sábado, setembro 11, 2021

Juízes e promotores não precisarão fazer quarentena para disputar eleições

Juízes e promotores não precisarão fazer quarentena para disputar eleições
Foto: Divulgação

Os magistrados e membros do Ministério Público não precisarão fazer uma quarentena de cinco anos para se candidatar a cargos públicos. Após articulação no Congresso das entidades de classe, foi retirado o trecho que previa a medida no Projeto de Lei Complementar 112/21, que institui o Novo Código Eleitoral. O texto foi votado na última quinta-feira (9).

 

Segundo a presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Renata Gil, a própria Constituição assegura aos magistrados a possibilidade de disputar eleições — desde que estejam fora dos cargos públicos. A Lei Complementar nº 64, de 18 de maio de 1990, estabelece o prazo máximo de espera de seis meses após deixarem a função. Para a magistrada, promover qualquer modificação na regra restringiria o exercício de direitos políticos inerentes a todos os cidadãos na democracia.

 

“Não há razão para o aumento da quarentena para que ministros, desembargadores e juízes — bem como promotores e procuradores – possam concorrer a mandatos eletivos, sobretudo via projeto de lei e às vésperas do processo eleitoral. Os marcos legais em vigor já estipulam prazos rígidos para a desincompatibilização, em isonomia com outras carreiras que desfrutam da mesma prerrogativa”, destacou.

 

O autor do destaque que excluiu a exigência de quarentena para magistrados, deputado Major Vitor Hugo, líder do PSL, defendeu a possibilidade de juízes disputarem eleições sem a necessidade de cumprir novo prazo. “A ideia é proteger aqueles que estão no dia a dia tomando decisões graves e que, por isso, seriam punidos, sendo impedidos de se candidatarem e de participarem da vida pública, simplesmente por exercerem funções importantes para o país”, ressaltou. No total, são 898 artigos do novo código eleitoral.

Bahia Notícias

De Jânio Quadros a Bolsonaro, tentativas de ditadura acabam em renúncia e recuo aparente

 

Oscilação torna a situação de Bolsonaro extremamente crítica

Pedro do Coutto

Ao longo dos sessenta anos que separam a renúncia do presidente Jânio Quadros do recuo formal do presidente Jair Bolsonaro em relação aos insultos que dirigiu aos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, a história contempla duas claras tentativas de implantar uma ditadura no Brasil, mas que felizmente não lograram o êxito esperado pelos seus autores ou sequer pelos seus apoiadores.

A condecoração de Ernesto Guevara com a ordem de Tiradentes por Jânio Quadros levou-o a uma forte contradição com o pensamento das lideranças militares. Mas não foi apenas isso que marcou o desfecho de 1961, quando Jânio abriu uma crise institucional que atravessa o tempo e perdura até hoje. No dia 21 de agosto, Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, numa entrevista à TV Tupi revelou ter sido convidado pelo presidente Jânio Quadros a participar de um golpe de Estado. No dia seguinte, a entrevista foi manchete principal da edição do Jornal do Brasil.

SEM APOIO –  Jânio Quadros pensou em decretar intervenção federal na Guanabara, porém não encontrou apoio dos titulares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Partiu então para o lance da renúncia, esperando que o seu gesto levasse uma multidão às ruas a exemplo do que aconteceu em Havana quando Fidel Castro simulou uma renúncia ao poder. O Senado e a Câmara Federal, cujas antenas estavam ligadas pela denúncia de Lacerda, homologaram imediatamente a renúncia, considerando-a como um ato pessoal não sujeito à aprovação pelo Congresso.

Agora, em 2021, o presidente Jair Bolsonaro adotou um caminho diferente de Jânio, mas partiu para o ataque, principalmente contra o Supremo, como ficou claríssimo em seus pronunciamentos em Brasília e na Avenida Paulista. Não encontrou, graças a Deus, respaldo do Exército para desfechar um golpe que o tornasse imperador do Brasil. Ficou absolutamente isolado e teve então que, num gesto extremo, recorrer ao ex-presidente Michel Temer que, de forma inusitada, tornou-se o redator do documento de recuo no qual Bolsonaro tentou se desculpar com Alexandre de Moraes, com Luís Roberto Barroso e com a própria Corte Suprema.

