Para o americano Philip Fearnside, Nobel da Paz e considerado um dos maiores especialistas do mundo em Amazônia, o País deveria liderar as ações contra as mudanças climáticas - e não só cobrar outras nações
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Por Roberta Jansen
O biólogo americano Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), é um dos maiores especialistas do mundo em temas sobre a Floresta Amazônica e as mudanças climáticas. Às vésperas do início da Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30) no Brasil, o cientista critica o governo brasileiro por não liderar as discussões globais para a redução das emissões e não dar a devida importância ao problema.
Segundo ele, o colapso da Amazônia teria impactos em todo o mundo, mas seria especialmente grave para o País. “O Brasil será devastado se o aquecimento global sair do controle”, afirmou o pesquisador, que ganhou um Nobel da Paz em 2007 junto com outros cientistas pelos esforços contra o aquecimento do planeta.
O Brasil tem apresentado posições contraditórias diante do combate às mudanças climáticas. Vamos sediar uma COP em novembro e deveríamos estar à frente das negociações para redução das emissões. Mas parte do governo defende explorar petróleo na Foz do Amazonas e a construção de uma estrada cortando a floresta...
Obviamente o governo não é unificado. Tem o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, que tem posições claras de redução de emissões, mas praticamente todo o resto do governo está do outro lado. Os três ministérios com maior impacto no meio ambiente são Minas e Energia, Agricultura e Transporte, todos controlados pelo Centrão, que tem um longo histórico de não apoiar causas ambientais.
O senhor poderia exemplificar?
O Ministério dos Transportes quer construir a BR-319 (rodovia que ligaria Manaus a Porto Velho, passando pelo meio da Floresta Amazônica), com enormes impactos ao meio ambiente. O Ministério da Agricultura está subsidiando o plantio de soja e transformando áreas de pastagem em áreas de plantio de soja, o que é um dos grandes motores do desmatamento. O Ministério de Minas e Energia, por sua vez, quer explorar petróleo na Foz do Amazonas e em outros lugares do litoral. O Incra está legalizando ocupações de terras públicas não destinadas, outro grande motor do desmatamento; uma coisa que encoraja invasões, que não tem fim e só para quando chegar na última árvore. Essas áreas deveriam ser transformadas em unidades de conservação, como Lula havia prometido, mas isso não está avançando. O que está acontecendo no Brasil é muito grave. O País precisa conseguir realmente frear o aquecimento global. O Brasil será devastado se isso sair do controle, e está muito próximo de acontecer.
Por que o senhor diz que o Brasil será devastado?
Bom, outros lugares também serão devastados. Mas perder a Floresta Amazônica terá um impacto absurdo para quem vive lá, obviamente, mas também para todo o País, porque é a floresta que recicla toda a água que sustenta as grandes cidades (por meio dos chamados rios voadores), inclusive São Paulo, e toda a agricultura nacional. Tanto o agronegócio quanto a agricultura familiar. É bom lembrar que na seca de 2014 quase faltou água para beber em São Paulo. Será um desastre humano sem paralelo. O clima já mudou em parte do Brasil e a previsão é de que a situação piore. Neste momento, não há espaço para perdermos a água da Amazônia. Do melhor ao pior cenário, as estimativas indicam que podemos perder de 16% a 70% da floresta. Um outro problema, um grande elefante na sala que está sendo pouco discutido, é o aumento dos tufões na costa brasileira e a elevação do nível do mar. Várias pesquisas mostram que os oceanos estão subindo mais rápido do que se esperava e temos uma boa parte da população vivendo ao longo do litoral. Além de tudo isso, temos as surpresas climáticas, como a inundação do Sul no ano passado e a seca no Rio Madeira, eventos que não estavam previstos.
O Brasil deve assumir a liderança do debate climático, mas não há sinal disso
Voltando à questão da exploração do petróleo na Foz do Amazonas, existe alguma forma de isso ser feito de maneira sustentável, sem maiores impactos ao meio ambiente?
Não. Lembra que o último vazamento de óleo no Golfo do México durou cinco meses e houve várias tentativas fracassadas até que o vazamento fosse estancado. No caso da Foz do Amazonas, a profundidade é de quase três quilômetros, o dobro do Golfo do México. E a correnteza na foz também é mais complicada. A Petrobrás tem tecnologia e muita experiência para exploração de poços em águas profundas, mas não para tapar vazamentos nessas profundidades. Ninguém no mundo tem. E é uma coisa que pode acontecer; existe mesmo uma relação entre profundidade e ocorrência de todo tipo de acidente. E se houver um vazamento ali, o óleo pode alcançar oito países. É muito grave.
E do ponto de vista do aquecimento global?
