domingo, agosto 15, 2021

Comandante do Exército diz que Alto Comando não aceita ‘interferência política’


Paulo Sérgio Nogueira se equilibra entre Bolsonaro, que almeja demonstrações de apoio, e o Alto Comando, que quer blindar a caserna da política e evitar desgaste para a instituição Foto: Cristiano Mariz / 11-08-2021

Comandante Nogueira é o maior empecilho ao golpe militar

Jussara Soares
O Globo

Desde quando assumiu o comando do Exército, em abril, o general Paulo Sérgio Nogueira se equilibra em uma linha tênue de expectativas. De um lado, o presidente Jair Bolsonaro almeja demonstrações de apoio irrestrito e influência na Força que lhe deu a patente de capitão.

Do outro, integrantes do Alto Comando esperam que Nogueira blinde a caserna da política e evite um agravamento da crise de imagem da instituição.

SEM INTERFERÊNCIA POLÍTICA – Diante da controvérsia, Nogueira negou ao GLOBO o desgaste e deixou claro: “Não há interferência política no Exército” — disse o general por telefone ao Globo após participar ao lado de Bolsonaro de uma cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) neste sábado. “O Alto Comando está com o comandante” — garantiu.

A declaração ocorre após mais uma semana de tensão. Na terça-feira, o general foi convocado para uma reunião ministerial no Palácio do Planalto. Ao fim, o primeiro escalão do governo se perfilou no alto da rampa, junto a Bolsonaro, para acompanhar um desfile de blindados em frente à Praça dos Três Poderes. Entre eles, estava Nogueira. Militares quatro estrelas ficaram desconfortáveis em vê-lo no evento. Nem o próprio comandante parecia à vontade na cena.

Não foi a primeira situação em que Nogueira ficou no meio de interesses difusos de fardados e de Bolsonaro.

O CASO PAZUELLO – Em maio, a cúpula do Exército defendia a punição do general da ativa Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, que participou de uma manifestação no Rio ao lado do presidente, o que é proibido a militares em atividade. Bolsonaro, por sua vez, agiu para blindar o ex-ministro, que acabou ganhando um cargo Palácio do Planalto. O recado foi entendido, e Pazuello se livrou da punição. O comando do Exército ainda impôs um sigilo de cem anos sobre o processo administrativo de Pazuello.

Nogueira enfrentou outra saia justa. Em julho, o ministro da Defesa, Braga Netto, preparou uma nota oficial, assinada também pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, para rebater críticas feitas pelo presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM).

O texto oficial diz que as Forças Armadas não aceitariam “ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo.” Na ocasião, Nogueira estava em viagem ao Rio Grande do Sul. O texto, apresentado à distância, estava pronto para ser assinado.

APOIO AO COMANDANTE – Esses e outros episódios já foram debatidos nas reuniões de integrantes do Alto Comando, que têm se mostrado preocupados com ataques de Bolsonaro às instituições. Ao final, generais estrelados, diante do momento de tensão, reafirmaram apoio irrestrito ao comandante do Exército. O argumento é que Nogueira não pode se opor ao presidente sob risco de conflagrar uma crise no país.

Nogueira chegou ao topo do Exército quando seu antecessor, o general Edson Leal Pujol, foi demitido junto com o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e os comandantes da Marinha e da Aeronáutica. O argumento principal é que Bolsonaro queria uma relação mais próxima com os chefes das tropas.

Descrito como afável, extrovertido e sociável, Nogueira adotou a discrição como regra. Em aparições públicas, calcula o tom das falas para não gerar conflito com o presidente e tampouco parecer que referenda eventuais posições políticas.

O ÚNICO SEM TWITTER – Na estratégia de fugir de polêmicas, Nogueira deixou de usar o Twitter, um dos canais prediletos dos apoiadores de Bolsonaro. A sua última publicação ocorreu no dia 2 de abril, dois dias após ser anunciado no posto mais alto do Exército. Essa postura o diferencia dos comandantes da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior, e da Marinha, Almir Garnier dos Santos, que utilizam as redes sociais.

