sábado, janeiro 08, 2022

Queima da Amazônia cria nova ameaça ao Brasil




O desmatamento em 2021 na Amazônia, recorde dos últimos dez anos, e o enfraquecimento de agências como o ICMBio e o Ibama no governo de Jair Bolsonaro submetem o Brasil a um novo risco de ser alvo de medidas que afetem seu comércio exterior. Isso por causa da construção em fóruns internacionais da ideia de que o País falha em sua responsabilidade de proteger o meio ambiente.

Por Marcelo Godoy (foto)

Analistas civis e militares ouvidos pelo Estadão reconhecem a tendência que pode atingir em cheio o Brasil: a chamada securitização das mudanças climáticas quer o deslocamento do tema dos fóruns ambientais e econômicos para aqueles que tratam da segurança e defesa das populações e da manutenção da paz entre as nações.

A retórica, que no passado consolidou a guerra ao terror, pode levar à criação de um eixo do mal ambiental. Em breve, ela poderia ser usada contra grupos ou países apontados como responsáveis pelos danos causados por eventos extremos, como secas, inundações e ciclones, que afetem as grandes potências. As mudanças climáticas vão ocupar na primeira metade do século um papel central na diplomacia mundial. E o Brasil, com a Amazônia e o pré-sal, está no olho do furacão.

Exemplo de como a securitização do meio ambiente aumenta ano a ano é o documento Nato 2030 - United for a New Era, publicado pela Otan em 2020. O coronel do Exército e especialista em geopolítica Paulo Roberto da Silva Gomes Filho contou nele 19 vezes a expressão "mudança climática". "Ela é apresentada como um dos 'desafios definidores' dos tempos atuais, representando sérias implicações à segurança e aos interesses econômicos dos 30 países que integram a aliança."

Nos Estados Unidos, a gestão Joe Biden classificou as mudanças climáticas como questão de segurança nacional, levando o país a apoiar a sua securitização no Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). A proposta de que o clima passasse a ser tratado no órgão contou com o apoio do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Um projeto de resolução apresentado pela Irlanda e pelo Níger foi debatido. Ele previa a designação de um relator especial sobre o tema e a produção de relatórios.

A resolução abriria espaço para que, no futuro, o combate às mudanças climáticas pudesse servir de base a sanções e até para ações militares baseadas no princípio de responsabilidade de proteger, o chamado R2P, que fundamentou a intervenção na Líbia, em 2011. Mas, em 13 de dezembro, a resolução foi rejeitada em razão do veto da Rússia - houve ainda o voto contrário da Índia e a abstenção da China e 12 manifestações favoráveis, entre as quais a dos EUA, Reino Unido e França.

Nos debates, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, enfatizou que o apoio à resolução não significava abandono da cooperação internacional. "Devemos parar de debater se o caso das mudanças climáticas é ou não um tema para o Conselho de Segurança. Em vez disso, devemos perguntar como o conselho pode usar seu poderes exclusivos para enfrentar os impactos negativos do clima sobre a paz e a segurança."

A securitização está de acordo com o conceito de dissuasão integrada, defendido pelo secretário de Defesa, Lloyd Austin. Além de integração multidomínio nos campos de batalha - terra, mar, ar, espacial e cibernético -, ele quer o mesmo nas alianças e parcerias com países. "É lógico que o Brasil, o maior país da América do Sul, seja cortejado pelos EUA, pois eles estão em disputa hegemônica com a China", disse o coronel.

Mas essa situação pode mudar, caso o Brasil seja percebido como uma ameaça. No conselho, os EUA enfrentaram a oposição da China. O embaixador Zhang Jun afirmou: "Os princípios da responsabilidade comum, mas diferenciada, respectiva capacidade e equidade são os pilares da governança climática global. Não seria apropriado o Conselho de Segurança como fórum para substituir a tomada de decisão coletiva pela comunidade internacional."

Para o coronel Paulo Filho, em um mundo em que a hegemonia é disputada, ações da ONU serão cada vez mais difíceis. Ele contou que o texto da Estratégia Nacional de Segurança russa já anunciava o veto ao dizer: "A crescente atenção da comunidade internacional às mudanças climáticas e à manutenção do meio ambiente é usada como pretexto para limitar o acesso de empresas russas ao mercado exportador, restringir o desenvolvimento da indústria russa, estabelecer o controle sobre rotas de transporte e impedir o desenvolvimento da Rússia no Ártico".

A discussão na ONU pode afetar o Brasil. Já em 2019, o blog do Exército publicou artigo do coronel Raul Kleber de Souza Boeno no qual alertava que "uma eventual securitização da questão climática teria implicações para a soberania brasileira, com significativas consequências para suas Forças Armadas". Foi atrás de como isso pode acontecer que o pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP Gustavo Macedo produziu cenários em que o conceito de responsabilidade de proteger seria usado contra o Brasil. Dentre eles, estão os crimes contra povos indígenas e o meio ambiente.

Em 2018, Macedo foi o redator do documento Making Atrocity Prevention Effective (Tornar Eficaz a Prevenção de Atrocidades), quando trabalhava como assistente de Ivan Simonovic, o diretor do Departamento de Prevenção a Genocídio e Responsabilidade de Proteger, da ONU. Ele acredita que a ação de Bolsonaro diante de crimes ambientais e humanitários "tornou urgente falar sobre o tema no Brasil". "Pessoas de fora, como o Stephen Walt, (professor) de Harvard, já trataram da possibilidade de se aplicar ao Brasil o R2P, por causa da Amazônia."

Walt publicou em 2019 um artigo na revista Foreign Policy no qual perguntava se os países têm o direito ou a obrigação de intervir em outro país para impedi-lo de causar dano irreversível e catastrófico ao meio ambiente. Depois, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a ideia de um "status internacional à Amazônia".

"É preciso alertar o público brasileiro", disse Macedo. Para ele, essa linguagem diplomática pode ser mobilizada contra o Brasil. "A intervenção não necessariamente é militar; ela pode ser política e econômica. Na história da aplicação do conceito de responsabilidade de proteger, na imensa maioria das vezes, ele foi usado para ação política e econômica, não militar."

