terça-feira, fevereiro 14, 2023

Entrevista: Barbara Walter*: Regular redes é essencial para conter guerras civis




Cientista social diz que Trump e Bolsonaro deixaram EUA e Brasil mais próximos de conflitos

Por Uirá Machado 

Em entrevista, a cientista política Barbara Walter debate o recuo da democracia e a expansão de guerras civis no mundo, aponta que a radicalização política é impulsionada pelo modelo de negócios de big techs e sustenta que a situação do Brasil e dos Estados Unidos, afligidos por ataques golpistas, é frágil. Republicanos e bolsonaristas, diz, estão a caminho de se tornarem facções, o que demanda força de instituições e de outros partidos políticos

Duas tendências identificadas nos últimos anos preocupam acadêmicos em diversas partes do mundo.

A primeira, já bem mapeada pela literatura recente da ciência política, é o declínio da democracia, com a ascensão de políticos autoritários que tomam o poder sem recorrer a um golpe de Estado tradicional.

A segunda ganhou notoriedade com a publicação, no ano passado, de "Como as Guerras Civis Começam e Como Impedi-las" (Zahar). Escrito pela cientista política Barbara F. Walter, da Universidade da Califórnia em San Diego, não demorou a se colocar entre os mais vendidos nos EUA.

O motivo é simples: Walter dá um novo passo na trilha aberta por obras que já se tornaram clássicos, a exemplo de "Como as Democracias Morrem" (Zahar, 2018), de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, e "Como a Democracia Chega ao Fim" (Todavia, 2018), de David Runciman.

Em seu livro, Walter mostra que as guerras civis costumam estourar não em democracias nem em ditaduras, mas em países que estão passando de um desses sistemas para o outro, e que esses conflitos se tornaram cada vez mais frequentes no século 21, a ponto de o pico histórico ter sido atingido em 2019.

O que explica essa tendência? "Não sabemos ao certo, mas temos uma suspeita forte: a ascensão das redes sociais", afirma em entrevista à Folha.

Se ela diz, vale a pena prestar atenção, mesmo que se trate de uma suspeita. É que Walter acumula mais de 30 anos de estudos sobre guerras civis, incluindo a participação na Força-Tarefa sobre Instabilidade Política, criada pelo governo dos EUA nos anos 1990 para construir um modelo capaz de prever a erupção de conflitos em qualquer país.

Com base em sua experiência, Walter diz que Donald Trump, nos EUA, e Jair Bolsonaro (PL), no Brasil, aumentaram a chance de haver uma guerra civil nesses dois países.

A literatura recente sobre democracia tem apontado um novo padrão de golpe de Estado, e seu livro faz o mesmo em relação às guerras civis. Poderia explicar essas mudanças? 

São duas grandes tendências. Uma é a de declínio da democracia. As democracias vinham se expandindo pelo mundo a ponto de a gente pensar que todos os países adotariam esse sistema.

Isso mudou em 2010. Desde então, a cada ano há menos democracias e, pela primeira vez, isso tem afetado até as mais maduras e fortes, como Reino Unido, Estados Unidos, Suécia e Espanha.

No século 20, quando uma democracia desaparecia, geralmente era por meio de um golpe militar, mas essa não é mais a norma. Agora prevalece o que vou chamar de "modelo Viktor Orbán" [premiê da Hungria]. Ele tem sido o grande inovador nesse sentido.

Ele descobriu que não é necessário dar um golpe militar: você pode chegar ao poder por meio de uma eleição e, quando as pessoas não estiverem prestando atenção, você começa a desmontar os sistemas de controle sobre o Executivo; você faz isso lenta e metodicamente, de modo que, quando as pessoas perceberem que o poder está concentrado nas suas mãos, será tarde demais para reagir.

Trump observou esse método atentamente. Bolsonaro também. É quase como se Orbán tivesse mostrado a eles um manual de como fazer isso legalmente e sem envolvimento militar. Agora, esses aspirantes a ditador disputam eleições, controlam a mídia e moldam uma narrativa sobre si mesmos como líderes eficientes, fortes e necessários em um contexto de nacionalismo, medo e ameaças.

E com relação às guerras civis? 

Essa é a outra tendência: o aumento de guerras civis e da violência política. Do fim da Segunda Guerra Mundial até 1992, o número de guerras civis foi aumentando, com algumas oscilações. A partir de 1992, houve uma reversão desse padrão; pensamos que tínhamos conseguido descobrir como resolver esses conflitos para viver em um período de paz.

A partir de 2002, porém, as guerras civis têm aumentado todos os anos em todo o mundo. Estamos agora em um nível mais alto que o de 1992.

Também vemos ao redor do mundo o aumento do nacionalismo étnico, o crescimento do número de partidos de extrema direita, de líderes do tipo lei e ordem. Vimos isso com [Rodrigo] Duterte nas Filipinas, com Bolsonaro no Brasil, com [Narendra] Modi na Índia, com [Recep Tayyip] Erdogan na Turquia, com Trump nos Estados Unidos.

Há também uma nova forma de violência política, que é descentralizada. As guerras civis de hoje envolvem mais grupos que no passado. Se você pensar na Síria, há centenas de facções de cada lado. É uma mudança súbita: temos muito mais grupos, as guerras duram mais tempo e há mais intervenção externa.

O que explica isso? 

Não sabemos ao certo, mas temos uma suspeita forte: a ascensão das redes sociais. Elas permitem que forças antidemocráticas –seja Vladimir Putin, o governo chinês ou os Trumps do mundo— espalhem desinformação na internet, convencendo as pessoas a não confiar nas eleições e a não apoiar a democracia, argumentando que governos autocráticos são melhores. Essa maneira sub-reptícia de atacar a democracia não existia no passado.

As grandes empresas de tecnologia têm o mesmo modelo de negócios, que consiste em manter as pessoas tão ocupadas quanto possível com seus smartphones e computadores, e as informações que mantêm as pessoas conectadas por mais tempo são as que exploram o instinto de luta ou fuga, coisas que desencadeiam raiva, sensações de ameaça, de insegurança. O algoritmo oferece mensagens mais extremas.

Por exemplo, nos Estados Unidos, se você clicar em um link que mostra um policial salvando um filhote de gato em uma árvore, o algoritmo vai considerar que você é simpático à polícia. Começará então a te alimentar com mais informações a favor da polícia até que você esteja envolvido no debate a favor ou contra o Black Lives Matter.