Nos bastidores, porém, o comandante do Exército faz questão de sinalizar que está aberto a conversar com todas as autoridades. Já recebeu o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Humberto Martins, e esteve com os governadores Ratinho Jr (PSD), do Paraná; Paulo Câmara (PSB), de Pernambuco; e Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul.

Os dois últimos são adversários políticos de Bolsonaro. Nogueira também já se encontrou com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Nessas conversas, segundo o relato de interlocutores, evitou comentários sobre o presidente ou qualquer crise no país.

FIRME CONTRA COVID – A reserva do general à exposição política do Exército já era percebida por interlocutores do militar desde que ele estava à frente o Comando Militar do Norte (CMN), em Belém. A divergência se acentuou no 7 de agosto de 2020, um dia antes de o Brasil superar a marca de 100 mil mortos pela Covid-19, quando Nogueira assumiu o Departamento-Geral de Pessoal do Exército, a maior autoridade de saúde na Força. Na gestão, adotou as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), incluindo uso de máscara nos quarteis e distanciamento social. A adoção dessas medidas era contrária ao posicionamento de Bolsonaro.

Em função disso, o general não cogitava ser promovido ao comando do Exército. Até mesmo porque à frente dele estavam os generais José Luiz Freitas e Marco Antonio Amaro, atual chefe do Estado Maior, que havia sido chefe da segurança da ex-presidente Dilma Rousseff. Segundo integrantes do Planalto, Amaro foi preterido pelo passado de serviços à petista, e Freitas por não ter proximidade com Braga Netto.

EX-EXTROVERTIDO – Quem conhece o general mais intimamente diz que o ar reservado nas cerimônias ao lado do presidente contrasta com o perfil extrovertido que o marca desde os tempos da Aman, onde se formou em 1980. Natural de Iguatu (CE), PS, como gosta de ser chamado, é filho de um funcionário do Banco do Brasil e de uma dona de casa. Católico praticante, tem três filhos: dois majores do Exército e um engenheiro. Na academia, o jovem de 1,82m e bom preparo físico praticou atletismo e futebol. É torcedor do Ceará.

Na trajetória militar, o general foi três vezes instrutor na Aman, e em uma delas como comandante do Curso de Infantaria. Ao menos dez turmas de cadetes passaram por ele, o que faz com que Nogueira tenha relacionamento com oficiais espalhados por todo o Brasil. Na prática, é o comandante que tem as tropas nas mãos.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Reportagem-análise importantíssima de Jussara Soares. Perfeita, da primeira à última linha, nos mostra que só há dois empecilhos ao golpe de Bolsonaro/Braga – o general Paulo Sérgio Nogueira e o Alto Comando do Exército, cuja maioria apoia o comandante na defesa da democracia. São 16 generais de quatro estrelas. Se Bolsonora/Braga conseguirem o apoio de nove deles, logo estaremos voltando a 1964. Como dizia Ary Barroso quando era ataque contra o Flamengo, “eu não quero nem ver”. (C.N.)

Irmão de ajudante de ordens de Bolsonaro vazou inquérito sigiloso em provedor do exterior


Jair Bolsonaro e o deputado Filipe Barros (PSL-PR): enquanto os dois falavam, o link para o inquérito sigiloso foi postado na rede social Mastodon

Na live, Bolsonaro citou dados postados duas horas antes

Malu Gaspar e Mariana Carneiro
O Globo

O inquérito sigiloso daA Polícia Federal divulgado por Jair Bolsonaro em uma entrevista ao programa Pingos nos Is da TV Jovem Pan foi originalmente postado numa rede social alternativa chamada Mastodon pelo desenvolvedor Daniel Cid, irmão do ajudante de ordens do presidente da República, o coronel Mauro Jorge Cid.

O vazamento, tornado público na entrevista, levou o ministro Alexandre de Moraes a determinar a abertura de um inquérito contra o presidente da República.

DUAS HORAS DEPOIS – Os metadados do documento foram acessados pela equipe da coluna sob a orientação do professor Miguel Freitas, pesquisador do Centro de Pesquisa em Tecnologia de Inspeção da PUC do Rio de Janeiro. Eles mostram que o inquérito foi arquivado no servidor brasileiros.social, mantido por Daniel Cid dentro da rede Mastodon, a partir de um provedor fora do Brasil, às 19h30 do dia 4, enquanto Bolsonaro dava entrevista.