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano Cortinhas, o governo brasileiro pode reduzir a vulnerabilidade do País se voltar a fazer o dever de casa, fortalecendo as agências ambientais e a matriz energética limpa para ter dados positivos na proteção do meio ambiente.

"Associar segurança e meio ambiente em relações internacionais é inevitável. Com as mudanças climáticas, a segurança de todos será afetada. E quem define os temas a serem securitizados são as grandes potências." Para ele, nossas Forças Armadas não têm como impedir a ação de grandes potências. E a solução não é aumentar o orçamento da Defesa, mas reequilibrá-lo, crescendo a conta de investimento e diminuindo a de pessoal. "A Marinha britânica tem 35 mil militares e a nossa tem 80 mil com menos da metade de navios e submarinos."

Cortinhas sublinha o efeito da adoção de padrões internacionais de proteção do meio ambiente. "Quem vai pressionar um país que tem resultados a mostrar?" Segundo ele, com Bolsonaro a vulnerabilidade do País cresceu. "Quando se começa a esconder dados, mascarar a realidade e dizer que a responsabilidade é de países que mais poluem, fica-se mais vulnerável às pressões internacionais."

Para o coronel Paulo Filho, o Brasil será pressionado se não mostrar que fez sua parte à comunidade internacional. "Precisamos ter posição madura. Não podemos negar as mudanças climáticas. Elas podem ser instrumentalizadas contra nossos interesses e servir ao protecionismo agrícola? Podem. É uma realidade. Mas elas também têm efeitos que devem ser combatidos."

O governo brasileiro trata com desconfiança o interesse de potências estrangeiras na preservação da Amazônia. Para o especialista em geopolítica, coronel Paulo Filho, isso acontece em razão do protecionismo. Ou seja, a defesa do ambiente seria instrumentalizada para atacar as exportações do agronegócio do País.

"O Exército vê com desconfiança o interesse em relação à Amazônia, região com a qual tem uma relação afetiva e uma longa tradição de defesa." Na última década, a questão ambiental entrou na formação dos comandantes. "Quando fui comandar, em 2014 - a gente faz um curso -, não me falaram sobre meio ambiente. Agora, os comandantes recebem uma carga horária de 60 horas sobre meio ambiente."

No Reino Unido, o Ministério da Defesa criou um cargo, ocupado pelo general Richard Nugee, para lidar com mudanças climáticas. Após a COP-26, ele escreveu: "Devemos ser claros, nossa liberdade de manobra, da estratégia à tática, será constantemente erodida e diminuída. Portanto, para permanecer na vanguarda da capacidade operacional, é imperativo que entendamos o futuro e nos adaptemos a ele, da melhor maneira possível".

Os exércitos estudam como as mudanças afetarão seu trabalho. Nos debates no Conselho de Segurança sobre a securitização do clima foram citados países que estão sofrendo ameaças à segurança em razão das mudanças climáticas, como os do Sahel, na África. Com a desertificação da área, populações inteiras seriam forçadas a migrar para o sul ou para o norte e para Europa.

Para Paulo Filho, o clima já é entendido como ameaça à segurança humana. "Faz parte das atribuições das Forças Armadas de todo o mundo a defesa dos seus cidadãos. Se vou ter catástrofe climática, subir o nível dos mares e provocar migrações em massa, isso se torna problema de segurança." A securitização do clima, disse ele, está ligada ainda ao fato de o Ocidente, após a Guerra Fria, ter dado mais ênfase a temas ligados à segurança humana.

Estadão / Zero Hora

Chefe da NATO diz que reforço militar russo continua e risco de conflito é "real"




Secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, disse esta sexta-feira que a organização militar permanece inquieta sobre os riscos de um conflito efetivo na Ucrânia devido ao contínuo reforço militar russo e que se deve preparar para um falhanço da diplomacia.

"O reforço militar da Rússia em torno da Ucrânia prossegue e é acompanhado por um discurso ameaçador de Moscovo, caso as suas exigências não sejam aceites. Mas elas são inaceitáveis e o risco de um novo conflito é real", dramatizou em conferência de imprensa, no final de uma reunião por videoconferência com os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países da Aliança.

Stoltenberg lamentou que a Rússia não tenha fornecido sinais positivos, ao assegurar que Moscovo prossegue com a concentração de "milhares de tropas e armamento pesado" e mantém uma "retórica ameaçadora".

No entanto, congratulou-se pela disponibilidade do Kremlin em dialogar com os Estados Unidos e a NATO sobre as formas de garantir a segurança na Europa.

O chefe da NATO reiterou que um eventual ataque à Ucrânia "terá consequências significativas e um elevado preço para a Rússia", e especificou que os Estados Unidos e a União Europeia (UE) já ameaçaram com sanções económicas.

Em simultâneo, definiu como um "sinal positivo" a disponibilidade do Kremlin para "se sentar à mesa e dialogar" quer com Washington, na próxima segunda-feira em Genebra (Suíça), quer com a NATO, na quarta-feira em Bruxelas, e desejou que estes encontros signifiquem "o início de um processo" no qual se poderá "comprometer com diversos assuntos".

O Kremlin pretende negociar com Washington e a NATO um novo quadro de segurança europeu, e pretende que os Estados Unidos se associem à sua moratória unilateral sobre o deslocamento de mísseis de curto alcance no continente.

Moscovo tem ainda exortado a Aliança para que diminua de forma substancial as suas manobras militares junto das fronteiras russas.

Ainda hoje, e num contacto telefónico com o seu homólogo ucraniano Dmytro Kuleba, o secretário de Estados dos EUA Antony Blinken prometeu que "não haverá discussões sobre a Ucrânia sem a Ucrânia", a poucos dias das conversações diretas russo-norte-americanas.

O chefe da diplomacia dos EUA evocou as "potenciais respostas dos Estados Unidos e seus aliados" face à concentração de tropas russas, e foram ainda abordadas as três reuniões da próxima semana, incluindo o encontro em Viena na quinta-feira, da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que também inclui Kiev.

