baseiam em três alicerces. 1 - a falência dos partidos políticos em resolver os problemas dos cidadãos; 2 - o aumento da desigualdade econômica que ocorre no mundo; 3 -a obtenção de privilégios para o grupo no poder devido às dificuldades econômicas e a crise ecológica que se instala. Quais os predicados faltam ao Brasil?

O vírus e a volta do cipó de aroeira

Cirsten Weldon era uma influenciadora americana anti-vacina e teórica da conspiração adepta do QAnon. Mantinha milhares de seguidores em redes sociais de direita, onde divulgava vídeos e textos nos quais estimulava pessoas a não se vacinarem contra a Covid-19. Em um dos vídeos, de 2020, ela chegou a declarar que o então epidemiologista-chefe dos Estados Unidos no governo de Donald Trump, Anthony Fauci, deveria ser enforcado. Mais recentemente, em 2021, abriu uma cruzada antivacina. Em um dos vídeos foi enfática:

— As vacinas matam! Não tomem elas. Esses idiotas são tão ingênuos. Eles estão todos se vacinando — disse.

Por não acreditar na vacina, como 25,89% dos americanos que ainda não tomaram sequer uma dose (isso representa 82,8 milhões dos 320 milhões da população dos Estados Unidos, dos quais apenas 58,72% completaram o ciclo vacinal - vacina em dose única, ou duas doses e ainda a 3ª dose de reforço - e 74,11% receberam apenas uma dose), Cirsten Weldon, começou a apresentar sintomas da Covid-19 pouco depois do Natal. Em seu último vídeo, postado em 28 de dezembro, ela aparenta estar com sintomas da doença e reclama de sentir fraqueza, exaustão e de tossir. E em sua última foto no Instagram, aparece deitada em uma cama de hospital com uma máscara de oxigênio. "Quase morri de pneumonia bacteriana em um hospital da Califórnia", escreveu Cirsten na publicação, feita na semana passada. Em outra conta, do Telegram, ela afirma ter testado para Covid-19 e se recusado a receber o medicamento “remdesivir”, usado para casos graves e que a influenciadora chamou de "remédio do dr. Fauci". Pois bem, depois de tanto negacionismo, Cirsten Weldon morreu nesta 5ª feira, 6 de janeiro, por complicações causadas pela Covid-19. A QAnon, grupo de extrema direita que tem no filho 03, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) um dos seguidores no Brasil, acredita haver uma seita formada por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais que conspiraram contra Donald Trump durante o seu mandato. Bizarro.

Os casos recentes da nova cepa Ômicron, que tem atingido com mais gravidade justamente os que mais se recusam a tomar vacinas, deveriam ter ligado os sinais de autopreservação dos negacionistas. Até Donald Trump, aquele que inicialmente disse a Covid-19 “era uma gripezinha”, um “vírus minúsculo que mão ameaçaria o poderio dos Estados Unidos”, que segue sustentando a versão da fraude eleitoral, para animar os fiéis seguidores republicanos, tomou esta semana a 3ª dose (de reforço) de vacina e reagiu com tranquilidade diante das críticas de seus seguidores, mais fanáticos e irrealistas que ele próprio: “questão de preservação”, resumiu. Pois nem assim, seu mais fiel discípulo brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro mudou o disco e segue atacando a vacina. O caso mais estapafúrdio foi ler, na sua “live” semanal, após quase morrer, com o intestino obstruído por uma casca de camarão mastigado insuficientemente em suas férias catarinenses, os efeitos colaterais apresentados numa bula de vacinas da Pfizer, a ser aplicada em crianças de cinco a 11 anos, para ampliar o cerco contra o vírus no Brasil.

