sexta-feira, setembro 13, 2019

Celso de Mello sinaliza que vai votar a favor da Lava Jato e desmontar o complô


Celso de Mello fez um discurso emocionante no Supremo
Rafael Moraes MouraEstadão
O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Celso de Mello, aproveitou a sessão desta quinta-feira, dia 12, que marcou a despedida da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, para fazer uma defesa enfática do papel do Ministério Público, que ‘não serve a governos, a pessoas, não se subordina a partidos políticos’ e ‘não se curva à onipotência do poder ou aos desejos daqueles que o exercem’.
Dentro do Supremo, a incisiva fala do decano foi interpretada como um duro recado ao presidente Jair Bolsonaro, que indicou o subprocurador-geral da República Augusto Aras para suceder a Raquel Dodge no comando do Ministério Público Federal (MPF). Sem disputar a lista tríplice, Aras foi visto como o candidato que melhor soube ler os sinais de Bolsonaro quanto aos requisitos para nomeação ao cargo.
Bolsonaro já disse que quer um novo PGR que não seja “radical na questão ambiental”, nem que aja como um “xiita”, nem “atrapalhe” projetos de infraestrutura, sendo “alinhado” com o Brasil. O nome de Aras ainda depende de aprovação do Senado.
INDEPENDÊNCIA – “O Ministério Público não serve a governos, não serve a pessoas, não serve a grupos ideológicos, não se subordina a partidos políticos, não se curva à onipotência do poder ou aos desejos daqueles que o exercem, não importando a elevadíssima posição que tais autoridades podem ostentar na hierarquia da República”, discursou Celso de Mello, sem citar nomes, na abertura da sessão plenária desta quinta-feira do Supremo.
“O Ministério Público também não deve ser o representante servil da vontade unipessoal de quem quer seja, ou instrumento de concretização de práticas ofensivas aos direitos básicos das minorias, quaisquer que elas sejam, sob pena de o Ministério Público se mostrar infiel a uma de suas mais expressivas funções, que é, segundo o que diz a própria Constituição Federal, a de defender a plenitude do regime democrático”, completou o decano.
POSICIONAMENTO – Desde que Bolsonaro assumiu o comando do Palácio do Planalto, Celso de Mello tornou-se um dos principais defensores de direitos de minorias e da liberdade de expressão dentro da Corte.
O decano foi o relator de uma das ações sobre a criminalização da homofobia, votando para enquadrar a discriminação contra homossexuais e transexuais como crime de racismo, em um voto histórico de 155 páginas que foi lido por seis horas e meia. O julgamento contrariou os interesses da frente parlamentar evangélica e do Palácio do Planalto.
No mês passado, em entrevista exclusiva ao Estado, Celso disse que Bolsonaro “minimiza perigosamente” a importância da Constituição e “degrada a autoridade do Parlamento brasileiro”, ao reeditar o trecho de uma medida provisória que foi rejeitada pelo Congresso no mesmo ano para retirar da Funai a demarcação das terras indígenas.
REAÇÃO A CARLOS – Segundo o Estado apurou, o decano reagiu nesta semana com indignação ao comentário do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, de que “por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”. Nesta quinta-feira, Celso enfatizou que não há salvação fora da ordem democrática.
“Regimes autocráticos, governantes ímprobos (desonestos), cidadãos corruptos e autoridades impregnadas de irresistível vocação tendente à própria desconstrução da ordem democrática temem um Ministério Público independente”, frisou Celso de Mello, que já atuou no Ministério Público de São Paulo antes de ser indicado pelo então presidente José Sarney para assumir uma das cadeiras do STF, em 1989.
“O Ministério Público, longe de curvar-se aos desígnios dos detentores do poder, tanto do poder político quanto do econômico ou corporativo ou ainda do poder religioso, tem a percepção superior de que somente a preservação da ordem democrática, fora da qual não há salvação, e o respeito às leis dessa República revelam-se dignos de sua proteção institucional”, afirmou o decano.
PRECONCEITOS – Celso destacou que no Brasil ainda há “situações conflituosas” que expõem a patrimonialização da coisa pública ou “que submetem pessoas indefesas e grupos minoritários ao arbítrio do Estado onipotente ou ao desprezo de autoridades preconceituosas”.
