Lula na ONU

Lula na ONU

Os dois candidatos com chances reais de vitória nas próximas eleições para Presidente da República – Lula da Silva e Flávio Bolsonaro – divergem em quase tudo, formando dois blocos opostos na visão de mundo e nos projetos políticos que definirão o futuro do Brasil. Na política externa, quem for eleito terá que decidir a posição do Brasil na disputa geopolítica mundial entre as duas grandes potências, Estados Unidos e China. E, enquanto Donald Trump estiver no poder, o futuro presidente do Brasil deverá lidar com as pretensões de domínio norte-americano sobre a América Latina que passa pelo chamado “Escudo das Américas”, o acordo regional que, a pretexto de enfrentar o crime organizado, subordina o subcontinente à hegemonia dos Estados Unidos.

Nas “Diretrizes do Plano de Governo”, Flávio Bolsonaro promete uma “diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia”, privilegiando os parceiros “sem escolher amigos por afinidade ideológica”. Mas as suas reiteradas declarações e sua postura política em favor dos Estados Unidos e subserviente do presidente Donald Trump apontam para um alinhamento total com Washinton. Tudo indica que, se for eleito, Flávio Bolsonaro levará o Brasil a se submeter ao projeto hegemônico de Donald Trump, com adesão ao “Escudo das Américas”. Não por acaso, o histriônico presidente dos Estados Unidos tenta interferir nas eleições presidenciais do Brasil em favor do seu aliado.

Ao contrário de Bolsonaro, nos primeiros anos do governo, o Presidente Lula levou o Brasil à direção oposta, com uma aliança estratégica com a China, reforçando o BRICS e hostilizando os Estados Unidos (em grande parte, deve-se destacar, que Lula reagia aos sistemáticos ataques de Donald Trump à soberania nacional). Até recentemente, a política externa de Lula ligava o Brasil à China e ao lado de governos autoritários supostamente de esquerda, como a Venezuela, de Nicolas Maduro, e aceitando, de forma ambígua, a invasão da Ucrânia pela Rússia, sua aliada no BRICS. No entanto, cada vez mais o presidente Lula vem reorientando a política externa na direção do multilateralismo que significa, em última instância, um distanciamento das duas grandes potências que dividem o poder global. No seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, Lula defendeu o multilateralismo e a soberania nacional e articulou com a União Europeia e vários outros países uma declaração a favor do multilateralismo. No seu “Programa de Governo” como candidato, o presidente defende o fortalecimento e uma reforma das instituições internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU e a OMC-Organização Mundial do Comércio, assim como a liderança do Brasil nas questões globais. Ao mesmo tempo, o “Programa de Governo” de Lula acena para o aprofundamento da “aproximação geopolítica com o BRICS e com o Sul Global” que estão na área de influência da China.

Entretanto, como o Brasil estará no centro do confronto entre a China e os Estados Unidos pela hegemonia na América Latina, será difícil para o futuro presidente manter equidistância e independência em relação aos dois polos de poder global. Tudo indica que, se eleito, Bolsonaro se entregará aos braços de Trump. E Lula pode tentar o equilíbrio, mas terminará reforçando a aliança com Beijing, principalmente enquanto persistirem as hostilidades do presidente dos Estados Unidos.