A situação de Bolsonaro tornou-se extremamente crítica e o extremismo da direita que era a sua base de apoio restringiu-se aos grupos para os quais a verdade não importa, num gesto que a transforma num simples desejo, confundindo realidade com vontades. Temos assim, duas investidas históricas de grupos da direita contra instituições nacionais.Mas não foram essas, ao longo do tempo, as únicas investidas contra a vontade das urnas  e contra a democracia.

POSSE DE JK – Em 1955, o então deputado Carlos Lacerda, liderou um movimento sectário contra a posse de Juscelino Kubitschek, vitorioso nas urnas. A investida de Lacerda e da direita exigiu dois movimentos militares liderados pelos  generais Teixeira Lott e Odílio Denys que garantiram a posse de JK. Como se constata, os movimentos subversivos não foram só os que derrubaram João Goulart, culminando com o encontro dos sargentos na sede Automóvel Clube no Rio de Janeiro.

Na ocasião, Dom Hélder Câmara, então bispo auxiliar do Rio, dirigiu uma carta aberta a Carlos Lacerda dizendo que a sua atitude demonstrava a existência de ódio em seu coração e acrescentou nesse documento esquecido pelos historiadores: “Carlos, você fala em tanques e canhões. Você os teme ou os deseja? Faz-me parecer que você os deseja se eles estiverem ao seu lado”.

Dom Helder apontava assim a maior contradição que marcou a vida do jornalista, do deputado e do governador. Sua ânsia de poder o levou ao desastre. A ansiedade configurada também na reunião de 2 de abril de 1964, no Palácio Guanabara, quando ao lado dos governadores Magalhães Pinto, Adhemar de Barros e Petrônio Portela, este do Piauí, afirmou num discurso que era amigo e admirador do general Castello Branco, e desejava ser o seu sucessor nas eleições diretas de 1965. Não houve eleições diretas. Lacerda foi vítima da sua própria ansiedade e o Brasil passou 21 anos sob uma ditadura militar.

COMPORTAMENTO IDOLÓGICO – Em artigo na Folha de S. Paulo ontem, sexta-feira, Ruy Castro acentuou um aspecto que envolve o comportamento ideológico da direita, principalmente por sua extrema. O bolsonarismo, disse, existia antes de Bolsonaro e agora ameaça ressurgir como um bolsonarismo sem Bolsonaro. A ironia do escritor não retira a força da verdade contida na frase e muito menos a força da verdade eternizada pelos acontecimentos históricos.

A extrema-direita estará sempre ao lado de desfechos de força, sobretudo porque a sua mensagem não incluiu qualquer compromisso social e capaz de resultar num programa construtivo de governo que reduza o desemprego e eleve o poder de consumo da população. Pelo contrário, o que caracteriza a extrema-direita é a sua disposição no sentido de concentrar cada vez mais a renda nacional. Assim, a sua alternativa é a da força que nem sempre dá certo, vejam os exemplos de Jânio Quadros, de Jair Bolsonaro e do próprio Carlos Lacerda que se transformou a luz do tempo de adversário da realidade em adversário de si mesmo.

Agora, essa crise é gravíssima e Bolsonaro já está irremediavelmente desmoralizado


Regras claras do governo de Bolsonaro. A charge de Frank Maia | Desacato

Charge do Frank (Arquivo Google)

José Carlos Werneck

A impressão que se tem agora é de que realmente o presidente Jair Bolsonaro está totalmente e irremediavelmente desmoralizado, e isso ocorre exclusivamente por sua culpa. Como não há solução imediata nem a curto prazo, aguardemos os próximos capítulos desta melancólica novela.

No começo da noite desta sexta-feira, experientes observadores da política brasileira comentavam, em Brasília, que estes dias que precederam as manifestações de Sete de Setembro foram fatais para o enfraquecimento político do presidente da República.

UMA CONTRADIÇÃO – Em destaque, uma enorme contradição, porque na terça-feira um número enorme de pessoas saíram às ruas, na terça-feira, mostrando que a força política do presidente não pode ser subestimada. Bolsonaro devia ter dado um “break”, como se diz.

No entanto, como é despreparadíssimo, não parou de falar bobagens e fez declarações totalmente descabidas nos discursos em Brasília e São Paulo, comportando-se de uma maneira inadmissível e inaceitável para um chefe de governo.

Depois, alertado sobre a gravidade de seus desatinos, tentou recuar, com declarações particulares e um telefonema em que pedia desculpas e dava justificativas que soaram como uma prova de covardia, fraqueza e oportunismo.