“Sem se falar naquela massa enorme de explorados e despossuídos como os povos da floresta, e os filhos da natureza, que são injustamente degradados pela avidez predatória dos que criminosamente transgridem com insensível desrespeito as leis, a consciência moral, a solidariedade social e a constituição os valores básicos sob os quais se devem fundar qualquer sociedade digna, justa e fraterna”, frisou o ministro.
O governo Bolsonaro entrou na mira da comunidade internacional pela sua postura no enfrentamento de focos de incêndio na região amazônica.
DISSE RAQUEL – Em sua despedida, Raquel Dodge disse que no Brasil e no mundo “surgem vozes contrárias ao regime de leis, ao respeito de direitos fundamentais e ao meio ambiente sadio para as futuras gerações”.
“Nesse cenário é grave a responsabilidade do Ministério Público, mas é singularmente importante a responsabilidade do Supremo Tribunal Federal, do Ministério Público, para acionar o sistema de freios e contrapesos, para manter leis válidas perante a Constituição, para proteger o direito e segurança para todos, para defender minorias”, afirmou Raquel Dodge.
A procuradora-geral da República contou com o apoio de ministros do STF e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para ser reconduzida ao cargo por mais dois anos, mas acabou preterida por Bolsonaro.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Adeus às ilusões. Equivocou-se quem pensou que Celso de Mello iria apoiar a demolição da Lava Jato. Sua sinalização é clara. Como temos afirmado aqui na Tribuna, o ministro Celso de Mello vai se posicionar do lado do Bem, mostrando que este país ainda tem salvação(C.N.)

Deputados requerem criação de ‘CPI da Lava Jato’ para apurar condutas de força-tarefa e Moro

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Requerimento se baseia nos diálogos divulgados pelo Intercept
Breno Pires
Estadão
Deputados protocolaram nesta quinta-feira, dia 12, na Câmara um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar possíveis ilegalidades na relação entre agentes públicos que atuaram na Operação Lava Jato, tendo como justificativa mensagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil. O pedido diz que as mensagens revelam um “conluio entre as autoridades”, que “pode ter acarretado processos corrompidos em termos de violações a garantias fundamentais e à negativa de direitos”.
O requerimento afirma que o ministro da Justiça, Sérgio Moro, e procuradores do Paraná tentaram usar a estrutura do Poder Judiciário em proveito próprio e para fins políticos. Os crimes que a CPI se propõe a investigar são fraude processual, prevaricação, advocacia administrativa e abuso de autoridade. Assinam o pedido de criação da CPI os deputados André Figueiredo (PDT-CE), Alessandro Molon (PSB-RJ), Daniel Almeida (PCdoB-BA), Ivan Valente (PSOL-SP), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Orlando Silva (PCdoB-SP), Paulo Pimenta (PT-RS) e Tadeu Alencar (PSB-PE).
INTERESSE PÚBLICO – Para que a CPI seja aberta, são necessárias 171 assinaturas, número que foi alcançado. A Secretaria-Geral da Mesa Diretora ainda está conferindo as assinaturas, que estavam sendo coletadas desde junho. Depois dessa etapa, caberá ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), decidir se há um fato determinado e de relevante interesse público que justifique a instalação da CPI.
“A CPI tem por objetivo analisar um fato relevante que ainda não foi investigado. Esse episódio todo é muito nebuloso e até o presente momento não foi objeto de nenhuma investigação. Há um sentimento forte de que deve haver investigação e a CPI é uma ferramenta adequada para isso”, disse ao Estado o líder do PT na Câmara, deputado Paulo Pimenta (RS). Segundo o líder do PSOL, Ivan Valente (SP), a CPI tem por objetivo investigar a “violação de regras legais e o conluio dos procuradores de Curitiba com o juiz Sérgio Moro”.
IRREGULARIDADES – O deputado afirmou também que as mensagens publicadas pelo site The Intercept Brasil e outros veículos de comunicação indicam irregularidades praticadas por agentes da Polícia Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). “Isso tudo precisa ser colocado às claras”, disse. Pimenta e Valente não souberam informar o número exato de assinaturas coletadas, mas apenas que foram superadas as 171 necessárias para abertura da CPI.

