sábado, novembro 11, 2023

Gleisi Hoffmann sobe o tom e parte para o enfrentamento político em rede social




Gleisi Hoffmann é presidente nacional do PT e deputada federal pelo Paraná 

Nos últimos dias, a presidente do PT disparou críticas citando nominalmente Rodrigo Pacheco, Arthur Lira e Roberto Campos Neto

Por Lucyenne Landim 

Têm virado motivo de comentários no campo político a postura de enfrentamento assumida pela presidente nacional do PT e deputada federal Gleisi Hoffmann (PR). Nos últimos dias, ela tem usado o X (antigo Twitter) para enviar recados em tom considerado nada conciliador, inclusive inflamando situações no campo político e internacional que auxiliares do governo tentam manter a “paz”.

As mensagens em tom duro foram direcionadas até mesmo aos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), pessoas com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta manter uma relação amistosa para conseguir aprovar projetos de interesse do governo. Principalmente, nesse momento, para aumentar a arrecadação e cumprir a meta fiscal de déficit zero nas contas públicas em 2024.

Em 31 de outubro, ela atacou uma proposta que obriga o governo federal a pagar emendas parlamentares de comissão. “Se o Senado quer mesmo contribuir para o equilíbrio fiscal, como disse ontem o presidente Rodrigo Pacheco, o pior caminho é o projeto de lei que torna obrigatório o pagamento de emendas de comissões temáticas. Uma coisa é apresentar emendas, direito e dever do parlamentar. Que aliás já tem cota bem generosa para pagamento obrigatório”, escreveu.

“O papel de executar o Orçamento é do Executivo, de forma planejada, pensando no país.  O projeto que está na CAE do Senado visa abocanhar alguns bilhões da União para atender interesses individuais”, acrescentou.

A publicação gerou resposta imediata de Pacheco, que geralmente se mantém reservado ao receber provocações. “Não sou autor e nem relator do projeto referido pela deputada, que deve ser discutido na comissão própria. Lembro que na LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias] do ano passado ponderei aos colegas que não colocássemos a impositividade nas emendas de relator, no que fui atendido”, rebateu.

O mineiro acrescentou ter “compromisso com a responsabilidade fiscal e o equilíbrio das contas públicas, o que passa, inclusive, pela limitação do fundo eleitoral e o aperfeiçoamento das 'emendas Pix', criadas pela deputada”. A referência foi à modalidade de distribuição de recursos pelo Executivo sem critérios de transparência e com dificuldade na fiscalização por parte dos órgãos de controle.

Na última terça (7), o alvo foi Arthur Lira, que teve seu perfil marcado na publicação para não perder o recado. Ela subiu o tom depois que o chefe da Câmara falou em “subir o sarrafo” para limitar quem pode acionar o Supremo Tribunal Federal (STF). “Não se confunde centrão com Constituição”, afirmou ela, indicando o grupo político conhecido por intensas negociações políticas e que o PP faz parte.

“Presidente da Câmara @ArthurLira_ quando fala em "subir o sarrafo" das proposições de Ações Diretas de Inconstitucionalidade no STF contraria a legitimidade e a autonomia dos partidos que a Constituição garante. Se pensa que com isso está fortalecendo o Congresso, está totalmente equivocado, porque os partidos políticos, maiores ou menores, são a sustentação do Legislativo e da Democracia”, escreveu.

“Uma coisa é estabelecer cláusulas para o funcionamento legislativo dos partidos, seu acesso aos fundos públicos e tempo de propaganda. Outra, bem diferente, é retroagir no direito de livre organização e representação, inclusive o direito, importante, de provocar a ação do STF. Não se confunde centrão com Constituição”, completou. Publicamente, Lira não reagiu.

Roberto Campos Neto e Israel se tornaram temas constantes

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também tem sido mirado pela presidente do PT: “Cobrando meta fiscal do governo mas quer aumento para os servidores do BC?!”, escreveu em uma das várias críticas que faz a ele - o chefe da instituição bancária também tem sido criticado publicamente por Lula. 

Outro foco está em autoridades de Israel frente à guerra com o Hamas. “Ministro Israelense fala em lançar bomba atômica na Faixa de Gaza. Ele, que já comemorou nas redes sociais a destruição provocada pelos bombardeios, diz que não existem inocentes em Gaza. 10 mil civis assassinados, 4 mil crianças! Até quando o mundo vai assistir a esse massacre sem fazer nada?!”, escreveu em uma das diversas publicações sobre o assunto.

Ela também condenou reunião do embaixador de Israel, Daniel Zonshine, com o ex-presidente Jair Bolsonaro e parlamentares bolsonaristas, na quarta-feira (8), na Câmara dos Deputados. Zonshine chamou os congressistas para a exibição de um vídeo sobre o ataque do grupo extremista Hamas a Israel.

Segundo Gleisi, o embaixador "intrometeu-se indevidamente na política interna de nosso país, num ato público com o inelegível Jair Bolsonaro". "É totalmente condenável a manipulação que fazem de um conflito em que a atuação da diplomacia do Brasil, orientada pelo presidente Lula, atuou desde o início pela construção de uma solução pacífica, na ONU e junto aos países envolvidos no conflito, a começar por Israel", escreveu.

"A aliança espúria entre Bolsonaro e o embaixador de Israel é mais repugnante ainda porque envolve a segurança e a vida de cidadãos brasileiros mantidos sob cerco e ameaça no massacre militar na região da Faixa de Gaza", completou.