Diante do aquecimento global, não tem lógica econômica para justificar a abertura de um novo campo de petróleo e gás. Isso porque para que um campo desse comece a produzir em nível comercial seriam necessários pelo menos cinco anos. Aí são necessários pelo menos outros cinco anos para pagar o investimento. E ninguém vai querer parar de produzir com zero de lucro, né? Então seriam ainda alguns anos de exploração. Muito antes disso o planeta já vai ter de parar de usar petróleo como combustível. Então, é totalmente ilógico para o aquecimento global. Além disso, o Brasil tem ainda muito petróleo em campos que já existem, em volume suficiente para usar até não precisar mais. O Brasil já exporta pouco mais da metade do petróleo extraído hoje. Esse discurso de que vai faltar gasolina é uma ficção total. Outra coisa: em 2021, a própria Agência Internacional de Energia soltou um relatório orientando os países a não abrirem nenhum novo campo de exploração de gás e petróleo. A orientação era usar os já existentes e começar a reduzir o uso paulatinamente até 2050. Outro argumento é que o País precisa de dinheiro para fazer a transição energética. Ou seja, vamos produzir mais petróleo para não usar mais petróleo? Isso não faz nenhum sentido. A transição energética deve estar no centro do governo, como educação e saúde, não apenas quando surge um dinheiro inesperado. É uma questão de interesse nacional.
Produzir mais petróleo para não usar mais petróleo não faz nenhum sentido. A transição energética deve estar no centro do governo, não apenas quando surge um dinheiro inesperado
No que diz respeito à transição energética, em que pé estamos?
Tivemos alguns avanços nas energias eólica e solar, mas há muitas preocupações. Temos um enorme potencial para uso de energias eólica e solar, somos um dos países mais sortudos do mundo em termos de opções energéticas que não seja combustível fóssil e hidrelétrica. Precisamos aproveitar esse potencial e não construir mais hidrelétricas. No que diz respeito à eólica, já temos tecnologia para fazer campos no mar, sem impactar dunas. Mas o que o Brasil está fazendo é produzir hidrogênio verde para vender para a Europa, para fazer a transição na Europa, enquanto o País continua usando gás para gerar eletricidade. Primeiro temos de fazer a transição para depois exportar o excedente, mas não é o que está acontecendo.
Como ter um agronegócio sustentável?
Tem muita coisa que dá para melhorar. A mais importante delas é não expandir mais a área, mas isso continua acontecendo, com a transformação de pastagens em áreas de plantio de soja, o que tem um impacto enorme sobre o desmatamento. Os pecuaristas vendem suas áreas de pasto para os plantadores de soja e vão para lugares mais afastados, dentro da floresta, comprando grandes áreas a preços mais baixos. A pecuária é um motor do desmatamento, mas isso vem escapando ao controle. Há um mito de que se aumentarem a produtividade vão parar de desmatar. Mas a economia não funciona assim. Quando algo dá lucro, você faz mais, não menos. Se o lucro aumentar, vão cortar mais florestas. É assim que as pessoas se comportam em uma economia de mercado.
A Amazônia agora enfrenta um novo problema crescente, o crime organizado. Como o senhor analisa mais esse desafio?
É muito grave e não há outra opção que não seja reprimir. É preciso tirar essas gangues de onde elas estão, mas não é isso que está acontecendo. Em Roraima, por exemplo, políticos locais apoiam os garimpeiros que estão nas terras ianomâmis. Os órgãos estaduais não são independentes, muitos estão comprometidos, é um problema grave. Somente Polícia Federal e Ibama tentam reprimir, mas não os órgãos estaduais.
A saída dos EUA do Acordo de Paris enfraquece muito o contrato. É possível reduzir emissões sem um dos maiores emissores? Quem vai liderar esse processo?
É gravíssimo os EUA terem saído, mas não dá para esperar que Trump saia de cena para começarmos a combater o aquecimento global, ou estamos fritos. O resto do mundo precisa começar a reduzir emissões agora e a COP é o espaço para isso. Acho que o Brasil deveria assumir a liderança desse processo mas, até agora, não há sinais disso, apenas discursos sobre a importância de reduzir emissões. Mas não é isso que o próprio País está fazendo. O Brasil está reduzindo o desmatamento pela ação do Ministério do Meio Ambiente, mas o resto, não. O País teria de liderar com exemplos, não apenas cobrar de outros países.
Não dá para esperar que Trump saia de cena para começarmos a combater o aquecimento global, ou estamos fritos (...) Acho que o Brasil deveria assumir a liderança desse processo mas, até agora, não há sinais disso
Temos tempo até a COP?
Espero que o presidente acorde. O problema é que ele vive no que chamo de espaço de desinformação, se cercou de pessoas que estão dizendo para ele que pode explorar petróleo, pode construir estrada, e é isso que ele segue fazendo, não escuta a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. É uma situação muito grave. Precisamos ver se alguém vai conseguir penetrar nessa blindagem que faz com que ele não receba informações sobre o problema climático.
O que podemos esperar da COP no Brasil?
Pode ser que não consigamos chegar a um acordo e sigamos para um desastre total, mas é importante não ser fatalista, ou isso vira uma profecia autorrealizável: “a COP vai fracassar”, “ninguém vai parar de emitir”. Não pode ser assim, precisamos manter a pressão para que as coisas mudem.
Link: https://www.estadao.com.br/150-anos/terra-em-transformacao/brasil-sera-devastado-se-o-aquecimento-global-sair-do-controle-e-isso-esta-perto-de-acontecer/?srsltid=AfmBOordFOWOKMwrlbs3nJSoO7LDGgj12RxzoDyp93sYzO0t4RS2OUW4