Senadora do PSL relata ligação e grito de Flávio Bolsonaro para inviabilizar CPI da “Lava Toga”


Senadora diz que PSL tem “muita gente sem história política”
Daniel Carvalho
Folha
Uma das signatárias do requerimento para criar uma comissão parlamentar de inquérito para investigar integrantes do Supremo Tribunal Federal, a senadora Juíza Selma (PSL-MT) disse que foi procurada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e pelo senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro (PSL), para retirar sua assinatura e inviabilizar a CPI da Lava Toga
Em entrevista à Folha, Selma, 56, disse que Flávio chegou a gritar com ela ao telefone em ligação no último dia 21. “Eu me recuso a ouvir grito, então desliguei o telefone.” Nesta semana, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, se manifestou favoravelmente à cassação da senadora por caixa dois e abuso de poder econômico. A PGR diz que a campanha deixou de contabilizar R$ 1,232 milhão e omitiu 72,29% dos gastos. A senadora diz que está sendo acusada por algo que fez na pré-campanha.
Seu gabinete divulgou nota no início da semana informando que, por causa de “divergências políticas internas” e “pressão partidária pela derrubada da CPI da Lava Toga”, a senhora cogitava deixar o partido. A senhora. está de saída do PSL?
Estou cogitando ainda, conversando com alguns partidos. Mas não pretendo sair da base do governo.
De onde partiu esta pressão?
A pressão vem de todo lado. A gente sofre um bombardeio. Ontem [quarta-feira, 11], um dos senadores que assinou também relatou que está sendo pressionado. Mas, das pessoas que assinaram, a mais vulnerável sou eu porque tenho um processo na Justiça. Fico sendo sempre a mais atingida.
A senhora diz que a pressão vem de todo lado, mas na nota colocou que há divergências internas. Internamente, de onde está vindo esta pressão?
Divergência política não é necessariamente a pressão. Vejo no PSL um partido que ainda não se estruturou como um partido. Ele não acolhe, ainda é um partido muito novo, de muita gente sem história política. Não sabe o que é se comportar num partido. Nunca tive uma pessoa do partido para me defender publicamente. Você já viu alguma declaração do presidente do partido dizendo ‘a senadora Selma tem todo o nosso apoio’? Não. Eles estão, evidentemente, me ajudando, inclusive pagando meu advogado. Mas não é uma coisa que você sinta a acolhida, você sente solta.
O senador Flávio chegou a pedir à senhora que retirasse a assinatura?
Chegou.
Como foi esta conversa?
Não vou te contar detalhes.
Por quê?
Porque é melhor não. Mas pediu. Davi Alcolumbre pediu também. Tenho recebido alguns recados até mais, digamos, chatos, tipo ‘cuidado, você tem um processo, tira a assinatura’. Não vou tirar não. Prefiro perder o processo.
Esta relação entre seu processo e a retirada de assinatura foi feita pelo senador Flávio ou pelo presidente Davi?
Não. O que eles argumentam é que uma CPI vai trazer instabilidade para o Brasil porque vai mexer com as instituições, com a integridade delas etc. Não acredito nisso.
Quem fez esta condicionante então?
Pessoas do partido. É gente do partido que veio com esta conversa ‘olha, você tem que se aproximar do pessoal porque aí vão te ajudar’. Deste pessoal que está alvo de CPI.
Mas não o Flávio?
Não foi o Flávio.
O Flávio falou como colega da senhora ou como filho do presidente da República?
Não dá para dissociar. Ele estava um pouco chateado. Alguém disse para ele que nós tínhamos assinado uma CPI que iria prejudicar ele e ele falou comigo meio chateado, num tom meio estranho. Eu me recuso a ouvir grito, então, desliguei o telefone.
Ele chegou a gritar com a senhora?
A pessoa fala exaltada, né? E era uma coisa que não era verdade, portanto não dei atenção.
Qual o sentimento da senhora diante disso?
Não sei se compreendo muito bem por que razão ele teria feito isso, mas acho que, talvez, mais decepcionada. Ele é uma pessoa tão agradável, tão simpática.
Depois disso houve algum contato?
Nenhum contato.
A senhora acha que teve anuência do presidente?
Acho que não.
O que leva a senhora a crer que não?
Não tenho nenhum elemento para achar que sim.
Algum recado chegou depois que a senhora. deixou claro que não retiraria a assinatura?
Todo dia recebo um. Acho que o recado da Raquel Dodge foi o mais claro.
Qual a relação que a senhora estabelece?