Duas horas depois, o próprio Jair Bolsonaro replicou o link com o documento em seus perfis no Telegram, no Instagram, no Twitter e no Facebook. “Conforme prometido em entrevista ao “Pingos nos Is”, segue (sic) os documentos que comprovam, segundo o próprio TSE, que o sistema eleitoral brasileiro foi invadido e, portanto, é violável”, escreveu o presidente.

FAKE NEWS – Segundo o TSE, as afirmações de Bolsonaro distorcem o conteúdo do inquérito aberto em 2018 sobre um ataque hacker ao sistema do tribunal, que nem sequer foi concluído.

A investigação foi pedida à PF pelo próprio tribunal, dez dias após o segundo turno das eleições, para apurar denúncias de um ataque aos sistemas da corte, mas não encontrou indícios de que o ataque tenha afetado o resultado das eleições. Segundo se soube lendo o inquérito vazado, o hacker entrou no sistema, mas não conseguiu acessar o módulo sigiloso das urnas.

Depois da live que Bolsonaro realizou no dia 2 de agosto lançando suspeitas sobre a segurança do processo eleitoral, e da entrevista do dia 4, na Jovem Pan, o próprio tribunal enviou ao ministro Alexandre de Moraes uma notícia-crime contra o presidente, o deputado Filipe Barros e o delegado da Polícia Federal Victor Neves Feitosa, responsável pelo inquérito.

NARRATIVA FRAUDULENTA – No despacho que determina a abertura de investigação, Moraes afirma que o vazamento do inquérito sigiloso “teria o objetivo de expandir a narrativa fraudulenta que se estabelece contra o processo eleitoral brasileiro, com objetivo de tumultuá-lo, dificultá-lo, frustrá-lo ou impedi-lo, atribuindo-lhe, sem quaisquer provas ou indícios, caráter duvidoso acerca de sua lisura”.

A Mastodon vem sendo usada por Bolsonaro para postar conteúdos que foram depois banidos em outras redes, sempre por meio do brasileiros.social. Além do link para o inquérito sigilo, o presidente também já usou o mesmo expediente para divulgar uma cópia de uma edição do Diário Oficial e um artigo sobre os benefícios do “tratamento precoce” contra a Covid-19.

Conhecida por ser uma  rede social “aberta”, ou seja,  que não controla os conteúdos postados, a plataforma prevê que os controle seja feito pelos próprios usuários, que podem isolar quem esteja postando conteúdos ofensivos ou considerados mentirosos.

INGRESSO REJEITADO – A rede social de extrema direita Gab, por exemplo, tentou se inserir na Mastodon depois de ser expulsa de outras plataformas, mas não foi aceita.

Para Freitas, da PUC-RJ, o servidor usado para postar, provavelmente foi escolhida para dificultar a retirada do conteúdo do ar.

“Utilizar um servidor web como forma de compartilhar arquivos grandes não é uma prática atípica, mas  em si. O que não é corriqueiro é utilizar um servidor próprio, hospedado no exterior e com dados de registro de domínio (DNS) ocultos. Isso indica uma tentativa de esconder a origem do material e torna tortuosa a identificação dos responsáveis.”

Santo Antônio de Jesus: Vacinação contra a Covid tem fila e aglomeração neste domingo


Santo Antônio de Jesus: Vacinação contra a Covid tem fila e aglomeração neste domingo
Foto:

A retomada da vacinação contra a Covid-19 em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo, é marcada por longas filas e aglomeração no Ginásio de Esportes Waldemar Queiroz, neste domingo (15), de acordo com informações e imagens publicadas pelo Blog do Valente.

 

Um grande número de pessoas aguardava o início da vacinação no Ginásio de Esportes. Com a circulação de imagens nas redes sociais, internautas passaram a reivindicar a implementação de outros pontos de vacinação, temendo a contaminação pelo coronavírus devido a aglomerações formadas nos dias de imunização.