Em Paris, o Presidente francês Emmanuel Macron pronunciou-se por sua vez a favor de um diálogo "franco, exigente e coordenado" entre a UE e a Rússia.

A França - que assumiu em 1 de janeiro a presidência rotativa do bloco comunitário - tem defendido uma "arquitetura de segurança" própria, que permita à União Europeia reagir de forma autónoma face a futuros desafios geopolíticos.

"A UE deve dialogar com a Rússia. Dialogar não é fazer concessões. É, em primeiro lugar, abordar os desacordos, mas construir o futuro", disse Macron em conferência de imprensa com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Jornal de Notícias (PT)

Ventos de França




Se Bossuet teorizou o absolutismo real sob o patrocínio divino, Montesquieu glosou o liberalismo moderado e conservador inglês, que os enciclopedistas traduziriam em versão híper-individualista e pré-revolucionária. 

Por Jaime Nogueira Pinto (foto)

A França foi o laboratório da moderna política europeia. Com Luís XIV, criou e experimentou o despotismo iluminado, que outros soberanos continentais – de Frederico da Prússia a Dom José I – iriam implantar. No século XVIII, com os Philosophes e a Enciclopédia, foi também a pátria da contestação à sociedade política tradicional, assente no trono e no altar. E com a experiência vertiginosa da Revolução, seria, entre 1789 e 1815, um borbulhante tubo de ensaio de ideias e regimes políticos.

O pioneirismo político francês

Se Bossuet teorizou o absolutismo real sob o patrocínio divino, Montesquieu glosou o liberalismo moderado e conservador inglês, que os enciclopedistas traduziriam em versão híper-individualista e pré-revolucionária. Depois libertinos cínicos, como Laclos, fizeram a desconstrução elegante da sociedade tradicional e libertinos desesperados, como Sade, trouxeram a essa desconstrução contornos apocalíticos de promiscuidade e perversão.

É também em França que, com Rivarol e Joseph de Maistre, nascem as teorias da contra-revolução e, com Chateaubriand, o romantismo conservador. Fora ainda ali que, no curso de Revolução, com Gracchus Babeuf e a “Conspiração dos Iguais”, aparecera um igualitarismo revolucionário que o próprio Marx reconheceria como precursor.

No século XIX, com a luta política a passar, com facilidade, do Parlamento para a rua ou para a guerra civil, repetindo a monarquia legitimista, a monarquia liberal, várias repúblicas e até um segundo Império, a França, na sua instabilidade governativa, continuou a ser um manancial de ideias e constituições, à direita e à esquerda, de ultramontanos a anarquistas radicais, de positivistas progressistas a românticos reacionários, de Comte a Baudelaire. Tudo isto sob um pano de fundo de grandes ficcionistas – Stendahl, Balzac, Flaubert, Maupassant, Zola.

No final do século XIX, na douceur de vivre do Paris da República dos Duques e das grandes exposições universais, onde reinava a belíssima Elizabeth de Greffulhe (que inspiraria a Oriane de Guermantes de Proust), eram, outra vez, pensadores franceses que criavam os novos antagonismos: Maurice Barrès lançava as bases do nacionalismo identitário e patriota, que Charles Maurras e a Action Française transformariam num movimento orgânico que teria réplicas e seguidores em toda a Europa latina.

Zeev Sternhell, um historiador israelita de esquerda que em tempos entrevistei com o Nuno Rogeiro para o Futuro Presente, defendia, precisamente, a tese das raízes francesas do fascismo, que filiava numa ideologia “anti-Lumières”, nada e criada em França, com antepassados tão diferentes como o anarquista Proudhon, os nacionalistas Barrés e Maurras, o caudilho Boulanger e o filósofo da violência Georges Sorel.

Assim, no fim do século XIX, um quarto de século antes de Mussolini fundar os Fascii di Combattimento em Milão, nascia em França uma “direita revolucionária”. O facto de a Itália e de a Alemanha, duas nações rivais ou inimigas da França, serem os lugares do triunfo do fascismo, em 1922, e da sua variante nacional-socialista, em 1933, criou condições adversas para que a direita revolucionária francesa se afirmasse, condições que se agravariam com a Guerra, a Derrota, o Armistício, o governo de Vichy e a Colaboração.

Aí, na zona ocupada, floresceu toda uma geração de escritores “malditos” de grande talento, um curioso “fascismo dos escritores”, com Drieu de la Rochelle, Robert Brasillach, Lucien Rébatet, Louis Ferdinand Céline.

Vichy e a colaboração tanto dividiram a direita como a esquerda: o Partido Comunista só passaria para a Resistência depois da invasão da União Soviética pela Alemanha. No Verão de 1940, por indicação da Internacional Comunista e por mediação da embaixada soviética em Paris, houve contactos com o representante de Hitler na capital francesa, Otto Abetz, para que o jornal L’Humanité, do PCF, voltasse a ser publicado. Mas em Agosto, por ordem de Dimitrov, do Comintern, as controversas negociações foram suspensas.

Em 1940, a direita dividiu-se entre os que seguiam De Gaulle e a Resistência, os que seguiam Pétain e Vichy, e os mais radicais, que defendiam a colaboração com os alemães. Depois da guerra, da Ocupação e da Libertação, as guerras coloniais – da Indochina e da Argélia, mas, sobretudo a da Argélia – voltavam a definir e dividir as direitas. De Gaulle, chamado pelo movimento militar e civil do 13 de Maio de 58 para salvar a Argélia francesa, ia ser o grande artífice da negociação com o FLN e da independência, criando uma fractura na direita de que o antigaullismo de Jean-Marie Le Pen é, ainda hoje, um símbolo vivo.

Uma distopia iliberal?

Estas histórias da História das direitas francesas podem ajudar a entender a presente situação pré-eleitoral. Ao contrário do que, aparentemente, se passa em Portugal, em França, o eixo da política deslocou-se flagrantemente para a direita. Tanto que Emannuel Macron, o candidato que se prepara para recolher o voto útil da esquerda na segunda volta, se situa claramente à direita do Dr. Rui Rio, o candidato que se prepara para encabeçar uma suposta frente de direita doméstica, embora se afirme um homem de centro-esquerda (ou uma espécie de “católico não-crente” da direita).