Além disso, as redes sociais facilitam a mobilização de qualquer movimento. É uma mudança, porque antigamente era bastante difícil organizar uma milícia ou um grupo paramilitar. Isso tinha que ser feito com muito cuidado e de clandestinamente, e era difícil alcançar pessoas com as mesmas inclinações radicais.

A sra. afirma no livro que a maioria das pessoas não se dá conta de que uma guerra civil está a caminho até que a violência faça parte do cotidiano. Não existem sinais precoces? 

O governo dos Estados Unidos tem um manual chamado "Guia para a Insurgência", que é usado pelos soldados americanos em outros países. O guia ensina o que procurar para saber se há uma insurgência ou não.

São três fases. A primeira etapa é a pré-insurgência, a segunda é insurgência incipiente, a terceira é insurgência aberta. Esse padrão se repetiu tantas vezes que é de fato possível identificá-los, mas, ao mesmo tempo, se você conhece os sinais, é perturbador ver populações ignorando os alertas.

Uma das coisas que acontecem, mesmo na primeira fase, é que, quando um grupo começa a se organizar, ele recruta membros, desenvolve uma ideologia, cria um conjunto de demandas.

Na segunda fase, o grupo adquire um braço militar e começa a realizar atos isolados de violência. Talvez esse seja o estágio em que os Estados Unidos e o Brasil estejam agora. Ocorrem ataques de terrorismo doméstico contra civis e líderes da oposição, talvez um candidato a presidente ou um juiz se torne alvo. Se houver elementos raciais, podem ocorrer massacres em bairros afro-americanos, igrejas, sinagogas.

Nessa fase incipiente, há uma tendência de rotular os ataques como isolados. Nos Estados Unidos, falamos em "lobo solitário", como se fosse uma pessoa louca, sem conexão com um movimento maior.

O curioso é que o manual do governo americano fala especificamente sobre as pessoas não quererem acreditar que há um câncer crescendo na sociedade. É mais fácil descartar esses primeiros ataques e não ligar os pontos. Só quando esses ataques se tornam frequentes e já não se pode ignorá-los, as pessoas param para pensar se é algo maior. Mas, nesse momento, o movimento provavelmente já teve anos para crescer e se organizar.

A invasão do Capitólio, nos EUA, e o ataque às sedes dos três Poderes, em Brasília, são eventos isolados ou indicam algo maior? 

Depende muito de como as coisas evoluem. Em ambos os casos, a ação foi contida. A invasão do Capitólio serviu de alerta para a sociedade e para o FBI. O FBI tem sido mais agressivo na identificação dos perpetradores e em levá-los a julgamento, e a pena de prisão deve enfraquecer o grupo de extrema direita por um tempo.

Porém, as coisas poderiam ter sido piores em ambos os casos. Por exemplo, os ataques poderiam ter sido bem-sucedidos nos EUA e Trump teria voltado ao poder. Além disso, eles poderiam ter se tornado mais violentos. A situação é frágil.

Sua pesquisa sugere que a transição, tanto da ditadura para a democracia como da democracia para a ditadura, é um fator relevante por trás da guerra civil. Por quê?

Múltiplos estudos que analisaram fatores econômicos, políticos e geográficos perceberam que a transição era um dos dois mais importantes. Ou seja, se o governo do país é uma democracia parcial —nem totalmente autocrático nem totalmente democrático—, pode-se pensar em uma democracia fraca.

Se for uma autocracia que tenta se democratizar, o desmonte do aparelho repressivo cria uma oportunidade para que organizações ou pessoas se mobilizem para tentar capturar o governo. Foi o que vimos com o fim da Iugoslávia.

Mas também pode acontecer no sentido oposto, como vimos na Ucrânia. Quando o governo democrático entra em declínio, os cidadãos percebem que começa a se fechar uma janela para fazer suas reivindicações por meios não violentos. Isso cria um impulso para tentar evitar que se instale uma autocracia de fato.

Faz diferença a velocidade dessa mudança, seja para perto, seja para longe da democracia. Uma mudança rápida aumenta o risco. Não sabemos bem o motivo, mas suspeitamos que seja porque a mudança rápida indica um governo mais fraco, cercado de incertezas.

O outro fator que a sra. menciona no livro é a criação de facções. Como distinguir facções de grupos políticos? 

A faccionalização tem uma característica muito única: ela é racial, étnica ou religiosa. Nos Estados Unidos, os partidos estavam muito polarizados na década de 1960, mas um americano branco naquela época tinha tanta chance de ser democrata quanto republicano.

Isso não acontece mais hoje em dia. O Partido Republicano é quase 80% branco e, quase exclusivamente, cristão evangélico. Isso em um país multiétnico, multirracial e multirreligioso. Ou seja, o partido fala apenas para um grupo racial e um grupo religioso. Essa é a diferença entre uma facção e uma simples polarização ideológica.

Além disso, quando Barack Obama foi eleito, a classe trabalhadora branca deixou de ser democrata para se tornar republicana. Se essas pessoas realmente se importassem com a ideologia, isso não faria sentido. O Partido Republicano quer desmontar a rede de segurança social e econômica que beneficia a classe trabalhadora.

A razão para a classe trabalhadora branca migrar para o Partido Republicano não tem a ver com ideologia; tem a ver com o fato de o Partido Republicano apelar ao nacionalismo étnico branco. Isso é uma facção.

Isso também se aplica ao Brasil? Pergunto porque os eleitores de Bolsonaro têm um certo perfil demográfico, mas o fator que mais parece agregá-los é o sentimento anti-PT. 

Eles são espertos. Isso é apenas uma fachada para imigrantes, negros ou não brancos. Eu acho que há muitas semelhanças entre os Estados Unidos e o Brasil. Trump chegou ao poder, e seu partido se tornou cada vez mais nacionalista branco, pois demograficamente os brancos estão em declínio.

A parcela da população que tem formado milícias, que atacou o Capitólio e que nega eleições é formada de pessoas brancas que se sentem ameaçadas pelo fato de os brancos deixarem de ser maioria. Essas pessoas consideram um dever patriótico garantir que os cristãos brancos continuem no controle, mesmo que esse segmento se torne minoria, o que acontecerá por volta de 2045.