 

“Com o grande número da população jovem aqui na cidade, era para ter mais que dois pontos de vacina. O correto seria colocar vários pontos de vacinação espalhados pela cidade com urgência”, pontuou um internauta.

 

Segundo a Secretaria de Saúde de SAJ, no último sábado (14), o município recebeu mais 2.004 doses do imunizante que serão integradas à campanha. Ainda conforme a pasta, 500 unidades serão destinadas ao público da zona rural.

 

A vacinação deste domingo (15), para pessoas com 25 anos de idade ou mais, ocorre no Ginásio de Esportes e no “drive thru” montado no estacionamento da farmácia Drogasil, até às 14h.

Bahia Notícias

"É inaceitável que não se fale sobre reinfecção, internação e morte entre os já vacinados".

 

AUG



Ligar cada morte ou internação a uma variante, uma vacina e às comorbidades da pessoa é indispensável para entender o complexo jogo de xadrez que constitui hoje a interação do Sars-CoV-2 e a população de um país. 

Por Fernando Reinach (foto), biólogo 

Quando uma pessoa como Tarcísio Meira morre de covid, a explicação dada à população é de que nenhuma vacina é 100% eficaz em prevenir mortes. Isso é óbvio. Mas isso não é suficiente, e a pergunta que ocorre a toda pessoa minimamente informada é qual vacina ele tinha tomado e qual foi a variante do vírus responsável por sua morte. Ligar cada morte ou internação a uma variante, uma vacina e às comorbidades da pessoa é indispensável para entender o complexo jogo de xadrez que constitui hoje a interação do Sars-CoV-2 e a população de um país.

No início da pandemia, observamos uma corrida entre o vírus original, que ameaçava infectar rapidamente toda a população mundial, e o ser humano, que desejava retardar seu espalhamento para evitar o colapso do sistema hospitalar e ganhar tempo para desenvolver vacinas. Uma briga do vírus contra o tempo.

Passado um ano e meio, a situação é diferente. Diversos imunizantes foram desenvolvidos. Sabemos desde o início que diferentes tecnologias resultaram em vacinas com diferentes características. Algumas com uma alta eficácia, outras com média e outras com baixa. Além disso, os conhecimentos que temos sobre a maneira como cada produto nos ajuda a combater o vírus varia de vacina para vacina. Assim, falar “das vacinas” como algo homogêneo é uma enorme falácia.

Não bastasse a diversidade de vacinas, o vírus já não é mais homogêneo. Surgiram diferentes variantes – Alfa, Beta, Gama e Delta, cada uma com diferentes propriedades. As diferenças entre as variantes incluem sua capacidade de propagação e sua capacidade de driblar cada imunizante. Assim, quando o vírus encontra um ser humano vacinado temos uma batalha – cujo desfecho depende das condições de saúde da pessoa, dos cuidados recebidos, da variante presente, e da vacina usada. O que antes era uma briga do vírus contra o tempo agora se transformou em uma briga entre as variantes do vírus e as vacinas; e ela transcorre de maneira diferente em cada país.

Essas diferenças decorrem de três fatores: a velocidade com que um país consegue vacinar sua população, as vacinas que cada país está usando na imunização e a variante do vírus que está presente em cada país. Em cada país, a guerra mais parece um jogo de xadrez em diferentes estágios.

Os países desenvolvidos já entenderam esse jogo e estão coletando dados para ganhá-lo. Eles monitoram as variantes e a quantidade de vírus em circulação. Monitoram como as pessoas vacinadas com cada uma das vacinas responde a cada variante do vírus. E com base nessas informações aumentam o ritmo da vacinação, diminuem o espaço entre doses e, mais recentemente, têm decidido vacinar os mais jovens e ministrar uma terceira dose para os mais velhos. São decisões que dependem da posição das peças do xadrez naquele instante, naquele país. E será assim nos próximos meses.

É por isso que é inaceitável que no Brasil não sejam divulgados os dados sobre a taxa de reinfecção, internação e morte entre os já vacinados com cada uma das quatro vacinas que estamos usando e entre os que já contraíram o vírus no passado. Esses dados são, por lei, comunicados à Anvisa e desaparecem lá dentro. A imprensa se acovarda e não exige acesso. A razão é que, caso os dados mostrarem que uma vacina é inferior a outra, a população pode preferir um imunizante ou outro. E como as vacinas, por incrível que pareça, estão associadas a diferentes grupos políticos, isso dará munição para a disputa eleitoral. Todos sabemos que vacina tomamos, mas se soubermos os riscos que corremos após a vacinação, podemos nos precaver de maneira diferente.