Faltam 4 meses para as eleições francesas; e, entre a evolução da pandemia, com as acesas polémicas que levanta, e as tensões multiculturais de um país que se debate com uma imigração não-integrada, onde surgem núcleos agressivos, muita coisa pode ainda passar-se. De qualquer forma, numa sondagem publicada na revista Marianne, com base num questionário feito entre 27 e 31 de Dezembro de 2021, o conjunto das direitas à direita de Macron somaria 44, 5% dos votos (Valérie Pécresse, a candidata dos Republicanos, teria 15%; Eric Zemmour também 15%; e Marine Le Pen 14,5%). À esquerda, Mélanchon teria 13%, o “verde” Jadot 4% e a socialista Christiane Taubira 4,5%. O Presidente Macron recolheria, numa primeira volta, 23% dos votos.

O principal apoio de Macron parece estar entre os votantes mais velhos e o eleitorado dito “burguês”. Marine Le Pen, que há muito liderava o voto da direita, perde significativamente entre as classes médias e médias-altas para Zemmour, que reúne também apoios entre os eleitores conservadores. Os núcleos de apoio de Le Pen são, sociologicamente, empregados e operários e, politicamente, os eurocépticos. Mélanchon recruta sobretudo entre a chamada “esquerda cultural” – académicos, jornalistas e funcionários públicos.

A direita tem, assim, três candidatos quase a par: Marine Le Pen, que representa uma linha identitária popular e logo o “discurso de ódio”, procurou moderar-se nas eleições regionais e não lhe correu bem; Zemmour, o judeu francês da Argélia, “pied-noir” mas, ainda assim, profusamente apelidado de “nazifascista e xenófobo”, surge como o intelectual que desce ao terreno com um programa nacional identitário, apelando para os riscos de decadência da França; Valérie Pécresse, da direita conservadora, acusada pelas outras direitas de ambiguidade, é, claramente, a mais moderada dos três – o que, no entanto, não a impediria de ser considerada por comentadores portugueses como uma espécie de Salazar de saias.

Isto quer dizer que, enquanto o eixo da política francesa se deslocou para a direita, o eixo da política portuguesa, não só continua enviesado à esquerda, como se vem reverencialmente inclinando para melhor acolher a angélica extrema-esquerda “com provas dadas em democracia”.

No entanto, não deixa de ser também visível a ligeira flexão para a direita do eixo do mal (o eixo que separa o aceitável do inaceitável e que outrora segregava o PSD de Pedro Passos Coelho e do CDS de Paulo Portas), para isolar em cerca sanitária o recém-chegado “nazi-fascismo” do Chega de André Ventura. Afinal, sendo a França, historicamente, um país de pioneirismo ideológico e institucional, o mais natural é que Portugal se vá, lentamente, arrastando atrás…

…Ou talvez não. O que seria da nossa “democracia exemplar” e do nosso clima, tão propício à prática do “socialismo”, se, numa distopia iliberal, estes ventos de França galgassem os Pirenéus e passassem a Meseta, ainda antes de 24 de Março, “o dia em que o tempo da democracia supera o tempo da ditadura”, ensombrando os trabalhos da comissão para as cinquentenárias comemorações de Abril?

Observador (PT)

A pedagogia do mau exemplo na campanha antivacinas




Bolsonaro sabota a estratégia de imunização das crianças. É um péssimo exemplo para a saúde pública.  A subnotificação está mascarando a verdadeira dimensão da quarta onda de Covid-19

Por Luiz Carlos Azedo (foto)

O presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a criticar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por liberar a vacinação do público pediátrico de 5 a 11 anos. Chamou os cientistas e médicos que defendem a vacinação das crianças a partir dos cinco anos de “tarados da vacina” e reiterou que a sua filha, de 11, não será vacinada. Sua ofensiva contra a vacinação de crianças e pré-adolescentes ocorre num momento em que explodem os casos de influenza e de covid-19, inclusive com transmissão comunitária da variante ômicron. Pronto- socorros e ambulatórios estão lotados, houve aumento exponencial da procura por testes de covid-19.

Os números registrados nos Estados Unidos, Europa e Ásia revelam que a quarta onda da pandemia de covid-19 é uma realidade, com o registro de mais de 2,5 milhões de casos por dia. A interpretação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, de que o Brasil está fora dessa rota não corresponde à realidade. Além disso, corrobora as suspeitas de que o apagão de dados do SUS pode ter sido provocado por hackers, mas a demora para resolver o problema faz parte da má vontade e das manobras protelatórias do governo federal contra a vacinação. O ministro está incorrendo nos mesmos erros que o general Eduardo Pazuello cometeu à frente do Ministério da Saúde, ao se submeter aos caprichos do presidente da República e dar as costas à população em situação de risco sanitário.

Não custa nada lembrar a velha história do grão-vizir da Pérsia, que inventou o tabuleiro com 64 quadros, vermelhos e pretos, cuja peça mais importante era o rei — a segunda peça, o próprio grão-vizir, foi substituído pela rainha com o passar dos anos. Reza a lenda que rei gostou tanto do jogo de xadrez, que pediu ao grão-vizir para determinar sua própria recompensa. O grão-vizir pediu ao rei que lhe fosse dado um único grão de trigo no primeiro quadrado, dois no segundo, quatro no terceiro e assim por diante, dobrando sempre as quantidades. O rei achou a recompensa insignificante e aceitou.

Entretanto, quando o administrador do celeiro real começou a contar os grãos, o rei teve uma surpresa muito desagradável. O número começou pequeno: 1, 2, 4, 8, 16, 32 (…) e foi crescendo, 128, 256, 512, 1024… Quando chegou à última das 64 casas do tabuleiro, era de quase 18,5 quintilhões. Quanto pesa cada grão de trigo? Se cada um tiver um milímetro, pesariam 75 milhões de toneladas métricas, muito mais do que havia nos armazéns reais. “Se o xadrez tivesse 100 quadrados (10 por 10), em vez de 64 a quantidade de grãos teria pesado o mesmo que a Terra”, comparou o físico Carl Sagan, em Bilhões e Bilhões.