Isso já aconteceu no Brasil. Os brancos deixaram de ser maioria, e Bolsonaro entendeu o poder disso. Homens brancos ricos são os mais propensos a perder privilégios e poder.

Isso é uma facção? 

Ou está a caminho de se tornar uma facção. Quando um partido político passa esta mensagem: "Você é branco, deve votar em uma pessoa branca e, se eu for eleito, garantirei que as pessoas não brancas não tenham poder", isso é muito diferente de "se você acredita no conservadorismo e deseja criar incentivos para as pessoas trabalharem duro, vote em mim porque essa é nossa visão de uma sociedade saudável".

Em seu livro e nesta entrevista, a sra. cita Bolsonaro como exemplo de político que degradou a democracia e aumentou o risco de guerra civil. Poderia explicar melhor? 

Os estudos sobre guerra civil mostram que elas são mais prováveis em países com democracias parciais e com partidos baseados em uma identidade. O que Bolsonaro fez?

Ele quer enfraquecer a democracia do Brasil, apela cada vez mais para a raça. Ele não tem uma plataforma realmente baseada em ideologia. Ele está criando uma facção de brasileiros que cada vez mais acreditam que imigrantes são ruins, que brancos devem governar, que eles precisam tomar o país de volta.

Se ele tivesse sido reeleito, o risco aumentaria? 

Ele dobraria a aposta em sua estratégia, de modo que as duas condições para a guerra civil —democracia parcial e apelos à identidade— teriam continuado. Sabemos que, a cada ano que passa dentro dessas condições, o risco de guerra civil aumenta.

A derrota dele significa que não existe mais risco? 

Não. A situação não depende de uma pessoa específica, mas sim da força da democracia e dos tipos de partidos políticos existentes. Nos Estados Unidos, temos sorte de ter um presidente que acredita na democracia e não piora a situação, mas ele não conseguiu implementar reformas institucionais.

Que reformas precisam ser feitas? 

A coisa mais importante é regular as mídias sociais.

Como fazer isso sem ameaçar valores democráticos? 

Líderes de grandes empresas de tecnologia, como Mark Zuckerberg, se escondem atrás da primeira emenda da Constituição americana e dizem que regulamentar as mídias sociais representa um ataque à liberdade de expressão.

Isso é besteira. Todas as outras mídias são regulamentadas. Sabemos como fazê-lo.

Mas vamos aceitar o argumento. Vamos deixar as pessoas colocarem o que quiserem na internet. É só regular os algoritmos. É só não permitir que as empresas projetem algoritmos que divulguem as informações mais odiosas, assustadoras e negativas.

O que os algoritmos fazem é selecionar informações específicas e disseminá-las quase instantaneamente para milhões de pessoas. Isso não é um direito protegido pela Constituição. É aquela citação: "liberdade de expressão não é o mesmo que liberdade de alcance".

*Barbara F. Walter, 58. Professora de assuntos internacionais na Escola de Políticas e Estratégias Globais da Universidade da Califórnia em San Diego. Doutora pela Universidade de Chicago, com pós-doutorado pelas universidades Colúmbia e Harvard, é consultora dos departamentos de Defesa e Estado dos EUA e desenvolve pesquisas no campo da segurança internacional, com ênfase em extremismo, grupos rebeldes e guerras civis. Autora, entre outros livros, de "Como as Guerras Civis Começam e Como Impedi-las".

Folha de São Paulo

A extrema direita




A bolha da sua mentalidade furou; resta saber se haverá uma força capaz de reunir os despojos ou se o bolsonarismo ainda tentará se reorganizar

Por Denis Lerrer Rosenfield* (foto)

A experiência dos últimos quatro anos foi rica em ensinamentos, em particular o da extrema direita no poder. Embora no início o desenho não estava nítido, ganhou no decurso do tempo contornos precisos. O antipetismo foi a sua bandeira primeira, num amálgama de valores conservadores e liberais, dando progressivamente lugar a pautas antidemocráticas e antiliberais. O estilo bronco e, às vezes, engraçado de Bolsonaro foi se mostrando grotesco e mesmo cruel em sua campanha contra a vacinação, literalmente gozando da morte alheia, expondo sua falta completa de compaixão – algo, aliás, contrário aos valores religiosos que dizia defender.

O “jogo dentro das quatro linhas da Constituição” foi uma mera encenação com o intuito de minar a ordem democrática, de preferência via eleições, como se a democracia pudesse ela própria ser subvertida, paradoxalmente, por instrumentos eleitorais. A campanha contra o sistema eleitoral, o combate insano de Bolsonaro contra as urnas eletrônicas e a contestação das eleições puseram a nu um líder de perfil claramente autoritário. Quem com ele não estava se tornava um inimigo, inclusive seus amigos de ontem. Uma vez que o malogro de seu projeto reeleitoral se esboçava, a tentativa mais explícita de golpe foi se apresentando como uma alternativa real.

Fiou-se ele nas Forças Armadas e, em particular, no Exército, acreditando que elas o seguiriam em quaisquer circunstâncias, mesmo ao arrepio da disciplina militar. Ocorre que, no jogo do poder, a maior parte dos militares só aceitou jogar nas quatro linhas da Constituição, rechaçando qualquer arremedo de legalidade para o emprego da violência. Militares avançados se puseram na consolidação da ordem democrática, dizendo não a qualquer tentativa golpista. Os renitentes terminaram se alinhando, visto que sua formação os colocava na defesa da disciplina e contra qualquer tipo de quebra de hierarquia. Uma instituição hierarquicamente quebrada deixa de ser propriamente uma instituição de Estado. Ali fracassou o golpe.

O estertor deste processo foram as manifestações do dia 8 de janeiro, com a invasão e depredação dos centros do poder republicano: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O simbolismo foi forte. A máscara democrática caiu, entrando em seu lugar a violência própria da extrema direita, embora saibamos que não lhe é exclusiva, haja vista a experiência comunista. A horda bolsonarista agiu sem freios, ainda acreditando em seu líder, o “mito”, que viria a liderar presencialmente este processo, crendo, ademais, que os militares de extrema direita nele a seguiriam. A partida democrática, porém, já estava previamente ganha, seja pelo pleno funcionamento das instituições, seja pelo resultado eleitoral majoritariamente reconhecido, seja pela atuação decisiva dos militares constitucionalistas. E o “mito” sumiu!

