domingo, setembro 12, 2021

Parecer considera inconstitucional a MP e Pacheco devolverá seu texto ao Planalto

Publicado em 12 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

MP das Fake News deverá ser devolvida ao Planalto - TeleSíntese

Rodrigo Pacheco tinha avisado que a MP era inconstitucional

Júlio Mosquéra
TV Globo — Brasília

A Advocacia do Senado Federal prepara um parecer jurídico para afirmar que é inconstitucional a medida provisória assinada por Jair Bolsonaro que modifica o Marco Civil da Internet – e, na prática, limita a remoção de fake news, desinformação e conteúdos de ódio em redes sociais.

A MP foi publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira (6), véspera de feriado, e já está em vigor. Segundo apurou a TV Globo, o parecer dos advogados do Senado deve ser usado pelo presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para embasar a devolução do texto ao Planalto.

SEM URGÊNCIA – No documento, a Advocacia do Senado deve apontar que a MP desrespeita os requisitos fundamentais previstos na Constituição, incluindo os de relevância e urgência. Segundo apurou a TV Globo, Pacheco disse a senadores que deve devolver o texto a Bolsonaro na próxima terça (14).

Quando uma MP é devolvida à presidência da República, as regras perdem a validade imediatamente. Em junho de 2020, por exemplo, o então presidente do Congresso Davi Alcolumbre (DEM-AP) devolveu a Bolsonaro uma medida provisória que mexia nos critérios de nomeação de reitores.

A medida provisória altera o Marco Civil da Internet, aprovado pelo Congresso Nacional em 2014 para estabelecer direitos e deveres para os usuários das redes no Brasil – nos moldes adotados pelos Estados Unidos e pela Europa, por exemplo.

ACEITA FAKE NEWS – Na prática, as mudanças propostas por Bolsonaro limitam a remoção de conteúdos publicados nas redes sociais. O texto estabelece que a exclusão, a suspensão ou o cancelamento de contas e perfis do usuário só poderá ser realizado com justa causa e motivação.

As hipóteses de “justa causa” estão descritas na MP e incluem publicações com nudez, apologia ao consumo de drogas e estímulo a violência contra animais. Mas não preveem a remoção de conteúdos que desinformem e propaguem informações falsas.

A MP prevê, ainda, que empresas que desrespeitem essas orientações sejam punidas com multa e suspensão dos serviços.

EFEITO ABSURDO – Se a medida provisória for mantida, as redes sociais também ficarão proibidas de adotar critérios de moderação que implique censura de ordem política, ideológica, científica, artística ou religiosa.

Em sete ações, seis partidos (PT, PSB, PSDB, Novo, PDT e Solidariedade) e o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) pediram ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão dos efeitos da medida provisória.

Relatora das ações, a ministra Rosa Weber deu 48 horas ao governo nesta quinta para o envio de explicações sobre as mudanças promovidas pela MP.


Querem fazer o país voltar a ser devedor das comunidades indígenas’, alerta Ayres Britto

 


Bolsonaro se expõe a processos de impeachment, diz Ayres Britto

“Não há nação indígena; nação, só o Brasil”, diz Ayres Britto

Weslley Galzo
Estadâo

As sessões de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da tese do marco temporal para ocupação de terras indígenas foram marcadas por citações recorrentes ao caso Raposa Serra do Sol, cujo acórdão foi responsável por reacender a discussão sobre a existência, ou não, de data-limite para que as comunidades indígenas reivindiquem a posse sobre terras.

Embora a decisão naquele momento, em 2009, tenha sido favorável aos povos originários, os representantes de setores agropecuaristas foram os que mais fizeram referências ao caso, com citações diretas ao voto do ministro-relator, Carlos Ayres Britto, nas sustentações orais em defesa do marco temporal.

Os argumentos do ministro defendem a existência de marco temporal na data da promulgação da Constituição da República, em 5 de outubro de 1988, porém, com uma série de salvaguardas favoráveis aos indígenas.

O senhor falou que o marco coloca “uma pá de cal nas intermináveis discussões sobre qualquer outra referência temporal de ocupação de área indígena”. O que isso quer dizer de forma objetiva?
De forma objetiva, para que a questão indígena não fosse uma questão sempre em aberto, gerando conflitos, vias de fato e violência, decidimos aceitar que o marco temporal foi esse. Quando a Constituição disse sobre “as terras que ocupam”, nós nos louvamos na semântica da Constituição para chegarmos a uma conclusão, com as salvaguardas que eu estabeleci em favor dos índios. Se eles não estivessem no dia 5 de outubro na ocupação de determinada área por impossibilidade física, por efeito de esbulho, ameaça, violência e coação. A vontade interpretativa que nós respiramos foi essa de enxergar na Constituição uma vontade firme, objetiva, forte, de favorecimento das comunidades indígenas.