Além disso, provavelmente vamos exigir do governo as medidas necessárias para corrigir o rumo. É gozado que pessoas que se recusam a usar a expressão imunidade de rebanho – alegando que pessoas não são gado –, tratem a população como um rebanho a ser vacinado, que deve se comportar de forma passiva e continuar desinformado. Afinal, alguma vaca é informada das vantagens e desvantagens da vacina que recebe no brete?

O Estado de São Paulo

Estresse institucional - Editorial

 



Prisão de Jefferson, decidida pelo STF, acentua tensão provocada por Bolsonaro

Personagem sinistro da política nacional, condenado pela Justiça por envolvimento em esquemas de corrupção, Roberto Jefferson tem se notabilizado nos últimos tempos pela adesão ao radicalismo golpista que insufla a ala mais extremada do bolsonarismo.

Em manifestações nas redes sociais, o presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) dedica-se a pronunciamentos e encenações bizarras nos quais empunha armas, ofende adversários e incentiva ataques a magistrados, tribunais e instituições democráticas.

Tais espetáculos levaram a Polícia Federal a solicitar a prisão preventiva do ex-deputado, no âmbito da investigação sobre suposta organização criminosa digital, aberta em julho pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, após o procurador-geral da República, Augusto Aras, pedir o arquivamento de inquérito sobre atos antidemocráticos.

Moraes acatou o pedido de prisão. Na quinta-feira (12), depois de tomar ciência da medida, Lindôra Araújo, subprocuradora-geral da República, afirmou que o STF não seria o foro competente para analisar a representação policial, uma vez que Roberto Jefferson não exerce cargo público que se enquadre em tal prerrogativa.

A Procuradoria entendeu, ainda, de maneira enviesada, que a prisão serviria para evitar novas postagens, o que redundaria em cerceamento à liberdade de expressão.

Na visão de Moraes, que listou indícios de mais de dez crimes nas atitudes de Jefferson, o político divulgou vídeos e mensagens com o “nítido objetivo de tumultuar, dificultar, frustrar ou impedir o processo eleitoral, com ataques institucionais ao TSE e ao seu presidente”.

Considerou também que “o representado pleiteou o fechamento do Supremo Tribunal Federal, a cassação imediata de todos os ministros para acabar com a independência do Poder Judiciário, incitando a violência física contra os ministros, porque não concorda com os seus posicionamentos”.

A decisão controversa do magistrado, desafeto dos bolsonaristas, se inscreve num quadro de agudo conflito institucional estimulado pelas omissões da PGR em temas contrários aos interesses da Presidência da República e fomentado pela incessante, ameaçadora e inadmissível atuação de Jair Bolsonaro para desacreditar o processo eleitoral e a Justiça.

Pressionado pelo desgaste de sua popularidade, questionado pelas investigações da CPI da Covid e forçado a recorrer a negociatas políticas que condenava em sua campanha eleitoral, o presidente extrapola em ameaças golpistas e atua como um fator de instabilidade e estresse institucional. É tudo de que o país não precisa.

Folha de São Paulo

A prisão de Zelig

 



Jefferson, um aliado incondicional de Jair Bolsonaro e de seus métodos ultradireitistas, é o maior farsante da política nacional dos últimos 50 anos

Por Ascânio Seleme (foto)

Esta coluna queria tratar do déspota da pauta da Câmara. Tentaria mostrar que o deputado Arthur Lira, sem constrangimento e cada vez mais enfaticamente, faz o que bem lhe dá na telha na condução dos temas da Casa. Como presidente da Câmara, ignora mais de cem pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro, mas dá andamento a pautas tão esdrúxulas quanto extemporâneas como a reforma política menos de quatro anos depois da última mudança e antes dela ter sido testada em pleito nacional. O assunto era bom. Aliás, o que não falta no Brasil é assunto. Tanto que amanhecemos na sexta com a prisão de Roberto Jefferson, presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que roubou a coluna de Lira.