Sou asmático desde os seis meses e o que mais fazia desde garoto era ler bula de remédios. De início era fácil. Letras grandes sobre dosagens e restrições a idades e poucas observações sobre efeitos colaterais, da coramina efedrina, do Franol (felizmente muitos saíram de uso, superados por remédios mais eficazes; hoje uso o Symbicort). Com o tempo (e fustigada por processos) a indústria farmacêutica foi ampliando os tamanhos das bulas. Os capítulos sobre eventuais efeitos colaterais cresceram e dominaram tudo o mais. E as letras foram encolhendo mais do que as de contratos de seguros (tornando tudo quase ilegível para as vistas cansadas). Remédios só entram em circulação depois de exaustivamente testados e aprovados por órgãos de vigilância sanitária (FDA, nos EUA, EMA, na União Europeia, Anvisa, no Brasil). Os médicos sabem dos efeitos colaterais e sempre perguntam sobre o histórico dos doentes. Infelizmente, no Brasil, quem “receita” remédio são os balconistas de farmácia, ou “formadores de opinião” tipo Cirsten Weldon.

Não se deve desejar mal a ninguém, mas, nesta hora, só resta lembrar a letra de “Aroeira”, lançada por Geraldo Vandré, em seu disco “Canto Geral”, de 1968. Vandré ficou mais conhecido (e amaldiçoado pela ditadura militar) pela canção “Para não dizer que não falei de flores”, que levantou o Maracanãzinho em 1968, no Festival Internacional da Canção promovido pela TV Globo, (virou hino de protesto dos movimentos daquele ano, que terminou com a edição do AI-5, em 13 de dezembro) mas perdeu a final para “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, interpretada por Chico e o Quarteto em Ci, debaixo de estrondosa vaia. Dizia Vandré, com sua voz nordestina rascante: “Noite e dia vêm de longe; Branco e preto a trabalhar; E o dono senhor de tudo; Sentado, mandando dar; E a gente fazendo conta; Pro dia que vai chegar (Bis); Marinheiro, marinheiro; Quero ver você no mar; Eu também sou marinheiro; Eu também sei governar; Madeira de dar em doido; Vai descer até quebrar; É a volta do cipó de aroeira; No lombo de quem mandou dar” (Bis).

Jornal do Brasil

Putin satisfeito, Ocidente em polvorosa no "Festival Rússia"




Por Bernd Riegert*

Série de conferências sobre a segurança na Europa é palco perfeito para as fantasias de poder do líder russo. Enquanto isso, do ponto de vista estratégico, o Ocidente está basicamente imobilizado, opina Bernd Riegert*.

O presidente Valdimir Putin deve estar satisfeito com o "Festival Rússia" que se anuncia: está programada uma densa sequência de conferências e reuniões em Genebra, Bruxelas, Viena e Brest, com a finalidade de mantê-lo de bom humor – e evitar o temido avanço de tropas regulares russas sobre a Ucrânia.

O "festival" já começou em dezembro de 2021, com dois telefonemas entre os chefes de Estado da Rússia e dos Estados Unidos. Seguiu-se, na última sexta-feira, uma conferência extraordinária, em vídeo, dos ministros do Exterior da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), na qual "o Ocidente" articulou sua posição.

O presidente americano, Joe Biden, prometera manter a coordenação estreita com os europeus, e manteve sua promessa. A função continua nesta segunda-feira (10/01), com "conversas estratégicas" diretas entre os EUA e a Rússia, em Genebra.

Na quarta-feira segue-se uma sessão do Conselho da Otan para a Rússia, em Bruxelas – um grêmio de consultação enferrujado de longa data. Paralelamente, reúnem-se os líderes militares da Aliança Atlântica para deliberar sobre reforços às tropas no Mar Negro ou na fronteira oriental da organização. No dia seguinte, há um encontro da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), da qual EUA e Rússia são membros.

Também a União Europeia quer marcar sua posição. Seus ministros da Defesa e do Exterior se reúnem de quarta a sexta-feira na cidade francesa de Brest. Como em todas as demais conferências, o tema aqui são a reação às exigências russas de garantias de segurança e a uma eventual escalada por Putin na Ucrânia.