O Tempo

Municípios precisam entrar no século XXI




A transformação do sistema político brasileiro começa com um debate mais qualificado sobre o destino de nossas cidades

Por Fernando Abrucio* (foto)

As eleições municipais ganharam uma centralidade impressionante no sistema político brasileiro. Elas não só selecionam os governantes que vão gerir políticas públicas fundamentais para a garantia dos direitos dos cidadãos, como também são peças-chave para as estratégias eleitorais de políticos estaduais e federais, que imaginam ter um terreno mais sólido para suas ambições futuras caso tenham aliados fortes nos governos locais. A despeito dessa relevância, os últimos pleitos municipais têm sido marcados por um debate público que não enfrenta os principais desafios contemporâneos das cidades brasileiras.

A noção de que o município faz diferença na política e nas políticas públicas é muito recente no país. A história brasileira, desde a Independência, foi de sufocamento do poder local, dando mais poderes aos estados/províncias e/ou ao governo central/governo federal. A Constituição de 1988 alterou radicalmente essa rota, dando aos municípios o caráter de ente federativo, o que significou um repasse inédito de autonomia política, financeira e administrativa.

Junto com a autonomia vieram novas, amplas e desafiadoras responsabilidades. O fato é que o Brasil combinou uma forte expansão do Estado de Bem-Estar Social, antes muito restrito a poucos, com uma grande descentralização municipalista dos encargos. Não foi um processo fácil, uma vez que as municipalidades tinham poucas funções de garantia universal dos direitos dos cidadãos. A maior parcela das prefeituras funcionava tal qual a famosa Sucupira de “O Bem-Amado”, que fez sucesso na década de 1970 na TV Globo. Para quem não se recorda, a principal bandeira do prefeito Odorico Paraguaçu era tentar inaugurar um cemitério - e, ironicamente, ninguém morria na cidade. Tratava-se de uma excelente metáfora sobre o sentido dos governos municipais de então.

A maior parte dos municípios teve que se inventar como governos com políticas públicas amplas a partir da década de 1990. O balanço de mais 30 anos de municipalização de tarefas centrais do Estado de Bem-Estar Social brasileiro é duplo. Por um lado, ampliou-se o rol de serviços públicos, foram garantidos direitos que os cidadãos mais pobres nunca tinham experimentado na história, bem como os governos locais produziram inovações tanto no plano das políticas públicas - algumas delas depois disseminadas ao governo federal - como em termos de democratização do Estado. Por outro, no entanto, o saldo desse processo municipalista revela lacunas e insuficiências.

Na lista de problemas, destaca-se primeiramente que os resultados foram muito díspares entre as municipalidades. Ainda há muita heterogeneidade territorial no que se refere à capacidade de produzir políticas públicas com qualidade adequada. Na verdade, a maioria dos governos municipais tem carências significativas que os impede de avançar mais. Além dessa desigualdade federativa, após décadas com importantes inovações, o municipalismo parece ter perdido grande parte de seu ímpeto modernizador. Ao clientelismo tradicional somaram-se novas formas antirrepublicanas, como o poderio do crime organizado nas comunidades locais.

O enfraquecimento do federalismo cooperativo durante os governos Temer e Bolsonaro, ademais, reduziu a ajuda federal aos municípios mais frágeis e favoreceu uma lógica de mera sobrevivência individualista. A política local nos grandes centros também entrou, em boa parte, na mesma lógica polarizadora e dominada por temas secundários com ibope em redes sociais que cegam o debate público. Como corolário dessa nova fase de desafios ao municipalismo, surgiram novas questões no século XXI, ou alguns temas se tornaram mais complexos, o que, de todo modo, exigirá governos municipais muito mais preventivos, ágeis e capazes de construir amplas alianças para resolver tais problemas.

O fato é que os municípios precisam entrar no século XXI se quisermos garantir uma vida melhor à população brasileira. O governo federal não tem como resolver todos os problemas desse país enorme e heterogêneo, tampouco os estados. A melhoria da cidadania começa na transformação da vida citadina, com prefeituras melhores e a construção de elites políticas mais qualificadas - afinal, grande parte da classe política nacional advém e/ou depende das ligações com a esfera local.

Tomando como base as últimas eleições municipais e o debate feito pelos principais polos partidários até agora, avizinha-se um debate eleitoral pouco frutífero em prol da modernização da gestão municipal. Não obstante, há ainda tempo para tentar modificar os rumos dessa discussão e do embate político, em vez de ficar apenas na identificação dos políticos que merecem ganhar - ou nos que têm de perder, que tem sido nosso primeiro cálculo atualmente. Melhorar a qualidade argumentativa da competição eleitoral de 2024, ademais, pode ser uma forma de influenciar o que ocorrerá em 2026.

Podem ser destacadas aqui cinco questões inescapáveis para adequação do municipalismo aos desafios do século XXI. A primeira diz respeito à governança federativa. É fundamental melhorar a articulação intergovernamental no país, em prol de um novo federalismo cooperativo, incentivando mais as parcerias das prefeituras com os governos estaduais e federal, bem como a cooperação intermunicipal. Os municípios não resolverão muitos de seus problemas de forma autárquica e isolada.