TUDO EM VÃO – Embora não se conheça o teor do telefonema para o ministro Alexandre de Moraes, foi tudo em vão. O que ocorrera era vexaminoso, o estrago já estava feito e o pior é que a saída encontrada foi outro enorme e irremediável equívoco.

Como diz o velho ditado: “Pior a emenda que o soneto”. E com o agravante de que Bolsonaro não é nenhum poeta, muito pelo contrário…

Assim, Jair Bolsonaro, exclusivamente por sua culpa, deu a seus adversários todos os argumentos de que precisavam para desconstruí-lo totalmente. Entregou a seus inimigos a chave do paiol carregado de munição.

MAIS PREJUÍZOS – Os opositores de Bolsonaro são mais racionais. Agem friamente. Os observadores políticos de Brasília dizem que este final de semana promete mais prejuízos políticos para o presidente da República, que recrudescerão a partir de segunda-feira.

Realmente, agora pode-se falar em crise e crise grave! Aguardemos os próximos capítulos desta melancólica novela, cujo desfecho é só uma questão de tempo!

Lições para aprendermos

 




Nada do que estamos vivendo ocorreria se aprendêssemos algo com o passado

Por Pedro Doria (foto)

Esta coluna tem tema — o impacto das transformações digitais no mundo. Mas esta não é uma semana qualquer. Na terça-feira, logo um 7 de Setembro, o presidente Jair Bolsonaro juntou uma pequena multidão na avenida Paulista e ameaçou violar o artigo 85 da Constituição. É aquele que obriga alguém em seu cargo a cumprir decisões judiciais sob a pena de impeachment. Durante aquele dia, a PM do Distrito Federal resistiu a sete ofensivas contra o Palácio do Supremo. Foi uma tentativa de golpe de Estado, que se frustraria, o que não faz disso menos grave. Dois dias depois, na quinta, perante um impeachment posto no radar, Bolsonaro se acovardou. Tenta recuar do desastre com uma carta escrita pelo ex-presidente Michel Temer. Peço licença, pois, aos leitores habituais da coluna para vestir só nesta semana meu outro chapéu profissional — o do jornalista que escreve sobre história. Porque nada do que estamos vivendo ocorreria se aprendêssemos algo com o passado.

A primeira lição: existe um germe militar autoritário na cultura política brasileira. Sempre que o País se desorganiza, um grupo grande o suficiente de brasileiros bate à porta dos quartéis. Por algum motivo, acreditamos que os militares representam ordem, disciplina e competência. Foi assim em 1889, quando Deodoro pôs abaixo o Império. Também foi assim em 1937, quando Getúlio se apoiou em dois marechais para cercar o Congresso e encerrar o período da melhor Constituição que tivemos até 1988. A eleição de Eurico Gaspar Dutra foi isso. Ia sendo assim em 1954, quando o mesmo Getúlio — agora na outra ponta — meteu um tiro no peito evitando um golpe. Em 1964. E, em 2018, perante o caos deixado pela instabilidade da década de 10, com a eleição de Bolsonaro.

Nunca dá certo. Os governos militares foram uniformemente incompetentes, ineptos, desordeiros, corruptos e desorganizados. A única promessa que militares cumprem no poder é que, ora, autoritários eles são mesmo. Por que não aprendemos que é um desastre? É um mistério. Mas o resultado é sempre o mesmo.

A segunda lição é uma que a centro-esquerda não consegue aprender. É incapaz de pactuar com o Centro democrático. Para a Esquerda brasileira, é como se o Centro não existisse. Tudo para além é a ‘Direita’. Com a Direita fisiológica tem conversa — Getúlio fez muito disso. A Centro-Esquerda então transforma sua vertente radical em massa de manobra. Jango fez muito disso. Pactuar com o Centro? Nunca. Sequer reconhecer a existência de tal coisa. É assim que Fernando Henrique Cardoso passou sua presidência sendo chamado de fascista.

Se tivesse havido um diálogo cordial e democrático em cima da extensa interseção de objetivos de Centro-Esquerda e Centro, a história da Nova República teria sido outra.

Mas este Centro, do qual fazem parte os Liberais, também tem culpa no cartório. Mesmo alguns de nossos melhores Liberais, dentro os mais convictos democratas como Ruy Barbosa e Afonso Arinos, sempre existe esta ilusão do atalho autoritário. Uma ditadura curta vai promover reformas tão difíceis de realizar na Democracia. Um autoritário de pulso firme fará o que é preciso para o Brasil entrar nos trilhos.