O “mito” refugiou-se nos arredores da Disney, como se lá fosse mais divertido do que o seu próprio país, após as arruaças e instabilidades política e institucional aqui produzidas. Contudo, a extrema direita vive de seus líderes, pessoas resolutas em seu processo político, como bem demonstraram figuras como Hitler, Mussolini e Franco. Enfrentaram intempéries até chegarem ao poder e lá se consolidarem. O líder mantém a coesão de seus liderados, uma espécie de cola que a todos une. Sem esse fator agregador, seus apoiadores se dispersam. O que podem hoje bem pensar aqueles que, com chuva, calor e frio, se reuniram na frente dos quartéis, quando contrastam a sua experiência com a do “mito” no aconchego de um condomínio residencial em Orlando, com todas as comodidades materiais?

A questão que se coloca, portanto, é a de se essa experiência eu diria limite da extrema direita tem condições de perpetuar-se, não apenas por causa da derrota do “mito”, mas principalmente pelo seu sumiço. Provavelmente, os que nele acreditaram, num número impressionante de cerca de 50% do eleitorado, vão agora escolher novos caminhos, considerando que muitos que o seguiram o fizeram por rechaço à experiência petista. Agora, as posições se invertem, com Lula tendo sido, por sua vez, eleito por repúdio à experiência bolsonarista. O Brasil continua oscilando neste pêndulo.

A força do bolsonarismo estava em sua coesão sob o seu líder, em campanhas midiáticas baseadas na mentira e no ataque constante a inimigos reais e imaginários, em motociatas cujo perfil se assemelhava, num mundo digital, às milícias nazistas ou fascistas. No caso destas, com organizações próprias e firme apoio partidário. Aqui, seja por falta de tempo, seja por ausência de um projeto totalitário mais firme, a improvisação terminou se impondo.

Em suma, a bolha da mentalidade de extrema direita furou, com a realidade entrando por todos os seus furos, como águas num navio afundando. Resta, agora, saber se haverá uma força de centro, mais à direita ou mais à esquerda, capaz de reunir esses despojos ou se o bolsonarismo ainda tentará reorganizar as suas forças.

*Professor de Filosofia na Ufrgs

O Estado de São Paulo

EUA dizem a seus cidadãos para saírem da Rússia imediatamente




Prédio do Departamento de Estado dos EUA em Washington

O último aviso público foi em setembro passado, depois que o presidente Vladimir Putin ordenou uma mobilização militar parcial

Por Guy Faulconbridgeda 

Os Estados Unidos disseram a seus cidadãos que deixem a Rússia imediatamente devido à guerra na Ucrânia e ao risco de prisão ou assédio arbitrário por parte das agências de aplicação da lei russas.

“Os cidadãos americanos que residem ou viajam na Rússia devem partir imediatamente”, disse a embaixada dos Estados Unidos em Moscou. “Exercer maior cautela devido ao risco de detenções injustas.”

“Não viajem para a Rússia”, disse a embaixada.

Os Estados Unidos advertiram repetidamente seus cidadãos para que deixassem a Rússia. O último aviso público foi em setembro, depois que o presidente Vladimir Putin ordenou uma mobilização militar parcial.

“Os serviços de segurança russos prenderam cidadãos norte-americanos sob acusações espúrias, apontaram cidadãos norte-americanos na Rússia por detenção e assédio, negaram-lhes tratamento justo e transparente e os condenaram em julgamentos secretos ou sem apresentar provas confiáveis”, disse a embaixada.

“As autoridades russas aplicam arbitrariamente as leis locais contra trabalhadores religiosos cidadãos americanos e abriram investigações criminais questionáveis contra cidadãos americanos envolvidos em atividades religiosas”

A Rússia abriu um processo criminal contra um cidadão dos Estados Unidos por suspeita de espionagem, disse o Serviço Federal de Segurança (FSB) do país em janeiro.

Reuters / CNN

Lula vai conseguir reduzir os juros na marra?




Lula está colocando pressão sobre Campos Neto agora porque precisa criar um bode expiatório caso tudo dê errado. 

Por Diogo Schelp (foto)

A cruzada de Lula contra a política de juros do Banco Central (BC), para surpresa de nenhum analista financeiro, provocou uma rebordosa entre investidores, políticos liberais e economistas ortodoxos, com o efeito óbvio de fazer subir as taxas de juros efetivamente praticadas pelo mercado. O efeito imediato, portanto, foi o oposto daquele pretendido pelo presidente, que era o de reduzir os juros. Acontece que Lula está mirando mais à frente.

Os ataques de Lula à taxa Selic de 13,75% ao ano, à independência do Banco Central e até ao presidente da instituição, Roberto Campos Neto, que tem mandato até 2024 e que portanto terá de ser aturado, ao menos em tese, pelo governo PT por mais dois anos, têm dois objetivos primordiais: um de natureza econômica, e outro, política.

O objetivo de natureza econômica é o que é dito claramente. Lula tem pressa para reaquecer a economia e trazer efeitos sociais rápidos, com a criação de empregos e o aumento da renda da população. Não adianta repetir como um mantra para os petistas que reduzir os juros agora, quando ainda existe um cenário interno e externo incerto de pressão inflacionária, pode levar à perda de controle na variação dos preços de bens e serviços para a população, penalizando justamente os brasileiros mais pobres. "Olhem para a Argentina, com quase 100% de inflação ao ano, e lembrem-se como esse caminho é desastroso!", dizemos nós, os cautelosos.

Não adianta dizer isso porque Lula e aqueles que o aconselham a reduzir os juros sabem que inflação alta e descontrolada desmancha qualquer ganho que se possa ter com o crescimento econômico. Mas eles realmente acreditam que uma inflação um pouco mais alta não vai fazer tão mal assim, que o patamar atual da meta do Banco Central não é realista para países emergentes e que há, sim, margem para reduzir os juros.

Existem economistas sérios, forjado no aço da ortodoxia liberal, que concordam com a afirmação de que o atual centro da meta de inflação, de 3,25%, é muito otimista para a nossa realidade. É o caso de Sergio Werlang, que foi diretor do BC na gestão de Armínio Fraga, no governo Fernando Henrique Cardoso, e justamente o responsável por implementar o regime de metas de inflação. Em entrevista ao Brazil Journal, na semana passada, porém, Werlang deixou claro que só faz sentido elevar a meta de inflação depois que o governo apresentar e colocar para funcionar as novas regras de ajuste fiscal.

