domingo, julho 12, 2026

O SANTO DE CASA QUE ABENÇOOU O SERTÃO: Manoel Apolônio, o Jeremoabense que Inventou a Cisterna de Placas e Ninguém Divulga


O SANTO DE CASA QUE ABENÇOOU O SERTÃO: Manoel Apolônio, o Jeremoabense que Inventou a Cisterna de Placas e Ninguém Divulga


Por José Montalvão


Há uma máxima dolorosa que se aplica com precisão cirúrgica à nossa terra: em Jeremoabo, santo de casa não faz milagre. Vivemos em uma comunidade que, infelizmente, padece de uma crônica miopia cultural e histórica. As figuras mais importantes da nossa biografia coletiva são solenemente ignoradas e esquecidas pelos próprios conterrâneos. Perde-se um tempo precioso em debates estéreis e sem nenhuma importância prática — como a infrutífera e juridicamente capenga tentativa de mudar a data da emancipação política do município —, enquanto os verdadeiros gigantes da nossa história permanecem nas sombras do anonimato local.

É preciso que pesquisadores de fora, pessoas que muitas vezes sequer sabem onde fica Jeremoabo no mapa, venham a público para resgatar os nossos heróis. Mas neste final de domingo, vamos quebrar esse ciclo de silêncio. Vamos falar daquele que é, sem sombra de dúvidas, o cidadão jeremoabense mais importante do Brasil, embora sua própria terra natal pareça ter esquecido o seu nome: Manoel Apolônio de Carvalho, o popular "Nel".

A Odisseia de um Retirante Analfabeto

A história de Nel tem o mesmo enredo de superação de tantos nordestinos, mas o desfecho do seu destino mudou a realidade de milhões de vidas no Semiárido brasileiro. Aos 17 anos, analfabeto, sem conseguir ler sequer uma placa de rua, ele juntou a coragem que lhe cabia e pegou um ônibus rumo a São Paulo.

Na capital paulista, a dureza da construção civil o acolheu como ajudante de pedreiro. Durante seis meses, o jovem jeremoabense trabalhou na montagem de piscinas utilizando placas pré-moldadas de cimento. Foi ali, manejando a massa e as estruturas rígidas para reter a água da elite paulistana, que o estalo da genialidade sertaneja aconteceu.

Nel olhou para aquela piscina cheia e, em um sopro de lucidez e empatia, sua mente viajou de volta para o sertão da Bahia. Pensou nas famílias de sua terra que dependiam exclusivamente da irregularidade da chuva para sobreviver; pensou na tragédia secular da água que caía do céu e escorria pelo chão batido, sumindo na terra seca sem deixar nada além de poeira e sede.

Da Piscina Paulista à Cisterna Sertaneja

Movido por essa inquietação, Nel decidiu voltar para Jeremoabo. Ele não trouxe riqueza material na mala, mas trazia uma ideia revolucionária. Com as próprias mãos, adaptou a tecnologia que aprendera no Sudeste: construiu um tanque arredondado, semi-enterrado, feito com placas de cimento, fechado com uma tampa e projetado especificamente para captar a água da chuva dos telhados e armazená-la de forma potável por meses a fio.

Como costuma acontecer com os pioneiros, os vizinhos e a comunidade local desconfiaram. Riram e duvidaram daquela engenhoca de cimento no meio do terreiro. Mas a natureza não falha. Quando a primeira chuva caiu, a água entrou e ficou. E, para o espanto dos céticos, a água continuou ali, limpa e disponível, muito depois de o céu voltar a esturricar e a seca apertar o passo.

Nel havia inventado a cisterna de placas, a tecnologia social mais barata, eficiente e transformadora da história do combate à seca no Nordeste. Uma invenção que mais tarde seria encampada por ONGs, pela Articulação do Semiárido (ASA) e por programas federais, espalhando milhões de unidades por todo o mapa do Brasil e salvando vidas do êxodo e da desidratação.

Conclusão: Menos Burocracia, Mais Memória

Enquanto setores políticos locais gastam energia tentando alterar decretos de 1831 ou assinando papéis que em nada melhoram a vida do homem do campo, o criador da maior ferramenta de convivência com o Semiárido segue sem um busto em praça pública, sem o devido destaque nos livros escolares da nossa rede municipal e sem o reconhecimento que merece de seu próprio povo.

Proteger a identidade de Jeremoabo não é brigar por datas em gabinetes; é honrar o legado de Manoel Apolônio de Carvalho. É lamentável constatar que o esquecimento que destrói o patrimônio físico da nossa terra — como o Casarão do Coronel João Sá, cujas ruínas testemunharam o descaso histórico — é o mesmo esquecimento que apaga a memória dos nossos grandes homens. O choro de Carmelita de Dudé diante do casarão que desaba é também o choro de uma história que não valoriza seus filhos legítimos.

Felizmente, a atual gestão de alta performance do prefeito Tista de Deda, pautada em resultados reais e no apoio irrestrito à agricultura familiar neste ano de 2026, mostra que o foco deve ser sempre a dignidade de quem vive na terra de Nel. Chega de discutir o acessório. É hora de valorizar o essencial. Viva Manoel Apolônio, o Nel de Jeremoabo, o homem que engarrafou a chuva e matou a sede do sertão!

José Montalvão

Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).

Blog de Dede Montalvão: Resgatando a verdadeira história e os heróis esquecidos de nossa terra, contra a politicagem barata e a favor da justiça cultural de Jeremoabo!