Publicado em 11 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

Charge de Montanaro (folha.uol.com.br)
Pedro do Coutto
A Câmara Federal rejeitou ontem por ampla margem de votos o projeto do retorno ao voto impresso, ideia fixa do presidente Jair Bolsonaro que procurou por todos os meios influenciar parlamentares e projetar um recurso aos militares contra a decisão democrática.
As urnas eletrônicas são confiáveis. Sobre o voto impresso, recordo aqui a minha experiência em 1982, no Jornal do Brasil, diante do artifício para preencher votos em branco e dar a vitória a Moreira Franco contra Leonel Brizola. Lembro sempre esse episódio e o coloco à disposição das novas gerações para que possam avaliar os riscos de uma gigantesca fraude eleitoral envolvendo a luta pelo governo do Estado do Rio de Janeiro.
PROCONSULT – O escândalo do Proconsult tentou transformar a derrota de Moreira Franco em vitória e a vitória de Brizola em derrota. Mas não conseguiram. A computação pela Proconsult baseava-se nas manifestações eleitorais nas áreas de classe média e rica, deixando para segundo plano os subúrbios do Rio e a Baixada Fluminense. Com isso, Moreira Franco surgia na frente.
Mas o Jornal do Brasil, no qual eu trabalhava, tinha instalado um sistema de acompanhamento das apurações com uma vantagem; eu havia acertado com Paulo Henrique Amorim, então redator chefe, e com Ronald de Carvalho, editor, a divisão por áreas eleitorais. Isso porque para se poder analisar eleições e computação tem que se definir a projeção algébrica dos votos.
VOTOS DO SUBÚRBIO – Por exemplo, na Cidade do Rio de Janeiro, os votos do subúrbio e da Zona Oeste eram mais numerosos que os votos do Leblon, Ipanema, São Conrado, Tijuca e Grajaú. Em Copacabana, como os eleitores já estariam se perguntando, a vantagem da classe média era pequena sobre as de menor renda. Isso porque Copacabana estava repleta de apartamentos conjugados e de apartamentos com número médio de moradores acima da média das casas de renda mais alta.
Existe um bairro no Rio, que focalizo no meu livro “O voto e o povo”, que era o termômetro da cidade. Por que isso? Simplesmente porque o Meier em um dos seus lados é um bairro de predominância de classe média, mas o outro tem o perfil característico de subúrbio. Esta explicação é fundamental.
PRESSÃO – Em 1982, de repente, a pressão aumentou, sentiu-se no ar. Se a fraude prevalecesse, teria que ser feita na sexta-feira, dia em que a hipótese foi colocada por mim; Paulo Henrique Amorim e Ronald de Carvalho. A conclusão foi uma só: a única possibilidade de fraude era preencher os votos em branco que estavam à disposição dos ladrões. Se não houvesse tal prática imunda o resultado real seria respeitado.
Como aliás aconteceu. Na edição de domingo, o JB publicou matéria minha na primeira página: “Brizola consolida vitória pela margem de 126 mil votos”. Deixo o episódio para aqueles que o incorporarem na memória ou então colocarem na história moderna do país. O episódio está no esgoto da história política estadual, mas o exemplo negativo serve como bússola para que se possa medir os riscos maiores contidos na apuração manual dos votos.
DESFILE MILITAR – A derrota fragorosa de Bolsonaro foi ampliada pelo desfile militar que marcou a manhã de ontem na Esplanada dos Ministérios. Para culminar, reapareceram os cartazes que pediam o golpe militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal.
O resultado da votação que entrou pela noite não surpreende, sobretudo porque o próprio Centrão, examinando-se friamente o panorama, não tinha interesse em dar a vitória a Jair Bolsonaro. Pelo contrário. Uma derrota mantém expectativas de negociação que não quero dizer que deem certo, mas que ficam no painel das tentativas do fisiologismo histórico. Política também é isso. Não adianta pensar-se em cenários irreais; temos que analisar o processo na base da realidade que os envolvem e o impulsionam.
Bolsonaro ficou sem saída porque agora ele não tem mais condições de ameaçar que as eleições de 2022 não se realizem. O golpe militar não interessaria nem ao Senado, nem à Câmara dos Deputados, nem às Assembleias Legislativas e nem às Câmaras de Vereadores. O poder legislativo só existe concretamente em um clima de liberdade e não numa atmosfera que repete a do Ato Institucional nº 5 de dezembro de 1968.
Fecham-se assim as cortinas de mais uma peça de nossa história política e ficam para trás as ameaças que se não conseguiram mudar o voto dos deputados, muito menos conseguirão o fim das eleições marcadas para o próximo ano. Faltam 14 meses apenas. O tempo passa rápido. Vamos seguindo, vivendo, pulsando e acumulando experiências. O processo humano é assim.
RENÚNCIA – A renúncia do governador do Nova York, Andrew Cuomo, em decorrência de denúncias de abuso sexual contra 11 mulheres que se dispuseram a acusá-lo, mostra mais um lance de uma realidade social que precisa ter fim: o machismo, a violência contra as mulheres e o impulso de torná-las objetos da propriedade masculina.
Nós, homens, temos que reagir ao comportamento sórdido, violento, criminoso e até fatal. O sentido de propriedade de um ser humano por outro é absurdo. Significa um retorno à escravidão. Esse sentido de propriedade da mulher está muito presente até na música popular brasileira. Voltarei ao tema nos próximos dias, mas acentuo, ninguém é dono de ninguém.