Choques de interesses do Ocidente: trunfo para Putin

Em resumo: o chefe do Kremlin conseguiu deixar "o Ocidente" em polvorosa e expor publicamente as diferenças de opinião no campo adversário. Pois, no tocante à Rússia, há discrepâncias gritantes de atitude, dependendo dos interesses em jogo.

Até hoje, os europeus não conseguiram decidir exatamente quais serão as severas sanções com que pretendem ameaçar Moscou. A única coisa que resolveram até o momento é que haverá "um preço", no caso de novas agressões por parte dos russos.

Para completar, o encarregado de política externa da UE, Josep Borrell, prestou um desserviço ao bloco que representa a se queixar de não ter sido consultado em relação à segurança na Europa e na Ucrânia.

No setor que realmente poderia doer para a Rùssia, que é o fornecimento de energia, a UE evita tocar. Compreensivelmente, pois, sem o gás e o petróleo da potência eurasiana, numerosos países da Europa, inclusive a Alemanha, estariam em sérias dificuldades.

O chefe de Estado russo não tem por que temer resoluções graves nesta semana de "festival". Provavelmente se pronunciarão as mesmas advertências que desde 2014, quando Moscou fez marcharem suas tropas até a fronteira ucraniana.

Quem conversa, não atira

Portanto, nem os EUA nem os demais Estados da Otan mobilizarão suas próprias forças militares em respaldo aos ucranianos. Por outro lado, está descartado a Aliança Atlântica atender à exigência russa de que ela desista de uma ampliação para o Leste, integrando a Ucrânia ou a Geórgia.

"O Ocidente" não cederá à chantagem do Kremlin, e Putin sabe disso. No entanto, Biden já lhe assegurou que, no curto prazo, uma filiação de Kiev ou de Tiblíssi não consta da pauta da Otan. Esse estado de incerteza perdura desde a cúpula da organização de 2008, em Bucareste.

Assim, o polo ocidental seguirá tentando manobrar, de algum jeito, e apostando na diplomacia, sem provocar ações militares da Rússia. Por sua vez, Vladimir Putin manterá a tensão com provocações direcionadas, alimentando os conflitos em Belarus, Ucrânia, Geórgia, Moldávia e Armênia, a fim de impedir futuros passos desses países em direção ao oeste.

O chefe do Kremlin considera seus adversários militarmente indecisos, incapazes sequer de organizar a própria retirada do Afeganistão. No momento, não ampliará a guerra com a Ucrânia, iniciada por ele já em 2014, com a anexação da península da Crimeia. Pois, em princípio, o líder político notoriamente imprevisível já conseguiu o que queria.

Os EUA, a Otan e a UE seguirão dispostos a conversar, confiando que, do ponto de vista da política interna, Putin não pode se permitir uma guerra a pleno vapor, estando, no momento mais ocupado com a consolidação de sua influência no Cazaquistão.

Este seguramente não será o último "Festival Rússia". Mas afinal, toda a função não é totalmente em vão: pois, enquanto se conversa, pelo menos não se dispara.

*Bernd Riegert é jornalista da DW.

Deutsche Welle

O Cafezinho

O Cafezinho


Vandalismo contra estátua de presidente João Goulart em São Borja, sua terra natal

Publicado em 9 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

SÃO BORJA: VANDALISMO CONTRA JANGO. - Portal Instituto João Goulart

A mão direita e o chimarrão da estátua foram quebrados

Christopher Goulart 

Neste sábado, a estátua do Presidente Jango amanheceu depredada. É de se lamentar a falta de conscientização e cultura por parte de algumas pessoas, que obviamente devem ser responsabilizadas. Porém, a questão vai muito além do ato em si.

Essas atitudes têm relação direta com a falta de valorização do Patrimônio Histórico do próprio município, por parte do próprio Poder Público.