Essa história é uma boa analogia com a tragédia de 619 mil de mortos por covid-19 no Brasil, que parece não ser levada em conta pelo atual ministro da Saúde. Pazuello tinha a desculpa da disciplina militar (“ele manda, eu obedeço”). Queiroga, não. É um médico cujo juramento está sendo rasgado, porque se tornou apenas mais um áulico negacionista no alto escalão do governo.

Subnotificação

A vacinação em massa, que já atingiu 67,42% da população brasileira com duas doses ou dose única graças ao SUS, e a menor letalidade da nova variante ômicron vão evitar que o número de mortos se multiplique outra vez. Entretanto, cresce exponencialmente o número de novos casos de covid-19, inclusive entre os 37% já vacinados com três doses. A subnotificação está mascarando a verdadeira dimensão da quarta onda no Brasil. O grande problema é que os não vacinados estão correndo risco de vida. E o grande número de pacientes com influenza e/ou covid-19 já está impactando o sistema hospitalar.

A falta de empatia de Bolsonaro com as vítimas de covid-19 permanece a mesma: “Desconheço (o número de crianças mortas por covid-19), mas, com toda certeza, existe algum moleque que morreu em função de covid, mas que tinha algum problema de saúde grave ou tinha outra comorbidade”. Em dezembro, registrou-se que 2.625 crianças e adolescentes entre zero e 19 anos morreram de covid-19, desde o primeiro caso da doença no Brasil, em março de 2020. Para qualquer família, perder uma criança ou um adolescente é um trauma para o resto da vida. É muito antinatural os filhos morrerem antes dos pais.

Bolsonaro sabota a estratégia de imunização das crianças: “Você vai vacinar seu filho contra algo que, no jovem, por si só, a possibilidade de morrer é de quase zero? O que está por trás disso? Qual é o interesse da Anvisa por trás disso? Qual é o interesse das pessoas taradas por vacina? É pela sua vida? Pela sua saúde? Se fosse, estariam preocupados com outras doenças, e não estão. Não se deixe levar por propaganda”. O presidente da República é um péssimo exemplo para a saúde pública.

Correio Braziliense

Sergio Moro faz tour pelo Nordeste com objetivo de formar base eleitoral junto a ex-bolsonaristas




Sergio Moro reuniu-se com empresários em Campina Grande

Ex-ministro da Justiça estará na região até sábado (8) para articular campanha com ex-bolsonaristas. No entanto, presidenciável enfrenta desafios, uma vez que 63% da população local já declarou apoio a Lula.

Nesta quinta-feira (6), o ex-juiz e presidenciável, Sergio Moro (Podemos), chegou à Paraíba, no nordeste brasileiro, onde iniciará tour pelos estados brasileiros com o objetivo de articular palanques e buscar aliados para a sua campanha neste ano, segundo a Folha de São Paulo.

Moro concederá entrevistas para redes de rádio e de televisão locais e participará de encontros com políticos da região. Na agenda, estão cidades como João Pessoa, Cabedelo e Campina Grande, três municípios nos quais Bolsonaro saiu vitorioso em 2018.

Segundo a mídia, o ex-juiz terá no seu entorno um grupo de parlamentares que se elegeu para Câmara dos Deputados e Senado em 2018 na "onda bolsonarista", mas romperam ou se afastaram do presidente, Jair Bolsonaro (PL), ao longo do atual governo.

"Tudo isso faz parte de uma construção que está sendo feita com muito diálogo. Moro é uma pessoa equilibrada, inteligente e que tem um norte do que busca para o Brasil", afirma o deputado federal Julian Lemos (PSL), que foi coordenador da campanha de Bolsonaro no Nordeste em 2018.

À mídia, Lemos disse que Bolsonaro se revelou "a maior fraude eleitoral" da história política do país: "Ele decidiu negar tudo que falou e demonstrou ser uma pessoa incompetente para governar a nação", declarou.
 
No entanto, pode ser que o futuro candidato tenha dificuldade de fincar palanque na região, uma vez que o ex-presidente Lula tem 63% das intenções de votos no Nordeste contra 3% de Moro de acordo com a pesquisa do Ipec de dezembro divulgada pela IstoÉ.

Sputnik News

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Moro vai ao Nordeste e articula campanha com apoio de parlamentares ex-bolsonaristas

Por João Pedro Pitombo

Sergio Moro (Podemos), ex-juiz e pré-candidato à Presidência da República, desembarcou nesta quinta-feira (6) na Paraíba, onde inicia um périplo pelos estados brasileiros com o objetivo de articular palanques e buscar aliados para a sua campanha neste ano. Moro terá no seu entorno um grupo de parlamentares que se elegeu para Câmara dos Deputados e Senado em 2018 na onda bolsonarista, mas romperam ou se afastaram o presidente Jair Bolsonaro (PL) ao longo da atual legislatura.

O objetivo da visita é iniciar um diálogo com setores da centro-direita e da direita que apoiaram o presidente em 2018, mas estão arrependidos e buscam uma nova alternativa para a eleição presidencial deste ano.

MUITO DIÁLOGO – “Tudo isso faz parte de uma construção que está sendo feita com muito diálogo. Moro é uma pessoa equilibrada, inteligente e que tem um norte do que busca para o Brasil”, afirma o deputado federal Julian Lemos (PSL), que foi coordenador da campanha de Bolsonaro no Nordeste em 2018.

Lemos rompeu com Bolsonaro há dois anos e tem uma relação de rusgas com os filhos do presidente. Nesta quarta-feira (5) trocou farpas com o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) em uma rede social.

À Folha ele disse que Bolsonaro se revelou “a maior fraude eleitoral” da história política do país: “Ele decidiu negar tudo que falou e demonstrou ser uma pessoa incompetente para governar a nação”.

AGENDA INTENSA  – Sergio Moro cumprirá agendas até sábado (8) nas cidades de João Pessoa, Cabedelo e Campina Grande – três cidades onde Bolsonaro saiu vitorioso nas urnas em 2018. Ele dará entrevistas para redes de rádio e de televisão locais, participará de encontros com políticos da região.