Soluções regionalizadas, disseminação de boas práticas locais por todo o território nacional e apoio da União e dos governos estaduais para coordenar melhor a descentralização e reduzir as desigualdades territoriais são essenciais. Em poucas palavras, os governos locais são peça-chave na resolução dos problemas brasileiros, mas não são ilhas e não podem ser tratadas enquanto tais pelas instâncias federal e estadual.

Um segundo tema central para a modernização da agenda municipalista está no fortalecimento das relações dos governos municipais com a sociedade local. Houve um tempo no pós-1988 em que mecanismos de democratização, como conselhos e orçamentos participativos, expandiram-se bastante pelo país afora. Todavia, esse processo democratizador está em refluxo faz mais de uma década. Não que todos esses instrumentos fossem perfeitos. Só que agora tem havido um aumento da privatização do espaço público, seja pela via do crime organizado, seja por meio de muros que separam o andar de cima do andar de baixo da escala social. O apartheid territorial está aumentando nas cidades brasileiras, especialmente nas áreas metropolitanas.

A preparação dos governos municipais para os desafios do século XXI passa necessariamente pela ampliação das formas de consulta, participação e, sobretudo, de diálogo entre os desiguais. A sociedade pode aportar muito de seu conhecimento e capilaridade às políticas públicas locais. Além disso, os instrumentos de transparência, accountability e de decisão coletiva reduzem as chances de concentração de poder em poucos grupos, algo que aumenta a desigualdade, bem como a miopia para enfrentar problemas mais profundos e de longo prazo.

Um terceiro vetor modernizador dos municípios refere-se à melhoria das capacidades estatais locais. Os cidadãos querem e merecem serviços públicos de maior qualidade, porém tal processo não deriva da mera vontade política dos governantes. A profissionalização da burocracia, o uso de evidências sobre as políticas públicas e a adoção de instrumentos de planejamento e gestão são substitutos do clientelismo, do personalismo e da descontinuidade administrativa que, infelizmente, ainda são muito fortes no plano local.

Mais desafiador ainda é sair da lógica imediatista e meramente curativa, predominante em todo o país, e fortalecer o modo preventivo de governo, a quarta mola propulsora de transformação proposta aqui. Os problemas estruturais do século XXI, como a questão climática, a remodelação urbana da vida nos grandes centros e a adoção de políticas específicas a grupos etários ou vulneráveis, como nas áreas de primeira infância e dos idosos, são temáticas de longo prazo e que exigem ações antes que a emergência tome conta da agenda. Os municípios serão os mais afetados por essa nova agenda e ainda engatinham neste debate, embora os recentes eventos climáticos extremos realcem o alto custo de se atrasar neste processo.

A agenda modernizadora do municipalismo, por fim, passa pelo diagnóstico de que não há um único tipo de município no Brasil, de modo que haverá mais um cardápio de soluções do que uma receita de bolo. É preciso pensar nas singularidades dos municípios amazônicos, das localidades do semiárido, das grandes cidades - e estas últimas terão um conjunto ainda maior de desafios e necessidades de mudanças, mas seus governantes atuais, no geral, estão bem atrasados neste debate.

Mais do que nomes, precisamos de novas ideias e projetos para o debate eleitoral de 2024. Melhorar a governança municipal é fundamental para garantir o bem-estar dos cidadãos e, com isso, fazer com que acreditem que a democracia é a única forma de resolver os problemas coletivos. A transformação do sistema político brasileiro começa com um debate mais qualificado sobre o destino de nossas cidades. A questão é saber se um cenário dominado pela polarização norteada pelas redes sociais e por um Centrão vitaminado pelas emendas parlamentares permitirá esse salto rumo ao século XXI.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

Valor Econômico

Quanto custa botar um bloco na rua? Saiba qual investimento feito para desfilar no Carnaval de Salvador


Por Bianca Andrade

Carnaval de Salvador bloco na Barra-Ondina
Foto: Secis

“Eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, botar pra gemer. Eu quero é botar meu bloco na rua, gingar, pra dar e vender…” o verso de ‘Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua’, de Sérgio Sampaio, traduz o sentimento dos apaixonados pela folia e empresários do entretenimento a cada quarta-feira de Cinzas: a vontade de colocar o bloco para desfilar nos circuitos da folia. Afinal, é no final de um Carnaval que se é planejado a festa do ano seguinte.

 

Mas a brincadeira de fazer a fantasia se tornar eterna nos circuitos da folia, pelo menos em Salvador, custa caro aos bolsos dos empresários do ramo do entretenimento e pesa no bolso do folião, se o abadá não for comprado de forma planejada ou até mesmo se a camisa for daquelas mais caras.

 

A menos de cem dias da folia momesca, uma dúvida surge na cabeça de quem tem curiosidade sobre os bastidores de uma das maiores festas de rua do mundo: quanto custa botar um bloco na rua?

 

Já prepare o bolso, porque diferente do que Tim Maia canta em ‘Eu Só Quero Amar’, música que também se tornou hit na folia, para desfilar na festa precisa querer dinheiro além do amor, e a brincadeira passa da casa dos milhões. Ao Bahia Notícias, o empresário Joaquim Nery, sócio da Central do Carnaval e presidente do Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) falou sobre o investimento feito para desfilar na folia baiana.

 

 

“Existem blocos que podem ser colocados na rua a valores e custos bem reduzidos, obviamente terão uma banda de menor valor, um trio elétrico de menor qualidade, um abadá também de menor qualidade. Não é algo que dá para quantificar de forma fácil. Tem blocos de maior estrutura, que requer um investimento maior com trio elétrico, banda, são equipamentos de última geração, e tem também as questões das negociações individuais”, afirmou.

