Lula diz que o amor venceu, mas os ataques a opositores, à imprensa e ao mercado mostram um cenário bem diferente.
Por Claudio Dantas, Duda Teixeira e Caio Mattos
No dia 8 de novembro de 2019, Lula deixou a sede da Polícia Federal em Curitiba (PR) após 580 dias preso. Seu primeiro discurso foi dirigido à militância e à Lava Jato, em sinais invertidos de amor e ódio. “Todo santo dia, vocês eram o alimento da democracia que eu precisava para resistir à safadeza e à canalhice que um lado podre do estado brasileiro, da Justiça, do Ministério Público, da Polícia Federal, da Receita Federal, que trabalharam para criminalizar o PT, criminalizar o Lula”, disse, assim mesmo, referindo-se a si próprio em terceira pessoa. Nada surpreendente, considerando que o ex-presidente já se comparou a Nelson Mandela, a Jesus e até a uma ideia. “Eles não prenderam um homem, tentaram matar uma ideia. E uma ideia não se mata, uma ideia não desaparece”, emendou.
Desde então, voltar ao poder virou mais que um objetivo político, uma verdadeira profissão de fé, o caminho inevitável para reescrever a própria biografia, apagando da história aquelas partes incômodas. Aos mais íntimos, confidencia seu desejo de receber o Nobel da Paz – ele também se considerou injustiçado quando a Academia Sueca premiou em 2020 o Programa Mundial de Alimentos da ONU, em sua iniciativa de combate à fome no planeta. Para não falhar desta vez, Lula vestiu a fantasia de soldado da democracia e elegeu, sem qualquer dificuldade, Jair Bolsonaro como algoz. Em seus quatro anos de mandato, o ex-presidente contribuiu decisivamente para a reabilitação política de Lula, ao acabar com a Lava Jato, e ainda entregou de mão beijada a bandeira da democracia ao petista, atacando ministros do Supremo e o sistema eleitoral.
Após a derrota nas urnas, Bolsonaro demonstrou também ser um mau perdedor, incentivando indiretamente manifestações que desbordaram na invasão às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro. Agora, é acusado pelo senador Marcos Do Val de conspirar, com apoio de Daniel Silveira, para prender o ministro Alexandre de Moraes e tentar um golpe. O senador será ouvido no inquérito que investiga os Atos de 8 de janeiro, em que também será discutida a minuta sobre uma decretação de Estado de Defesa na sede do TSE. Lula não poderia ter sonhado com cenário tão favorável para realizar seu sonho e, de quebra, dobrar os inimigos – neste grupo, se incluem todos aqueles que não comungam com o ideário petista. Como bem alerta nosso colunista Augusto de Franco, “a esquerda acredita que é melhor, não apenas politicamente, mas também moralmente, transformando a política de uma questão de modo (modo de regulação de conflitos) em uma questão de lado (de quem está do lado certo, o único moralmente justificável por seus excelsos propósitos)”. “Isso justifica, de antemão, tudo o que fazemos ‘nós’, contra tudo o que fazem ‘eles’. Pertencer ao ‘nós’ é moralmente superior a pertencer ao ‘eles’. Porque é estar do ‘lado certo’ da história, não do ‘lado errado’, onde estão ‘eles’.”
Para o Lula que tomou posse no dia 1º de janeiro, estão do lado errado da história grande parte da imprensa que noticiou a Lava Jato, assim como os integrantes da própria operação, o mercado financeiro, a oposição política, os militares e até as tias do Zap antipetistas, que se indignam em ver um descondenado na Presidência da República. Na campanha, esse discurso já estava presente e passou a confundir muita gente que acreditava numa repetição do “Lulinha paz e amor” do primeiro mandato. Industriais, banqueiros e empresários em geral são os que parecem mais surpresos com a mudança de tom do petista, que não perde a oportunidade de atacar um mercado que “não tem coração, sensibilidade e humanismo”. Na reforma tributária que pretende enviar ao Congresso, entre as medidas previstas está a tributação dos mais ricos.
Lula paga, assim, a dívida com sua militância mais radical, aquela que lhe dava ‘bom dia, boa tarde e boa noite’ durante o período em que ficou detido. Foi nessa época em que aprofundou o relacionamento com Rosângela da Silva, a Janja, socióloga filiada ao PT, mas que poderia estar no PCO, considerando o engajamento ideológico. Sua influência sobre o presidente da República é determinante sobre o caminho da vingança escolhido por Lula. É o amor que se alimenta do ódio contra um “sistema” que só admitiu a ascensão do líder sindical em versão Nutella e tutelado por alguns de seus principais representantes empresariais; mas que expulsou sua sucessora ao primeiro sinal de radicalização.
“Vocês sabem que, depois de um momento auspicioso, quando governamos de 2003 a 2016, houve um golpe de Estado e derrubou a companheira Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita presidente da República no Brasil”, disse Lula, em Buenos Aires, na semana passada. A versão maquiada da história já virou discurso oficial e foi até inserida no jornalismo da EBC, hoje comandada pelo jornalista Hélio Doyle. “Se depender de mim, vai continuar falando que foi golpe. Gostem ou não gostem”, disse, dias atrás.