Ou seja, primeiro o governo precisa provar seu compromisso com a responsabilidade fiscal, de que não vai gastar mais do que arrecada. Só depois pode-se pensar em mudar as metas de inflação, com reflexo direto na taxa básica de juros.

Ao escolher a ordem inversa, primeiro pressionando para reduzir os juros, Lula está colocando a carroça na frente dos bois? Sim, mas há um motivo para isso: a política.

Lula está colocando pressão sobre Campos Neto agora, antes mesmo de definir e apresentar, finalmente, a política macroeconômica de seu governo, porque precisa criar um bode expiatório caso tudo dê errado. Campos Neto pode ser a pessoa perfeita para expiar as culpas econômicas de Lula 3 por dois motivos: primeiro, porque foi indicado para o comando do BC pelo seu Nêmesis, Jair Bolsonaro, e segundo porque ele tem estabilidade no cargo e é muito difícil demiti-lo.

“Quero saber do que serviu a independência [do BC]. Eu vou esperar esse cidadão [Campos Neto] terminar o mandato dele pra gente fazer uma avaliação do que significou o Banco Central independente”, disse Lula.

"Esse cidadão". Observe o desprezo com que Lula se refere a Campos Neto. O objetivo é apresentar Campos Neto como alguém leal a Bolsonaro, um corpo estranho em um governo petista que está no BC, a cargo da política monetária, para sabotar o "sucesso" da nova gestão.

Claro que isso não é verdade. Campos Neto não define a Selic sozinho e existe uma meta concreta para alcançar. O que, sim, pode estar existindo é uma dificuldade de Campos Neto e de Fernando Haddad, ministro da Fazenda, de construir uma relação de confiança. O primeiro convencendo o segundo de que não há propósitos políticos na atuação do BC, e o segundo convencendo o primeiro de que o compromisso do novo governo com um ajuste fiscal é pra valer.

O segundo aspecto da jogada política de Lula em pressionar o BC a reduzir os juros é que, eventualmente, isso pode de fato acontecer por razões puramente técnicas. O economista Persio Arida, que participou da equipe transição mas não integra o governo, acredita que se aproxima o momento em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC vai iniciar um movimento de redução gradual dos juros pelo simples fato de que a economia brasileira está dando sinais de desaceleração.

Se isso acontecer, e o BC de fato reduzir os juros no curto ou médio prazo, Lula vai cantar vitória e dizer que venceu a queda de braço com o indicado de Bolsonaro — e se a economia continuar se deteriorando, vai afirmar que as reduções não foram suficientes e que a culpa é do BC independente.

De um jeito ou de outro, politicamente, ele sai ganhando na guerra de narrativas.

Gazeta do Povo (PR)

Tempos de caos




Por Gaudêncio Torquato (foto)

O relógio do Juízo Final está perto da meia noite. Para quem desconhece a história. Em 1947, a artista norte-americana, Martyl Langsdorf, esposa do físico Alexander Goldsmith Jr, do projeto Manhattan (fabricação da bomba atômica), desenhou um relógio para a capa do Bulletin of the Atomic Scientists, da Universidade de Chicago. Este relógio faz uma analogia com a raça humana, mostrando que ela está a minutos da meia noite, hora da destruição do planeta por uma guerra nuclear. De lá para cá, o relógio aparece no boletim dos cientistas atômicos, anunciando o apocalipse, fruto da multiplicidade de atos e comportamentos de países e líderes diante da iminência de uso de armas de destruição do planeta. Hoje, está mais próximo do fim do mundo.

Pois bem, o simbolismo do relógio ultrapassa a mera figura metafórica. Basta olhar para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, a cada semana expandindo seu poder destrutivo e ensanguentando a paisagem europeia. Quem diria que este conflito se estenderia por meses a fio? As tragédias contemporâneas, com suas filas de mortos, enfeitam as manchetes de jornais, servindo de primeira leitura nos cafés de manhãs. E, como paradoxo dos novos tempos, produzem camadas de insensibilidade. Morreram 2, 3, 5, 22 mil? As onomatopeias de horror ou de pasmo (Santo Deus! que infelicidade! quanta crueldade…!) são repetidas sem emoção. São extensões automáticas de um tempo sem calor humano.

Essa é outra faceta desses tempos tristes. Estamos juntos nas cadeias tecnológicas, porém distantes no oceano de águas frias. Nas teias das tecnologias, nossa expressão ganha latitudes e longitudes da Terra, aplaudindo ou criticando, fazendo loas ou apupos, estendendo as mãos para o próximo, mas quando tais atos carecem de um gesto físico, a ação humana, o eixo da condição do ser, nos esquivamos. São frágeis nossos laços com o outro, o desvalido deitado nas calçadas, o abandonado pelo poder público, o faminto (verdadeiro ou mentiroso, ambos nos sinais de trânsito rogando para enxergamos sua ossatura). O medo nos faz fechar os vidros do carro. Sinais do ciclo da fuzilaria.

A paisagem é tão cheia de sinais de violência que até a interpretação do professor Samuel Huntington em seu livro “Choque de Civilizações” parece coisa comum ao descrever o paradigma do caos: “Quebra da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver.”

Alguém pode objetar. Não seja tão pessimista. Veja a solidariedade nessa corrente formada para ajudar as vítimas dos terremotos na Turquia e na Síria. Sim, há um imenso cordão de voluntários que mostram sua humanidade. Não há dúvida. Mas o interesse de muitos países se ancora na visão geopolítica de ajudar, hoje, para ser ajudado amanhã, de dar para receber. Por outro lado, podemos identificar milhões de seres que padecerão dos sismos por falta de ajuda, isolados em territórios dominados por oposições, como na Síria.

Como dizem especialistas na região, como Guga Chacra: “Bashar al-Assad venceu a guerra e conseguiu se manter no poder. Mas comanda um país em ruínas, bem diferente do que era 2010, antes da eclosão do conflito. Depende da ajuda da Rússia e do Irã. Mas Moscou está com as atenções voltadas para a Guerra da Ucrânia e Damasco deixou de ser prioridade. O regime Irã, por sua vez, está com o foco no combate aos protestos contra o regime de Apartheid anti-mulher no país. Diante deste cenário, Assad se aproxima cada vez mais dos Emirados Árabes, que devem ser a principal via de apoio ao regime após o terremoto. Sabe-se lá, no entanto, quanto do dinheiro chegará a quem necessita, ainda mais levando em conta que boa parte das áreas destruídas não estão sob o comando do regime.”