FALTA DE RESPEITO – Muito mais grave do que o vandalismo, é a falta de respeito por parte do atual Prefeito Bonnoto quando ignorou a carta pública da ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart (que queria apenas participar dos cuidados com o museu), respondendo publicamente que Maria Thereza “estava desrespeitando aos funcionários que trabalham no museu”.

Ou então quando se negou a indicar um representante para a direção da Associação dos Amigos do Memorial João Goulart, entidade esta que tem como objetivo principal preservar a memória de Jango.

Poderia, inclusive, citar a decomposição das roupas pessoais de meu avô Jango, que até hoje se encontram apodrecendo dentro de uma mala no museu. Acervo este, diga-se, doado por minha família e entregue pessoalmente por mim para a cidade.

HIPOCRISIA SEM LIMITE – Sem contar, obviamente, em sua atuação política, inspirada exatamente nas forças que deram um golpe e derrubaram Jango da Presidência da República, condenando-o a morrer na solidão do exílio.

Desculpem, hipocrisia tem limite!

Logo, não posso aceitar agora demagogia em redes sociais de quem não tem nenhum compromisso com a memória de Jango, com a melhor tradição política de São Borja para o país, e que apenas se lembra de João Goulart para aparecer de forma oportunista em páginas de jornais do RS.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Artigo enviado por José Carlos Werneck. O autor, Christopher Goulart, é neto de Jango e presidente dos Amigos do Memorial João Goulart. (C.N.)


Brasil tem tudo, menos o essencial, que é melhorar a renda e o bem-estar de sua população


Charge 18/03/2019 | Um Brasil

Charge do Galhardo (site Um Brasil)

J. R. Guzzo
Estadão

O universo político e os seus subúrbios discutem com paixão, no momento, os futuros ministros do ex-presidente Lula, a volta da propaganda política obrigatória no rádio e televisão ou a guerra pessoal do presidente da República contra a vacina da covid. Discutem mais uma tonelada de questões parecidíssimas; são levados extremamente a sério por si mesmos e pelos comunicadores sociais.

Não há o menor risco, é claro, de mudarem de ideia ou de mudarem de assunto. O resultado prático disso tudo é uma desgraça. Fica garantido, enquanto as coisas continuarem assim, que o Brasil não vai resolver nenhum dos problemas que tem.

ESTADO DE COMA – O paciente está com câncer; estão recomendando Melhoral ou, pior ainda, um tratamento com o curandeiro João de Deus. É uma calamidade que não poderia estar mais clara: desde 1980 a renda per capita do brasileiro não sai do lugar em que está.

O Brasil, nesse período, chegou a um PIB entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões. Acaba de bater mais um recorde de exportações, com US$ 280 bilhões em 2021. Tem mais de 230 milhões de celulares, e outro tanto de computadores. Tem trinta e tantos anos de “Constituição Cidadã”, de “estado de direito” e de instituições protegidas à força de inquérito policial, cadeia e censura.

Tem Poder Moderador. Tem Uber. Tem tudo, menos o essencial: uma melhora, qualquer melhora, no bem-estar da sua população. Está parado, aí, há 40 anos.

QUEM SE IMPORTA? – Ninguém liga, é claro, porque quem tem voz neste País é a minoria que anda de SUV, ganha acima de R$ 15 mil ou R$ 20 mil por mês e faz “home office”. Mas a renda da população está há 40 anos em estado de coma – e isso é o atestado mais arrasador de fracasso que uma sociedade poderia ter.

Para que serve um governo, no fim das contas, se não for para tornar mais cômoda a vida das pessoas?

O poder público no Brasil, definitivamente, não faz isso – governa, com obsessão, para ficar com a maior parte da riqueza nacional e para cuidar unicamente de seus próprios interesses.

PARADO NO TEMPO – O resultado é que o País vai ficando cada vez mais longe das sociedades desenvolvidas – e mesmo das nações pobres que vêm vencendo a sua pobreza.