Como pode um Liberal apoiar um autoritário? Está entre nossas jabuticabas brasileiras. Sempre dá errado.

A mais cruel das lições é outra. Assim como a Frente Ampla que juntou Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitschek demorou três anos de ditadura para enfim sair, os democratas são incapazes de caminhar juntos perante uma ameaça à democracia. A gente não aprende.

O Estado de São Paulo

Os principais pontos do novo Código Eleitoral aprovado na Câmara

 




Texto-base é da deputada Margarete Coelho (PP-PI), relatora do projeto na Câmara

Deputados aprovam texto-base do projeto que substitui leis eleitorais e partidárias vigentes por um único código. Proposta enfraquece fiscalização de partidos e cria novos crimes eleitorais, entre outros pontos.

A Câmara dos Deputados aprovou nesta quinta-feira (09/09) o texto-base do projeto de lei que estabelece um novo Código Eleitoral no país. Foram 378 votos a favor e 80 contra.

Os deputados ainda analisam os destaques à proposta, ou seja, sugestões apresentadas para alterar trechos do texto. Em seguida, o projeto segue para análise do Senado.

Para valer já para as eleições do ano que vem, a legislação precisa ser aprovada tanto pela Câmara como pelo Senado e sancionada pela Presidência da República pelo menos um ano antes do primeiro turno, ou seja, antes de 2 de outubro.

Com quase 900 artigos e mais de 370 páginas, a proposta reformula amplamente a legislação partidária e eleitoral, revogando as leis vigentes e reunindo as regras em um único código. O texto é criticado por enfraquecer a Lei da Ficha Limpa, diminuir a transparência e flexibilizar a prestação de contas e o uso do fundo partidário pelos partidos, entre outras medidas.

Por outro lado, os deputados decidiram derrubar um dos poucos pontos bem-recebidos por analistas: a exigência de uma quarentena de cinco anos para que juízes, membros do Ministério Público, militares e policiais disputem eleições. Esse item impediria, por exemplo, que ex-juízes como Sergio Moro se candidatem a um cargo eletivo logo após deixar a magistratura.

Os únicos partidos que se manifestaram contra o texto foram o Novo, a Rede e o Psol. Confiram os principais pontos da proposta:

Sondagens eleitorais

O projeto de lei proíbe a divulgação de pesquisas eleitorais na véspera e no dia do pleito. No dia da eleição, só poderá haver divulgação de sondagens após o encerramento da votação em todo o país, no caso da disputa pela Presidência, ou a partir das 17h, nos demais casos. Especialistas afirmam que o veto a institutos confiáveis pode levar à divulgação de números falsos na véspera e no dia da votação e confundir eleitores.

Além disso, o texto obriga os institutos de pesquisa a informarem o percentual de acerto nas sondagens feitas nas últimas cinco eleições. Esse item é criticado pelos institutos, que argumentam que pesquisas servem para dar o retrato de um momento, e não prever o resultado.

Ficha Limpa

Um dos pontos mais polêmicos da nova proposta, segundo especialistas, é que o texto afrouxa pontos da Lei da Ficha Limpa. Em vigor desde 2010, a norma, criada a partir de iniciativa popular, serve para impedir a eleição a cargos políticos de candidatos condenados por órgãos colegiados.

O texto aprovado na Câmara altera o prazo de inelegibilidade estabelecido pela Ficha Limpa. O período continua a ser de oito anos, mas agora começa a contar a partir da condenação, e não apenas a partir do fim do cumprimento da pena. Já para o político condenado a perda de mandato, os oito anos de inelegibilidade contarão a partir da decisão, e não mais a partir do término do mandato, como é atualmente.

Havia risco de os deputados acabarem com uma regra importante da Ficha Limpa, que torna inelegível por oito anos os políticos que renunciam ao mandato para fugir de processos de cassação. No final, porém, os deputados retiraram esse item do texto.

Fundo partidário

A proposta enumera uma série de itens que podem ser financiados com recursos públicos do fundo partidário. A legenda poderá ainda usar a verba para "gasto de interesse partidário, conforme deliberação da executiva do partido", sem precisar especificar o fim do gasto. Atualmente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) expõe esses dados com organização e transparência.

Prestação de contas e multas

Além disso, a proposta estabelece que a prestação de contas dos partidos será feita por meio do sistema da Receita Federal, e não mais pelo sistema personalizado usado atualmente pela Justiça Eleitoral.