O senhor avalia que a sua preleção durante o julgamento foi deturpada para atender a interesses pessoais?
Eu recebo isso com estranheza, porque o que nós fizemos ali, por um placar expressivo, foi reconhecer a dignidade das nossas populações indígenas, com aquelas salvaguardas que fizemos. A demarcação seria sobre formato contínuo, não tipo queijo suíço, não fragmentado. Era preciso evitar o etnocídio. Tivemos o cuidado de dizer que não há povos indígenas, embora a imprensa use essa expressão, porque só há um povo brasileiro. A Constituição, quando fala dos índios, fala em comunidades e populações indígenas, não há nações indígenas, a nação é brasileira. A Constituição não falou de territórios indígenas, falou de terras, que é uma expressão sociocultural, produtiva.

São terras ou territórios?
A palavra terras tem um significado sociocultural antropológico, ao passo que território tem um significado político e só há um território, que é o brasileiro. Eu tive esses cuidados todos em favor dos índios, porque o propósito da Constituição não foi substituir a cultura do índio pela do branco, foi somar uma à outra. Tudo para prestigiar as etnias indígenas. Tudo que foi feito ali (Raposa Serra do Sol), tirando essa questão do marco temporal, que causa dúvida, foi feito numa perspectiva de interpretar a Constituição como efetivamente ela deve ser interpretada: em favor das comunidades e populações indígenas.

O senhor avalia que houve alguma forma de imprecisão ao citar o marco temporal da ocupação?
Eu não diria má-fé, ou deturpação, eu diria que estão dando uma interpretação equivocada, indevidamente reducionista das coisas. Os anos passam e querem inverter as coisas, desfavorecer as comunidades indígenas, isso é reducionismo tecnicamente equivocado. É uma postura interpretativa na contramão da Constituição e fora do ambiente em que nós decidimos. O Brasil pagou uma dívida histórica, por intermédio do Supremo, e agora querem estornar a dívida para fazer o Brasil voltar a ser devedor das comunidades indígenas.

Qual foi o entendimento concreto daquela decisão do caso Raposa?
Nós entendemos que ali havia um limite semântico que não podia ser transposto: o tempo do verbo ocupar. Porém, eu tive o cuidado e fui seguido pelos ministros, eles também foram muito cuidadosos, de dizer que o marco temporal do dia 5 de outubro de 1988 não seria considerado – seria afastado – naquelas situações em que os índios não se encontrassem em uma determinada área geográfica por impossibilidade, porque estavam escorraçados, coagidos, ameaçados, foram expulsos. Se ficasse comprovado esse estado de coisas, o marco temporal não prevaleceria. Nós dissemos isso no meu voto e no acordão também.

Qual a opinião do senhor sobre um eventual reconhecimento do marco temporal?
Quando o Supremo vai decidir uma questão, eu não falo sobre essa questão, quanto mais naquelas questões nas quais eu fui relator e participei delas. Não me sinto muito à vontade para falar sobre isso.

Na época, o senhor falou que estava se atendo a uma questão semântica do verbo ocupar…
Não foi apenas. A semântica nos ajudou a entender o significado do marco temporal.

No voto, o senhor fala em marco temporal da ocupação, trecho que tem sido utilizado por agropecuaristas como argumento, mas, também, em marco da tradicionalidade da ocupação. Qual das duas leituras deve prevalecer?
Às vezes, pela questão da tradicionalidade, é possível interpretar a extensão territorial da posse dos indígenas ampliativamente, e não de modo reducionista, para homenagear a tradicionalidade como cultural. Essa passagem do voto foi para conferir à dimensão geográfica da ocupação um sentido extensivo, e não reducionista, foi para favorecer os índios também. Nós dissemos isso.

Então, apesar de a semântica ser importante e ser o que balizou o voto do senhor e de outros ministros, o verbo “ocupar”, no tempo presente não é restritivo?
Não é restritivo. A interpretação que se faz quanto à delimitação da extensão territorial fundiária é sempre em sentido ampliativo, e não reducionista.