Nesta quinta, em Campina Grande, cidade nordestina que historicamente impõe derrotas ao PT, ele teve um encontro com empresários, parte deles antigos apoiadores de Bolsonaro.

O primeiro compromisso em João Pessoa foi uma entrevista à rádio “98 FM Correio”. O ex-juiz reiterou o discurso de construção de uma alternativa a Lula e Bolsonaro. E classificou como “muito ruim” o governo Bolsonaro. “É um governo que não entregou o que prometeu. Prometeu combate a corrupção, o que você tem foi proteção à família [do presidente]. Prometeu crescimento econômico, o que você tem é estagnação. Prometeu que o PT não voltaria. Foi Bolsonaro que ressuscitou Lula e o PT. Se fosse um governo melhor, não haveria discussão sobre Lula e o PT”, disse.

HOSTILIDADES – Antes, ao desembarcar no aeroporto de João Pessoa, foi hostilizado por manifestantes que o chamaram de “juiz ladrão”, “traíra” e gritaram o nome de Bolsonaro.

A expectativa é que o ex-juiz visite outros estados do Nordeste nos próximos meses com o objetivo de ganhar musculatura em uma região onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem grande capilaridade e o presidente Jair Bolsonaro tem alta rejeição.

Apesar das investidas na região, Moro enfrenta dificuldades para firmar palanques competitivos no Nordeste. ​Na Bahia, por exemplo, O Podemos faz parte da base aliada do governador Rui Costa (PT) e alguns filiados devem apoiar o senador Jaques Wagner (PT) para o governo do estado.

HÁ PROBLEMAS – A União Brasil, partido que surgirá da fusão entre PSL e DEM, negocia nacionalmente uma possível aliança com Moro. Mas na Bahia, o pré-candidato do partido ao Governo da Bahia, ACM Neto, quer distância da disputa nacional e evitará subir no mesmo palanque de um candidato que se opõe frontalmente ao ex-presidente Lula.

A principal aliada de Moro no estado é a deputada federal Dayane Pimentel (PSL), que também fez parte da tropa de choque de Bolsonaro no Nordeste em 2018.

Aliados de Moro no Nordeste, contudo, minimizam as dificuldades na formação de palanques: “Sergio Moro é um homem de conversa. Eu diria até que ele está mais adiantado do que Bolsonaro estava em sua pré-campanha em 2018”, afirma o deputado Julian Lemos.

Folha de São Paulo / Tribuna da Internet

Viajando na maionese

 




Ômicron, Delta, influenza, ‘flurona’, enchentes, rebelião do funcionalismo. E daí?, dirá Bolsonaro

Por Eliane Cantanhêde (foto)

É uma provocação barata e desnecessária do presidente Jair Bolsonaro sair de um hospital de São Paulo e no mesmo dia pegar outro voo para ir a um jogo de futebol de cantores sertanejos em Goiás. Dos jet skis, das férias do Natal, das férias do ano novo e da nova obstrução direto para a campanha eleitoral. Governar, que é bom, necas.

E que tal mandar interromper as férias do seu médico no Caribe para em seguida cair num jogo de futebol, enquanto inundações e enchentes da Bahia se estendem por Maranhão, Tocantins, Paraná, Minas e a própria Santa Catarina das férias presidenciais, ameaçando a vida, as casas e os bens de milhares de brasileiros?

Enquanto isso, também, a Ômicron já matou o primeiro brasileiro, em Goiás, e a covid corre solta mundo afora e acende o sinal vermelho no Rio, São Paulo, Minas, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, além do DF, onde o número de casos deu um salto de 900% do Natal aos primeiros dias de 2022.

Como os brasileiros não deram ouvidos a Bolsonaro e se vacinaram, a contaminação é alta e o índice de mortes, baixo. Tudo isso, porém, está embolado com gripe comum, dengue, até a “flurona”, contaminação por covid e influenza, que confunde a população, atordoa os médicos, pressiona o sistema de saúde.

E o ministro da Saúde? Levou três semanas para se manifestar sobre a autorização da Anvisa para vacinar crianças de 5 a 11 anos. E que manifestação! No conteúdo: menos de 4 milhões de doses para 20 milhões de crianças em janeiro, e as aulas começam em fevereiro. Antes de encomendar as doses, é preciso apurar a “demanda”, ou o quanto os pais querem vacinar seus filhos.

Na forma: em vez de conclamar a população para vacinar as crianças e liderar a campanha pró-vacina, segura e necessária para as crianças e para estancar a pandemia, Marcelo Queiroga e seus assessores demonstraram desconforto e resignação diante do inevitável e da pressão da opinião pública.

E, enquanto Bolsonaro volta das férias e do hospital para a campanha, o funcionalismo se rebela contra o aumento só de policiais, ameaçando paralisação nacional dia 18. E o efeito já começou, com dois navios com capacidade de 17,5 mil toneladas de trigo cada no Porto de Santos e 800 caminhões em Roraima. O estopim foi a Receita, mas se espalha pelas demais carreiras de Estado, finanças, segurança, diplomacia e MP...

Assim, 2022 começa com Delta, Ômicron, crianças sem vacina, influenza, flurona, inundações, rebelião de funcionários e crescimento zero, inflação, juros altos, desemprego e fome. E o presidente? Ah! Viajando em jet ski, carro do Beto Carrero... e na maionese. “E daí?”, dirá Jair Bolsonaro.

O Estado de São Paulo

A Rússia de Putin, nova terra da liberdade.




Na Rússia de Putin, homem ainda é homem e mulher é mulher. 

Por Bruna Frascolla 

Pena que a Rússia é fria, distante e tem uma língua difícil de aprender. Não fosse isso, eu iria para lá gozar da liberdades elementares sob o governo de Putin. Não sendo eu uma homossexual, nem uma adepta de Navalny, muito menos uma militante identitária, a minha vida de escritora estaria melhor lá do que cá. E certamente está melhor cá do que na Inglaterra.