 

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Segundo o empresário, o investimento tem correlação com todos os gastos envolvidos para o desfile dos blocos, desde a corda que divide o folião da pipoca ao que é servido para o artista no camarim do trio elétrico. “Existe uma correlação direta entre um valor que se cobra por um abadá e o custo que se coloca na rua”, afirmou.

 


 

A opinião de Joaquim Nery complementa a fala do empresário Washington Paganelli, sócio do bloco As Muquiranas, e vice-presidente do Comcar. Ao site, Paganelli estimou os custos para um bloco de médio porte que irá desfilar em um dos 6 dias da festa.

 

“Depende o público que você quer atingir, ao que você se propõe, qual será a atração a se apresentar, o trio que você pretende alugar, qual equipe de segurança vai atender aquele determinado bloco, o serviço que você vai prestar e entregar. Um trio de primeira hoje custa mais de R$ 100 mil por dia, um carro de apoio vai de R$ 40 a R$ 50 mil. Você vai investir R$ 400 mil de segurança, vai investir mais de R$ 500 mil em publicidade, fora o abadá, as taxas, os impostos. Ai a pessoa vai por ‘Ah quero botar um bloquinho de quinta, bandinha de percussão’, você não vai gastar, menos de R$ 200 mil, seja lá qual for o tamanho. É muito complexo.”

 


Nery, que é um dos sócios do Bloco Camaleão, um dos mais tradicionais da festa, que desfila três dias no Carnaval sendo puxado por Bell Marques, afirmou o investimento no bloco passa da casa dos milhões, no entanto, optou por não detalhar o valor por questões contratuais. “É mais de um milhão, com certeza. Muito mais. Uma banda de grande porte para tocar no Carnaval por três dias tem cachês muito maiores do que isso”, pontua.

 

Segundo o empresário, atualmente o Camaleão tem 3,5 mil associados por dia de desfile. Em uma conta rápida, só com a arrecadação dos abadás, tendo em vista os valores de R$ 1.490 no domingo, R$ 1.390 na segunda e R$ 1.290 na terça, o bloco levanta R$ 14.595.000 dos associados.

 

No caso do bloco As Muquiranas, Paganelli aproximou o valor mínimo do investimento no bloco, R$ 3 milhões. A mesma conta feita com o Camaleão resultou em uma arrecadação de R$ 1.325.000 com a venda das fantasias, que até a publicação desta matéria estava custando R$530 em uma promoção da Black Friday. Segundo o empresário, ao todo são 2.5 mil associados.

 


“Para colocar As Muquiranas na rua o investimento mínimo é de R$ 3 milhões. O pessoal cobra novidades, qualidade, atrações, trio, eles querem tudo da melhor maneira possível. E no caso das Muquiranas, temos uma fantasia, então ela custa bem mais caro. Um abadá hoje custa por volta de R$10 a R$15, para fazer a fantasia das Muquiranas você gasta 10x, 20x mais que isso, porque tem meia, sunga, adereços, sacolas.”

 

Ambos os blocos estão com vendas abertas e confirmados para desfilar no Carnaval de Salvador em 2024. A sorte, no entanto, não é para todos. Nesta semana, os foliões foram pegos de surpresa com a informação de que o bloco Timbalada não será atração na folia no próximo ano. 

 

Joaquim Nery avalia o cenário como uma dinâmica “comum”, apesar de triste, na folia baiana. Para o empresário, o bloco Timbalada fará falta, porém, ele acredita que não seja uma mudança definitiva.

 

“Historicamente sempre teve essa dinâmica de saída e entrada de bloco muito grande, essa pulsação de artistas e blocos aumenta e diminui com certa frequência, e depende muito da contingência. Ano passado tivemos o retorno de Tomate com o Fissura, por exemplo, que já está confirmado para 2024. A Timbalada não sair é uma perda significativa para o Carnaval, em compensação, temos novos blocos surgindo também.”

 

 

empresário ainda cita a desistência de Gusttavo Lima, como um exemplo da constante mudança no consumo do público durante o Carnaval. “Respeito a força que o sertanejo tem, mas é algo que nunca funcionou no Carnaval de Salvador. Eu entendo Gusttavo Lima ter desistido de investir, foram poucos os que conseguiram se firmar aqui. Safadão uma vez fez um bloco bacana, mas é até difícil para quem é de fora entender essa dinâmica”.

 

Já Paganelli avalia o cenário para o próximo ano de festa promissor. “O Carnaval é como todo comércio. O bloco é uma empresa que você lança e espera o sucesso. Eu vejo um cenário favorável para os blocos. Olha o Grupo Eva que vai desfilar mais um dia de festa, Durval que voltou com dois dias de Me Abraça, o Coruja com Ivete que também vai desfilar mais um dia. Vejo um cenário favorável, tanto é que o número de blocos que pretendem sair esse ano aumentou”.

'Hamas planeja Holocausto moderno', diz sobrevivente nascido em campo nazista




George Legmann, sobrevivente do Holocausto

George Legmann nasceu no campo de concentração para o qual foi levado com a mãe e a avó materna; ele chegou ao Brasil em 1961 e classifica o massacre cometido pelo Hamas como 'inacreditável'

POR MP MAYARA PAIXÃO E BRUNO SANTOS

Após uma conversa, George Legmann anota em uma folha de papel sua idade, 79, sua data de nascimento, 8 de dezembro de 1944, e, voluntariamente, seu número de registro em Dachau, o primeiro campo de concentração nazista, no sul alemão: KZ86878.