Em tese a procuradora-geral não teria motivos para ajudar o presidente, já que ela foi preterida na escolha para a PGR. A não ser que este parecer já estivesse pronto bem antes, quando ainda havia alguma esperança e, depois, acabou indo por descuido de alguém. Já li também uma outra posição em que alguém diz que é vingança porque ela teria sido preterida, então ela resolveu perseguir os bolsonaristas.
O quanto da sua votação a senhora atribui ao fato de ter sido candidata pelo partido de Bolsonaro?
Uma boa parte. Só não atribuo tudo. Eu já tinha uma história, um serviço prestado para o estado. Eu era uma pessoa conhecida, as pessoas me chamavam de ‘Moro de saia’, me cumprimentavam, me abraçavam. Não era uma desconhecida que saiu do nada e se elegeu porque estava no partido do presidente. Ajudou? Ajudou, mas tenho meus méritos.
Que postura a senhora espera do presidente Bolsonaro diante destes últimos acontecimentos?
Vou continuar apoiando o governo naquilo que eu tiver convicção de que é bom para o país. Quero muito que tudo dê muito certo, que a história tenha um final feliz.
Num primeiro momento parece contraditório a senhora, que foi juíza, defender uma CPI para investigar o Judiciário.
A magistratura de primeiro e segundo grau quer CPI, quer impeachment porque cansou de passar vergonha alheia. Os juízes não aguentam mais ter esta mácula na profissão.
Atacar o Supremo não coloca a democracia em risco?
Não é atacar o Supremo. É investigar um ministro.
A senhora acredita que a democracia no país sofre algum risco hoje?
Não. Tenho certeza absoluta que não.
Mesmo com as declarações do vereador Carlos Bolsonaro agora e do deputado Eduardo Bolsonaro lá atrás?
Vereador, deputado, não é o presidente da República.
Mas é da família do presidente.
Nem tudo o que a tua família fala você acredita.
O próprio presidente mistura esta relação.
Com certeza. Mas não vejo que haja risco [à democracia].
A PGR diz que a campanha da senhora deixou de contabilizar R$ 1,232 milhão e omitiu 72,29% dos gastos. Isso aconteceu?
Na pré-campanha, fiz alguns trabalhos. Contratei pesquisa qualitativa e uma quantitativa e um trabalho de imagem. Era um ato de pré-campanha e eu precisava ver se eu tinha viabilidade. Foi em abril. Entrou como caixa dois porque eu não prestei contas, só que ninguém presta conta do que gastou fora da campanha.
A senhora teme ser cassada por não ter atendido ao pedido de um colega de partido?
Tenho confiança no TSE. Acho que este ranço da política de Mato Grosso não chega aqui e os ministros, principalmente esta composição que está aí agora, é muito reta.
O PSL está sendo investigado por candidaturas de laranjas. A senhora ouviu falar sobre isso durante a disputa?
Lá [em MT], se teve, foi quieto. É muito bonito você dizer ‘tem que ter cota para a mulher porque a mulher tem que participar da política’. Ela tem se ela quiser. Obrigar a ter cota é pedir para ter laranja. Até porque mulher não gosta de política. Não é uma tradição nossa ter mulheres na política. As pessoas dizem ‘não, política é uma coisa muito suja para mulher, deixa homem’. Quase apanhei das mulheres aqui do Senado por causa disso. Não acredito em cota para preto, para homossexual. As pessoas têm que ser tratadas iguais. Cota, ela que afasta em vez de integrar.
A senhora não concorda que é uma maneira de reparação a grupos que sempre foram preteridos?
A maneira de estabelecer uma reparação é tratando igual, é dando escola boa para preto, para pobre, para todo mundo. Quer ver uma coisa que acho que separa? Feminicídio. Toda mulher que morre é feminicídio. Não. Não pode ser. Por que tem ter um crime específico de feminicídio? É um homicídio como qualquer outro. Agora, matar mulher tem que ser diferente? Claro que a violência doméstica é grande. Mas por que não ataca a causa, então? Faz campanha educativa, pega esses machos e ‘para de ser machista’.
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RAIO-X
Selma Rosane Santos Arruda, 56, a Juíza Selma (PSL-MT), é juíza aposentada. Nascida em Camaquã (RS), ficou conhecida como “Moro de saia” e entrou na política partidária em 2018, quando disputou sua primeira eleição

Congresso articula ampliação de brechas para caixa 2 e redução de punições

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Charge do Duke (www.otempo.com.br)
Ranier Bragon e
Thaiza Pauluze
Folha
Já aprovado pela Câmara dos Deputados e em vias de ser votado de forma sumária pelo Senado, um projeto de lei que altera regras eleitorais e partidárias, amplia as brechas para caixa dois e reduz a possibilidade de punição por irregularidades. Ao mesmo tempo, a proposta amplia a possibilidade de uso de dinheiro público pelas legendas e esvazia os mecanismos de controle e transparência no uso dessas verbas.