O impeachment de Dilma Rousseff é outro desses episódios biográficos – e bibliográficos – que Lula, em sua sede de vingança, tenta apagar ou reescrever, talvez por ter conspirado para que ocorresse, como já disse o pedetista Ciro Gomes. Fato é que a petista cometeu crime de responsabilidade previsto na Constituição, sendo submetida a um processo de impeachment que seguiu todo o trâmite legislativo e ainda contou com a supervisão do Supremo, o mesmo que reiterou as condenações de Lula e, anos depois, as anulou. O mesmo que afastou Eduardo Cunha, depois cassado e preso pela mesma Lava Jato. O problema da narrativa petista contra seus rivais é a absoluta falta de embasamento fático e persistente incoerência.
Projetos autoritários de poder prescindem da lógica e usam de todos os meios possíveis para atingir seu fim. Para justificar sua sanha vingadora, Lula aposta na “luta de classes, dos explorados contra os exploradores”. “Num sentido ampliado, dos oprimidos, dominados e discriminados, contra os opressores, dominadores e discriminadores”, sintetiza De Franco. Ele explica que o plano é destruir a estrutura e, consequentemente, a superestrutura que gera, na perspectiva dessa esquerda, as “desigualdades e discriminações”. No final do dia, o que se vê é extremismo romanceado, como na obra distópica e apocalíptica dos americanos Alan Moore e David Lloyd – que inspira a capa desta edição.
A imprensa é outro dos alvos da vingança de Lula, que acusa jornais e emissoras de TV de terem agido em conluio com a força-tarefa da Lava Jato para jogá-lo em cana. Com medo de retaliações, inclusive via o corte da verba publicitária oficial, alguns veículos adotaram a subserviência como padrão editorial, o que cobrará fatura muito mais cara em breve. O antigo plano petista de regulação da mídia foi atualizado sob premissas usadas por Alexandre de Moraes durante a campanha eleitoral para combater a desinformação. Minuta de Medida Provisória que o governo pretende enviar nos próximos dias ao Congresso prevê, sem decisão judicial, a retirada imediata de conteúdo online considerado “antidemocrático” e a responsabilização das plataformas, inclusive com pesadas multas. Em linha com essa articulação, a Secretaria de Comunicação da Presidência criou uma “coordenação-geral de liberdade de expressão e enfrentamento à desinformação”.
E a AGU, por sua vez, estruturou a Procuradoria de Defesa da Democracia, com poder para “representar a União, judicial e extrajudicialmente, em demandas e procedimentos para resposta e enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas”. “A primeira pergunta que faço: se não existe nenhum texto legal que define o que é desinformação, quem será o responsável por decidir o que é verdade e o que é mentira? Você Lula?”, questiona o deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP). Claro está o risco de uso político para calar jornalistas críticos ou qualquer voz que se levante contra o discurso oficial, o mesmo que vem sendo usado para reescrever a história em relação à Lava Jato e ao impeachment de Dilma. E também para criminalizar qualquer oposição, especialmente a democrática, com o epíteto de golpista ou fascista.
Outro alvo da vingança lulista é a caserna, acusada de sofrer um processo agudo de bolsonarização. Lula diz a interlocutores que foi traído pelos militares, mesmo após o bilionário programa de reaparelhamento executado na gestão petista, com a compra de caças, helicópteros, submarinos e blindados. As Forças Armadas também tiveram protagonismo na missão de paz da ONU no Haiti e na GLO do Rio de Janeiro. A interlocutores, o petista diz que nada disso foi levado em conta quando o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, tuitou contra um recurso da defesa de Lula que era julgado pelo Supremo em abril de 2018.
A participação de oficiais no alto escalão do governo Bolsonaro e a omissão diante dos acampamentos em frente aos quartéis selaram o destino da relação com o novo presidente, que afastou os militares de sua segurança pessoal, tem promovido uma limpa geral na área de inteligência e ainda demitiu o general Júlio César de Arruda, que havia assumido o comando do Exército interinamente em 30 de dezembro. A operação de desbolsonarização incluiu também a troca da direção da PF em 18 estados e da PRF em 26. Calcula-se que 1,2 mil servidores já tenham sido dispensados de cargos de chefia em toda a máquina pública federal pelo simples motivo de terem trabalhado para o governo anterior. “A principal forma que Lula vai ter para causar algum desconforto para esse pessoal, que são servidores públicos, é tirar qualquer tipo de cargo comissionado, como participação em conselho. Isso tem um impacto de 20% a 30% na remuneração do servidor”, explica Rodolfo Tamanaha, professor de Direito do Ibmec de Brasília.
Para um presidente que assumiu dizendo não carregar “nenhum ânimo de revanche”, o primeiro mês de governo parece simbólico. Para o cientista político Paulo Kramer, não deve haver dúvidas sobre a real intenção do petista. “Lula é um sujeito recalcado, odiento e muito ressentido, que acha que foi injustiçado e precisa se vingar.” Faz o L ou…
Revista Crusoé