É parte da identidade do sobrevivente do Holocausto que chegou com a mãe ao Brasil em 1961. Legmann, de ascendência romena, nasceu no campo de concentração para o qual foi levado com a mãe e a avó materna. O avô e um de seus tios morreram nas câmaras de gás.

Legmann conhece os detalhes de um dos mais graves episódios da história por meio dos relatos da família. Mas também tomou para si a tarefa de homenagear as vítimas por meio da memória. E, diante da guerra Israel-Hamas, afirma que isso é mais importante do que nunca.

"O que o Hamas tentou fazer é um Holocausto moderno", diz ele quando questionado sobre a comparação entre o período histórico dos anos 1930 e 1940 e os ataques terroristas do Hamas em comunidades do sul de Israel, em 7 de outubro, que deixaram cerca de 1400 mortos.

Legmann estava nos corredores do Memorial do Holocausto, no Bom Retiro, em São Paulo, na noite desta quinta-feira (9), quando o espaço organizou um evento no marco dos 85 anos da Noite dos Cristais, um dos maiores marcos da perseguição aos judeus na Europa.

"É inacreditável o que ocorreu em 7 de outubro depois de duas guerras mundiais, do Khmer Vermelho no Camboja, de Darfur, no Sudão, e do genocídio indígena no Brasil", diz ele, que é assessor do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso há mais de duas décadas.

"A humanidade não aprendeu nada."

A comparação entre o extermínio promovido pelos nazistas no século passado e os recentes ataques da facção terrorista permeou o evento.

"O que vemos no Hamas é a mesma coisa do Holocausto, com uma diferença principal: nazistas queriam esconder as atrocidades que faziam, o Hamas, não; está celebrando isso publicamente, brindando seus sequestros e queimas de bebês", afirma o cônsul-geral de Israel no Brasil, Rafael Erdreich.

"Parece que não aprendemos nada", diz o diplomata, há pouco mais de dois anos no Brasil, que teve a família da mãe assassinada em campos nazistas e o pai como sobrevivente do Holocausto. "O que ocorreu há 85 anos está acontecendo de novo. Há no mundo atrocidades que nem podemos imaginar, nós falhamos em educar as novas gerações."

Como Legmann, o cônsul-geral também menciona Darfur, região sudanesa palco de um conflito civil ininterrupto desde 2003 que já deixou mais de 300 mil civis mortos, em um dos piores conflitos registrados na África. Há acusações de que o crime de genocídio foi cometido na região pelo regime do ditador deposto Omar al-Bashir.

Para o escritor e cineasta Marcio Pitliuk, curador do Memorial do Holocausto que há mais de dez anos estuda o tema, os ataques do Hamas foram piores que o Holocausto.

"Nazistas assassinaram suas vítimas de preferência sem vê-las, ao colocá-las em uma câmara de gás para não ver suas expressões faciais. Os terroristas do Hamas assassinaram a sangue frio crianças, bebês e mulheres", diz ele à reportagem. "O Hamas agiu pior que os nazistas."

 Ponto fora da curva, Sarita Mucinic Sarue, coordenadora educacional do memorial, pede cautela. "O que o Hamas fez é um ataque terrorista de uma mentalidade que nós ainda não conseguimos entender. Mas comparar o incomparável é uma tentativa fracassada", afirma ela.

Sarue argumenta que o Holocausto foi um período histórico específico, "com uma didática construída por [Adolf] Hitler por anos". "No caso de 7 de outubro, podemos dizer que foi um genocídio praticado por um grupo terrorista, que agora Israel enfrenta o grande desafio de eliminar."

"Mas comparar banaliza o termo, transforma-o num slogan para ser usado por todos que queiram pegar carona em um momento histórico para deixar suas frases mais atraentes."

A Noite dos Cristais, marco do evento ocorrido na noite de quinta-feira, ocorreu em 1938, quando sinagogas e lojas pertencentes à comunidade judaica foram incendiadas e vandalizadas pelos nazistas.

Fruto do episódio, em 9 de novembro se celebra o Dia Internacional contra o Fascismo e o Antissemitismo. Neste ano, com gosto ainda mais amargo: as denúncias de antissemitismo no Brasil aumentaram dez vezes desde início da guerra, assim como em outras partes do mundo.

Folhapress / Estado de Minas

Entre o ódio e a vingança, o trauma do cerco e aniquilamento de Gaza




O conceito de guerra justa está em xeque em razão dos sofrimentos impostos aos civis, sobretudo idosos, mulheres e crianças, além de destruição de seus lares, hospitais e escolas

Por Luiz Carlos Azedo 

O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, publicado em 1929, é um romance quase autobiográfico, cujo protagonista é um americano que participa da Primeira Guerra Mundial como voluntário no exército italiano. É uma história de amor entre um soldado ferido na perna e uma enfermeira, que se conheceram no hospital. O relacionamento se consolidou e resultou num filho do casal, mas o soldado teve que voltar à guerra. Ao retornar, já estava exausto do conflito, como a maioria dos seus companheiros. O herói deserta. A guerra se estendia por tempo demais.