As legendas poderão ainda contratar, com verba do fundo partidário, empresas privadas para auditar a prestação de contas, o que analistas veem como uma terceirização do trabalho da Justiça Eleitoral.

O texto ainda reduz de cinco para três anos o prazo para a Justiça Eleitoral julgar as prestações de contas, que passam a ser processos administrativos. Já a multa por irregularidades em prestações passa a ter um teto de R$ 30 mil, e não mais 20% do valor irregular, como é atualmente, podendo chegar a milhões de reais.

Fake news

A proposta estabelece punição para quem compartilhar informações falsas com objetivo de influenciar as eleições. A pena varia de um a quatro anos de reclusão, mais multa.

Se a prática visa "atingir a integridade dos processos de votação, apuração e totalização de votos, com a finalidade de promover a desordem ou estimular a recusa social dos resultados eleitorais", a punição pode ser acrescida de metade a dois terços.

Outro dispositivo prevê mecanismos contra a divulgação de fake news nas eleições ao autorizar a Justiça Eleitoral a suspender perfis identificados como robôs nas redes sociais durante o pleito.

Inclusão

O projeto de lei determina que os votos em mulheres, indígenas e negros valerão por dois para efeitos da distribuição dos recursos do fundo eleitoral. A medida tem o objetivo de aumentar a participação desses segmentos da sociedade no processo eleitoral.

Caixa 2

O novo Código Eleitoral também prevê o crime de caixa 2, descrito como "doar, receber, ter em depósito ou utilizar, de qualquer modo, nas campanhas eleitorais ou para fins de campanha eleitoral, recursos financeiros fora das hipóteses da legislação eleitoral". Contudo, se a irregularidade for de baixo valor, a Justiça poderá deixar de aplicar a pena.

Candidaturas coletivas

O texto prevê a autorização de candidaturas coletivas em cargos de deputado e vereador. Esse tipo de candidatura é caracterizado pela tomada de decisão coletiva nas votações e encaminhamentos legislativos.

O partido deverá autorizar e regulamentar essa candidatura em seu estatuto, mas a candidatura coletiva será representada formalmente por apenas uma pessoa. O texto permite, no entanto, que o nome do coletivo seja registrado na Justiça Eleitoral junto com o nome do candidato, assim como nas propagandas, isso se não criar dúvidas quanto à identidade do candidato registrado.

O partido definirá regras para o uso desse tipo de candidatura, especificando como ocorrerá seu financiamento e a participação da coletividade na tomada de decisão sobre os rumos e estratégias políticas da candidatura.

Transporte de eleitores e comícios

A proposta prevê ainda a descriminalização do transporte ilegal de eleitores, que passa a ser punido na esfera cível com multa de R$ 5 mil a R$ 10 mil.

Os crimes do dia da eleição, como comícios, carreatas, boca de urna e uso de alto-falantes, também se tornam infração cível, com pena de multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil.

Fidelidade partidária

O projeto altera também as regras de fidelidade partidária, estendendo para governadores, prefeitos e presidente a obrigação de permanecer na legenda após a eleição. Atualmente, apenas parlamentares devem cumprir fidelidade partidária. Um dos destaques já aprovados pelos parlamentares limitou a mudança de legenda apenas ao final do mandato, antes da eleição seguinte.

Deutsche Welle

Os órfãos da pandemia - Editorial




Ao todo, cerca de 113 mil brasileiros com até 18 anos perderam ou o pai ou a mãe neste período

Com base num estudo divulgado pela conceituada revista científica The Lancet, que envolveu 21 países sob a coordenação dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, em colaboração com o Imperial College e a Universidade de Oxford, duas respeitadas instituições acadêmicas do Reino Unido, a revista Pesquisa, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), chamou a atenção para mais um importante problema trazido pela pandemia. 

Trata-se da desestruturação familiar que vem sendo causada pelo expressivo crescimento do número de crianças que ficaram órfãs, por causa da morte de seus pais, mães ou avós, em decorrência da covid-19. Segundo o estudo, entre março de 2020 e abril deste ano, mais de 1,5 milhão de crianças desses 21 países perderam os familiares dos quais dependiam por causa da pandemia. 