Jefferson, um aliado incondicional de Jair Bolsonaro e de seus métodos ultradireitistas, é o maior farsante da política nacional dos últimos 50 anos. Ao longo de sua carreira política, já ocupou espaço em todos os lados do espectro político. Durante a ditadura, era filiado ao MDB, único partido de oposição ao regime militar. O homem que hoje prega o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal iniciou sua trajetória ao lado dos que defendiam o voto direto e a anistia ampla, geral e irrestrita, o fim do AI-5, das prisões políticas e da tortura.

Com o fim do bipartidarismo, mas ainda no governo do último general, João Figueiredo, deixou o MDB e fez um rápido pouso no PP, partido de centro, antes de aterrissar no PTB, sigla que Leonel Brizola perdeu para Ivete Vargas, sobrinha neta de Getúlio Vargas. O PTB, que antes da ditadura era o partido do trabalhismo histórico, virou um agrupamento de centro-direita e assim vem navegando pela política nacional desde 1981. Jefferson, como o partido que preside, faz o ziguezague característico de gente ou agremiação fisiológica e sem firmeza ideológica.

No governo de Fernando Collor, foi um dos mais destacados membros da tropa de choque que defendeu mas não conseguiu evitar a cassação do mandato do presidente. Passou a ser reconhecido pela sua truculência. Foi também citado entre os envolvidos no escândalo de propinas que resultou na CPI do Orçamento instalada logo depois do afastamento de Collor. Mas essa biografia degradada não impediu que o PT aceitasse o seu apoio no segundo turno da primeira eleição de Lula em 2002 e, no governo, desse cargos a aliados de Jefferson.

O homem que antes de ser preso invocou “Deus, pátria e família”, tripé do fascismo, governou com o PT até traí-lo e denunciá-lo no caso do mensalão. O episódio só se desenrolou porque Jefferson sentiu-se traído por José Dirceu que nada fez quando eclodiu um escândalo de propina nos Correios, dirigido por aliado do petebista. O então deputado deu em seguida uma entrevista para a jornalista Renata Lo Prete, então na “Folha de S. Paulo”, dizendo que o PT pagava aos partidos por seu apoio no Congresso. Foi uma bomba que teve diversos desdobramentos, inclusive a cassação e a posterior prisão de Roberto Jefferson.

O ex-deputado lembra Zelig, um dos mais interessantes personagens criados por Woody Allen no filme de mesmo nome. Leonard Zelig, interpretado por Allen, era um homem absolutamente sem graça, mas que tinha um distúrbio que lhe dava capacidade de transformar sua aparência tornando-a igual a de todos de quem ele se aproximava. Poderia também ser comparado a Mel, outro personagem de Woody Allen, vivido por Robin Williams em “Desconstruindo Harry”. Mel, que seria o alter ego de Harry, passa o filme todo fora de foco, literalmente.

Obviamente Jefferson é muito pior que Zelig, por ser um imitador barato, que muda o discurso e a cor de sua bandeira unicamente por interesse fisiológico. Também é pior que Mel, porque este tenta achar um foco, enquanto Jefferson deliberadamente prefere operar no escuro, no opaco, longe de olhos atentos, ou fora de foco. Sua prisão é justa e lembra mais uma vez como é urgente um controle mais eficiente que impeça a propagação de conteúdos de ódio nas redes sociais.

Vexame sombrio

O vexame só não foi maior porque o desfile de tanques teve um componente político que transcendeu ao clima farsesco e ridículo que o envolveu. Foi uma intimidação ao Congresso sob qualquer ponto de vista. Foi uma evidente tentativa de mostrar força, apesar de só ter externado truculência. Foi intolerável. Mais uma vez o governo mais estúpido da história da República brasileira cometeu um ato intolerável. E mais uma vez vai ficar por isso mesmo. A única alegria daquele dia triste foi o ato ter acabado se tornando num desfile patético de sucatas que se arrastaram pela esplanada engasgando, pipocando e soltando fumaça preta de óleo mal queimado.