Esse tipo de situação fora comum no front da Primeira Guerra Mundial, entre soldados alemães e ingleses, que chegaram a se confraternizar no Natal e realizar animadas partidas de futebol. Com base no que ocorreu, o Estado-maior britânico desenvolveu o conceito de "sombra de futuro": os soldados procuram ganhar tempo, em ataques e retaliações quase que combinadas, à espera de que os políticos e os generais assinem um armistício. Isso acontecia entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, até 7 de outubro passado, quando a milícia palestina realizou um inédito ataque terrorista a Israel, que matou 1.400 pessoas, das quais 828 civis e 31 crianças. Mais de 240 pessoas foram feitas reféns.

A retaliação de Israel ao Hamas na Palestina é uma operação de cerco e aniquilamento na cidade de Gaza e seus arredores, com bombardeios implacáveis, às vezes, indiscriminados, que deslocaram mais de um milhão de palestinos do Norte para o Sul da região. Até o dia 6, segundo a BBC, somavam 25, 4 mil palestinos feridos e 10 mil mortos, sendo 2,55 mil mulheres, 596 idosos e 4,1 mil crianças. Estão desaparecidos 2,5 mil palestinos, sendo 1,3 mil crianças, provavelmente soterradas nos bombardeios. Na Cisjordânia, 114 palestinos já foram mortos em ações do Exército de Israel. Mais de 200 mil habitações foram destruídas, e há 1,5 milhão de desalojados, de uma população de 2,2 milhões da Faixa de Gaza.

A doutrina da guerra justa (Bellum iustum ou jus ad bellum) define em quais condições a guerra é uma ação moralmente aceitável. O conceito foi cunhado por Agostinho de Hipona (354-430), inspirado em Cícero, e também foi usado como justificativa para as Cruzadas. Além de Agostinho, Tomás de Aquino (1225-1274) e Hugo Grócio (1583-1645), em O direito da guerra e da paz, defenderam essa doutrina. A expressão guerra justa faz parte da cultura jurídico-política do Ocidente. Na Roma Antiga, Cícero ensinou que havia bellum iustum quando os romanos entravam em guerra contra uma nação estrangeira por eventuais danos sofridos ou temidos.

O trauma da guerra

As Forças de Defesa de Israel (FDI), fundadas em 1948, estão entre os exércitos mais experientes em batalhas no mundo, tendo participado de seis grandes guerras. Suas responsabilidades são defender a soberania e a integridade territorial do Estado de Israel, deter todos os inimigos e coibir todas as formas de terrorismo que ameacem a vida diária. Em tese, suas tarefas são a consolidação de acordos de paz, como os celebrados com o Egito e a Jordânia; garantir a segurança na Cisjordânia em coordenação com a Autoridade Palestina; liderar a guerra contra o terrorismo, dentro e além de suas fronteiras; e manter a capacidade de dissuasão de ataques.

A estratégia militar de Israel é defensiva, mas suas táticas são ofensivas. Como não possui profundidade territorial, precisa tomar a iniciativa e, rapidamente, levar a batalha para o território do inimigo. Embora em menor número do que os exércitos vizinhos, as FDI possuem vantagem qualitativa, graças aos recursos e ao apoio estratégico que recebe dos Estados Unidos, e os sistemas de armas avançadas de que dispõe, entre os quais a bomba atômica, um segredo de polichinelo.

O efetivo regular do exército de Israel é pequeno, porém muito operacional. Sua força reside na capacidade de mobilizar homens e mulheres reservistas bem treinados, em todas as regiões do país. Todo o seu poderio está sendo demonstrado nessa operação de cerco e aniquilamento do Hamas, que já destruiu praticamente todo o norte da Faixa de Gaza. O conceito de guerra justa está sendo posto em xeque em razão dos sofrimentos impostos aos palestinos, sobretudo idosos, mulheres e crianças, além de destruição de seus lares, hospitais e escolas. A ONU afirma que 88 funcionários da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) já foram mortos, com 18 trabalhadores da defesa civil. Até 5 de novembro, também morreram 46 jornalistas nos ataques de Israel.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou a ocupação da Faixa de Gaza pelo exército de Israel "por tempo indeterminado". Entre o ódio e a vingança, há uma guerra de narrativas sobre o que acontece em Gaza. Os refugiados palestinos têm seu lugar de fala, assim como os soldados de Israel, que agora caminham sobre escombros e entre milhares de cadáveres. Nos Estados Unidos, o chamado transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) atingiu 800 mil veteranos do Vietnã, 175.000 combatentes da Guerra do Golfo e outros 300 mil retornados do Iraque e do Afeganistão. O trauma da guerra, como na obra de Hemingway, sempre atinge os soldados.

Correio Braziliense

O risco Trump - Editorial




Ex-presidente dos EUA mostra vigor eleitoral que ameaça democracia e geopolítica

A possibilidade de Donald Trump voltar à Casa Branca no próximo ano é assustadoramente real. Pesquisa do New York Times e do Siena College mostrou que, se o pleito fosse hoje, o republicano venceria em 5 dos 6 "swing states" (estados-pêndulo) —os quais não têm preferência partidária consolidada e acabam decidindo a eleição no sistema americano .

Ressalve-se que sondagens feitas um ano antes da eleição devem ser vistas com cautela, já que estão contaminadas por eventos presentes que talvez não atuem com tanta intensidade mais à frente.