Parecer diz que MP de Bolsonaro é inconstitucional e Pacheco devolverá texto ao Planalto

Publicado em 12 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Perigos das fake news

Charge do Duke (O Tempo)

Júlio Mosquéra
TV Globo — Brasília

A Advocacia do Senado Federal prepara um parecer jurídico para afirmar que é inconstitucional a medida provisória assinada por Jair Bolsonaro que modifica o Marco Civil da Internet – e, na prática, limita a remoção de fake news, desinformação e conteúdos de ódio em redes sociais.

A MP foi publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira (6), véspera de feriado, e já está em vigor. Segundo apurou a TV Globo, o parecer dos advogados do Senado deve ser usado pelo presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para embasar a devolução do texto ao Planalto.

SEM URGÊNCIA – No documento, a Advocacia do Senado deve apontar que a MP desrespeita os requisitos fundamentais previstos na Constituição, incluindo os de relevância e urgência. Segundo apurou a TV Globo, Pacheco disse a senadores que deve devolver o texto a Bolsonaro na próxima terça (14).

Quando uma MP é devolvida à presidência da República, as regras perdem a validade imediatamente. Em junho de 2020, por exemplo, o então presidente do Congresso Davi Alcolumbre (DEM-AP) devolveu a Bolsonaro uma medida provisória que mexia nos critérios de nomeação de reitores.

A medida provisória altera o Marco Civil da Internet, aprovado pelo Congresso Nacional em 2014 para estabelecer direitos e deveres para os usuários das redes no Brasil – nos moldes adotados pelos Estados Unidos e pela Europa, por exemplo.

ACEITA FAKE NEWS – Na prática, as mudanças propostas por Bolsonaro limitam a remoção de conteúdos publicados nas redes sociais. O texto estabelece que a exclusão, a suspensão ou o cancelamento de contas e perfis do usuário só poderá ser realizado com justa causa e motivação.

As hipóteses de “justa causa” estão descritas na MP e incluem publicações com nudez, apologia ao consumo de drogas e estímulo a violência contra animais. Mas não preveem a remoção de conteúdos que desinformem e propaguem informações falsas.

A MP prevê, ainda, que empresas que desrespeitem essas orientações sejam punidas com multa e suspensão dos serviços.

EFEITO ABSURDO – Se a medida provisória for mantida, as redes sociais também ficarão proibidas de adotar critérios de moderação que implique censura de ordem política, ideológica, científica, artística ou religiosa.

Em sete ações, seis partidos (PT, PSB, PSDB, Novo, PDT e Solidariedade) e o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) pediram ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão dos efeitos da medida provisória.

Relatora das ações, a ministra Rosa Weber deu 48 horas ao governo nesta quinta para o envio de explicações sobre as mudanças promovidas pela MP.

Saiba onde vão ser os protestos contra Bolsonaro neste domingo (12/9)

 




Ato anti-Bolsonaro durante manifestação do 'Grito dos Excluídos', em Belo Horizonte, em 7 de setembro

Manifestações contra o presidente devem ocorrer em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis e outras cidades

Por Déborah Lima

Mesmo após as manifestações contra Bolsonaro durante o “Grito dos Excluídos” no feriado de 7 de setembro em Belo Horizonte, uma frente ampla organiza mais um ato contra o presidente na capital mineira.

Os atos foram marcados para este domingo (12/9) em todo o país. Em Belo Horizonte, o encontro ocorre a partir das 10h na Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de BH.

Os atos são organizados por integrantes de partidos como Rede Sustentabilidade, PDT, Cidadania, PSB e PC do B e representantes dos movimentos Acredito, Livres e MBL para pedir o impeachment do chefe do Executivo.

Apesar de receber críticas de esquerdistas, o objetivo da “Frente Ampla” é atrair pessoas, da esquerda e da direita, que querem que o presidente da República deixe o cargo.