Os países estudados concentraram 77% das mortes por doenças provocadas pela covid-19. Segundo o estudo, em todos esses países morreram mais pais do que mães e, em alguns, a taxa foi cinco vezes mais alta entre os homens. Com base nesses dados, os autores do levantamento criaram modelos matemáticos para estimar as mortes de cuidadores, principais (pais e mães) ou secundários (avós e tios), decorrentes do coronavírus e monitorar o agravamento do problema. 

Os índices mais elevados de morte dos cuidadores primários foram registrados no Peru, com 10,2 órfãos por mil crianças, na África do Sul (5,1) e no México (3,5). Com uma taxa de 2,4 órfãos para cada mil crianças, o Brasil ficou em quarto lugar nesse ranking. Ao todo, cerca de 113 mil brasileiros com até 18 anos perderam ou o pai, ou a mãe, ou ambos. O problema é que muitas crianças e jovens vivem em famílias monoparentais, com baixa renda. Segundo o IBGE, 40% das famílias brasileiras são chefiadas por mães ou avós. 

“O crescimento da orfandade representa uma pandemia oculta associada à covid-19. Ao perder seus cuidadores, essas crianças e jovens podem enfrentar várias consequências adversas, como pobreza, violência e transferência para creches. Para mitigar os efeitos da situação, é necessário acelerar a distribuição equitativa de vacinas e oferecer apoio psicossocial e econômico para ajudar as famílias a criarem essas crianças sem cuidadores principais, evitando, desse modo, que elas acabem sendo enviadas para orfanatos”, afirma a médica epidemiologista Susan Hills, uma das autoras do estudo.

Além disso, nas famílias em que pai e mãe precisam trabalhar para compor a renda familiar, a perda de recursos decorrente da morte de um deles está levando crianças e jovens a abandonarem as salas de aula para ingressar no mercado de trabalho. Outro problema associado a esse é o fato de que, em 20,6% dos domicílios brasileiros, a renda de pessoas com mais de 60 anos corresponde a mais da metade do orçamento familiar. E em 18,1% dos lares do País a subsistência familiar depende exclusivamente da renda de idosos. “O apoio entre gerações por meio de arranjos familiares tem funcionado como estratégia de sobrevivência no País”, afirma Ana Amélia Camarano, economista e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

Como a incidência de mortes pela covid-19 é bastante alta nas faixas etárias acima de 60 anos, esse é mais um fator que está levando crianças e jovens a deixar de estudar para trabalhar. “A grande quantidade de órfãos da pandemia pode desarticular as possibilidades de o Brasil contar com uma população mais produtiva e qualificada, aprofundando as desigualdades de renda”, diz Juliana Inhasz, professora de economia do Insper.

O estudo do CDC mostra como os países desenvolvidos vêm se preparando para enfrentar os problemas sociais decorrentes da pandemia, como é o caso do crescimento da orfandade, quando ela passar. Já no Brasil, cujo governo é chefiado por um presidente inepto, negacionista e sem compaixão pelos mortos pela pandemia, pouca ou nenhuma atenção tem sido dada a esse problema. 

O Estado de São Paulo

O capitão sem rumo e o empurrão que falta




Por Luís Filgueiras

A ameaça do bolsonarismo de um golpe de Estado no dia 7 de setembro, com invasão do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), mostrou-se mais uma vez um blefe, um anticlímax para os seus próprios militantes – que saíram de Brasília frustrados, porque acreditaram, piamente, que seriam conduzidos pelo seu líder para um novo regime político no país: uma ditadura fascista.

Bolsonaro e o seu governo saem mais fracos das manifestações do que já estavam, apesar de estas terem demonstrado, principalmente em São Paulo, que o movimento neofascista continua ativo e apoiando-os. Mas não é por aí, principalmente, que se pode avaliar a situação de Bolsonaro; como evidenciam todas as pesquisas, ele continua a ter o apoio de um quarto dos eleitores (nem todos identificados com o fascismo) e, por isso mesmo, tende a se reduzir com a piora da situação socioeconômica e a crise institucional do país. Essas manifestações não terão a capacidade de recuperar o apoio político perdido a partir de 2020, desde o início da pandemia.

Ao contrário; com uma pauta explícita e mais agressiva contra a democracia e as instituições do Estado de Direito, as manifestações, ao que tudo indica, aumentaram a fragilidade de Bolsonaro e de seu governo no âmbito institucional e na sociedade, induzindo que partidos e parlamentares até então reticentes passassem a admitir a possibilidade crescente do impeachment. O isolamento político do neofascismo cresceu.