O forte apoio do presidente Joe Biden a Israel, por exemplo, lhe custou preciosos pontos em Michigan, estado com grande população de origem árabe. Mas, a menos que a guerra em Gaza escale para algo muito maior, esse fator pode não ser tão preponderante para o eleitorado em 2024.

O problema do democrata é que nem todos os elementos a pesar contra si são transitórios. Ele vem encontrando dificuldades para converter fatos positivos de sua gestão, notadamente na área econômica, em intenções de voto.

O etarismo parece contribuir para esse processo. Parte dos americanos se convenceu de que Biden, 80, está velho para o cargo e, por isso, não reconhece suas realizações.

Já Trump, somente três anos mais novo do que o adversário, é líder inconteste da ala mais radical dos republicanos. A probabilidade de que ele perca a indicação do partido para concorrer é quase nula, e o fato de responder a vários processos, inclusive por atentar contra a democracia, até agora não afastou seus eleitores.

Difícil afirmar, porém, que uma eventual condenação não abalará sua posição, principalmente entre os independentes, que têm papel relevante no resultado —nos EUA, a punição judicial por si só não inabilita o postulante a concorrer.

Seria má notícia para os EUA e para o mundo a volta de Trump, que conspirou duplamente contra a democracia, ao não reconhecer os resultados da eleição e insuflar apoiadores a invadir o Capitólio.

No cenário global, o momento é particularmente complexo, com uma escalada em conflitos bélicos que envolvem atores autocráticos, como Rússia e Irã, e a ascensão da China, uma nova potência econômica com apetites hegemônicos.

Se enfrentar tal contexto já é difícil em condições normais, fazê-lo com uma liderança irresponsável na Casa Branca é temerário.

Folha de São Paulo

GLO: teatro do improviso

 



A atuação de militares na GLO de portos e aeroportos tem chance nula de diminuir a criminalidade no país. 

Por Duda Teixeira e Gui Mendes 

Esta semana foi de intenso trabalho para as Forças Armadas brasileiras. Um blindado com dois soldados armados de fuzis foi estacionado ao lado de um guindaste para carregar navios. Outros se colocaram diante do Museu do Amanhã, obra do arquiteto Santiago Calatrava, cartão-postal do Rio de Janeiro. Fuzileiros monitoraram funcionários que passavam seus crachás em catracas de algum escritório. Um jipe foi içado ao convés de um navio da Marinha. Mergulhadores inspecionaram cascos de embarcações. No Porto de Santos, em São Paulo, cães farejaram os pneus enormes de um caminhão articulado. Cerca de 600 militares da Aeronáutica foram deslocados para caminhar entre os passageiros nos aeroportos de Guarulhos e do Galeão. O mais surpreendente, contudo, não foram essas cenas insólitas, e sim o propósito delas. No decreto que instituiu a operação de Garantia da Lei e da Ordem, GLO, falava-se em deslocar os militares para “espaços com grande atuação das organizações criminosas, com fortes repercussões em metrópoles brasileiras”.

O jogo de cena, é claro, em nada afetou a realidade das cidades que mais sofrem com o crime organizado. A operação não incluiu os onze estados com as maiores taxas de homicídios do país, os quais ficam todos nas regiões Norte e no Nordeste. Em vez disso, concentrou-se boa parte das manobras em um estado com bons indicadores de segurança, São Paulo. Outro paradoxo é que a GLO, um expediente pensado para intervir nos estados em crise quando seus meios de segurança estão esgotados, foi decretada para atuar em áreas de competência da União, como o combate ao tráfico de drogas e de armas, em instalações administradas por organismos federais. É uma intervenção federal em operações federais que ocorre em instalações federais. “É como se o governo em Brasília decretasse o esgotamento dos próprios meios para ele mesmo intervir”, diz o coronel Araújo Gomes, ex-comandante da Polícia Militar de Santa Catarina.

O argumento de que a GLO poderia afetar organizações criminosas ao impedir o tráfico de drogas ou de armas tampouco faz sentido, pois ignora o modo como operam esses grupos e a melhor maneira de combatê-los. Normalmente, uma apreensão de drogas em um porto brasileiro começa com informações fornecidas pelas polícias dos países de destino da carga. Como regra geral, o Brasil é usado como passagem de drogas produzidas em países como Colômbia, Bolívia e Peru. Assim, de posse de dados compartilhados por americanos e europeus, a Receita Federal inicia uma investigação e acompanha o percurso da mercadoria em território nacional. Enquanto isso, os auditores conferem quais são as empresas que estão na negociação e as guias de importação e exportação. Olham, por exemplo, se a carga discriminada está de acordo com o tipo da empresa e seus responsáveis. Quando finalmente ocorre a apreensão, os auditores sabem com bastante precisão onde pode estar a droga. A Polícia Federal, então, é acionada. “Com base na inteligência, os auditores escolhem um percentual muito baixo de contêineres para abrir. Dessa forma, evita-se atrapalhar o dinamismo do comércio exterior”, diz Kléber Cabral, vice-presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, Unafisco.