O texto, que conta com apoio de várias legendas no Congresso, foi aprovado pelo Plenário da Câmara por 263 votos a 144 na última semana. O Senado tentou votá-lo a toque de caixa na quarta-feira, dia 11, mas a pressão de entidades da sociedade civil e de alguns parlamentares forçou o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), a adiar a análise para a próxima terça-feira, dia 17.
RETROCESSO – “Trata-se do maior retrocesso desde a redemocratização em termos de transparência e integridade dos partidos políticos”, afirma o cientista político Marcelo Issa, diretor-executivo do movimento Transparência Partidária. Ao lado de pelo menos outras 22 entidades — entre elas o Transparência Brasil e o Contas Abertas—, ele assina carta de repúdio à proposta que deve ser entregue a Alcolumbre no início da próxima semana.
“Entre outros graves retrocessos, a proposta compromete severamente a transparência das contas partidárias e a eficiência dos respectivos processos de fiscalização”, diz o texto. Entre as propostas constantes do PL 11.021 (que recebeu a numeração 5.029 no Senado) está a abertura para que cada partido apresente à Justiça Eleitoral uma prestação de contas em modelo próprio. A medida quebra a padronização do sistema adotado até agora, dificultando a fiscalização pública.
Os atuais 33 partidos políticos brasileiros são financiados atualmente, de forma majoritária, pelos cofres públicos. São dois fundos, o partidário, que é anual e destina cerca de R$ 1 bilhão às legendas, e o eleitoral, de dois em dois anos, que direcionou R$ 1,7 bilhão às campanhas em 2018 — o valor deve ser maior no ano que vem.
LISURA – Os valores são distribuídos proporcionalmente ao tamanho das siglas. Cabe a elas, por meio de prestação de contas partidária e eleitoral, comprovar a lisura do uso do dinheiro. Atualmente, elas devem apresentar até o mês de abril à Justiça Eleitoral, obrigatoriamente pelo sistema eletrônico  Sistema de Prestação de Contas Anual (SPCA) , suas contas do ano anterior.
O projeto tira a obrigatoriedade de uso do SPCA, estabelecendo que as legendas podem utilizar “qualquer sistema de contabilidade disponível no mercado”. “Cada partido pode usar um sistema diferente. É como se a gente pudesse adquirir diferentes sistemas para declarar o Imposto de Renda”, afirma Issa.
Ele disse ter falado com equipe da área técnica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) , que relatou ser praticamente inviável fazer a análise desse jeito. “Imagine a Receita Federal recebendo a declaração do Imposto de Renda cada uma de um jeito. Em termos de controle social, de transparência para a sociedade, compromete severamente”, completa ele, para quem a medida traz de volta “a caixa-preta” nas contas partidárias.
IMPUNIDADE – Além da questão da transparência, outras mudanças introduzidas pelo projeto tornam bastante improvável qualquer punição da Justiça pelo mau uso do dinheiro público pelas legendas. Pelo texto, o partido só poderá ser punido caso fique comprovado o dolo, ou seja, que ele agiu com consciência de que estava infringindo a lei. A regra vale, inclusive, para casos já em análise pelos tribunais e que não tenham tido, ainda, decisão definitiva.
Além disso, erros, omissões e outras falhas nas prestações de contas poderão ser corrigidas até o julgamento . O texto assinado pelas entidades diz que essa “previsão pode, na prática, revelar-se verdadeira autorização para lançamento de dados falsos sobre contas de campanha” nas ferramentas eletrônicas da Justiça Eleitoral para divulgação das contas dos candidatos.
Esses instrumentos, afirma, “se demonstraram fundamentais nas últimas eleições para detecção tempestiva” das candidaturas de laranjas —como as revelações feitas Folha de esquema de candidaturas femininas de fachada no PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro. Outro ponto criticado no projeto é o que permite o uso praticamente livre das verbas públicas para pagamento de escritórios de contabilidade e advogados para filiados, incluindo aqueles que respondam acusações de corrupção. Hoje a Justiça tem barrado esse tipo de gasto.