A tática de Bolsonaro fica cada vez mais clara: é de permanente “fuga para frente”. Apesar de vir sofrendo, desde o início da pandemia e com as sucessivas defecções de apoiadores, um processo de perda de apoio popular e de isolamento político-institucional e na sociedade civil, a resposta e as iniciativas políticas do bolsonarismo são cada vez mais agressivas, dando impressão aparente de estar forte e na ofensiva. O anúncio em seu discurso em Brasília, que convocaria o Conselho da República (órgão consultivo) para discutir medidas de exceção, vai na mesma direção, de se manter, aparentemente na ofensiva e de dar uma satisfação aos decepcionados militantes do movimento neofascista. Novos factoides, com novas ameaças a pessoas e instituições, juntamente com teorias conspirativas e a disseminação de notícias falsas, deverão continuar acontecendo. Bolsonaro não pode dar a impressão de estar na defensiva nem de estar recuando.

Na verdade, essa tática, que esconde a fraqueza de Bolsonaro e o seu governo, serve a três objetivos:

1- Testar a resiliência das instituições democráticas e avaliar a possibilidade de execução de um golpe de Estado, o que inclui testar o grau de apoio que poderia haver nas forças armadas no sentido amplo e na sociedade civil para essa aventura.

2- Colocar em atividade permanente o movimento neofascista (o bolsonarismo), núcleo original e fundamental de apoio a Bolsonaro, e que ainda é estratégico para manter a sua competitividade eleitoral em 2022 – inviabilizando a possibilidade da chamada “3ª via” (uma candidatura da direita neoliberal, que se vende como sendo o “centro democrático”).

3- Impor permanentemente, em cada conjuntura, a pauta política do país, com a função de jogar para o fundo da cena política os assuntos que colocam Bolsonaro e o seu governo na defensiva (prática diversionista): a situação econômica do país (inflação, carestia, desemprego, pobreza, estagnação, aumento dos juros, desvalorização do real, crise energética etc.); o desempenho desastroso e genocida no enfrentamento da pandemia, evidente desde o início e mais recentemente revelado sistemática e formalmente pela CPI da Covid; e as denúncias, prisões preventivas e processos em andamento contra os filhos e apoiadores de Bolsonaro que têm por objeto as fake news e práticas inegavelmente corruptas (“rachadinhas” e compra de vacinas).

Nas últimas semanas, de preparação e anúncio dos atos do dia 7 de setembro, ficou evidenciado (por pesquisas, declarações e ações nas próprias manifestações) que os participantes e apoiadores do bolsonarismo nas polícias (militar, civil e federal) constituem uma minoria – apesar da crença bastante difundida em contrário. A expectativa de muitos, de que haveria o protagonismo dessas corporações em atos de violência e indisciplina, com a invasão do Congresso e do STF, com no limite a decretação de um golpe de Estado, não se concretizou.

Além disso, no plano institucional-parlamentar, o chamado Centrão e os presidentes da Câmara e do Senado, sujeitos fundamentais para a viabilização do impeachment de Bolsonaro, explicitaram o seu limite: apesar de seus compromissos com o presidente, não o acompanharão em uma tentativa de golpe de Estado. E no plano institucional-jurídico, o STF e outras instâncias do judiciário e o Ministério Público, apesar de serem parcialmente responsáveis pela situação trágica em que nos encontramos, têm confrontado e colocado em xeque todas as iniciativas antidemocráticas de Bolsonaro, disfarçadas de liberdade de expressão.

Mesmo entre as igrejas evangélicas e seus pastores, bastiões do bolsonarismo, começaram a aparecer publicamente críticos e vozes discordantes, inclusive através da elaboração e divulgação de manifestos. O mesmo ocorrendo com os caminhoneiros, outra forte base do bolsonarismo, com lideranças indo à justiça contra Bolsonaro e a União. Por fim, as várias frações do grande capital, que marcharam unidas no apoio à eleição de Bolsonaro, passaram, ainda que cautelosa e moderadamente, a apresentar divergências (inclusive no interior do capital financeiro) com relação às iniciativas golpistas de Bolsonaro.