Um mundo que multiplica as estruturas do caos nem mais temor provoca. Infelizmente, erva daninha e grama sadia, corrupção sem punição, bem e mal fazem parte do cardápio diário dos habitantes do planeta. O velho lema dos cowboys do oeste americano volta a dar as boas-vindas nos saloons adornados de cartucheiras: matar ou morrer.

O papa Francisco, sob o peso de sua autoridade, faz um alerta: o mundo está se autodestruindo. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, o português Antônio Guterres, usa o mesmo tom: “os riscos de uma escalada da guerra e mais carnificina não param de aumentar…guerra na Ucrânia, crise climática, pobreza extrema, o ano de 2023 começa com convergência de desafios nunca vistos em nossas vidas”. Por aqui, a devastação da população yanomami exibe a insensibilidade do poder público para com os povos indígenas.

Os dias têm sido tenebrosos.

Jornal Metrópoles

O governo ‘fraco’ abriu para negócios - Editorial




Mal começou, governo Lula admite não ter base sólida e quer driblar a lei para liberar R$ 3 bilhões em emendas a deputados que não teriam direito a elas; eis o modo petista de governar

Segue vivíssima na cabeça do presidente Lula da Silva a ideia segundo a qual a construção de uma base de apoio ao governo no Congresso pode prescindir da negociação política em torno de projetos e se dar por meio da relação mercantil com parlamentares oportunistas dispostos a vender seus votos por dinheiro. “O uso do cachimbo entorta a boca”, diz o provérbio. Ao que parece, as lições dos escândalos do mensalão e do petrolão, durante o mandarinato lulopetista, e do orçamento secreto, urdido por Jair Bolsonaro, não foram assimiladas nem pelos que compram nem pelos que vendem convicções.

O Estadão revelou que o Palácio do Planalto abriu para negócios e articula com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), maneiras de driblar a lei para garantir que 219 deputados federais de primeiro mandato, empossados há poucos dias, possam dispor de cerca de R$ 3 bilhões do Orçamento de 2023 em emendas parlamentares, algo em torno de R$ 13 milhões para cada deputado.

De acordo com a lei, esses parlamentares não têm direito de indicar nem um centavo em emendas para suas bases eleitorais em 2023. A razão é simples: o Orçamento de 2023 foi elaborado no ano passado. Os 219 novatos, portanto, só poderão indicar emendas ao Orçamento de 2024, a ser elaborado pela nova legislatura.

Mas, ao que parece, essa vedação legal elementar é apenas um detalhe diante da urgência do governo Lula de criar uma base de apoio para aprovar projetos de seu interesse e da necessidade de Arthur Lira de retribuir todos os 464 votos que garantiram sua reeleição para a presidência da Câmara por um placar recorde. Caso clássico de cortesia com chapéu alheio.

As tratativas são tão escancaradas que nem um petista de quatro costados, como o deputado Jilmar Tatto (PT-SP), um dos possíveis beneficiários do acerto, faz questão de esconder seus propósitos. “Se o governo estivesse forte”, disse Tatto ao Estadão, “poderia não dar (emendas) para os novos. Mas tem uma reforma tributária, não dá para pagar para ver. Se não for esse valor (R$ 13 milhões por deputado), uma parcela significativa vai ter.”

Ainda não se sabe exatamente de que forma, do ponto de vista técnico, os deputados novatos serão agraciados com os R$ 3 bilhões do Orçamento de 2023, mas, a julgar pela disposição dos petistas, alguma “mágica” será feita. Ninguém duvida.

Se o governo é “fraco”, como admitiu o deputado petista, porque os eleitores não elegeram parlamentares alinhados ideológica e programaticamente ao presidente da República, o correto – e republicano – seria o presidente Lula apresentar ao País um programa de governo digno do nome e despachar seus emissários políticos para negociar a construção de maiorias com o Congresso. É assim que funciona, ou deveria funcionar, o presidencialismo de coalizão, um regime tão característico do País.

Numa democracia, é legítima a divisão de poder entre forças políticas representativas da sociedade, seja por meio da distribuição de cargos na administração pública direta e indireta, seja pela disposição de recursos do Orçamento da União. Mas essa negociação, evidentemente, tem de se pautar pelo respeito às leis e à Constituição, além de ser orientada pelo interesse público.

O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, confirmou ao Estadão a existência de tratativas entre o governo e a presidência da Câmara para liberar recursos do Orçamento de 2023 aos deputados recém-empossados. “Se (os novatos) tiverem bons projetos, boas propostas”, disse Padilha, “podem ser contemplados pelo governo.” Como sempre, o PT julga que os fins justificam os meios: se os projetos forem “bons” (para quem, não se sabe) e se os parlamentares premiados votarem com o governo, dá-se um peteleco na lei e no interesse público.

A abertura desse balcão de negócios com pouco mais de um mês de governo é bastante ilustrativa da visão desvirtuada de Lula e do PT sobre a natureza da relação entre os Poderes Executivo e Legislativo. Indica também como alguns parlamentares, logo no primeiro mandato, já se mostram dispostos a colocar seus interesses paroquiais acima das leis e de uma agenda de reconstrução nacional. 

O Estado de São Paulo

Espionagem: rivalidade entre EUA e China atinge novo patamar




Por Ricardo Fan
 
A disputa entre EUA e China tem se intensificado nos últimos anos. A rivalidade entre as duas maiores economias do mundo tem sido cada vez mais evidente, desde a guerra comercial até as disputas militares. O caso dos balões revelado nos últimos dias demonstra que a espionagem China-EUA atingiu o nível mais elevado de todos os tempos.

Os Estados Unidos têm uma força militar significativamente maior que a China, mas os especialistas acreditam que o país asiático está rapidamente alcançando ou ultrapassando os Estados Unidos em termos de tecnologia militar.

Os próximos passos na disputa entre EUA e China dependem das intenções de ambas as partes. Os Estados Unidos parecem estar focados em manter sua supremacia militar no Pacífico, enquanto a China busca expandir sua influência regional e global. O governo dos EUA tem feito pressão sobre seus aliados para que não façam negócios com a China, enquanto Pequim continua a investir em infraestrutura e tecnologia militar para fortalecer sua presença na região.