Vejam vocês que, se eu fosse uma dona de casa inglesa e tuitasse – não escrevesse um artigo em jornal, mas tuitasse – que homens têm pênis e mulheres têm vagina, a polícia viria atrás de mim para combater esse crime de ódio cometido na internet. Praticamente o “flagrante perpétuo” aplicado ao cidadão comum. Pois bem: ao menos em 2019, já eram duas as mulheres visitadas pela polícia por causa de comentários transfóbicos. Cito um parágrafo do Telegraph: “A defensora dos direitos das mulheres Kellie-Jay Keen-Minshull foi interrogada por duas forças policiais distintas após ser acusada de cometer crime de ódio por Susie Green, que faz caridade ajudando crianças transgênero.” Que caridade!

O perfil do ativista

Nesse ponto, o leitor estará se perguntando se Susie Green é homem ou mulher e eu apostando minhas fichas em autoginecófilo. Antes de a mania trans assolar as meninas, transexuais quase sempre eram homens, e dividiam-se em dois tipos bem diferentes: o gay que quer ser mulher e o autoginecófilo, o homem que tem tara por si mesmo fantasiado de mulher. Essa diferenciação foi descoberta pelo sexólogo Ray Blanchard. O autoginecófilo não se sente atraído por homens, e não raro começa a fantasiar consigo próprio vestido de mulher na meia idade, quando já tem mulher e filhos. Os ativistas mais estridentes do movimento trans são os autoginecófilos. Assim, continuemos com o Telegraph: “As notícias chegam depois de vir à tona o fato de que a devota católica Caroline Farrow ter sido convidada pela polícia de Surrey a comparecer a um interrogatório por ter supostamente usado o pronome errado para se referir à filha transgênero da Sr.ª Green.”

Aqui descobrimos que a Sr.ª Green tem uma filha trans. Será um autoginecófilo que quer transicionar o filho ou uma Medeia? Outro tipo ativista frequente é o das mães que brigaram com o homem e resolvem descontar no filho. Com uns cliques conseguimos encontrar a Sr.ª Green contando sua história. Ela era casada, tinha um filho efeminado que queria ter nascido menina e o pai não o aceitava. Então em vez de aceitarem o filho gay ficaram com uma filha trans. É a lógica dos aiatolás iranianos, que matam gays e aceitam trans.

A mãe leva a filha a uma clínica de gênero em Tavistock (que mais tarde seria processada pela lésbica transicionada aos 16 anos Keira Bell) que, para a surpresa de ninguém, recomendou a transição de sexo. A mãe aceitou primeiro. O pai acabou aceitando também. Ninguém teve de lidar com a ideia de que o filho talvez fosse apenas um rapaz muito efeminado que sente atração sexual só pelo mesmo sexo; em vez disso, era uma mulher presa no corpo de um homem. Corpo a ser castrado na adolescência e medicado com hormônios artificiais pelo resto da vida. Por aí se vê que, se Alan Turing nascesse na Inglaterra de hoje, ia ser castrado antes de chegar à vida adulta.

A criança começa a transição social – isto é, a andar de vestido com um nome feminino – e tem sua primeira overdose. Sinal de que há muita transfobia no mundo e o tratamento precisa continuar. O NHS tinha que comprar bloqueadores hormonais para interromper a puberdade! O bloqueador é o mesmo remédio usado para a castração química de pedófilos.

Em crianças, além de impedir o surgimento da libido, causa osteoporose no longo prazo. Castrado quimicamente, o menino teve sete overdoses em três anos, o que só mostra como a transfobia é um problema terrível mesmo. O menino foi finalmente capado aos 16 anos e hoje tem peitos. Depois de tudo isso, a mãe diz que a “filha” está feliz. Eu já perguntaria se toma antidepressivo, mas o povo cheio de IDH acha normal tomar antidepressivo. E ainda enchem a cara de pó, às expensas da vida de sul-americanos.

Liberdade na Rússia para dizer o óbvio

Então, continuando a historinha do Telegraph, o menininho efeminado não recebeu castração química cedo o bastante, a católica chamou pelo pronome masculino e a mãe louca chamou a polícia. A ativista ficou do lado da católica, e isso lhe valeu duas visitas da polícia.

A mesma ativista protagonizara outra polêmica pública na Inglaterra. Em 2018 ela alugou um outdoor para anunciar a definição de mulher do dicionário: “fêmea humana adulta”. O outdoor foi denunciado à polícia e retirado por discurso de ódio.

Na internet, em sites alternativos, há alusões a uma prisão em 2020 de Kellie-Jay Keen-Minshull, também conhecida por seu pseudônimo Posie Parker. O certo é que as Big Techs ficaram ao lado dos ativistas trans, e todas as contas dela em redes sociais foram excluídas.

Por outro lado, na Rússia, se você quiser dizer que homem é homem e mulher é mulher – uma verdade elementar para a esmagadora maioria de qualquer país ocidental –, o chefe do seu Estado está ao seu lado. Putin defende que mulheres são diferentes de homens e o esporte feminino vai acabar caso os homens possam se declarar mulheres. Também tem o bom-senso de dizer publicamente e em inglês que mentir às crianças dizendo que elas podem escolher o “gênero” é quase um crime contra a humanidade. Mentir talvez seja “quase” esse crime; castrá-las sem dúvida é.

Last, but not least, vale frisar que o ativismo de Posie Parker na Inglaterra é necessário por questões tão elementares quanto evitar estupro. No ex-reino de liberdades, se um estuprador se declarar mulher, ele vai para o presídio feminino. Onde estupra as presas. Aconteceu pelo menos um caso assim em 2018. Se não aconteceu o mesmo no Brasil, é porque o STF não vem sendo tão respeitado quanto deve, ou então porque o PCC impediu. Afinal, Barroso já decidiu que a autodeclaração é suficiente para o Estado reconhecer alguém como trans.

No frigir dos ovos, ativistas como Posie Parker estão sob constante ameaça de estupro, já que podem ser presas por discurso de ódio e a lei britânica coloca qualquer hooligan em presídio feminino, desde que se autodeclare mulher. Acho que nem a Arábia Saudita faz isso com as mulheres.