Confira as cidades com manifestações confirmadas:

São Paulo
Masp - Av. Paulista - 14h

Rio de Janeiro
Copacabana - Posto 5 - 10h

Brasília
Esplanada dos Ministérios - 14h

Belo Horizonte
Praça da Liberdade - 10h

Fortaleza
Praça Portugal - 15h

Belém
Av. Doca de Souza Franco - 16h

Florianópolis
Praça XV de Novembro - 14h

Recife
Marco Zero - 13h

São Luís
Praça do Pescador/Litorânea - 9h

Goiânia
Em frente a Polícia Federal - 15h

Teresina
Ponte Estaiada - Av. Raul Lopes - 16h

João Pessoa
Largo da Gameleira - Tambaú - 15h

Porto Alegre
Passarela da Goethe - 15h

Curitiba
Boca Maldita - 15h

Vitória
Praça do Papa, Hortomercado - 9h30

Estadão / Estado de Minas

Bolsonaro teme ser preso

 



Por Pablo Ortellado (foto)

No discurso no 7 de Setembro na Avenida Paulista, Bolsonaro repetiu que vê três alternativas para o futuro: ser preso, ser morto ou conseguir a vitória. Podemos pensar que se trata de mais um arroubo retórico do presidente, mas temos motivo para supor que ele realmente acredita que seu horizonte está limitado a esses três cenários. E, se realmente teme ser preso, Bolsonaro não passará pacificamente o poder ao vencedor das eleições de 2022.

Alguns otimistas acreditam que uma boa gestão das crises causadas pelo presidente poderá nos conduzir até janeiro de 2023 sem maiores traumas. De crise em crise, Bolsonaro seria contido, ora pelo Congresso, ora pelo STF, até ser obrigado a reconhecer uma derrota eleitoral, ainda que tacitamente, como fez o presidente americano Donald Trump. Este não aceitou o resultado das urnas e afirmou até o final que as eleições americanas foram fraudadas, mas fez as malas e saiu pacificamente da Casa Branca.

Há, porém, uma diferença importante entre a situação de Trump e a de Bolsonaro. Este teme — e com razão — ser preso ao sair do Palácio do Planalto.

Trump também tinha problemas com a Justiça, acusado de ter compactuado com a interferência russa nas eleições de 2016. Mas a gravidade das acusações e a força das evidências contra Bolsonaro não se comparam às que havia contra Trump.

A CPI tem apontado que Bolsonaro será acusado de ter deliberadamente atrasado a compra de imunizantes dos melhores fornecedores para tentar comprar de vigaristas vacinas de qualidade inferior, com o único propósito de arrecadar propina. Milhares de pessoas podem ter morrido pelo atraso.

Seus filhos também podem ser presos. A investigação das rachadinhas avança, e há evidências robustas do desvio de parte do salário de assessores-fantasmas para os filhos do presidente. Sem o controle do Executivo, Bolsonaro não conseguirá atrasar as investigações para garantir que seus filhos saiam impunes.

O horizonte de ser preso assusta Bolsonaro. Quando diz que suas duas outras opções são vencer ou morrer, está dizendo que poderá arriscar a vida para permanecer no poder e evitar que sua família seja presa por corrupção.

Ele vem desenhando pouco a pouco o mapa de sua ação desesperada. Se perder as eleições, alegará fraude nas urnas eletrônicas, militantes bolsonaristas tomarão as ruas das cidades armados, caminhoneiros radicalizados interromperão o fornecimento de mercadorias, e PMs se amotinarão nos estados.

Uma ação desse tipo não tem muita chance de prosperar. Mas um ator político assustado, com medo de ser preso por um longo período, pode considerar que vale a pena arriscar.

Não devemos apostar na hipótese otimista de que o presidente continuará sendo contido e entregará pacificamente o poder se perder as eleições. Se a passagem do poder será traumática em qualquer cenário, talvez seja melhor perseguir uma transição imediata, via impeachment, antes que Bolsonaro consiga se organizar melhor para um golpe de Estado.

O Globo

A volta do cipó

 



O STF está em estado de alerta máximo e mobilizado para reagir com algo mais que palavras duras à escalada de provocações do presidente da República

Por Dora Kramer (foto)

Mais que preocupado, o Supremo Tribunal Federal está em estado de alerta máximo e mobilizado para reagir com algo mais que palavras duras à escalada de provocações do presidente da República daqui até as eleições de 2022. Afrontas agravadas pelos discursos do 7 de Setembro.

No radar do tribunal, unido como nunca esteve por obra das agressões de Jair Bolsonaro, está a hipótese de tomar a iniciativa de enviar à Câmara, com todo o seu peso institucional e sem passar pela Procuradoria-Geral da República, um pedido de impeachment contra o presidente se ele concretizar as ameaças de não cumprir decisões judiciais.

