
Charge do Mariosan (O Popular)
Marcelo Copelli
Revista Fórum
Numa mesma quinzena de setembro, o Supremo Tribunal Federal disponibilizou 25,3 gigabytes de material — documentos, vídeos e áudios — reunidos em cerca de quatro mil arquivos relacionados ao caso Banco Master. Ao mesmo tempo, diferentes decisões sobre o sigilo de peças das investigações expuseram uma disputa paralela: a de quem decide o que se torna público, quando e em que condições. Nunes Marques, impedido, e Toffoli, que havia declarado suspeição, ficaram fora da sessão que discutiria a situação de um colega de Corte. Flávio Dino pediu vista e interrompeu a análise. A discussão, nesse ponto, permaneceu restrita a uma questão processual, sem que o mérito fosse analisado.
O episódio funciona como amostra de um padrão mais amplo na política brasileira de 2026. Não apenas o de um país dividido entre dois campos — isso já é conhecido —, mas o de um sistema em que eleição, investigação, tribunal, governo, Congresso e imprensa passaram a se cruzar cada vez mais no mesmo espaço de disputa. Territórios que deveriam permanecer funcionalmente distintos continuam se encontrando, mas agora com uma frequência capaz de alterar a própria percepção sobre o que pertence a cada um.
DISPUTA – Em poucas semanas, o caso passou por praticamente todas essas esferas. Um relatório da Polícia Federal, produzido a partir do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, passou a integrar a disputa sobre o alcance das investigações.
A Procuradoria-Geral da República questionou a validade de parte do procedimento, sustentando que houve avanço sobre matéria que dependeria de deliberação do plenário. O material veio a público em diferentes momentos, por decisões judiciais sucessivas, enquanto surgiam divergências dentro da própria Corte sobre a condução da apuração.
Quando o plenário se reuniu para analisar uma questão de ordem — que tratava da análise conjunta das Petições 16.662 e 16.704, da redistribuição da relatoria e de providências relativas a outros magistrados mencionados nas investigações —, a análise foi interrompida antes que se chegasse ao mérito.
MOVIMENTOS POLÍTICOS – Não é necessário retomar em detalhe os nomes mencionados nas mensagens ou os contratos que vieram à tona. Esses elementos já foram amplamente explorados pelo noticiário. Mais relevante é o padrão: decisões sobre sigilo, relatoria e rito, embora tenham natureza processual, passaram a ser interpretadas publicamente como movimentos políticos. O resultado é uma dificuldade crescente de distinguir, aos olhos do público, circunstância de suspeita, suspeita de prova e decisão jurídica de estratégia política.
A campanha presidencial entrou nesse mesmo terreno. Em maio, vieram a público mensagens nas quais o senador Flávio Bolsonaro cobrava de Vorcaro recursos para o financiamento de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. O valor negociado chegaria a R$ 134 milhões, dos quais, segundo reportagens baseadas nas mensagens, R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos. Flávio confirmou ter pedido recursos ao ex-banqueiro, mas negou ter recebido ou oferecido vantagens e afirmou que se tratava de uma operação privada relacionada ao filme.
Mais tarde, passou a associar publicamente o governo Lula às suspeitas que envolvem o Supremo, enquanto seu próprio nome permanecia citado nas apurações do episódio. Não há contradição automática nisso: candidatos exploram politicamente fatos que consideram relevantes para seus adversários. O ponto é outro. Uma investigação em curso passou a funcionar simultaneamente como munição de ataque, argumento de defesa e instrumento de mobilização eleitoral.
COMPORTAMENTO ELEITORAL – A evolução das pesquisas, nesse contexto, merece registro — não como prova de causalidade, mas como retrato de um comportamento eleitoral que não acompanha de forma linear a temperatura institucional. Na rodada da Quaest realizada entre 30 de agosto e 1º de setembro, Lula aparecia com 37% e Flávio Bolsonaro com 30% no primeiro turno; na simulação de segundo turno, Lula tinha 42% contra 41% de Flávio.
Na rodada seguinte, de 3 a 6 de setembro, os números eram 36% a 29% no primeiro turno. Na pesquisa divulgada em 21 de setembro, Flávio chegou a 33% contra 37% de Lula no primeiro turno e apareceu numericamente à frente no segundo, com 42% contra 41% — diferença dentro da margem de erro, portanto empate técnico. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 17 e 20 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
As rodadas coincidem com o período em que o episódio ganhou maior exposição pública, mas nada nessa evolução permite atribuir o movimento a um fator isolado; a campanha, nesse intervalo, também avançou por outras frentes.