Passaporte vacinal

A acreditarmos na AFP, Putin se recusa a implementar a vacinação compulsória, aconselha os cidadãos a ficarem longe das vacinas da AztraZeneca e da Pfizer, e não impôs lockdown à sua população.

O gancho para escrever este texto hoje foi a notícia de que a Rússia está multando o Facebook e o Google em milhões de dólares por terem em suas páginas publicações que incitam ódio religioso e promovem organizações terroristas. Por mais defensores que sejamos das liberdades de expressão, é fácil lembrar que qualquer terrorista islâmico pode ter uma conta no Twitter, mas o Presidente Trump não. Aqui mesmo no Brasil, o Youtube, do Google, derruba médicos que falam de ivermectina, mas deixam funk proibidão comer solto. O Twitter também permitia que o Comando Vermelho anunciasse drogas em paz, enquanto caçava “discurso de ódio”. (No dia seguinte a esta reportagem da Gazeta do Povo, o Twitter apagou as contas.)

Aí fica a pergunta: se as Big Techs resolvem que elas não são plataformas que publicam o conteúdo alheio, mas sim editoras responsáveis pelo que sai, por que os chefes de Estado não as responsabilizam penalmente pelos tuítes do Comando Vermelho ou do Hezbollah? Só Putin para enquadrá-las.

Nos Estados Unidos, uma revista científica fez uma humilde cartinha para o Tio Zuckerberg reclamando da censura. Por que isso não é um assunto de Estado? As Big Techs censuram e pautam as democracias com a força da grana.

Gosto de democracia. Não tenho a Rússia como ideal. Mas precisamos concordar que a vida está mais livre sob um ditador clássico do que sob os escombros da democracia ocidental.

Gazeta do Povo (PR)

Biden: Trump ainda é uma ameaça à democracia americana




Biden acusou Trump de espalhar uma rede de mentiras sobre as eleições presidenciais de 2020

Por Lucas de Vitta 

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, responsabilizou seu antecessor no cargo, Donald Trump, pelo ataque ao Congresso que chocou o mundo há um ano. Em um discurso para lembrar o aniversário da invasão, o democrata afirmou que o republicano continua representando uma ameaça à democracia e que o país precisa encarar esta realidade para evitar uma tragédia similar no futuro.

Sem citar Trump pelo nome, Biden acusou o ex-presidente de espalhar uma rede de mentiras sobre as eleições presidenciais de 2020 por simplesmente não aceitar perder, dificultando a transição de poder, algo inédito na história da democracia americana. Para ele, seu adversário incentivou que uma “insurreição armada” invadisse o Congresso para beneficiar seus próprios interesses e colocar Washington sob cerco.

“Aqui está a verdade: o ex-presidente dos EUA criou e espalhou uma teia de mentiras sobre as eleições de 2020”, disse Biden. “Ele fez isso porque valoriza mais o poder do que os princípios, porque vê seu próprio interesse como mais importante do que o interesse de seu país e porque seu ego ferido é mais importante do que nossa democracia ou nossa Constituição. Ele não consegue aceitar que perdeu.”

"Eu não busquei esta luta trazida a este Capitólio há um ano, mas também não irei recuar", continuou Biden. "Vou defender este país e não permitirei que ninguém coloque um punhal na garganta da democracia."

Biden foi o segundo a discursar em um evento organizado pelos democratas para marcar o aniversário dos ataques que deixaram cinco mortos e dezenas de feridos após uma turba incentivada por Trump ter invadido o Congresso para evitar a certificação da vitória do democrata nas eleições.

Mas, em vez de mostrar como os EUA se uniram para superar o trauma das cenas registradas em 6 de janeiro de 2021, o evento indica como o país permanece dividido. Líderes republicanos decidiram não participar da celebração, alguns deles temendo irritar Trump, que continua sendo uma das vozes mais importantes dentro do partido.

Antes de Biden, a vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, afirmou o espírito americano está sendo testado e que os extremistas que invadiram os corredores do Congresso não visavam apenas deputados e senadores. “O que eles estavam atacando eram as instituições, os valores, os ideais que gerações de americanos lutaram e derramaram sangue para estabelecer e defender”, disse ela.

Trump foi alvo de um processo de impeachment por causa do ataque, mas acabou sendo absolvido no Senado, onde apenas sete republicanos se uniram aos democratas para votar a favor do afastamento do agora ex-presidente. Mais de 700 pessoas de vários Estados americanos foram indiciadas por participação nos ataques.

O ex-presidente não foi acusado criminalmente pela invasão, mas está envolvido em uma batalha legal com uma comissão do Congresso que investiga o ataque de 6 de janeiro. Trump tenta impedir que registros de seus últimos dias de governo sejam divulgados publicamente e viu Steve Bannon, um de seus principais aliados, ser indiciado por desacato por não cumprir uma intimidação emitida pelo comitê parlamentar.

Nas críticas mais contundentes desde que assumiu o cargo, Biden afirmou que Trump realizou um ataque “não democrático” e “não americano” à legitimidade do sistema eleitoral, reiterando que não há qualquer evidência de que a votação foi fraudada. Ele também acusou o ex-presidente de não agir enquanto seus apoiadores agrediam a polícia do Congresso e pediu que os americanos se unam para evitar que esse tipo de ataque se repita no futuro.

“Neste momento, devemos decidir que tipo de país seremos”, disse Biden. “Seremos um país que aceita a violência política como norma? Seremos um país onde permitiremos que funcionários eleitorais partidários revertam a vontade legalmente expressa do povo? Seremos um país que não vive à luz da verdade, mas à sombra das mentiras? Não podemos nos permitir ser esse tipo de país.”

Trump havia anunciado que concederia uma entrevista coletiva hoje para falar sobre a invasão do Congresso e rebater eventuais acusações feitas pelos democratas. No entanto, o ex-presidente decidiu cancelar o evento, argumentando que falaria sobre “tópicos importantes” em um comício marcado para o final deste mês no Arizona.

Depois do discurso de Biden, o republicano divulgou um comunicado criticando o democrata. Para Trump, o discurso de hoje é um "teatro político" e uma "distração para o fato de Biden ter falhado completa e totalmente".

Valor Econômico

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