Bolsonaro fez essa ameaça de duas formas: ao indicar em declarações públicas que pode atuar fora dos limites da Constituição “se for necessário” e por meio de recados que há algum tempo vem fazendo aos ministros. Daí a convicção da maioria do STF sobre a impossibilidade de ocorrer um recuo do Palácio do Planalto rumo à moderação. Ao contrário, a expectativa é de exacerbação crescente.

Com apoio do colegiado, o presidente do STF, Luiz Fux, já decidiu que não dará mais um passo na direção do diálogo. Se qualquer outra autoridade insistir na proposta de reabrir um canal de conversa, Fux não rejeitará liminarmente, mas vai impor duas condições.

Primeira, que cessem as agressões e, segunda, que os termos do armistício sejam respeitados por Bolsonaro. Em caso de quebra do eventual acordo, a beligerância de um lado teria como resposta a mão firme do estado de direito. No entendimento estabelecido nas internas do Supremo, o presidente da República precisará produzir prova material de que compreende o sentido da expressão “esta­do de direito”.

Ela significa que o Judiciário é o único autorizado pela Constituição a reformar (para não dizer, cassar) decisões dos outros dois poderes, porque a última palavra é a da lei. Isso num Estado comandado pelo Direito, onde o império é o da legalidade. Até agora, no entanto, o mandatário não dá sinal de que compreenda e muito menos indica que pretenda se submeter a esse preceito, tal a desfaçatez e a ligeireza com que fala em descumprir decisões oriundas do STF.

“O Supremo tem estratégia de reação montada para o caso de riscos institucionais leves, graves e gravíssimos”

Há quem considere que essa disposição presidencial possa levar a uma situação de ruptura decorrente de um impasse para o qual não haveria solução. Não é esse, contudo, o pensamento preponderante no Supremo.

Ali se entende que há saídas legais. Por exemplo, caso o Poder Executivo se recuse a atender a um pedido dos governadores de ajuda federal para execução de operação por Garantia da Lei e da Ordem (GLO) diante da ocorrência de tumultos prejudiciais à realização das eleições, o Judiciário e o Legislativo podem solicitar tais ações independentemente da vontade do Planalto.

A hipótese ainda mais gravosa seria a de o presidente da República materializar as ameaças de reagir ao cumprimento de decisões da Corte. Bolsonaro já disse que faria isso. Seria coisa inédita na República. Desde que a República se entendeu por democrática, nenhum presidente envolvido em situações periclitantes levou adiante algo parecido, justamente porque a Constituição dá ao Direito a prerrogativa da palavra final.

Seria uma situação delicada que levaria o presidente da Câmara, Arthur Lira, a um beco sem saída. Mesmo o Supremo propondo, a decisão final ainda cabe aos deputados, e a prerrogativa de levar ou não a questão ao plenário continua sendo do presidente da Casa, onde hoje se acumulam mais de 100 pedidos.

Só que uma coisa é ignorar solicitações de populares, juristas ou mesmo de entidades de classe. Outra bem diferente é ignorar um ofício do STF, naturalmente lastreado em robusta justificativa jurídica, solicitando a abertura de um processo de impeachment do presidente da República. Além do ineditismo do gesto, haveria o peso do signatário sobre a cabeça de Arthur Lira.

Enquanto Bolsonaro esbraveja no palanque, nos bastidores o Supremo se articula em seus canais de comunicação com o Legislativo, com a Polícia Federal e com os comandos das Forças Armadas na montagem das estratégias de precaução contra as arruaças de um presidente que tanto pode ser impedido no exercício do cargo quanto ser interditado como candidato.

Cumpre, ademais, sublinhar: os inquéritos contra o presidente em curso no STF e no TSE produzirão resultados — seja no todo ou em parte — no ano eleitoral de 2022.

Revista Veja

Entrevista: Antonio Lavareda: ‘Recuo não fará Poderes esquecerem o que passou’

 

SEP


Antonio Lavareda, sociólogo e cientista político 

‘Partidos e Judiciário vão aguardar para ver o quanto dura o Bolsonaro amante da Constituição’, afirma cientista político

Por Tulio Kruse 

O ápice da narrativa antidemocrática do presidente Jair Bolsonaro durante as manifestações do 7 de Setembro produziu um efeito imediato que, na avaliação do sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, pode levar à unidade de seus adversários contra o governo. Segundo ele, políticos e partidos, da esquerda à centrodireita, podem deixar de lado rivalidades para se concentrar na discussão do impeachment.

