sábado, julho 04, 2026

Histórias do cônsul sequestrado e do Papa Francisco, que tinha um amigo no Brasil

Publicado em 4 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Lembranças libertas - Quatro cinco um

Aloysio Gomide e Maria Aparecida, felizes de volta ao Rio

Carlos Newton

No dia de hoje, 4 de julho, há 55 anos (4.7.1971) a Igreja Bom Jesus do Calvário da Via Sacra, que fica na Rua Conde de Bonfim 50, Tijuca, bem perto do “Alzirão”, estava superlotada.  Na rua, uma multidão se aglomerava. Não, para ver os noivos que subiriam ao altar às 8 da noite para o casamento que seria celebrado pelo cônego Olympio de Melo, que foi prefeito do Distrito Federal, quando o Rio era a capital da República.

A multidão queria ver o cônsul Aloysio Gomide e sua esposa Maria Aparecida Gomide. Era a primeira vez que o cônsul aparecia em público depois de passar sete meses no cativeiro em Montevidéu, sequestrado pelos guerrilheiros tupamaros.

DEU NO JORNAL – Tudo isso aconteceu porque naquele domingo, 4 de julho de 1971, O Globo publicou na primeira. página a notícia que o casal Aloysio e  Aparecida Gomide seria padrinho de casamento do então repórter Jorge Béja, que foi o primeiro a doar dinheiro para arrecadar 1 milhão de dólares e entregar aos tupamaros como pagamento do resgate do diplomata.

Então, pelo seu gesto, o repórter da Rádio Nacional, Béja foi contemplado com a promessa de dona Aparecida: “quando o Aloysio for libertado, ele e eu  queremos ser padrinhos do seu casamento “. 

O dinheiro arrecadado foi levado de ônibus para o Uruguai, entregue aos tupamaros, que soltaram o cônsul foi libertado. De volta ao Rio, ele cumpriu a promessa feita pela esposa,

MULTIDÃO – Era muita gente, muita gente mesmo, pessoas do povo e repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Afinal, todos queriam ver, fotografar e ouvir o diplomata e sua esposa. A multidão era tanta que lembrou o que décadas depois veio a ser o “alzirão” das Copas do Mundo de Futebol.

Béja depois deixou a Rádio Nacional e, já formado em Direito e inscrito na OAB, foi ser diretor jurídico da Estrada de Ferro do Corcovado, cargo que ocupou por dois anos. Depois, começou a advogar com escritório próprio, sempre defendendo vítimas de danos.

Casou-se com uma grande historiadora, Clarinda Béja, que estudou com ele em Paris, na Sorbonne, e se tornou um dos maiores juristas brasileiros;

CASAL PERFEITO – Tenha uma admiração enorme por Jorge Béja e Clarinda, que formam um casal perfeito. Sou mais ligado a ele, com quem convivo desde os velhos tempos, quando o advogado era sempre convocado a dar entrevistas, devido à importância das causas que defendia.

É um profissional raro, que comparo a Sobral Pinto, vizinho de minha família em Laranjeiras, com quem também convivi muito e sou amigo de seu neto e das duas bisnetas. Dr. Sobral tinha muita coisa em comum com Béja, como o saber jurídico, a honra e a religiosidade. Além disso, os dois jamais cobraram um tostão para defender suas causas.

E há outro detalhe: em sua carreira singular, Béja se especializou em defender vítimas de negligência estatal ou privada e suas famílias, como os náufragos do Bateau Mouche, os adolescentes chacinados na Candelária, os soterrados no desabamento do Elevado Paulo de Frontin e no edifício Palace II, é um nunca-acabar de casos humanitários. Sempre me emociono quando escrevo sobre ele.

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P.S. –
Outro detalhe: Jorge Béja é um pianista clássico de primeira categoria. Numa certa noite, em Buenos Aires, ele estava se apresentando num evento, quando recebeu um bilhete, pedindo que tocasse “Clair de Lune”, de Debussy. Ele atendeu. Na recepção que se seguiu, o cardeal Jorge Bergoglio, autor do pedido, agradeceu a gentileza e ficaram amigos, passando a se corresponder, inclusive depois que Bergoglio se tornou o Papa Francisco, uma honra realmente extraordinária. (C.N.)