Estar parado há 40 anos é a prova mais espetacular de que tudo o que o poder público fez, durante esse tempo todo, deu errado. Não se mexe no essencial – a concentração de renda cada vez mais alucinante por parte do Estado.

Tanto faz, daí, a “política econômica”. Já tivemos Figueiredo-Delfim, Sarney-Mailson, Collor-Zélia, FHC-Malan, Lula-Palocci, Dilma-Mantega, Temer-Meirelles e Bolsonaro-Guedes. Para a renda do brasileiro, deu tudo na mesma.

domingo, janeiro 09, 2022

Ministro participa de evento ao lado de Allan dos Santos, blogueiro foragido da Justiça

Publicado em 9 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Ministro diz que não foi informado da presença do blogueiro

Raquel Lopes
Folha

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, participou de um evento nos Estados Unidos ao lado do blogueiro Allan dos Santos, considerado foragido pela polícia. Na ocasião, ele atacou a esquerda e uma possível volta do ex-presidente Lula (PT) à presidência da República em 2023.

Chamado de “Governe Conference”, o evento foi organizado pela Igreja Lagoinha em Orlando. O presidente Jair Bolsonaro (PL) gravou um vídeo e enviou, desejando um 2022 de alegria e realizações.

PARTICIPANTES – Além de Fábio Faria e Allan dos Santos, o pastor André Valadão, o deputado Lucas Gonzalez (Novo-MG), o vereador por Belo Horizonte Nikolas Ferreira (PRTB) e Paulo Figueiredo Filho também estavam presentes na roda de conversa.

O ministro disse, em nota, que não teria comparecido caso soubesse que Allan dos Santos iria participar. “Fui convidado para discursar num evento de um pastor de uma igreja que eu e minha família frequentamos quando estamos em Orlando. Não havia nenhuma indicação que entre os presentes estaria alguém com problemas com a Justiça brasileira. Se eu soubesse que ele iria, eu não teria comparecido. Após o evento, foi oferecido um lanche na sala do pastor André, na própria igreja”, disse Faria.

O ministro atacou o ex-presidente Lula (PT) e disse que se o “comunismo” voltar ao poder as pessoas vão morrer de fome.

DISSE FARIA – “O custo muito maior para gente é o custo das pessoas que vão morrer de fome se o comunismo voltar ao Brasil. Porque se voltar não vai ter Lula paz e amor. O Lula não é esse Lula que estão vendendo, ele vem com o José Dirceu, Natália Bonavides [deputada do PT pelo RN], ele vem com a Fátima [governadora Fátima Bezerra (PT)] , ele vem com Gleisi, ele vem com um grupo que nunca mais, nunca mais vai querer sair do poder. Eles vão vir vingativos, com raiva, com raiva e não vão nem pensar no Brasil”, completou.

O ministro defendeu que temas importantes estão sendo discutidos com Bolsonaro na presidência, como a redução da maioridade penal, escola sem partido, ampliação do direito ao porte de arma estendido. No entanto, com a possibilidade da volta da esquerda, alguma pautas também devem voltar a ser discutidas, como o aborto.

Ele defendeu ainda que no governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) não há corrupção. “Bolsonaro acabou com isso, no governo dele não tem corrupção, ninguém que chega lá tentando decidir, comprando um ministro, comprando nada”, disse.

DISSE O BLOGUEIRO – O blogueiro Allan dos Santos também falou durante o evento e disse ser um jornalista em exílio por não ter cometido nenhum crime e nenhum processo jurídico legítimo e constitucional em andamento.

Ele teve a prisão e extradição decretada em 5 de outubro no inquérito que apura a existência de uma milícia digital para atacar a democracia e as instituições.

“Eu estou aqui livre por conta das leis americanas. Se fosse pelas leis brasileiras, aqueles que aplicam as leis brasileiras, eu estaria em desfavorecimento enquanto o narcotraficante, que fez a saidinha de Natal, está com a família. Então, conscientize as pessoas da gravidade que o país está vivendo”, afirmou.

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