POLARIZAÇÃO – O que os levantamentos permitem afirmar é mais limitado — e mais interessante — do que qualquer relação direta entre o episódio e a intenção de voto. Enquanto a exposição do caso aumentava, a polarização eleitoral permanecia estruturada: Lula e Flávio continuavam com parcelas expressivas do eleitorado. O desgaste de uma instituição, portanto, não se traduz automaticamente em transferência de voto para o adversário do campo associado a ela.
Essa distinção ajuda a entender o momento. Uma coisa é a avaliação que o cidadão faz do Supremo, do governo, do Congresso ou de determinado personagem. Outra é a decisão que toma diante de uma eleição já estruturada por identidades políticas, rejeições acumuladas e expectativas sobre o futuro. O eleitor pode considerar grave determinado episódio e, ainda assim, não mudar sua preferência. Pode desconfiar de uma instituição sem transferir essa desconfiança para o candidato que, naquele momento, parece representar o campo oposto.
O efeito político da desconfiança pode ser menos imediato do que a cobertura diária sugere. Em vez de deslocar rapidamente o voto, ela pode alterar a relação do cidadão com as instituições que organizam a democracia — e essa mudança é mais difícil de medir porque não aparece necessariamente numa intenção de voto.
AUTONOMIA – O Supremo enfrenta, nesse cenário, uma questão que ultrapassa o caso específico. Independência judicial não significa imunidade à crítica, assim como transparência não significa subordinação às pressões da opinião pública. Uma Corte constitucional precisa preservar sua autonomia justamente para decidir contra interesses políticos circunstanciais.
Mas quanto maior a autoridade institucional, maior também a importância de procedimentos previsíveis e compreensíveis diante de potenciais conflitos de interesse dentro da própria instituição — sem esse cuidado, o controle público corre o risco de perder parte de sua capacidade de funcionar como mecanismo de correção.
Impedimentos, suspeições, mudanças de relatoria, pedidos de vista e decisões sobre publicidade dos autos são instrumentos previstos no sistema jurídico; ministros impedidos ou suspeitos não são, por si sós, sinal de anomalia. O problema está na percepção pública que se forma quando vários desses instrumentos aparecem simultaneamente num episódio que já atravessou a política, o sistema financeiro e a eleição presidencial. Nessa situação, explicar o procedimento passa a ser quase tão importante quanto o próprio procedimento.
ARGUMENTO PERMANENTE – O Congresso enfrenta tensão semelhante, por caminho diferente. Fiscalizar é uma de suas funções essenciais; investigar relações entre dinheiro, empresas e agentes públicos faz parte do controle democrático. Mas a fronteira entre fiscalização e disputa eleitoral fica mais estreita quando uma apuração em andamento passa a ser usada como argumento permanente de campanha antes que as instituições responsáveis concluam o trabalho.
Nenhum desses movimentos exige a hipótese de um protagonista único ou de uma conspiração abrangente. É possível que atores diferentes estejam simplesmente exercendo suas prerrogativas, defendendo interesses ou explorando politicamente acontecimentos legítimos. O resultado agregado, ainda assim, pode produzir um efeito que ninguém isoladamente pretendia: a sobreposição dos espaços de poder.
Uma democracia não pressupõe que Executivo, Legislativo, Judiciário, imprensa e sociedade estejam de acordo. O essencial é que possam discordar dentro de regras que permitam identificar quem decide, quem fiscaliza, quem investiga e quem responde por cada ato. Quando essas funções se cruzam sem que seus limites sejam facilmente reconhecidos, cresce a chance de que toda decisão seja lida antes pela posição de quem a toma do que pelo conteúdo da própria decisão.
CRITÉRIOS APLICADOS – O Brasil chegará à eleição de outubro dentro desse ambiente. O resultado das urnas pode alterar o equilíbrio político, mas não resolve automaticamente a questão institucional. O próximo governo encontrará um Supremo diante da necessidade de tornar mais visíveis os critérios que aplica a seus próprios membros, um Congresso sujeito à tentação permanente de transformar investigações em capital político e um eleitorado capaz de manter suas preferências mesmo diante de desconfiança crescente nas instituições.
Depois de outubro, permanecerá uma questão que não se resolve nas urnas: como preservar fronteiras claras entre investigação, decisão judicial e disputa política quando os mesmos episódios passam a alimentar, simultaneamente, o debate institucional e a campanha eleitoral?
É nesse limite que a democracia precisa funcionar: com poderes independentes, procedimentos reconhecíveis e decisões capazes de ser compreendidas para além da disputa política do momento.