Por sua vez, o adesão do PSDB ao impeachment de Bolsonaro, após as manifestações, evidencia, mais uma vez, que a preocupação maior e imediata de Bolsonaro, já há algum tempo, não é com a esquerda ou Lula, mas com a direita neoliberal, pois esta, depois de apoiá-lo, participar de seu governo (na figura de Paulo Guedes e no sequestro do Banco Central) e ir para a oposição, já percebeu (assim como Bolsonaro) que, na impossibilidade de inviabilizar de novo a candidatura de Lula, a alternativa de uma “3ª via” competitiva em 2022 exige a retirada de Bolsonaro (de alguma maneira) da competição eleitoral. É essa direita neoliberal, através de seus representantes e prepostos, quem mais tem incomodado política e concretamente Bolsonaro e o seu governo, nos planos midiático e judicial, ao dificultar enormemente suas ações e “narrativas”. Os alvos específicos das agressões de Bolsonaro nas manifestações mais recentes não deixam margem a dúvidas.

De outro lado, da parte de Lula e da esquerda em geral, mas principalmente da corrente hegemônica do PT, embora no plano do discurso o impeachment continue no horizonte, quase todas as ações políticas estão sendo dirigidas tendo por foco e objetivo primordial a eleição do próximo ano – com o suposto de que o adversário principal, e que ao que tudo indica até agora será derrotado, deve ser Bolsonaro. O discurso de Lula na véspera do dia 7 de setembro é exemplar a esse respeito: não contemplou e nem sequer mencionou, em momento algum, as manifestações contra Bolsonaro e em defesa da democracia, que também ocorreriam concomitantemente às manifestações bolsonaristas. Restringiu-se a criticar o óbvio caráter antidemocrático destas últimas e de Bolsonaro e, principalmente, acenou com a possibilidade de uma mudança do país para melhor, com a alusão implícita à eleição de 2022. Além disso, parte da oposição, e da própria esquerda, não convocaram nem participaram dessas manifestações, com o receio de haver um confronto violento com os bolsonaristas. Apesar disso, o “Grito dos Excluídos” e o “Fora Bolsonaro”, nas cidades em que ocorreram, sempre sem confrontos ou violências, foram significativos e evidenciaram a disposição de luta dos democratas e da esquerda.

A cena política do país é bastante complexa e muito incerta; no entanto, como sempre, podem-se fazer algumas conjecturas:

1- Não há possibilidade política, interna e internacionalmente, para um golpe de Estado clássico, com ruptura institucional (fechamento do Congresso e intervenção no STF) e instalação de uma ditadura, seja esta militar ou pessoal.

2- A candidatura de Lula e o seu favoritismo parecem irreversíveis; um novo golpe jurídico, que o retire de novo da cena política e da eleição, se mostra cada vez mais improvável.

3- A candidatura de Bolsonaro é a segunda mais competitiva, mas dependerá da manutenção do movimento neofascista unido e mobilizado, através de estímulos e orientações políticas como as que se explicitaram nas manifestações do último 7 de setembro. No entanto, a frustração dos seus militantes com o desfecho dos atos realizados nesta data, e que a reunião do tal Conselho da República não conseguirá reverter, poderá iniciar um processo de desidratação do movimento, dificultando ainda mais a reeleição de Bolsonaro – com essa passando a depender de um improvável (para dizer o mínimo) acordo de Bolsonaro com a direita neoliberal.

4- Mas as dificuldades não são apenas de Bolsonaro. A direita neoliberal é a tendência política com maior dificuldade na conjuntura; por um lado, não aceita a candidatura (fortemente favorita) de Lula, mas não tem como impedi-la, e de outro sabe que não conseguirá fazer um acordo com Bolsonaro minimamente confiável. A possibilidade de sua “3ª via”, portanto, exige, cada vez mais, para ser competitiva, retirar Bolsonaro da eleição de 2022. Ainda não achou um caminho para resolver o seu dilema.

Em suma, além de a montanha ter parido um rato no dia 7 de setembro, as ameaças antidemocráticas de Bolsonaro só reforçaram o seu isolamento político, trazendo para a defesa do impeachment segmentos políticos antes contrários ou vacilantes. Portanto, objetivamente, parar Bolsonaro e abreviar o seu mandato continua no cenário político; a sua fraqueza e de seu governo é crescente, mas a possibilidade de sua retirada através de um impeachment, ou de alguma outra maneira, continua incerta. Caso ocorra, abrirá uma conjuntura inteiramente nova, com uma grande derrota do neofascismo no país e um novo momento de ascensão das forças democráticas e de esquerda. Mas para isso, estas últimas têm que ser protagonistas e se colocar na linha de frente pelo impeachment, nas ruas (com grandes mobilizações) e no parlamento.

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