A presença das Forças Armadas em nada altera esses processos. Uma ação militar só é válida em áreas de comércio intenso na divisa entre países, como na Tríplice Fronteira. Ao ver um tanque e homens armados na margem brasileira, um contrabandista paraguaio pode desistir de levar um saco de cigarros em uma balsa para Foz do Iguaçu. Mas essa presença ostensiva não afeta o tráfico pesado, feito por grandes organizações. Nesse caso, o mais provável é que, durante o período em que a GLO estiver em vigor, até maio de 2024, elas optem por outros aeroportos, principalmente os do Nordeste, para evitar contratempos. “É como anunciar que haverá uma blitz em uma avenida para detectar pessoas que dirigem alcoolizadas. Todos que beberam vão procurar outro caminho”, diz Kléber Cabral, da Unafisco. E um detalhe que não pode faltar: é justamente no Nordeste onde estão as cidades mais violentas do Brasil.

Ao tentar justificar a utilidade da GLO e o papel das Forças Armadas, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, enrolou-se todo: “A Marinha já não está no mar? A Aeronáutica já não está nos aeroportos? O que vai haver a mais? Evidentemente que em regime normal, as operações são limitadas. Um exemplo: se a Marinha detecta dentro de um contêiner uma droga, um pacote, uma caixa, ela não pode tomar providência nenhuma. Ali, o que a Marinha encontrar, poderá fazer tudo. No aeroporto, a mesma coisa. Um cão farejador detectava que havia um problema qualquer dentro de uma bagagem, a Aeronáutica não poderia abrir a bagagem. Com a GLO, poderemos ajudar a Polícia Federal, porque essa é uma obrigação dela”. Ao ser questionado se as Forças Armadas poderiam abrir malas ou contêineres, o vice-almirante Renato Rangel Ferreira, comandante da GLO, afirmou a Crusoé: “Vamos abrir o contêiner, mas para isso a Receita Federal ou a Polícia Federal estarão do nosso lado. Queremos que seja assim. Não queremos roubar o protagonismo de ninguém, apenas apoiar entes que sofrem com limitação de pessoas ou de recursos materiais.”

Ainda que se admita que a GLO tenha algum resultado em conter o tráfico de drogas e de armas em portos e aeroportos, como pretende o governo federal, isso não teria implicações na criminalidade das metrópoles. Os delitos que hoje deixam a população desamparada e assustada estão ligados principalmente às disputas de território entre grupos armados. Essas organizações têm dinheiro de sobra para pagar mais caro por drogas e armas no período limitado de duração da GLO. Não faltam fornecedores nesses mercados. “Se entrarem menos fuzis pelo aeroporto do Galeão ou menos pistolas pelo porto de Santos, não haverá um impacto no Complexo da Maré. O mais provável é que os criminosos encontrem outras maneiras de obter suas armas”, diz o coronel Araújo Gomes, que também é secretário municipal de segurança de Florianópolis.

Bahia e Rio de Janeiro são os estados em pior situação justamente por causa dessas guerras entre bandos. O antropólogo e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar fluminense Paulo Storani diz que o estado do Rio de Janeiro vive um processo de “mexicanização” do crime. “São os grupos e facções criminosas que dominam o território e determinam o que acontece ou deixa de acontecer, à revelia do Estado“, diz Storani. Estudos apontam que as milícias dominam metade do território do estado e faturam com múltiplas fontes de renda, como construção em áreas de preservação ambiental, extorsão de comerciantes e venda de serviços como luz e televisão a cabo. Para elas, o tráfico de drogas não é a principal atividade.

Para conter a escalada atual de violência, o Estado precisaria retomar essas áreas com ações de longo prazo, localizando as figuras públicas que colaboram com o esquema criminoso, de policiais corruptos a políticos alinhados ao crime. “Tem que assumir a responsabilidade de investigar e cortar na própria carne“, diz Bruno Paes Manso, jornalista que pesquisa violência e que acaba de lançar o livro A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI (assista à entrevista abaixo).

A despeito da baixa efetividade, o teatro do improviso pode render ao menos uma boa oportunidade para os militares. “A GLO atende uma certa demanda e provoca uma distensão no momento em que alguns líderes militares estão sendo investigados pelos Atos de 8 de Janeiro”, diz Ricardo Moura, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará. Após ganhar protagonismo político no governo de Jair Bolsonaro, a caserna amargou um ano ruim, com desavenças com o governo Lula, esquemas de venda de joias e conspirações de seus comandados em um possível golpe de Estado. A GLO, portanto, pode ser uma maneira de limpar a imagem, sem acarretar novos percalços. “Para os militares, essa GLO representa uma boa oportunidade de marketing, sem os mesmos riscos das GLOs habituais, que ocorriam em comunidades do Rio“, diz Christoph Harig, professor do Colégio Real de Defesa da Dinamarca. “Nos portos e aeroportos, a probabilidade de encontros violentos com grupos armados é bem menor. Por isso, o risco de danos colaterais, que causam desgaste na imagem pública, se reduz.”

Até o fechamento desta edição de Crusoé, a GLO não havia feito nenhuma apreensão de drogas ou de armas. Mas isso é algo que deve ocorrer nos próximos meses, à medida que os militares aproveitarem melhor os trabalhos da Receita e da Polícia Federal. Na cabeça dos comandantes das Forças Armadas, o principal impacto do trabalho deles será visual. “O objetivo é ser visto. A gente quer que a população e as forças adversas, como os criminosos, nos vejam. Assim comunicamos segurança. A população vai se acostumar, e esperamos que o nível de violência baixe”, disse o vice-almirante Renato Rangel Ferreira, comandante da GLO. Hora de pegar a pipoca e desligar o telefone celular, porque o show já começou.

Revista Crusoé

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