CAIXA 2 – Pelo projeto, o uso fica autorizado e seus valores não serão contabilizados para efeito dos limites de gastos pelos candidatos e de doações feitas pelas pessoas físicas. De acordo com especialistas, isso amplia a possibilidade de caixa dois —gasto de campanha feito sem conhecimento da Justiça— por meio da declaração de serviços fictícios de advocacia ou contabilidade.
A proposta também amplia consideravelmente a possibilidade de uso do fundo partidário. Além dos gastos advocatícios e com contabilidade, ficam permitidos pagamentos de multas eleitorais e compra de sedes partidárias e de passagens aéreas para não-filiados em casos de “congressos, reuniões, convenções e palestras”. A tentativa de votação do texto nesta quarta-feira expôs alguns pontos de vista contrários e favoráveis dos senadores.
O senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator do projeto, disse que alterações estavam sendo propostas para “aperfeiçoar e reforçar a segurança jurídica do processo” e que a ideia era fixar “regras claras e transparentes” para garantir “igualdade e oportunidade aos candidatos”. Ele não respondeu a muitos pontos específicos, afirmando apenas não ser verdade que haja a liberação irrestrita de uso do fundo partidário para compra de passagens aéreas.
“IMPERFEIÇÕES” – “O PT participou amplamente dessa discussão. É de pleno conhecimento de nossos senadores o teor desse projeto. Consideramos que ele pode ter pequenas imperfeições, mas ele é fundamental para a consolidação da democracia no nosso país e a garantia de regras eleitorais justas”, afirmou o líder da legenda, Humberto Costa (PE). A Folha tentou falar nesta quinta-feira, dia 12, com Weverton, além do relator na Câmara, Wilson Santiago (PTB-PB), mas não houve resposta.
Entre os críticos que se manifestaram na sessão do Senado, um dos mais enfáticos foi Alessandro Vieira (Cidadania-SE). “Esse projeto que se tenta aqui aprovar de afogadilho permite o pagamento de advogados para políticos acusados de corrupção, (…) afrouxa o combate à corrupção na medida em que tira as contas bancárias dos partidos do padrão de fiscalização do PEP, que é a Pessoa Politicamente Exposta”, afirmou. O projeto exclui os partidos do acompanhamento diferenciado dado pelo sistema financeiro às PEPs.
Caso seja aprovado pelo Senado sem alteração, o texto segue para sanção ou veto de Bolsonaro. Se sofrer mudanças, volta para votação na Câmara.
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MUDANÇAS PROPOSTAS PELO PROJETO
PRESTAÇÃO DE CONTAS – Torna facultativo o uso do sistema da Justiça Eleitoral, o que permitiria a cada partido usar um modelo diferente de prestação de contas, derrubando a padronização e dificultando em muito a fiscalização pública e por parte das autoridades
PUNIÇÃO –  Erros, omissões e atrasos serão perdoados caso sejam corrigidos até o julgamento da prestação de contas. A nova regra traz ainda uma anistia, já que beneficia prestações de contas atuais que tenham apresentado problemas e ainda não tenham tido sentença definitiva (trânsito em julgado). Além disso, só haverá punição caso seja provado que o partido agiu com dolo, ou seja, com pleno conhecimento de que estava cometendo uma infração.
CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO – Partidos poderão usar verba partidária para contratar consultoria contábil e advocatícia para “interesse direto e indireto do partido, bem como nos litígios que envolvam candidatos”. Isso abre brecha para uso praticamente irrestrito das verbas públicas, inclusive para defesa de políticos acusados de corrupção
CONTABILIDADE DE GASTOS – Doações recebidas pelos candidatos para gasto com advogado e contabilidade não entrarão na conta do teto de doação e gasto eleitoral. Isso abre espaço para caixa 2 travestido de serviço advocatício ou contábil
CONTEÚDO DA INTERNET – Hoje, partidos não podem gastar verba do fundo partidário impulsionando conteúdos na internet. Se o projeto for aprovado, isso passa a ser permitido
PARTICIPAÇÃO FEMININA – Partidos têm que destinar ao menos 5% do que recebem do fundo partidário para promoção de políticas de estímulo à participação feminina na política. O projeto prevê que as legendas possam criar instituto com personalidade jurídica própria para gerir essa verba, o que livra dirigentes de punição por eventual aplicação irregular

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