Ninguém perdeu

Mal saiu do plenário que rejeitou o voto impresso e o presidente da Câmara começou a pregar que ninguém perdeu com o resultado histórico. Como ninguém perdeu? Quem defendia a mudança foi derrotado categoricamente, perdeu, apesar do esforço de Arthur Lira em mostrar o contrário. Aliás, tem deputado sussurrando em Brasília que Lira buscou votos de última hora a favor do projeto para evitar derrota acachapante de Jair Bolsonaro. Além de proteger o presidente, Lira defendia o Centrão, outro derrotado na sua primeira prova de força no Congresso Nacional.

Nem prece, nem tanque

A bancada evangélica que saiu em defesa do voto impresso (75% dos seus membros votaram a favor) foi outra abalroada pela rejeição da Câmara. Não houve prece que conseguisse aprovar a volta absurda do voto impresso. Tampouco houve tanque com força para tanto. Foi um desfile de derrotas.

Aécio outra vez

Maior vexame do que o promovido pelo desfile de cacarecos foi o de Aécio Neves. O deputado e ex-candidato a presidente se absteve de votar contra a emenda do golpe, apelidada na Câmara de PEC do voto impresso. Seu não voto significa apoio à proposta de Bolsonaro. Um vexame de quem não honra o sobrenome de Tancredo. Junto, Aécio arrastou consigo outros 19 deputados do PSDB que votaram a favor da emenda ou se recusaram a votar.

Compromisso de Bozo

Arthur Lira disse aos repórteres credenciados no Congresso que na véspera da votação da PEC do voto impresso conversou com Bolsonaro e este lhe garantiu que aceitaria qualquer resultado. Oras, francamente. Precisava consultar o presidente? Se ele dissesse que não aceitaria o resultado, e daí? O que você faria, nobre deputado? E, claro, Bozo não cumpriu o combinado como se viu.

Fará falta

José Serra vai fazer falta no Senado durante os quatro meses de licença que tirou para tratar de Parkinson. Trata-se do mais produtivo senador da República. Nos seus seis anos e meio de mandato, aprovou 26 projetos de lei e outros 47 aguardam votação. Também aprovou uma emenda à Constituição das cinco que submeteu ao plenário e ainda tramitam na casa.

O dono da pauta

Arthur Lira (foi cheia a semana do deputado) ainda precisa explicar a decisão monocrática de retirar poder do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara. Na sessão que cassou a ex-deputada Flordelis, Lira anunciou mudança no trâmite de processos de cassação, permitindo que o plenário mude o teor da decisão do Conselho. Antes, o plenário podia acatar ou rejeitar o relatório do Conselho, agora pode mudar o seu conteúdo, abrandando a pena do parlamentar denunciado. É bom não esquecer que em fevereiro Lira tentou aumentar ainda mais a blindagem de deputados. Foi derrotado.

Presença maior

A sessão de Flordelis, aliás, teve 457 votos. A da PEC do voto impresso teve dez a menos. Claro que a cassação da deputada era tão importante quanto tardia, mas a emenda do golpe merecia mais atenção e maior rejeição dos ilustres deputados.

Dar por lido

Assistir a sessões da Câmara pode resultar em surpresas curiosas. Na sessão da cassação de Flordelis, o deputado Rubens Pereira Jr (PCdoB-MA) pediu a volta do “dar por lido”. Trata-se de um instrumento antigo e que havia sido banido na Casa em que um parlamentar finge que lê um discurso no plenário e os demais fingem que ouvem. O discurso escrito é entregue à Mesa e publicado nas mídias oficiais da Câmara. Trata-se de um faz de conta que é a cara do Congresso. É o engana eleitor.

Índios fora

O presidente do Brasil recebeu esta semana um grupo de índios, ou brasileiros originários, no Palácio do Planalto. Mas do lado de fora. Na calçada. É assim que opera Bolsonaro. Por sorte do Brasil, um cocar (maior símbolo de azar na política) foi colocado em sua cabeça.

