
Charge do Duke (O Tempo)
Mariana Muniz
O Globo
Os efeitos da sinalização de trégua do presidente Jair Bolsonaro em direção ao Supremo Tribunal Federal (STF) serão medidos já nesta semana na Corte, que tem na pauta julgamentos de casos estratégicos para o governo e para os bolsonaristas — o marco temporal das terras indígenas, o pagamento de precatórios e os decretos que flexibilizaram a posse de armas. Sobre o primeiro caso, o presidente exerceu pressão no sábado, afirmando que uma decisão contrária à sua posição equivalerá ao “fim do agronegócio”.
Integrantes do STF avaliam que o momento ainda é de cautela, pois Bolsonaro tem histórico de descumprimentos de acordos de pacificação.
ESPERAR PARA VER – Por isso, entendem os magistrados, é preciso esperar para ver se os compromissos feitos pelo presidente na “Declaração à Nação” serão mantidos e se os ataques desferidos contra membros da Corte “no calor do momento” vão de fato cessar. Dois dias antes de divulgar o texto, o presidente havia chamado de “canalha” o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, além de ter ameaçado descumprir ordens judiciais.
Por ora, segundo apurou O GLOBO, não há qualquer disposição do presidente do STF, Luiz Fux, de marcar nova data para a reunião entre os Poderes que aconteceria em julho e foi adiada. Ainda assim, há o entendimento na Corte de que o recente gesto do presidente foi o maior movimento de pacificação ao Supremo desde o início da crise institucional — e que pode ajudar a destravar o diálogo em temas sobretudo de ordem econômica, como os precatórios.
DENÚNCIA DO FILHO 01 – Além dos itens previstos, um primeiro sinal de distensionamento poderá ser observado também a partir de uma ausência. Depois de um adiamento no dia 31 de agosto, havia a previsão de que fosse julgado na terça-feira o recurso em que o Ministério Público do Rio (MP-RJ) questiona o foro privilegiado concedido a Flávio Bolsonaro.
O processo, no entanto, não foi pautado até o momento. A indefinição travou a análise da Justiça sobre a denúncia apresentada contra o senador — ele foi acusado formalmente de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita e, caso a peça seja aceita, se tornará réu.
No dia seguinte, o plenário do STF voltará a analisar a tese do marco temporal. A retomada será com o voto do ministro Nunes Marques, indicado por Bolsonaro. Na quinta-feira, o relator, Edson Fachin, votou contra o marco temporal, indo no sentido contrário aos interesses da União.
PEDIDO DE VISTA – Por se tratar de uma questão delicada, a expectativa no Supremo é que o julgamento seja interrompido por um pedido de vista. O assunto também é relevante para os ruralistas, favoráveis à tese e segmento em que Bolsonaro encontra apoio.
Não por acaso o presidente pressionou sábado a Corte. Em viagem ao Rio Grande do Sul, Bolsonaro exagerou no impacto caso seja contrariado:
— Temos um problema pela frente que tem que ser resolvido. Se a proposta do ministro Fachin vingar, teremos que… Ou melhor, será proposta a demarcação de novas áreas indígenas no tamanho da região Sudeste. Ou seja, é o fim do agronegócio, simplesmente isso, nada mais do que isso.
PRECATÓRIOS – Já as ações que envolvem precatórios, outro tema de interesse do governo, estão previstas para quinta-feira. São dois recursos apresentados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela OAB questionando a base de cálculo do pagamento de precatórios judiciais. Os casos são relatados por Nunes Marques.
Uma resolução por meio do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vinha sendo articulada por Fux, que ficou irritado com radicalização do discurso de Bolsonaro. Há ainda uma proposta em discussão no Congresso que prevê o parcelamento dos débitos, medida com o potencial de provocar novas ações judiciais na Corte.
Integrantes do governo procuraram ministros do Supremo alertando para o impacto do tema nas contas públicas, segundo O GLOBO apurou. Os ministros da Economia, Paulo Guedes, e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria-Geral, dialogaram com Fux e com o decano da Corte, Gilmar Mendes. A previsão é que os precatórios subam 62% em 2022, atingindo R$ 89,1 bilhões, o que inviabilizaria a intenção do presidente de aumentar os gastos no ano eleitoral.
COMPRA DE ARMAS – Já na sexta-feira, o plenário virtual voltará a julgar as ações que analisam a suspensão de trechos de quatro decretos que flexibilizam a compra, o registro e a posse de armas — normas voltadas para outro grupo que integra a base eleitoral de Bolsonaro.
Há a expectativa de que a Corte derrube trechos dos textos, como um que dispensa o comprador da arma de comprovar que realmente necessita dela. A relatora, Rosa Weber, e Edson Fachin já votaram a favor da suspensão.