Além disso, os Estados Unidos também estão trabalhando para conter o avanço da China no setor de telecomunicações, impondo restrições às empresas chinesas como Huawei e ZTE. Por outro lado, a China tem procurado reforçar sua presença militar na região do Indo-Pacífico, construindo bases militares em ilhas artificiais e realizando exercícios militares frequentes nas proximidades de Taiwan.

No futuro próximo, é provável que vejamos um confronto direto entre os dois países sobre questões regionais importantes como Taiwan e o Mar da China Meridional. É possível que os Estados Unidos tentem bloquear ou limitar o avanço da China nessas áreas por meio de sanções comerciais ou diplomáticas. No entanto, qualquer escalada militar direta poderia ter consequências catastróficas para todos os envolvidos.

Espionagem

Os últimos desenvolvimentos na espionagem China-EUA destacam a intensificação da rivalidade entre os dois países. Com ambos os lados acusados de utilizar tecnologias avançadas para realizar espionagem cibernética e física, esta batalha contínua por hegemonia assumiu uma nova dimensão. Os Estados Unidos e a China estão agora envolvidos em uma corrida armamentista cada vez maior, enquanto cada lado tenta ganhar uma borda sobre o outro. 

Isto levou ambos os países a intensificarem seus esforços em áreas tais como tecnologia, vigilância e coleta de inteligência humana. Além disso, tem havido relatos de tentativas da China de roubar propriedade intelectual de empresas e universidades americanas. A crescente hostilidade entre as duas nações é ainda evidenciada pelo aumento das tensões em relação a acordos comerciais e atividades militares no Mar do Sul da China. Resta saber se as conversas e negociações diplomáticas podem levar a uma resolução deste conflito rapidamente, ou se as tensões continuarão a aumentar no futuro. 

Independentemente do resultado, é evidente que a espionagem entre os dois países atingiu o nível mais alto de todos os tempos. Como ambos os lados procuram obter uma vantagem sobre o outro, a espionagem entre os dois países é provável que continue a ser uma característica proeminente dessa rivalidade contínua.

Legalidade de operações aéreas questionada

O incidente de os EUA abaterem um balão espião chinês levantou muitas questões sobre relações internacionais e questões de segurança. Muitos argumentaram que isto mostra a vontade dos EUA de tomar medidas militares para proteger seus próprios interesses, enquanto outros questionaram se uma medida tão extrema se justificava ou não, dadas as circunstâncias. 

Há também questões sobre a legalidade de tais ações, pois o direito internacional é muitas vezes obscuro quando se trata de atividade militar em solo ou espaço aéreo estrangeiro. Como as tensões entre os EUA e a China continuam a aumentar, será importante monitorar de perto a situação e considerar todos os resultados possíveis antes de tomar qualquer outra medida.

O pior cenário nas tensões EUA-China envolveria um conflito militar em larga escala. Os dois países têm visões diferentes sobre uma série de questões, do comércio aos direitos humanos e a disputa do Mar do Sul da China. Se estes desentendimentos se agravarem, poderá levar a um grande confronto entre os dois lados.

Tal conflito poderia começar com Washington impondo sanções a empresas ou indivíduos chineses, levando a medidas de retaliação por parte de Pequim. Isto poderia desencadear uma guerra comercial, com outros países potencialmente se envolvendo na luta. Em casos extremos, poderia até mesmo levar a um conflito militar total envolvendo tropas terrestres e ataques aéreos.

As consequências de tal conflito seriam de longo alcance e poderiam ter efeitos devastadores na economia global. Os custos econômicos de um conflito militar em larga escala entre os dois concorrentes seriam imensos, com indústrias inteiras sendo afetadas e perdas significativas de empregos em ambos os países. Há também o potencial de instabilidade política a longo prazo em várias partes do mundo, bem como os danos ambientais causados pelo próprio conflito.

Espaço para evolução diplomática?

Portanto, é essencial que ambos os lados tomem medidas para diminuir as tensões e evitar que ocorra o pior cenário possível. Isto exigirá diálogo, diplomacia e compromisso a fim de resolver as divergências em questão. Também é importante que outros países se envolvam nessas conversas e atuem como mediadores entre os dois lados.

Em última análise, uma resolução pacífica é a única maneira de garantir que os EUA e a China possam continuar a ter relações fortes no futuro.

EUA não estão colocando balões para voar sobre a China, diz Casa Branca

Os Estados Unidos não estão lançando balões sobre a China, disse o porta-voz de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, nesta segunda-feira, negando alegações de autoridades chinesas.

“Não é verdade. Não estamos fazendo isso. Simplesmente não é verdade”, disse ele em entrevista à MSNBC. “Não estamos colocando balões para voar sobre a China.”

RFI / DefesaNet

O que se sabe sobre os objetos voadores abatidos pelos EUA

 





Em oito dias, autoridades americanas e canadenses derrubaram um balão chinês supostamente usado para espionagem e mais quatro objetos ainda não identificados, dos quais não se sabe a origem.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ordenou no domingo (12/02) que militares americanos abatessem outro objeto voador não identificado (ovni) que sobrevoava a área do Lago Huron, no estado de Michigan, perto da fronteira com o Canadá. Foi o terceiro ovni abatido em três dias – e o quarto em oito dias, desde que um balão chinês supostamente espião foi derrubado, em 4 de fevereiro.

Autoridades do Pentágono afirmam que essa cadeia de eventos no espaço aéreo americano "não tem precedentes em tempos de paz".

Militares dos EUA e do Canadá recolhem os destroços dos quatro objetos para análise. "Precisamos saber de onde eles vêm, qual é o propósito e por que sua frequência está aumentando", disse a deputada Debbie Dingell, do estado de Michigan.

A seguir, confira o que se sabe sobre os quatro objetos abatidos nos céus dos EUA e do Canadá.

Os objetos abatidos

No começo de fevereiro, o Pentágono tornou público que um balão chinês, supostamente usado para espionagem, sobrevoava uma área crítica dos EUA, no estado de Montana. Após flutuar por dias sobre os EUA, ele foi abatido em 4 de fevereiro por um jato F-22 na costa da Carolina do Sul.

