
Charge do JCaesar (Veja)
Por José Montalvao
Mais de um século se passou desde que Rui Barbosa escreveu essas palavras, mas elas parecem ter sido feitas para retratar o Brasil de hoje.
A cada eleição, assiste-se ao mesmo espetáculo. Os personagens mudam de roupa, os partidos trocam de cor, os jingles são renovados, mas o roteiro permanece exatamente igual.
Os políticos experientes conhecem profundamente o comportamento de parte do eleitorado. Sabem que muitos não votam analisando propostas, histórico administrativo ou compromisso com o interesse público. Votam movidos pela emoção, pelo fanatismo político, por favores pessoais ou pela velha ilusão de que "agora será diferente".
Os discursos são ensaiados. As promessas são cuidadosamente escolhidas. Os abraços são calculados. As visitas aos bairros mais pobres são programadas. As fotos nas redes sociais são produzidas. As lágrimas, muitas vezes, são de ocasião.
Tudo faz parte da campanha.
O político profissional sabe exatamente o que o eleitor despolitizado deseja ouvir.
Se a população reclama da saúde, promete hospitais.
Se reclama das estradas, promete asfalto.
Se reclama do desemprego, promete milhares de empregos.
Se reclama da educação, promete escolas modelo.
Promete tudo.
E, muitas vezes, entrega quase nada.
O mais curioso é que boa parte do eleitor aceita esse ciclo repetidamente.
Quando o candidato pertence ao seu grupo político, seus erros desaparecem como num passe de mágica.
Se responde a investigações, dizem que é perseguição.
Se administra mal, a culpa é da oposição.
Se deixa obras inacabadas, dizem que faltaram recursos.
Se aumenta gastos desnecessários, procuram justificativas.
Mas basta o adversário cometer um deslize para surgir uma avalanche de críticas.
A ética deixa de ser um princípio para se transformar numa conveniência eleitoral.
Criou-se uma perigosa cultura dos dois pesos e duas medidas.
Não importa o que foi feito.
Importa quem fez.
É exatamente esse comportamento que mantém vivos muitos políticos que jamais deveriam voltar à vida pública.
Os maus políticos não sobrevivem apenas pela própria habilidade.
Sobrevivem porque encontram terreno fértil numa sociedade que esquece rapidamente.
Esquece promessas.
Esquece escândalos.
Esquece desperdícios.
Esquece obras abandonadas.
Esquece o abandono da saúde.
Esquece a precariedade da educação.
Esquece a falta de respeito com o dinheiro público.
E quem esquece está condenado a repetir os mesmos erros.
O eleitor precisa compreender uma verdade incômoda: nenhum político é dono do dinheiro público. Nenhum prefeito, governador ou presidente faz favor quando constrói uma escola, recupera uma estrada ou melhora um hospital. Isso não é bondade. É obrigação constitucional.
Quando o cidadão aplaude como favor aquilo que foi pago com seus próprios impostos, ele entrega ao governante um mérito que nunca lhe pertenceu.
A democracia não precisa de torcidas organizadas.
Precisa de fiscais.
Político não deve ser tratado como ídolo.
Deve ser tratado como servidor público.
Servidor presta contas.
Servidor pode ser elogiado quando acerta.
E deve ser criticado quando erra.
Independentemente do partido.
Independentemente da amizade.
Independentemente da ideologia.
Enquanto houver eleitores que defendam políticos cegamente, como quem defende um clube de futebol, continuaremos produzindo governos fracos, administrações ineficientes e representantes preocupados apenas com a próxima eleição.
O maior patrimônio de um político não é seu partido.
É a falta de memória do eleitor.
Por isso, muitos já entram na campanha sabendo exatamente quais promessas repetir, quais emoções despertar e quais ilusões vender.
Conhecem o roteiro.
Conhecem o público.
E conhecem, infelizmente, a facilidade com que muitos esquecem o passado.
A mudança não depende apenas de novas leis.
Nem de novos partidos.
Nem de novos discursos.
Depende, sobretudo, de um novo eleitor.
Um eleitor que leia.
Que fiscalize.
Que questione.
Que cobre.
Que não aceite desculpas prontas.
Que não venda sua consciência.
Que não transforme corrupção em detalhe quando praticada pelo seu grupo político.
O Brasil não precisa apenas de melhores políticos.
Precisa, antes de tudo, de melhores eleitores.
Porque políticos não surgem do acaso.
Eles são escolhidos pela sociedade.
E enquanto a consciência do eleitor continuar adormecida, muitos dos que vivem da política continuarão acordados, decorando discursos, ensaiando promessas e agradecendo, silenciosamente, pela ingenuidade de quem ainda acredita que palavras valem mais do que atitudes.
Como ensinou Rui Barbosa, quando a sociedade passa a rir da honestidade e a tolerar a desonra, não é apenas a política que adoece.
É a própria democracia que começa a perder sua alma.
José Montalvão
Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).
Blog de Dede Montalvão: O bastião do pensamento crítico na região, combatendo a amnésia eleitoral com os fatos da história e o rigor do controle social!

Charge do Zé Dassilva (NSC Total)