Por fim

Qual é mesmo o treinamento militar que a Marinha faz em Formosa, cidade do interior de Goiás que fica a 1.169 quilômetros do porto marítimo mais próximo, o do Rio de Janeiro? Claro que o almirantado vai ter uma explicação. Mas, considerando que o mar é um detalhe e o negócio é operar em terra, sugiro que no próximo ano a Marinha brasileira faça uma operação conjunta com a boliviana. Tem tudo para ser um sucesso.

O Globo

“Bolsonaro veio para ficar e para acabar com a direita tradicional”, diz Mario Vitor Santos

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Advogados repudiam pedido de processo de Bolsonaro contra ministros do STF

por Por: Mônica Bergamo | FolhaPress

Advogados repudiam pedido de processo de Bolsonaro contra ministros do STF
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil

O grupo Prerrogativas, que inclui juristas, advogados, professores, pareceristas e ex-membros do Ministério Público, divulgou nota em repúdio à declaração do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de que irá pedir ao Senado abertura de processo contra os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal). Barroso também preside o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
 

Um dia após a prisão de seu aliado Roberto Jefferson, Bolsonaro afirmou neste sábado (14) não provocar nem desejar uma ruptura institucional e disse que vai levar ao Senado um pedido de abertura de processo contra os ministros.
 

"Jair Bolsonaro mais uma vez subverte as responsabilidades do cargo que ocupa, ao tentar constranger o livre exercício do Poder Judiciário. E o faz em flagrante atentado ao cumprimento adequado das funções dos mencionados ministros do Supremo", diz o Prerrogativas em nota.
 

O grupo enaltece a figura dos dois ministros. "Alexandre de Moraes tem demonstrado agir com louvável determinação em defesa das instituições de Estado e contra atos extremistas e contrários ao sistema constitucional", diz.
 

"Luís Roberto Barroso vem sustentando a higidez do processo democrático , de modo a assegurar o fiel cumprimento do calendário eleitoral de 2022, rejeitando com argumentos incontestáveis as iniciativas desestabilizadoras protagonizadas pelo presidente da República e por seus apoiadores", segue o texto.
 

O Prerrogativas diz ainda que Bolsonaro ataca os ministros e ameaça "com a intenção de desviar o foco do desastre que tem sido a condução de seu governo, flertando com ilusões autoritárias e de novo transgredindo as obrigações inerentes ao seu cargo."
 

"É preciso reagir! Os poderes Legislativo e Judiciário haverão de aliar-se à sociedade civil para qualificar devidamente mais uma conduta criminosa do presidente da República. Basta de atos tresloucados e irresponsáveis!", finaliza a nota.
 


 

Leia a íntegra da nota do Prerrogativas abaixo:
 

"O grupo Prerrogativas, que reúne juristas, professores de Direito e profissionais da área jurídica, movidos permanentemente pelo resguardo do Estado de Direito, vem manifestar, em nome da sociedade civil e da comunidade jurídica, sua veemente reprovação ao comportamento anômalo e golpista do presidente da República, ao anunciar a apresentação de pedidos de impeachment contra os ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.
 

Jair Bolsonaro mais uma vez subverte as responsabilidades do cargo que ocupa, ao tentar constranger o livre exercício do Poder Judiciário. E o faz em flagrante atentado ao cumprimento adequado das funções dos mencionados ministros do Supremo.
 

Alexandre de Moraes tem demonstrado agir com louvável determinação em defesa das instituições de Estado e contra atos extremistas e contrários ao sistema constitucional.
 

Luís Roberto Barroso vem sustentando a higidez do processo democrático , de modo a assegurar o fiel cumprimento do calendário eleitoral de 2022, rejeitando com argumentos incontestáveis as iniciativas desestabilizadoras protagonizadas pelo presidente da República e por seus apoiadores.
 

Jair Bolsonaro os ataca e ameaça com a intenção de desviar o foco do desastre que tem sido a condução de seu governo, flertando com ilusões autoritárias e de novo transgredindo as obrigações inerentes ao seu cargo.
 

É preciso reagir! Os poderes Legislativo e Judiciário haverão de aliar-se à sociedade civil para qualificar devidamente mais uma conduta criminosa do presidente da República. Basta de atos tresloucados e irresponsáveis!"

Bahia Notícias

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