A China admitiu ser a dona do balão, mas disse que se travava de um equipamento civil, sobretudo para pesquisas meteorológicas, que se desviou da rota devido a ventos. O incidente causou o cancelamento da viagem do secretário de Estado americano, Antony Blinken, a Pequim e aumentou a tensão com a China. O governo chinês criticou a derrubada do balão, que tinha o tamanho de três ônibus e pesava mais de uma tonelada.

Os EUA recolheram os destroços e disseram que o balão estava equipado com várias antenas e tinha painéis solares grandes o suficiente para alimentar vários sensores de coleta de informações.

Na sexta-feira (10/02), caças dos EUA derrubaram outro objeto, dessa vez no norte do Alasca, alegando que ele estava "dentro do espaço aéreo soberano dos EUA sobre as águas territoriais dos EUA". Não havia nenhum sistema de propulsão ou controle, disseram as autoridades.

No sábado (11/02), um jato F-22 dos EUA, sob ordens dos governos americano e canadense, derrubou um "objeto aerotransportado de alta altitude" sobre o território central de Yukon, no Canadá, a cerca de 160 quilômetros da fronteira com os EUA, afirmando representar uma ameaça para a aviação civil.

No domingo (12/02), Biden ordenou que aviões militares dos EUA derrubassem um terceiro objeto não identificado sobre o Lago Huron, no estado de Michigan, perto da fronteira com o Canadá.

'Caça F-22 abateu o balão chinês em 4 de fevereiro'

Como eram os objetos

De acordo com o governo americano, os três objetos abatidos desde sexta-feira (10/02) não se assemelham muito com o balão chinês derrubado na semana anterior e são menores do que ele. No entanto, somente com a recuperação dos destroços será possível dar mais detalhes.

No domingo (12/02), o líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, disse à emissora americana ABC que os objetos abatidos eram balões, embora menores do que o veículo chinês derrubado. Schumer disse que recebeu a informação do conselheiro de segurança nacional de Biden, Jake Sullivan. Ele acrescentou que o segundo e o terceiro objetos abatidos voavam a uma altitude de 40 mil pés, ou seja, bem mais baixa do que a do balão, que voava a aproximadamente 60 mil pés.

O objeto abatido no sábado sobre Yukon, no Canadá, foi descrito por autoridades dos EUA como um balão significativamente menor do que o chinês. Já o objeto abatido na sexta teria a forma mais cilíndrica e foi descrito como um tipo de dirigível. Ambos seriam do tamanho de um fusca e acredita-se que ambos tenham uma carga útil, anexada ou suspensa a eles, de acordo com os funcionários que falaram com a agência de notícias Associated Press sob condição de anonimato.

O quarto objeto abatido foi descrito como uma estrutura octogonal com cordas penduradas e não foi considerado uma ameaça militar. No entanto, poderia representar um perigo para a aviação civil, pois voava a cerca de 20 mil pés. Segundo o governo americano, ele não tinha uma "carga útil discernível" e foi abatido por "cautela".

Até agora, apenas o primeiro objeto foi atribuído a Pequim. Não há informações sobre a origem dos demais três objetos.

São ovnis alienígenas?

Quando se fala em ovnis, automaticamente muitas pessoas fazem relação com extraterrestres. No entanto, ovnis (ou UFOs, na sigla em inglês) são qualquer objeto ou luz visto no céu que não pode ser identificado imediatamente.

O general da Força Aérea dos EUA que supervisiona o espaço aéreo americano disse que, no momento, não descartaria a hipótese de alienígenas, assim como qualquer outra explicação.

"Vou deixar a comunidade de inteligência e a comunidade de contrainteligência descobrirem isso", disse Glen VanHerck.

No entanto, outro oficial da Defesa dos EUA – que falou sob a condição de anonimato – afirmou que os militares não viram, até agora, nenhuma evidência que sugerisse que os objetos em questão sejam de origem extraterrestre.

Alta incidência

Parte da explicação para tantos ovnis serem avistados e abatidos nos últimos dias é que, com a descoberta do balão chinês, a vigilância do espaço aéreo aumentou.

"À luz do balão da República Popular da China que derrubamos no sábado passado [04/12], temos examinado mais de perto nosso espaço aéreo nessas altitudes, incluindo o aprimoramento de nosso radar, o que pode, pelo menos em parte, explicar o aumento [do número] de objetos que detectamos", explicou a secretária adjunta de Defesa, Melissa Dalton.

Analistas disseram que os serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Canadá recebem constantemente grandes quantidades de dados brutos e, em geral, concentram-se na ameaça de mísseis – e não em objetos que se movem lentamente, como balões.

"Agora, é claro, estamos procurando por eles. Portanto, acho que provavelmente encontraremos mais coisas", disse Jim Himes, principal democrata do Comitê de Inteligência da Câmara dos EUA, à emissora NBC.

Também segundo autoridades, agora já se sabe que três balões sobrevoaram brevemente o território dos EUA durante o governo de Donald Trump – e não foram detectados na época –
 e um outro já no mandato de Joe Biden.

'EUA alegam que balão chinês era usado para espionagem. Pequim nega'

Como estão as buscas por destroços

Equipes militares trabalhando em aviões, barcos e minissubmarinos vasculham as águas rasas da Carolina do Sul em busca do primeiro objeto, e imagens mostraram a recuperação de um grande pedaço do balão.

As operações para recuperar o segundo objeto continuam no gelo marinho perto de Deadhorse, no Alasca. No entanto, as condições climáticas do Ártico, incluindo vento frio, neve e luz do dia limitada, atrapalham as buscas.

Equipes de recuperação – apoiadas por uma aeronave de patrulha canadense CP-140 – procuram pelos destroços do terceiro objeto, em Yukon.

O Pentágono disse que o FBI está trabalhando em estreita colaboração com a polícia canadense. Sobre os destroços do quarto objeto, até a publicação deste texto não havia informação.

Ovni na China

Paralelamente, a China disse no domingo (12/02) que se preparava para abater um objeto voador não identificado sobre o seu território, informou o jornal chinês Global Times, controlado pelo Partido Comunista Chinês.

Uma autoridade marítima chinesa disse que o objeto voador foi avistado no domingo próximo à costa da cidade de Rizhao, na província de Shandong, entre Xangai e Pequim.

Deutsche Welle 

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