Publicado em 23 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Aliados de Eduardo atacam Michelle nas redes
Rafael Moraes Moura
O Globo
A guerra sem fim do clã Bolsonaro já produziu resultado. Em meio ao fogo cruzado no campo da direita, os críticos mais virulentos nas redes sociais da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ganharam um apelido dos integrantes do PL: “chihuahuas”.
É assim que têm sido chamados reservadamente Paulo Figueiredo, aliado próximo do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), os blogueiros Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio e o influenciador Kim Paim, que não economizam nos ataques à mulher de Jair Bolsonaro na esfera virtual.
“BARULHENTOS” – O apelido se deve às características dessa raça de cachorro, oriunda do México. Os chihuahuas são pequeninos e têm o corpo compacto, mas são agitados e latem muito.
“Eles são barulhentos, tiram você do sério, mas são pequenos em estatura e só servem para encher o saco”, compara um integrante do PL. “É uma tropa canina, um pelotão de chihuahuas.”
Desde que gravou um vídeo, no mês passado, em que acusa o pré-candidato do PL à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), de tê-la humilhado e apunhalado pelas costas, Michelle foi confrontada com o recrudescimento dos ataques contra ela e a senadora e ex-ministra dos Direitos Humanos Damares Alves (Republicanos-DF), uma de suas principais aliadas.
QUEIXAS – Nos bastidores, tanto ela quanto Damares têm se queixado do fogo amigo do bolsonarismo. Em discurso da tribuna do Senado Federal no último dia 13, a senadora atribuiu os ataques aos “aloprados de internet”.
“Parem de atacar os seus soldados. Não é desta forma que vocês vão mostrar para o Brasil que é muito bom ser conservador. Tem muita gente rejeitando nossa proposta, dizendo ‘É isso que é ser conservador? Atacar o seu próprio soldado, o próprio Exército?’”, afirmou a ex-ministra de Direitos Humanos de Jair Bolsonaro. “Quem está financiando tudo isso? A quem interessa essa fragilidade da direita? Será que tem dinheiro envolvido nesses ataques todos?”, questionou.
VOTO DE MULHER – Em um vídeo postado no dia seguinte à manifestação de Michelle, Figueiredo disse que Michelle e Damares são “feministas”, afirmou que “mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente as solteiras” e insinuou ter informações comprometedoras sobre a relação da ex-primeira-dama com o marido.
“Vocês não têm vontade de cortar um pouquinho os pulsos, só para ver o que acontece, toda vez que ela fala meu galego? Não soa fake? Principalmente se vocês soubessem as coisas que eu sei”, afirmou o braço-direito de Eduardo nos Estados Unidos.
O grupo de Figueiredo, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e de Kim Paim e outros perfis frequentemente compartilhados por aliados de Eduardo se referem à ex-primeira-dama pelo nome de solteira, Michelle Firmo, em uma tentativa de isolá-la do projeto de poder da família. A estratégia irritou a mulher de Jair Bolsonaro.
AUTOEXILIO NOS EUA – Eduardo, Figueiredo e Allan vivem no autoexílio nos EUA e Eustáquio está na Espanha, enquanto Paim mora na Austrália. No vídeo de 27 minutos que provocou uma hecatombe no meio bolsonarista, a ex-primeira-dama se referiu a eles como um “grupo do exterior”.
“O grupo coordenado por pessoas que estão no exterior continua atuando e me atacando todos os dias. Alguns deles até aparecem em fotos ao lado de Flávio, fazem publicações e vídeos retirando o sobrenome Bolsonaro do meu nome numa tentativa de me atingir. Não me atingem. Eu sei quem eu sou e sei quem é meu marido”, afirmou.
Desde a manifestação de Michelle, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e a própria Damares se colocaram como “bombeiros” da crise, mas até agora não conseguiram pacificar os ânimos na família.
PESQUISA – O impacto da guerra intestina no clã Bolsonaro foi medido pela mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada na última semana. Para 45% do universo total de entrevistados, Michelle acertou ao divulgar o vídeo em suas redes sociais, enquanto 38% avaliam que a ex-primeira-dama cometeu um erro. Mas a percepção do episódio variou substancialmente nos diferentes espectros políticos dos entrevistados, mostrando maior apoio a Michelle na esquerda do que na própria direita.
Entre os lulistas, 62% acham que Michelle acertou, enquanto 26% avaliam que ela errou ao divulgar o vídeo. No universo bolsonarista, a situação é diametralmente oposta: só 20% acham que ela acertou, enquanto 64% consideraram a postura da ex-primeira-dama um equívoco.
Já para os eleitores independentes, que podem selar o resultado das urnas e não são automaticamente alinhados nem à esquerda, nem à direita, há um racha: 39% afirmaram que Michelle acertou, enquanto 36% acham que foi um erro a publicação do vídeo.
EFEITOS – Há o temor, entre integrantes do PL de que a briga entre Michelle e Flávio produza efeitos mais nocivos à campanha de Flávio do que os desdobramentos das investigações do caso do Banco Master, que trouxeram à tona áudios do senador pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro supostamente para financiar o filme “Dark Horse”.
Isso porque o tiroteio nas redes sociais traz à tona questões como machismo e misoginia, além de escancarar as fissuras internas da família Bolsonaro, o que pode afugentar o eleitorado feminino, onde Flávio enfrenta mais rejeição que Lula.
TENSÃO – Nos últimos dias, o “grupo do exterior” mencionado por Michelle reduziu o fogo amigo bolsonarista e se concentrou em exaltar publicações de Flávio no contexto da campanha eleitoral e destacar a participação de Donald Trump na final da Copa do Mundo. Mas ninguém no PL acredita que os ânimos irão desescalar até o primeiro turno, em 4 de outubro.
A leitura de aliados mais pragmáticos de Flávio Bolsonaro é a de que o barulho dos “chihuahuas” pode até ganhar adesão no campo da direita, mas também corre o risco de afugentar o eleitor independente e indeciso, que está cansado da polarização – e torce o nariz para os “aloprados da internet”.