Para Lavareda, mesmo com o recuo de Bolsonaro – anteontem o presidente divulgou um comunicado em tom conciliador e elogiou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes –, essa mobilização deve permanecer. “Levantada a bandeira branca, os espíritos relaxam em certa medida. Mas não se imagine que os Poderes e os políticos vão simplesmente esquecer o que passou”, disse.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estadão.

• Como o sr. interpreta a nota do presidente na qual ele atribui suas declarações antidemocráticas ao “calor do momento”? 

Provavelmente, ele fez um balanço do 7 de Setembro e avaliou que deu tudo, ou quase tudo, diferente do pretendido. Deu errado. No dia seguinte, acordou com uma base política menor, com a hipótese do impeachment ganhando tamanho, com o Judiciário reagindo num tom excepcionalmente elevado e com agentes do mercado demonstrando na Bolsa e no dólar que havia sido desastroso para a economia. Resultado: vários passos atrás, com a ajuda decisiva do ex-presidente Michel Temer, cujo perfil avulta nas crises.

• Ainda é possível recuar? 

Recuos de atitudes como aquela, de agressão aos limites constitucionais, são sempre saudados. Recebidos com alívio. A República estava com a respiração em suspenso, mergulhada na incerteza. Foram 48 horas de muita tensão e ansiedade.

Mobilizou-se um notável conjunto de forças dispostas à resistência diante do que pareceu ao País uma clara ofensiva autocrática. Levantada a bandeira branca, os espíritos relaxam em certa medida. Mas não se imagine que os Poderes e os políticos vão simplesmente esquecer o que passou. Quanto ao presidente, lhe compete agora retomar a agenda do governo e pô-la em sintonia com os problemas e as crises reais que assolam o País. Partidos e Judiciário vão dar tempo ao tempo. Aguardar para ver o quanto dura o “Bolsonaro amante da Constituição”.

• O que os últimos dias apontam para as consequências da mobilização do 7 de Setembro? 

Independentemente do recuo, o ato inaugurou uma nova conjuntura. Isso envolve um reposicionamento dos atores, um certo reembaralhamento das cartas do jogo político. Nessa nova fase, pelo menos no seu início, o presidente começa politicamente enfraquecido. A radicalização não despertou o medo que supostamente intimidaria os outros atores político-institucionais. Pelo contrário. Temos agora um processo em que os Poderes e os atores político-partidários já estão elaborando estratégias para bloquear qualquer “passo adiante” do presidente. É preciso levar em conta que, quando o presidente diz que descumprirá decisões judiciais, ele está contribuindo de forma extremamente grave para a insegurança jurídica na sociedade. Tudo o que os agentes econômicos mais prezam é segurança jurídica. Se o presidente diz que pode não cumprir as leis, o que vai impedir um cidadão comum de seguir esse exemplo? Estaremos no terreno do salve-se quem puder.

• Há impactos dessa última semana para a disputa eleitoral? 

Em certa medida, o pronunciamento do presidente no 7 de Setembro interrompeu a campanha eleitoral dos outros candidatos. De repente, eles perceberam que não se trata de discutir posicionamento em relação a 2022, trata-se de tentar conter o ânimo do presidente. Ele ajuda a produzir unidade de atores que, até a véspera, estavam divididos naturalmente, discutindo e disputando apoio eleitoral, a viabilidade de uma terceira via, etc. Ele produziu uma aglutinação de forças políticas, contribuindo para unificar as oposições. O presidente fez soar a “corneta” da necessidade de unir as forças de oposição ou pelo menos diminuir o grau de conflito entre elas para poderem, unidas, resistirem a esse avanço do presidente.

• Apesar de organizada por bolsonaristas, a paralisação de caminhoneiros não teria efeitos negativos no próprio governo? 

Aparentemente, esse estímulo à paralisação não foi iniciativa do governo, mas do próprio presidente e do seu círculo mais próximo. Ao governo, não interessa um movimento que prospere em causar pânico na população, com filas nos postos de gasolina, nem o óbvio impacto de tudo isso na inflação. Tudo isso tumultua a atividade econômica, deprime o interesse dos investidores. Ou seja, prejudica a possibilidade de uma retomada econômica mais rápida. Isso pode interessar ao governo? Óbvio que não. Nesse momento, o projeto do presidente, do seu círculo próximo e de sua família descola dos objetivos do seu próprio governo. Agrava-se a crise político-institucional, que, por sua vez, evolui pelas mãos da crise econômica. Nessa ciranda, o País vai regredindo a olhos vistos.

O Estado de São Paulo

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